TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Décimo oitavo limiar – O equilíbrio do viajante)

Era uma pequena aldeia ribeirinha. Um rio com enorme extensão entre as suas margens seguia calmo rumo ao mar distante, sem se envolver no conflito e no sofrimento dos moradores da aldeia. Um longo período de estiagem levara à perda de toda a plantação cultivada por meses. Agitadas e nervosas, as pessoas se acusavam umas as outras como culpadas pelo infortúnio. A chegada de uma freira tinha arrefecido os conflitos. Perguntei por ela. Indicaram-me uma mulher que pescava à beira do rio, aparentemente alheia ao sofrimento daquelas pessoas. Um homem, ao perceber que eu a observava, comentou que, quando jovem, a freira havia lutado na frente de inúmeras batalhas, ombro a ombro com os mais valorosos guerreiros da região, impedindo que as aldeias da região fossem aprisionadas por invasores. Depois, se convertera ao Cristianismo. Era muito querida por todos, seja pela enorme amorosidade usada no trato pessoal, seja pelas guerras travadas no passado. Ratificou que ela acalmara o ânimo dos habitantes da aldeia, à beira de uma convulsão face às dificuldades que enfrentavam, embora a ambiência de animosidade contida ainda fosse sentida. 

Fui ao encontro dela. Ao me aproximar, antes que falasse palavra, a mulher me disse em tom suave, porém firme, de voz: “Ajudei a restabelecer a ordem na aldeia, no alcance que me era cabível; lembrei a eles que a discórdia em nada acrescenta. Nada posso fazer quanto à paz. A ordem é estabelecida pelas regras de convívio, não raro, fruto do temor às penas da lei que, de um modo ou outro, a todos atinge. A paz é uma questão pessoal, uma conquista da alma. Ninguém a concede a ninguém. Muitos entendem a importância da ordem, poucos conhecem a supremacia da paz”.

Sentei-me ao seu lado. Ele prosseguiu na pescaria sem dizer qualquer outra palavra. Quando o cesto de palha lotou de peixes, se levantou e começou a cortar varas no bambuzal próximo de onde estávamos. Mostrou um vigor físico típico de quem viveu dias intensos e severos. Em seguida, perguntou se eu poderia ajudá-la. Ao me prontificar, a antiga guerreira pediu que eu carregasse as varas, enquanto ela levava o cesto com os peixes. Escolhera para si o trabalho mais pesado. 

Ao passar pelas casas, sentia a necessidade de cada pessoa. Para uns entregava um peixe; para outros, uma vara para pescar. Ao encerrarmos o serviço, sem peixes nem varas, eu quis saber o motivo da discriminação. A freira se mostrou enigmática: “Quando se perde o Grande Caminho,surgem a generosidade e a justiça. Ambas são virtudes imprescindíveis. As dificuldades e os conflitos podem nos afastar da luz. Quando acontece, ficamos distante de quem genuinamente somos; nos perdemos de nós mesmos. A verdade se esconde e o olhar fica enevoado. Já não sabemos mais distinguir os tigres dos gatos. Não se alimenta tigres com a comida dos gatos”. 

Pedi para ela explicar melhor. A freira esclareceu: “Há a hora da generosidade, existe o momento da justiça. Aplicar a virtude adequada a cada caso exige sabedoria e amor, os fundamentos da luz. A pergunta que se apresenta a todo instante para aqueles que têm boa vontade para com outras pessoas é: agora devo ser generoso ou justo?”.

