MANUSCRITOS VII

As sandálias

Havia um bom número de anos em que eu me tornara membro da OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha – irmandade filosófica cujo eixo central são os ensinamentos do pequeno, porém significativo, texto denominado O Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus. Mahatma Gandhi teria dito que esse valioso conteúdo sintetiza todos os degraus que a humanidade precisa galgar para atingir a iluminação. Contudo, assim como todos os escritos sagrados, as orientação ali contidas têm diversas camadas de interpretação. Trata-se de um daqueles textos que ampliamos e aprofundamos o entendimento cada vez que o lemos. Muitos outros livros, ao fornecer elementos para que possamos expandir a percepção e a sensibilidade através das experiências vividas e, assim, aprimorarmos o jeito de as elaborar, muda o jeito de como caminhamos pelos dias.  No mosteiro, estudamos todas as linhas filosóficas, do oriente ao ocidente, cuja estrada seja o amor. Não existe luz fora do amor. Por definição, sabedoria é qualquer conhecimento aplicado à prática; logo, todo raciocínio se torna maléfico quando não envolvido e impulsionado pelo amor.

Desde que eu ingressara, o mosteiro era dirigido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Por trazer em si um sem-número de virtudes, atributos que unem amor e sabedoria em uma mesma ferramenta de ação, ele era um caso raro de unanimidade pelo seu incomensurável poder agregador. Por sua causa o mosteiro se tornara uma comum-unidade. Todos se moviam por um mesmo propósito: abolir a própria ignorância, semente das incompreensões, raiz do medo e dos sofrimentos. Naquele período, o bom monge havia viajado para realizar alguns exames médicos. Aproveitaria para visitar Li Tzu, o mestre taoísta, na pequena vila chinesa situada na subida ao Himalaia, de quem era amigo desde os tempos de faculdade na Inglaterra. A sua data de retorno ao mosteiro era incerta. Boatos garantiam que não voltaria; ele teria preferido se retirar de cena sem alardes e despedidas. De início não compartilhei dessa ideia; ao contrário do que aparentava, havia nela uma espetacularização da humildade e da simplicidade que não condiziam com o Velho. Seria como se fizesse uma festa com o avesso da festa. O ritual da despedida, quando na medida exata, mostra a importância da gratidão e a vontade pela manutenção dos laços de afeto, indestrutíveis ao tempo.

Quem assumiu a administração do mosteiro foi o Giovanni, um monge italiano que entrara na mesma época que eu ingressara na Ordem. Polido, persuasivo e estudioso, ele tinha uma relação razoável com a maioria dos integrantes da irmandade. Tivera algumas pequenas desavenças por tentar interferir nas atividades de outros monges. Apesar das boas intenções, nem sempre tinha a correta noção do limite entre a sugestão e a interferência. A sugestão é apenas uma ideia trocada com o responsável pelo trabalho; a interferência surge com a tentativa de influenciar as pessoas ao redor para que a modificação sugerida aconteça.  

Os períodos anuais de estudo duram cerca de um mês. São dias de intensa alegria e entusiasmo, seja pelo novos aprendizados, seja pela convivência agradável com pessoas que gostamos e admiramos. Daquela vez, após uma semana, eu me sentia desconfortável no mosteiro; algo que nunca acontecera antes. Cheguei a considerar um pedido de dispensa. Depois de tanto anos, eu estava fora de lugar; era como se o mosteiro não mais me acolhesse. A vida se compõe de inúmeros ciclos menores de aprendizado para formar um grande círculo evolutivo. O meu ciclo na Ordem se encerrara, desconfiei. É fundamental entender quando uma história termina para que não fiquemos aprisionados nela depois do último capítulo. Talvez tivesse chegado a hora de viver diferentes experiências de aprendizado em outros lugares, algo sem nada de extraordinário. Essencial à evolução, as transformações mudam gostos e olhares. Então, é o momento de partir.

