TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Quinquagésimo nono limiar – A estrada do tempo)

Paris, Rue de Montmorency. Eu estava diante de uma enorme casa de pedras. Entrei. Havia muitas pessoas no salão térreo. Um homem com olhar firme e bondoso, organizava aqueles que buscavam um abrigo temporário ou uma refeição para afugentar a fome. A única exigência do homem é que antes fizessem duas orações em uma só voz. Após rezarem o Pai Nosso e a Ave Maria, todos se dirigiram ao refeitório. À exceção de nós dois. O homem possuía uma aura clara que impressionava e um sorriso capaz de acolher o mundo. Aproximou-se e disse com naturalidade: “Eu o esperava”. Em seguida, me convidou para um passeio. Queria me levar para conhecer o seu laboratório. Enquanto andávamos à margem do Sena, comentei sobre a generosidade em auxiliar tanta gente sem se descuidar dos seus afazeres profissionais. Ele ponderou: “Para governar o povo e servir ao Céu, faço uso da sensatez. Preciso harmonizar todas as vozes que me habitam sob um mesmo propósito, mantê-las sob um único trilho, a luz. Se eu não pacificar os meus relacionamentos intrapessoais, as relações interpessoais se manterão conflituosas e dolorosas. Jamais conseguirei a plenitude que tanto almejo. Preciso estar bem para melhor realizar o bem, de outro modo, o Céu me escapará. Ao contrário do que muitos imaginam, viver o sagrado não exclui as questões do mundo, mas está inserido nelas. Sirvo ao Céu quando em pequenas e singelas ações do cotidiano ofereço o amor improvável. Talvez mais do que quando acolho famintos e desabrigados naquele prédio. Ali, toda Paris sabe da caridade que a minha esposa e eu praticamos, fazendo com que parte do valor se perca. Somos reverenciados e incensados pela população, movimentos que inevitavelmente tocam a vaidade face a publicidade e aplausos. Contudo, quando ninguém nos vê ou sabe, e conseguimos tocar no coração de alguém com um gesto virtuoso, provocando o sorriso inesperado em um rosto endurecido pela dor, o sagrado se manifesta com toda a sua força e poder”.

Argumentei que aquelas pessoas eram gratas ao casal. Ele disse sim com a cabeça e explicou: “Sem dúvida, mas existe o inevitável constrangimento de depender da boa vontade alheia para sobreviver. Ninguém está ali porque quer ou gosta. Trata-se de uma situação de dependência quase absoluta. Quando conseguimos fazer de modo que não haja constrangimento, o amor se mostra ainda mais poderoso e transformador. Caridade é amor em movimento. Inexiste caridade maior do que mostrar ao indivíduo que ele pode se erguer e caminhar com os próprios pés. Qualquer ato capaz de mudar o destino de alguém para melhor, ainda que seja desperdiçado pelo destinatário da ação, faz com que o sagrado se manifeste. Não há poder maior do que aquele que habita no interior de cada pessoa. Embora tenha muita importância pelas realizações que permite, o dinheiro não se faz indispensável à solidariedade. O alcance do amor é infinitamente maior. Isto torna a caridade acessível a qualquer pessoa, independente da situação financeira, social ou cultural. Não existe gesto pequeno ou insignificante para a prática do bem. A ausência de afeto e respeito representam a autêntica miséria existencial”.

Ponderei o quão difícil é harmonizar o sagrado ao mundano em todos os atos do dia a dia. O benfeitor deu de ombros e disse: “É tão complicado como mudar qualquer hábito. As escolhas estão inseridas no rol dos costumes arraigados tanto quanto o gosto pelo açúcar ou pelo sal. Temperos em excesso são como rotas de escape ao paladar por mascararem o sabor original dos alimentos. Evoluir é aprimorar o paladar da alma através da pureza dos gestos; passar a usar a luz onde estávamos acostumados a se valer das sombras, gostar de fazer uso do bem quando acreditávamos que o mal servia de remédio ou era fundamental para temperar as nossas relações ásperas e complicadas. Aprender a se deliciar com uma aprimorada maneira de agir é o passo primordial para encontrar um novo padrão comportamental. Nas situações em que se cobrava moeda a moeda, passa a entender que lucra mais quem agrega virtudes à bagagem. Não há patrimônio maior do que a luz. Contudo, o bem nem sempre está na generosidade do sim. Por vezes, se manifesta na firmeza do não. A sensatez é a virtude adequada para o entendimento do momento certo de cada movimento. A hora de ficar ou partir, persistir ou deixar ir, falar ou calar, reagir ou esperar. Para conhecer a ação virtuosa adequada a cada situação, com todas a suas nuances e contextos específicos, se faz indispensável saber se o gesto é impulsionado por amor ou nos conduz à imagem que gostaríamos de expressar às multidões. Devo me perguntar se me movo por humildade ou orgulho, simplicidade ou vaidade, solidariedade ou ganância, compaixão ou rigor, sinceridade ou interesse, respeito ou esbulho, justiça ou vingança, pureza ou esperteza, misericórdia ou insensibilidade, firmeza ou insegurança, coragem ou covardia, precaução ou medo, alegria ou indiferença. A todo momento podemos decidir por virtudes ou sombras. Luz ou escuridão estão disponíveis a cada escolha. Não há decisão insignificante ou gesto que não mexa com a polaridade do bem e do mal. Quando o ato é virtuoso, a um só tempo, servimos ao mundo e ao Céu. A sensatez é quem arruma bagagem do viajante. Separa aquilo que têm utilidade daquilo que atrapalha a viagem. Tira o que pesa. Deixa apenas o que agrega, fortalece, equilibra e alegra. O que traz suavidade e leveza. A sensatez mostra onde está o amor. É o farol da consciência”.

