TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Quinquagésimo quarto limiar – Raízes profundas)

Era um país tropical. O clima e a flora não deixavam dúvida. Andei a esmo pelas vielas arborizadas de um enorme e bem cuidado jardim botânico até encontrar uma bela mulher sentada em um pequeno banco de madeira, usando roupas simples e um chapéu de palha com abas largas para se proteger do sol intenso. Ela observava a flora e fazia anotações a lápis em um caderno. Uma agradável brisa amenizava o calor. A jardineira me ofereceu um sorriso jovial ao perceber a minha presença. Com um gesto de cabeça, sugeriu que eu me sentasse em um banquinho ao seu lado. Aceitei o convite. Em seguida, me pediu para pegar um alicate dentro de um pequeno alforje de couro. Ela podou galhos e folhas secas de uma espécie de planta que, embora eu já tivesse visto, desconhecia o nome. Comentei isso. Antes que me respondesse, fomos surpreendidos pela chegada de outra mulher acompanhada de duas serviçais. Vestida com esmero a moda do Século XIX, fez uma observação desdenhosa de que a jardineira se desvalorizava por não se vestir de acordo com a sua classe social; ato seguinte, caçoou que primava pela deselegância. A resposta foi um olhar sereno e firme, porém, compassivo. A mulher foi embora, seguida dois passos atrás pelas damas de companhia. A sós com a jardineira, falei que o aprumo no vestir era raso diante da elegância de se ter paciência, tolerância e delicadeza no trato pessoal. A botânica sorriu em agradecimento e sussurrou como se contasse um segredo: “Faço parte da realeza, mas não compactuo com suas ideias e comportamentos. Não quero conflitos; são desnecessários. Adoro estar entre plantas e flores. Eu as estudo. Sou autodidata; as mulheres ainda não podem ingressar nas universidades, embora não nos impeçam o acesso aos livros. Por ora, são suficientes. Vivo do meu jeito e nunca insisti que concordassem comigo ou me acompanhassem. Porém, essa autossuficiência originária do livre-pensar constrange muita gente na Corte. Apesar de não ser a minha intenção, eu os incomodo de modo que não compreendem”. Comentei que a autonomia das ideias de uma pessoa pode se tornar admiração ou causa de desequilíbrio emocional naqueles que ainda não conseguem manter um diálogo claro e sereno consigo mesmo, a depender se utilizam as lentes da humildade ou do orgulho para observar o mundo e, principalmente, a eles mesmos. Ela concordou com um movimento de cabeça e acrescentou: “Muitas vozes falam dentro da gente. Os desequilíbrios surgem quando não sabemos a quem escutar. Nessa confusão de ruídos, ficamos incapazes de ouvir qual delas é a mais sensata. Então, ouvimos a conveniência para as tomadas de decisões pertinentes às nossas vidas pessoais. Invariavelmente faremos péssimas escolhas. Não raro, vamos ao mundo a procura de opiniões que nos deixem confortáveis a fazer algo que gostaríamos, mas relutávamos por medo, vergonha ou culpa. Acreditamos estar diante da verdade; mero devaneio. Algo que estávamos inclinados a fazer, com a validação de alguém, nos sentimos mais confortáveis para agir. Outro tipo provável de decisão desastrosa. Na viagem de transição das sombras à luz, nos deparamos com vozes que impulsionam às decisões dos maniqueísmos fáceis, da ilusão de poder e da beleza vazia. Somos afastados de quem poderíamos nos tornar. A queda se faz necessária para que verifiquemos o quão distantes estávamos da verdade. De outro modo, quando já alcançamos determinado nível de conhecimento sobre quem somos, assim como a direção que seguiremos, a opinião dos outros sobre nossos assuntos pessoais jamais terá força para nos desequilibrar e arrastar para qualquer confusão mental ou emocional”. Fez um gesto gaiato e comentou: “A opinião dos outros pertence aos outros; que façam bom uso das próprias verdades em suas vidas”.