Conversei isso com o Heitor, o monge argentino, psicanalista e autor de dezenas de livros maravilhosos. Era um grande amigo e confidente. Confessei a ele o meu desconforto e admiti que considerava a hipótese de desligamento da Ordem. Ponderei que o mosteiro se tornara um lugar no qual eu não mais me encaixava. Desaparecera a alegria e o ânimo. Eu não era mais o mesmo; chegara a hora de partir. Com os ouvidos apurados por formação profissional, Heitor ouviu os questionamentos e, ao final, argumentou: “Sem dúvida, o conhecimento é uma dos principais pilares das mudanças intrínsecas que expressamos no mundo. Embora possam acontecer, as mudanças nem sempre são fatores para sentirmos desconforto com lugares ou pessoas. Moro em Buenos Aires desde garoto. A cidade já mudou muitas vezes desde então. Algumas vezes em razão das suas próprias transformações; noutras, mudou o meu olhar em relação a todas as coisas e, assim, a cidade se tornou outra para mim. Nunca pensei em sair de lá, apesar de não sermos mais os mesmos. Instituições, empresas e lugares são entes vivos que, como tais, se modificam continuamente ou apodrecem por estagnação. Contudo, nem toda mudança é evolutiva. O mesmo acontece com as pessoas. Quando os movimentos pessoais entram em desalinho com as mudanças externas ocorre o desencaixe”. Piscou um olho como quem conta um segredo e disse: “O desencaixe é a música das trombetas evolucionistas ou o ruído das mais terríveis incompreensões, a depender de como decodificamos a mensagem”. Pedi para ele explicar melhor. Heitor disse não com a cabeça e ponderou: “Ninguém encontra a resposta certa sem antes fazer a pergunta correta. O momento é de saber se mudou você, o mosteiro ou ambos; e quais dessas mudanças foram benéficas. Nem toda transformação é para melhor; nem todo movimento conduz adiante”.

Argumentei que ciclos se encerram; se faz indispensável entender a hora da partida. Prolongar uma narrativa para depois do fim esgarça a história. O monge argentino concordou com ressalvas: “Saber o significado de cada partida traduz a diferença entre avançar ou fugir”. Pedi para ele explicar a diferença. Heitor sorriu e disse: “Respostas prontas não ajudam ninguém a crescer. Aprenda sobre as perguntas; depois, busque pelas respostas. As suas respostas. Do contrário, viajará na carroça dos outros, sem o direito de escolher o próprio destino”.  

Insisti. O monge argentino disse que aquela conversa tinha chegado até onde deveria. Para prosseguir seria necessário que eu trouxesse novos elementos à equação. Do contrário, nada saberia sobre a solução. Ele tinha razão; não se dá saltos no Caminho. Os passos precisam ser lentos para que sejam seguros. Agradeci e fui em busca das perguntas desconhecidas para que pudesse ter acesso às respostas de que precisava; do contrário, eu ficaria sem condições de tomar a melhor decisão. Observei e observei um pouco mais. Esforçava-me para retirar das conclusões quaisquer fatores emocionais e tendenciosos que servissem como desculpas ou que fossem utilizados para depreciar as mudanças ocorridas. Naquele mesmo dia, quando cheguei na cantina para almoçar, fui comunicado de que o horário seria fracionado dali por diante. Não comeríamos mais todos juntos; uma antiga e agradável tradição do mosteiro chegara ao fim. Agora, Giovanni e os coordenadores almoçariam primeiro; a ideia era que aproveitassem o momento para conversarem sobre assuntos pertinentes à administração. Depois, os demais monges se serviriam. O desconforto aumentou.

No dia anterior, Giovanni reunira todos os monges no auditório. Muito gentil e simpático, falou sobre a reestruturação da Ordem. Novos cargos seriam criados para o aperfeiçoamento administrativo, o que levaria a ganho de rendimentos quanto aos estudos; novos cursos seriam oferecidos; mais conhecimento representaria um maior quantidade de ferramentas fornecidas ao bem viver de todos. Várias coordenadorias foram criadas. Notei que todas foram ocupadas por monges próximos ao Giovanni. Uma delas me chamou atenção, a recém-criada Coordenação de Práticas que no novo organograma ficava acima da Coordenação de Estudos e somente abaixo da Direção Geral sob responsabilidade do próprio Giovanni. O argumento era que o conhecimento precisa de aplicação às situações cotidianas para que tenha utilidade e se torne sabedoria. No entanto, percebi que, apesar da explicação baseada em um premissa correta, o propósito era inaplicável ao caso. A filosofia não depende de qualquer terapia para encontrar a aplicabilidade às situações do dia a dia. Em verdade, Giovanni finalmente introduzia as terapias holísticas no mosteiro, um assunto bastante polêmico na Ordem. Não que alguém defenestrasse as terapias, ao contrário, eram vistas com bons olhos. Eu me valia da aplicação de Reiki para harmonizar os chacras e de passes magnéticos em outras situações. No entanto, não eram a finalidade maior da Ordem, cujo alvo era o conhecimento filosófico como maneira de instrumentalizar o processo espiritual, mental e emocional dos seus integrantes. Proprietário de uma escola holística em Roma, Giovanni tentara introduzir na Ordem o estudo sobre as terapias. A ideia não vingou, sendo que, na época, eu fui um dos principais opositores. Alguns monges foram estudar com ele na Itália; agora, estes eram os coordenadores que remodelariam o mosteiro.

