TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Trigésimo primeiro limiar – Não há vitória fora da Luz)

Eu andava pelas ruas de uma grande cidade. A chuva fina não incomodava. Detive-me em frente a uma banca de jornais. As manchetes anunciavam o discurso do presidente explicando a necessidade de medidas políticas restritivas para combater a grave crise financeira que assolava o país. A liberdade de hoje seria trocada por melhores condições de vida amanhã. Segundo o político, a pluralidade de ideias atrapalhava o desenvolvimento e a produtividade do país. Algumas pessoas expressavam fisionomias apreensivas e preocupadas; no entanto, a maioria se mostrava otimista e apoiava as medidas. O presidente alegava que era um mal necessário. Ao meu lado, uma mulher fez não com a cabeça e murmurou como se falasse com ela mesma: “Nenhum mal é necessário. Trocar a liberdade por conforto significa negociar a verdade. Não se negocia o inegociável.  Vender a verdade é um crime contra a Luz. É o início da banalização do mal. Usa as sombras como ferramenta de destruição quem ainda não aprendeu a lidar com as virtudes como instrumento de criação. Em outras palavras, busca por atalhos quem não está disposto a enfrentar todos os pontos de um ciclo evolutivo. Não chegará a lugar nenhum. Haverá um personagem de grande poder aparente, porém frágil e desequilibrado em essência. Sem atravessar todas as etapas de aprendizado e transformação, o indivíduo ficará sem condições de prosseguir em frente”.

Ao perceber o meu interesse em suas palavras, disse: “As armas causam medo e destruição. Quem segue o Caminho não as usa”. Questionei se ela falava sobre a possibilidade de, em breve, eclodir uma guerra de grandes proporções. Ela franziu as sobrancelhas e explicou: “Será apenas uma consequência inevitável como relação direta às causas que a provocam. Mas isso ainda não aconteceu. Neste momento não falo do aço que estilhaça os corpos, me refiro aos comportamentos que dilaceram as almas. Atos e palavras que coagem, oprimem, enganam, subjugam, condenam, restringem, desanimam e humilham são poderosas armas de destruição que deixam rastros de medo e dor. Sem os devidos ajustes, cada um de nós se torna um autêntico arsenal com capacidade para disseminar muito sofrimento”. 

Argumentei que o mundo era um lugar complicado para se viver. A mulher ponderou: “O mundo nunca será do jeito que a gente quer. As pessoas nunca agirão de acordo com a compreensão que temos da verdade. Nunca terão as mesmas opiniões, desejos e escolhas. Em cada indivíduo, um olhar, uma maneira de ver a vida, o mundo e as pessoas. Aceite que na maior parte do tempo você será contrariado em suas vontades e interesses. Do mesmo modo, você também irá contrariar muita gente com as suas decisões. É assim mesmo; acredite, está tudo no seu devido lugar. A pluralidade de ideias fomenta o pensamento, incentivando o indivíduo a ir além de onde sempre esteve. Desde que tenha cuidado para não invadir o espaço sagrado do outro, ou seja, de não interferir na esfera de liberdade, intimidade e direito de ninguém, assim como não permitir que ninguém aja dessa maneira consigo, não existe nenhum problema nisto. Esta delimitação de fronteiras se chama respeito, uma virtude indispensável para evitar quaisquer tipos de abusos”.

Viramos uma esquina. A mulher prosseguiu: “Aprender a conviver com as diferenças é um importante passo evolutivo. Entender e respeitar esse conceito é fundamental para alicerçar os pilares da paz e da liberdade. Além de muito enriquecedor. As diferenças não se anulam como muitos acreditam, porém, se explicam e se completam. Portanto, é primordial que coexistam com delicadeza e mansidão. Aqueles que querem tudo ao seu jeito e maneira são os antagonistas da liberdade. Nenhum dos envolvidos conhecerá a paz”.

Entramos por uma rua que nos levava às construções mais antigas da cidade. A mulher me lembrou: “Quando imprevistos e contrariedades acontecerem, e sempre acontecem, resista para nunca invadir consciências, forjar verdades ou manipular a vontade alheia; jamais deixe de buscar em suas fontes intrínsecas a força e o equilíbrio imprescindíveis ao bem-viver. Se desorientado, vá ao silêncio conversar com a verdade; encontrará um mapa e uma bússola. Na quietude de si mesmo descobrirá o poder das virtudes como mecanismo indispensável para superar quaisquer dificuldades. Sempre haverá uma virtude capaz de instrumentalizar o viajante disposto a prosseguir em frente. Ao fazer uso dela, ocorrerá uma importante transformação intrínseca; um valioso passo será dado”.

