TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Vigésimo quarto limiar – Só existe escuridão onde não deixam a luz entrar)

A construção tinha uma estrutura circular. Carroças e charretes estavam estacionadas na entrada. A chuva do dia anterior deixara a rua enlameada. A lama se misturara ao excremento dos animais, deixando um cheiro desagradável. No interior, a céu aberto, em uma arena ao centro, era encenado um espetáculo teatral. As pessoas assistiam de pé, manifestando as suas emoções sem nenhum pudor. Embora o cartaz na porta anunciasse se tratar da estreia, eu conhecia aquele texto. Um dos melhores que já havia lido. Fascinado, observei o espanto do público quando o banqueiro exigiu apenas algumas gramas da carne do coração do mercador para compensar a quitação do empréstimo que ele não tinha dinheiro para pagar. Eram diálogos atemporais. Mesmo tendo se passado alguns séculos, poucos autores conseguiram abordar tão bem os aspectos sombrios da personalidade humana como aquele dramaturgo. Ao final, a plateia aplaudiu. Aos poucos, foram saindo, não sem comentar como aquela história, de pura ficção, os abalara. Isto os faria pensar. Eram os exageros propositais da trama que, de alguma maneira, ao incomodar, evidenciava o que cada um se negava a aceitar em si mesmo. O valor da arte está no seu potencial de transformação. Inveja, preconceito, usura, mentiras e ganância eram apenas algumas das sombras abordadas naquele texto.

Os atores deixaram o palco antes mesmo de todo o público se retirar do teatro. A só, percorri o interior do prédio. Pequenos cômodos, sem qualquer ostentação, serviam de camarins para os artistas, que se despiam das fantasias e se permitiam mostrar o rosto modificado pela maquiagem. Uma escada estreita levava ao andar superior que ocupava apenas uma pequena parte do prédio. Alheio a movimentação, um homem escrevia entre maços de papel. Perguntei se era o autor da peça, o homem fez sim com a cabeça. Enquanto com uma das mãos continuava a escrever, com a outra fez um gesto para eu me sentar em uma cadeira que estava no canto. Acomodei-me. Elogiei o texto encenado. Falei que era um dos meus favoritos. Ele sorriu timidamente em agradecimento. Acrescentei que se passaria muito tempo até que outro escritor fosse capaz de abordar a alma e as sombras com tanta clareza e sensibilidade. A importância disto estava diretamente ligada à evolução da humanidade, pois somente haveria um mundo melhor para se viver após o devido conhecimento e posteriores ciclos de iluminação das sombras pessoais. O homem fez sim com a cabeça e disse: “As sombras são muitas. Pior, são traiçoeiras. Elas nos convencem que ao seu lado seremos mais fortes, equilibrados e poderemos pular etapas do Caminho. Ledo engano”. Perguntei se este era o motivo pelo qual ele dedicara a escrever sobre as sombras. O homem explicou: “Em verdade, quero mostrar o valor da luz. Antes, porém, se faz necessário conhecer os truques das sombras e as armadilhas que usam para nos aprisionar”.

Ele prosseguiu: “As sombras nos fazem acreditar que somos enormes. Diz que basta ficar na ponta dos pés. Ocorre que quem fica na ponta dos pés perde o equilíbrio. De nada adianta eu me mostrar maior do que sou, pois há de chegar a hora que terei de mostrar a força que aparento, mas sei que não tenho. O medo de arrancarem a máscara que esconde quem verdadeiramente sou, me leva a constantes desequilíbrios. Diante da menor ameaça, sofro sem entender a causa da agonia de viver um personagem alheio à minha verdade. Vivo como um ator em busca de aplausos e elogios ao final de cada cena. Ao contrário do teatro, a vida é real e de viés; em algum momento, vai expor a minha face sem qualquer disfarce. Tenho uma existência assombrada pelo medo desse dia, quando terei de encarar o meu próprio reflexo diante do espelho da realidade. Nego, mas sei. É triste. É assim que a maioria se comporta, embora não admitam. Vivem em busca de aprovação e aceitação como um esfomeado precisa de pão e água. Estão perdidos em si mesmo”.

Comentei que o orgulho e a vaidade eram sombras tão corriqueiras que alguns as veem como atributos positivos. O dramaturgo esclareceu: “Sim, são tão comuns que já causam admiração em muitos. Mas há muitas outras. Veja os espertos, no sentido pejorativo da palavra. Vivem a procura de atalhos, para se pouparem do esforço indispensável ao Caminho, que é propositalmente longo no intuito de fortalecer a firmeza e o aprendizado do andarilho, expressada em confiança e equilíbrio, cujos pilares estão na própria alma. As dificuldades serão enormes como método eficiente para que a alma desenvolva todo o seu poder. No entanto, ninguém deseja por dificuldades e adora evitar qualquer esforço. Querem o destino, mas desprezam a estrada. Por isto, atalhos sempre serão uma sedutora tentação. Ocorre que atalhos são veredas que não levam a lugar nenhum. Quem estica o passo para apressar a viagem, não vai longe”.

