TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Trigésimo quinto limiar – A sutileza do genuíno poder)

O restaurante era grande e elegante. Homens e mulheres se vestiam com roupas caras e bem cortadas. Atendentes e garçons eram atenciosos e solícitos. As bandejas traziam iguarias perfumadas ao paladar. Ao fundo, uma pequena orquestra tocava em tons agradáveis. Havia flores e velas acesas sobre as mesas revestidas com toalhas brancas de puro linho. Discreta no vestir e nos modos, uma anciã de cabelos brancos e curtos, estatura baixa e feições tranquilas ocupava uma mesa próxima à janela.  Embora dois pratos com camarões e massa estivessem postos, não havia ninguém a acompanhando. Cumprimentou-me com um movimento simples de cabeça e, com um gesto delicado, me convidou a sentar ao seu lado. Perguntei se estava sozinha. A mulher sorriu antes de responder: “Tenho-me sempre como companhia; nunca estou só, e quando não me atrapalho em minhas próprias incompreensões, estou sempre bem acompanhada. No entanto, como me avisaram que viria, eu o aguardava”. Cada vez menos algo me surpreendia naquela fantástica viagem pelo inconsciente coletivo para compreender o Tao Te Ching.  Sentei-me. Em seguida, comentei que a solidão era uma epidemia planetária. Ela me corrigiu: “A solidão é maravilhosa por criar a perfeita ambiência para que eu esteja comigo, elabore as experiências vividas em todas as minhas relações e permita as reconstruções internas sempre necessárias. A Grande Arte se aprimora, mas nunca estará pronta”. Eu já tinha aprendido sobre a Grande Arte, a construção de si mesmo. A anciã prosseguiu: “O problema não é viver sozinho, mas viver vazio. Vivem vazios aqueles que não se orientam por um propósito de aperfeiçoamento pessoal, não têm ou não sabem usar o amor para impulsionar os seus movimentos. Estes, ainda que rodeados por muitas pessoas, têm a sensação de estarem abandonados. E estão. Abandonaram-se de si mesmo; apenas não se deram conta disso”.

Neste instante, um grupo de indivíduos encapuzados e armados entrou no salão, rendeu a todos e roubou os seus pertences. Joias, relógios e dinheiro foram levados. Séria, mas sem se mostrar assustada, a anciã entregou bolsa, brincos, anéis e pulseiras. Após a saída dos ladrões era possível ouvir uma ladainha de lamentos e insatisfações. Tranquila, pegou os talheres e disse para começarmos a jantar. Indaguei como se mantinha impassível diante do ocorrido. A mulher comentou: “Ainda hoje falei a um amigo que se perdesse dinheiro não perderia nada; se perdesse a minha luz perderia tudo”. Com certeza a vida me testou para saber se eu apenas proferia belas palavras ou se já estava alinhada a essa verdade. Ninguém se define no discurso, mas na ação”. Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “Nenhuma perda é agradável. Não as desejo. Mas tudo que os infelizes me levaram se resume a dinheiro. A minha luz se manteve intacta; não houve perda significativa capaz de me furtar a paz. Se uma situação me desequilibra ou fragiliza, sou tomada pelo ódio ou pela tristeza; a minha luz arrefece; assim, deixo a verdadeira riqueza escorrer por entre os dedos. Sigo forte e equilibrada quando não me afasto da Grande Ideia; ela me mantém conectada à minha essência. Então, usufruo do genuíno poder”.