Comentei que eu excursionava pelo inconsciente coletivo em busca da verdade. Ela não se surpreendeu com o inusitado trajeto nem pelo objetivo da minha viagem. No intuito de ajudar, disse: “Ninguém conhece a verdade antes de conhecer a si mesmo. O autodescobrimento é o movimento primordial ao domínio das emoções avassaladores, que tanto desequilíbrio causam; assim como dos pensamentos constritivos que ao nos afastar da lucidez, estreitam a realidade e geram todos os medos e sofrimentos. O autoconhecimento é uma jornada libertadora por, entre outras mil conquistas, permite a desconstrução das dependências existenciais presentes nas permissões e validações alheias. Ao ter consciência de quem ainda não é, você entenderá a necessidade de se aperfeiçoar para se alinhar ao seu eixo de luz, do qual será arrancado todas as vezes que se deixar arrastar por suas próprias incompreensões em prejuízo das virtudes que poderia ter utilizado para se mover através dos obstáculos. As escolhas nos movimentam ou nos tiram do Caminho. O melhor parâmetro para compreendermos o quanto estamos próximos ou distantes da verdade é identificar a predominância de sombras ou luz contidas nas decisões tomadas. Quando a verdade e as virtudes estão bem enraizadas, por maior que seja o problema, você não será arrancado da luz”. Fez uma pausa para retirar uma lagarta da planta e prosseguiu: “Uma árvore bem enraizada é capaz de suportar as mais rigorosas intempéries. Ainda que o inverno faça cair as suas folhas, ainda que uma tempestade arranque os seus frutos, ela sabe que irá se regenerar no momento seguinte, pois, traz o conhecimento de que nos movimentos internos residem o poder genuíno para enfrentar as adversidades externas. Quando as raízes são profundas, a árvore se mantém firme sob a mais cruel das secas, ao buscar a energia vital no âmago nutritivo da própria alma perante o solo árido de uma eventual situação difícil. Raízes curtas e rasteiras produzem olhares desesperados, restritos ao caos aparente de uma realidade estreita, por não conseguirem enxergar além da superfície inóspita e devastada. As raízes profundas são a causa da serenidade daqueles que não se assustam diante das tormentas”.

Eu quis saber como as raízes se aprofundam. A botânica explicou: “Três são as causas das raízes profundas. Uma consciência em franca expansão, o conhecimento em constante desenvolvimento e absoluta coerência entre o saber e o fazer”. Pedi para que esmiuçasse aquelas características. Ela foi generosa: “A consciência é a percepção e a sensibilidade em relação a si mesmo e ao mundo ao redor. Quando aguçada, permite a exata compreensão das dificuldades que impedem o indivíduo de caminhar, movendo-o em busca de diferentes equações para solucionar velhos e recorrentes problemas. O alcance do olhar concede a dimensão, os aspectos e as possibilidades da realidade. Embora o mundo seja o mesmo para todos, a realidade é singular e personalíssima, pois, quem a define é a verdade, o limite extremo conquistado pela consciência a cada instante. A consciência são olhos da alma”. Colocou alguns galhos e folhas que acabara de podar em um cesto e continuou: “O conhecimentoserve para apurar as lentes e limpar os filtros da consciência, fornecendo novos elementos para depurar a percepção e a sensibilidade, desfazer crenças obsoletas, desmanchar falsas expectativas e descontruir as suposições criadas pelo medo surgido na tentativa de substituir uma verdade incompreendida. Por sua vez, a coerência é valioso mecanismo de força e equilíbrio, suavidade e leveza diante dos reveses existenciais. Faz-se primordial que cada uma das nossas escolhas seja coerente com a verdade e as virtudes já conquistadas, como se fossem o mapa e as ferramentas indispensáveis de um viajante rumo à luz. A pertinência entre o saber e o fazer, quando orientada pela verdade e movida pelas virtudes, se torna fator de desenvolvimento das raízes. Vale salientar que haverá escolhas equivocadas. O erro forja grandes mestres. Há que se ter humildade e sensatez para, todas as vezes que acontecer, reparar o erro e mudar a rota para manter o rumo”.

