TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Oitavo limiar – A força sutil das virtudes)

POEMA OITO – A FORÇA SUTIL DAS VIRTUDES

Uma floresta. Caminhei minutos por uma trilha sem encontrar ninguém. O silêncio era rompido pelo murmulhar das folhas, o zumbido dos insetos e o canto de alguns pássaros. Parei. Ouvi o som de águas em curso. Fui ao seu encontro. Um riacho se formava logo após uma cachoeira. Havia muitas pedras no leito e ao redor. Uma pequena faixa de areia fina formava uma singela praia fluvial em uma das margens. Vestido com a sua armadura, o elmo e escudo repousados ao lado, a espada fincada na areia à sua frente, um guerreiro solitário, de joelhos, estava em oração. Sentei-me em uma pedra e aguardei por um tempo que não sei precisar. Quando abriu os olhos, virou o rosto em minha direção, demonstrando que estava ciente da minha presença. Não havia espanto ou hostilidade em sua face. Nem sorriso. Em seu olhar, a resignação revelava a verdade descoberta tarde demais. O espanto foi meu, ao perceber que, apesar dos cabelos curtos, de algumas rugas prematuras, se tratava de uma mulher, ainda jovem, de inegável beleza. Existia um sofrimento que já não mais estava ali, mas deixara marcas indeléveis. Ainda de joelhos, inclinou o corpo para lavar o rosto; com a mão mexeu na água, como que embalando os pensamentos distantes. Fiz menção em me aproximar; ela não se opôs nem demonstrou sentir medo.

Perguntei se eu podia ajudar. “Não mais”, ela respondeu. Havia uma incrível mansidão em sua voz. Como se estivesse tomada por uma paz que a preenchesse por inteiro. Indaguei o que tinha acontecido. A mulher explicou em tom serena: “Lutei a guerra errada”. Comentei que eu não sabia do que ela falava. O seu olhar vagava distante, como se transportado para longe dali: “Lutei a guerra dos reis e dos homens achando que lutava por Deus”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “A arma Dele não é a espada, mas o coração”. Ponderei que existia muita injustiça no mundo e que Deus ficaria satisfeito por suas correções. “Sim e não”, respondeu a guerreira. “Ele quer uma vida harmoniosa para todos, mas a maneira de alcançarmos isso faz toda a diferença. Dizer que os fins justificam os meios é uma mentira confortável que os brutos nos contam. Embora seja agradável de acreditar, continua sendo uma mentira. A maneira de atingirmos o Céu é por intermédio de uma vida virtuosa, na qual cada um ilumina a si mesmo e, como reflexo, onde mais houver escuridão nas proximidades. Somente assim nos aproximamos de Deus. Sem derramar sangue, porém, semeando amor. Não existe outro jeito”.

A guerreira conversava comigo, porém, falava consigo mesmo, como se convalescendo das dores de uma verdade insculpida a fogo na alma. Acariciou a água do riacho e comentou: “Poucos entendem as virtudes e as confundem com os seus ideais. Cada virtude é como uma ferramenta disponível para a construção de uma vida plena. A virtude é como a águaque mantém a vida de todo o povo. Não há como sustentar uma existência sem água. Do mesmo modo, não existe vida, ao menos uma que verdadeiramente valha a pena, se não estiver sustentada em virtudes. Não importa se nobre ou vassalo, rei ou servo, guerreiro ou monge, uma existência sem virtudes significa uma vida vazia em conteúdo. Conquista-se palácios, fortuna e prestígio, mas morrerá sedento. Não chegaremos a lugar nenhum enquanto nos mantivermos afastados de Deus. Ele nos quer a sua imagem e semelhança, não no aspecto físico, contudo, na Sua enorme capacidade de amar”. Fez uma breve pausa antes de acrescentar: “As virtudes são as mil maneiras de nos aproximarmos de Deus através de gestos singelos; é o ponto de confluência entre as hastes da cruz, onde o amor e a sabedoria se encontram em nós e através de nós”. Sacudiu a cabeça como se negasse o próprio passado e murmurou: “Não existe nenhum amor ao usar a espada para rasgar as tripas de outro homem só pelo fato de ele não ter nascido na mesma aldeia ou por pensar de maneira diferente. Até o dia em que um punhal, seja de outro homem, seja das circunstâncias da vida ou do tempo, sangrar o meu coração. Então, no resumo da história, só haverá mortes, destruição horror e medo para contabilizar”. Sacudiu a cabeça como gesto para reforçar as palavras e disse: “Definitivamente, esse não é o plano divino”.

