TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Quinquagésimo sexto limiar – A identidade do mistério)

Não havia ninguém na praça. Em frente, uma Igreja Batista. Entrei. Também estava vazia. A sensação de bem-estar do lugar me fez querer ficar mais algum tempo. Subi as escadas que levavam ao andar superior, onde se localizava o salão destinado aos cultos. Solitário, sentado em um dos bancos, um homem negro, elegantemente vestido de terno, rezava. Algo naquele sujeito era encantador. Exatamente o quê, eu não sabia. Talvez a energia luminosa que emanava. Observei-o por longos minutos. Não tive vontade de me afastar. Ao me acomodar no último banco, o ouvi dizer sem que tenha se virado para me olhar: “Sente-se aqui”. Com um singelo movimento de cabeça, apontou com o queixo o lugar ao seu lado. Obedeci. O corte dos cabelos era rente, a barba aparada com um fino bigode lhe conferia a imagem de uma pessoa zelosa consigo, mas sem qualquer excesso. Havia bondade, paciência e determinação em seus olhos, a voz tinha um timbre doce, porém, firme. Perguntei o que ele fazia ali. Ele explicou: “Sou o pastor dessa igreja. Rezo para que eu consiga encontrar a palavra capaz de transmitir a compreensão e os sentimentos da minha alma para todos”. Indaguei se essa tarefa era muito difícil. O homem sentenciou: “Quem sabe não fala, quem fala não sabe”. Argumentei que a situação ficaria resolvida ao se manter calado. Simples assim. O pastor sorriu com o meu raciocínio simplista e explicou: “As relações pessoais são uma das fontes mais ricas e poderosas de aprendizado. Sem desmerecer os livros que nos fornecem valiosos conhecimentos teóricos, são os relacionamentos que nos abastecem de um sem-número de experiências a nos oferecer o conhecimento empírico, o saber oriundo da vida que, a um só tempo, funciona como uma escola a nos ensinar e uma oficina sempre pronta a permitir que cada pessoa faça de si uma virtuosa obra de arte. A cada ação ou reação, uma oportunidade de aperfeiçoar a obra”. Comentei que os relacionamentos são fontes de sérios problemas. O pastor me corrigiu: “Os problemas não estão nos relacionamentos, mas na incapacidade pessoal de impedir que interesses, desejos e diferenças virem contrariedades. Os conflitos nascem das incompreensões que o indivíduo possuí sobre si mesmo. Sem os relacionamentos, sentimentos como amor, alegria, amizade, esperança, solidariedade, entre vários outros, se mostrarão impossíveis de serem experienciados; a vida empobrece e amiúda, se torna menos quando poderia ser mais. As virtudes ficam sem a sua principal fonte de aprendizado e realização. Renunciar às relações é abdicar da riqueza da vida”.

O homem continuou: “Se bem aproveitados, os relacionamentos podem se tornar poderosas experiências. Se forem superficiais, oferecerão poucos riscos e teremos a sensação de estarmos seguros. Tão seguros como um barco que nega o mar e decide por passar toda a existência ancorado no cais. A razão de existir de uma embarcação reside nas travessias, em enfrentar toda sorte de ventos e marés para alcançar um destino mais interessante. Relações profundas fornecem experiências de alto risco; nelas costumamos nos cortar e sangrar; de outra face, somente nelas encontraremos as raízes dos aprendizados angulares, das transformações significativas e das realizações que nos permitirão ir além de quem somos. Não existe destino melhor. Não há viagem mais proveitosa. Ninguém é o que sabe, mas o que faz; quem não se lança ao mar, apodrece no cais”.

