MANUSCRITOS VII

Dois mestres e o peso do vazio

Essa história aconteceu há muito tempo, logo que entrei na Ordem Esotérica dos Monges da Montanha. Foram dias intensos de muitas descobertas, encontros e conquistas internas. Ao ter acesso a interessantes conteúdos, tanto filosóficos como metafísicos, eu os usava como faróis para iluminar algumas das minhas muitas imperfeições. Um trabalho sem fim. Foi um período de importantes transformações pessoais por causa da mudança de olhar proporcionada por esses estudos. Ao retornar no ano seguinte para mais um ciclo de aprendizado, eu estava radiante. Todo bem-estar desapareceu nos primeiros dias. Godofredo, um monge que ingressara na Ordem apenas dois anos antes, matriculado nos mesmos cursos que eu frequentava, desde logo se mostrara hostil comigo sem qualquer motivo aparente. De início se valia da ironia ou do sarcasmo, abjetas modalidades de violência que se valem da ridicularização para agredir e coagir, todas as vezes que eu me manifestava sobre algum assunto. A sós, no trato pessoal, pouco a pouco, deixou a malícia e a zombaria de lado para se tornar mais rude com as palavras. Quando estávamos no meio de outros monges, se valia do desprezo, outra nefasta maneira de agredir. A situação se agravava pelo fato de a presença de Godofredo causar um bom impacto no grupo, seja por causa do porte físico e os belos traços do rosto, seja por possuir uma enorme inteligência social. Ele tinha o dom de cativar e seduzir as pessoas. Onde estivesse, sem demora se tornava o centro das atenções, contando fatos, piadas ou elogiando a todos. Ou quase todos. Ao seu jeito, controlava o grupo dos monges iniciantes. Sem se darem conta do seu perfil dominador, as pessoas gostavam dele e se mantinham ao seu redor. Porém, a minha presença o incomodava. Eu desconhecia o motivo. Nunca fui o mais bonito ou inteligente em nenhum dos lugares que frequentei. Nada em mim tinha a capacidade de ofuscar o brilho social de Godofredo. Aquela agressividade me oprimia e incomodava a ponto de começar a atrapalhar o meu sono. Acordava no meio da noite com pensamentos insólitos de situações hipotéticas em que ele dependia da minha boa vontade para se salvar de algum problema ou eu me imaginava revidando a agressividade sofrida com atitudes ainda mais violentas. Confesso que algumas vezes devaneei no desejo de ter superpoderes para extravasar todo o meu mal-estar. Acuado e desequilibrado emocionalmente, sem me dar conta, deixava o ódio se enraizar no meu coração.

O desconforto foi escalando tons até eu considerar a possibilidade de abreviar aquele ciclo de estudo antes mesmo de o encerrar. Talvez nem mesmo voltar no ano seguinte. Havia outros lugares e maneiras de prosseguir com a jornada do autoconhecimento. Sempre há. Lembrei da infância em um bairro de relações e conceitos complicados, quase selvagens, no qual a sobrevivência e a moral se mantinham através de princípios e valores precários e duvidosos. Uma fase difícil. Havia também a questão do sentimento de rejeição, sempre muito forte por causa do relacionamento complicado que eu tivera com vários familiares desde sempre. O olhar e o propósito que eu adquirira, seja sobre mim, seja sobre a vida, havia mudado, muito em função do que eu aprendera nos últimos anos no mosteiro. Agressões físicas, morais ou verbais não faziam mais parte da paleta de escolhas com as quais eu decidira me construir e caminhar pela estrada do tempo. Nada que pudesse apagar a minha luz me interessava como mecanismo de movimento através da existência. Contudo, a Ordem não era mais um lugar agradável para mim. Era hora de partir. Talvez para sempre.