Como se não bastasse, a carga horária dos estudos filosóficos foi reduzida drasticamente para que sobrasse mais tempo para os cursos terapêuticos. A minha função se amiudou ao ponto de se tornar quase irrelevante. Fui conversar com o Geovanni, que me recebeu muito bem e, com modos gentis e educados, me explicou a importante transformação pela qual a Ordem passaria. Disse que as mudanças eram irreversíveis e assegurou o valioso legado que traria aos monges. Todos cresceriam, garantiu, desde que não resistissem à evolução.

Esses eram os fatos geradores do desconforto que eu sentia. A vida exige movimento. A Ordem seguira na contramão dos meus passos. Os novos coordenadores tinham um conhecimento que eu não me interessara em obter na época. Eu tinha ficado para trás ao deixar escapar uma oportunidade de crescimento. Depois de tanto anos de estudos e dedicação ao mosteiro, eu teria de reiniciar do zero. O orgulho e a vaidade gritavam em mim, gerando um enorme mal-estar intrínseco. Cabia a mim compreender a oportunidade perdida e ter a humildade de refazer o percurso. Recomeçar para me readaptar ou me desligar da Ordem. Não cabia seguir desconfortável onde eu sempre me sentira bem. Era o momento de decidir.

Depois do jantar, me municiei com uma caneca de chá e fui para a varanda. Gosto de olhar para as estrelas quando estou em crise. A grandeza do universo me redimensiona, entendo o meu tamanho e encontro o perfeito ponto de partida na construção de uma nova ideia que irá me libertar de emoções e raciocínios destrutivos. A paz se restaura; fico em condições de fazer a melhor escolha. Ao chegar, encontrei com o Heitor envolvido em suas reflexões. Ele sorriu e fez um gesto para eu me sentar na poltrona ao seu lado. Comentei sobre as minhas observações, conclusões e o impasse que me encontrava. Recomeçar a minha trajetória me dedicando aos cursos sobre as várias terapias holísticas ou me desligar da Ordem em função de não mais me ajustar em um lugar onde eu adorava estar até pouco tempo. Sem tirar os olhos das estrelas, o monge argentino me perguntou: “Pelas suas palavras, me parece que não será uma decisão difícil. O que o impede de recomeçar dentro dos padrões propostos pelo Giovanni?”. Falei que lutava para iluminar as minhas sombras pessoais. O orgulho e a vaidade ainda me impediam de fazer uma escolha tranquila. Uma tempestade interna impedia a clareza necessária para trazer calma à alma. Aqueles dias serviam para me mostrar o quão imaturo era o meu ego. Heitor se virou para mim e vaticinou: “Não se entende a vida através de uma única equação. Até mesmo o amor tem tons, nuances e camadas. Nem toda insatisfação é causada pela imaturidade de um ego envolvido em sombras; algumas surgem pelo distanciamento da verdade. São situações diferentes. Uma tem origem na incapacidade de ser; a outra, na deficiência em ver”. Fez uma pausa antes de indagar: “Quantas vezes você já teve de recomeçar uma jornada?”. Falei que muitas, tantas quantas foram as quedas que tive. Momentos em que fui levado a resgatar a minha unidade através da humildade, simplicidade e compaixão. Heitor prosseguiu: “Os erros chegaram ao fim?”. Respondi que de maneira nenhuma. Eu tinha aprendido sobre a importância dos erros para a reconstrução pessoal com base em diferentes e melhores fundamentos. O psicanalista questionou: “Nesses momentos as virtudes iluminaram as sombras do orgulho e da vaidade?”. Falei que sim, foram experiências valiosas porque me ajudaram a ir além de quem eu era. O monge argentino me deixou em xeque: “Embora ainda presentes, o orgulho e a vaidade nunca o impediram de recomeçar. Por qual razão dessa vez você não consegue?”. Eu não soube responder, mas entendi que estava aprisionado em uma incompreensão cujas razões eram desconhecidas para mim.

