MANUSCRITOS VIII

Inusitadas sementes

Cheguei em Sedona na manhã de um sábado. Como de costume neste dia da semana, Canção Estrelada estava sentado debaixo de um frondoso carvalho que havia no quintal da sua casa. Na grama ao redor, várias pessoas se acomodavam sobre mantas coloridas. Tinham vindo de todos os cantos para ouvir as histórias e as músicas que falavam sobre a sabedoria ancestral dos povos originais do Arizona. Era um cerimonial sagrado propício ao autodescobrimento, degrau fundamental ao movimento seguinte, capaz de transformar a realidade através do refinamento da percepção e da sensibilidade, atributos da consciência, quando aliados a uma ação coerente e eficaz. Para mudar a vida não se deve esperar pelas mudanças do mundo. A realidade se expande ou se contrai no limite extremo da verdade alcançada. Para alguns, a realidade se assemelha a uma muralha intransponível; todavia, quem a observa por insólitos vieses, encontrará estradas inimagináveis. Transpomos a realidade ou nela ficamos retidos na exata medida das virtudes agregadas e aplicadas ao estilo de vida. Ninguém consegue se deslocar por caminhos que não enxerga, não sabe como atravessar ou acredita não existir.

Eu havia passado por algumas situações complicadas, sofrido alguns reveses. Aos poucos, tudo voltara ao normal. Salvo uma inexplicável sensação de vazio interior. Não fazia ideia de como tinha se instalado, nem o que fazer para o preencher ou o desmanchar. De pé, próximo ao portão, pude ouvir as palavras de encerramento proferidas pelo xamã: “Nunca seremos autênticos enquanto distantes da coragem”. Como uma daquelas verdades que seduz ou toma de assalto sem que consigamos oferecer resistência, a frase me impactou sobremaneira. Havia nela algo que indicava uma lição disponível à espera de aprendizado, sem que, naquele momento, eu a conseguisse decodificar para extrair o conteúdo instrumental e transformador. Restou a sensação agradável de uma janela que se abre por um átimo de segundo, mostrando algo até então nunca visto, para em seguida se fechar. Havia um universo de possibilidades desconhecidas do outro lado da janela que se abria para dentro, não para fora de mim.

Assim se iniciam algumas das mudanças genuinamente radicais em nossas vidas. Etimologicamente, o termo radical tem origem na palavra raiz. Mudanças que não se estruturam na essência do indivíduo, ainda que pesem as boas e sinceras intenções, são incapazes de se sustentar diante de provas existenciais mais rigorosas, terminando por desabar na tempestade de um dia qualquer. Compreender as intempéries emocionais, assim como aprender a lidar com as dificuldades inerentes à vida, sempre foi fundamental àqueles que buscam a genuína paz. Eu me recordava de uma lição oferecida por Canção Estrelada tempos atrás: “A paz não é a ausência do caos. Ela se caracteriza pela calma e pelo pleno controle sobre si mesmo durante o caos. Nem a imensidão nem a fúria do oceano são capazes de levar a pique um pequeno barco, desde que bem construído e conduzido com mestria”.

Esperei na varanda até que todos fossem embora. No portão, o xamã se despedia das pessoas, agradecendo por participarem com o coração repleto de bons sentimentos. A emanação das vibrações sutis era encantadora. Os lindos sorrisos espelhavam essa realidade. Ao terminar, ele veio ao meu encontro. Comentei que aquelas pessoas pareciam felizes e em paz. Canção Estrelada ponderou: “Alguns lugares possuem uma ambiência natural de paz. Alguns indivíduos conseguem transmitir esse sentimento por já o terem conquistado em seu âmago. Conviver em lugares ou com pessoas que refletem tal plenitude, permite essa maravilhosa sensação de poder, como um pássaro que aprendeu a voar para além do alcance dos estilingues. No entanto, cada um tem a sua história, dons e caminho. Relações de dependência são insalubres. Em algum momento teremos ou seremos obrigados a nos afastar dessas pessoas. Então, a paz desaparecerá como água que se tenta reter na peneira. A vida exige independência e autonomia no concernente à esfera íntima, para que as escolhas sejam livres e sirvam ao desenvolvimento pessoal. Não há como viver eternamente em uma paz emprestada ou de aluguel. Para viver a paz, independentemente do que aconteça, de onde ou ao lado de quem estiver, se faz indispensável a conquistar dentro do próprio coração. De nada adianta apenas mudar as relações ou de cidade. Cada um carrega a si mesmo por onde anda”. Perguntei como fazer isso. O xamã me olhou como se estivesse diante de uma criança e explicou: “A paz está em semente no coração de todos. Fazer com que germine exige coragem”.

