TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Sexagésimo nono limiar – Quando perder é ganhar)

Antigo Egito. Palácio Imperial. Um jovem faraó estava reunido com os ministros e os principais generais do seu poderoso exército. Ele expunha a sua decisão de construir uma nova capital ao sul da foz do rio Nilo. Em seu íntimo reinava a determinação de modificar os padrões bélicos que predominaram por séculos no modo de pensar e agir dos egípcios. Tirar a capital de Tebas, onde vícios comportamentais estavam arraigados por tanto tempo, ajudaria a mudar a mentalidade da população, descartando as guerras como modelos de enriquecimento e soberania. Uma urgente troca de valores se impunha. Sonhava com a solidariedade entre os todos os povos como modo de gerar e sustentar a paz. Alguém tinha que iniciar o processo. “A generosidade cabe aos mais fortes”, lembrou. De maneira educada, e com cuidado na escolha das palavras, conselheiros e generais lembravam as tradições guerreiras dos antigos faraós e como esta prática proporcionou ao Egito se tornar o país mais rico e poderoso do planeta. Eram os escolhidos de Amon para reinar na Terra; foram abençoados com as cheias do Nilo; inúmeros eram os sábios a dominar os segredos das ciências e das escolas iniciáticas dos mistérios das verdades ocultas. Tinham o direito de dominar e subjugar os demais povos. Acenar com a paz seria interpretado como manifestação de fraqueza pelos hititas e persas, que já mostravam inquietação pelo fato de o faraó ter-lhes desobrigado quanto ao pagamento dos impostos. A dívida desses reinos ao Egito era devida por terem sido derrotados em batalhas anteriores àquele jovem chegar ao trono. “Não acho justo que outros povos passem dificuldades para nos alimentar ou se responsabilizem financeiramente pelos palácios, prédios e monumentos que erguemos em Tebas. Ainda mais, paguem pelo soldo dos soldados que os oprimem”, argumentou o jovem faraó. Foi desaconselhado pelos assessores. O mais fraco serve ao mais forte, esta é a lei natural, lembrou um dos ministros. A guerra é o preço da paz, alertou um general. Vários outros conselhos, todos no mesmo diapasão, foram oferecidos ao monarca que consideravam ingênuo, despreparado ou mesmo louco. A contrariedade pela nova política era visível na fisionomia irritada ou nos olhos descrentes dos homens que assessoravam o faraó. Como se não bastasse, o jovem sentenciou: “Na nova capital deixaremos de cultuar antigos deuses que se pautam em vingança e exigem sangue como pagamento. Haverá um deus único, Aton, cujos princípios serão a fraternidade, a solidariedade e o perdão. Enfim, o amor será a tônica do meu reinado”. Houve um enorme burburinho entre conselheiros e generais. Foram unanimes em pedir ao jovem que revisitasse os próprios conceitos. Do contrário, em breve, os egípcios, aos invés de senhores, seriam servos dos hititas, persas e demais povos fronteiriços. Sem se abalar, o faraó disse com a tranquilidade típica daqueles que se equilibram nas verdades que os ilumina a consciência: “Sempre aprendi muito com cada um de vocês. Alguns foram meus tutores, me mostrando que existem vários ângulos pelos quais podemos observar a vida. Quando nos permitimos, tudo muda. Sou grato a todos e guardo no coração todas as lições que me ofereceram. Há um provérbio entre os grandes estrategistas que diz: “Jamais se comporte como o anfitrião, seja sempre um convidado; não avance um palmo antes de recuar um passo”. Atônitos, os homens se entreolharam sem entender a aplicação daquelas palavras à audiência. Também não ousaram questionar. Tampouco souberam o que dizer. Fez-se um longo e constrangedor silêncio. Como o faraó nada mais falou, entenderam que a reunião terminara. Pediram licença e se retiraram. 