Pedi que me ajudasse. Heitor era um irmão cósmico: “Ninguém precisa se sujeitar a uma situação que não o agrada. Isto não significa humildade. Faz-se imprescindível entender a diferença entre os lados luminosos e sombrios da resignação. Quando inevitável, como a transição de alguém amado, uma demissão, divórcio, enfermidade irreversível ou mesmo uma onda planetária transformadora, a adaptabilidade é um movimento evolutivo por nos conduzir a entendimentos mais sutis e elevados. São casos em que nos movemos intrinsecamente para nos ajustar à vida. No entanto, existem situações que exigem movimentos externos para seguirmos livres, dignos, felizes e em paz, quando, por exemplo, estabeleço limites em uma relação para que não mais seja abusiva, quando troco de emprego ou profissão para me autorrealizar, decido me dedicar àquilo que estabeleço como prioridade e deixo de lado os subterfúgios e enganos que me afastam da minha essência, entre mil outras situações, assim como entender as razões para ficar ou a necessidade de partir. Sem compreender o momento não teremos condições de fazer a melhor escolha”. Fez uma breve pausa para eu concatenar as ideias e prosseguiu: “Temos de ter cuidado com o orgulho e a vaidade para que não sejam responsabilizados por erros que jamais tiveram qualquer participação. Tudo aquilo que nos sentimos incomodados por não nos reverenciar ou exaltar, sim, será atribuído a essas sombras. No entanto, nem todo desconforto fala sobre orgulho e vaidade. Algumas vezes revelam diferenças no olhar”. Franziu as sobrancelhas e me perguntou: “Como caminhar ao lado de alguém que deseja seguir por uma direção oposta àquela que queremos trilhar?”. Respondi que ninguém viveria bem ao se submeter a tal condição. Dessa vez Heitor me deixou em xeque-mate: “Tanto você quanto eu admiramos e fazemos uso de algumas terapias holísticas; logo, nada existe em nós contrário a elas. No entanto, a questão é outra. Ainda que você recomeçasse do zero no mosteiro e realizasse um a um os cursos terapêuticos, essa seria a Ordem que gostaria de frequentar? Esse movimento estaria alinhado aos seus propósitos?”. A resposta era não. Naquele momento entendi a diferença entre fuga e avanço. Fuga é quando criamos desculpas para evitar o desconforto do enfrentamento intrínseco. Avanço é todo movimento, livre de qualquer engano, que nos mantém na rota das transformações evolutivas.

O monge argentino me trouxe outro questionamento: “Você ficaria à vontade em seguir no mosteiro sob o comando de Giovanni?”. Falei que discordava dele, mas era preciso conviver com as diferenças. Heitor emendou a pergunta seguinte: “Sim, temos que respeitar as diferenças, desde que direitos não sejam afetados. No entanto, qualquer convivência exige limite para que haja respeito; na medida da sensatez, nenhuma relação deve ser desagradável para qualquer das partes. Então, apesar dos respeitos às diferenças, se faz necessário entender a exata distância que devemos manter cada relacionamento. Uns devem aproximar, outros mantidos distantes. Isto fala sobre o respeito que o indivíduo tem por si mesmo. O respeito é uma nuance fundamental ao amor”. Sem dúvida, ao manter uma rotina fora dos meus propósitos no mosteiro, não haveria qualquer chance de eu me sentir feliz, livre, digno e em paz.

Comentei que eu tinha procurado Giovanni para uma conversa. Apesar de ter se posicionado de maneira contrária aos meus argumentos, ele tinha sido delicado no trato comigo. Heitor discordou: “Eu também o procurei. A postura dele foi a mesma. Contudo, em momento nenhum houve delicadeza, uma virtude comum àqueles que se esforçam para não provocar nenhum mal a ninguém. O atual diretor foi apenas educado. A polidez é a virtude dos bons modos sociais, mas sem conter necessariamente qualquer conteúdo virtuoso. Giovanni foi polido, jamais foi delicado. De maneira educada, ele ignorou os objetivos da Ordem e o propósito que reuniu tantos monges ao longo de décadas. De modo gentil, foi egoísta ao direcionar o mosteiro ao encontro dos seus interesses, sejam profissionais, sejam pessoais, estes, sim, eivados em orgulho, vaidade e talvez ganância por poder ou dinheiro. Enfim, a delicadeza tem amor em seu conteúdo; a polidez é um verniz para mostrar uma aparência que nem sempre corresponde à essência”. Heitor me oferecia uma diferente elaboração das experiências que eu vivia naquele momento, me permitindo aprofundar conclusões e ampliar escolhas. Em seguida, ele indagou: “Ainda que fizesse todos os cursos terapêuticos que ele propõe, ainda que lhe fosse concedido um cargo de coordenador, você se sentiria confortável em viajar nessa carroça?”.  A resposta era óbvia.