Lembrei da frase de encerramento do ritual daquela manhã no quintal da casa: nunca seremos autênticos enquanto distantes da coragem. Mais uma vez ele ressaltava a coragem. Comentei isso. Canção Estrelada sorriu e esclareceu: “A autenticidade é o arcabouço oculto da paz. A coragem é o guindaste dessa construção. Sustentada por uma vontade firme e sincera, a coragem moverá todas as demais virtudes necessárias à estruturação da paz, uma conquista indelével e imaterial, como são as verdadeiras riquezas”.  

Ele estava disposto a me explicar, eu queria aprender. O xamã se sentou na cadeira de balanço enquanto eu me acomodava no sofá à sua frente. Ele prosseguiu: “Ninguém é igual a ninguém; o caminho de uma pessoa não serve à outra. Toda cópia é vulgar, toda imitação se destina ao fracasso. Somos originais e singulares. Na autenticidade reside o genuíno poder de um indivíduo”.

“Ocorre que tememos as peculiaridades e as diferenças que trazemos na essência, como se fôssemos crianças pequenas assustadas com histórias de assombração. O medo nos convence de que não somos capazes, que as dificuldades irão no devorar. Optamos por adotar modelos e padrões pré-estabelecidos como maneira de evitar riscos. Como um barco que nega o mar por temer o desconhecido, esquecemos que sem riscos não há conquistas”.

“Quando autênticos, somos mais criativos. A criatividade é um instrumento poderoso para encontrar soluções fora do lugar-comum e, por isto, valiosa para desmontar problemas. As dificuldades se agigantam ou se amiúdam na medida de cada olhar. A criatividade tem o poder de expandir a realidade ao buscar vieses, nuances e estratos até então impensados. Nesse exercício inusitado, nos tornamos maior do que o maior dos nossos medos, então, dos problemas brotam as oportunidades. Essas características únicas nos movem de modo insólito por traduzir e identificar quem verdadeiramente somos. Do contrário, seremos uma massa insossa, inerte, apagada e homogênea incapaz de gerar luz e modificar a própria realidade. Faltará lucidez, equilíbrio e força de movimento. Viveremos como vagões atrelados a locomotivas desconhecidas que trilham por trilhos difusos, iludidos de que escolhemos onde queríamos chegar. Ao abandonar a autenticidade, anulamos a identidade. Sem entender quem somos, perdemos a condição de decidir quem seremos. Permitimos que o mundo nos molde ao seu gosto, sabor e interesse. Daí o vazio existencial que muitos sentem sem compreender a origem nem a razão”.

Comentei que os problemas já tinham sido resolvidos, no entanto, o vazio persistia. Canção Estrelada pontuou: “Resolver um problema é diferente de superar uma dificuldade. Não raro, a resolução surge de situações ocasionais, de contornos externos, sem gerar nenhuma transformação. Na superação existe uma conquista interna, derivada de um olhar que adquiriu clareza e destreza. Na resolução, o indivíduo continua inerte. Na superação, ele avança”.

Fez um gesto com a mão, como se falasse o óbvio, e acrescentou: “As tempestades chegam para varrer tudo aquilo que atrapalha a evolução. Quando moramos na vida de alguém por conveniência, em algum momento, ficaremos desabrigados. Inexoravelmente. A vida exige movimentos, transformações e avanços constantes. Cada um mora em si mesmo. Para viver bem, se faz necessário construir esse lugar”.

