TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Sexagésimo primeiro limiar – Para ser grande é preciso ser pequeno)

Império Romano. Eu estava diante do palácio do imperador. Apesar da enorme quantidade de sentinelas atentas ao intenso movimento, muitas pessoas subiam e desciam as escadas de mármore que davam acesso ao palácio. Decidi entrar. Os guardas me olharam de cima a baixo como se avaliassem o grau de risco que eu poderia oferecer. Não me impediram de prosseguir. Pelas conversas pude entender se tratar de um dia de audiência com os administradores das províncias conquistadas, na qual as solicitações dos governadores seriam avaliadas e decididas pelo imperador. Naquele dia, seriam recebidos os líderes políticos dos pequenos reinos recém-anexados, que se submeteram ao poderio romano sem oferecer resistência. O salão estava lotado. Era evidente a tensão no semblante dos governadores, inseguros diante de um futuro incerto, assim como dos assessores mais próximos do imperador, na expectativa de que a insatisfação se generalizasse, fazendo com que os reinos menores se reunissem para enfrentar o poderio maior de Roma. Uma situação recorrente no mandato do último César, rigoroso na cobrança de impostos e nos decretos que limitavam a capacidade das províncias de se autodeterminarem em questões administrativas e culturais. As guerras tinham sido a tônica do poder auferido por Roma havia séculos, mas custavam dinheiro e vidas. A imposição da autoridade do conquistador sobre os conquistados tinha sido implacável desde sempre, como o signo de um império que se estabelece pelo poder da máquina de oprimir. Seria a primeira audiência presidida após a posse dos novos imperadores, coroados com a aprovação do senado havia poucos dias. Nunca Roma fora governada por dois imperadores. Apenas um deles estaria presente na audiência. Ninguém duvidava de que ele aplicaria a velha cartilha. O forte submete o fraco. Foi o que ouvi de um dos assessores, enquanto eu procurava um lugar para acompanhar o evento.

Todos saudaram a entrada do imperador que se sentou ao fundo, tendo os assessores reunidos ao lado e os governadores à frente. Era um homem com cerca de quarenta anos, cabelos castanhos e crespos, barba espessa e olhar sereno, típico daqueles que vivem em paz consigo, embora o mundo ao redor beirasse à convulsão. Nossos olhos se encontraram. Ele me ofereceu um sorriso quase imperceptível. Em seguida, se dirigiu aos líderes políticos e disse: “Roma agradece e se sente honrada com a visita de cada um dos chefes aqui presentes. Agradeço também a decisão de terem aceitado se integrar ao Império Romano. Quero que saibam que não governaremos vocês, mas nos uniremos em prol de um bem comum”. Todos se entreolharam no salão. Um discurso atípico e conciliador, diferente de todos já proferidos em ocasiões semelhantes. Mera demagogia ou um mudança estrutural na relação entre conquistador e conquistado, encerrando com a prática ancestral do maior oprimir o menor?