Ponderei que viver não era fácil e os dias são repletos de dificuldades. A guerreira concordou, mas opôs um argumento: “Não é fácil, mas pode se tornar grandioso; ou, a depender das escolhas, apenas narrar outras histórias de sofrimento. Tudo depende de como iremos reagir diante de cada obstáculo que surgir”. Apontou para o riacho e disse: “Veja como se comporta a água ao encontrar com a pedras que se opõe ao seu destino glorioso de se tornar mar. Se as pedras conseguirem impedir a sua marcha, a água estagnada irá apodrecer e se tornar fonte de contaminação. As águas sabem que precisa ir ao encontro da sua verdade: o mar”. 

Deu de ombros e disse: “As pedras são apenas pedras. Estão ali para ajudar a água a descobrir todo o seu poder. Ao chegar na foz estará pronta para ser parte de algo maior. A água,a nada se detém, ela não luta contra as pedras; por isto, coisa nenhuma consegue deter a sua força. A capacidade sutil de superar os obstáculos inerentes à vida e seguir em frente, cada vez mais forte e equilibrado, se denomina virtude. Ou virtudes, pois são várias. O seu poder não está em impor a própria vontade por intermédio da subjugação alheia, mas em buscar a verdade com determinação, resiliência e leveza. São instrumentos de evolução pessoal. A virtude é a capacidade de superar os obstáculos sem precisar destruir nada nem ninguém. A água nos ensina isso”.

“Assim como a água pode surgir no meio de um deserto escaldante, onde proporcionará as maravilhas de um oásis, a virtude alcançará o expoente do seu valor em um lugar repleto de sujeitos orgulhosos, vaidosos, arrogantes e prepotentes que, para evitar o espelho da verdade, não a querem ali. Aliás, quanto maior a secura das areias, mais valor adquire a água; quanto mais escuro o ambiente, mais poderosa se faz a luz. O grau de dificuldade, de acordo com as circunstâncias específicas de cada situação, nunca deve ser visto como fator impeditivo para a sua manifestação; porém, ao contrário, ainda mais valiosa se mostrará a sua presença. A virtude está mesmo onde é desprezada, como nos lugares em que é considerada característica dos fracos ou dos tolos. Embora possa não restar reconhecido o seu poder pelo desconforto de mostrar a muitos o tamanho da miséria existencial em que vivem, ela deixará um rastro de luz como uma incômoda lembrança para um momento seguinte”.

Pedi para ela falar um pouco mais sobre as virtudes. A mulher abriu os lábios em sorriso e explicou: “Todas as virtudes são sementes do amore estão embrionárias na alma. Fazê-las florescer é acender a própria luz; então, a escuridão não mais o assaltará”. O seu olhar pareceu vagar por um fato longínquo e falou: “A virtude primordial é a humildade. Sem ela, todas as demais se mostrarão capengas. Trata-se de um atributo daqueles que já entenderam que a vida é um caminho que se percorre na descoberta de si mesmo, na busca incessante para se tornar uma pessoa diferente e melhor. A humildade é a disponibilidade interna que abre espaço para que essa transformação aconteça; como tal, é a essência da elevação espiritual. Um poder permitido àqueles que colocam os valores da alma acima dos interesses mundanos. A humildade é uma característica dos genuinamente lúcidos”. Virou o rosto em minha direção e disse: “Sim, as virtudes são poderes pessoais”.

Depois, argumentou: “Não podemos esquecer que o amor está na raiz e no fruto de todas as virtudes. Sem amor, sem virtudes. Fazer o bem não torna ninguém bom. Vi reis distribuindo pães para acalmar a insatisfação do povo, sem que fosse um gesto de misericórdia, mas apenas para recompor a ordem pública. Pessoas tratadas como se fossem animais, cuja serventia é puxar carroças e gerar riquezas para alguns privilegiados. Talvez nem isto”. Fez uns rabiscos na areia, como se desenhasse algo, e acrescentou: “O amor é a causa e também a consequência derradeira das virtudes. Sem amor, qualquer virtude é de superfície, aparência sem essência, uma beleza oca. Para ser verdadeira e proporcionar os seus maravilhosos efeitos, se faz indispensável que seja ampla na mente e profunda no coração”. 

Balançou a cabeça e disse: “Certa vez ouvi dos lábios de um sábio que todo o poder está na mente, mas enquanto estivermos longe do coração, nada seremos”. 