A jardineira foi nos pormenores da incoerência, ao comentar: “Afinal não somos aquilo que sabemos, mas o que fazemos”, e citou algumas contradições comuns: “Anseio por uma vida digna, mas faço escolhas indignas frente às oportunidades que me convém. Grito para que respeitem as minhas decisões, mas me mostro intolerante com as escolhas alheias. Busco a liberdade, mas crio regras de dominação em meus relacionamentos. Desejo a felicidade, mas semeio a insatisfação por onde passo. Anseio pelo amor, mas me recuso a abrir os braços. Eu quero a paz, mas por manter muitos conflitos internos, brigo com o mundo”. Fez um gesto com a mão para ressaltar o óbvio e concluiu: “As incoerências entre o que queremos e quem somos são as causas impeditivas para o aprofundamento das raízes. Também dão origem às inadequações pessoais perante a vida, se tornando uma das principais razões dos desequilíbrios de um indivíduo pelo vazio que se instala e o fragiliza perante as dificuldades. Para essas pessoas, suaves brisas têm a fúria de rigorosas tempestades. Sem demora, e a todo instante, serão arrancados de si mesmos”.

Comentei que a vida era difícil e complicada. Muitas vezes minhas boas intenções foram mal compreendidas. A mulher me olhou com doçura. Eu falava de um sofrimento decorrente de uma incompreensão já experimentada por todas as pessoas. Ela ponderou: “Viva pelo valor da boa ação, jamais pela espera do resultado desejado. Um abraço sincero nunca se esquece, uma palavra dita com amor acalma um coração aflito. Sei que muitas vezes o problema não está em quem oferece, mas naquele que recebe. Ouvidos poluídos deturpam palavras claras, corações amargurados desprezam braços amorosos, viajantes perdidos se afastam do caminho seduzidos pelos encantos de cenários de muita beleza, mas pouco conteúdo. Não importa, a boa semente jamais apodrece; apenas aguarda o momento de o solo ficar fértil para germinar. Só se deixa arrastar para fora de si mesmo por causa da reação de outra pessoa quem está desequilibrado; a força reside em saber que o movimento foi realizado na última fronteira da consciência, a verdade. Isto basta. Se logo à frente entender que poderia ter feito melhor, assuma o compromisso consigo próprio pelo aperfeiçoamento dos movimentos seguintes. Bons exemplos são mestres por excelência; então, as próximas gerações herdarão um rumo. Há muito amor em se viver assim. Para sobreviver, o amor necessita de aprendizado e transformação. O amor não está pronto; ele precisa evoluir. A verdade também”.

Confessei que eu gostaria de deixar um legado de tamanho quilate. A jardineira explicou: “Na confluência do amor com a sabedoria, a luz é a maior de todas as heranças. Para tanto, cultive a si mesmo, a sua virtude será genuína. O equívoco mais comum é se valer de modelos preexistentes. Ora, ninguém é igual a ninguém. Cada consciência é um universo singular com experiências, percepções, sensibilidades, crenças, suposições e expectativas singulares. Logo, as verdades são díspares; porquanto, as necessidades de aprendizado também. Assim, o projeto de desconstrução e posterior reconstrução da obra de si mesmo – a Grande Arte – de uma pessoa jamais servirá de modelo para outra. Seja criativo, encontre o seu jeito, nunca haverá outro melhor para você. Somos os criadores das nossas próprias criaturas. A criatividade de encontrar um jeito autoral para erguer a si mesmo, em infinitos ciclos de aprendizados, transmutações e realizações demonstra uma consciência em sintonia com a expansão incessante do universo. Compreender como cada experiência será elaborada para fazer florescer uma virtude ainda em semente evidencia a mestria insólita de cada jardineiro”.

Fez uma pausa como se pensasse na melhor maneira de prosseguir com aquela explicação, fechou o caderno, se levantou e pediu que eu a acompanhasse. Andamos por alguns poucos minutos pelo jardim botânico até chegarmos a um lindo lago de águas espelhadas. Ela pegou uma pequena pedra e atirou no lago. A partir do ponto onde a pedra tocou na água, ondas concêntricas se expandiram para todos os lados. A mulher apontou para aquela imagem e disse: “O lago é o mundo. A pedra lançada representa cada um dos seus movimentos, como o epicentro das ondas que deslocam as águas do lago até as margens da realidade. Imagine que não seja um deslocamento qualquer, mas a transferência evolutiva de um movimento aperfeiçoado. Um após outro, ao se mover de maneira virtuosa, você permite a oxigenação das águas, estimulando a regeneração da vida submersa no lago. Do âmago do indivíduo aos confins do universo, a luz gerada em cada movimento trará prosperidade a sua casa, fartura à aldeia e o mundo conhecerá a vestidão sem limites do amor e da sabedoria. Cada gesto virtuoso é parte valiosa a compor uma herança luminosa”.

