MANUSCRITOS VIII

O resgate

Como de costume, era madrugada quando entrei na pequena oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, na pequena cidade de ruas estreitas e sinuosas localizada no sopé da montanha. Os inusitados horários de funcionamento faziam do ateliê não apenas um porto seguro até que houvesse condução, no início da manhã, para eu seguir rumo ao mosteiro, mas serviam de plataforma de embarque para uma viagem a lugares até então desconhecidos dentro de mim. Fui recebido com um caloroso abraço. Estava frio e garoava lá fora. Sem demora, o sapateiro coou um bule de café e o colocou junto a duas canecas sobre o pesado balcão de madeira. Estávamos prontos para prosseguir com a nossa conversa sem fim. Sim, essa era uma sensação real. Embora os encontros tivessem sido muitos e os assuntos variados, as conversas se entrelaçavam como a trama de um mesmo tecido. O tecido da consciência.

Nesse exato momento, fomos surpreendidos com a chegada de Betina. A fisionomia evidenciava o transtorno da sua alma. A jovem, com cerca de trinta anos de idade, era filha de Renê, o livreiro da cidade, amigo desde sempre de Loureiro. Ela tinha tido mais um desentendimento com Carlo, seu marido. As brigas eram a tônica e uma constante naquele casamento conturbado. Apesar de nunca ter ocorrido qualquer agressão física, o tom áspero e alto da voz, assim como a indelicadeza das palavras proferidas, revelavam um evidente desrespeito moral. Ocasiões em que Carlo passava alguns dias na casa da mãe, em uma cidade próxima, para retornar aos braços da mulher da sua vida sob juras de amor eterno. A jovem acreditou que o matrimônio mudaria o temperamento irascível e impulsivo do marido. Um engano comum e vulgar. A intimidade tem o poder de revelar fantasmas e monstros guardados nas gavetas ocultas da consciência, quase nunca de os educar. Ela se confessou esgotada com aquela relação. Contudo, amava Carlo e sabia que ele também a amava. As suas promessas de amor, garantindo que aquele destempero não mais aconteceria, a impedia de o recusar de volta. De novo e quantas outras vezes fosse preciso. Eles não desistiam um do outro. Isso era a prova do inegável amor que unia o casal, segundo a jovem.

Elegante, como de hábito, Loureiro a acolheu com carinho. Depois de um abraço demorado, a acomodou sentada ao meu lado e lhe serviu uma caneca com café. Após narrar o ocorrido, Betina questionou a razão de o amor, um sentimento tão bom e nobre, ser causa de tanto sofrimento. De modo sereno, com a sua voz doce e rouca, o sapateiro a corrigiu: “Ao contrário das crenças populares e do que cantam os poetas, o amor nunca foi causa de nenhum sofrimento. A falta de compreensão sobre os significados do amor, assim como do seu alcance, isso sim, provoca muitas dores. O desconhecimento sobre o amor faz com que o confundamos com outros sentimentos de matizes mais pobres e rasas”. Bebeu um gole de café e pontuou: “Como ensinou um antigo alquimista, para viver o amor não basta amar. O amor exige aprendizado, como tudo mais na vida. O fato de amar e de se sentir amado, por si só, não livra ninguém das armadilhas de sentimentos com pouca ou nenhuma nobreza que nos fazem acreditar se tratar do amor, mas representam o avesso do amor. Há de se compreender as nuances, camadas, amplitudes e profundidades do amor, pois, do contrário, jamais conhecerá o poder libertador e pacificador oferecido por este maravilhoso sentimento”.

A jovem indagou se Loureiro insinuava não haver amor entre ela e o marido. O sapateiro meneou a cabeça e argumentou: “Eu não falei isso”, e fez uma pausa antes de concluir a frase: “Mas também não afirmei diferente disso. Cabe a cada um identificar o sentimento que expande ou estreita a sua capacidade de pensar, ser e viver. Sentimentos influenciam raciocínios, comportamentos e escolhas. Isso nos conduz por estradas ou faz despencar em abismos”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “Quando falo sobre a importância de compreender o sentimento, me refiro à necessidade de o nomear sem enganos ou preconceitos. Todo sentimento tem um nome. O tratar pelo nome correto é imprescindível para entender a melhor maneira de o usar em favor do próprio aprimoramento. Há sentimentos que, por serem bons e sutis, clamam por estímulos contínuos de florescimento, enquanto outros, por serem densos e deletérios, carecem de metamorfose. Em ambos, existem importantes aspectos evolutivos. Contudo, se não os reconhecer pelo nome correto, continuará a confundir um pelo outro. O mau uso do elixir faz surgir o veneno. Eis a origem das dores que atribuem, por mero erro de identificação, a hipotéticos amores”.