Foi isso que eu disse ao Velho, como carinhosamente chamávamos o integrante mais antigo da Ordem, naquela madrugada sem lua, quando o encontrei preparando café na cantina enquanto todos ainda dormiam. O bom monge me ofereceu um olhar acolhedor, repleto de bondade, compaixão e paciência, como se dissesse que para sempre é tempo demais. Com o queixo apontou para a última mesa, ao lado das janelas com vista às montanhas e ao céu estrelado. Sentei-me. Sem demora, ele trouxe duas canecas com café fresco e se acomodou ao meu lado. Fez um gesto singelo com a cabeça, como que dizendo para eu falar, e completou: “Abra o seu coração”. Falei por minutos que não sei precisar. Relatei os fatos, confessei a minha mágoa e o desconforto em permanecer no mosteiro. Os estudos tinham tido um efeito maravilhoso quanto às oportunidades de transformação oferecidas. Eu descobrira muito de quem eu não era, encontrara muitas questões que precisavam ser reconstruídas em mim. O mundo e a realidade mudaram porque o meu olhar se modificara e passara a ver todas as coisas, pessoas e situações sob um ponto de vista até então inusitado e impensado. Minhas expectativas tinham se superado. Eu agradecia por demais, mas estava na hora de partir. O Velho franziu as sobrancelhas e comentou: “O caminhão das verduras não deve tardar. Se quiser, pode pegar uma carona até a estação de trem”. Bebeu um gole de café e disse: “Uma pena, justamente no momento em que a oficina se abriu às suas obras”. Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “Até agora, todas as descobertas relatadas dizem respeito à escola, a fase de aprendizado. Você teve acesso a estudos e pensamentos ancestrais. Ao contrário do que muitos acreditam, a sabedoria e o amor são muito antigos. Textos como o Sermão da Montanha ou os Diálogos de Platão, apenas para ficar em poucos exemplos, ainda são revolucionários mais de dois milênios depois que foram apresentados ao mundo. Embora tenha tido acesso a muito conteúdo, capaz de modificar o seu olhar sobre si mesmo e a realidade ao redor, o efeito transformador ainda não se completou. Trata-se da etapa seguinte referente à oficina, o momento de utilizar esse saber para reconstruir o que está mal construído dentro de você”.

Interrompi para perguntar como eu poderia identificar aquilo que necessita de reconstrução interna. O Velho respondeu de pronto: “Tudo que dói, amedronta ou incomoda”. Em seguida acrescentou: “Irritações, impaciências, intolerâncias, ressentimentos, raiva, desejos inconfessáveis de vingança, sensação de impotência, tristeza, agressividade, insegurança, desistência, teimosia e desânimo, enfim, toda e qualquer manifestação de sofrimento ou medo demonstra algo mal construído, incompleto ou incompreendido. Evidenciam a corrosão das estruturas intrínsecas. Precisamos corrigir as imperfeições para evitar que os movimentos dos dias nos derrubem. Quando acontece, o impacto costuma ser devastador. Tão grande que alguns demoram muito tempo para se reerguer das ruínas da própria destruição”. Bebeu um gole de café e lembrou: “Ninguém tem o poder de demolir ninguém. Caímos em função do desequilíbrio e da fragilidade com que nos acostumamos a viver”.

Fez uma pausa antes de ponderar: “Justamente no instante em que a vida disponibiliza a oficina para que possa realizar as transmutações evolutivas com o conhecimento e as descobertas proporcionadas, você decide partir”. Falei que precisava exercitar o desapego. O Velho deu de ombros e pontuou: “É preciso entender o autêntico significado das palavras para que não haja mal uso de um bom conteúdo. Assim nascem as ilusões”. Bebeu um gole de café e esclareceu: “Desapegar não é a mesma coisa que desistir. Desapegar é deixar ir aquilo que o amarra e impede de seguir em frente. Desistir é se negar a prosseguir por se acreditar incapaz. Abandonamos quem somos quando nos escondemos atrás da verdade inadmitida. As mentiras brotam no momento que enterramos a verdade”. Argumentei que nem todos nascem fortes e equilibrados. O bom monge me corrigiu: “Ser forte é uma escolha. O equilíbrio é uma conquista”. Pedi para explicar melhor. O bom monge era atencioso: “Ao contrário do que muitos acreditam, nenhuma ligação existe entre força e brutalidade, tampouco está presente em manifestações de orgulho, empáfia ou arrogância. Estes são os fracos que se fingem fortes. A autêntica força é leve e suave. Firme, mas amorosa. Trata-se de um poder genuinamente sutil que reside em aceitar de bom grado os desafios evolutivos. É não fugir aos movimentos necessários à elaboração das experiências vividas até que não mais causem mágoas ou medos, incentivem ou perpetuem conflitos. O efeito desse processo contínuo e sem fim resulta em equilíbrio, permitindo que o indivíduo atravesse as dificuldades inerentes à existência sem desesperos ou quedas, como uma árvore de raízes profundas capaz de suportar as mais rigorosas intempéries sem se deixar arrancar ou apodrecer”. Bebeu mais um gole de café antes de concluir: “Você fez bom uso da escola até agora, porém, abriu mão de usar a oficina. Partir é uma escolha e um direito”.

