TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Sexagésimo quinto limiar – O brilho e a luz)

A Segunda Grande Guerra tinha terminado havia pouco. Na Londres que se reconstruía, as pessoas ainda se esforçavam para colocar em ordem ideias e sentimentos aviltados por tamanho horror e destruição. Próximo a uma cafeteria, um homem muito alto, magérrimo, elegantemente vestido com um sobretudo de lã grená por cima de um terno azul-marinho bem cortado, me observava à beira da calçada. Apesar do óculos de grau de lentes grossas em armação miúda com aros arredondados, ao estilo dos intelectuais da época, ele espremia os olhos na tentativa de enxergar melhor. Ao me aproximar, apontou com o queixo um prédio deixado em ruína pelos bombardeios, e comentou: “As pessoas se orgulham da inteligência que as colocam em patamar superior aos animais. A mesma inteligência que, quando desprovida de amor, as faz descer ao nível de seres demoníacos”. Falei que eu pensava sobre isto naquele momento. Para alguém com evidentes problemas de visão, ele parecia enxergar acima da média das pessoas. O homem sorriu e ponderou: “Os olhos permitem ver o que emerge à tona. Não há dificuldade maior nisto. A superfície nos distrai com belas paisagens, ruídos de pouca importância, assim como nos assusta com suas distopias. O essencial está submerso nas profundezas da consciência, lugar ainda inacessível às multidões aflitas por resultados aparentes e imediatos”. Em seguida, me convidou para um café. Aceitei de pronto. Ao contrário do que imaginava, não fomos à cafeteria em frente. Ele fez sinal para um táxi. Fomos à casa da sua família em um subúrbio elegante da cidade, incólume ao bombardeio. Durante o trajeto, o homem disse que não morava mais lá. Havia se mudado para Los Angeles um pouco antes do início da guerra; dedicava-se a escrever livros para entender a sua geração e roteiros para encantar Hollywood. Permaneceria em Londres apenas por alguns dias, o suficiente para resolver alguns assuntos particulares. Perguntei se ele ficara triste ao encontrar a cidade destruída. Ele disse sim com a cabeça e acrescentou: “Amo Londres, um lugar cosmopolita e com incrível biodiversidade de ideias e comportamentos. Há de tudo por aqui. Até mesmo coisas e pessoas maravilhosas”, comentou com evidente bom humor. Lamentei a destruição provocada pela estupidez da guerra. O escritor franziu as sobrancelhas e ponderou: “Tenho genuíno fascínio pela filosofia oriental. Os antigos que a praticavam não instruíam o povo, mas tornavam simples os seus corações. Sem negar o valor do conhecimento e da inteligência, capazes proporcionar incríveis conquistas à serviço da humanidade, são atributos perigosos quando utilizados por pessoas despreparadas”. Indaguei como alguém culto e inteligente poderia estar despreparado. Ele explicou: “Todo indivíduo raso em virtudes está ainda despreparado para a vida. Conhecimento e inteligência são os padrões vigentes usados pelas sociedades atuais para enaltecer e reverenciar as pessoas em uma era de inegáveis avanços científicos. Um saber absolutamente neutro, como todas as coisas do mundo. O modo de usá-lo é que estabelecerá a sua polaridade negativa ou positiva. A Física, a Química ou a Matemática que elaboram máquinas destinadas à construção, também servem aos artefatos de aniquilação. Mentes privilegiadas que criam estatutos para exaltar a fraternidade e igualdade também são capazes de sancionar decretos para segregar e oprimir. O amor é o diferencial. O povo é difícil de governar quando sabe muito e ama pouco. Ardis, mentiras, armadilhas e escaramuças sofisticadas são criadas para alcançar objetivos imediatos de grandes ganhos financeiros ou de mera satisfação pessoal”. Questionei se sugeria haver mérito na ignorância. Ele negou com veemência: “Não falei isto. A ignorância é a raiz de todo sofrimento. Refiro-me ao acúmulo de conhecimento, em qualquer área do saber, por um sujeito de boa capacidade cognitiva, no entanto, pobre em virtudes. Imagine um cientista ou um magistrado que se enquadre nesse perfil. Um convite ao abismo. Trata-se de um incentivo ao desastre elevado à enésima potência quando o conhecimento e a inteligência são manipulados por um cérebro privilegiado, porém, movido pela escassez de um coração sem amor. A tragédia será inevitável. O uso do mal por indivíduos intelectualmente diferenciados escreveu os capítulos mais tristes e dolorosos da humanidade. No âmbito pessoal, o infeliz – sim, só os infelizes se aprazem com o mal – apesar de alçado ao pedestal do poder, da glória ou da fortuna, deixará um rastro de lágrimas, gritos silenciados e ressentimentos de preço alto, com longa e difícil quitação na esfera espiritual. Arruína-se um império ao governá-lo com muita inteligência e pouco amor. Destrói-se uma vida rica quando usufruída na pobreza de sentimentos nobres e sem qualquer apreço à ética. Somente enriquece quem governa com simplicidade”. Indaguei ao que ele se referia quando falava em simplicidade ou corações simples. O escritor esclareceu: “Uma poderosa virtude, indispensável para retirar os véus dos enganos, as máscaras do orgulho, as fantasias da vaidade e a voracidade da ganância sem a qual será impossível ao indivíduo discernir o bem do mal, o certo do errado. Sem a simplicidade, a imagem refletida nunca será a da verdade, mas da ilusão proporcionada pelas vitórias aparentes e rasas, sem nenhum resquício de amor para acrescentar na bagagem, a essência individual que nos traduz e conduz. A genuína riqueza ou a autêntica miséria que cada pessoa traz em si. Sem a simplicidade, a percepção e a sensibilidade, os pilares da consciência, confundirão as portas do céu com as do inferno. Entrará neste enquanto acredita ter chegado naquele”. Perguntei se ele era afeito a ideia de céu e inferno. O roteirista deu de ombros e respondeu: “Ambos estão dentro de mim, de você e de todas as pessoas. A cada escolha uma das duas portas se abre. A viagem estará sempre de acordo com o viajante”.

