TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Trigésimo sexto limiar – Os signos da liberdade)

Era um belíssimo e multicolorido jardim. Tantas flores de diferentes espécies davam a sensação de que toda a flora estava presente. Borboletas, abelhas e beija-flores completavam a paisagem idílica. Encantado, eu não sabia para qual lado olhar. Ouvi uma voz suave e doce atrás de mim: “Escolha uma flor para levar consigo”. Virei-me. Uma linda mulher de beleza atípica se aproximou. Na cabeça, um formoso chapéu; nas mãos, ancinho e alicate para podar. Adiantei-me para pegar uma linda flor azul, quando ela me alertou: “Para diminuir, aumente. Para aumentar, diminua”. Detive-me. Indaguei ao que ela se referia. A jardineira explicou: “Para se fazer a melhor escolha, antes devemos conhecer todas as escolhas possíveis. Ao fazermos uma escolha, deixamos para trás todas as demais. Isto não é ruim; é exercício evolutivo. Deixar para trás ideias e emoções, coisas e relacionamentos, que, embora os tenhamos à disposição, não mais nos serve, não é uma perda, mas movimento libertário do mais alto grau. Isso não depende de fatores externos ou circunstâncias materiais, carece apenas de como uma pessoa se relaciona consigo mesma. Para tanto, antes é preciso expandir, ir ao mundo viver as experiências, para depois contrair, as elaborar dentro de si para se conhecer mais e melhor; então, estará apto a realizar a melhor escolha. Todo excesso será deixado de lado para prosseguir somente com intensidade da essência. Uma equação que resulta em força e equilíbrio intrínsecos; em aprendizado e transmutação pessoal. Uma decisão difícil para quem está condicionado a acreditar que acúmulo e visibilidade se traduzem em poder e riqueza.”.

Comentei que me parecia desagradável abrir mão de várias escolhas para ficar com apenas uma. Ficava a sensação de que a liberdade restaria tolhida. A mulher me corrigiu: “Não raro, menos é mais. Aquele que deseja percorrer todas as estradas ao mesmo tempo acaba por não trilhar caminho nenhum. Será como uma embarcação sem leme, ao sabor das marés, incapaz de evitar o próprio naufrágio pela incapacidade de contornar um rochedo à frente ou uma borrasca que se avizinha no horizonte; o navegador que pode ir a muitos lugares, mas não define para onde vai, nada sabe sobre a liberdade; ele se encontra aprisionado à ignorância e ao medo; tornou-se escravo dos fluxos do mundo. Somente aquele que decide a rota e o rumo da sua embarcação no expoente da sua verdade, abdicando conscientemente de todos os demais destinos, é dono de si mesmo. Tudo mais são barcos à deriva. Apenas essa depuração torna o indivíduo genuinamente livre”.

Ela continuou: “Nem sempre temos à disposição todas as rotas possíveis. Não que o mundo ou as circunstâncias existenciais nos impeçam. Em verdade, isto nunca acontece. A limitação ocorre por questões pessoais, oriundas de uma relação imatura do indivíduo consigo mesmo. Ignorância, medo, cobiça, orgulho, vaidade, ciúme, ódio, mágoa, remorso, comodismo, entre outras sombras pessoais, nos mantêm em cárcere privado cujos muros são as crenças e condicionamentos limitantes erguidos na argamassa das emoções densas. A liberdade se inicia através de pensamentos claros e sentimentos serenos, uma combinação poderosa, capaz de impulsionar o indivíduo para além de si mesmo, ao mostrar os portais internos que deverá atravessar para modificar a realidade por intermédio da única maneira possível: a transformação pessoal. A liberdade se completa na melhor escolha”. Deu de ombros e acrescentou: “Trata-se de uma difícil, porém, linda jornada de descobertas, encontros e conquistas intrínsecas. Nesta maravilhosa viagem, muita tralha ficará para trás. Conceitos, emoções, relacionamentos e coisas, que podem ter sido importantes no passado, não mais cabem dentro de quem precisa renascer das próprias cinzas. Será ele, mas será outro; diferente e melhor. Este é o Mito da Fênix, uma história sobre liberdade guardada no inconsciente planetário à espera do exato entendimento”.