A mulher prosseguiu: “Será uma resposta pendular. Ora apontará para uma virtude, ora para a outra, em reações distintas por um motivo bem simples: as pessoas têm necessidades diferentes. Por vezes, de acolhimento; noutras, de aprendizado. O movimento errado irá interromper o fluxo da vida; a escolha certa o impulsionará. A sensatez, a virtude do perfeito equilíbrio entre o amor e sabedoria mostrará o momento da aplicação das demais virtudes, assim como a exata harmonia entre elas. Ao contrário do que muitos pensam, a mansidão não elimina a coragem, a delicadeza não anula a firmeza, assim como a justiça não é desprovida de amor. No entanto, a sensatez exige que o indivíduo esteja centrado em seu eixo de luz. Sem conexão com o núcleo sagrado, cessa o diálogo com a própria alma; o desequilíbrio vem à tona e a verdade permanecerá oculta. Perde-se a rota e o rumo”.

Pedi para que falasse mais sobre as virtudes. A freira sorriu e disse: “As virtudes têm níveis e nuances; a exata compreensão requer conhecimento sobre o assunto. Algumas virtudes são simples por se completarem em si mesmo. Outras são complexas por serem a construção de várias virtudes agrupadas. A generosidade é a disponibilidade interna de chegar ao extremo limite das suas possibilidades para atender a necessidade de alguém. Uma virtude típica daqueles que têm olhos para além de si mesmo; já escaparam das prisões do egoísmo”. 

Fez uma pausa antes de prosseguir: “A justiça é uma virtude que possui um grau da complexidade bem maior. Há que se ter sinceridade, honestidade, firmeza, coragem e, por fim, a própria generosidade. Ao contrário do que muitos acreditam, é uma virtude dificílima de se alcançar; requer muito exercício. Muitos veem a justiça como um instrumento retributivo e a confundem com vingança. Acreditam-se justos quando são apenas vingativos”. Interrompi para perguntar como diferenciar uma da outra. Ela explicou: “Há de existir amor na decisão dos justos, do contrário o equilíbrio e a harmonia não serão reestabelecidos. Outro aspecto é o conteúdo educativo embutido na justiça de uma escolha. Educa-se por amor. Do contrário, será somente um ato disfarçado de vingança. Todos perdem”. 

Comentei que nem sempre as pessoas aceitam com resignação aquilo que lhes foi oferecido. A freira esclareceu: “Ainda que contrariado, aquele que não recebeu o quinhão desejado deve ter elementos para que possa compreender, em um momento mais à frente, o fundamento e a nobreza do ato que negou o anseio pretendido. Em análise mais apurada, o amor está presente em todas as virtudes, e não apenas naquelas de acolhimento, como a generosidade, compaixão, delicadeza, misericórdia, entre outras. A justiça exige amor em seus fundamentos, sem o qual carecerá de elementos para restabelecer o necessário equilíbrio, impossibilitando o indivíduo de seguir adiante”.

A mulher prosseguiu: “A sinceridade é o trato da verdade consigo mesmo. A honestidade é a prática da verdade para com os outros. A firmeza é o aspecto inegociável com a verdade. A coragem é força necessária para aplicar a verdade, fundamental para, quando for o caso, se opor aos desejos da multidão, não rara, sedenta em assistir a desgraça alheia. Por fim, a generosidade traz a grandeza do amor para ajustar os parâmetros da justiça, evitando que o rigor desmedido a deixe descambar pelos precipícios da vingança. Na justiça não há lugar para hesitações e insegurança, casos em que o ato ainda não estará maduro e terá de esperar. A sua aplicação também tem tempo certo, como uma fruta que não pode passar da estação, sob risco de a decisão apodrecer, perdendo o viço e o sentido. Como se nota, a justiça é a virtude que ressalta a verdade para restabelecer tanto o equilíbrio do convívio quanto a harmonia da vida”.

Ponderei como era difícil tamanha conquista. A antiga guerreira fez sim com a cabeça e acrescentou: “Ainda há outros fatores que aumentam a dificuldade em agregar à bagagem pessoal essa importante virtude”. Franziu as sobrancelhas e perguntou: “Uma pessoa desequilibrada emocionalmente consegue ser justa?”. Respondi que de jeito nenhum. Ela fez outra indagação: “Um indivíduo egoísta tem a exata noção da parte que lhe cabe, assim como do quanto precisa entregar ao outro?”. Falei que era improvável. Sim, ser justo ainda é para poucos. Ela tinha me feito entender. 