Depois prosseguiu: “Sem defesa e desestruturados, nos sentimos vítimas de uma catástrofe sem explicação aparente. Um sentimento enganador e, pior, estagnante. O caos se anuncia ao longe todas as vezes que nos recusamos a sair do lugar. Por condicionamento ou comodismo, negamos a realidade que se move e se modifica para impulsionar os avanços necessários. Preferimos repetir obsoletos padrões de comportamento e de escolhas na vã tentativa de alcançar resultados diferentes. Jamais acontecerá. A vida exige que cada viajante perfaça uma viagem inusitada para germinar a essência indispensável à transposição da realidade. Por medo ou incredulidade, fingimos não ver. Então, sucumbimos como presas frágeis e fáceis engolidas pelo contrafluxo natural da vida. Não cabe reclamação”.

Enquanto falava, retirou da gaveta de uma mesinha, ao lado da cadeira de balanço, o indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, a caixa com tabaco e esclareceu: “Nascemos para viver em grupos. Famílias, tribos, cidades e sociedades. A convivência é sagrada e pedagógica. Salvo para momentos de meditação e reflexão, o isolamento como estilo de vida é fuga, desequilíbrio e estagnação. A convivência é caminho, escola de harmonia e oficina de evolução. A vida em grupo, seja em círculos mais estreitos, seja de alcances mais amplos, ainda apresenta distopias, conflitos e comparações que, embora insensatas, servem de espelho ao aperfeiçoamento pessoal. Todas essas dificuldades existem para forçar o rompimento da casca da semente da autenticidade”.

“O problema surge quando decidimos viajar sobre trilhos alheios, anulando escolhas e possibilidades, apagando a originalidade que nos traduz e identifica. Dependentes por validação, pertencimento e aplausos, relegamos dons e talentos inatos, esquecendo que são atributos primordiais à transcendência, servindo também como ferramentas profissionais com inestimável valor na luta legítima pela sobrevivência. Atravessamos a existência como rascunhos abandonados no fundo de uma das muitas gavetas da consciência, fingindo que a história que nos espera, e pertence por direito natural, é impossível ou não a merecemos. Amiudamos por crença, escolha e medo. Romper a casca da semente da originalidade exige coragem para recusar modelos e moldes, e, assim, trazer à tona a verdadeira identidade”.

Preencheu o fornilho com tabaco e, antes que eu perguntasse, ele respondeu: “Não faltarão dificuldades. E serão muitas. Contudo, não há outro jeito de conhecer a beleza que o aguarda e que guarda em si a vida, a verdade e as virtudes que modificarão as fronteiras da realidade. Aprenderá um jeito peculiar de se mover através dos dias, com maior eficiência, leveza e suavidade. Mudam o olhar e os sentimentos, o ritmo e a intensidade, o sentido e a direção. Apura-se o sabor por si mesmo. O gosto pela vida somente resta refinado quando a jornada existencial se torna insólita e autoral”.

Esperei que acendesse o cachimbo e baforasse algumas vezes. Depois, perguntei se a coragem seria o bastante. O xamã negou com a cabeça e acrescentou: “Como falei, a coragem é o guindaste da construção. O caos jamais conseguirá derrubar quem somos. O caos destrói somente aquele que não somos. Para tanto, é preciso substituir o personagem pela verdadeira identidade, sem desculpas, encenações nem interesses escusos. Assim nascem as genuínas fundações que sustentam a obra de si mesmo. Quanto mais profundo e robusto forem os alicerces, mais firme e segura será a construção”.

Divertiu-se por instantes com a fumaça que bailava diante dos olhos antes de prosseguir com a explicação: “Um triângulo de pilares, cada qual com uma tríade de virtudes, compõem os fundamentos de uma construção inabalável à impermanência dos dias. As tempestades existenciais chegam para arrancar tudo que é desnecessário, excede e está mal construído. Contudo, são incapazes de carregar o que está firme, equilibrado e bem construído dentro do indivíduo. Refiro-me às verdades compreendidas em conjunto com as virtudes já agregadas e aplicadas ao cotidiano. Eis os alicerces que o manterão de pé durante e após a passagem do caos, apesar da devastação ao redor. Essa é a maior das riquezas e o verdadeiro poder”.

