MANUSCRITOS VIII

Rupturas e destruições

Em uma rua arborizada e tranquila da Gávea, sem qualquer placa ou letreiro na fachada, funciona a cafeteria da Bárbara. Não é um lugar de encontros, porém, de descobertas. Em uma casa antiga, com as paredes repletas de livros, embalada ao som suave de um blues, jazz ou bossa-nova, é possível experimentar os melhores frapês, capuccinos e espressos da cidade. A barista é uma mulher de personalidade encantadora e singular. Há alguns anos decidiu moldar um caminho original: fechou a clínica de psicanálise para montar a cafeteria. No entanto, jamais abandonou os mistérios da psique. Dois dias na semana, sem aviso prévio, ao fim da tarde, Bárbara sobe em um pequeno púlpito para discorrer sobre as dores e as alegrias da alma, sem nenhum academicismo, mas com a profundidade necessária para que o assunto abordado se torne uma ferramenta do bem viver. A casa transborda de gente. Por vezes, a qualquer hora do dia, a sua aguçada sensibilidade a faz pedir licença para se sentar à mesa com alguém que precise ir aonde nunca ousou estar em si mesma. Não adianta pedir conselhos nem solicitar consultas. “Aqui não é um consultório. Trata-se de uma cafeteria”, avisa a jovem barista. Em verdade, é bem mais que isto.

Naquele dia, como de costume, não havia nenhuma mesa disponível. Aproveitei para me acomodar no agradável jardim interno da casa, em uma das poltronas defronte a um confortável sofá, debaixo de uma frondosa mangueira secular. Perfeito para mim, que havia planejado encerrar a tarde mergulhado no universo fantástico permitido pelos romances literários. Pedi um espresso duplo, tirei o livro da mochila e voltei às páginas que narravam a aventura de uma mulher que abria mão de uma estrutura social sólida, repleta de estabilidade e segurança, porém vazia de qualquer propósito evolutivo, para viver experiências que lhe ofereciam sentido existencial. Movida por uma paixão sem garantias e destruidora, mas que a fazia se sentir viva, experimentava dias que se alternavam entre alegrias e agonias extremas e intensas. Um sentimento arrebatador e contraditório; de muitas ambiguidades, nuances e estratos, sendo, por isto, de difícil compreensão. Seria ela uma mulher forte, afeita à intensidade do risco, disposta a manejar o leme da própria vida ao invés de ficar à mercê dos gostos e sabores alheios, ou se tratava de uma alma perdida e atormentada em busca de algo que nem ela saberia definir? Uma leitura fascinante. Eu reiniciava a viagem de onde havia parado, através dos cenários e estradas propostos pelo autor, quando fui interrompido por uma mulher com feições tão belas como as das descritas na ficção. Distraído como de hábito, não a tinha percebido. Ela estava sentada na poltrona ao lado.

Embora não fosse jovem como a protagonista do romance, mantinha o frescor da juventude apesar de terem se passado tantas décadas. A beleza não era oriunda da pele, já vincada e marcada pelo tempo. Vinha do olhar típico daqueles que rejeitam vidas vazias. Tinha a mesma sede de viver que a personagem do livro. Transpirava a vontade de aprofundar experiências e emoções, impossíveis a quem se recusa a assumir riscos. Não existe conquistas sem riscos, a frase que repetia não era uma ideia furtiva, mas um mantra pessoal. Liz era assim desde que a conheci na faculdade. Havia se passado quarenta anos. Tínhamos mudado bastante. Corpos e almas já não eram mais os mesmos. Muita coisa havia se modificado. O que não havia mudado era a luz do seu olhar.

Face à sua personalidade arrebatadora, na época, dizíamos que Liz era como uma locomotiva, capaz de carregar muitas pessoas com ela. E assim ela fazia. Convicto de que teria muitas histórias para me contar, retornei com o livro para a mochila e mudei os planos para aquela tarde. Eu queria ouvir aquela mulher fascinante. Liz me contou de viagens e namoros, encontros e despedidas, aventuras e desventuras. Lugares exóticos e pessoas interessantes, situações absurdas e divertidas. Emoções fortes depositadas em relacionamentos frágeis; relações estáveis em vidas sem sentimentos. Falou de ganhos e perdas, prisões e fugas. Sorrisos e decepções, abraços e abandonos. À medida que contava fatos e casos vividos, sem se dar conta, a narrativa a conduzia para dentro do próprio coração. Aos poucos, a luz do olhar se apagou para dar lugar a uma lágrima sentida. Confessou viver um momento de profunda tristeza. Uma tristeza tão grande que acreditava existir apenas nos romances de ficção.

