TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Sexagésimo limiar – Anjos e demônios)

Não tive muita dificuldade de reconhecer as Ramblas, em Barcelona. Pelo estilo das roupas e prédios, estávamos no início do Século XX, talvez final do XIX. Eu caminhava em sentido ao mar. As folhas secas típicas do outono bailavam ao sabor da brisa fria de uma manhã recém-inaugurada. Tive atenção voltada para um homem franzino, com uma boina cinza, muito comum á época, e um casaco vermelho, cor fora dos padrões masculinos daquele período. Seus olhos penetrantes me observaram por alguns breves, porém, significativos instantes. Em seguida, ele desviou a rota para uma estreita rua perpendicular. Intrigado, o segui à distância por alguns minutos até que o perdi de vista quando dobrou em uma esquina. Parei sem saber para onde ir. Enquanto eu avaliava as possibilidades, tive a sensação de que alguém me observava. No andar superior de uma antigo solar de paredes descascadas e maltratadas pelo tempo, o homem me olhava por trás das vidraças de uma enorme janela. O contato visual se sustentou como se nos avaliássemos mutuamente. Ele fez um movimento quase imperceptível com a cabeça como se dissesse sim ou me autorizasse a entrar. Foi assim que interpretei. A porta estava fechada. Ao rodar a maçaneta percebi que estava destrancada. Atravessei a sala e subi a escada curva de madeira que rangia anunciando cada um dos meus passos rumo ao andar de cima. Havia apenas um enorme cômodo, com um sem-número de quadros pintados acondicionadas por todos os cantos. Próximo à janela, de maneira a aproveitar a iluminação solar, um cavalete sustentava uma tela em confecção. Um peixe multicolorido era a imagem que dominava a obra em andamento. Mais de perto e sem a boina, pude notar que se tratava de um jovem com pouco mais de vinte anos de idade, embora me trouxesse a sensação de se tratar de um espírito que trazia consigo a riqueza de muitas viagens. Nos olhos havia o brilho daqueles que têm sede pela vida. Ele retirou o casaco vermelho, abriu a caixa de charutos e me ofereceu. Declinei da oferta. Sem nenhuma pressa, retirou um, acendeu e baforou várias vezes, sorrindo como se aprovasse o gosto ou se deliciasse com aquele ritual. A minha atenção estava dividida entre os gestos quase teatrais do homem e o simbolismo do estranho peixe colorido. Ainda não tínhamos trocado palavra, como se narrativa das imagens fosse mais poderosa do que as letras. Ele parecia se interessar mais por interpretações do que por explicações, como se as versões fossem mais importantes do que os fatos. Não havia como esconder a minha fascinação pelo peixe na tela inacabada. O jovem adulto percebeu, sorriu e pontuou: “Governar um império é como preparar um pequeno peixe. Todo cuidado e atenção se fazem necessários. Diante da menor distração o peixe queima ou se desfaz no fundo da panela. Perde-se a refeição. Diferente não é ao se governar o império de si mesmo. Cada indivíduo é como um universo em convulsão. Muitas forças de diferentes sentidos e magnitudes atuam dentro e fora do reino. A todo momento surge uma oportunidade, desafio ou dificuldade para desestabilizar esse universo ou o impulsionar à prosperidade. Não sob o ponto de vista da riqueza material, mas sob o prisma da evolução existencial”. Baforou o charuto e continuou: “Somos muitos em um. Somos um reino povoado por diferentes habitantes, alguns velhos conhecidos, outros ainda bem desconhecidos. Entre eles, os nossos demônios pessoais. As nossas sombras. Orgulho, vaidade, ciúme, inveja, ganância, ódio, insensibilidade, vitimização, manipulação, sede de poder e domínio, além do medo e da ignorância. Ninguém nos causa mais danos do que esses demônios, principalmente quando circulam soltos pelas ruas do reino”.