Questionei sobre o conceito da Grande Ideia. Eu nunca ouvira aquela expressão. Falei que queria entender também sobre esse poder a qual se referia. A senhora mostrou boa vontade em me explicar: “A Grande Ideia éa existência de um propósito maior oculto por trás das dificuldades do cotidiano. O mundo é escola e oficina; temos de colocar em prática todos os nossos aprendizados, sempre diferentes e mais bem elaborados, até que, através deles, ocorram as transmutações de quem éramos por outros em ciclos infinitos de aperfeiçoamento. Aquele que sou me trouxe até aqui, mas não será capaz de me levar adiante. A transformação é indispensável. Para avançar se faz necessário trocar as lentes, filtrar sons e palavras, refinar gosto e sabores. Assim nos construímos. Todas as situações que nos envolvem têm a finalidade última de alavancar a nossa evolução. Portanto, não devem ser recebidas com irritação nem tratadas com desânimo. O mesmo acontece com os erros; são elementos importantes e indispensáveis; bem aproveitados, se tornam autênticos mestres por ensinarem como podemos ir além de quem somos”. Bebeu um gole d`água na taça de cristal e continuou: “Quando nos entristecemos ou nos revoltamos significa que estamos ou fomos desconectados da Grande Ideia, que deve orientar o ser e movimentar o viver. Quando a temos como guia, os problemas comuns ao cotidiano não são vistos pelo viés do conflito ou do antagonismo. Porém, observados pela ótica da indispensável transformação pessoal. Quando severos e rigorosos, os fatos que nos atingem se assemelham à forja de uma espada. São como o fogo que concede ao aço a sua melhor têmpera. Diferente não é com o espírito que anima o corpo. As agruras da existência me mostram os mecanismos capazes de suavizar a vida; as dificuldades da sobrevivência impulsionam a transcendência; o peso do corpo ensina sobre a leveza da alma; o conhecimento do mal faz nascer o fascínio pelo bem; as prisões impostas pelas sombras despertam as virtudes que libertam; a proximidade do abismo ensina sobre a importância das asas”.

Ela prosseguiu com a explicação: “Portanto, as picuinhas do cotidiano não podem ter um fim nelas mesmas. Seria um desperdício. Faz-se necessário lembrar que há algo maior por trás das pequenas controvérsias do dia a dia. Tudo que me incomoda mostra algo mal construído em mim; o aço ainda não alcançou a perfeita têmpera, então a lâmina será levada de volta ao fogo para melhorar de qualidade. Não podemos nos deter na superfície dos fatos, na aparência das palavras nem nos impressionar com os personagens usados pelas pessoas. Tampouco pelos nossos próprios personagens; eles nos enganam sobre quem genuinamente somos, nos afastam da verdade e nos impedem de trazer à tona toda a nossa beleza e grandeza. Existe outra realidade por trás de todos os fatos, palavras e pessoas; outra verdade por trás de tudo e todos. Assim como os preciosos diamantes, a realidade e a verdade quase nunca estão disponíveis na superfície. Quando miragens e enganos se prolongam no tempo, a pobreza existencial se espraia.

Levou o garfo à boca e mastigou sem pressa. Fez um gesto para que eu a acompanhasse. Depois, acrescentou: “Não se desanime nem se desespere com nenhuma dificuldade; lembre que qualquer problema equivale ao fogo necessário à perfeita têmpera do ego, alcançada quando se funde a alma de modo irreversível. A verdade está por trás das aparências de todas as situações. Guie-se pela Grande Ideia e deixe o mundo fluir. Descubra o mestre escondido em cada situação e agradeça as novas lentes oferecidas para observar a si mesmo e aos movimentos da vida. Você se sentirá pleno. Os objetos permanecem os mesmos; diferentes se tornaram os olhos e o viés do observador. Então, independente das condições que se apresentem, haverá o entendimento necessário para seguir livre, digno, em paz, feliz e amando um pouco mais a cada dia”.