A freira ressaltou: “Atenção à percepção e à sensibilidade. Estas características de aprimoramento evolutivo serão fundamentais ao aperfeiçoamento das decisões”. Me comprometi a pensar mais sobre o assunto. Ela me lembrou: “Há algo que não devemos esquecer. Os fundamentos que constroem a razão são importantíssimos, contudo, não apenas pense com amplitude, mas se permita também sentir com profundidade. Quando desacompanhada do amor, a inteligência traz consigo a hipocrisia e os interesses escusos. O desequilíbrio emocional conduz a mente à construção de raciocínios tortuosos na tentativa de justificar os desejos egoístas, o privilégio rasteiro e a vontade ultrajante. As palavras serão usadas para esconder a verdade”. Fez uma pausa antes de concluir: “Somente um indivíduo justo, pela proximidade alcançada com a própria essência, consegue ser dono de si e, assim, navegar em absoluta sintonia com o fluxo da vida”.

Eu quis saber ao que se referia ao falar em fluxo da vida. A antiga guerreira tentou me ajudar: “O fluxo da vida se estabelece e intensifica quando estamos em sintonia com as virtudes já agregadas, assim como aquelas ainda em fase de conquista. Quando a família não está em paz,surge a adoração e a idolatria”. Interrompi para dizer que não tinha compreendido a última frase. Pedi que fosse mais clara. Ela me atendeu, me fazendo recordar uma conhecida lição: “Sou muitas em uma. Dentro de mim existe um reino com muitos habitantes. Pensamentos, sentimentos, alegrias, sofrimentos, lembranças, sonhos, conquistas, decepções, condicionamentos limitantes ainda imperceptíveis, ideias desconcertantes, vontades, desejos, medos, virtudes e sombras em todas as suas variantes. Enfim, sou mil, mas sou uma. Sem o perfeito equilíbrio entre esses habitantes haverá muita confusão e nenhuma prosperidade. A família é o núcleo do amor primordial para a maior parte das pessoas; uma escola em tempo integral a oferecer lições sobre a essência da vida. Nessa pequena aldeia que sou, a alma traz a representatividade da família. Quando a alma está desequilibrada, a aldeia fica desgovernada. Os conflitos surgem, a paz desaparece. Perde-se o fluxo da vida. Aturdido, o indivíduo tem uma sensação de vazio, como se faltasse algo que não é capaz de identificar. Desorientado, irá buscar no mundo aquilo que somente poderá encontrar dentro de si mesmo. Se perderá em adoração pelos prazeres da diversão rasteira. A bebida, o jogo e o sexo. O dinheiro, o poder e a fama serão reverenciados como deuses. Sem distinção, por suas naturezas vis, são conquistas efêmeras e, mais grave, famintas. Querem mais e, em seguida, ainda mais, até o esgotamento total. O fanatismo daqueles que sedentos por algo que não compreendem, faz surgir idolatrias enganosas e adorações desmedidas de múltiplos tons e escalas. Terminam por tombar como árvore sem raiz”. 

Indaguei que raiz seria essa. Ela respondeu: “A raiz consiste em um núcleo formado por princípios e valores. Princípios são os destinos; valores são as estradas. Se os destinos forem as plenitudes, as estradas são as virtudes. Não se chega ao destino certo através da estrada errada. Somos os criadores da nossa própria criatura. Princípios e valores se unem através da verdade alcançada. Quanto mais ampla e profunda a raiz, menor o risco de a árvore sucumbir às intempéries da existência”.