Perguntei se ele dizia que ninguém nos causa tanto mal como cada um a si mesmo. O artista disse sim com a cabeça e explicou: “As pessoas que se opõem, nos atrapalham ou prejudicam, aquelas que costumeiramente denominamos de inimigos ou antagonistas, em verdade, são colocadas em nossos caminhos com a finalidade maior de nos conduzir ao aperfeiçoamento pessoal. São elas que nos levam a pensar e a fazer de uma maneira diferente e melhor para que possamos encontrar inusitadas equações como fórmula de resolver questões aparentemente insolúveis. São elas que nos impulsionam a ir além de quem somos. Ocorre que somos afoitos, apressados e distraídos, com interesses distantes do autêntico significado da viagem em curso. Esquecemos ou desconhecemos as prioridades. Subjugamos a verdade em favor dos sentimentos. Perdemos o peixe, o alimento ancestral da alma”. Eu quis saber sobre o peixe. Ele explicou: “Pelo fato de viver no fundo do mar onde os olhos nada conseguem ver, a imagem do peixe desde sempre esteve associada a significados metafísicos”.  

O pintor ponderou: “Estamos condicionados a acreditar que os demônios estão escondidos nos becos escuros das áreas abandonadas da cidade, prontos para nos possuir, destruir ou dominar. E estão. Entretanto, não oferecem perigo sem a colaboração dos demônios que moram conosco. São estes que abrem a porta para aqueles, entende?”. A pergunta era apenas de retórica. Ele prosseguiu: “Em suma, ninguém será capaz de nos fazer qualquer mal sem a nossa autorização. Sem dúvida, muitos nos prejudicam, nos negam os interesses, desejos e até mesmo direitos fundamentais. A maneira como reagirei nas vezes em que sou contrariado é o cerne da questão evolutiva que resultará em prosperidade ou caos”. Deu de ombros e disse: “Ao colocar os meus demônios para guerrear com os demônios alheios não posso lamentar o inferno onde farei morada. De outra face, se o império for governado de acordo com a Lei, os demônios não farão nenhum mal”. Indaguei qual lei ele se referia. O jovem adulto esclareceu: “A Lei do Caminho. São energias criadoras e ordenadoras cujo principal atributo é reequilibrar tudo e todos através do seu viés pedagógico. Verdade e virtudes são valores indispensáveis à evolução. A solução mais sábia quase nunca é a mais desejada em razão dos olhares de curto alcance”. Pedi para que explicasse melhor esse olhar de curto alcance. O artista era atencioso: “A consciência reflete o alcance do olhar da alma, aprimorado na medida em que a percepção e a sensibilidade se refinam. Quando avança, a verdade se expande, a realidade se modifica. A verdade é a fronteira mais longínqua alcançada pela consciência a cada momento; a realidade traduz a leitura que esse olhar faz da vida interior, ao redor e além”. Além? Estranhei. O homem franziu as sobrancelhas e disse: “Um lugar onde os olhos não veem, mas a consciência é capaz de enxergar, assim como os peixes no fundo do mar. Nada termina aqui ou ali. Todos os viajantes prosseguem nos feitos e efeitos dos seus passos. Aquilo que os poetas chamam de destino, o Caminho define como liberdade e responsabilidade. Não há uma sem outra. Perdemos o peixe se não entendermos o ardor do fogo”.

Fiquei sem entender sobre a influência dos demônios. O artista esclareceu: “Sintonia é a palavra-chave. Do mesmo modo como um rádio capta a frequência vibratória na qual está sintonizado. Há muitas estações. Escutamos aquela que melhor dialoga conosco e entrega conforme o gosto que nos agrada. Pense por que razão tantas pessoas preferem ouvir notícias calamitosas que superdimensionam tragédias e desgraças. Sintonia. Outras preferem as novelas ou músicas que fazem o espírito vibrar de alegria. Sintonia. Não que os demônios não existam nem tenham poder, mas nada podem fazer conosco se não tiverem onde viver dentro da gente. Mais uma vez, sintonia”. Questionei como desapoderar os demônios. O jovem explicou: “Educando as sombras. Os demônios somente têm poder se movidos pelas nossas sombras. Cada uma delas funciona como semente de alguma virtude. As virtudes transformam demônios em anjos. Da fragilidade do orgulho germina a força da humildade, do desajuste comum à vaidade brota o equilíbrio típico da simplicidade, o ódio é um excremento que devidamente tratado se torna adubo para que surja a beleza da compaixão, a aspereza da brutalidade se desmancha diante da suavidade da gentileza, o peso da mágoa desaparece frente à leveza do perdão, o desejo por vingança desaparece diante da grandeza oferecida pelo sentido educacional da justiça, do vazio sufocante pelo uso do mal floresce o encanto pela pureza, o medo é solo fértil para a fé. Há muito mais. Todo anjo um dia foi demônio. Toda virtude viveu dias de sombras. Da escuridão à luz, da loucura à sanidade, da enfermidade à cura, eis a viagem de todos nós. Uma jornada gerada no âmago para se completar no mundo. Perdemos o peixe quando não compreendemos para onde os ventos sopram”.