Comentei que a sensatez é a virtude do equilíbrio. Ele concordou e acrescentou: “O equilíbrio traz a força. Não me refiro a agressividade dos ignorantes que nada sabem de si, mas ao impulso e à disposição daqueles que se colocam em constante movimento. A vida é incompatível com a estagnação. Se a cada indivíduo o Céu entrega conforme as suas obras, o agir se faz indispensável. Tanto a ação interna de elaborar as experiências quanto ao ato externo de compartilhar os resultados. No confronto do orgulhoso com o humilde, aos olhos dos imaturos a vitória será da empáfia; pela visão dos sábios vencerá aquele que não quis impor nem se sobrepor a ninguém, mas apenas seguir livre e em paz. Todo ato virtuoso é gesto de caridade pelo amor que manifesta. A sensatez traz a mestria do trato com o tempo”. Interrompi para dizer que não tinha entendido. O homem tirou um papel do bolso do casaco, procurou no texto as linhas adequadas e as leu: “Enquanto o tempo do corpo é medido pelos dias e horas planetárias, para o espírito o tempo se mede pelos ciclos evolutivos completados”. Em seguida, fez um comentário: “Os ciclos se enriquecem e finalizam a cada virtude agregada”. Buscou por outro trecho e continuou na leitura: “O amor vivido é a mais valiosa expressão do sagrado. Entenda como sagrado tudo aquilo que nos torna pessoas melhores. Esta experiência é revolucionária. A consciência do poder transformador do seu próprio amor se chama fé, o sagrado interior impulsionando cada gesto simples, sereno e sincero capaz de modificar a realidade”. Perguntei que texto era aquele e quem era o autor. Ele balançou a cabeça como se isso não tivesse importância e se limitou a dizer: “Filosofia e metafísica se completam na literatura alquímica”.

Antes que eu pudesse fazer outros questionamentos, chegamos à sua casa, em um bairro nobre da cidade. Fui recebido com delicadeza e educação pela esposa do benfeitor. Era uma mulher alta, de cabelos negros, sorriso sincero, modos gentis e uma aura clara como a do marido. O benfeitor disse que me mostraria o laboratório localizado no porão. Descemos uma escada estreita iluminada por candeeiros. Havia tubos de ensaio, cadinhos de porcelana, bicos de fogo, entre outros objetos e pergaminhos que compunham os laboratórios medievais. Ele confessou: “Vou desativar esse local. Durante anos busquei a pedra filosofal, a fórmula capaz de transformar metais pesados como o chumbo em ouro ou que servisse na preparação do elixir da vida eterna”. Comentei que de fato aquilo era bobagem, pois jamais conseguiria. O homem me desconcertou: “Eu a encontrei. Por isto vou me desfazer desse material. Não é mais necessário”. Diante do meu espanto, ele continuou: “Agregar virtudes expande os limites, nos faz evoluir para além dos desequilíbrios geradores dos sofrimentos e medos; permite sentir sem sofrer; faz das virtudes os valores de construção de uma vida plena, a Grande Arte. Expandir limites é viajar ao desconhecido de si mesmo. É um processo contínuo e sem fim de aprendizado e transmutação. O mundo se expande na medida do meu aprofundamento pessoal. A realidade se modifica na mudança do meu olhar. Evoluir é amar mais e melhor. Ampliamos e aprofundamos o amor através dos compromissos transformadores que assumimos com a luz, que irá se manifestar e intensificar por intermédio de cada uma das inúmeras virtudes que pouco a pouco agregamos à bagagem para as utilizar durante a viagem. Quanto mais, melhor. Isto permite dominar o reino. Dentro de cada pessoa habita muitas vozes como manifestações de nossos pensamentos e sentimentos oriundos, ora dos mandamentos sociais, ora da maneira como elaboramos as experiências vividas. Ao discutirem, essas vozes produzem desequilíbrios emocionais e fraquezas mentais exteriorizadas por reações impulsivas de medo ou violência. Quando dialogam, conseguem pacificar o universo interior ao dissipar contradições e inseguranças, desmanchar incompreensões, descontruir mágoas e conflitos, nos reestruturando mental e emocionalmente. Assim, fechamos ciclos evolutivos compostos de aprendizados e realizações. Então, as experiências planetárias se encerram pela desnecessidade de seguir na sequência longínqua de um sem-número de nascimento e mortes do espírito por intermédio dos diversos personagens em seus respectivos corpos físicos, atributos e condições existenciais na esteira do próprio entendimento e construção. Restará a essência, a verdadeira identidade, que parte para uma nova jornada rumo às Terras Altas, um lugar além do tempo, para experienciar padrões mais elevados de relacionamentos e amor. Em linguagem comum às religiões, a conquista da vida eterna”.