Arqueou os lábios em sorriso e comentou: “As virtudes são flores germinadas nos jardins da alma, utilizadas para embelezar os desertos do mundo. São muitas e, todas, igualmente preciosas”. Como percebeu o meu interesse em suas palavras, prosseguiu: “Na palavra, há de existir sinceridade, uma virtude típica àqueles que usam verdade no trato consigo mesmo. Nos negócios, honestidade, um atributo dos que aprenderam a usar a verdade em todos os seus relacionamentos. Os justos trarão o indispensável o equilíbrio; a sabedoria e o amor para entender a hora do sim e o momento do não; da paciência para compreender os problemas e da firmeza para impor os necessários limites; da bondade em conceder e da coragem para negar, atributos que aparentemente estariam em lados antagônicos, terminam por se manifestar em perfeita harmonia através de escolhas bem realizadas no cotidiano de qualquer pessoa. No auxílio, a compaixãose mostra necessária para que possamos entender a dificuldade alheia. Existem momentos que um abraço vale mais do que uma moeda de ouro”. Olhou-me com seriedade e alertou: “Lembre que sentir é diferente de sofrer. Ao sentir a dor do outro você o socorrerá com amor e sabedoria; ao sofrer com o outro, apenas multiplicará a dor e a escuridão”.

A guerreira fez uma pausa, mas como os meus olhos pediam para que prosseguisse, ela disse: “No trato, a delicadezase revela como uma qualidade daqueles que são incapazes de serem portadores de qualquer mal no trato com toda gente. No gesto, a simplicidademostra uma vida sem máscara, sem subterfúgios, sem a ilusão dos personagens sociais que escolhemos para suprir a ânsia por aplausos e aprovação. Somente a simplicidade lança a alma no fogo da depuração proporcionada pela vida. Do contrário, nos manteremos longe de quem verdadeiramente somos; distante de si, perto das sombras como o orgulho e a vaidade para tentar aplacar a fragilidade e o equilíbrio que assolam. Uma luta inglória”.

Abriu os braços como se fosse falar o óbvio e disse: “Nas intenções, a purezase faz indispensável. Quando falo em pureza não me refiro a ingenuidade ou a inocência dos indivíduos que desconhecem algo sobre determinado assunto ou algum aspecto da realidade de um fato. Falo sobre a escolha luminosa de quem pode usar o mal para alcançar um desejo, mas abdica dele pelo compromisso firmado com a Cruz”. 

Em seguida, acrescentou: “Para tanto, não há como negar o poder da mansidão, uma característica das pessoas que se negam a usar qualquer dos muitos tipos de violência para concretizar seus interesses. Por fim, no movimento, a fé. Ao contrário do que muitos acreditam a fé não se trata apenas de uma crença em um poder insofismável. Em verdade, a fé é uma força incomensurável que habita no âmago do ser. Despertar esse poder para manifestá-lo em nós, e através de nós, nos torna sagrados. Então, teremos acesso às melhores soluções”. 

Tornou a acariciar o riacho e concluiu: “A virtude é a força do guerreiro na batalha maior; aquela que trava consigo mesmo. A virtude, assim como a água, como não luta nem de nada depende, nunca será vencida. Isto faz do monge a evolução do guerreiro”.

A mulher se levantou. Perguntei aonde ela iria. A resposta foi típica daqueles que conhecem a verdade: “Vou ao encontro do fogo e do meu destino”. Em instantes, desapareceu na floresta. Ajoelhei-me onde havia pouco estava a guerreira e fiz uma prece silenciosa por todos aqueles que buscam a verdade. Quando abri os olhos, uma linda flor em forma de mandala boiava sobre as águas do riacho. Lembrei das palavras de Li Tzu: “Mandalas representam portais interdimensionais”. Sorri; depois, mergulhei.

Poema Oito

A virtude é como a água.

Mantém a vida dos dez mil seres.

A nada se detém; 

Coisa nenhuma consegue deter a sua força.

Está mesmo onde é desprezada.

Toda virtude é semente do amor.

A virtude primordial é a humildade.

Na mente é ampla; no coração é profunda.

Na palavra, há de existir sinceridade.

Nos negócios, honestidade.

Na justiça, equilíbrio.

No auxílio, compaixão.

No trato, delicadeza.

No gesto, simplicidade.

Na intenção, pureza.

No movimento, a fé.

Como não luta nem de nada depende, nunca será vencida.

5 comments

Cris matsuoka dezembro 1, 2021 at 11:28 pm

A verdadeira batalha é interna. Se guerrearmos pra fora, já nos perdemos da sabedoria.
Lindo ensinamento!

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Vidyapriya dezembro 3, 2021 at 7:16 pm

Adorei seu encontro com Joana D Arc, gratidão

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Fernando dezembro 6, 2021 at 8:58 am

Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas, sem fim…

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Terumi dezembro 10, 2021 at 10:09 pm

Gratidão

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SCHWEITZER fevereiro 11, 2022 at 6:31 pm

Nossa, amei, meu conto preferido ate agora.

Essa guerreira eu sei quem é.

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