Fui tomado por uma agradável sensação de leveza e suavidade. Leveza é a capacidade de não deixar que mágoas e irritações estacionem na alma; suavidade é o poder de seguir em frente sem se envolver em conflitos, sempre desnecessários. Não havia necessidade de eu me aborrecer com o Giovanni, embora discordasse da sua postura; os erros eram dele. Se o direcionamento que impunha ao mosteiro fosse inevitável, me bastaria seguir por outra estrada para me manter no meu caminho. Sem ressentimentos ou brigas. Heitor sorriu em concordância com o raciocínio.

Falei que seria uma decisão difícil para mim, mas pela manhã pediria o meu desligamento da Ordem. Eu tinha um rumo bem definido; cabia somente a mim me manter na rota. O monge argentino tornou a concordar sobre o raciocínio, mas desta vez apenas em parte: “A capacidade de se autodeterminar concede o poder de viver sob as suas próprias regras. Entretanto, nenhuma dificuldade deve caber numa decisão; as escolhas apenas são difíceis enquanto ainda imaturas na consciência; quando amadurecidas, as mesmas decisões se tornam fáceis. A fruta verde precisa ser arrancada do galho, enquanto a madura pousa nas mãos sem necessidade de qualquer ímpeto”. Em seguida, concluiu a conversa daquela noite: “A hora é de quietude e silêncio; comentários apenas servirão para agravar o mal-estar que domina o mosteiro. Muitos são os monges insatisfeitos com a atual direção. Observe e espere mais um pouco para decidir; o tempo ajuda à elaboração da experiência ao fornecer novos elementos e permitir a correta depuração”.

No passar dos dias, assisti abismado a hierarquização da Ordem. Inúmeros cargos foram criados, trazendo a sensação de que havia diversas classes ou categorias de monges. Não que ordem, disciplina e respeito devam restar desconsiderados; nenhuma organização prospera sem esses atributos fundamentais. Porém, foi impossível não lembrar como a pureza do início do cristianismo havia se perdido nos séculos vindouros na criação de religiões e seitas que tornavam alguns indivíduos supostamente mais importantes do que outros no acesso ao sagrado. O amor movido pela mais legítima fraternidade tinha sido esquecido um canto qualquer do mundo. O mesmo processo ocorria naquele instante no mosteiro. Era hora de sair dali para me manter coerente aos meus propósitos.

Era madrugada quando terminei de escrever a carta com o pedido de desligamento. No momento que a assinaria, bateram na porta do meu quarto. Era o Heitor, que para minha surpresa estava acompanhado pelo Velho. Entraram e se sentaram. Por todo o tempo eles estiveram em contato por intermédio de mensagens. Confirmei as palavras do monge argentino. O mosteiro, ao menos aquele ao jeito que eu amava, estava à beira da destruição, afirmei. O Velho sorriu e disse: “Nada que não possamos refazer. Ainda bem que vocês, assim como a grande maioria dos monges, não desistiram. Será mais fácil refazer o malfeito com a colaboração de todos. Ou quase todos. Giovanni desperdiçou uma grande oportunidade. Levará um tempo para entender a queda”. Ao amanhecer, o Velho foi reconduzido à direção da Ordem. Em um só ato, desfez todas as medidas tomadas durante a sua ausência. Inconformados e desconfortáveis, Giovanni e os seus seguidores se desligaram da Ordem. Em poucas horas, a alegria voltara a reinar entre as paredes daquela casa de luz.