Apontou o salão com o queixo e disse: “O mundo é repleto de delícias, tentações e prazeres. Não há nada de errado com as sensações do corpo; apenas preste atenção, pois prejudicam bastante quando o ego ainda está imaturo. Músicas e iguarias são como paisagens que detêm os viajantes; o Caminho é enfadonho para as multidõespor não conceder a euforia que os faz esquecer quem são, nem o entorpecimento quanto à verdade que não estão dispostos ou prontos para enfrentar. O Caminho tem como método fazer com que a beleza germine dentro para, somente então, florescer do lado de fora. Não no sentido oposto como a maioria das pessoas acredita que irá acontecer. Impossível alguém oferecer aquilo que não possui. Enganam-se todos os dias”. Fez uma pausa para prosseguir: “Na superfície e na aparência, o Caminho se mostra aborrecido, chato, ingênuo e até mesmo de pouca ou nenhuma utilidade. Muitos acreditam que os conceitos de vitória, sucesso e poder sugeridos pelo Caminho são ridículos, tolos ou ingênuos. Embora quase nunca confessem, as multidões colocam o poder do dinheiro e da fama no alto da lista de desejos; não percebem que essa escolha retira o amor do topo das prioridades. Sim, querem o equilíbrio e a força proporcionados pela verdade e pelas virtudes, mas apenas depois de adquirirem suas mansões e formarem séquitos de fãs. Querem influenciar multidões com suas opiniões, mas sequer conhecem quem verdadeiramente são. Cegos desejando guiar cegos à beira do precipício”. Repousou os talheres sobre a mesa e ponderou: “O sucesso no Caminho é desprovido de glamour; propõe uma ideia de poder sem qualquer graça para maioria das pessoas”. Franziu as sobrancelhas e questionou com seriedade: “Quantos estariam dispostos a inverter a escala de prioridade?”. Por não precisar esperar pela resposta, deu de ombros e acrescentou: “Longe do Caminho, distante da luz. Haverá muita euforia, pois o mundo é farto quanto a estas possibilidades, com enorme oferta de diversões e drogas de variadas linhagens, usadas para encobrir o vazio criado pelo distanciamento entre o ego e a alma. Enquanto não aprimorarem o olhar, a escuta e o paladar não conhecerão o encanto da verdadeira alegria, apenas acessível por intermédio das manifestações de uma alma alinhada a um ego encantado com inusitadas descobertas”. Tornou a beber água e comentou: “Conquistas que resultam em domínio e coerção sobre outras pessoas não deixa margem para a suavidade e a leveza. Existirá soberba e empáfia, faltará equilíbrio e força”. Fez uma pausa como envolvida em lembranças e concluiu: “O genuíno poder tem a marca da sutileza. Embora esteja disponível a todos, poucos conseguem perceber alcance dos movimentos ou sentir as suas maravilhosas vibrações”.

Pela janela, ao lado da mesa, deixou o olhar vagar até as estrelas que embelezavam a noite e filosofou: “Para se encantar pelo Caminho se faz indispensável se apaixonar pela alma. Cuidar dela como quem cuida do seu mais precioso bem. Até porque a alma é o passageiro e também a bagagem para as Terras Altas. Nada mais o acompanhará além das conquistas do espírito imortal”.

Olhou-me nos olhos e questionou: “Quantos estariam dispostos a cuidar da alma com o mesmo esmero com que cuidam da aparência do corpo, das roupas, do carro, da casa e da conta bancária? Quantos se dedicam à fantástica jornada da alma como quem se entusiasma com uma viagem para Paris, Londres ou Nova Iorque?”. Eram perguntas que dispensavam resposta. Tornou a olhar para o salão e disse: “Não bastam olhos para ver, ouvidos para escutar, nem lábios para saborear. Faz-se indispensável os sentidos da alma para se alcançar a verdade e conquistar a si mesmo. Assim como o corpo, a alma tem visão, audição e paladar. Chama-se percepção e sensibilidade as estruturas fundamentais da consciência cujas cores, sons e sabores se sutilizam na exata medida da sua expansão, seja em amplitude, com alcance cada vez maior na direção do mundo, seja em profundidade, com as descobertas, encontros e conquistas intrínsecas”.