Um a um, os governadores apresentaram os seus pedidos. Menores impostos; adiamento do início da cobrança dos tributos; permissão para que as suas pequenas tropas fossem absorvidas pelo grande exército de Roma; as cidadanias originais seriam mantidas sem que houvesse qualquer distinção perante a lei quanto aos direitos e responsabilidades atribuídas aos romanos; manutenção dos tribunais tribais para que os cidadãos fossem julgados conforme o costume e a tradição local; livre celebração dos rituais religiosos e adoração de suas deidades; preservação de seus antigos hábitos e festas culturais, entre outras solicitações. O imperador acolheu todas. Sem exceção. Sempre numa postura de humildade, ressaltando a importância de cada chefe e reino, por menor que fosse, para a grandeza e prosperidade do Império Romano: “Roma não passaria de uma insignificante cidade-estado se vocês não se juntassem a nós. Sozinhos e isolados estaremos vulneráveis. Juntos somos imbatíveis. Unidos deixamos de representar uma ameaça mútua e manteremos as nossas famílias em segurança”. Fez uma pausa antes esclarecer: “Juntos não significa que precisamos ser iguais uns aos outros, afinal cada reino traz as suas singularidades e hábitos. Quando digo para seguirmos juntos, me refiro a nos unirmos sob o propósito de um bem comum. Roma cresce com a anexação de cada província que, em contrapartida, se engrandece e se beneficia da prosperidade romana”. Ele mostrava uma humildade jamais vista naquele palácio por parte de um imperador. O mais forte se curvava em reverência ao mais fraco. A regra nunca tinha sido essa. Alguns senadores e magistrados romanos se mostraram indignados pelo que consideravam uma completa inversão de postura: a civilização se ajoelhava diante à barbárie, o conquistador se recusava a fazer valer os seus interesses perante os conquistados. Para eles, o imperador parecia um menino medroso e assustado. Uma humilhação, foi a síntese de alguns comentários ditos aos sussurros nas fileiras romanas. A surpresa e a satisfação eram evidentes no semblante dos pequenos chefes. Sentiam-se acolhidos e respeitados pelo homem mais poderoso do mundo à época. Nunca uma audiência de solicitações terminara com aquela inegável atmosfera de bem-estar entre os líderes provincianos. E de espanto por parte dos assessores, conselheiros e demais autoridades imperiais.

O imperador se retirou para o seu gabinete localizado ao lado do salão. Dispensou todos os funcionários palacianos, não sem antes fazer um gesto com a mão para que eu o acompanhasse. A sós, sentou-se à escrivaninha e disse para eu me acomodar. Perguntei a razão do convite. Ele respondeu com naturalidade, embora os fundamentos não fossem usuais: “Você é um viajante do Tao em busca da verdade. Me avisaram que você viria”. Agradeci sem saber como ele teria recebido a mensagem. Nada perguntei. Preferi comentar sobre como todos na audiência ficaram desconcertados com o seu comportamento inusitado. Alguns, felizes; outros, irritados. O imperador deu de ombros e disse: “Não estou aqui para agradar ninguém, mas para fazer a coisa certa”. Falei que ele tinha alterado o padrão ancestral de opressão e domínio que ditava as relações havia milênios. Ele sorriu e pontuou: “Para evoluir é preciso mudar. Ninguém caminha sem sair do lugar”. Pegou um cesto com frutas e me ofereceu. Aceitei uma maça. Ele escolheu um cacho de uvas, saboreou uma, aprovou o gosto com o olhar e acrescentou: “Um grande reino é como um vale, um lugar de encontro, como se fosse a mãe do universo. Uma casa se torna um lugar agradável de morar e de visitar se for acolhedora. Por mais luxuoso que seja um palácio, se as pessoas não se sentirem respeitadas, jamais desejarão retornar. Tampouco se importarão por qualquer infortúnio que deixe o castelo em ruínas, por mais belo que seja. Isso acontece quando não somos capazes de acrescentar uma dose de amor ou um facho de luz na vida de ninguém”. Saboreou mais uma uva e continuou: “A mãe é o modelo ideal de quem cuida, acolhe, aconchega, respeita, alimenta, estimula à prosperidade de todos, se esforça para compreender, oferece o melhor, une sem distinção ou cobrança em torno da sua mesa, não mede forças, nunca entra em disputas. Apenas quer o bem dos filhos”. Observou-me por instantes, como se quisesse verificar o meu interesse na conversa antes de prosseguir: “Não me refiro somente às relações entre nações, falo principalmente dos relacionamento pessoais. Sejam familiares, afetivas, profissionais ou comerciais. Temos que nos desvincular da abjeta ideia de que o mais forte deve se aproveitar da sua eventual superioridade para impor o seus interesses sobre o mais fraco. Qualquer conquista alcançada por intermédio da brutalidade, pode até dobrar o mais vulnerável, mas jamais o fará esquecer do mal-estar de ter sido obrigado a fazer algo por medo ou incapacidade de enfrentamento. Viveremos sempre com alguém à espreita para reverter ou revidar a coação sofrida. Nunca haverá paz diante da injustiça. Talvez se consiga manter as pessoas sobre controle, como leões em jaula, até o dia em que porta ficará mal fechada. Ao contrário do que muitos se dão conta, a brutalidade não existe apenas no aspecto físico, mas também sob circunstâncias emocionais, judiciais e econômicas. Um perigo real em todas as nossas relações”.