O dia raiava. Foi quando ouvimos o barulho do caminhão das verduras. Os funcionários demorariam alguns minutos para descarregar as caixas. O bom monge olhou para a mochila, que eu já havia arrumado, acomodada na cadeira ao lado. Em seguida, olhou para mim como quem se despede e diz ter chegado a hora. Segurei a caneca com as duas mãos e bebi um gole do café intocado. Depois outro e mais um pouco. Com os olhos marejados, indaguei se ficar ainda era uma escolha e um direito. O bom monge respondeu sim com a cabeça. Como quem revela uma descoberta, comentei que Godofredo não era um inimigo. Embora não soubesse nem fosse a sua intenção, a função dele era me tornar uma pessoa melhor. Eu já tinha aprendido isso. O Velho anuiu e alertou: “Sim. Porém, atenção. O desafio não está nele, mas dentro de você. Se insistir em mudá-lo ou fazer com que se arrependa das atitudes praticadas, você será abatido pelo cansaço de uma luta sem vencedores. Restará a destruição provocada pela procura de um poder que a ninguém é legítimo possuir. A incompreensão sobre quem não somos é a autêntica causa de todos os sofrimentos; a ignorância sobre o sentido da vida é a fonte de todos os medos. A atitude de ninguém é responsável pelas dores que sentimos; apenas serve para mostrar a fragilidade dos nossos pilares interiores prestes a desabar”.

Os monges, como são chamados todos os integrantes da Ordem, começaram a chegar para o desjejum. Era preciso encerrar a conversa. Antes, porém, falei não saber como fazer ou agir. O Velho pontuou: “Busque por silêncio e quietude para gerar um diálogo interno onde possa ouvir com nitidez todas as suas vozes. Filtre-as. Descarte as que o incentivarem aos conflitos ou alimentarem ressentimentos, dependências e incapacidades. Fique atento ao jogo das sombras que faz confundir orgulho com respeito, vingança com justiça e desistência com desapego. Acolha a voz que aconselhar o uso das virtudes; estes atributos caminham ao lado da verdade. Quando for tomado por uma incrível sensação de paz saberá ter encontrado a equação certa. Todas as incertezas e inseguranças desaparecem diante da clareza do olhar. Se não acontecer é porque ainda existe uma névoa de incompreensão que ofusca a sensatez, a lanterna da consciência”.  Em seguida, finalizou a conversa: “Lembre que solucionar o problema não significa dobrar ninguém aos nossos desejos, mas se libertar dos emaranhados existenciais que nos proíbem de seguir em frente. Este é o passo primordial rumo à liberdade. Tudo se resume a você consigo mesmo.” Piscou um olho e segredou num murmúrio: “Libertar-se é desmanchar as incompreensões internas que nos impedem de ir além de quem somos”.

Naquele dia, decidi não assistir às aulas. Fui caminhar pelas montanhas. Eu precisava ficar a sós comigo, conversar com as minhas vozes, acolher os lamentos e os medos, educar as sombras, aceitar a responsabilidade pelos meus sentimentos, escolhas e destino. A vida de ninguém se define pelo comportamento ou atitudes de outra pessoa. Sem esse entendimento é impossível amadurecer e desenvolver a verdadeira identidade. Recostei-me em uma pedra ao chegar em um lindo mirante de onde era possível avistar ao longe a charmosa cidadezinha de ruas estreitas e sinuosas localizada no sopé da montanha. Fechei os olhos para entrar na casa onde moro em mim. Escancarei as janelas para que o sol a iluminasse. Abri as portas dos quartos, chamei todos à sala. Ego e alma, virtudes e sombras, aos poucos todos se acomodaram pelos sofás e poltronas. Destranquei o alçapão do porão, onde guardamos as memórias dolorosas ou as culpas inconfessáveis que evitamos ver, mas não conseguimos deixar de conviver. Tudo que nos habita se manifesta. Queiramos ou não. Quando aqueles que moram escondidos no subsolo gritam, por estarem próximos aos alicerces, um pedaço da casa desaba. Se nada for feito, com o tempo, restarão apenas as ruínas de uma mansão inacabada. E mal-assombrada. Assim ficamos quando nos abandonamos.