Falei que fazia sentido, mas indaguei pela fórmula que transformava chumbo em ouro. Ele balançou a cabeça como se esperasse por essa pergunta e explicou: “Está tudo relacionado. Ao transformar chumbo em ouro conquistamos a imortalidade. Ao alcançar a mãe do reino é possível vencer o tempo”. Ao notar um ponto de interrogação na minha fisionomia, esclareceu: “A alma é a mãe do reino, pois é quem tudo gera e mantém. O ego é o pai, aquele que cria e protege. Quando dissonantes, vivemos anos cinzentos como o chumbo, de muitos conflitos, medos e sofrimentos. À medida que enamoramos um ao outro, adquirimos equilíbrio e força, suavidade e leveza. Isto somente acontece quando o ego se apaixona pelas virtudes, os atributos da luz que tanto encantam a alma. Ao alinharmos os dois sob um mesmo eixo e propósito, os unificamos em casamento. Assim, damos início à fase dourada da vida devido à luz proveniente das virtudes conquistadas e aplicadas ao cotidiano. Chegamos ao fim dessa estrada chamada tempo”. Franziu as sobrancelhas e alertou: “Não fique triste, outros caminhos ainda mais belos nos esperam. A viagem continua”. Apontou para a minha cabeça e disse: “O verdadeiro laboratório alquímico é a consciência”.

Questionei o motivo de uma descoberta tão simples demorar tanto tempo para ser revelada. O homem sacudiu a cabeça como quem discorda e explicou: “A verdade nunca foi negada. São as multidões que nunca se interessaram por ela. A verdade é para os humildes e simples, pois exige a retirada das máscaras enfeitadas que se sobrepõem a realidade indesejada. Poucos estão prontos ou dispostos ao esforço das mudanças. Querem continuar sendo quem são, mantendo olhares que mostram as mesmas cores, caminhos que levam ao mesmo lugar, comportamentos que mantêm velhos conflitos e mágoas insolúveis. Amaldiçoam a sorte e a vida, reclamam do mundo. Não se dão conta que o mel dos dias está à disposição, oculto por trás das próprias incompreensões. Tudo começa e termina na pacificação do universo interior. A liberdade, o amor, a dignidade, a paz e a felicidade dependem tão e somente de elaborações internas para se fazer ver e valer”. Fez uma breve pausa, como se fosse assaltado por uma lembrança, e disse: “Não se iluda de que a partir daí os dias serão sempre como manhãs ensolaradas de um domingo eterno. Isso não vai acontecer. As oportunidades evolutivas costumam se apresentar com as roupas das dificuldades, chegam escondidas debaixo dos mantos dos desafios. Não raro, o amor mais profundo parece uma assombração. Ou maldição. É quando muitos tombam, se desesperam ou desistem. Para quem tem raízes profundas, está alicerçado em virtudes, busca a verdade codificada por entre os enredos atribulados da existência como quem vai ao encontro do melhor que há em si, nada conseguirá o arrancar do seu eixo de luz nem o impedirá de seguir em frente. As tempestades o sacudirão sem conseguir derrubá-lo. Se o poder da vida é gerado no laboratório alquímico da consciência, ninguém está impedido de conhecer e trilhar o Caminho da imortalidade, tampouco de encontrar novas equações para solucionar recorrentes problemas. A verdade e as virtudes libertam das fronteiras do tempo”.

Perguntei o que seriam as raízes profundas a que se referira. Ele explicou: “Significa um alto grau de conhecimento sobre si mesmo, um enorme nível de comprometimento com a verdade já alcançada e a utilização das virtudes disponíveis na bagagem. É a coerência estreita entre o saber e o fazer que estabelecem a nossa força e equilíbrio”. Fomos interrompidos pela esposa do alquimista. Ela o lembrou de um compromisso na Igreja de São Tiago Maior, não muito distante dali. Fui convidado a acompanhá-los. Fomos conversando descontraidamente sobre os costumes parisienses da época até chegarmos ao local. Ele pediu para que eu entrasse pela torre anexa ao prédio principal. Nos despedimos ali. Os sinos começaram a tocar. Eu sabia o que me esperava. As portas se abriram quando pisei no degrau de acesso.

Poema Cinquenta e Nove

Para governar o povo e servir ao Céu,

Faça uso da sensatez.

A sensatez traz a mestria do trato com o tempo.

Agregar virtudes

Expande os limites e

Permite dominar o reino.

Ao alcançar a mãe do reino

É possível vencer o tempo.

Quem tiver raízes profundas

Conhecerá o Tao da imortalidade.

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