Ponderei se prosperidade ou caos tinham correlação com essa teoria. O artista tornou a dizer sim com a cabeça e complementou: “O caos é uma característica dos reinos tomados pelos demônios. Agressividade, tristeza, intolerância, impaciência, reclamações, desequilíbrios, arrogância, desânimo, desejo de poder e domínio sobre a vontade alheia são manifestações do caos existencial que se manifesta em um indivíduo. Nada mais benéfico para os demônios do que o desconhecimento ou a negação de suas existências ou atuações. É como conceder um salvo-conduto para que se movimentem livremente pelas ruas do reino. Sem demora estarão com o cetro do poder. O caos existencial será um efeito inevitável”. Fez uma pausa antes de esclarecer: “Contudo, ao contrário do que muitos acreditam, são os anjos que provocam o caos na tentativa de que o indivíduo reconstrua o próprio reino com diferentes e melhores fundamentos ao se deparar com a própria destruição interna”. Indaguei por que os anjos não intervinham antes do caos. Ele explicou: “Os anjos nunca desistem. Tampouco nos abandonam. Se esforçam por todo tempo, mas não podem intervir em nossas escolhas. O indivíduo precisa aprender a administrar o próprio reino por intermédio da verdade e das virtudes. Do contrário, não haverá evolução. A prosperidade é uma conquista, jamais um presente”. Ajeitou o cabelo com a mão e esclareceu: “Sempre haverá anjos dispostos a salvar todos os reinos. Ninguém será esquecido. Os anjos jamais fazem mal aos homens. O que ocorre é que as pessoas têm dificuldade para identificar ou entender a lógica de como atuam. Apenas os sábios conseguem ver os peixes nadando no fundo dos oceanos”.

O jovem pintor continuou: “A prosperidade é o destino de todos os reinos. Cada qual ao seu tempo, de acordo com a sua maturidade e nível de consciência. Por já se moverem por intermédio das virtudes e sem renunciar à verdade no limite que a compreendem, os sábios se tornam aliados fundamentais aos anjos no plano físico, por iluminarem com a própria luz os reinos por onde passam. Discreta e silenciosamente, em muitos casos, conseguem impulsionar a reconstrução antes de o caos se instalar como recurso derradeiro. Ao lado dos sábios, os anjos protegem e cuidam dos homens. A verdade e a virtude, na confluência do amor com a sabedoria, formam o eixo-mestre por onde a luz vibra e reverbera até a última estrela nos confins do universo. Depois, retorna à origem existente no âmago de cada reino. Todas as essências foram geradas por uma única fonte. Todos os reinos fazem parte de um reino maior”. Apontou com o queixo para a tela em confecção e concluiu: “Essa compreensão oferece a receita para o cozimento perfeito e faz do peixe um alimento sagrado”.

Em seguida, apagou o charuto e disse que precisava pintar: “Todos os dias a inspiração vem me visitar. Gosto quando ela me encontra trabalhando”. Era hora de partir. Ao perceber que eu não sabia por onde ir, o artista remexeu em diversos quadros, cuidadosamente encostados entre o piso e a parede, até encontrar aquele que procurava. Era uma sugestiva mandala azul e rosa. Agradeci a conversa, me despedi e atravessei o portal.

Poema Sessenta

Governar um império é como preparar um pequeno peixe.

Se o império for governado de acordo com Tao,

Os demônios não farão nenhum mal.

Não que os demônios não existam

Nem que não tenham poder,

Mas nada podem fazer

Se não tiverem onde viver.

Os anjos jamais fazem mal aos homens.

Ao lado dos sábios, protegem e cuidam dos homens.

Assim, a virtude retorna à origem.

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