Madureira é um dos bairros mais icônicos do Rio de Janeiro. Lugar de gente tenaz e trabalhadora, possui características, culturas e tradições próprias. E alguns recantos encantados. Num deles, localizado em uma rua arborizada e tranquila, transversal à estação de trem, mora a tia Francisca, a benzedeira. Uma mulher preta e magra; simples, humilde e amorosa; detentora de invulgar sabedoria e linguajar refinado. De idade indefinida – eu a conheço desde criança, levado pelas mãos aflitas do meu pai em busca de soluções improváveis para um garoto avoado e disruptivo –, acolhe a todos que a procuram em busca de alívio às incompreensões que tanto sofrimento provocam. A reza serve, entre outros encantos, para desfazer quebrantos, termo popular utilizado como referência à energia densa que envolve uma pessoa e a prejudica, quando mental ou emocionalmente vulnerável e desprevenida, em relacionamento conflituoso eivado em maus sentimentos. O ódio, assim como a tristeza – que, em verdade é uma espécie de ódio disfarçado de abandono – podem caracterizar alguns dos efeitos típicos do quebranto. A benzedeira alerta a todos que a procuram: “Afastar as energias lentas e corrosivas não nos livra delas em definitivo. É preciso um constante e eficaz movimento interno de aperfeiçoamento. Bons pensamentos e bons sentimentos são essenciais na construção da obra de si mesmo. Ninguém atrai o que deseja; atraímos na exata medida das nossas afinidades. Somos afins ao que somos”.
Maura aprendera a costurar com a avó. Ao encerrar o Ensino Médio, foi trabalhar na confecção de uma famosa estilista dedicada à alta-costura, cujas roupas feitas sob medida e com exclusividade, atendiam a uma seleta camada de mulheres que podiam pagar caro por recortes de tecido cortados e montados com mestria. Além de ser um exímia costureira, a moça possuía um talento nato. Tinha o dom de desenhar estampas e criar modelos de rara beleza. Joana, a estilista e dona da marca, ao identificar o dom da funcionária, a incentivou a estudar modelagem e a cursar uma faculdade de Moda. Ao acrescentar a técnica ao talento, as suas habilidades foram ampliadas para além das fronteiras imaginadas. Embora as criações continuassem a levar a assinatura da proprietária, a funcionária se tornou a principal designer da marca. No atendimento às clientes, para saber dos gostos, intenções e preferências, Joana se mantinha à frente, apresentando a jovem como sua assistente. Embora a proprietária tentasse esconder, cada vez mais, os vestidos tinham o toque autoral da funcionária.
Essa convivência se mostrou próspera por quase uma década, até que Maura, incentivada pelo marido, Hugo, um promissor advogado, decidiu criar também um caminho próprio e, assim, montou a sua marca. A ruptura aconteceu sem traumas aparentes. Joana se mostrou compreensível com a escolha da antiga funcionária e entendeu o desfecho da relação de trabalho como algo natural e inevitável. Desejou-lhe sorte e sucesso, conforme as palavras ditas no dia da despedida.
Maura alugou uma casa no Jardim Botânico, um dos bairros nobres da cidade. Com pouco dinheiro, mas muita dedicação e criatividade, fez uma linda reforma. O espaço ficou claro e arejado, adequado para receber as clientes na espaçosa sala do térreo. No andar de cima funcionaria a oficina.