Questionei sobre as virtudes formadoras de tais fundações. Ele as elencou e explicou: “O primeiro triângulo de pilares é formado pela humildade, pela simplicidade e pela compaixão. A humildade, ao contrário do que muitos acreditam, não se assemelha à humilhação, ignorância, pobreza de qualquer espécie ou sentimento de inferioridade. A humildade tem o poder de afastar a absurda sensação de orgulho e de falsa superioridade, que tanto fragilizam, desequilibram e impedem os movimentos essenciais. A humildade é o húmus da consciência, indispensável à fertilização do solo para a germinação da semente latente da evolução. Essa virtude proporciona o perfeito estado de transcendência, necessário para azeitar os mecanismos do aprendizado e da transformação”.

Fez uma pausa antes de continuar: “A simplicidade é a virtude do despojamento, da retirada do desnecessário, daquilo que sobra e sobrecarrega, tanto na mente como no coração. De tudo que pesa e atrapalha a caminhada. Imprescindível para desfazer a vaidade, evidenciar as prioridades e conduzir ao essencial”.

“Por sua vez, a compaixão é o atributo que nos faz capazes de compreender a fragilidade humana, numa percepção isenta de julgamento e movida pela mais fina sensibilidade. Compaixão sem humildade é orgulho. Sem simplicidade é vaidade disfarçada em virtude. É demonstração rasa de etiqueta, mera aplicação de verniz sobre madeira podre. Sem conhecer as próprias fragilidades, ninguém está apto a lidar de modo amoroso e sincero com as fraquezas de ninguém. O perdão exige como pressuposto a compaixão. Não existe paz sem perdão”.

Baforou algumas vezes e continuou: “A segunda tríade é formada pelo respeito, pela disciplina e pela coerência. O respeito é a virtude da dignidade. Consiste em não fazer aos outros o que não queremos que nos façam e, no mesmo diapasão, jamais autorizar atos aviltados ou comportamentos abusivos em nossa direção. O respeito que possuo nada tem a ver com o que os outros pensam, falam ou fazem. Tem uma relação direta com a dignidade com que caminho”.

Esperou alguns instantes para prosseguir: “Por sua vez, a disciplina é o atributo conectado ao propósito e à fé. Reside em saber qual o movimento correto a realizar, o repetir apesar do cansaço ou da demora dos resultados, sem nunca desistir nem desanimar. Cada plantio tem um tempo próprio de semeadura e de amadurecimento. Todas as comparações são insensatas. Não há dois jardineiros nem dois campos iguais. Ainda que o estio seja longo, no tempo certo a colheita não falhará”. Arqueou as sobrancelhas e lembrou: “Muitos gênios já se perderam por falta de disciplina”.

Depois, acrescentou: “A coerência é uma virtude menosprezada. Isto faz com que muitos desabem durante as tempestades. Quando o caos nos alcança fora do lugar, ficamos destroçados. Deslocamentos externos precisam estar alicerçados em movimentos internos. Essa é a base da coerência”. Olhou-me com seriedade, como quem manda um recado, e disse com a sua voz serena e rouca: “Saber não significa ser. A coerência exige que todo o conhecimento apreendido seja aplicado à prática, pois, do contrário, será mera erudição apavonada em discursos eloquentes carentes de sabedoria. Isto faz com que o caos surpreenda ao chegar. Acontece quando estamos fora de quem somos”.

Fez uma pausa antes de prosseguir: “A coerência é isso e muito mais. Por mais poderoso que seja um trem, não conseguirá se mover no ar, no asfalto ou na água. Trens precisam de trilhos. A coerência é o trilho que conduz as prioridades e oferece o discernimento para a manutenção da rota correta diante das incontáveis bifurcações do caminho. Muitos conhecem as suas prioridades, mas as deixam de lado movidos por interesses menores e, algumas vezes, obscuros. Os convites dourados e cintilantes de muito brilho e pouca luz, do sucesso sem esforço e da fortuna inconsequente apagam os faróis do discernimento, desviando o trem da rota das prioridades. A coerência é um maquinista por excelência”.