O impulso inicial foi de tentar compreender o Godofredo, as razões e motivações que o levavam a agir de modo hostil. Um erro comum e atraente pela rota de escape que oferece. Uma fuga vaidosa. Um movimento de retrocesso pela estagnação que provoca. A compaixão não surge do entendimento quanto às dificuldades alheias, mas da simples aceitação. Aceitar não significa concordar, mas respeitar. Não posso exigir de ninguém a perfeição que não tenho para oferecer. Cada pessoa traz em si um universo singular e complexo. Ainda estamos na jornada para decifrar os próprios enigmas; crer-se capaz de percorrer os labirintos alheios é pretensão delirante. Proteja-se do mal, respeite a todos, faça o bem que puder e siga a viagem, ensinou um antigo alquimista de Alexandria. A tarefa que me cabia era entender por que eu conferia ao jovem monge tamanho poder sobre a minha alegria e escolhas, a ponto de quase me levar a renunciar aos importantes estudos oferecidos no mosteiro. 

Responder a essa pergunta era a porta de acesso para entender o motivo pelo qual o comportamento do Godofredo tinha tanto poder sobre mim. Sim, pois do contrário não me causaria nenhum incômodo. É natural que atitudes ásperas proporcionem algum grau de desconforto. Em um sujeito equilibrado não duram mais do que breves instantes. No entanto, ao atingir o ponto de influenciar as minhas escolhas e destino, sinalizava algo mal construído, incompleto ou incompreendido em mim. Isto não significava validar as atitudes do Godofredo, mas entender que as soluções dos meus sofrimentos não estavam em ninguém, salvo em mim mesmo. Muitas vozes opinaram. Algumas gritavam de revolta, outras sussurravam assustadas. Deixei que falassem. Como nenhuma delas me trazia a sensação de bem-estar típica do uso das virtudes, eu as descartava. Passado um tempo que não sei precisar, cochilei. Acordei com uma voz serena que dizia: O vazio tem um peso insuportável. Olhei para os lados, não havia ninguém. Ri da incoerência de um sonho louco. Ora, se está vazio não tem como pesar. Um saco vazio não move os ponteiros da balança. Quando não identificamos o vazio, a angústia se instala. Tornei a ouvir a voz. Eu estava acordado. Voltei a olhar nos arredores acreditando ser uma brincadeira de algum monge. Ninguém. O vazio é a manifestação do desconhecido de si em si mesmo, a voz seguiu em suas orientações. Esperei por mais alguns minutos por alguma outra palavra sem que nada mais fosse acrescentado.

Não era o momento de decifrar a origem daquela voz, mas de compreender o alcance do seu conteúdo. Restava-me a reflexão. Aos pouco fui montando o quebra-cabeças. A angústia, aquela conhecida sensação de que algo de ruim está à espreita, se deriva do vazio existencial, o desconhecido que nos habita e domina enquanto não conseguirmos entender a sua origem e motivações. Um morador poderoso e não identificado. São as vozes escondidas no porão. Todo sofrimento traz embutido diferentes doses e níveis de angústia, o que traz peso aos dias até que fiquem insuportáveis. É nesse território marginalizado, e ainda indevassável, que a angústia instala um império denominado vazio, que arrasta o indivíduo para o subsolo como se estivesse sob efeito gravitacional. Uma sensação angustiante por nos fazer carregar um peso sentido, porém, desconhecido. Na impossibilidade de identificar o vazio, ou por não saber como o extinguir, o entorpecemos com diversos artifícios. Naquele caso, eu utilizava doses espetaculosas de drama para interpretar o papel da vítima, um personagem inventado na inútil tentativa de me sentir melhor. Por sua vez, na outra ponta da mesma tragédia, Godofredo se valia da agressividade disfarçada para enebriar o próprio vazio com pílulas de suposta superioridade. Apesar de gozar de boa popularidade entre os monges mais jovens, sem se dar conta, ao invés de crescer, murchava. Ambos os vazios aumentavam. Extinguir o vazio é preencher a si mesmo. O conteúdo não significa apenas conhecimento, porém, movimento. Não se trata de atitudes quaisquer, mas de movimentos virtuosos. Escola antes, oficina depois.