Foi nesse instante que a barista se aproximou e perguntou se podia participar da conversa. Por não a conhecer, Liz me inquiriu com os olhos. Eu disse sim com a cabeça. Assim, Bárbara colocou uma cadeira para se sentar, triangulando com as poltronas onde estávamos acomodados. Em seguida, tocou delicadamente no braço da mulher de olhos luminosos, ora tristes, pedindo para que ela prosseguisse do ponto que havia parado.

Liz me fez lembrar dos tempos da faculdade. Desde aquela época, ainda muito jovens, ela dizia que nunca se casaria. Os pais haviam falecido em uma acidente um pouco antes de o curso começar. Inácio, o único irmão, dez anos mais velho que ela, um jovem adulto, maduro e trabalhador, assumira a empresa da família e liberara a moça para viver a vida como se o amanhã fosse apenas um detalhe sem maiores preocupações. Referindo-se ao irmão, ela dizia que já nascera com o homem da sua vida ao seu lado. Não precisava de outro. Logo, nunca se casaria. Inácio era o seu esteio e amparo. E assim foi por quatro décadas. Deu muitas voltas ao mundo, namorou com a mesma intensidade e volúpia. Amou homens e mulheres, fez amizades como quem sabe que sempre haverá outras poças d`água para brincar depois da chuva. Durante esse período, passava na sede da empresa apenas para assinar documentos que nem sequer lia. A confiança no irmão era absoluta. Jamais teve motivo para desconfiar. Na sua conta bancária sempre havia mais dinheiro do que seria capaz de gastar. Não obstante, o gastava sem culpa nem preocupação. Sentia-se livre e feliz.

Todavia, a vida é de viés. Tudo muda, quase nunca tendo a delicadeza de pedir licença para impor o avesso azedo da vida à doce realidade até então permitida. Cansado e doente, o irmão decidiu se aposentar, passando o comando da empresa para o filho. A transição teve o aval da Liz. Um processo que parecia natural e não exigia maiores preocupações. Era madrinha do Igor. O sobrinho que carregara nos braços quando pequenino, agora se sentava na cadeira de Inácio. Novos documentos foram assinados, diferentes poderes foram concedidos. Passado alguns meses, se assustou quando o gerente do banco a procurou. Os seus rendimentos mensais despencaram para um pouco mais de um quinto do valor costumeiramente depositado. O saldo da sua conta estava negativo. Algo que jamais ocorrera. Ao procurar Igor para entender o que estava acontecendo, foi recebida com desdém. O sobrinho fez pilhéria da vida irresponsável que a tia levara desde sempre. Era hora de ela tomar juízo. Ao contrário do pai, não trabalharia para bancar os desvarios da tia. Os novos investimentos de que a empresa necessitava, antes de se buscar empréstimos bancários, seriam extraídos dos dividendos dos sócios, com maior incidência sobre aqueles que nunca trabalharam. No caso, a Liz. Dirigiu-se ao irmão na vã esperança de que Inácio conseguisse demover do filho a ideia que modificaria a sua rotina de modo bruto e atroz. O irmão explicou que Igor, agora como presidente, tinha plena autonomia para conduzir os rumos da empresa, principalmente diante de um mercado cada vez mais competitivo. Nada podia fazer. Tampouco, sentia vontade. Havia preparado o filho por muito tempo para esse momento. Igor tinha a sua total confiança. A decisão estava tomada, documentada e era irreversível.

Esses fatos aconteceram havia quase dois anos. Liz não queria ser vista como uma mulher deslumbrada. Sem dúvida, gastara muito dinheiro por décadas. Mas era o seu dinheiro. Embora estivesse longe de passar por necessidades materiais, foi obrigada a modificar o seu padrão e estilo de vida de modo drástico. Teve de lidar com cálculos, aprender sobre comedimento e a selecionar os gastos com cuidado. Isso não seria um problema para Liz se a mesma contenção financeira se aplicasse ao Inácio e ao filho. Tanto o salário do Igor como os dividendos distribuídos ao pai, pelas novas diretrizes, não seriam alterados. Um por ficar quarenta anos à frente da empresa, o outro pela responsabilidade de a conduzir dali por diante. Entendia a dose de justiça que havia na medida, mas se sentia triste e decepcionada por não ter sido avisada antes, quando poderia fazer uma escolha diferente. Acreditou que estaria amparada e protegida pela família. Enganou-se. Faltou consideração, carinho e respeito. Negaram-lhe o direito de escolha. Sentia-se enganada e traída por quem mais amou.