Deu de ombros como falasse o óbvio e disse: “Não existe relacionamento sem comunicação. Se faz necessário o diálogo entre pessoas. Do contrário, nunca haverá o intercâmbio de ideias e sentimentos que permitirá as experiências transformadoras. Em relacionamentos profundos os diálogos não se contentam com amenidades, mas constroem pontes entre consciências por onde o âmago dos envolvidos atravessa para se revelar sem medo, pudor ou vergonha. A intensidade desse intercâmbio intensifica a experiência e os seus efeitos. É muito agradável assistir ao pôr sol em uma praia paradisíaca, mas esta experiência, por si só, não traz nenhuma transformação angular. Voltaremos para casa satisfeitos e energizados pela tarde prazerosa, porém, com o mesmo padrão de compreensão e comportamento que tínhamos naquela manhã. Nada mudou. De outra face, acolher ou ser acolhido no coração de alguém em um momento de dificuldade oferece níveis de sentimentos inigualáveis, rompendo o frio de corações congelados; ninguém permanece o mesmo ao viver uma experiência assim”. Pigarreou e prosseguiu: “Mesmo sem oferecer garantia absoluta, pois é possível enganar através das cenas desprovidas de sinceras intenções, a atitude é o método mais eficaz de comunicação. Costuma ter o poder de evidenciar a essência de uma pessoa. Na grande maioria das vezes, o âmago emerge na ação”. Olhou por instantes para o púlpito do salão e ponderou: “A palavra é outro dos meios de manifestação da consciência. Embora muito útil, está longe de ser o mais eficiente. Não falo da prática nefasta da mentira e das fraudes, as quais não precisamos abordar as suas consequências insalubres. Me refiro a outra dificuldade. As palavras são mensageiras, veículos de percepções e sensibilidades individuais, nem sempre simples de expressar nem sempre fáceis de entender. Uma mesma palavra tem muitos significados e diversas interpretações tanto aos moldes do remetente como do destinatário. Por vezes, falta sintonia, noutras, sobra má vontade. Contudo, a depender da situação, é o único método disponível de comunicação”.

Comentei que era muito complicado conviver envolvido por essa precariedade de diálogos. Seria impossível cessar conflitos e dar fim às mágoas, afirmei. O pastor discordou: “Para ser pleno ninguém precisa da aprovação, aceitação ou validação de ninguém. Basta ser autêntico, viver as próprias verdades no limite das suas capacidades e em exercício constante para agregar novas virtudes. Nada mais”. Pedi para que me dissesse como fazer. Ele foi generoso: “Trate de tapar as frestas, fechar as portas, manchar o brilho e se misturar com a poeira”.  Falei que não tinha entendido. O pastor sorriu e comentou que gostava de usar analogias. Em seguida, esclareceu: “Tapar as frestas tem o sentido de escutar-se. Quem fala demais não consegue ouvir a voz do coração. É preciso calar a voz, buscar o silêncio e a quietude sem os quais não conseguirá dialogar com a sua alma, a fração sagrada de todas as pessoas. A alma sabe sobre as prioridades e propósitos que costumam esmaecer diante dos interesses do mundo e da aflição dos dias. Retornar para retomar os valores essenciais é a genuína jornada de libertação. Um processo fundamental de amadurecimento e consolidação da autêntica identidade. Movimento primordial para compreender as razões das próprias incompreensões e os motivos das suas inadequações de convívio; o que o aborrece, irrita e incomoda diz mais sobre você do que a respeito dos outros. Sem chegar as causas dos próprios medos e sofrimentos, não será possível desconstruir as prisões existenciais”.

Esfregou uma mão na outra como se procurasse pelas palavras adequadas e esclareceu: “Pelas frestas escapa o que deveria ficar. Não é assim com o aroma de um vidro mal fechado?”. Sem esperar pela resposta, continuou: “Temos a necessidade de compreender as pessoas e as situações que nos envolvem e permeiam, que nos sacodem e incomodam, tanto as indomináveis como as inalcançáveis. Então, falamos; mais na tentativa de entender do que pela capacidade de explicar. Falamos muito do que desconhecemos e quase nada do que sabemos. Esse é o ponto da fratura. Na desesperada tentativa de preencher os vazios das dúvidas e inseguranças que se instalam, criamos suposições como se fosse possível à imaginação suprir a verdade. Personagens, sejam bonzinhos ou malvados, jamais substituirão as pessoas porque não as compreendemos; a ficção não se torna realidade por mero gosto ou conveniência. Escolhemos e decidimos em razão dos personagens e dos devaneios que usamos no lugar da verdade que nos falta. Erros, enganos e mágoas se amontoam. Os dias seguem em sucessão de equívocos, asperezas e ressentimentos. São as nossas incompreensões que geram os conflitos que vivemos, mesmo quando não temos a menor intenção em ofender e magoar. Falamos demais porque quase nada sabemos. Abdique de falar sobre os outros; se limite a abordar os seus próprios sentimentos e ideias, assim trará à tona algo que, embora nem sempre compreenda, possui autoridade e legitimidade para expressar. Porém, o faça sem os conectar a qualquer outra pessoa; não esqueça que cada um é responsável pelo que pensa, sente e acredita. Logo, pela exata realidade que vive. A transferência dessa responsabilidade é sinal claro de imaturidade”.