Daquilo que me cabia, e não havia como negar, todas as vezes que eu conceder poder para alguém me infernizar evidenciarei o vazio manifestado através de incômodo, tristeza ou raiva, sinalizando ao proprietário vaidoso as rachaduras internas de uma casa bem cuidada por fora, porém, abandonada por dentro. Se cada um mora em si mesmo, das duas, uma: passamos a cuidar dos alicerces do prédio que vivemos ou jamais habitaremos em um lugar seguro e agradável. Verdade e virtudes são os autênticos pilares existenciais. Aqui estava a equação e a solução do problema. Fiz uma retrospectiva sincera da minha jornada, ao menos até onde os meus olhos alcançavam naquele momento. Apesar dos muitos erros do passado, o presente se mostrava diferente. Não que os equívocos tivessem desparecido, longe disto. Havia um esforço sincero na reformulação do meu código pessoal de ética e na firme disposição de jamais desistir do amor como como prumo à minha construção. Embora a reforma da casa estivesse distante de acabar, já se mostrava um lugar aprazível para se viver. Desde que livre de qualquer resquício de orgulho e vaidade, ter consciência das minhas conquistas será sempre importante para me lembrar de quem eu sou e da trajetória que já percorri. Isto também é fonte de força e equilíbrio. Esquecer das difíceis etapas superadas é um jeito corriqueiro de devorar a alegria para alimentar o vazio. Um modo cruel de esquecer de si mesmo. E se abandonar.

Não acreditar em mim, desvalorizar os meus dons, capacidades e conquistas criara o vazio interno que permitia ao Godofredo me incomodar e acuar com o seu comportamento rude. Imaginar-me como vítima aumentava o vazio. Compreender que a minha fragilidade e desequilíbrio tinham origem por eu não reconhecer o meu próprio valor e avanços me fez encontrar a equação. O que fizera o prédio ruir não fora a fúria dos ventos, mas a ausência dos alicerces que eu mesmo arrancara. Essa percepção me permitiu compreender as razões do vazio e entender que um simples movimento interno seria capaz de o extinguir. Tudo muda na mudança do olhar. Desmanchar as incompreensões traz um poder incomensurável. Anoitecia quando fui invadido por uma indescritível sensação de bem-estar.

Retornei ao mosteiro. Os monges jantavam na cantina. Depois de fazer o meu prato, me sentei à mesa junto aos demais monges iniciantes. Numa mesa próxima, em um tom de voz baixo para não ser escutado pelos monges antigos, mas audível o suficiente para que fosse ouvido por quem estivesse perto, Godofredo fez um comentário sarcástico sobre o fato de eu ter ficado fora o dia todo. Muitos riram. Sem me abalar, o olhei com serenidade e questionei sobre a razão daquele comportamento com uma pergunta simples: “Por que você age assim?”. As risadas emudeceram de imediato. Fingindo surpresa, Godofredo disse não se tratar de uma brincadeira, alegou. “Qual sentimento move alguém a fazer um comentário depreciativo e repleto de ironias?”. Virei para os monges que tinham achado engraçado e indaguei com a mesma serenidade: “Qual o sentimento que faz encontrar graça na ofensa?”. Não houve resposta. Terminamos o jantar em silêncio.