A freira me alertou sobre consequências mais sérias: “A demora em conquistar a paz na família pode fazer com que o desequilíbrio se alastre. Quando há desordem e confusão na aldeia,surgem os mandarins”. Ao perceber o ponto de interrogação em meus olhos, a mulher riu e explicou: “Mandarins são os funcionários de confiança do imperador, que fiscalizam os seus mandos e desmandos. O imperador é aquele que deseja dominar a todos e a usá-los apenas em seu benefício”. 

Fez uma pausa para esclarecer as metáforas usadas: “O Grande Caminho está repleto de energias sutis e vibrações densas. O andarilho se envolve com aquelas que possui afinidade. São também consequências inevitáveis de cada movimento que fizer. Então, traz para si as energias convocadas. Isto estabelece a qualidade do fluxo que o impulsionará adiante, como se usasse asas, ou travará o seu avanço, tornando-o refém do mandarim e prisioneiro do imperador. Equilíbrio ou desequilíbrio, virtudes ou sombras, determinam por qual estrada vibracional cada pessoa viajará, as alegrias e agruras que encontrará em cada trecho da jornada”. 

A antiga guerreira acrescentou: “Os mandarins são invisíveis e, por isto, tão perigosos. Ficamos expostos a eles quando trafegamos pelas estradas densas e conflituosas da existência. Há muito mais no mundo do que os nossos olhos conseguem enxergar. Vivemos em um mesmo planeta, mas nele existem diversas faixas energéticas a nos influenciar; dependendo do caso, a nos libertar ou nos aprisionar. Algumas são mares abertos e ensolarados, outras são cavernas escuras e sombrias. Convivemos mais com o que não vemos do que com quem conseguimos tocar com as mãos. Ao menor descuido, os mandarins manipulam os habitantes da aldeia, seja pelo medo, seja pelo convencimento de que são quem ainda não se tornaram; seja pelo egoísmo, seja pela sensação de injustiça. Haverá revolta e desordem. Desconheceremos a generosidade e ignoraremos a autêntica justiça. Restará ruínas onde poderia existir prosperidade”.

Perguntei sobre qual dessas estradas eu caminhava. A mulher me devolveu a pergunta como resposta: “Como se sente agora? Esta é a estrada pela qual caminha”.

A freira salientou: “Em casos extremos de desequilíbrio, para se livrar das influências de mandarins e imperadores, os viajantes precisarão da inestimável ajuda dos Guardiões do Caminho, guerreiros em um nível de força e poder diferenciados”. Fez uma pausa para encerrar a conversa: “Mas isso já é história para se contar em outro dia”. Perguntei qual era o seu nome. A freira disse: “Pode me chamar de Maria. Assim chamamos todas as Irmãs da Ordem de Maria”. Ela pediu licença, pois precisava ir. Agradeci por todos os ensinamentos. A antiga guerreira se despediu com polidez e partiu. Observei-a se afastando; pensei se ela não seria um dessas respeitáveis e valiosas Guardiãs a que se referiu. De modo semelhante como o samurai, que eu havia encontrado em outro trecho daquela bizarra viagem, protegia a todos dos perigos do mundo, a Irmã Maria nos protegia de nós mesmos, dos nossos desequilíbrios e incompreensões. 

Voltei à beira do rio. Em sua margem, a passagem das águas entre duas pedras formava um intenso redemoinho. Na distração do meu olhar, ali se formou uma mandala em diversos tons de azul. Sem hesitar, mergulhei.     

POEMA DEZOITO

Quando se perde o Grande Caminho,

Surgem a bondade e a justiça;

A inteligência traz consigo a hipocrisia.

Quando a família não está em paz,

Surge a adoração e a idolatria.

Quando há desordem e confusão na aldeia,

Surgem os mandarins.

3 comments

Fernando abril 27, 2022 at 3:43 am

Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas sem fim…

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cris matsuoka abril 28, 2022 at 12:32 am

Amando esse estudo. Mal posso esperar pelo livro

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Terumi maio 13, 2022 at 12:42 pm

Gratidão 🙏

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