Pedi para que continuasse. Ele prosseguiu: “Fechar as portas significa impor os limites necessários a todas as relações. Jamais permita que pensem, se manifestem ou escolham por você. Uma autonomia indispensável à maturidade e para a formação da identidade pessoal. Fique atento para sempre resguardar o inegociável poder sobre si mesmo. Contudo, o manejo da porta exige amor e sabedoria; portas que não se abrem isolam sem nada agregar de bom; as que não conseguimos fechar geram abusos e sofrimentos”. Voltou a fazer uma pausa antes de prosseguir: “Manchar o brilho se refere à renúncia sobre todas as formas de orgulho e vaidade. Não nascemos para nos sentir acima ou melhor que ninguém. Cabe a cada um se tornar amanhã uma pessoa diferente e melhor de quem era ontem sem a preocupação de se comparar aos outros. Hoje é o dia da transformação; todos os dias são perfeitos para se misturar à poeira”. Falei que não tinha entendido a última frase. Ele esclareceu: “Não me refiro a poeira como sujeira, mas como algo sem valor aparente, como as partículas visíveis do vento. Existem os que anseiam pelas riquezas do mundo, há quem busque o tesouro da vida. São procuras que, embora não se anulem, possuem diferentes prioridades, conteúdos e consequências. Na frase, a poeira simboliza a ausência de ganância, soberba, arrogância ou qualquer outro comportamento de muito brilho e nenhuma luz, de fáceis aprisionamentos e difícil liberdade. A genuína sabedoria é avessa ao destaque e aos aplausos. Se contenta por iluminar os próprios passos e, sempre que possível, a colaborar com alguém perdido na escuridão das próprias incompreensões. É discreta, não faz alarde nem exige recompensa ou reconhecimento. Apenas baila pela vida assim como a poeira está solta para dançar livre ao sabor de uma brisa leve”.

Comentei que ele tinha o dom de emocionar com as palavras. O Pastor agradeceu, mas alertou: “O dom é uma capacidade extraordinária existente em todas as pessoas. Curar, cuidar, proteger, construir, educar, prover, criar, gerar, gerir, enfim, há uma infinidade de dons. Cabe a cada um encontrar, desenvolver e aplicar o seu como ferramenta evolutiva. O dom é parte da identidade pessoal. Como disse um antigo filósofo, no dom reside o poder do mago. No entanto, todo cuidado é pouco. Os sentimentos orientam os dons, e a depender daqueles que ocupam o seu coração, o dom será usado a serviço das sombras ou da luz”. Fechou os olhos por alguns poucos segundos, como se fizesse uma prece breve, e esclareceu: “Há muita magia envolvida nas palavras, pois têm o poder de conduzir multidões ao alto da montanha ou as empurrar no abismo. Como nos demais dons, o seu uso exige responsabilidade. Para o bom uso da palavra, não posso jamais esquecer que pingo não é letra, assim como todas as letras juntas não formam palavra. Meia palavra permite meia compreensão, não cabendo reclamação pela incompreensão gerada. Se eu deixar uma palavra no ar sem concluir a ideia, permito que qualquer pessoa a finalize ao seu gosto; não posso lamentar depois. Nunca devo me valer da ironia e do sarcasmo, formas odiáveis de hostilidade, embora socialmente aceitas e até mesmo admiradas por muitos. A palavra precisa ser simples e completa, sem rebuscamento e excessos que dificultam o entendimento, mas também sem rachaduras e vazios que permitam a sua contaminação por ideias estranhas às minhas intenções. Necessita de clareza para não dar margem a enganos; serena para facilitar a escuta; sincera para que expresse a minha verdade; e honesta para que eu possa transmitir confiança. Se eu conseguir, serei capaz de suavizar as bordas e desfazer o emaranhado”.

