TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Sexagésimo segundo limiar – O enigma da liberdade)

Antiga Atenas, a cidade-berço da filosofia ocidental. Um homem alto, de barba e cabelos brancos, rodeado de jovens em uma praça pública, falava sobre o poder da liberdade sem qualquer viés político. Mostrava a força redentora oriunda de um coração amoroso e de uma mente ousada, dispostos a ir além dos condicionamentos estreitos e movimentos repetitivos que mantêm os padrões imperceptíveis de aprisionamentos cognitivo e emocional. Ele não proferia uma palestra, mas realizava um jogo lúdico no qual as perguntas dos alunos eram respondidas com indagações, estimulando os interlocutores a avançar para além de onde estavam em si mesmos. Cada um encontrava a própria resposta de acordo com o seu nível consciencial. Qualquer pessoa podia se juntar a turma que crescia a cada dia. Sentei-me em um banco de pedra e fiquei me deliciando com a escalada do pensamento que se erguia a cada pergunta em uma escadaria infinita de ideias. Encantei-me.

Fomos surpreendidos com a chegada dos guardas que anunciaram a detenção do ancião, sob a absurda acusação de corromper a juventude ateniense. Em verdade, nem todos se mostraram surpresos com a voz de prisão dada ao mestre. Sereno, como se soubesse que em algum momento aquela situação aconteceria, ele se deixou conduzir ao cárcere sem proferir nenhum lamento ou oferecer qualquer resistência. À distância, o acompanhei até o prédio no qual ficaria detido a espera do julgamento. Depois de algum tempo e muita hesitação, decidi por entrar e pedir para estar com o preso. Para o meu espanto, não se opuseram. O mestre sorriu ao me ver. Fecharam a cela depois que entrei. Perguntei o que havia de verdade naquela acusação. O ancião deu de ombros e comentou: “Sou acusado de perverter a juventude. Dizem que a enveneno com as minhas palavras. No entanto, o Caminho está oculto em todas as pessoas. O meu crime consiste em fazer com que descubram onde estão guardadas as chaves para que possam abrir as inúmeras portas da verdade. Somente assim conseguirão deixar para trás as próprias imperfeições em processo contínuo de aprimoramento. Em suma, esta é a jornada da liberdade.  Ninguém é livre antes de descobrir, encontrar e conquistar a si mesmo. O grande perigo de um indivíduo livre não é a insurreição contra o poder político vigente, mas o fato de, ao se tornar indomável às falsas verdades, não mais ficar vulnerável à manipulação dos dogmas, tampouco restar contido pelo medo ou acuado pelo sofrimento”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “A genuína liberdade não está em vagar solto pelas ruas de Atenas ou navegar sem destino pelas ilhas paradisíacas do Egeu. Ela reside em um coração tranquilo e numa mente criativa e corajosa, porém, sensata. Aceitar as próprias imperfeições, assim como conhecer o poder curativo e transformador do amor, nos faz desmanchar os ressentimentos que tornam os dias pesados e impedem novos sentimentos sem os resquícios e influências das experiências desastradas do passado. Vencemos o medo quando deixamos o sentido maior da vida se sobrepor aos pormenores ameaçadores da existência. O meu comportamento é considerado subversivo por mostrar aos jovens que ninguém necessita de autorização para se aventurar dentro do próprio coração e mente, como único jeito de se tornar senhor de si mesmo à medida que conquistar cada palmo desses territórios maravilhosos, porém, desconhecidos. Do contrário, ainda que gozem de todas as regalias da lei, seguirão na estrada do tempo como escravos do que em si ignoram”.

Questionei sobre quais conquistas se referia. Ele devolveu a indagação: “Se um gênio lhe oferecesse apenas um desejo, tornar-se imperador da Pérsia ou ter acesso à riqueza dos sábios e ao mapa perdido dos perdidos. Qual seria a sua escolha?”. Pedi para que explicasse melhor. Eu tinha noção de como deveria ser a vida de um rei, mas nada conhecia sobre essa riqueza e mapa aos quais se referia. Ele me esclareceu: “Não há tesouro maior do que desconstruir as incompreensões que possuímos sobre as nossas emoções e ideias. Quem não domina as suas paixões, sejam interesses ou vontades, é devorado por elas. Do que vale a maior de todas as fortunas sem o menor resquício de paz no coração?”. Balancei a cabeça como quem diz ter entendido e ele continuou a explicar: “Perdidos são todos aqueles que procuram pelo mel da vida sem se importar se o método de busca utilizado apagará a luz da alma. De que vale se tornar o monarca mais poderoso do mundo ao custo de manter a alma na escuridão?”. O prisioneiro prosseguiu: “Ninguém é livre para exercitar uma escolha enquanto não entender a origem e o valor dos sentimentos que o impulsionam e a motivação dos pensamentos que o orientam. Do mesmo modo, ainda que tenha o direito de ir aonde quiser, quem está cerceado pelo medo ou acuado pelo sofrimento não conseguirá sair do lugar. Se escolhas restam restringidas por causas das próprias incompreensões, pode uma pessoa se considerar livre?”. Não havia necessidade de responder. Perguntei se os perdidos eram os indivíduos que, embora se acreditassem livres, eram prisioneiros das circunstâncias, dos medos, das emoções desvairadas, das ideias encaixotadas, dos compromissos escusos e da ignorância sobre o perigo dos desejos obscuros incapazes de dominar. Ele sorriu e me entregou outra pergunta: “A Babilônia ou a alma, qual reino o sábio se empenha em conquistar?”. Ele emendou outra pergunta para impulsionar o meu raciocínio: “Quem é mais livre uma pessoa que viaja à longínqua China, porém arde na fogueira dos próprios sentimentos, ou outra que, em paz consigo, acessa todos os cantos de si mesma, embora esteja impossibilitada de sair da cidade onde mora?”. Respondi que um coração tumultuado é um cárcere mais restritivo e sombrio do que a cela que estávamos. O mestre sorriu satisfeito.