Todos os nossos sentimentos têm nome. Faz-se indispensável reconhecer cada um deles. É uma fase muito importante no processo de autodescobrimento. Gostamos dos bons, temos dificuldade em admitir os ruins. Não raro, mudamos os seus nomes para nos enganar. Quando os negamos, se tornam nossos hóspedes. Não há por que se lamentar, fomos nós que os convidamos a ficar. São os moradores ocultos do porão. Ou, em muitos casos, vivem em outros cômodos disfarçados nas mentiras que adoramos acreditar. O maior perigo, e o mais recorrente, é quando os seus discursos são ouvidos como se fossem a voz da verdade. Nesses momentos o preconceito inadmitido se apresenta como anedota ou a raiva inconfessável se manifesta através do desprezo e da ironia.

Os sentimentos densos permanecem na imagem das pessoas que nos machucaram, criando uma atmosfera desagradável e nociva dentro de casa. É preciso os deixar partir. Pode parecer paradoxal e incoerente. E é. Eles só ficam porque os impedimos de ir embora. Era preciso reconhecer a raiva que me arrancava do meu eixo de luz e me lançava no abismo da existência. Enquanto o ódio não fosse transmutado em compaixão, eu não conseguiria perdoar o Godofredo para que não mais continuasse como um hóspede indesejável.

A reação não foi a esperada, porém, era previsível. Como Godofredo tinha o perfil controlador e era dotado de incrível carisma, ao se sentir desconfortável e desnudo com o diálogo travado na cantina, se afastou de mim levando consigo um séquito de seguidores. A exceção de dois ou três jovens monges, os demais passaram a me ignorar, a ponto de nem mais me cumprimentarem. O ambiente se tornou bem desagradável. Era o momento da oficina, de fazer valer os meus alicerces erguidos pela verdade e pelas virtudes, se é que existiam. Eu não tinha feito nada de errado, a conversa que tivemos, embora firme e sincera, não se realizou com nenhum traço de agressividade. Apenas o questionei como maneira de o colocar diante do espelho da consciência para que se desse conta dos sentimentos que genuinamente o moviam. Prosseguir com eles eram uma escolha do Godofredo. A mim cabia trabalhar para aperfeiçoar os meus sentimentos, pois, afinal, moravam em mim e definiam a atmosfera da minha casa. Não mais poderia permitir que o comportamento de quem quer que fosse me roubasse a paz. Foram dias difíceis. Quando a rejeição me trazia sensações ruins, eu lembrava que estava na oficina transformando a experiência em força e equilíbrio. Então, agradecia e me esforçava para aproveitar. Nenhuma prova é fácil. Se conseguisse, mais uma etapa da obra se concretizaria.

Lidar com a rejeição nunca é fácil. No entanto, eu precisava saber se já era capaz de seguir em frente sem a aprovação de ninguém. A minha alegria não precisava da validação de qualquer outra pessoa para me animar os dias. Lembrava-me disso a todo instante. Aos poucos conseguia afastar as influências insalubres advindas das minhas incompreensões e desequilíbrios. Comecei a entender o poder da força e sentir os pilares que me sustentavam para atravessar as situações severas com equilíbrio, sem perder a suavidade e a leveza dos movimentos. Sentia-me melhor a cada dia, embora as relações não tivessem se modificado.

