TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Quinquagésimo sétimo limiar – A rota da luz)

A lua estava alta no céu. Limpas e bem cuidadas, as ruas eram iluminadas por lampiões a óleo. Aquela casa pintada de branco não me era estranha, embora naquele momento ainda estivesse em seu formato e tamanho originais, sem os acréscimos construídos ao longo de muitas décadas. Não havia guardas ou sentinelas no portão. Entrei. Passei por salas e corredores elegantes sem me deparar com ninguém, até encontrar sentado à escrivaninha um homem alto, descabelado e barba mal aparada que me recebeu com um sorriso acolhedor. Ele perguntou com a voz gutural: “Posso ajudar?”. Falei que era um viajante em busca da verdade. Fazia uma jornada através do inconsciente coletivo na tentativa de desmanchar todas as minhas incompreensões sobre quem eu era para, somente então, ter acesso à compreensão da vida. O homem não demonstrou espanto diante das minhas motivações. Apenas comentou: “Em geral, as pessoas costumam trilhar o sentido inverso. Vão ao mundo na ilusão de que lá encontrão as respostas e as maravilhas que as aguardam dentro delas. Perdem-se por não compreenderem os movimentos primordiais da verdade”. Admiti que eu também já fizera o percurso de ir ao mundo sem obter nenhum resultado; a equação ainda estava pendente; por isto, a necessidade de realizar a jornada interior. Comentei que eu conhecia aquela casa, assim como sabia quem ele era. O homem esboçou um sorriso humilde e disse: “Estou à sua disposição”. Indaguei como cuidar de um povo sem se perder nos labirintos do poder. Ele acomodou a pena dentro tinteiro, sugeriu que eu me sentasse em uma das poltronas, e ponderou: “Governa-se um reino com clareza”. Comentei que naquela viagem havia aprendido que, no código poético do Tao Te Ching, havia um reino dentro de cada pessoa, habitado por um sem-número de ideias e sentimentos a espera de direcionamento, compreensão e acolhimento, sem os quais ninguém conhecerá a liberdade, o amor, a felicidade, a paz nem a dignidade. Questionei se era disso a que se referia. O homem disse sim com a cabeça e acrescentou: “Também. Cuidar bem de um povo exige o mesmo carinho com que cuidamos de nós ou dedicamos às pessoas amadas. Em verdade, o amor com que o indivíduo se trata, os sentimentos que o envolvem e as ideias que o movem determinarão o formato e o destino da sua administração. Cada pessoa gerencia e é responsável por si mesma. Ou deveria ser. O jeito de cuidar e lidar com os outros revela o amor e a sabedoria já despertados ou o nível de consciência atuante naquele momento”. Olhou-me com seriedade e disse: “Se prestar atenção perceberá que esse raciocínio se aplica em todas as nossas relações. Qual o seu desejo? Qual a intensidade do compromisso aplicado para o alcançar? Vale-se dos meios adequados e éticos para os realizar? Qual a autêntica intenção dos seus movimentos no trato com toda gente? É legítima a expectativa que possui sobre as pessoas e os acontecimentos? O quão distante da verdade estão as suposições criadas na tentativa de preencher os vazios do conhecimento que ainda não possui? Quanto de insistência tem sido empregada na tentativa de evitar a verdade desconfortável? Se houver lucidez para encontrar as respostas para essas perguntas simples, aceitará com serenidade tanto as realizações, que talvez aconteçam, assim como as consequências que certamente virão. Todas essas elaborações internas se refletem nas suas relações com o mundo; enquanto incompletas, geram conflitos, medos e sofrimentos. Lamente-se consigo mesmo, jamais com a vida”.

Pedi para que aprofundasse aquela ideia. O homem ponderou: “Para serem justas as relações precisam ser claras. A verdade, quando não exposta com nitidez e minúcias se torna elemento de discórdia pela ausência de compreensão. No transcorrer das relações, as confusões se acumulam para romper em uma sequência sem fim de embates, formando um emaranhado de mágoas e ressentimentos, não apenas difíceis de dissolver, mas nos impedindo de ir além de quem somos. A aspereza e o distanciamento dos relacionamentos retratam as nossas dificuldades. Para administrar um país não é diferente. Quando a verdade não está clara em mim, eu não a terei para oferecer a ninguém. Quando ela está clara para mim, mas não a expresso integralmente, posso tornar desonesta a relação, ainda que não seja esta a minha intenção. A falta de clareza pode ser compreendida como má-fé por aquele que sofreu o prejuízo. Ocultar parte da verdade equivale a negar a verdade. Sem manifestar a totalidade das minhas intenções, ideias e sentimentos de modo sincero, transparente e objetivo, a verdade escapará ao meu interlocutor. Se acontecer, ele se sentirá prejudicado ou injustiçado, não sem razão. A falta de um único elemento, de todos que compõem determinada verdade, a contaminará por completo. Ao contrário do dito popular, pingo não é letra. As lacunas da verdade calada serão preenchidas de acordo com o entendimento, interesse ou vontade daquele que ficou privado das palavras nunca pronunciadas. A confusão será farta. Ninguém vive bem assim”.