Pedi para ela explicar melhor. A mulher era gentil: “Os seus olhos são atraídos pela aparência das pessoas ou têm interesse em ler os seus corações? Interpretam o erro como um fracasso definitivo ou como uma escola especializada na formação de grandes sábios?”. Esperou alguns instantes para que eu concatenasse a ideia antes de prosseguir: “Os seus olhos procuram resultados ou buscam significados? Eles aprisionam ou libertam?”.

A anciã estava disposta a me ensinar: “Quem já é capaz de ouvir a voz do silêncio? Você escuta as ofensas como quem vai a guerra ou como quem ouve um pedido de socorro? Entende que as palavras que atiram pedras falam sobre aqueles que ainda não conseguem voar? Consegue encontrar um sim escondido no não? Quando foi a última vez que ego se hospedou na quietude da alma para conversarem sobre necessidades e mudanças?”.

Ela continuou: “Com que gosto você experimenta todos os acontecimentos da vida: como quem lamenta a derrota ou como quem agradece a lição? Diante de um prato repleto de dificuldades, se engasga com os problemas ou saboreia o convite para iniciar uma nova aventura de descobertas intrínsecas? Vive como quem se aborrece no esforço da lagarta em construir o casulo ou como quem se encanta com a certeza do voo da borboleta que surgirá?”.

A anciã prosseguiu com o ensinamento: “A razão e o sentimento que impulsionam o viajante definem a estrada e o destino da viagem. Predomina o orgulho em vencer os outros ou vale a humildade para superar a si mesmo? Sente maior atração pelos brilhos do mundo ou pela luz da alma? Procura pela praticidade aparente dos descompromissos ou busca a grandeza e a beleza apenas possível ao amor profundo? Franziu as sobrancelhas e comentou: “Amor sem compromisso é amor de superfície. Não levará ninguém a lugar nenhum. Muitos são os viajantes sem estrada e destino”.

Abriu os braços como quem fala o óbvio para lembrar de uma antiga e sábia lição: “Ao livrar os olhos da alma de todos os enganos e incompreensões, o universo se revela em luz. A verdade é uma jornada de expansão da percepção e da sensibilidade, apenas possível com a devida elaboração intrínseca das experiências vividas no mundo”. Questionei como saber se uma experiência restara devidamente equacionada ou se fora mal compreendida. Ela arqueou os lábios em lindo sorriso, como se esperasse por aquela pergunta para finalizar a conversa, e esclareceu: “A luz traz clareza à mente e tranquilidade ao coração. A certeza se torna serena, interesses e acontecimentos adquirem cores, sons e sabores sutis, os movimentos ganham a marca da suavidade e da leveza; o equilíbrio e a força se instalam. Se não for assim, significa que a solução ainda não foi encontrada”. Em seguida, concluiu: “A Grande Ideia ensina sobre o genuíno poder; o Caminho o conduzirá até lá através de infinitas transmutações durante o percurso em uma jornada sem fim rumo à luz. Em algumas tradições herméticas a espada sagrada representa as mil faces do amor por intermédio da luta incansável pela verdade e virtudes. Esse é o poder; o seu uso não conhece limites”.

Terminamos o jantar sem dizer outra palavra. O salão se esvaziara. Os comensais foram embora; uns mais pobres pelos pertences roubados, outros mais ricos pela experiência elaborada. Ela fez um gesto para eu me retirar pelo jardim. Eu tinha certeza do que me aguardava lá. Em uma árvore frondosa, no centro do seu tronco robusto, havia uma mandala lilás e dourada. Atravessei o portal.

Poema trinta e cinco

Guie-se pela grande ideia

E deixe o mundo fluir;

Haverá plenitude.

Músicas e iguarias detêm os viajantes;

O Tao é enfadonho.

Não bastam olhos para ver,

Ouvidos para escutar,

Nem lábios para saborear.

As suas cores, sons e sabores são sutis.

O seu uso não conhece limites.

1 comment

Terumi novembro 29, 2022 at 1:18 am

Gratidão 🙏

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