MANUSCRITOS VII

Esse não sou eu

Eu estava em Sedona, nas montanhas do Arizona. Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom ensinar a filosofia ancestral do seu povo através de histórias musicadas, sentado na cadeira de balanço, em silêncio, parecia mais interessado em preencher o fornilho de pedra vermelha do indefectível cachimbo com fumo do que em ouvir as minhas lamúrias. Lidar com as críticas não é fácil. Era um período que o mundo se virara contra mim. Eu me tornara o alvo perfeito e predileto de todas as pessoas. Tudo que eu fazia virava motivo de avaliação e julgamento. Aquela situação me incomodava bastante. Eu não sabia a razão pela qual isso acontecia. Era o meu carma, falei resignado, sem esconder uma ponta de amargura. 

Alguns dias antes da viagem, uma amiga apontara uma série de defeitos em uma propaganda que a agência de publicidade, na qual eu era responsável pelo setor de criação, veiculara em uma revista destinada ao público feminino. Era um anúncio de lingerie. A equipe com que eu trabalhava estava repleta de mulheres que participaram de cada detalhe, da elaboração da ideia à arte final do produto. Isto me deixara à vontade em um universo tão delicado e repleto de sutilezas. Parecia não ter bastado. Embora tivesse o cuidado de escolher palavras suaves, me acusou de ser preconceituoso e insensível. Segundo ela, eu me arvorara em abordar um assunto que desconhecia. Era apenas mais uma crítica entre muitas daquele período; o acúmulo de emoções não elaboradas me fez transbordar. Reagi de maneira intempestiva; em retribuição, não hesitei em apontar vários defeitos da sua personalidade e temperamento. Irritada, ela me ofendeu. Uma amizade de décadas se desfizera em poucos minutos de conversa. Senti-me muito mal por dias.

Retirei a revista da mochila e a mostrei ao xamã. Perguntei se ele via algo de errado no anúncio. Canção Estrelada olhou a propaganda e, em seguida para mim; observou a ambos com atenção. Nada disse. Acendeu o cachimbo, baforou algumas vezes para o fogo se espalhar pelo fumo. Divertiu-se, como de costume, com o bailado da fumaça à sua frente. Tornou a me olhar e disse: “Quer saber a minha opinião sobre o anúncio ou veio em busca de apoio à maneira como você reagiu à crítica?”. Confessei que esperava que ele me desse razão em ambas as situações. O xamã disse: “A opinião sobre determinada coisa, situação ou alguém quase nunca retrata o objeto de modo fidedigno e justo. Raramente um olhar é puro e isento de paixões. Uma visão contaminada deturpa qualquer imagem. Muitas vezes, há mais do observador embalado às palavras do que aspectos reais do objeto, seja pessoa ou fato, analisado”. Tornou a baforar o cachimbo e acrescentou: “O que vemos é a mistura, em distintas desproporções, a depender do caso, entre a verdade e as limitações do observador. Vejo somente até onde a minha consciência alcança, uso apenas as cores, claras ou escuras, que o meu coração permite”.

E prosseguiu: “Eis a razão pelas quais as pessoas maduras recusam a cadeira do juiz, um lugar sempre a nos convidar a apontar os erros e defeitos alheios como artifício para ocultar as próprias dificuldades. Colocar uma lente de aumento sobre as características de alguém traz a falsa sensação de sermos os senhores da verdade ou melhores do que de fato somos. Acreditamos saber tudo sobre os outros, embora nada saibamos sobre as incompletudes que influenciam nossas personalidades e temperamentos. Ignoramos as autênticas razões e fundamentos das reações descabidas e descontroladas. Argumentamos que temos de impor respeito; sim, é necessário, porém, os conflitos e arroubos do comportamento são desnecessários. O respeito se molda na coerência com a verdade alcançada e no uso incessante das virtudes; ao agir assim, o respeito se impõe ao natural. Agressividade e irritação são manifestações de fragilidade, descontrole e medo; sinceridade, serenidade e clareza demonstram o equilíbrio e a força da alma. A maturidade do ser”. 

Deu de ombros e acrescentou: “Embora não a tenhamos a oferecer, exigimos que sejamos tratados à perfeição. Perdemos a noção do ridículo e o real senso de justiça”. Baforou o cachimbo e disse: “Criticar se tornou uma espécie de compulsão. Um vício comportamental oriundo da falta de coragem, vontade e honestidade para enfrentar o espelho e a oficina da verdade. Uma tentativa desesperada para fugir da genuína batalha, aquela entre luz e sombras travadas na própria consciência, com intensas influências do coração. Pensar livremente, sem as fôrmas dos condicionamentos, interesses e medos; sentir livremente, sem se afogar nos maremotos das paixões, não é para qualquer pessoa”. 