Mastigou outra uva e prosseguiu: “O oceano não briga nem obriga os rios a desaguarem no mar. Apenas se coloca abaixo deles e, por isto, se torna o depositário de todas as águas. A grandeza do oceano está em reverenciar os rios. Depois a chuva devolve aos rios o que eles entregaram ao mar. Todos se beneficiam. Para ser grande é preciso entender a grandeza de ser pequeno. Enquanto a arrogância maltrata para impor vitórias sangrentas como as de Júlio Cesar, a humildade se vale da sua força suave e irresistível para desmanchar a brutalidade e realizar conquistas infinitamente mais significativas, como as alcançadas por Epicteto. Um foi imperador; ou outro, escravo. Toda a glória se traduz no efeito da luz de cada feito. Embora poucos compreendam, o servo foi maior do que o monarca. E também mais livre”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “Se um grande reino se curva a um pequeno reino, o conquistará pela nobreza. A rudeza da brutalidade desaparece, a qualidade das relações escalará incontáveis degraus. O nó dos conflitos se desfaz para dar vez aos laços de respeito e afeto. Um general que reverencia a bravura dos seus soldados, e reconhece que sem eles nada seria, será respeitado e amado pela tropa. Se somente os obrigar em função do poder emanado pelo cargo que ocupa, sem reconhecer o genuíno valor dos seus guerreiros, pode até conseguir a obediência deles, jamais a lealdade. Viverá na iminência de um motim. Um general sem soldados nasceu morto para a batalha”.  

Encheu duas taças com água e me ofereceu uma. Depois, ponderou: “Toda relação é uma estrada de mão-dupla. Um vai ao encontro do outro em viagens incessantes. Do contrário, o desequilíbrio a destruirá. De outra face, se o pequeno se submete de boa vontade ao grande, não será vencido nem restará humilhado como os tolos acreditam, mas o conquistará por fazer parte dele. Assim fez Platão ao se tornar aprendiz de Sócrates. Depois, Aristóteles se faz aluno da famosa Academia de Atenas, fundada por Platão, cujos conhecimentos o permitiram atingir um patamar impensado, a ponto de formar a base da filosofia ocidental. Jamais seriam grandes se não fossem pequenos. Nada seriam se não fossem humildes. Veja os reinos que se uniram a Roma na audiência de hoje, embora sejam povos valorosos, ainda vivem em situações precárias quanto à ciência, medicina, engenharia e acesso a importantes bens de consumo. Ao fazerem parte do império, serão beneficiados com esses avanços. Algum dia serão maiores do que Roma. A unidade harmônica tem esse poder. Note as cordas de uma harpa. Embora façam parte de um mesmo instrumento, são independentes e diferentes, cada qual reverbera uma nota musical própria. Somente juntas serão capazes de proporcionar as mais lindas melodias. Sozinha a corda não tocará nenhuma música; se faltar uma corda, a sonoridade da harpa restará prejudicada”.