Atrás de uma pilastra, eu assistira a cena. Após ficar a só, o jovem manteve o olhar para onde eu acreditava estar escondido. As suas feições eram amigáveis. Parecia estar se divertindo por ter me visto ali, como se soubesse que eu ignorava o risco de ser condenado à morte por espionagem ou algo parecido. Decidi sair de trás da pilastra. Ao notar o meu constrangimento, sorriu como um adulto que se encanta com a travessura de uma criança. Sorri também. Ele fez sinal para eu me aproximar e me sentar num dos degraus de acesso ao trono. Em seguida, como se fôssemos velhos amigos, se sentou ao meu lado. Fiquei à vontade. Falei que não tinha entendido o provérbio que encerrara a reunião. Aliás, desconfiava que ninguém compreendera. Ele sorriu divertido. Em seguida, explicou: “Neste momento os campos de batalha estão vazios; os exércitos egípcios não lutam em nenhuma frente. Descansam e se exercitam. Isto os deixa desconfortáveis. Estar em guerra é manter a normalidade”. Observou por instantes por entre as janelas do palácio e comentou: “Comportam-se como se não existisse uma feroz guerra velada entre aqueles que me assessoram numa luta insana por poder. Uns me são gentis para granjear favores, outros fingem lealdade quando, por trás, tramam para me derrubar. A origem de todos os conflitos não está no mundo como se costuma pensar, mas na mente e no coração de cada indivíduo. Enquanto não compreendermos as razões dessas guerras diárias, seguiremos envolvidos em medo e sofrimento. Nem mil batalhas serão suficientes para se alcançar a paz. Todas as agonias da alma se explicam através das incompreensões próprias a cada pessoa. Todas as guerras também”.

Perguntei como o provérbio, que deixara generais e ministros atônitos, se aplicava ao caso. Ele explicou: “O anfitrião é o dono da casa. Como tal, determina o seu funcionamento de acordo com o entendimento que possui. Em melhor análise, cada pessoa mora em si mesmo. Desse modo, a casa onde habitam suas razões e sentimentos se organiza conforme a verdade no limite que a alcançou. Verdades estreitas significam casas bagunçadas. Ninguém conhece a verdade antes de conhecer a si mesmo. Só assim saberá como se relacionar com os seus pensamentos e emoções, de modo a arrumar nos devidos cômodos cada experiência vivida, sem deixar que nenhum deles, por restar mal compreendido, leve a casa à ruína. Elaborar com amor e sabedoria as ideias e sentimentos permitirá vivenciar as experiências de maneira harmoniosa, aplicando e extraindo virtudes de cada situação. Do contrário, seremos surpreendidos por insurreições de irritação ou sensações de abandono promovidas pela tristeza. A casa se deteriorará um pouco a cada dia”.  Fez uma breve pausa para eu concatenar o raciocínio e continuou: “O mais grave é que o anfitrião tende a se acomodar quanto à falta arrumação e ao péssimo funcionamento da casa. Acostuma-se à bagunça e ao barulho das confusões em si mesmo. Acredita não haver outro jeito. Sem compreender as causas do desconforto, termina por levar a bagunça e os ruídos pessoais para os seus relacionamentos no mundo por entender que são normais e inevitáveis”. Deu de ombros e disse resignado: “De outra face, se houver paz em si, a levará às suas relações. As guerras mundo afora se iniciam com as incompreensões universo adentro”.