Comentei que nem sempre temos como saber se estamos fazendo a escolha certa. O mal se vale de mil truques e armadilhas. A mulher foi enigmática: “Em tempos de paz o lugar de honra fica à esquerda do príncipe. Em tempos de guerra, à direita”. Falei que não tinha entendido. Ela sorriu como se já esperasse por isso e explicou: “Trata-se de um milenar código poético. Já se imaginou como um reino ou aldeia, como se você fosse muitos em um?”. Foi a minha vez de sorrir e fazer sim com a cabeça. Esse conceito se fortalecia a cada etapa da estranha viagem; entendi que era importante à compreensão do Tao Te Ching. Ela prosseguiu: “Dentro desse império existem muitos habitantes. Cada um deles tem voz própria, com diferentes graus de influência na administração e destino do reino. Uma pessoa próspera possui esses habitantes devidamente iluminados e convivendo em harmonia. Quando em conflito, a aldeia estará condenada à miséria; não necessariamente financeira, mas existencial”. Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “Dois desses habitantes possuem função de fundamental importância. Um deles é a alma, denominada de príncipe de acordo com esse código poético, a quem cabe orientar sobre o destino do reino, face o amor e a sabedoria que possui. O outro é o ego, responsável pela administração quanto às decisões práticas para o devido funcionamento da aldeia. Modernamente o ego seria uma espécie de primeiro-ministro. A alma aconselha, a decisão cabe ao ego. Por isto se diz que ocupa um lugar de honra, tamanha a sua importância. Ambos são igualmente valiosos em nosso atual estágio evolutivo. Ao ignorar a alma, crescem as chances de o ego realizar escolhas equivocadas e até mesmo se deixar seduzir pelo mal. Quando maduro, o ego desperta a alma para um diálogo amoroso e sábio. Segundo os poetas, coração, residência da alma, fica do lado esquerdo. Escolhemos por amor ou escolheremos errado. Do contrário, quando as decisões passam distantes do coração, no manteremos em conflito. Conosco e com o mundo”

Enquanto andávamos, ela acrescentou: “O amor e a sabedoria, manifestados através das mil virtudes, mostram que o mal é ineficaz como ferramenta de conquista. As armas são instrumentos nefastos. O sábio as utiliza apenas para defesa. Ele prima pela pureza”. Interrompi para falar que havia uma contradição. Há pouco ela havia dito que as armas eram prejudiciais. Não fazia sentido o uso de ferramentas sinistras por um sábio; seria a atitude condenável de combater o mal com o mal. A mulher explicou: “Não há nenhuma contradição”. Esperou que um casal passasse para que não nos ouvisse, e continuou: “Sábio é todo indivíduo que possui um bom nível de alinhamento entre ego e alma. Muitas virtudes já foram agregadas como mecanismos de evolução e trabalham sob um mesmo propósito, a Luz”. Questionei o fato de, se cada virtude é uma modalidade de amor em confluência com a mais fina sabedoria, como o sábio poderia usar as armas sem se afastar da Luz? Afinal, se usar o mal para combater o mal, mesmo em sua defesa, estaria se valendo das artimanhas das sombras e disseminando a escuridão, argumentei. A mulher desfez as minhas dúvidas: “É de suma importância que conheçamos o mal. Profundamente. Nenhum sábio pode ser ingênuo. Se for, se tornará uma presa fácil. Em verdade, o sábio traz em si uma poderosa virtude, a pureza. Típica das crianças e dos imprudentes, a ingenuidade se caracteriza pelo desconhecimento do mal. Bem diferente, a pureza é a abdicação do mal, mesmo o tendo à disposição como elemento de conquistas. Para tanto, se faz necessário conhecer bem os truques de sedução e armadilhas usadas pelas sombras para nos prender pelo medo ou na dúvida quanto à nossa própria incapacidade em superar as inevitáveis adversidades dos dias. Desejos, comodidades e privilégios também são armas utilizadas, pois, não raro, nos leva à construção de raciocínios tortuosos para justificarmos perante a própria consciência o uso do mal. O conhecimento sobre o assunto, aliado a virtude da pureza já agregada em si, permite ao sábio não se deixar aprisionar nas tramas da maldade. Quem se atém à verdade e as virtudes se mantém protegido na Luz; jamais será encarcerado pela escuridão”.

“Em suma, o sábio usa o conhecimento sobre o mal para não se deixar enganar por ele. Em nenhuma hipótese o utiliza como instrumento de combate em suas conquistas e vitórias”.

Indaguei sobre aqueles que usam as armas das sombras e se sentem vitoriosos com este estilo de vida. A mulher ensinou: “Quem se alegra com as armas, acredita que exista vitória na morte. Assim, toda vitória equivale a um funeral”. Ao perceber o meu espanto com a linha de raciocínio, ela esclareceu: “Qualquer vitória conseguida através das armas ou, se preferir, por intermédio das sombras, será rasa e vazia em Luz. Um movimento que equivale à morte pelo rastro de destruição, sofrimento, lágrimas, tristezas e mágoas que deixará em outras pessoas. Ainda que traga alguma euforia, será transitória e vulgar. A felicidade, a dignidade e a paz ficarão ainda mais distantes. Percebe que, em verdade, se trata de uma derrota?”. Sem esperar pela minha resposta, prosseguiu: “As armas são ferramentas de dominação, subjugação e aprisionamento. Geram medo, ressentimento e dor. Cada sofrimento causado a uma pessoa equivale a uma morte pelos danos mentais e emocionais provocados. Para cada morte, um funeral”.

Chegamos ao final da rua. A mulher parou para se despedir e disse: “Não existe vitória fora da verdade e das virtudes. Ninguém alcançará as plenitudes por intermédio das armas. A Luz interna se apaga no uso do mal como arma de conquista. Na escuridão o Caminho se fecha”.

Despediu-se, não sem antes apontar para a porta de uma antiga casa, na qual havia um desenho feito a giz. Não necessitava de outra palavra. Ela se foi sem olhar para trás. Eu sabia o que tinha de fazer.

Poema trinta e um

As armas causam medo e destruição.

Quem segue o Tao não as usa.

Em tempos de paz

O lugar de honra fica à esquerda do príncipe.

Em tempos de guerra, à direita.

As armas são instrumentos nefastos.

O sábio as utiliza apenas para defesa.

Ele prima pela pureza.

Quem se alegra com as armas,

Acredita que exista vitória na morte.

Assim, toda vitória equivale a um funeral.

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