MANUSCRITOS III

O esconderijo do mal

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através das músicas e das histórias que contava, acendeu o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo e deu uma baforada. Era um final de tarde de outono, estávamos sentados na varanda da sua casa e nos cobríamos com mantas coloridas para afastar o frio típico das montanhas do Arizona nessa época do ano. Eu tinha acabado de chegar de viagem e a primeira coisa que o xamã me perguntou, logo após aos cumprimentos, foi o motivo pelo qual eu “parecia carregar tanto peso nas costas”. Sim, era verdade, eu estava mal. Dei um sorriso amarelo como quem é visto sem as roupas do personagem que criamos para interpretar quem não somos nos palcos da vida e declarei que o mundo não era um bom lugar para se viver. Em seguida narrei alguns problemas que enfrentava em razão do posicionamento absurdo de algumas pessoas contrários aos meus. Sentenciei que, sem dúvida, o planeta é habitado por gente atrasada, insensível e ruim.

Canção Estrelada ouviu tudo em silêncio, quando terminei de falar ele perguntou: “Há uma bela lenda do meu povo que talvez o ajude a entender o momento pelo qual atravessa. Quer ouvi-la?”. Respondi que seria uma honra, afinal esse era o talento de Canção Estrelada. Ele sorriu e narrou a história compassadamente: “Havia uma aldeia próspera e tranquila que estava na expectativa de saber qual dos seus habitantes seria escolhido para preencher uma vaga no Conselho dos Sábios que governava a tribo. Já havia tido várias reuniões sem que o Conselho se definisse pelo novo membro. Até que um dos seus integrantes mais antigos, o sensato e bondoso feiticeiro da tribo, teve um sonho no qual o Grande Mistério avisava que a aldeia estava prestes a ser atacada por um monstro desconhecido. Alertou que somente após a captura da fera o Conselho teria condições de decidir pelo novo membro. Por coincidência, uma das avós da tribo, uma anciã generosa e muito querida, teve o mesmo sonho naquela noite. Era o Grande Mistério confirmando os sinais. Não restou dúvida que o predador deveria ser caçado. Como era uma tarefa extremamente perigosa, entenderam que estaria a cargo de quem se voluntariasse a tamanho risco. De pronto, um dos guerreiros mais bravos da tribo, um caçador habilidoso, conhecido por sua beleza, destreza, coragem e admirado por todos, se candidatou. Como ninguém conhecia as feições do monstro, foi preciso que o feiticeiro da tribo, pedisse ao Grande Mistério que as revelasse através dos sonhos. Naquela mesma noite o pedido foi atendido e na manhã seguinte o poderoso xamã descreveu os traços assustadores da criatura maligna. Disse, também, que o Grande Mistério antecipara que apenas se o bem fosse persistente seria capaz de vencer o mal. Diante da comoção geral o intrépido guerreiro se despediu da esposa e do filho amados e prometeu à tribo que só retornaria trazendo em sua sacola a cabeça demoníaca do animal desconhecido. Cavalgou por dias sem conta usando toda a sua enorme habilidade para rastrear o monstro. Por vezes, parecia chegar bem próximo do predador, a ponto de quase se encontrarem, mas o animal parecia escapar por alguma fresta misteriosa da floresta. Em muitas noites, deitado e aquecido pelo calor de uma fogueira, sentiu vontade de retornar por causa da saudade da família e da aldeia, mas lembrava da promessa que fizera, do compromisso em defender aqueles que tanto amava. Era um guerreiro e isto o animava a prosseguir. Até que um dia, com as forças quase esgotadas, desanimado porque as suas preces ao Grande Mistério não eram atendidas, corroído pelo desgaste físico e emocional, desapeou do cavalo na beira de um enorme lago de águas plácidas, pois, sentia sede. Quando aproximou o seu rosto no perfeito espelho d`água, para a sua enorme surpresa, viu refletida a face do monstro que perseguia”.

Canção Estrelada, como um bom contador de histórias, deu uma proposital pausa dramática, baforou o cachimbo e continuou a contar a lenda: “Ao contrário do que se possa imaginar, o monstro não estava atrás ou ao lado do guerreiro, mas era ele próprio. Viu nos contornos da sua face os traços da fera descrita pelo feiticeiro. Apenas na solidão e na entrega da busca pode se permitir o verdadeiro encontro, o de estar frente a frente consigo mesmo, sem máscaras, truques, mentiras e ilusões para desvendar a verdade”.