Com delicadeza, Bárbara passou o dedo para secar a lágrima estacionada no rosto da Liz. Depois, perguntou: “O que você pretende fazer por si mesma diante desses fatos? Se não reagir rápido e adequadamente, irá adoecer”. A bela mulher afirmou que precisava perdoar. Queria se libertar do sentimento corrosivo que a todo momento a fazia se recordar da situação. Desejava viver com a mesma intensidade de outrora. Pontuou que a intensidade não era uma questão de dinheiro, mas de gosto. A barista apoiou a resolução com um sorriso de aprovação. Apesar de Liz entender a necessidade desse movimento primordial, comentou que por mais que quisesse perdoar, não conseguia. Tinha dias que até acreditava que havia avançado, quando, no momento seguinte, surgia um acontecimento qualquer ou do nada vinha um pensamento que tornava a envenenar o seu coração. Não sabia se de ódio ou mágoa. Bárbara explicou que se tratava do mesmo sentimento: “O ódio é a repulsa, a aversão ou raiva em estado vaporoso. A mágoa é o ódio solidificado por envelhecimento, depois de muito tempo guardado dentro da gente”.

Liz queria entender por qual motivo tinha tanta dificuldade para perdoar. A barista ponderou: “Fatos impactantes, provocadores de profundas decepções não costumam permitir o perdão de imediato ou em um curto espaço de tempo. Trata-se de um processo, uma sequência de movimentos internos, capazes de desatar os nós da rigidez do pensar e do sentir, que tantas incompreensões provocam. O perdão tem muitas nuances e camadas. Embora o ato tenha sido praticado por outra pessoa, avançamos na exata medida que conseguimos entender mais e melhor sobre quem somos e, assim, compreender como o fato nos atingiu tão profundamente, a ponto de nos deixar emocionalmente em ruínas. Essa compreensão é fundamental, pois, somente então estaremos prontos para iniciar uma reconstrução existencial baseada em diferentes e melhores fundamentos. Ninguém consegue perdoar sem sair do lugar. O perdão nada tem a ver com o outro. É uma viagem suave e silenciosa, de muitas idas e vindas, na rota sagrada entre a mente e o coração, capaz de conduzir à verdade, um lugar desconhecido das multidões, uma cidade que os sábios chamam de paz. Não há riqueza nem poder maior”.

Liz pediu para que explicasse melhor. A barista esclareceu: “Cada caso tem as suas particularidades. Você estruturou a sua vida tendo o Inácio e a família como os seus pilares e fortaleza. Quando eles faltaram ou lhe viraram as costas, o seu mundo desmoronou. Isso acontece todas as vezes que os alicerces existenciais estão fora e não dentro da gente. É o que chamam de caos. Passada a tempestade, o que mantém um indivíduo de pé são as suas construções internas erguidas graças às dificuldades dos dias: as virtudes agregadas e as verdades alcançadas; a clareza mental, o equilíbrio emocional e a firmeza das atitudes. O caos serve para varrer tudo que é maquiagem, encenação e miragem. Se os fundamentos não forem sólidos e profundos, não sobrará nada”. Liz quis saber mais sobre esses tais fundamentos. Bárbara pontuou: “Fundamento é a bagagem do viajante. Não é o que ele tem, mas tudo aquilo que o ergue e o faz seguir em frente. É o núcleo que sustenta, fortalece, harmoniza, legitima, oferece sentido e direção. A maneira de lidar com o mundo é apenas reflexo da trajetória interior já percorrida e vencida pelo indivíduo. Ainda que mais ninguém o entenda ou aprove”.

A bela mulher retornou ao questionamento que a agonizava. Por mais que tentasse, não conseguia perdoar. Uma vez que o perdão é um processo, precisava entender como funcionava. Bárbara explicou: “O movimento inicial é a decisão firme e sincera de perdoar”. Liz interrompeu para ponderar que essa decisão já tinha sido tomada. Afirmou que estava sendo honesta. A barista a acalmou: “Eu não tenho a menor dúvida disso. Ocorre que, pelo fato de o perdão nascer da vontade, a sua construção é mental e não emocional como muitos acreditam. Por isso não conseguem. As pessoas ficam à espera de um sentimento bom para destronar o império da mágoa. Esse sentimento não surgirá do nada. O amor e a compaixão que ocuparão o lugar do ressentimento ou da raiva são consequências de um movimento que nasce na mente para, somente depois, encontrar morada no coração. A vontade é a semente fundamental e sagrada; em seguida, se faz necessário um arco filosófico de entendimentos e compreensões para criar o solo fértil e, somente então, o perdão encontrará as condições adequadas para florescer no coração”.