Esperou que eu concatenasse aquelas ideias e citou a tríade de virtudes formadoras do terceiro vértice do triângulo de pilares: “A mansidão, a sensatez e a pureza. Ao contrário do que muitos acreditam, mansidão não significa fraqueza. Mansidão é conhecimento e respeito pelas forças da luz e pelo caminho da paz. A autêntica coragem é, acima de tudo, mansa. Combater o mal com as armas do bem não é para fracos; abdicar da agressividade na resolução de conflitos não é para covardes. Há de haver muita coragem. O manso é forte, equilibrado e firme. Não cede à maldade nem negocia com a escuridão. O monge é o exponencial mais elevado do guerreiro”.

“A sensatez tem relações ancestrais e simbióticas com a paciência e a justiça. Trata da capacidade de avaliar as diferenças, encontrar a justa medida, separar o bem do mal, o certo do errado, encontrar atributos e valor nas pessoas, coisas e situações. Decidir sem pressa nem medo. Fazer a coisa certa sem esperar pela permissão ou validação de ninguém. Não fazer ilações nem elucubrações sobre o comportamento dos outros. A sensatez ensina que cada um é responsável por si mesmo, como consequência das escolhas realizadas. A melhor decisão pode demandar amadurecimento. Isto requer paciência. A sensatez sabe que esperar não é ficar parado. Falo do tempo dedicado aos processos mentais e emocionais que, apesar de invisíveis aos olhares afoitos, impulsionam incessantes movimentos internos. Refiro-me ao período de casulo, sem o qual a lagarta jamais conhecerá a borboleta”.

“Por fim, a pureza, a mais simples de explicar, mas nem por isto a mais fácil de praticar. A pureza não fala de ingenuidade, porém, dialoga com o amor e a sabedoria. É preciso conhecer o mal para não se deixar envolver nem enganar pelo mal. Faz-se indispensável ser puro para, mesmo tendo o mal à disposição como instrumento de conquistas, satisfação de interesses ou desejos, abdicar por absoluto dessa possibilidade. É recusar o poder de dominar e subjugar os outros, de impor a própria vontade ao preço de calar a escolha alheia, não colocar o cargo ou a posição acima da ética nem do amor. É se negar a fazer escolhas quando envolvido por sentimentos densos. Há de existir coragem para vencer as más inclinações e as funestas influências que sempre o arrancaram de si mesmo. A pureza tem como pressuposto a abnegação, a virtude que prioriza as riquezas espirituais em detrimento dos interesses materiais. A pureza faz eclodir a semente da liberdade. Não é para qualquer um”.

Deu de ombros, como quem fala o óbvio, e comentou: “A jornada de agregar virtudes à medida que a verdade se expande e refina a consciência, faz surgir a necessidade de deixar para trás obsoletos critérios e ultrapassados formatos de se deslocar pela vida. Ao se deparar com toda a beleza que há em si, encontrará um universo desconhecido de oportunidades. Não haverá mais como recuar. A genuína identidade emerge das profundezas do âmago para forjar a autêntica personalidade, até então sufocada e suprimida. Assim nos tornamos quem verdadeiramente somos. Tudo mais é encenação ou modelação, agonia e distopia”.

Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavra. Canção Estrelada queria que eu alocasse aquelas ideias nas prateleiras da mente e do coração para que se tornassem de uso diário. Esforcei-me para metabolizar o aprendizado. Isso poderia levar alguns dias. Talvez semanas. Rompi o silêncio para perguntar pelo vazio que ainda insistia em mim. Uma mistura de ansiedade e tristeza, que eu não sabia como preencher ou desmanchar. O xamã apagou o cachimbo, como sinal de que a conversa estava encerrada. Ele havia dito tudo o que eu precisava entender. Em seguida, concluiu: “O caos varreu as incompletudes e inconsistências nas quais você se sustentava. Levou o que não mais servia. O caos nunca chega para prejudicar, mas para regenerar. Restou o vazio, um espaço disponível a uma nova construção a ser erguida com os fundamentos que conversamos. Quem os firma em si, nada tem a temer”. Arqueou os lábios em lindo sorriso e finalizou: “O vazio ressalta a presença de uma inusitada semente. Agradeça e a faça florescer. É a paz pedindo para nascer”.

Yoskhaz

1 comment

Rai junho 30, 2026 at 5:21 pm

Grato.

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