Antes mesmo da reforma ficar pronta, foi procurada por duas costureiras que trabalhavam há muitos anos com a Joana. Queriam trocar de emprego. Gostavam do jeito leve e jovial com que Maura tratava a todos, sem mostrar distinção de classe social, etnia e qualquer outra condição inerente à pessoa ou por direito de escolha. Maura explicou que, por questões éticas, não poderia as contratar sem antes conversar com a Joana. Assim o fez, sem que a antiga patroa apresentasse qualquer empecilho. Aos poucos foi montando e ampliando a equipe, à medida que a empresa crescia. Algumas clientes da Joana passaram a frequentar o ateliê de Maura, insatisfeitas com os desenhos e modelos que não mais possuíam os traços da jovem designer. Não foi difícil para elas deduzir quem estava por trás das linhas graciosas dos seus vestidos nos últimos anos. A fama de Maura ultrapassava os muros das festas e invadia a intimidade dos chás da tarde. A marca cresceu a ponto de rivalizar com a da antiga patroa. Todo o dinheiro ganho era reinvestido no próprio negócio. Quando o sonho parecia tangível e real, tudo começou a desmoronar. Muitos pedidos foram cancelados sem qualquer justificativa. As clientes, como que diante de uma enfermidade contagiosa, despareceram. Não mais atendiam aos telefonemas nem respondiam às mensagens. Maura, atordoada pela sucessão de acontecimentos sem motivo ou explicação, vagou do desespero à depressão. Não tinha mais como pagar salários e aluguel. Estava atolada em dívidas. Se algo não mudasse rapidamente, teria de fechar o ateliê. Sentia-se derrotada. Ainda pior, não conseguia identificar em que ponto falhara ou errara.
Uma das costureiras, empática ao sofrimento da designer, propôs a levar na casa da tia Francisca. Maura ponderou, sem nada dizer, que uma reza, se em nada ajudasse, nenhum mal faria. Combinaram de a visitar no dia seguinte pela manhã. Ocorre que, na noite anterior, ao chegar do trabalho, Hugo trouxera uma revelação surpreendente. Havia um maldoso movimento de difamação em curso. Em uma audiência que realizara naquela tarde no fórum, encontrara com uma das clientes da Maura, também advogada. Em um comentário ferino, a mulher falou de um dinheiro desviado da confecção da antiga patroa, que teria sido usado para financiar a abertura do ateliê da jovem designer. Como se não bastasse, aconselhou Hugo a abrir os olhos, pois, a esposa teria um relacionamento amoroso com o marido da antiga patroa. A prova, sibilou, era o fato de a Joana ter se divorciado recentemente. Maura seria o motivo da desavença.
Naquele dia, eu chegara cedo à casa da tia Francisca. Não fui por nenhum motivo específico. Deu-me uma forte e repentina vontade de a visitar. Quando entrei, ela parecia me esperar sentada em sua surrada poltrona azul, “da cor do manto de Nossa Senhora”, conforme gostava de falar. Ofereceu-me um belo sorriso e confirmou a minha percepção: “Estava à sua espera”, comentou como quem trata o extraordinário como fato corriqueiro. Atônito, não entendi. Tia Francisca tornou a sorrir, apontou para o altar simples com as imagens de Mestre Jesus, Mãe Maria e São Jorge, que ficava na sala quase desprovida de móveis, salvo por alguns banquinhos brancos de madeira, nos quais as pessoas se sentavam para conversar com a benzedeira, e pediu: “Acomode-se em um dos banquinhos, feche os olhos e se mantenha em oração”. Entendendo menos ainda, antes que eu pedisse uma explicação, ela serenou o meu coração: “Logo você compreenderá”. Foi assim que me tornei um intruso no desfortúnio de Maura.
É tudo mentira, a jovem designer afiançou no único momento que conseguiu falar sem chorar. Não tive dúvida da sua sinceridade. O olhar da tia Francisca confirmava essa verdade. Ocorre que a antiga patroa narrava uma história tão bem engendrada e farta em detalhes, que era difícil não acreditar na versão cruel e absurda de fatos que nunca aconteceram. Algumas pessoas têm um poder tão grande de manipular mentiras que, por vezes, temos a sensação de que ninguém nunca acreditará na verdade. Maura tinha passado semanas com medo, desesperada e triste, mas agora sentia raiva. Muita raiva. O ateliê estava preste a fechar as portas. Perderia tudo. O que construíra com muito esforço se ruíra de um momento para outro, sem aviso nem juízo. Estava disposta a se vingar. Com uma jura feita entre os dentes, prometeu que seria implacável. De pronto, a benzedeira a corrigiu: “Se fizer isso, somente então perderá tudo. Quem a tomará de você será a sua própria vingança”. Em seguida, acrescentou: “Quem tem a si mesmo não perdeu nada”.