O pastor sorriu ao notar um ponto de interrogação em minhas feições. Eu não tinha entendido o final da sua explicação. Sem que precisasse pedir, ele esclareceu: “Na luta pelo reconhecimento dos direitos civis, a qual estou empenhado há muitos anos, uso o dom palavra na tentativa de alcançar os resultados esperados. Ainda que em algum momento consiga, nenhum valor terei se cada palavra proferida não estiver atrelada a verdade como a enxergo, no limite estremo da minha consciência. Não apenas cada palavra proferida, mas também todo e qualquer gesto por mim praticado no dia a dia. Jamais pode faltar coerência entre a palavra e a ação. A luta por justiça não justifica a violência. Não me alinho ao uso de qualquer tipo de violência para alcançar os meus objetivos. Se não houver outro jeito, deixo passar. Nem tudo que convém é do bem. A suavidade no trato com toda gente não é uma estratégia de luta, mas um jeito de ser e viver a todo momento e em todas as minhas relações. Consciências se expandem através da compreensão, nunca por coação. Os confrontos são necessários, as brigas jamais”. Ajeitou a gravata, como costumava fazer enquanto falava, e continuou a desenvolver o raciocínio: “As bordas se localizam nos extremos, são as partes do contato de algo com algo. Seda ou lixa, a suavidade ou a aspereza dos relacionamentos dependem de como as bordas se tocam. As bordas rudimentares são pontiagudas, ríspidas ou ásperas como lanças, arestas ou terrenos pedregosos; machucam, arranham e causam desconforto ao toque. Diferente não é conosco. As bordas refletem a consciência e estabelecem a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo. Em uma mesa, ao arredondar as bordas evitamos que alguém se machuque e, mais importante, a mesa não perde a sua utilidade. Se eu suavizar as minhas bordas, continuo sendo quem sou, com a vantagem de não machucar ninguém. Isto não significa fazer o que os outros querem na contramão da minha consciência ou vontade, mas de dizer não sem a necessidade de travar qualquer conflito. Ao preservar a minha verdade sem insistir que ninguém me acompanhe ou concorde comigo desmancho todas as batalhas e encontro a paz. Bordas pontiagudas se ferem mutuamente; arestas se prendem em arestas. Bordas arredondadas se desviam em movimentos naturais e suaves”.

Perguntei sobre o significado de desmanchar os emaranhados. Ele esclareceu: “Cada situação mal resolvida dentro da gente, produz um nó no fio da trama de nossas vidas. O nó emperra a tecelagem da mente e forma uma confusão de sentimentos. Perdemos a capacidade de os identificar e, por consequência, somos movidos a fazer escolhas sem entender a suas verdadeiras razões. Nem sempre é fácil identificar ou admitir; alguns são tão antigos que acreditamos não mais incomodar ou existir. As experiências que ainda não conseguimos elaborar de maneira saudável são as fontes de todas nossas as mágoas e medos. Ressentimentos envelhecem e se acumulam em um emaranhado de sensações e percepções que, enquanto indecifráveis, continuarão a influenciar as nossas escolhas e comportamento. A vida se deteriora dentro da gente, embora aparentemente nada nos falte. Ao perder a capacidade de identificar com clareza a origem de cada sentimento, o indivíduo passa a se desconhecer mais e mais. Até se tornar um estranho para si mesmo. A identidade se apaga por completo. Ele sente falta dele mesmo. Os dias se tornam cada vez mais pesados. Todo e qualquer nó necessita ser desfeito para que a vida possa prosseguir. Ninguém pode fazer isso por ninguém. Isto não acontece por decreto; cabe a própria pessoa realizar essa jornada descobrimentos, encontros e conquistas internas. Ao desfazer o emaranhado o fio da trama da vida se solta. Os movimentos se tornam soltos e leves”.

O pastor ressaltou: “Do contrário, seguirá aprisionado ao labirinto de sentimentos amarrados, misturados e confusos que o impedem de ir além de onde está. Não no mundo, mas na consciência, a estrada da alma. À medida que a consciência expande, a ferida cicatriza e a alma caminha”. Eu indaguei como conseguir o intento. O pastor foi preciso: “Fracassaremos meramente se tentarmos esquecer os sofrimentos ou enquanto lutarmos para dobrar os outros, para que se arrependam pelo que fizeram conosco, nos peçam desculpas ou perdão. Manteremos a velha luta pelo poder mundano, apenas trazida para o microuniverso pessoal. Não é de espantar que fracassemos. Ninguém derrota ninguém. Ao entender que, não importa o que fizeram ou aconteceu, a batalha não é contra o mundo; que o entendimento, a transformação e a realização são atos intransferíveis e intrínsecos, que não dependem do movimento de outra pessoa; assim como para pacificar as próprias emoções basta compreender e perdoar em ato unilateral, a identidade do mistério se revela”.