Bebeu mais um gole de café e concluiu: “Quaisquer sentimentos, por mais indesejáveis que sejam, jamais devem ser tratados como inimigos. Em verdade, são valiosos mensageiros, pois mostram um coração mal compreendido, carente de transformação. Um coração mal compreendido por si mesmo, pois cada um é responsável pelos próprios sentimentos. Atribuir ao mundo o desconforto pelo que sentimos demonstra imaturidade”.

A jovem perguntou como deveria lidar com os sentimentos amargos. Loureiro explicou: “Não os expulse, até porque ninguém tem este poder. Os sentimentos ecoam a essência de quem somos. Esse eco evidencia a existência de uma voz íntima e verdadeira, oriunda das entranhas do coração. Pode-se até esconder ou disfarçar os sentimentos por algum tempo, mas não há como retirar o eu de si mesmo”. Pousou a caneca sobre o balcão e prosseguiu: “Negar os sentimentos ácidos é ainda pior. Equivale autorizar um agente caótico a agir sem qualquer vigilância. Escolhas e comportamentos serão constrangidos e manipulados. Ninguém consegue se proteger daquilo que acredita não existir. Nada prejudica mais do que insistir nessa prática corrosiva. A tarefa consiste em aceitar e identificar o sentimento amargo como caminho sincero e seguro de autodescobrimento. Depois, acolher e o educar, como um bom pai faria com o filho imaturo e rebelde, no intuito de realizar uma transição eficaz e saudável da infância da alma à maturidade da vida. Todas as sombras trazem em si inequívocas sementes de luz”.

Betina pediu para o sapateiro explicar melhor. Loureiro sintetizou: “Se há dor não é amor”. A jovem alegou que, por conclusão óbvia, segundo essa teoria, ela não amava o marido. O sapateiro tornou a corrigi-la: “Eu não disse isso. Afirmo que o amor não está na raiz de nenhum sofrimento. Talvez haja amor entre vocês, talvez não. Porém, entenda qual o sentimento a faz sofrer e, ainda mais importante, se esse sentimento desconhecido é o motivo que os mantém juntos ou não”.

Betina se mostrou atônita. Nunca havia cogitado essa hipótese, ao menos, de maneira séria. Quis saber quais seriam as possibilidades. O sapateiro elencou as principais: “Dependências emocionais sinalizam a crença quanto à própria incapacidade de gerir a vida, de ser feliz e aceitar a plena responsabilidade por si mesmo. Acreditam que o outro tem o poder de impedir que se reparta em mil cacos um coração que, em verdade, sempre esteve despedaçado. Como não se considera capaz, ou não assume a responsabilidade nem está disposto ao esforço da própria reconstrução, desiste de administrar a si mesmo para viver à beira do guarda-chuva emocional de alguém. Trata-se de uma triste espécie de autoabandono. Para não admitir o pavor de lidar com as próprias fragilidades, diz que não se separa por amar demais o marido ou a esposa. Uma vã tentativa de enganar o espelho da verdade”. 

Franziu as sobrancelhas e escalou o tom de seriedade na voz: “Dependências financeiras falam do medo de enfrentar as adversidades da vida, da recusa em ir além de quem é e de onde está em si mesmo, de se tornar responsável pela própria sobrevivência ou, ainda mais grave, da negativa em abdicar de luxos e prazeres materiais proporcionados por outra pessoa. Sinalizam a afeição por ideias incapacitantes e gosto pelo comodismo, uma escolha absurda pela estagnação ao invés do movimento. Recusar a aventura da vida, com todos os seus inerentes desafios evolutivos, demonstra um olhar de curto alcance em uma visão vazia de virtudes. Sem importar o tipo nem o nível de dependência, qualquer uma delas revela a aceitação do medo como carcereiro. Mostra a decisão consciente pelo cativeiro dourado em detrimento da liberdade de todas as cores. Cada um vive onde decide ficar ou ir em si mesmo. Não cabe reclamação”.