“Ficou muito assustado. Sempre acreditara ser um bom homem, um guerreiro que alimentava a aldeia com a sua caça, amava a sua esposa e o seu filho, era leal aos seus amigos. Chegou a pensar que enlouquecera ao ver a face do monstro em seu próprio rosto. Resolveu montar acampamento na beira do lago até que entendesse tudo que acontecia. Nos primeiros dias foi tomado por um misto de decepção, desânimo e raiva ao descobrir que não era exatamente quem sempre se imaginou. Chegou a cogitar o absurdo suicídio como maneira eficiente de exterminar com o monstro. Foi demovido da ideia ao lembrar as palavras do sábio feiticeiro de que, se fosse persistente, o bem se sobreporia ao mal. Passado o impacto inicial, percebeu ter criado uma imagem de si próprio que, se não era verdadeira, também não era de toda mentirosa. Admitiu mágoas recorrentes, frustrações ainda não superadas, escamoteamentos da realidade na tentativa de fugir ao enfrentamento com as suas emoções conflitantes, logo ele, um guerreiro famoso pela bravura. Reconheceu que, muitas vezes, confundiu o sentimento de justiça com o desejo de vingança. Percebeu que as essenciais virtudes da compaixão e da humildade eram anuladas pelas sombras da vaidade e do orgulho, fazendo com que se irritasse com facilidade e culpasse os outros por suas decepções. Não raro usava a impetuosidade sob o manto da coragem. Lembrou de momentos em que usou inadequadamente a sua força de guerreiro para prevalecer em pequenas questões com os mais fracos. Entendeu também que, embora a coragem fosse uma nobre virtude, parte dessa bravura servia para desviar a sua própria atenção, e a de todos, quanto às fragilidades que sangravam no seu íntimo, justo aquelas que ele não tinha coragem em revelar e enfrentar. Aos poucos entendeu a necessidade de inverter o olhar que tinha para consigo, de encontrar o que havia perdido dentro, ao invés de apenas lutar contra o que existia fora; de aprender que o mundo só desaba quando a alma se desequilibra. Diante de tanta desarmonia a sua famosa coragem poderia ser mal direcionada e prejudicar, além de si mesmo, toda a aldeia. Era preciso aceitar e abraçar as suas sombras; o lado mais obscuro, justo aquele cuja existência nunca quis admitir. Somente assim poderia tirar da caverna escura a sua outra face para oferecer a claridade e a beleza da luz. Era oportunidade de ser pleno; ao fazer com que o ego se encantasse pelas virtudes da alma, uniria todas as partes de si mesmo, se transformando em um indivíduo mais forte, consciente e amoroso”.

“Muitos meses se passaram até que pudesse se conhecer por inteiro. Os viajantes que passavam pelo lago e viam aquele homem solitário, maltrapilho, sentado debaixo de uma árvore, com um estranho sorriso no rosto, seguiam adiante pensando se tratar de um louco. Até que o guerreiro percebeu que conseguira iluminar muitas das fendas sombrias do seu ser. O suficiente para saber quem era, onde morava o monstro, o alcance dos seus tentáculos, a influência dos seus conselhos e enganos. O mais importante: ele entendeu que matar o monstro seria matar uma parte de si mesmo; era preciso abraçá-lo. Estavam ligados como criador e criatura. O monstro não era um inimigo; ao contrário, todo o seu enorme poder poderia ser usado em favor do bem. Para se conseguir a cura, o tratamento escolhido é fundamental: o monstro precisava conhecer e se encantar com o poder do amor, pois todo o mal tem a sua origem na falta de amor. A cura se traduz em liberdade; nunca pela morte do carcereiro, mas por sua transformação”.

“Chegara o momento de retornar para compartilhar com a tribo a riqueza que amealhara. Era possível seguir com leveza e simplicidade sem o peso insuportável do orgulho e da vaidade. As virtudes estavam livres para florescer. Havia um novo conceito e jeito de ser e viver. Este entendimento define as dores e as delícias da vida, a guerra ou a paz, no mundo, na aldeia e em si mesmo”.

“Porém, não queria voltar de mãos vazias, levando apenas palavras. Viu um pedaço de tronco e teve uma ideia. Com o seu punhal começou a esculpir um totem. Ao final, retornou para casa. Quando atravessou o portão da aldeia, houve uma grande comoção. Muitos o tinham como morto, vencido pelo monstro ou pela floresta. A sua esposa o abraçou emocionada; o seu filho, ainda de colo quando partira, correu para se aninhar e sentir os braços do pai. O guerreiro estava muito magro, as roupas em farrapos, sujo, com fome, mas tinha uma luz indescritível em seu olhar e uma doçura desconhecida em seu sorriso. Vários se apressaram em preparar uma festa pelo retorno do valoroso guerreiro, outros queriam ouvir as histórias que ele tinha para contar, até que o bom feiticeiro da tribo se colocou diante do guerreiro e perguntou pela promessa feita: apenas voltar se trouxesse em sua bagagem a cabeça do monstro. Lembrou que uma pessoa vale pela sua palavra. Neste instante todo o clima de alegria pela volta do guerreiro se modificou para um ambiente de grande tensão; afinal, havia um compromisso a ser honrado. Alguns segundos de silêncio pareceram demorar uma eternidade. Diante do questionamento do sábio feiticeiro, todos os olhares se voltaram para o guerreiro, que manteve as feições serenas e inabaláveis; aquele corpo alquebrado e faminto, que nem de longe lembrava o homem musculoso de outrora, transmitia uma força descomunal. O guerreiro abriu a sacola e retirou o totem que esculpira em seus últimos dias no lago. Era a estátua do seu próprio rosto modelada à perfeição’”.