Insatisfeita, Maura questionou em tom de ironia se deveria oferecer a outra face. Sem se abalar, tia Francisca disse sim com a cabeça e ratificou: “Essa é a coisa certa a se fazer”. A jovem afirmou que não se permitiria se tornar um saco de pancadas. A benzedeira a retificou: “Eu não disse isso”. Franziu as sobrancelhas e disse com firmeza: “Oferecer a outra a face é apresentar a luz a quem só conhece a escuridão”. Fez uma pausa antes de concluir: “Quem devolve o mal como pagamento ao mal entrega o próprio coração como moeda de troca. A melhor vingança é o perdão. É preciso se libertar do ódio para voltar a ser feliz. Ser feliz é a melhor vingança. Ninguém consegue isso sem antes perdoar”.
Maura alegou que as clientes nem sequer queriam escutar o que ela tinha a dizer. Havia pressa. Os boletos se acumulavam, o sonho estava à beira de avinagrar. Precisava gritar ao mundo. Tinha uma verdade para falar e precisava se fazer ouvir. Tia Francisca explicou: “Não há necessidade de contar a ninguém a verdade. Repetir a verdade para todos é uma necessidade inventada. Viva a verdade em cada gesto, passo e olhar. As ações sempre terão alcance maior do que as palavras. A verdade não é discurso, porém, atitude. É pilar da consciência, vive em quem respira em paz. Seja a verdade através do seu jeito de viver. Faça da verdade uma característica silenciosa da sua identidade. A verdade não precisa de alarde. O medo e o ódio são escandalosos, covardes, agressivos e ansiosos. A verdade é corajosa, tranquila, quieta e sabe esperar. A mentira tem complicados enredos. Para a verdade basta um simples sim ou não”. Como quem revela o óbvio, deu de ombros, sorriu e concluiu: “A verdade é assim porque sabe que é verdade”.
A designer confessou que a bancarrota se avizinhava. Se as clientes não voltassem a procurar o ateliê, seria impossível escapar da falência. Não conseguia encontrar outra saída que não fosse as procurar… “Para as convencer a mudar de ideia”, a benzedeira interrompeu para arrematar o raciocínio de Maura, como quem evidencia uma incoerência. Sem entender, a designer arregalou os olhos como quem pergunta o que mais posso fazer?
Tia Francisca segurou nas mãos da jovem com carinho e a lembrou: “Só os tolos desperdiçam a própria vida em função da opinião de alguém”. Depois, ponderou: “A vida é repleta de momentos angulares e, por isso, transformadores. São situações delicadas pelos riscos envolvidos. De um lado, podemos deixar que os outros decidam se iremos ficar ou partir; se mereceremos o quinhão das suas dádivas, benesses e crenças ou não. De outro, podemos construir quem somos e onde queremos chegar. Qualquer movimento existencial, em se tratando de um direito, não carece da permissão de ninguém. Essas encruzilhadas definem o grau de maturidade, integridade moral e coragem pessoal. Define quem será o autor da própria história ou quem se contentará como mero personagem da trama alheia”.
Maura engoliu os argumentos que usaria para rebater. Eram rasos demais diante da responsabilidade que naquele instante despertava sobre si mesma. Admitiu que se aceitasse a dependência de duas dezenas de clientes para definir a própria vida, estaria entregando aos outros o controle sobre o próprio destino. Seria conduzida por uma vontade que não a sua. Não queria viver assim. Disse que não merecia isso. Ninguém merecia, acrescentou. A benzedeira a lembrou: “Cada um está onde se coloca ou se deixa colocar. Você pode ser senhora de si ou viver como um trem que viaja sobre trilhos aleatórios”. A jovem indagou como poderia construir uma trajetória autoral dentro da situação existente. Foi quando tia Francisca me chamou para saber se eu poderia ajudar de alguma maneira.