A identidade do mistério? Mais uma vez me faltava entendimento com algumas expressões usadas pelo pastor. Generoso e com enorme boa vontade comigo, ele sintetizou a ideia: “Mistério é tudo aquilo que desconhecemos. Não me refiro às teorias e conceitos, mas em experienciar a sensação e conseguir a manter em sua vida. A liberdade, o amor, a dignidade, a paz e a felicidade, ou mesmo as virtudes como suas ferramentas construtoras, são misteriosas para quem não nunca viveu esses estados de plenitude ou utilizou esse valores em sua autoconstrução. É preciso que haja um envolvimento real com a luz; do contrário, seguirá como um mistério. Imagine uma pessoa que passou a vida trancada no porão escuro de uma casa sem nunca ter visto um raio de sol. Por mais que discorram sobre a beleza das flores, o encanto nos animais silvestres, o fascínio das cores, a imensidão do mar ou o deslumbramento de um céu repleto de estrelas, ainda que essa pessoa tenha boa vontade para imaginar, permanecerá distante da verdade”. Os olhos do pastor ficaram marejados. Ele continuou: “Ao envolver-se em luz, a visão primordial permite ao indivíduo enxergar a si e ao mundo sem as ilusões da matéria, que apenas existem como elementos de transição necessários à superação dos limites e vícios existenciais do próprio indivíduo. Então, a lucidez. Todos os acontecimentos decorrentes dos movimentos da vida serão vistos e recebidos como métodos de aprendizado e oportunidades de realização nessa incrível escola e oficina planetária; sem a ideia de sorte ou azar, privilégio ou castigo divino. Medos e sofrimentos desaparecerão por ausência de sentido. Dos interesses físicos aos valores etéreos, das riquezas do mundo à grandeza do espírito, eis a jornada essencial. A absurda ideia de que algumas pessoas são melhores do que outras em razão do lugar ou da família que nascem, da etnia, gênero, classe social ou profissão cairá por falta de sustentação. Todas as pessoas são tão e somente pessoas, sem nenhuma restrição ao livre exercício de qualquer direito natural.A igualdade, a equidade e o respeito são os pilares da justiça, que nunca existirá sem amor, e não se resumirá aos tribunais, mas será vivida em todos os atos do cotidiano, mesmo os aparentemente insignificantes. Deixará de existir honra ou desprezo, pois são conceitos originários das sombras, típico de comportamentos ainda conduzidos pelo orgulho e pela vaidade. Tudo que é denso se desmancha na luz; um jeito suave e leve de ser e viver. Não há nobreza maior em se viver assim no mundo”.

Ouvimos o barulho de pessoas falando no andar de baixo da igreja. Estava quase na hora do culto. Era o momento de partir. O pastor me revelou: “Eu tenho um sonho. Não como um devaneio, mas como um propósito”. Em seguida, acrescentou: “Sonhos são como ferrovias. O dom é a locomotiva. O destino fica em uma estação chamada verdade”. Fiquei atônito por instantes, mas sim, eu também tinha um sonho, embora o adiasse constantemente pelos mais variados motivos, confessei. “Ou seriam desculpas para a sua falta de ousadia e coragem?”, ele me provocou. Envergonhado, me calei. Ele fez uma breve pausa antes de finalizar: “Feche os olhos e o sinta vivo em seu coração. Quando abandonamos os sonhos, os corações se fecham para a vida. Por estarem conectados aos dons, os sonhos trazem consigo a magia dos dias”. Meditei naquela ideia por um tempo que não sei precisar até que o pastor me orientou: “Agora vá!”. Sem demora, uma mandala dourada surgiu em minha tela mental. Parti sem tempo de agradecer ou me despedir.

Poema Cinquenta e Seis

Quem sabe não fala,

Quem fala não sabe.

Tapar as frestas,

Fechar as portas,

Manchar o brilho e

Se misturar com a poeira.

Suavizar as bordas e

Desfazer o emaranhado.

Assim, a identidade do mistério se revela.

Sem privilégios ou castigos,

Todas as pessoas são pessoas,

Sem honra nem desprezo.

Não há riqueza maior no mundo.

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