Questionei como agir quando somos atacados. Não raro, o mundo nos provoca a reagir, nos arranca a tranquilidade e rouba o melhor que nos habita. O homem deu de ombros e comentou: “Apenas se você permitir”. Depois, franziu as sobrancelhas e disse: “Na guerra se faz uso das artimanhas. Motivados por medo e ganância, aprendemos técnicas de combate desde tempos imemoriais. A História da Humanidade é narrada por intermédio das guerras. O conflito é o ponto central da narrativa e molda os modelos culturais de muitos povos. Os vencedores são consagrados como heróis e os derrotados são varridos dos livros como se fossem insignificantes e desprovidos de valor. Embora o conceito quase nunca seja explicitado, a mensagem subliminar legada pelos conflitos, e aprendida desde a tenra infância, ainda modela o comportamento que usamos em nossas relações. Com o conceito de que sou vitorioso quando dobro alguém à minha vontade e sou derrotado quando os meus interesses naufragam diante do desejo alheio, trazemos para o microuniverso dos relacionamentos pessoais os formatos absurdos das conquistas históricas alcançadas com submissão e sofrimento”.

Perguntei como fazer para não ficar aprisionado a esse modelo curto e raso. O homem coçou a barba, fez um trejeito com a cabeça como quem diz que não seria de fácil compreensão, e iniciou a explicação: “O mundo se conquista sem nada fazer. Quando digo isso, não me refiro a se tornar um adepto da inércia ou acreditar na estagnação como veículo da prosperidade. Contudo, todo agir externo precisa estar respaldado em um movimento interno de transformação e desenvolvimento. As vitórias no mundo apenas trazem representatividade e significado quando reflexos dos aperfeiçoamentos intrínsecos. Do contrário, serão vazias em conteúdo e incapazes de gerar qualquer transformação evolutiva”. Apontou a rua pela janela e disse: “O que fazemos lá fora”, em seguida apontou para o próprio peito e prosseguiu: “Precisa antes acontecer aqui dentro”. Fez uma breve pausa antes de concluir: “Se as ações não estiverem alicerçadas na alma, de pouco ou nada servirão à vida”.

Ajeitou a gravata e continuou: “São com movimentos despidos de notoriedade que nos tornamos aptos a conquistar o mundo. Repare que ninguém consegue tamanha proeza sem que antes tenha vencido a si mesmo. Este é o ponto angular. As conquistas intrínsecas estabelecem a vitória da vida. Aquele que tem a verdade enraizada em si age com serena sensatez até mesmo quando sabe que terá de arcar com sérios prejuízos materiais; o indivíduo compromissado com a luz abdica das sombras e evita o mal com naturalidade. O indivíduo virtuoso não se vê como um herói, mas como um viajante que se encanta com a luz e se move através dela. Sem causar interesse às multidões e jamais fazer parte dos noticiários, se movimenta imperceptivelmente pelos dias, porém, por onde passa, a sua luz ilumina os becos escuros daqueles perdidos em suas próprias incompreensões. Sem nenhum esforço. Silenciosamente. Muitos dirão que ele nada fez ou conquistou. O viajante não rebate nem se abate. Somente segue levando consigo o poder do mundo através das maravilhas do amor experenciado”.

Indaguei como ele sabia disso. “Como sei que é assim?”, o homem arqueou os lábios em singelo sorriso e respondeu: “Quanto mais leis, maior a miséria. Os códigos legislativos são importantes para demarcar direitos e deveres. Não importa quão rica seja uma sociedade; quanto mais adormecida for a consciência do povo, maior será a quantidade de regras necessárias para manter a ordem imprescindível ao convívio comum”. Fez uma pausa para expandir o raciocínio: “Se levar em conta que cada pessoa vive em si mesmo, administrando um reino de múltiplas ideias, sentimentos conflitantes e memórias delicadas, quanto mais primitivos forem os instintos, quanto mais profunda for as incompreensões, mais muros serão erguidos. Assim como as leis, os limites necessários às relações, são os muros que protegem o indivíduo dele mesmo, dos arroubos selvagens e desejos inconfessáveis que ainda o impulsionam. Na medida que a consciência se expande e refina, as leis deixam de existir por falta de utilidade. Diferente não acontece em nossos relacionamentos; quanto menor for o alcance da consciência, maior a necessidade das distâncias e o rigor dos limites impostos”. Deu de ombros e concluiu: “Enfim, quanto mais afiada for a espada, significa que maior é a desordem existente. Quando os relacionamentos se amiúdam, a vida se apequena”.