A barista acrescentou: “O perdão não virá como benesse gratuita do tempo, de um toque mágico ou depois de um banho de mar. É uma construção consciencial”. A bela mulher argumentou que, se já havia feito a escolha de perdoar, estaria no segundo estágio da viagem: o arco filosófico de entendimentos e compreensões. Bárbara disse sim com a cabeça e se adiantou à próxima pergunta da Liz: “Esse arco é uma estrada mental que a levará à verdade, onde encontrará lucidez, equilíbrio e força para deslocamentos cada vez mais firmes e, não por isto, desprovidos de leveza e suavidade. Nunca esqueça que a verdade é mansa e corajosa a um só tempo. A verdade é o fomento de todas as transformações”.

A bela mulher disse não entender essa estrada mental que deveria percorrer. Indagou se estaria trilhando a estrada errada. Bárbara a observou por alguns segundo, como quem sabe que chegou o momento de mostrar a porta estreita e indesejável, mas de travessia indispensável para prosseguir a viagem. Chamou o garçom, pediu que trouxesse xícaras e um bule com café, e fez a pergunta crucial: “O que você espera por parte do Inácio ou do Igor?”. Surpreendida pelo questionamento, Liz respondeu que nada esperava deles. Uma resposta ainda movida pelo orgulho e pela raiva. Não pela verdade. A barista identificou a contradição, esperou alguns segundos para que a bela mulher pudesse arrumar as emoções fugidias e repetiu a mesma pergunta, acrescentando ao final: “Antes de responder, pergunte ao seu coração. Censurar os próprios sentimentos equivale a fugir de si mesmo. Isto a manterá distante do perdão”.

Os olhos de Liz tornaram a brilhar. Desta vez, por causa das lágrimas. A bela mulher respirou fundo, juntou as mãos em prece e as tocou nos lábios, foi ao centro de si mesma. Ao retornar, como quem confessa um desejo proibido, admitiu: “Anseio pelo dia em que, arrependidos, o Inácio e o Igor me procurem para pedir perdão. Imagino esse momento todas as vezes que me recordo do que fizeram comigo. E isto acontece quase todos os dias”. Bárbara mostrou a porta que Liz se negava a ver: “Percebe que, ao condicionar o perdão à ação de outras pessoas, as quais você não tem nenhum controle, você está transferindo o centro de poder da sua própria vida para elas? Essa sensação de impotência, face a desejos e raciocínios inadequados a deixa atolada em sofrimentos. Pior, talvez esse gesto esperado nunca aconteça. A insensatez dessa espera é o que a mantém cativa no ódio e a rasga em dores silenciosas, porém, devoradoras. A maneira como lida com a própria rigidez de pensar e sentir é o que a mantém distante do perdão. Perdoar não depende de qualquer gesto alheio. Trata-se de um ato personalíssimo, ou seja, é um poder restrito ao âmbito da própria pessoa. Seria um contrassenso acreditar que a cura e a libertação de um indivíduo fiquem à mercê do capricho de outro”.

A bela mulher argumentou que o arrependimento do irmão e do sobrinho era ingrediente indispensável ao perdão. Seria um ato de justiça. A barista retrucou: “Seja justa consigo mesma. Busque a própria cura sem esperar pela permissão de ninguém. Liberte-se dos sofrimentos que a esmagam e amargam os seus dias”. Liz enxugou as lágrimas e se disse perdida em um labirinto existencial. Não sabia que estrada percorrer para alcançar o perdão. Bárbara explicou: “As portas dos labirintos existenciais nunca abrem para o lado de fora. A saída sempre nos conduz a desconhecidos universos adentro. O que você busca não está no mundo. A aguarda na própria consciência”.

A barista foi incisiva: “Você se recusa a queimar pontes”. A bela mulher disse que não estava entendendo. A barista explicou: “Fomos educados a construir pontes e lutar para as manter erguidas em nossas relações. Sem dúvida, é uma importante regra evolutiva. Contudo, mesmo as melhores regras permitem valiosas exceções. Não há uma única boa razão em se manter pontes que apenas servem para trazer sofrimentos, ilusões e maus tratos. Em verdade, comportamentos assim apenas servem para arrefecer a luz. A escuridão e a dor predominam e dominam o coração. Sem respeito, o amor não sobrevive”.