Falei que independentemente da sentença proferida, havia um enorme legado deixado pelas aulas ministradas em praça pública. Eram como faróis a orientar navegadores nas noites tempestuosas da existência. O mestre me corrigiu: “Belas palavras não exigem virtudes. Note como os políticos vendem ao povo a cidade ideal. Não se importam se conseguirão as transportar do mundo das ideias até o mundo físico. Calhordas e estelionatários também fazem uso de palavras bonitas e agradáveis. Vale o poder de convencimento e manipulação. Então, a palavra tem a nefasta capacidade de enganar”. Questionei se a palavra era um instrumento do mal. Ele indagou: “O martelo serve à construção ou à demolição?”. Respondi que para ambas as funções. O ancião deu de ombros e comentou: “Assim é com todas as coisas. A intenção e a finalidade do uso estabelecem a função da ferramenta. Diferente não é com a palavra”. Olhou-me com seriedade e indagou: “Já se deu conta que os valores que movem as suas escolhas determinam a alegria ou tristeza dos seus dias?”. Sem esperar pela resposta, pontuou: “Há quem viva por amor e com humildade; existe quem não consiga livrar as decisões do egoísmo e do orgulho. Só as ações dignas enobrecem o indivíduo e concedem autoridade às suas palavras. Sem a coerência entre o falar e o fazer resta o devaneio ou a hipocrisia. A cada discrepância uma oportunidade se esvai pelo esgoto da existência. Um pouco mais de si se torna menos até não sobrar nada”.

Neste instante fomos surpreendidos com a chegada de três magistrados amigos e admiradores do mestre. Tinham sido seus alunos em um passado recente. Estavam preocupados com o julgamento do ancião que ocorreria ainda naquela tarde. O tribunal se mostrava tendencioso. Estava formado por juízes desobrigados com a verdade e a justiça. A condenação era iminente. Propuseram-lhe um jeito para escapar sorrateiramente da prisão. Tinham tudo arranjado. Um barco o levaria a um esconderijo na Córsega onde ficaria a salvo. O mestre agradeceu a preocupação e a amizade, mas declinou da oferta: “A fuga enfraquece, jamais protege. Não há liberdade fora da verdade. Vivi bem; aprendi e avancei dentro de mim; somei à vida de muitos. A morte não me assusta. Fugir seria aceitar o medo como companheiro de viagem”. Os amigos disseram que ele não tinha muito tempo. O ancião respondeu: “Grades de ferro aprisionam o corpo, nunca o espírito livre que o anima e sustenta. A liberdade pertence à consciência, jamais às pernas. Podem atingir o meu corpo, mas são incapazes de alcançar a minha alma”. Desconcertados, o três discípulos abraçaram o mestre em despedida e se foram. A sós, ele comentou: “Ao coroar o imperador, três ministros são nomeados”. Perguntei se ele se referia aos magistrados que tinham acabado de sair. O mestre me devolveu o questionamento com uma série de perguntas: “Qual reino você habita?”. Naquela viagem realizada pelo inconsciente coletivo em busca da verdade, eu tinha aprendido que, sem importar o lugar onde se vive, cada um mora em si mesmo. As ruas e as cidades servem para oferecer as experiências ao aperfeiçoamento da casa e do morador. O ancião prosseguiu: “Quem dá as ordens na sua casa?”. Respondi que ali era eu quem mandava. Ele questionou: “Qual decisão teria tomado se estivesse no meu lugar?”. Confessei que teria aceitado a oferta para escapar da prisão. O mestre franziu as sobrancelhas e indagou: “Quem teria feito essa escolha, a virtude ou o medo?”. Argumentei que não existia virtude na morte. Ele me corrigiu com uma pergunta: “Qual o valor de uma vida pontuada pelo medo e descaracterizada pela fuga?”. Fez uma breve pausa para eu concatenar o raciocínio e continuou: “Quantas fugas ainda faremos para evitar a verdade?”. Deu de ombros e vaticinou: “Longe da verdade, distante de si mesmo. Nada restará”. Eu sabia que cada pessoa é, ou deveria ser, o imperador do próprio reino. Porém, ele ainda não revelara quem eram os tais três ministros. O ancião explicou: “Ao conhecer os ministros sabemos quem é o imperador. Se o reino tiver a verdade, a virtude e a vida como administradores, compreenderemos que o indivíduo é dono de si mesmo, aceitou a responsabilidade pelo seus sentimentos e exerce as suas escolhas no esplendor da consciência”. Interrompi para dizer que ao se negar a fugir da prisão ele estava renunciando à vida, um dos ministros. O mestre me olhou como quem está diante de uma criança e explicou: “A vida se perfaz no somatório de muitas existências. Cada espírito vive um sem-número de personagens corporais em diferentes cenários e enredos para conhecer todos os tipos de condição, oportunidade e necessidade. Não há método mais eficaz de aprendizado e transformação. Real e infinito são o espírito e a vida, o genuíno viajante e a autêntica viagem. Corpo e existência se desmancham na estrada curta e estreita do tempo. Servem como experiências evolutivas se bem aproveitados. Do contrário, permanecerão como fontes de incompreensão, sofrimento e desejos vazios. O tempo somente cessa em definitivo para quem vence a si mesmo, encerrando as fugas e desmanchando os medos. Sem os devaneios da loucura e da irresponsabilidade”.