Ele prosseguiu: “Do mesmo modo, quanto mais engenhoso for o povo, maior a inutilidade das suas invenções”. Interrompi para dizer que não tinha entendido. O homem esclareceu: “Criamos mecanismos de escape para não lidar com o incômodo da verdade; com isto, sem darmos conta, geramos as nossas próprias limitações. Construímos raciocínios tortuosos para justificar os erros que teimamos em não admitir, sem entender que a compreensão desses equívocos é a forja primordial da evolução. Valemo-nos de boas ideias para validar os maus atos, trilhamos atalhos mentais na tentativa se suportar as nossas mentiras, atribuímos ao mundo a responsabilidade pelos nossos sentimentos enfermiços. Jogamos nas regras das sombras por acreditar que nos levarão de modo mais rápido e fácil onde nos julgamos incapazes de chegar com dedicação e comprometimento. Ao contrário do que acreditam, fugitivos se distanciam da liberdade sem jamais a conquistar”.

Indaguei como fazer para corrigir a rota. O homem arqueou os lábios em singelo sorriso, ao se recordar de um antigo ensinamento, e filosofou: “Por isto o sábio diz: ‘eu nada faço e o povo se transforma”’. A explicação veio em seguida sem que eu o questionasse: “O mundo se modifica na mudança de cada olhar. A autêntica revolução é a da consciência. Com falei há pouco, apesar do poder coercitivo das leis, muitas vezes necessários para conter o desatino das incompreensões, elas são incapazes de gerar o conteúdo indispensável às transformações, funcionando apenas como paredes de contenção, impondo comportamentos de mera aparência, como maquiagens que se desmancham na garoa fina e desavisada de uma tarde qualquer. Contudo, quando as mudanças são intrínsecas, as sementes brotam e as raízes se aprofundam. Surge dentro do indivíduo os pilares de uma nova construção existencial. As transformações se tornam eficazes e definitivas até que surja a necessidade de novas mudanças, alterando angularmente todas as suas relações. Incessantemente. Esta é a origem da força mental de uma pessoa equilibrada emocionalmente”. A lição prosseguiu: “Eu fico quieto e o povo se corrige. O silêncio e a quietude são essenciais para os descobrimentos, encontros e conquistas internas, sem os quais os erros se prolongarão indeterminadamente, se acumulando em emaranhados de traumas, dores impossibilidades e limitações. Esse é o nó da vida que cabe a cada um desmanchar dentro de si. O desequilíbrio e o descontrole, fontes de todas as dores e medos, são retratos da incapacidade do indivíduo de gerar o silêncio e a quietude em seu âmago. Sem conseguir escutar a própria voz, ouvirá os ruídos do mundo como se fossem ideias sua autoria. Acreditará ser quem não é, fará escolhas que não são suas, a cada dia se afastará mais do seu eixo essencial, impedindo que entendimentos e transformações encontrem solo fértil para germinar. Todos temos um reino para cuidar e pacificar”.