Antes que eu fizesse outro questionamento, o táxi parou em frente a uma mansão construída ao estilo vitoriano. Era um belo lugar, sem sinais dos horrores da guerra. Estava vazia. Lençóis protegiam os móveis da poeira. Ele abriu as cortinas, dando licença para o sol entrar. Sentamo-nos em poltronas próximas a uma janela com uma linda vista para o campo. Chamou-me atenção uma vereda que mais à frente se dividia em duas. O escritor notou e comentou: “Eis as duas estradas, conhecê-las é entender a virtude original”. Falei que não tinha compreendido. Ele explicou: “O bem e o mal são simples. Um sábio renascentista disse que a simplicidade é o expoente máximo da sofisticação. Sem simplicidade não existe clareza. O indivíduo mantém o olhar turvo e a complexidade na exata medida da incompreensão que possui sobre si mesmo. Colocar-se no lugar do outro para entender a qualidade e o alcance da sua ação é uma equação simples, porém, muitas vezes de aceitação complexa. Distante da simplicidade, quando ainda envolvido pelo véu dos enganos, construiremos raciocínios tortuosos e tendenciosos para encontrar conclusões de conveniência, ao próprio agrado, conforto e prazer. Porém, distante da verdade e das virtudes. Quanto mais inteligente for, mais brilhante será a justificativa. Construiremos explicações maquiavélicas para validar maus atos, argumentos sofisticados para negar o erro ou autorizar maldades. Falaremos de respeito, justiça e amor-próprio para encobrir atitudes repletas em desprezo, retaliações e egoísmo. Conceitos bons usados para finalidades ruins. Sombras, vícios e mentiras se fazendo passar por virtudes e verdades”. Olhou pela janela como se assaltado por uma lembrança recente e pontuou: “A sensatez é uma virtude importante por nos mostrar os perigos, entender os limites e viver o respeito”. Viver o respeito? Não conhecia aquela expressão. O escritor esclareceu: “O respeito pouco tem a ver com o comportamento dos outros em relação a você. Trata-se de uma postura pessoal de coerência com os princípios e valores que entende como virtuosos em todos os atos do cotidiano. Vive-se o respeito por amor à dignidade”. Fez uma pausa para me dar tempo de metabolizar as ideias e disse: “Há uma virtude um degrau acima da sensatez: a pureza”. Comentei sobre a pureza das crianças. Ele balançou a cabeça e me corrigiu: “As crianças têm como característica a ingenuidade por ainda não conseguirem distinguir o bem e o mal. Na idade adulta, a ignorância sobre o amor, por afetar a sensibilidade, um dos pilares da consciência, pode embaralhar o bem com o mal na mente de pessoas de grande capacidade intelectual e enorme erudição que, para satisfazer os seus interesses, desejos, prazeres e conquistas oferecem argumentos hábeis como um punguista surrupia a carteira sem que o incauto se dê conta”. Penteou os cabelos com a mão e argumentou: “Contudo, existem as pessoas que mesmo tendo o mal à disposição, se negam veementemente a usá-lo como meio ou método para alcançar os seus objetivos. Podem, mas não querem. Abdicaram do mal em suas vidas. Apenas o bem lhes serve como mecanismo de construção na obra de si mesmo”. Perguntei se a pureza era a virtude original. Ele negou: “A pureza é o refinamento do amor necessário à libertação do mal. Não falo das maldades do mundo, mas daquelas que ainda permeiam nossos pensamentos, sentimentos e escolhas. A virtude original é o amor. Apenas através dele chegaremos à origem da luz, onde toda escuridão será dissipada”.