Até que em numa tarde, quase ao fim daquele período de estudos, quando todos estavam em aula, fui à cantina em busca de uma caneca de café. Para minha surpresa, Godofredo estava sentado na cadeira de uma mesa ao fundo, com a cabeça abaixada entre as mãos. A reação inicial foi de pegar o café e ir embora. Eu não gostava dele. A voz que fala mais alto, ou primeiro, nem sempre é a mais sensata. Nada é à toa, sussurrou a mesma voz que ouvi na montanha. Dominei os meus instintos primários. Percebi que essa experiência também era necessária como complementação da anterior. Municiei-me de duas canecas com café e me sentei ao seu lado. Ele levantou a cabeça, me olhou por breves instantes e tornou a abaixar. O seu rosto estava banhado em lágrimas. Ficamos sem dizer palavra por alguns minutos. Quebrei o silêncio ao falar que eu só iria embora se ele pedisse. Do contrário, lhe faria companhia o tempo que fosse necessário. O jovem monge disse não precisar de mim. Tampouco queria que tivessem piedade dele. Disse para eu ir embora. Peguei a caneca e quando estava prestes a me levantar mudei de ideia. Falei que ficaria. Godofredo perguntou se era para eu me comprazer do seu sofrimento. Respondi que não. Ponderei que a dor, se bem aproveitada, tem o poder de aproximar as pessoas e se desmanchar através do amor impensado que surge ao romper a casca da incompreensão. Ele me falou que eu não seria capaz de entender o que ele sentia. Em seguida, contou não ter sido convidado para o segundo casamento da sua mãe. Então, começou a chorar de soluçar. Por toda a sua existência procurou na mãe o mesmo amor que ela depositava aos irmãos. Nunca encontrou. Isto doía muito nele. Sempre doeu. Coloquei as suas mãos entre as minhas como gesto de solidariedade. Esperei que o pranto secasse sem dizer palavra. Ao final, falei que eu não era capaz de sentir a sua dor, ninguém conseguiria, pois cada um sente ao seu jeito, no modo como a situação transita e é tratada no âmago pela pessoa. Somos únicos. Entretanto, eu tinha condições de me sensibilizar com o sofrimento que o permeava. A rejeição tinha sido minha companheira desde a adolescência. Éramos íntimos. Ainda mais, a rejeição me ensinara a encontrar o amor e o acolhimento nos lugares e pessoas mais improváveis. Amor não tem endereço nem sobrenome. Basta não desistir de amar.

Foi apenas o início de uma conversa longa e proveitosa. Descobríramos algo em comum. Tínhamos enfrentado experiências muito semelhantes, como se fôssemos integrantes de uma mesma tribo emocional. Trocamos histórias com a clara sensação de que um entendia perfeitamente o que outro dizia. Ainda que as palavras não fossem suficientes, o coração supria a compreensão que faltava. Godofredo não se curou de imediato do sofrimento gerador do enorme vazio que tanto o incomodava. Ali começou o processo. Foi também o início de uma grande amizade que se consolidou com o tempo. Ele foi meu padrinho de casamento e eu batizei o seu primogênito.

No último dia daquele ciclo de estudos, encontrei o Velho podando as rosas no jardim interno do mosteiro. Ao me ver, comentou que eu trazia no rosto uma alegria e uma paz que pareciam impossíveis naquela madrugada que cogitei abandonar à Ordem. Sorri. Em seguida, ele pontuou: “Nenhum dos cursos que frequentou proporcionou o aprendizado oferecido pelo Godofredo. A recíproca se aplica dele para você. Juntos, cada um ao seu modo e entendimento, compreenderam como identificar e preencher os próprios vazios existenciais”. Perguntei se a atitude dele em me segregar do grupo seria uma tentativa inconsciente de transferir para alguém a dor da rejeição que sentia. O bom monge deu de ombros e ponderou: “Do que importa saber se as motivações dele foram essas ou aquelas?”. Depois, concluiu: “A conquista consiste na vitória da luz sobre a escuridão. Ambos conseguiram. Tudo mais é menos”. Arqueou os lábios em sorriso e finalizou a lição: “Esta escola planetária possui alguns mestres de excelência. Dois deles, embora maravilhosos, quase nunca recebem o devido reconhecimento por suas atuações e alcances: os erros e os relacionamentos. Desde que bem aproveitados, oferecem imponderáveis possibilidades de transformação”. Guardou o alicate no bolso do casaco e disse que precisava se preparar para a palestra de encerramento daquele ciclo de estudos. Observei-o se afastar com os seus passos lentos, porém, seguros.

3 comments

SCHWEITZER fevereiro 5, 2024 at 10:24 pm

Acho q de todas as centenas de estórias q ja li aqui, esse é minha preferida.

Amei.

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Cris fevereiro 13, 2024 at 1:32 pm

Me sinto muito conectada com os textos. Sempre em boa hora

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Maangoba fevereiro 16, 2024 at 3:11 pm

FIco impressionado como todos os textos trabalham a mesma linguagem, como estão conectados entre si e com o TAO TE CHING. Enfim, só tenho a agradecer por todo o aprendizado que venho adiquirindo por aqui. Obrigado! Obrigado! Obrigado!

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