Pigarreou para atenuar a rouquidão e continuou: “Eu não negocio e o povo enriquece. Não raro, para alcançarmos os nossos objetivos somos convidados a negociar com o mal, com as nossas sombras e as suas falsas promessas repletas de aparentes facilidades; ou a ceder às ameaças do medo que nos impede de avançar. Quando permitimos, rompemos a conexão entre ego e alma. O prejuízo será enorme, pois, se alma é o sábio que orienta, quem gerencia a consciência e decide é o ego. No distanciamento do ego com a alma perdemos a capacidade de discernimento, de separar o certo do errado, o bom do ruim; então, confundimos os tesouros do mundo com as maravilhas da vida. Acreditamos que aqueles nos levarão até esses. Ledo engano. Quando nos permitimos ser menos de quem poderíamos nos tornar, empobrecemos; a miséria existencial nunca é uma imposição da vida, uma questão financeira ou se restringe ao ingênuo impasse entre sorte e azar. Trata-se de simples, porém, fundamentais escolhas que realizamos várias vezes no decorrer de cada dia. A riqueza fundamental se resume na bagagem do viajante; qualquer outra é mera ilusão”. Perguntei qual seria a bagagem do viajante. Ele respondeu de pronto: “O próprio viajante. Todas as virtudes e verdades que usar em suas relações intensificam o maior de todos os poderes: a luz… a sua luz. Não há riqueza maior. Para tanto, não esqueça: a essência dos movimentos é interna e, por isto, invisível; porém, absolutamente real. As ações no mundo são igualmente fundamentais por concretizar as transformações e espargir a luz através de manifestações discretas, firmes e serenas, sempre aperfeiçoadas e sem qualquer resquício de conflitos, mágoas e medos. Não há como negar o inestimável patrimônio dessa bagagem”. Deixou o olhar vagar pela janela, como se tomado por uma delicada e lembrança, e salientou: “Em um dos momentos mais complicados desse país, fui impelido a fazer uma escolha: o fim da guerra ou a abolição da escravatura. Ambos os objetivos eram de absoluta importância. Tentaram me convencer que eu tinha que decidir entre a paz e a liberdade; afirmaram que eu jamais conseguiria alcançar os dois objetivos, que teria de aceitar um mal para obter um bem. Tal escolha era uma negociação nefasta, pois teria de aceitar o mal como inevitável, um mal que não me pertencia, mas que queriam me impor como solução. Aceitar a negociação seria abdicar da dignidade. Neguei-me. Não por ter vocação a feitos extraordinários, mas por considerar inadmissível essa absurda barganha. Seguimos na busca pela realização de nossos propósitos e ao final, não sem muita luta, conquistamos tanto a paz como a liberdade”. Perguntei se em algum momento sentiu medo ou receou da decisão tomada. Ele me explicou: “Quando esses pensamentos se aproximavam, e é comum que aconteça, eu os afastava por ausência de sentido e razão. Nunca faltará proteção para quem viaja na rota da luz”. Em seguida, concluiu: “Eu não tenho desejos de ser mais ou melhor do que ninguém, de me enebriar nos aplausos ou influenciar a vontade de outras pessoas a ponto de encolher as suas escolhas. Basta-me o poder sobre quem sou, a clareza de me perceber sem enganos e a determinação de não me afastar da luz. Tudo mais é menos. Quando o povo retorna à simplicidade, conquista a lucidez; o caminho se torna tão claro que as hesitações desaparecem. Sou ego e alma, vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, verdades e enganos, expansão e contração, sombras e virtudes, transcendência e sobrevivência, mundano e sagrado, corpo e espírito, chegadas e partidas, cais e travessia. Para a prosperidade do reino, o fundamental é encontrar a semente da luz oculta por trás de cada uma das minhas incompreensões. Confusos ou harmonizados, eis os habitantes do meu, do seu e de todos os reinos.”.

Entendi que as minhas relações, assim como o meu comportamento e escolhas refletem as compreensões e incompreensões que trago em mim. Isto define as condições e capacidades de um povo. O povo que habita e trabalha em minha consciência. Prosperidade ou caos dependerão de como consigo administrar esse singular, inusitado e fantástico reino. O presidente me sorriu em aprovação e finalizou: “As sombras só reinam na ausência da luz”. Calei-me. Com modos gentis, me pediu licença. Explicou que precisava se arrumar para assistir a uma peça no Teatro Ford a poucos quarteirões dali. Chegara a minha hora de partir. Os seus olhos apontavam para uma porta lateral. Agradeci a conversa e me despedi. Atrás da porta havia um jardim, não de flores, mas repleto de mandalas nos mais diversos formatos e cores. Escolhi sem medo e atravessei.

Poema Cinquenta e Sete

Governa-se um reino com clareza.

Na guerra se faz uso das artimanhas;

o mundo se conquista sem nada fazer.

Como sei que é assim?

Quanto mais leis,

maior a miséria;

Quanto mais afiada a espada,

maior a desordem.

Quanto mais engenhoso for o povo,

maior a inutilidade das suas invenções.

Por isto o sábio diz:

“Eu nada faço

e o povo se transforma.

Eu fico quieto

e o povo se corrige.

Eu não negocio

e o povo enriquece.

Eu não tenho desejos;

então, o povo retorna à simplicidade

e conquista a lucidez”.

2 comments

Michelle dezembro 31, 2023 at 7:10 pm

Obrigada!!

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Rhodolfo Diniz junho 8, 2024 at 7:58 pm

Gratidão pela reflexão!

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