Olhou-me por instantes para se certificar do meu interesse pelas suas ideias e prosseguiu: “Nesse ponto é que surge a importância do convidado. Quando entramos em um lugar onde nunca estivemos, o observamos por ótica diferente de quem se acostumou a viver no local. Assim o convidado se torna capaz de compreender aspectos que ao anfitrião é impossível enxergar. Um olhar isento de vícios aumenta a possibilidade de enxergar o que está desarrumado dentro da gente. Máscaras, personagens e enganos; prioridades, intenções e objetivos; ideias engessadas, emoções aviltadas e experiências mal elaboradas; mágoas corrosivas, conflitos destrutivos e incompreensões poderosas. Um ego autoritário, movido a arrogância, ganância e agressividade diante de uma alma frágil por estar esquecida e sufocada entre medos e sofrimentos que parecem intermináveis. Somente como convidado seremos capazes de ver o caos de onde moramos e entender quem ainda não somos. Então, estaremos aptos a restabelecer o bom funcionamento da casa, sem o qual não conseguiremos usufruir das maravilhas da vida. Em suma, precisamos retroceder para avançar. Cuidar bem da casa é indispensável para termos condições de aproveitar o melhor do mundo, sem que as suas cores e belezas se esfumacem no meio a tantos medos, sofrimentos, conflitos, mágoas e agonias provocadas pelo jeito turvo de pensar e agir. A paz jamais será uma permissão concedida numa solenidade sob a outorga de uma autoridade; trata-se de uma conquista interior, simples, mansa e silenciosa. Isto significa caminhar sem andar. Os movimentos internos são invisíveis, ao contrário dos deslocamentos externos, notados por muitos. Estes, para possuírem leveza e suavidade necessitam do equilíbrio e da força intrínseca gerada por aqueles. São as rotações – os movimentos em si mesmo – que irão permitir e impulsionar as translações – os deslocamentos por entre tudo e todos”.

Comentei sobre a beleza daquelas palavras. Porém, havia hostilidade nas ruas. É preciso saber se defender. Não raro, somos atacados de mil maneiras, das contrariedades a direitos fundamentais até as ofensas insensatas. O jovem balançou a cabeça em anuência e disse: “Não lhe tiro a razão. Contudo, a troca de agressões demonstra apenas os desequilíbrios de parte a parte. A melhor defesa consiste em não se deixar atingir. Isto se denomina se defender sem usar os braços. Todo poder reside na consciência; nela deve acontecer o combate sagrado, no qual sombras serão transformadas em luz. Se magoar, irritar ou ofender com uma ofensa ou injustiça representa o total desconhecimento sobre as próprias capacidades de lidar com todas as pessoas e circunstâncias. O mal pertence ao malfeitor. É infinitamente mais penoso se livrar do mal praticado do que do mal sofrido. A cada um será entregue conforme as suas obras. Esta é a Lei da qual ninguém escapa. Para tanto, as reações devem ser firmes para afastar o mal de si e em si. Não podemos permitir que o mal entre para encontrar morada; do mesmo modo, jamais deixar que seja produzido e fomentado dentro da gente. Estanque-o com firmeza e mansidão. Dentro e fora de si. Ao utilizar o mal como revide conceder-lhe-emos visto de residência. Ele irá morar conosco. Não caberá reclamações. A humildade, compaixão, a paciência, a tolerância e o perdão são poderosos e eficientes antídotos contra a maldade. Algumas pessoas merecem o nosso amor, outras precisam dele. O amor será sempre, em qualquer circunstância, o melhor caminho e o destino certo. As virtudes existem para nos instrumentalizar nessa fantástica jornada. Não há verdade maior. Assim é possível vencer o inimigo sem lutar contra ele. O mal se desmancha por inanição e desuso. Portanto, cuide do mal em si sem se ater ou deter pelo mal alheio”.