Embora me esforçasse para me manter em oração de frente para o altar, eu tinha ouvido a conversa. Não consegui evitar. A benzedeira sabia disto. Não foi para rezar que ela me colocara ali. Maura não podia depender que as clientes reconsiderassem suas opiniões para definir a própria vida. Isto a faria prisioneira dos caprichos do mundo. Ela precisava forjar um novo caminho baseado no seu talento e esforço, sem ficar a mercê do humor ou da maldade de ninguém. Tinha experiência em modelagem, desenho e costura. Bastava traçar uma trajetória profissional diferente, no qual o alvo se deslocaria de um centro específico e reduzido para alcançar as margens, sempre largas, ora esquecidas, ora desprezadas. Sempre é possível. Ocorreu-me uma solução: apostar no prêt-à-porter. O termo significa pronto para vestir. São roupas de ótima qualidade confeccionadas por designers criativos, produzidas em escala fabril com a finalidade de socializar o uso, em contraponto com a exclusividade das roupas caras feitas sob medida na alta-costura. A proposta é vestir bem, com elegância e originalidade a baixo custo. Ao oferecer acesso a muitos, não ficaria aprisionada nas mãos de alguns.
Por um átimo, os olhos de Maura brilharam com a ideia para se apagarem no segundo seguinte. O aluguel da casa do Jardim Botânico era caro. Naquele momento não tinha como arcar com o custo. No mais, por estar situada em um bairro residencial, era proibido montar uma fábrica, ainda que pequena, no local. A bem dizer, não tinha condições de pagar aluguel em lugar nenhum naquele momento. Os olhos da tia Francisca buscavam os meus. Havia um pedido velado na luz daquele olhar. Não foi difícil de entender nem de atender. Eu era proprietário de um galpão vazio a poucos quarteirões dali, onde funcionara a gráfica da agência de propaganda da qual fui sócio por muitos anos. Na dissolução da sociedade, o imóvel coubera a mim. Havia tempos que eu tentava, sem sucesso, alugar ou vender o galpão. Desde então, só tinha despesas de impostos e taxas de manutenção. Sorri para benzedeira e propus à jovem estilista que fizéssemos um contrato de locação por cinco anos. Haveria carência no pagamento de aluguel nos primeiros vinte quatro meses. Depois ela me pagaria o valor de mercado. Seria bom para mim e para ela. Maura agradeceu a oferta. De fato, era excelente, mas argumentou que estava sem caixa para montar a fábrica, contratar funcionários e adquirir as máquinas.
Se Maura costurava roupas, tia Francisca costurava vidas. A benzedeira sorria matreira para mim. Sinalizei não com a cabeça, ela retrucou com um sim no olhar. Respirei fundo como quem não acredita que dará o passo a seguir e, com a voz compassada de quem raciocina enquanto entende o que fala, propus sociedade à Maura. Ela entraria com a parte de designer e costura, eu investiria na compra das máquinas e na montagem da fábrica. Usaria, ainda, a minha experiência como publicitário para a criação de uma marca prêt-à-porter. Poucas vezes vi um sorriso tão bonito como aquele que estampava o rosto da jovem. Ela estava de volta ao jogo. De um jeito impensável, eu também retornava à criação, uma antiga paixão. Foi quando entendi o motivo pelo qual eu tinha ido a Madureira naquele dia. Os sonhos não envelhecem.
Trocamos telefone para nos falar nos próximos dias. Tínhamos muito a conversar. Maura pediu que tia Francisca a benzesse. A senhorinha explicou que a prece já tinha sido feita e atendida: “A melhor vingança é viver bem. Quando você entendeu isso, o quebranto se desfez. O seu sorriso é a prova da vitória sobre as imposições do mundo, apenas possível quando venceu as más inclinações que a consumiam”. A designer se sentia bem e renovada. Quis pagar pela reza. Tia Francisca sorriu e finalizou o atendimento: “Vá ao altar e agradeça ao Nosso Senhor Jesus Cristo. A Ele, toda honra e glória. A mim, nada é devido”. Em seguida, pediu para que o próximo da fila entrasse.

3 comments
Os sonhos não envelhecem. Q citação linda.
Novamente um texto maravilhoso…
Gratidão 🙏