Duas semanas se passaram. Acordei bem cedo, como de costume, e me dirigi à cantina. Encontrei o Velho sentado na mesa próxima à janela com vista para as montanhas. Enchi uma caneca de café e me sentei ao seu lado. Comentei como as conversas com o Heitor foram fundamentais para eu me manter no meu eixo de luz enquanto ideias e emoções densas me corroíam. Admiti a dificuldade de lidar com isso todas as vezes que acontece. O Velho disse: “Se algo me incomoda, sou envolvido por uma sensação ruim. Significa que há um pensamento imperfeito ou incompleto me conduzindo, como um navegante que se orienta por uma bússola imprecisa ou quebrada. É preciso trocar essas ideias e emoções, que tanto me fazem mal, por outras que me reconduzam à alegria de viver. Embora não seja fácil, sempre é possível”. Mostrou as sandálias de couro que usava e explicou: “As sandálias eu tiro com as mãos; nenhuma dificuldade reside nesse ato. Quanto aos pensamentos amargos e sentimentos ácidos, como me liberto deles para não sucumbir envenenado em tristeza ou revolta?”. Falei que por mais destreza que tivesse com as mãos, de nada me serviriam para esse movimento. O bom monge prosseguiu: “Somente o olhar claro permite ver o que a névoa das incompreensões não nos permite enxergar. Não à toa, o Sermão da Montanha nos ensina que quando nossos olhos são bons todo o universo é luz. Ideias e emoções azedas se desfazem para dar lugar a pensamentos e sentimentos adoçados em virtudes, as mil maneiras de amar com sabedoria”.

Argumentei que busquei pelas virtudes para iluminar um momento de extrema escuridão, mas naquele momento elas de pouco me serviram. O Velho esclareceu: “As virtudes se aplicam à verdade, que naquele instante se estreitou em limitações de culpa desmedida. Como quase todos os seus erros no passado tiveram como causa o orgulho e a vaidade, ao sentir desconforto, acreditou se tratar de uma situação semelhante. Dessa vez foi diferente; você teve dificuldade em entender a verdade. Então, as virtudes ficaram sem a melhor aplicação. A complexidade de uma decisão reside, ora na ausência de virtudes, ora no distanciamento da verdade. Daí a importância do Heitor para o ajudar a se manter no seu eixo de luz enquanto você esteve longe da verdade”. Fez uma pausa para me lembrar: “No seu país tem uma bela música que diz faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar. Evite qualquer ímpeto durante as tempestades da alma, quando o olhar claro está indisponível. Aguarde e observe; silêncio e quietude são os melhores elixires”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “A humildade não consiste em se submeter necessariamente às mudanças impostas por situações externas, mas de ter paciência e pureza para se conduzir em harmonia consigo mesmo até encontrar a passagem que o permitirá seguir em frente. Levar o barco devagar durante nevoeiro também é gesto de humildade. Há que se entender o vento antes de direcionar as velas e o leme”.

Em seguida, tornou a apontar para as sandálias de couro e concluiu: “Tiro as sandálias para entrar em um templo sagrado. Pisar descalço simboliza humildade, a virtude do sincero aprendiz, e pureza, a virtude de quem abdicou de usar a maldade mesmo a tendo à disposição. Há um templo sagrado dentro de mim onde eu me regenero, renasço e reconstruo; nele habita a verdade que me orienta e serve de lastro à embarcação que sou nessa viagem pelo oceano do tempo rumo às praias da luz. Movimento-me através das virtudes, mas de nada serve navegar sem saber para onde quero ir”. Então, finalizou: “Nas noites escuras, tire as sandálias para pisar descalço no solo sagrado da alma. Aceitar a própria ignorância inicia a jornada de encontro à verdade. A cada expansão da verdade uma nova porta se apresenta; as virtudes nos movem através delas. Haverá inúmeros momentos assim. Não se assuste; ao contrário, agradeça. É quando temos a oportunidade de girar a roda da evolução. O seu movimento é silencioso; aqueles que fazem barulho não a percebem nem a escutam”.

O dia amanhecia. Os monges começaram a chegar para o desjejum. Heitor veio se sentar conosco. Comentei que a alegria de todos era contagiante. O monge argentino lembrou: “A alegria de resgatar o que parecia perdido, e que muitas vezes esquecemos a importância que possui, não é menor do que a alegria por novas conquistas”. O Velho sorriu em anuência, pediu licença e se levantou. Iria se preparar para a palestra daquela manhã. Vimos ele se afastar com os seus passos lento, porém, seguros.

3 comments

Alessandra abril 6, 2023 at 7:18 am

Obrigada! Estou lendo na madrugada porque perdi o sono. Estava procurando uma resposta, e na minha alma uma voz pedindo para eu entrar no site. E por incrível que pareça, minha resposta estava aqui.

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CRISTINA BOVI MATSUOKA abril 17, 2023 at 2:54 am

Aho!

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André Filipe abril 27, 2023 at 6:18 pm

Inconformados e desconfortáveis, Giovanni e os seus seguidores se desligaram da Ordem.Lembrou a queda de Lucifer e sua legião de anjos rebeldes.

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