Bateu com o dedo indicador no balcão de madeira, como maneira de ressaltar as próximas palavras, e ponderou: “Embora haja várias possibilidades de sentimentos enganadores que se fazem passar pelo amor, alguns dos mais comuns são o orgulho e a vaidade. Não raro, queremos insanamente ficar ao lado de pessoas que não conseguimos dominar ou que não nos desejam. Na primeira hipótese, existe um desvio de finalidade. Ao invés de admirar quem possui autenticidade e vontade própria, há quem inicie uma delirante batalha para subjugar essa pessoa aos seus caprichos, no inconsciente e selvagem desejo de controlar o desejo alheio e, assim, lhe demolir a autonomia. Querem que o outro se molde ao seu gosto e capricho. Comportam-se como se estivessem em uma arena. Sentem-se vitoriosos ao destruir as resistências de independência, autenticidade e identidade do suposto inimigo, como se o relacionamento afetivo não fosse um agradável encontro de aprendizados mútuos, mas uma guerra na qual haverá vencedor e vencido. O orgulho os faz ignorar que a única conquista de valor consiste em derrotar as más inclinações e iluminar as próprias sombras. Encantar-se por ser senhor de si sem desejar ser dono de mais ninguém são fundamentos essenciais ao amor”.

Fez um gesto com a mão, como se fosse falar o óbvio, e observou: “Daí, não é difícil concluir que o ciúme é o filho dileto do orgulho. O ciúme nasce do medo de ser substituído por outro alguém no coração de quem se quer ao lado. Um sentimento de posse e domínio, contrário à liberdade. Esse sentimento faz nascer o comportamento controlador sob os falsos argumentos pedagógicos. Ninguém muda para se moldar ao gosto de ninguém. Nem deve cometer tamanho desatino. Mudamos quando entendemos que algo em nós é danoso e, por isto, necessita de transformação. Nunca fará diferente disto. O sofrimento surge na teimosia de viver ao lado de quem não nos tem afeto de qualidade ou não se alinha ao nosso jeito de olhar o mundo e viver os dias. No cais da vida sempre há um saveiro disponível para quem está disposto a navegar. Quando for o caso, basta partir sem levar nenhum rancor a bordo. Um gesto nobre de respeito e autoestima”.

Bebeu mais um gole de café antes de comentar outro engano corriqueiro: “No mesmo diapasão, deixando o amor em plano secundário, há quem se dedique à luta insensata de viver ao lado de alguém muito admirado, seja pela beleza física, seja em razão de algum destaque social. Assim, se acreditam maiores do que são, na ilusão de que conviver ao lado de uma pessoa desejada por muitos os faz especiais. Sentem-se os escolhidos. Quem lhe sopra essa insanidade ao ouvido é a própria vaidade. O sofrimento será inevitável e o amor nada tem a ver com isso”.

Betina segurou a caneca com as duas mãos. Com os olhos cerrados, bebeu o café absorta em reflexões. Para a deixar à vontade com os próprios pensamentos, Loureiro me levou para a frente da oficina sob o pretexto de mostrar um novo modelo de mochila que havia confeccionado. Feita em couro macio, com os mais diversos compartimentos para guardar todas as coisas necessárias ao dia a dia, se assemelhava a uma obra de arte adaptada ao uso e à utilidade. Com um designer inovador, possuía extrema beleza e funcionalidade. Comentei que havia uma seção para esse tipo de objeto no Museu de Arte Moderna, o MoMa, em Nova Iorque. Como uso mochila para trabalhar, eu a quis para mim. Fizemos um bom negócio. Foi quando a jovem nos chamou de volta. Ela queria conversar um pouco mais com Loureiro.

Betina confessou que a sua casa se assemelhava a um campo de batalha. As reclamações ocuparam o lugar dos diálogos. Um lugar de desencontros crescentes e de encontros cada vez mais raros. Só agora se dava conta disto. Havia uma preocupação maior em apontar defeitos do que em sugerir soluções. Carlo não era do jeito que ela queria, tampouco a jovem se comportava como o marido desejava. No entanto, ninguém desistia de moldar o outro ao seu desejo. Não se importavam com a singularidade e a autenticidade de quem caminhava ao lado. Pensavam apenas em seus interesses e gostos imediatos. Não havia uma construção compartilhada, comportamento comum às relações saudáveis, porém, um interrupto processo de destruição mútua. Uma guerra sem fim, admitiu a jovem. “E sem vencedores”, pontuou o sapateiro. Por isso brigamos, separamos e reatamos, como hospedeiros nocivos e simbióticos, um do outro, aprisionados a um círculo vicioso do qual não conseguimos nos libertar, concluiu Betina.