Havia humildade e simplicidade nos olhos da jardineira ao me lembrar de um aspecto essencial: “Jamais aja com a pretensão de mudar o mundo. Você fracassará na fragilidade do orgulho e se perderá nos labirintos vazios da vaidade. Tudo se modifica ao se mover com sincera intenção de apenas transformar a si mesmo. Somente através do pequeno se tem acesso ao grande. O mundo muda na exata medida do aperfeiçoamento pessoal, na qualidade das ações simples do cotidiano, no bom trato com toda gente. Apontar os grandes defeitos do mundo qualquer tolo é capaz; corrigir os próprios equívocos, mesmo que somente os pequenos, apenas os sábios estão dispostos. Sonhos de grandeza são fugas para evitar o esforço da reconstrução pessoal, na vã tentativa de não ter de lidar com as dificuldades das suas dores e dos medos. Acreditam que ao mudar o mundo encontrarão um lugar agradável para viver. Um devaneio vulgar. Cada um vive dentro de quem se torna a cada dia. Morar em lugares paradisíacos nunca impediu ninguém de se envolver em confusões sem fim. Os conflitos não são do mundo. Estão no mundo porque as incompreensões individuais as criam como mecanismos de dominação, ganância, inveja ou intolerância. É impossível impor essa desconstrução àqueles que não a entendem ou desejam. Não se consegue moldar a verdade para ninguém. Apenas deixe fluir a nobreza da sua alma a cada gesto simples e humilde que praticar. Há muita luz em se viver assim. Apesar de muitos reclamarem do incômodo provocado pela claridade inesperada, comportamento típico de quem está afeiçoado à escuridão, alguns se mostrarão encantados com a lucidez repentina, porém, fugaz. A claridade passageira permitirá instantes de compreensão e bem-estar naqueles que se beneficiaram no convívio, ainda que breve, contigo. A partir daí, surgirá em cada um deles a vontade de se dedicar à própria reconstrução em movimentos contínuos de aprendizado, transmutação e realização. Contudo, apenas se mova; nunca peça para que o acompanhem. Se insistirem segui-lo, jamais permita. Líderes e gurus, mesmo sem intenção, terminam como carcereiros de multidões cegas e inseguras. Ninguém evolui na mera ação de copiar alguém. Para cada consciência, um caminho e uma obra singular”. Indaguei como ela sabia daquelas coisas. A botânica sorriu e ponderou: “Como sei que é assim? Primeiro, conheça a si mesmo; em seguida, aperfeiçoe os seus movimentos e deixe o mundo fluir; depois, observe ao redor. As boas sementes não param de florir”.

Em seguida, apanhou um punhado de pequenas pedras e as atirou em cantos distintos do lago como se entonasse uma sintonia com as águas. Uma fantástica mandala se formou no movimento inusitado de diversas ondas concêntricas que convergiam para formar uma imagem dinâmica. Ela sorriu e fez um gesto com a cabeça como se dissesse que eu precisava seguir a viagem. Agradeci a conversa e atravessei o portal.

Poema Cinquenta e Quatro

Bem enraizado, não será arrancado;

Um bom abraço nunca se esquece.

As próximas gerações herdarão um rumo.

Cultive a si mesmo,

A sua virtude será genuína.

Haverá prosperidade em sua casa,

Existirá fartura na aldeia

E o mundo conhecerá a vastidão.

Através do pequeno se tem acesso ao grande.

Como sei que é assim?

Observe ao redor.

2 comments

Rhodolfo Diniz novembro 21, 2023 at 11:30 pm

Gratidão! 🙏😁

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Terumi dezembro 21, 2023 at 1:00 am

Gratidão 🙏

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