Fez um gesto com a mão para ressaltar: “Não raro, as críticas surgem da inveja, do ciúme ou de um desejo não correspondido; de algo que incomoda, dói, mas não consigo identificar a origem em mim. Como uma droga qualquer, ao fazer uso da crítica tenho uma ilusão momentânea e a sensação artificial de equilíbrio e força. Neste instante sentimos o poder inebriante da falsa verdade; nos acreditamos maiores do que somos. Então, no dia seguinte, aumentamos a dose”.

Franziu as sobrancelhas e pontuou: “Aqueles que não sabem lidar com as opiniões alheias, padecem da mesma enfermidade de quem critica e condena por não tolerar sabor diferente do próprio gosto. Ou por mostrar a ferida não estão prontos para tratar”. Ele olhou para o céu, onde as primeiras estrelas da noite surgiam, e disse: “Não falo nada que todos já não saibam. A questão é entender o motivo pelo qual, mesmo sabendo de tudo isso, ainda nos sentimos mal diante de uma crítica”. Argumentei de quanto era desagradável ser criticado após ter oferecido o melhor, fosse nas minhas relações, fosse na execução de uma tarefa. O xamã ponderou: “Depende se quem as receber estiver movido por sombras ou virtudes. Ao ter o orgulho e vaidade como timoneiros, as críticas serão como ácido; as palavras irão corroer o coração; zangamos pela incompreensão ou adoecemos pela dor. Quando temos a humildade e a sinceridade como orientadoras, vislumbraremos o próximo movimento evolutivo, por nos mostrar algo que desconhecíamos ou, se não for o caso, veremos se tratar de uma prova à paciência e uma oportunidade à compaixão; em qualquer das situações, agradecemos o movimento luminoso permitido. As palavras que servem ficam; as demais são descartadas”. 

Fez uma pausa antes de concluir: “No mais, nunca esqueça, assim como nem todo elogio é merecido, nem toda crítica é justa. O equilíbrio e a força residem em viver na última fronteira da verdade alcançada e no limite das virtudes conquistadas. Aprenda a filtrar; fique com tudo aquilo que auxiliará em seu aperfeiçoamento; agradeça a colaboração, é a vida oferecendo um degrau. Todo resto são manifestações das pessoas quanto as incompreensões que transbordam nelas mesmas. São questões delas, não suas. Se houver humildade, simplicidade e compaixão, você estará protegido do feitiço deletério das palavras; agradeça a oportunidade, é a vida alicerçando as conquistas da sua alma”. 

Aquelas ideias ainda estavam procurando lugar para morar na minha mente, quando ele ampliou o assunto: “A consciência impactada por experiências frustrantes pode enxergar apenas sexo e interesse onde existe solidariedade e amor. O contrário também se aplica. Emoções e sentimentos alteram a concepção do olhar e desviam as rotas da razão. Não há estradas retas dentro de quem ainda não atingiu a maturidade da alma”. Comentei que, de fato, a minha amiga ainda trazia muitas incompreensões em si. O xamã me corrigiu: “Eu me referia a você, não a ela”. 

Em seguida, ponderou: “Não importam as palavras dela. Compreenda que você permitiu a elas o poder de arrancá-lo do próprio eixo. Você reagiu mal, com irritação e impaciência. Isto explica o motivo de ter se sentindo desconfortável. A partir daí, não importa quem tem razão, vale o resultado da batalha. A sua luz se apagou. Você perdeu”. 

Antes que eu pudesse discordar, ele esclareceu: “Os pilares da alma se firmam através da percepção apurada, sensibilidade aguçada e as emoções pacificadas. Para existir clareza não pode haver interferência das frustações, dos desejos nem dos medos. Somente então será possível ver além das aparências, ouvir as palavras não ditas, assim como reinterpretar os seus significados como método indispensável à verdade profunda, aquela que, nas almas imaturas, quando vem à tona, mostra o transbordamento da gaveta das emoções no armário das incompreensões”. 

Em seguida, explicou: “Você diz ter se tornado o alvo predileto das pessoas, e isto seria o seu carma. Sem dúvida, principalmente se levarmos em conta que carma significa aprendizado. Aprenda a navegar nas críticas alheias sem se deixar naufragar por aceitar as tempestades provocadas pela fúria dos ventos que não são seus. Viva na última fronteira da sua verdade, movimente as virtudes a todo instante. Assim desmanchamos os carmas”.