Bebeu um gole d`água e ponderou: “Aqueles genuinamente fortes têm a nobreza de se colocarem abaixo dos fracos para integrar e acrescentar ao crescimento comum. Não que tenham interesse em os dominar, pois isso eles conseguiriam por intermédio de algum dos diversos tipos de instrumentos coercitivos disponíveis, seja pela força bruta, das leis, do medo, do dinheiro ou da chantagem emocional. Fazem com a grandeza dos fortes que acolhem, protegem e orientam os frágeis. Assim como o grande reino, quando administrado com amor, integra para que o pequeno prospere. O grande se agiganta na exata medida que o pequeno cresce. Por sua vez, o pequeno precisa olhar para o grande com humildade e gratidão, pois, do contrário irá desperdiçar a oportunidade de crescimento oferecida. O pequeno reino, quando governado com sabedoria, agradece por estar agregado ao grande. O sábio se enobrece ao compartilhar a sua sabedoria; o aprendiz se engrandece ao ter acesso a ela. Assim acontece o encontro fundamental capaz de mudar vidas e destinos”.

Comentei que a humildade é o elemento primordial à grandeza e à nobreza, seja dos pequenos e frágeis, seja dos grandes e fortes. O imperador comeu a última uva do cacho, balançou a cabeça em anuência e lembrou: “Sem dúvida. Contudo, o encontro será impossível se o grande não se colocar de joelhos para servir ao pequeno. A nobreza está em servir com humildade para que não haja dívidas e reste somente luz. Aquele que serve por vaidade gera cobranças, conflitos e sombras. O bem será sempre de todos os envolvidos ou não haverá nenhum bem”. Fez uma pausa antes de explicar: “A generosidade deve ser uma oferta dos grande e fortes. Não se pode esperar mais de quem tem menos. Nem sempre é fácil discernir quem é quem. Na infância da alma confundimos aparência com essência. Não raro, os grandes e fortes são os autênticos pequenos e frágeis”. Fez um gesto com a mão como se ressaltasse o óbvio e disse: “Eis aí uma parte da arte da verdade a qual você busca”.

Bateram na porta. Era o secretário para informar que senadores e magistrados, além do imperador com quem dividia trono, queriam conversar sobre as decisões tomadas na inusitada audiência ocorrida naquela manhã. Falei que muitos problemas se avizinhavam. Ele franziu as sobrancelhas e ponderou com admirável serenidade: “De que me vale deter o poder se sou servo das circunstâncias do poder? De que me vale a glória de conquistar o Egito ou a Pérsia se nem ao menos consigo ser dono da minha vontade? De que me vale conhecer o certo se tenho que fazer o que considero errado?”. Calei-me. Ele complementou com a voz tranquila: “Não quero ser o imperador de Roma se o custo for me tornar um escravo de Roma”. Arqueou os lábios num sorriso tranquilo e finalizou: “Que venham os problemas! A genuína liberdade está onde os saqueadores não alcançam”.

Ele me aconselhou a partir. Era hora de seguir a viagem. O imperador disse para eu ler um pequeno trecho do pergaminho que estava sobre a sua escrivaninha. Depois fechasse os olhos e me concentrasse na palavras lidas. Eu conhecia aquele texto, eram conceitos atribuído a Epicuro. Sem demora, as ideias redentoras do filósofo formaram uma incrível mandala na minha mente. Quando abri os olhos, Roma tinha ficado para trás.  

Poema Sessenta e Um

Um grande reino é como um vale,

Lugar de encontro, mãe do Universo.

A humildade se vale suavidade para vencer a brutalidade.

Se um grande reino se curva a um pequeno reino,

O conquistará pela nobreza.

Se o pequeno se submete ao grande,

O conquistará por fazer parte dele.

O grande reino integra para que o pequeno prospere,

O pequeno reino agradece por estar agregado ao grande.

Assim acontece o encontro fundamental,

Impossível sem que o grande não sirva ao pequeno.

2 comments

Celso Tadeu Batalha fevereiro 17, 2024 at 10:07 am

Bom dia.
Como sempre, uma aula de vida, de comportamento e de evolução pessoal….gratidão Yoskhaz.

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Pedro Luiz fevereiro 17, 2024 at 5:43 pm

Gratidão! 🙏

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