Arqueou os lábios em leve sorriso e sugeriu: “Atente-se a todas as flores. A mais simples poderá ser a de maior significado”. Ao me perceber surpreso com as suas palavras, a mulher acrescentou: “Para iniciar um novo ciclo, no qual seremos simples aprendizes, antes temos de esgotar todo o aprendizado contido no ciclo anterior, como uma preparação inevitável para o que está por vir. Apenas os mestres do ciclo encerrado podem se habilitar como aprendizes do ciclo vindouro. Todavia, ninguém consegue fechar um ciclo sem conquistar uma visão cristalina de todas as circunstâncias que o envolve. Para tanto, humildade e simplicidade serão sempre indispensáveis. A ânfora cheia está indisponível para novos e inusitados conteúdos; há de haver espaço interno para o necessário crescimento, impossível enquanto todos os enganos não forem afastados; as máscaras, as quais usamos diante do espelho da verdade, caírem; e os personagens, criados em busca de aceitação, aplausos e pertencimento, não restarem desconstruídos. Inexistirá qualquer movimento verdadeiro enquanto persistirmos nas mentiras e nos atalhos que inventamos para chegar ao destino desejado sem precisar enfrentar quem ainda não somos e evitar o desconforto de lidar com as feridas da alma que necessitam de cura. Longe da essência, distante da verdade. Desse jeito, não se chega a lugar nenhum”.

Ela deu continuidade ao raciocínio: “Ninguém entende a grandeza do todo antes de conhecer o valor da menor parte; somente ao se encantar com a beleza do âmago será possível encontrar as maravilhas da vida. No menos está a quintessência do mais. Para enfraquecer, fortaleça. Para fortalecer, enfraqueça”. Ela se adiantou na explicação: “O desapego sobre a matéria em favor do espírito é um exercício fundamental no Caminho. O desapego é o esmorecimento de um antigo vício para dar lugar a uma nova vontade. Evoluir é aprimorar o gosto. Começar a saborear situações, coisas e relacionamentos que antes não eram tão apreciados; mudam as vontades e os desejos. Para iniciar o processo de enfraquecimento sobre as coisas do mundo, antes se faz necessário fortalecer os valores da alma.  Sem isto, você fracassará. A verdade não se sustenta no vazio; uma árvore não germina no ar. Há de existir substância e substrato, ainda que invisíveis e intrínsecos, para a raiz da verdade ter onde se aprofundar. Não basta conhecer a ideia; ela precisa estar imbuída de entusiasmo. A ideia germina na mente, a vontade floresce no coração. Apenas quando movidos por sentimentos os pensamentos se tornam movimentos; somente então a transformação acontece. A ideia precisa da ação para se tornar uma ferramenta de vida; quando limitada ao discurso, a melhor ideia não passará de mero enfeite a adornar um personagem imaturo”.

A jardineira mostrou conhecer muito além das flores: “Para abdicar de práticas estagnadoras, ou mesmo destrutivas, antes se faz indispensável que diferentes conceitos para um novo estilo de ser e viver estejam devidamente consolidados na alma. Somente uma pessoa fortalecida e equilibrada em suas verdades e virtudes conseguirá enfraquecer comportamentos arraigados por condicionamentos e vícios de longa data”. Fez uma breve pausa para eu assimilar o raciocínio antes de prosseguir: “Para aceitar que algumas aparentes necessidades, em realidade, não passam de desnecessidades, antes será preciso alicerçar a nova verdade nas profundezas do coração, até que se tenha certeza de não se tratar de uma miragem, modismo ou um mero desejo sem razão. Para que uma renúncia se complete no viver, se faz necessário que, antes, outra conquista esteja sedimentada na essência do ser. Senão, será mais um belo ideal enfraquecido pela falta de ânimo e vontade”.

Expressei à jovem o meu encanto pela maneira de entender os significados e estruturar as transformações através dos opostos. Bem-humorada, ela fez uma mesura teatral em agradecimento e disse: “Para ser, não seja”. Confessei que não tinha entendido. Ela explicou: “Apenas se humilha quem aparenta uma força que não possui, quem se acredita maior do que é, quem se equilibra sobre falsos pilares, quem mostra virtudes que ainda não conquistou, exalta atributos que não possui, tenta exercer um poder que não tem, que tenta dominar o que não lhe é legítimo possuir. Apenas os orgulhosos, vaidosos e gananciosos são passíveis de humilhação. Só existe humilhação quando há imaturidade ou excessos. A humilhação não alcança os indivíduos protegidos pelos poderes da humildade, simplicidade e da compaixão”.