Questionei se havia virtude sem amor. O escritor tornou a negar: “Sabedoria sem amor é esperteza no sentido vil da palavra. Sabedoria com amor é virtude no sentido mais nobre da expressão e de sua manifestação”. Deixou o olhar vagar por instantes pela bela paisagem rupestre e disse: “Tudo começa com a humildade, a simplicidade e a compaixão, como alicerces de uma construção. Depois surgem as demais. São fontes de força e equilíbrio, tanto para fomentar os movimentos internos quanto para sustentar os deslocamentos pelo mundo. As virtudes são amplas e profundas. Amplas por nos permitir avançar para além de quem somos. Ao evitar o cárcere das mágoas e a desnecessidade dos conflitos, nos ensina a caminhar com leveza e suavidade. São também profundas por nos conduzir a essência da vida, onde nos aguarda o grande tesouro que se traduz no aperfeiçoamento da própria alma, livre das incompreensões que geram todos os medos e sofrimentos. Trata-se de elementos fundamentais por não permitir que a viagem reste desprovida de sentido nem que o viajante se perca de si próprio”. Comentei que já havia me perdido de mim mesmo por inúmeras vezes. Não queria mais que acontecesse. O roteirista esclareceu: “O brilho e a luz são as duas estradas existenciais. Há muita desinformação sobre ambas. O conhecimento e a inteligência podem conduzir a uma ou outra. Somente o amor o levará em segurança até a luz”.

Fomos interrompidos por uma funcionária da casa. Trazia uma bandeja com café e biscoitos. O escritor agradeceu. Conversamos sobre o seu novo livro, no qual abordava que todas as tradições filosóficas e metafísicas convergiam ao encontro de uma mesma sabedoria primordial. Era um homem fascinante. Ao esvaziarmos as xícaras, ele me lembrou que tinha uma agenda de compromissos. Precisava retornar ao centro de Londres. Perguntei se eu poderia aproveitar a carona. Ele sorriu, deu de ombros, e indagou faceiro: “Porque deseja voltar a Londres se há outros lugares mais interessantes para conhecer?”. Os seus olhos estavam direcionados ao meu coração. “Somente aí encontrará a porta de todos os labirintos que, na verdade, é apenas um. Nenhuma cidade, por mais maravilhosa que seja, poderá lhe oferecer tamanho encantamento”. Sorri em sincero agradecimento pelo encontro e me despedi. Anoitecera. A lua cheia refletia a luz do sol oculto como uma estrada derramada pelo jardim. Era uma mandala. Prossegui a viagem.

Poema Sessenta e Cinco

Os antigos que praticavam o Tao

Não instruíam o povo,

Mas tornavam simples os seus corações.

O povo é difícil de governar quando sabe muito.

Arruína-se um império ao governá-lo com inteligência.

Enriquece quem governa com simplicidade.

Eis as duas estradas,

Conhecê-las é entender a virtude original.

As virtudes são profundas.

Elas nos conduzem a essência,

Onde nos aguarda o grande tesouro.

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