Fomos novamente surpreendidos. Desta vez, era Xantipa, a esposa do ancião, que se aproximou das grades da prisão. Ela estava desesperada. O marido tinha sido condenado à morte. Disse que antes de o dia findar seria obrigado a beber um cálice de veneno. A esposa estava inconformada com a crueldade dos juízes. Uma acusação falsa em julgamento sumário e sem direito a defesa. Tranquilo e generoso, ele acolhe as mãos da mulher entre as suas e a lembra: “Eles se condenaram a uma pena bem mais grave ao fazerem mal uso das suas atribuições e poder. Responderão por seus atos na estrada do tempo. Nesta ou noutra existência. Inexoravelmente”. Inconformada, ela alega não entender como ele conseguia manter a serenidade diante de uma sentença eivada em tamanha injustiça. O mestre lhe acalma o coração com um raciocínio desconcertante: “Ainda bem que o veredito é injusto. Esta é a fonte da minha paz. Perturbador seria se a sentença fosse justa. Somente então me caberiam a preocupação, a tristeza e as lágrimas”. O mestre beijou com carinho a esposa e pediu que fosse para casa e tentasse ficar bem. “Nada termina aqui ou ali. Nem mesmo com a morte”, disse antes dela sair.

Novamente a sós, me ofereci para procurar os seus amigos, caso tivesse um último pedido a fazer. O filósofo sorriu e explicou: “Ainda que haja joias de jade sob o meu corpo e carruagens de quatro cavalos na cerimônia do meu funeral, nenhuma diferença fará para mim. O valor da existência se resume ao que tirei e ao que coloquei na bagagem. Aquilo que consegui somar na vida das pessoas. O quanto deixei de ser e o quanto agora sou. Tudo mais é menos. Deixe as homenagens para as autoridades embriagadas em seus pequenos e efêmeros poderes, como se o sol apenas brilhasse por autorização delas. O melhor que posso fazer neste momento é ajoelhar e reverenciar o Caminho. Nada foi mais valioso em minha vida. Perfazer a rota fez valer a luz de cada manhã”, finalizou.

Ouvimos os guardas se aproximando. O filósofo disse que eu deveria partir antes que chegassem. Falei que eu não sabia como fazer. A cela estava trancada. Ele pediu que eu olhasse no fundos dos seus olhos. Ao contrário do que os seus algozes imaginavam, não havia medo ou indignação. Somente amor e sabedoria. Como um mar aberto à livre navegação, uma indescritível mandala se apresentou no azul do seu olhar. Prossegui a viagem.

Poema Sessenta e Dois

O Tao está oculto em todas as pessoas.

A riqueza dos sábios,

O mapa perdido dos perdidos.

Belas palavras não exigem virtude,

Só as ações dignas enobrecem.

Não abandone os maus.

Ao coroar o imperador,

Três ministros são nomeados.

Ainda que haja joias de jade e

Quadrigas na cerimônia,

O melhor é se ajoelhar

E reverenciar o Tao.

Nada mais valioso.

2 comments

Vivian Guimarães março 10, 2024 at 11:42 am

Investigar nossas reais intenções e fazer escolhas sem medo são para mim os maiores desafios. Obrigada pelos ensinamentos sagrados!

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Haian março 26, 2024 at 1:50 pm

Obrigado, pelo ensinamento, estou há 6 anos vindo aqui buscar mais conhecimento.
Gratidão

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