Fechou os olhos, como se conversasse consigo, e disse: “Cada pessoa tem absoluto controle sobre as suas ações, jamais sobre o resultado, que dependerá de como o mundo irá interpretar ou aceitar as realizações. Se ofereço o meu melhor, isto me basta. O sucesso reside sempre em agir no expoente da capacidade, jamais no resultado desejado, que sempre dependerá da aceitação, gosto e compreensão de outras pessoas. O que está além da minha ação não me traduz; é a parte que pertence ao mundo. Sou o movimento que faço, nunca como os outros o interpretam. Sem este entendimento a liberdade restará tolhida, a paz não se erguerá e a dignidade se tornará um personagem de ficção. A inversão desse olhar é uma das causas do crescente alastramento da ansiedade e da depressão nas sociedades contemporâneas; depreciamos a ação, onde reside o nosso genuíno poder, e superestimamos o resultado, onde mora os anseios do mundo, além do controle e da capacidade possíveis a qualquer pessoa. Buscamos o que não nos cabe como efeito da nossa percepção equivocada, sensibilidade reduzida e paixões descontroladas”. 

Fez uma pausa antes de continuar: “Sem contar com as sombras influenciadoras como o orgulho, a vaidade, a inveja, a cobiça e o ciúme. A incapacidade para elaborar as experiências ou de filtrar as críticas sem extrair de cada uma delas o devido conteúdo para uma inusitada transição, termina por formar os nós existenciais a atar as asas e impedir os próximos voos. Na impossibilidade de voar, por vício não debelado, nos dedicamos a usar estilingues e pedras a mirar outros pássaros ao invés de aprender a soltar as próprias asas”. 

O xamã prosseguiu: “Agredimos de mil maneiras e por múltiplas razões. Todas se resumem na incapacidade que temos de nos reconhecer ou, se preferir, de não enfrentarmos quem verdadeiramente somos. Agredimos por incapacidade de amar, na ausência de virtudes, por raiva não digerida, por medo da escuridão, pela ignorância quanto às nossas verdadeiras possibilidades. São como gritos inconscientes para as manhãs que nunca chegam, um pedido por ajuda não admitido. É o sangramento da ferida desconhecida”. 

Então, ele aprofundou a ideia: “O outro irá me incomodar todas as vezes que eu estiver desajustado em mim; desalinhado ao meu eixo de equilíbrio e força”. 

Antes que eu questionasse a origem destes dois últimos atributos, Canção Estrelada se adiantou: “O equilíbrio surge da coerência com a verdade alcançada, que se estabelece na última fronteira conquistada pela consciência até o momento. A presença ou ausência de equilíbrio emocional é a principal marca do temperamento de uma pessoa. Não raro, corrompemos ou negociamos com a verdade em troca de privilégios e facilidades. O vício está tão arraigado que nos valemos desta prática com frequência maior do que damos conta. Perdemos a autoridade sobre quem somos. Então, o desequilíbrio; as emoções aviltadas assumem o controle. Torno-me uma marionete dos meus vícios e paixões; um fantoche da ignorância sobre quem sou”.

Baforou o cachimbo e prosseguiu: “A força se firma no exercício inadiável das virtudes já adquiridas em todas as situações do cotidiano, além da busca sem fim para sedimentar outras ainda em transição. As virtudes legitimam na prática o amor e a sabedoria já agregados ao indivíduo; moldam a personalidade. Ao deixar que as sombras se agigantem para atropelar as virtudes, seja em uma ação planejada, seja na reação descontrolada de uma situação inesperada, terminamos por ficar enfraquecidos. Significa que o medo instalou um império dentro da gente. Não me pertenço mais”. 

Em seguida, complementou o raciocínio: “As virtudes esculpem o caráter e a ética; o equilíbrio suaviza e embeleza o comportamento. Use as virtudes como um guerreiro maneja as armas em batalha; seja coerente com a verdade como um sacerdote se mantém conectado ao Grande Espírito, cada momento é parte distinta de um mesmo e único cerimonial cósmico. Nunca faltarão equilíbrio e força; ninguém jamais conseguirá apagar a sua luz”. 

Depois, pegou o seu tambor de duas faces e entoou uma linda canção ancestral no dialeto do seu povo. A melodia embalou a meditação. Aos poucos, as ideias foram alocadas na mente e no coração. Não trocamos outra palavra naquela noite. 