Dobrou as folhas de papel, as guardou na gaveta sob a mesa, e disse: “A parte mais importante na construção de um castelo são os seus alicerces, que ficam debaixo do solo, sem qualquer atrativo ou beleza aparente, onde os olhos não alcançam. Quando se visita um castelo o povo não pergunta sobre os seus pilares, não os admira nem conversa sobre eles. Por isto, poucos dão aos alicerces o valor e o cuidado que merecem. Estão preocupados com os quadros na parede, com as flores da janela, com o luxo dos móveis e o requinte da porcelana. Não se dão conta dos fundamentos que mantém a construção erguida, firme e inabalável mesmo durante as tempestades mais rigorosas”. Deu de ombros e disse em tom de sussurro: “Quem vê apenas com os olhos enxerga mal”.   

O escritor prosseguiu: “O maior dos enganos está em acreditar nas aparências como representação da verdade. Há quase nenhuma. É preciso conhecer a essência de si mesmo para entender o significado de todas as coisas. Quem viajou pelo mundo, mas nunca mergulhou no próprio coração, possui muita informação, mas nada sabe. Usa os enganos sobre si mesmo como régua e compasso para medir todas as situações e pessoas. Assim como os alicerces de um castelo, a verdade permanecerá oculta sob a superfície dos gestos, palavras e situações. Como se a vida fosse um espetáculo, interpretam os heróis das guerras vazias. Um texto rico escrito para esconder um pretexto pobre. Tudo errado. Quem se vangloria não é respeitado. Quem se considera o melhor, nenhum merecimento possui. Nada sabem sobre si mesmo; este é o enredo da tragédia humana. Usam a arrogância e a prepotência para manterem distantes todos aqueles que, de alguma maneira, ameaçam revelar a fragilidade e o desequilíbrio inconfessáveis; se recusam a dialogar com a verdade até mesmo onde ninguém mais os ouviria. Vivem o personagem em detrimento da essência; priorizam a fantasia para evitar a realidade. Ao enviarem o personagem para a arena dos relacionamentos, impedem o aperfeiçoamento de quem são, apenas possível quando vivida através da simplicidade da alma, despida de truques e subterfúgios. O aprimoramento do ser apenas será possível na forja do viver”.

Em seguida, me surpreendeu: “A vida é arte quando propulsora da transformação do indivíduo em si mesmo. Contudo, acreditam que podem tratar a vida como se fosse um espetáculo de fantasias, máscaras e ilusões. Não se percebem atores em um enredo de final dramático. A vida é uma jornada na qual o viajante vai se despindo do personagem que ele nunca foi. Somente assim poderá encontrar consigo próprio, cuja essência guarda o genuíno centro de poder e luz. Todos podem”.

E finalizou: “Essa é a semente que planto com os meus escritos. Mas se faz necessário um solo fértil para que germinem, situação impossível enquanto o indivíduo se deixar enganar pelas falsas e fugazes sensações de poder das sombras que, em melhor análise, servem apenas para fragilizar e desequilibrar. Orgulho, vaidade, ciúme, ganância, entre várias outras, para quem segue o Caminho, são como tumores. Desespero, medo, sofrimento, tristeza e agressividade são os sintomas de uma alma enferma”. Questionei qual seria a cura. O dramaturgo esclareceu: “As virtudes são os eficientes elixires usados para iluminar as sombras e, assim, as desmanchar. Para encerrar a escuridão, apenas a luz.”. Fez uma pausa e disse: “Mas isso já é assunto para outra conversa. Por ora, basta saber que quem conhece o Caminho, não negocia a verdade, a última fronteira alcançada pela sua percepção e sensibilidade, para jamais se afastar do seu centro de poder, a essência, nem abdicar dos seus princípios orientadores, as plenitudes, nem dos valores construtores, as virtudes. Ajuda aos que querem se levantar, assim como aqueles que precisam de luz para sair da escuridão, sem jamais carregar ou se aprisionar àqueles que se negam a caminhar, e segue em frente”.

Sem dizer outra palavra, o escritor pegou uma flauta e fez um gesto para eu o acompanhar. Estava na hora de eu seguir a minha estranha viagem. Fomos para o palco. Não havia mais ninguém no teatro. Ele tocou uma canção que impelia o corpo a se movimentar. Sem demora, comecei a rodopiar devagar, acelerando aos poucos até girar o mais rápido que podia. Sob os meus pés surgiu uma enorme e colorida mandala. Como se atraído por magnetismo e gravidade, apenas me deixei conduzir através daquele portal encantador.

Poema vinte e quatro

Quem fica na ponta dos pés

Perde o equilíbrio.

Quem estica o passo

Não vai longe.

Quem vê com os olhos

Enxerga mal.

Quem se vangloria

Não é respeitado.

Quem se considera o melhor,

Nenhum merecimento possui.

Para quem segue o Tao,

São como tumores.

Quem conhece o Tao,

Não negocia a verdade.

E segue em frente.

2 comments

Terumi junho 22, 2022 at 1:14 am

Gratidão 🙏

Reply
Fernando Machado julho 2, 2022 at 11:30 pm

Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas 🌟

Reply

Leave a Comment