A jovem indagou a Loureiro se, diante desse cenário, era possível existir amor no seu casamento. O sapateiro deu de ombros e foi sincero: “Não sei. De certo, no momento, o orgulho se mostra como o amálgama da relação. Se existe amor, está soterrado debaixo dos escombros do tempo e da insensatez. Será preciso o resgatar o quanto antes”.

Ela quis saber de que maneira reconheceria a presença do amor. Loureiro se silenciou por alguns instantes, como se fosse retirar dos seus registros mais íntimos algo valioso e delicado. Quando falou, o fez com os olhos fechados, como se precisasse estar diante do próprio coração: “O amor quer o melhor da outra pessoa, mas se recusa a decidir por ela; é gentil e firme a um só tempo; não se cansa de ajudar, mas jamais acoberta erros e teimosias. Tem paciência, perdoa e compartilha; possui um estoque infinito de abraços, sorrisos e carinhos. Conversa sem discutir, orienta sem impor; ajuda sem aprisionar. Fica feliz por sentir saudade. Sabe que para estar junto, ninguém precisa ser igual a ninguém, contudo, se faz indispensável alegrar-se com as singularidades e aprender com as diferenças. Colabora na construção do outro enquanto ergue a si mesmo. Contenta-se com o muito que existe no pouco; entende o que não foi dito, sabe ouvir o não ou o sim contidos no sim e no não; compreende o que as palavras calam, mas as atitudes mostram. Encontra-se na luz dos olhos de quem ama. Caminha lado a lado no perigo das noites escuras e convida para dançar na alegria de cada manhã”. Com os olhos marejados, finalizou: “O amor é isso e muito mais”.

Betina esvaziou a caneca e a colocou sobre o balcão. Em seguida, comentou que chamaria Carlo para uma conversa honesta. Entendia o sentimento que mantinha o casamento. Não era amor. Por isto ambos estavam infelizes. Restava saber se havia amor. Nem toda relação se inicia amalgamada pelo amor. No entanto, algumas, pelo comportamento e compreensão dos envolvidos, faz com que o amor germine. Boas e sinceras atitudes criam o terreno adequado para que esse maravilhoso sentimento floresça. Muitos relacionamentos insistem em se manter através de vínculos pesados, razão de se mostrarem insustentáveis sob o prisma da virtude e da verdade. Ela precisava compreender onde estava em si mesma. Havia a possibilidade de resgatar o amor soterrado, caso este sentimento existisse, ou partir em busca do amor-próprio esquecido e, por consequência, do amor desconhecido. Em qualquer das situações, seria ato de resgate por si mesma. Todo o processo de cura da alma, não apenas encerra com a dor, mas concede ingresso no trem da liberdade rumo à cidade da paz. Doce ou amargo, todo sentimento é um lugar que existe dentro da gente. Cabe a cada um escolher onde vai morar.

A claridade da manhã já se evidenciava. A jovem agradeceu a conversa, deu um beijo na bochecha de Loureiro e foi embora. A mulher que saiu era bem diferente daquela que entrara na oficina naquela madrugada. A fisionomia havia mudado, existia um brilho de esperança nos olhos; seus pés não se arrastavam, mas tocavam o chão com leveza. Comentei isso com Loureiro. O sapateiro explicou: “A eficácia das soluções passa pela compreensão universo adentro para reverberar mundo afora. O fim do sofrimento exige esta viagem de descobertas e conquistas intrínsecas. Tudo mais é maquiagem, engano ou adiamento”.

Questionei sobre o que aconteceria no casamento de Betina. Loureiro tornou a dar de ombros e comentou: “Não faço a menor ideia”. Em seguida, acrescentou: “Seja partir ou ficar, desde que ela faça as pazes com os próprios sentimentos, iniciará um sério romance com a felicidade”. Eu precisava ir, do contrário, perderia a carona até o mosteiro. Prometi voltar. O sapateiro sorriu como para dizer que me aguardaria. Ainda havia muito tecido à espera da trama.

Yoskhaz

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