Na manhã seguinte, como acontecia aos sábados, em frente ao frondoso carvalho que havia no quintal, as pessoas se sentaram no gramado para ouvir Canção Estrelada contar histórias que ensinavam a filosofia ancestral do seu povo. Tornara-se uma tradição em Sedona esses cerimoniais que, embora singelos, eram poderosos pelo poder de transformação que ofereciam. Naquele dia, o xamã contou uma história de um homem que tinha uma bizarra característica: ele sofria alterações de corpo, personalidade e temperamento de acordo com tudo que ouvia. As palavras o influenciavam por completo; ele era moldado a cada instante conforme a opinião alheia. Esse indivíduo sofria bastante, pois não conseguia entender quem realmente era. Ao contrário do que se pode imaginar, ele não era muitos; em verdade, ele não era ninguém. Exausto da incompreensão sobre si mesmo, procurou um feiticeiro conhecido por sua bondade e magia. Foi aconselhado a ir todas a manhãs a um lago próximo para, no espelho das águas, observar a própria imagem. No primeiro dia, o homem nada viu. Como o feiticeiro avisara que o efeito da magia não era imediato, sendo necessário retornar ao lago diariamente, ele persistiu. De início, as linhas se mostravam imprecisas e indefinidas. À medida que aprimorava o olhar, o desenho da sua face ganhava novos traços e inusitados contornos, se tornando significativas e agradáveis. Outra etapa da magia era falar em voz alta para si mesmo, como se via ao se observar no espelho. Em seguida, teria de dizer quem não mais queria ser, assim como seria aquele que gostaria de se tornar. As palavras ditas no lago eram compromissos firmados. Compreendeu como as suas ações e reações, diante de todas as situações, modificavam a sua imagem no espelho das águas no dia seguinte; as linhas se tornavam mais claras e belas conforme os atributos idealizados floresciam em sua personalidade e temperamento. No mesmo compasso, à medida do entendimento crescente, a voz do mundo perdia o poder de anular a sua autenticidade e originalidade. As palavras úteis eram usadas para a sua construção; as demais, entregava ao vento, pois, nenhuma beleza permitiam. Aos poucos, as influências externas foram diminuindo, diminuindo, até desaparecerem por completo. Restou a essência; nela, a verdade e as virtudes. Tornou-se um homem sereno, confiante, solidário e alegre. Ele descobrira e conquistara a si mesmo; então, ficou apto a usufruir das maravilhas da vida. Passara a se guiar pela própria verdade e se movimentar através das suas virtudes ao invés de ver e viver na dependência de olhares incapazes de traduzir quem ele verdadeiramente era.

Ao final, encantadas e emocionadas, as pessoas foram agradecer a Canção Estrelada o conhecimento oferecido. Algumas se encaixavam por inteiro, outras em parte, na história narrada. Compreendiam a necessidade de realizar o encontro mais importante das suas vidas, aquele que, cedo ou tarde, cada um terá consigo mesmo. Foi quando um homem se aproximou e, na frente de todos, acusou o xamã de ser um impostor. Disse que ao usar parábolas fazia com que cada ouvinte usasse a própria consciência no despertar da verdade. Era um vigarista fantasiado de mestre. Sem se abalar, Canção Estrelada, disse com a voz num tom entre a doçura e a firmeza: “Você tem razão quanto ao alcance das histórias. O entendimento precisa descortinar muitas camadas até o despertar absoluto da consciência. Assim, as histórias que conto podem apenas entreter ou trazer a magia da transformação. Isto muda conforme o ouvinte; o mesmo enredo, em outro momento, será entendido de maneira diferente. Sim, também há razão quando você diz que cada qual é o seu próprio mestre, pois o aprendizado carecerá sempre de empenho pessoal para se transformar em sabedoria”. Fez uma pausa para concluir: “No mais, nunca me apresentei como mestre. Eu sou tão e somente um contador de histórias; sempre disse isto. As parábolas apresentam portais, ora bem claros, ora bastante sutis. Atravessar é mérito exclusivo de quem consegue caminhar através delas. A história, assim como o narrador, é o mesmo para todos, contudo, cada viajante avançará na justa medida da verdade alcançada. Nem um passo a mais”.

Não satisfeito, o homem foi embora dizendo que o xamã era uma fraude. Com a delicadeza habitual, e sem traçar qualquer comentário, o xamã se despediu de todos e retornamos à varanda. Como se não tivesse acontecido a agressão verbal, ele se sentou na cadeira de balanço e acendeu o cachimbo. Atônito, questionei como conseguia manter tamanha calma logo após a acusação de ser um vigarista. Canção Estrelada me fez entender definitivamente a lição: “Aquele homem me leu e descreveu com as letras e cores permitidas aos seus olhos. Esse não sou eu. Saber disto me basta”.   

7 comments

Isabella maio 7, 2022 at 6:12 pm

Obrigada 🙏

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SCHWEITZER maio 9, 2022 at 8:04 pm

Genial, absolutamente genial.

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Magnum maio 9, 2022 at 10:55 pm

Obrigado pelas palavras de luz.

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Daniel De Santi maio 11, 2022 at 5:39 pm

Que a consciência da distância entre o que somos hoje e o que podemos nos tornar, trazida por esse texto luminoso, não nos sirva de pretexto para a imobilidade.
Que a espiritualidade de infinita compaixão nos auxilie nessa longa caminhada!

Gratidão pelo ensinamento!

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Terumi maio 17, 2022 at 1:29 am

Gratidão 🙏

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Paulo Vitor Alves dos Santos maio 19, 2022 at 3:25 am

Gratidão por mais uma luz! 🙏🏾

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Sergio Abreu julho 15, 2022 at 5:39 pm

Perfeito! Como sempre..

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