Piscou um olho e segredou: “Entende a razão de o exercício das virtudes serem o solo fértil da evolução onde a semente da verdade germinará a árvore da evolução?”.

A mulher comentou: “Essas virtudes primordiais são fontes de força e equilíbrio por terem condições de sustentar a expansão da verdade e, porquanto, a transformação da realidade através de constantes aprendizados e infinitas transmutações”. Perguntei como ela definia esses atributos. Ela foi generosa: “Força é a serena convicção de que possuo as perfeitas condições de superar as dificuldades que se apresentam na minha vida. Todos os problemas são fontes de aprendizados; agradeça a cada um dos seus problemas, pois, são maravilhosas alavancas de crescimento, eficientes forjas para o caráter e indispensáveis escalas para se alcançar a maturidade. Todo aprendizado só completa o seu ciclo quando se torna mais uma ferramenta para o bem-viver. Todos os problemas têm soluções; não na medida dos nossos desejos, mas na régua das nossas necessidades de aperfeiçoamento. Fazendo uso da vida como escola e oficina, onde aplicamos os ensinamentos ao cotidiano, talvez não atinjamos as metas materiais desejadas, mas com certeza escalaremos degraus rumo à maturidade espiritual; assim, a força se intensifica e traz o equilíbrio a reboque. Por sua vez, equilíbrio é a mansa convicção de que, se sou maior do que o maior dos meus problemas; nada nem ninguém tem o poder para me arrancar do meu eixo de luz, se assim eu não permitir, fonte de toda a minha riqueza e plenitude. A ausência de solução significa a inadequação da equação utilizada; aprender a pensar diferente para melhor elaborar os sentimentos modifica a realidade. Sentimentos sutis clareiam os horizontes das ideias; emoções densas fecham os portais da evolução. Muito cuidado para não se perder nos atalhos das tentações e dos enganos; fora da verdade não existe caminho”.

A bela jardineira disse que havia muito mais naquilo que denominava como teoria dos opostos: “Para conquistar, entregue”. Eu nem precisei pedir por explicações, ela as ofereceu em seguida: “O mundo está repleto de possibilidades, tentações, enganos e atalhos. Não basta almejar conquistas, se faz indispensável construir cada uma delas. Para tanto, se faz necessário abrir mão, ou seja, entregar tudo aquilo que me afasta da verdade e das virtudes. Para viver essa fascinante jornada preciso devolver ao mundo as suas dispersões e ilusões que um dia adotei para mim. Se quero ser justo tenho de abdicar dos privilégios; se quero ser livre, não me cabe possuir ninguém além de quem eu sou; se quero a beleza do voo não posso conviver com o medo que me impede de sair do chão; se quero a dignidade preciso entregar ao mundo o respeito que mereço. Enfim, se quero a luz tenho que abrir mão das vantagens oferecidas pelas sombras”.

A moça esclareceu: “Isto se chama fina sensibilidade e sutil percepção. Se preferir, denomine de pequena iluminação a capacidade de entender com clareza e tranquilidade os elementos que se fazem essenciais ao Caminho, abrindo mão daqueles que apenas nos afastam de quem somos. Aqueles que gritam em revolta e sofrimento por não entenderem o mundo, revelam o amontoado de incompreensões que trazem sobre quem são. “O suave e o leve triunfam sobre o áspero e o bruto. A liberdade, o amor, a dignidade, a paz e a felicidade são as conquistas mais valiosas do Caminho. Todas elas apenas se mostram acessíveis através das virtudes, as perfeitas convergências do amor com a sabedoria. Não existe aspereza nem brutalidade em nenhuma das virtudes. Até mesmo a firmeza, a coragem e a justiça, virtudes assertivas, necessárias para conter o mal ou afastar o medo, conduzem ao perfeito equilíbrio pelas características serenas e educativas inseridas em suas resoluções. De outro lado, o áspero e o bruto se esgotam por escassez de amor e de sabedoria, como árvores que, imersas na salinidade que resseca a vida, perdem a capacidade de absorver a doçura das águas e se tornam incapazes de florescer e de frutificar. A suavidade e a leveza são poderosas fontes de força e equilíbrio a mover o viajante perante as dificuldades inerentes aos dias. A suavidade é a sabedoria de fluir por entre conflitos, sempre aparentes e desnecessários; a leveza é concedida a todos aqueles que não deixam o azedume da existência criar raízes no coração”.  