Franziu as sobrancelhas, que se destacavam por causa da cabeça raspada, e frisou: “No entanto, preste muita atenção para nunca esquecer: o grande inimigo não está no mundo, ele mora em nós. Ninguém nos causa tanto mal quanto cada um a si mesmo. Faça uma retrospectiva sincera do seu comportamento e decisões; analise honestamente os pensamentos e emoções que o moveram até aqui. Verá que somos os causadores dos nossos maiores prejuízos morais e afetivos; nenhum um inimigo externo foi tão tenaz como foram as incompreensões que geraram os nossos grandes equívocos”. Comentei que algumas pessoas tinham me prejudicado ao longo da existência; outras continuavam a ter atitudes hostis. O faraó me alertou: “Tornar-se mau por causa do mal é o maior dos erros e um enorme desperdício. Não há engano maior do que desconhecer a melhor aplicação para as nossas capacidades, dons e talentos. Os maiores equívocos surgem da incorreta interpretação de todas as situações e possibilidades apresentadas a cada experiência”. Arqueou os lábios em lindo sorriso e disse: “Nada pior do que ignorar o inimigo, deixando adormecidas as infinitas possibilidades de descobertas, encontros e conquistas maravilhosas que aguardam o despertar em nós. Seria como perder um grande tesouro. Nas adversidades estão guardadas as mais fantásticas oportunidades de conhecimento e evolução. São oficinas vivas e abertas à transformação e superação. As incompreensões são os enigmas que me impedem de ir além de quem eu sou. Ignorar as incompreensões é rasgar o mapa do autodescobrimento, do imprescindível encontro que, em algum momento, terei que ter comigo mesmo se quiser me conquistar para seguir adiante. Do contrário, continuarei fragmentado e frágil, como uma construção inacabada, sem servir de abrigo para mim nem para ninguém”. Fez uma pausa antes de concluir: “Aquilo que me destrói é também o que irá me reconstruir quando for compreendido. Então, inimigos se tornam não apenas aliados, mas os melhores mestres. Sou o meu inimigo implacável, mas também o mestre que me guiará pelas noites escuras do Caminho”.   

Apontou com o queixo para antigas batalhas insculpidas nas paredes de pedra, como registros de orgulho do povo egípcio, e disse: “Não raro, estamos diante de alguém que se opõe a nossa vontade, nega um interesse ou contraria um desejo. Então, por vício talhado em condicionamento ancestral, somos tomados pelo instinto de guerra, como se fosse inevitável a luta por domínio e subjugação. O autêntico significado de vitória, em verdade, não versa sobre um duelo de poder contra ninguém, mas de um desafio consigo mesmo. Quando dois adversários se confrontam, vencerá aquele que, sem medo, recusar a guerra”. Fez uma pausa para ressaltar as próximas palavras e pontuou: “Vencer é desmanchar os instintos que nos fazem caminhar em círculos numa repetição de erros sem fim; evoluir é desenvolver a arte da renúncia, um poder ainda desconhecido às multidões”. Perguntei do que se tratava. Ele explicou: “Renunciar é abrir mão de algo importante para o mundo em prol de um valor incomensurável à alma. É compreender a régua e a balança da vida nas quais os atos são legitimamente dimensionados e as verdadeiras conquistas são aferidas. Ao contrário do que muitos acreditam, a renúncia não é sobre perder, mas sobre ganhar; não trata de medos, mas fala da coragem. Jamais está disponível para os fracos, gananciosos e orgulhosos. Na escolha entre a luz e o ouro, a renúncia ilumina”.

Falei que gostaria de saber mais sobre a arte e o poder da renúncia. O faraó disse que mais à frente eu teria a oportunidade de expandir o conhecimento sobre esse valioso instrumento de movimento, equilíbrio e força. “A evolução não dá saltos”, lembrou em tom de despedida. Era momento de partir. Agradeci a conversa e perguntei por onde deveria sair. Ele me mostrou a imagem do Olho de Hórus em uma das paredes e disse: “Equivale ao olhar do visitante, aquele que permite substituir as aparências pela verdade. Uma mandala essencial a cada curva do Caminho”. Entendi o recado. Fechei os olhos para me desligar de tudo ao redor e, assim, me concentrar em mim. “Antes, é preciso enxergar o viajante; somente depois será possível encontrar a estrada”, ouvi a voz do jovem faraó como se estivesse distante. Recuei em mim para avançar além de mim. Então, pude seguir a viagem.

Poema Sessenta e Nove

Entre os estrategistas há um ditado que diz:

“Não se comporte como um anfitrião, seja um convidado;

Não avance um palmo antes de recuar um passo”.

Isso significa caminhar sem andar,

Defender sem usar os braços,

Vencer o inimigo sem lutar.

Nada pior que ignorar o inimigo.

Seria como perder um grande tesouro.

Quando dois adversários se confrontam;

Vencerá aquele que, sem medo, recusar a guerra.

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