Em seguida, concluiu: “Por vezes, temos de destruir pontes para que algumas travessias não sejam mais permitidas e nem sequer cogitadas. Nem sempre é fácil queimar pontes que atravessamos por longo tempo, encerrar com conexões que estruturaram uma parte de quem somos. Contudo, quem somos nos trouxe até aqui; para seguir em frente é necessário se tornar outro. Ninguém consegue fazer isso sem algumas demolições, sem as quais não haverá nenhuma reconstrução. As rupturas são indispensáveis ao encerramento dos ciclos existenciais. Faz-se necessário terminar uma história para iniciar outra. Quem vive duas histórias simultâneas acaba por se perder em ambas. Ninguém consegue realizar uma nova viagem enquanto estiver retido na viagem anterior”.

Esperou o garçom colocar o bule e as xícaras sobre uma pequena mesa entre as poltronas e concluiu: “Esperar pela travessia de quem deixou de ter apreço e respeito, não apenas fomenta a mágoa, mas deixa a vida se esvair pelos ralos da subjugação emocional e da rigidez mental. Embora deseje se mover, fica incapacitado pela incompreensão que lhe acomete. Assim, por vezes, as rupturas são essenciais ao perdão. Destruir as pontes que nos levam a lugares ruins é ato inadiável de amor-próprio. Um movimento em prol da luz que conduz ao perdão, a cidade da paz”.

Bárbara serviu o café em nossas xícaras. Depois, pediu licença e se levantou. Precisava voltar ao balcão. Gentil, piscou um olho e avisou: “Hoje, o café é por conta da casa”. Saiu antes mesmo que Liz conseguisse pedir para que ficasse um pouco mais. A sós, bebemos o café sem pressa e sem dizer palavra. A quietude era necessária para alocar ideias e sentimentos. A bela mulher rompeu o silêncio para me surpreender. Murmurou que, ao contrário do que sempre acreditou, nunca vivera uma aventura de verdade. No entanto, todos os dias eram perfeitos para ir ao encontro da vida. Não havia aventura maior nem melhor. Liz se referia à vida esquecida em si mesma. Depois, sussurrou como quem conta um segredo: Ninguém é livre enquanto se mantiver erguido em pilares alheios. O caos é do bem. As rupturas e destruições, por vezes, também. Reinventar-se é a única aventura capaz de transformar a realidade. Ela estava disposta a aprender a contar consigo própria como pilar, esteio e fortaleza diante dos inerentes avessos da vida dali por diante. Não seria fácil, tampouco impossível. A vida nunca nega as exatas ferramentas para as obras essenciais. Basta entender onde estão guardadas. Havia uma luz sem igual em seus olhos. Deu-me um beijo carinhoso no rosto, agradeceu a conversa e foi embora. Ela estava alegre por partir. Era uma viagem insólita. A Liz que ela conhecia iria em busca da Liz que ela ainda desconhecia.

Lembrei-me do romance que lia, no qual a protagonista abandonava uma estrutura familiar sólida de experiências rasas para se lançar em águas existenciais revoltas, porém, profundas. Liz tinha vivido muitas aventuras ao longo da existência. Ao contrário da ficção, as suas foram de pouca profundidade. Nada esperava delas, senão, diversão. Inácio era o porto seguro, no qual podia atracar com o casco avariado e as velas rasgadas sempre que necessitasse. O reparo era garantido. Não havia riscos, apenas inconsequências protegidas. A bela mulher fizera muitas viagens sem nunca ter ido a lugar nenhum. Então, veio a tempestade. Não para a destruir, mas para arrancar tudo aquilo que não mais servia e adiava a verdadeira aventura. O caos, como sempre acontece, chegou como um convite para uma viagem a lugares inexplorados, de descobertas e conquistas interiores.

Para se aventurar ao centro de si mesma, se faria necessário retornar ao mundo, com todos os riscos que lhe são inerentes, um exercício fundamental ao conhecimento e à lapidação da alma. Sem essas constantes idas e vindas, o movimento seria mero escapismo. Todo entendimento é inócuo se não for testado e aprimorado através da ação. Liz aprenderia a se tornar o próprio porto seguro, onde se refugiaria nas noites escuras para se lançar ao mar nas manhãs seguintes. Desta vez, viajaria movida por novos interesses e diferentes prioridades. Ela era o seu próprio destino. Assim é com todos. Olhei ao redor e sorri. A cafeteria da Gávea não era uma cafeteria, tampouco um consultório. Ali existia um cais”.

Yoskhaz

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SCHWEITZER junho 9, 2026 at 3:42 pm

Divino.

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