Fez uma pausa antes de prosseguir: “Os brutos podem até subjugar outras pessoas à sua vontade, mas nunca conseguirão sintonizar outro coração ao seu. Viverão vazios. Vitórias desprovidas de virtudes não formam solo para raízes de bons frutos; a vida seguirá frágil e desequilibrada, sustentada em empáfia e sofrimento”. Franziu as sobrancelhas e disse: “Os imaturos acreditam que aspereza e brutalidade significam poder. Eles nada sabem”. A explicação continuou: “Aspereza é o modo de se relacionar que sempre arranha, fere e sangra. Brutalidade é o peso de uma vantagem social, profissional, econômica, intelectual, emocional ou mesmo física de uma pessoa para coagir e dominar outra. O desequilíbrio emocional e moral são as causas; a fragilidade espiritual é uma consequência inevitável; o sofrimento, ainda que disfarçado e negado, é certo. De outro lado, a suavidade e a leveza clareiam as ideias e serenam as emoções. Estradas e soluções, até então impensadas, se apresentam ao viajante. As pedras usadas para atacar ou defender perdem a utilidade. Ele desenvolve asas e voa sobre os muros das incompreensões alheias”.

Comentei que havia muito mais do que flores naquele jardim. A jovem me alertou: “Todos podem curar as suas vidas. Como ensinou um antigo sábio, o peixe não deve abandonar as águas profundas”. Falei que não tinha entendido. Ela explicou: “A vida se desenvolve escondida por baixo e detrás da existência. Peixes de superfície ficam vulneráveis às aves predadoras e aos navios pesqueiros. Faz-se necessário se colocar além dos arpões das ofensas e das intrigas, das redes da ganância, das iscas das sombras e dos anzóis das perdições. Quando os ventos furiosos formam ondas assustadoras, apenas aqueles que se fascinam em nadar no raso são atingidos pela agitação. Viver em águas profundas é fazer parte do imenso oceano sem se deixar alcançar pelas tormentas. Todas as tempestades pertencem à existência; em nada afetam a tranquilidade de quem flui através das correntezas ocultas que na profundidade movem a vida”.

Expressei o meu sincero agradecimento pela sabedoria que me era oferecida. A jardineira fez um importante aviso: “A riqueza do sábio nunca é motivo de festa”. Eu quis saber o significado daquela expressão. Ela esclareceu: “A riqueza do sábio são suas virtudes e verdades. Elas são quietas e silenciosas; não precisam de propaganda, tampouco fazem alarde, ruído ou anseiam por aplausos ou honrarias. Do contrário, da humildade se fará o orgulho, a simplicidade cederá espaço à vaidade, a compaixão se esgotará em intolerância. Então, de um momento para outro, tudo se perde. Nem tudo que reluz é luz. Discreto, o sábio oferece as sementes de luz para quem as solicita. Não se detém nem se aborrece caso não as aproveitem devidamente. Ele nada espera. Entrega o melhor que há em si e segue em frente”.

A mulher sorriu e finalizou: “Nunca desista. No Caminho, o erro é um mestre. A queda ensina sobre a perfeição do voo”. Em seguida, perguntou se eu já tinha escolhido a flor que levaria comigo. Sem nada dizer, me questionei sobre qual seria a melhor escolha. Como se adivinhasse os meus pensamentos, a jardineira esclareceu: “A melhor escolha é feita na confluência do ego com a alma. Quando acontece, somos envolvidos por uma maravilhosa sensação de clareza e serenidade. São os signos da liberdade”. Observei o jardim atentamente por um tempo que não sei precisar. Foi quando me dei conta de uma estranha flor em diversos tons de amarelo cuja espécie eu desconhecia. Parecia uma mandala. Não tive dúvida. Agradeci a bela jardineira e fui ao encontro da flor.

Poema Trinta e seis

Para diminuir, aumente.

Para aumentar, diminua.

Para enfraquecer, fortaleça.

Para fortalecer, enfraqueça.

Para ser, não seja.

Para conquistar, entregue.

Isto se chama sutil percepção.

O suave e o leve triunfam sobre o áspero e o bruto.

O peixe não deve abandonar as águas profundas.

As riquezas do sábio nunca são motivos de festa.

3 comments

Terumi dezembro 24, 2022 at 1:52 am

Gratidão 🙏

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Fernando janeiro 1, 2023 at 6:16 pm

Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas, sem fim…

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Lucy Santana janeiro 6, 2023 at 6:15 am

Gratidão, amo❤️

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