“Diante da tribo assustada, o guerreiro disse: ‘A vós ofereço a cabeça do monstro que existia em mim, mas deu lugar a um novo ser, embora ele mesmo, diferentes em si. Não é uma imagem para ser adorada em nenhum altar, mas para ser transmutada na fogueira desta noite, em lembrança a um homem que fez a travessia pelas profundezas abissais do próprio âmago e retornou à luz, trazendo todas as partes que o compõe devidamente alinhadas, harmonizadas e em paz’. O feiticeiro quis saber se além da cabeça da criatura, o que mais o guerreiro trazia na bagagem. Ele respondeu: ‘O amor por mim e, por consequência, por toda a gente. O amor adormecido é a cura ainda não revelada de todo o sofrimento. Este é o verdadeiro encontro da vida, esta é a essência, todo o resto é apenas aparência’”.

“Em seguida, o guerreiro concluiu: ‘Não sei se o Conselho considerará a promessa como cumprida, mas acatarei com resignação qualquer decisão’. Naquela aldeia a pena pela palavra desonrada era o banimento. Houve um grande murmurinho. Em seguida, o feiticeiro esticou o braço, entregou ao guerreiro o bastão sagrado do Conselho dos Sábios e disse: ‘Você se transformou no guerreiro de si mesmo, no herói da própria história e venceu a grande batalha. Assim nascem os sábios. Você está pronto. Não queremos perder a sua melhor parte. Seja bem-vindo!’”.

Ficamos em silêncio por longo tempo. Era o momento de refletir sobre tudo o que tinha sido dito e encontrar o devido lugar para aquelas ideias. Quando o xamã me passou o cachimbo eu estava com um olhar distante. Ele sorriu por perceber que as suas palavras fizeram semeadura em meu coração. Perguntei se ele tentava me dizer que todo o mal do mundo se escondia em mim. Canção Estrelada me olhou com compaixão e humildade e falou: “Todo, não. Apenas o mal que lhe faz mal. O monstro que atormenta e devora está dentro e não fora da gente. Ninguém pode nos prejudicar mais do que cada qual a si mesmo”. Tornou a pegar o cachimbo de minhas mãos e baforou antes de finalizar: “Observe o mundo, aproveite a vida, ofereça o seu melhor e eduque o monstro que habita em suas entranhas. Enquanto isso, seja feliz”.

 

 

 

15 comments

Rafael Pietro Lomonte março 20, 2017 at 2:29 pm

Lições importantes que Canção Estrelada e Yoskhaz nos possibilitaram. As batalhas internas e a vitória sobre nós mesmos são como tijolos numa construção. Um a um, podemos construir o farol que nos fará irradiar mais luz e nos aproximar cada vez mais do ponto mais alto de nós mesmos. Muito obrigado por mais essa leitura maravilhosa!

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Joane Faustino março 20, 2017 at 3:14 pm

Viva ao amor… Acredito pois o quanto nos ama ao prover de tão belas palavras q abrem caminho pra cura de si…

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Anna março 20, 2017 at 6:20 pm

Obrigada.

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Jessica Araújo março 20, 2017 at 7:52 pm

Maravilhoso.
Gratidão

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Nazaré Dimaria março 20, 2017 at 8:27 pm

Maravilhoso.. Perfeito!!

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kenia Fernandes março 20, 2017 at 10:28 pm

Uau, precisava destas palavras.

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Margareth março 20, 2017 at 11:35 pm

Toda a minhaGratidão !

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Guilherme Bresser março 22, 2017 at 11:47 am

Perfeito.

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Luis Fernando de Brito Duarte março 23, 2017 at 8:47 am

Maravilhoso! É impressionante como as palavras adequadas, E bem estruturadas fazem a mágica transformação do chumbo em ouro.

Gratidão!

Yoskhaz a admiração que acalento pelo seu trabalho levarei comigo eternamente. É expandirei para o maior número de pessoas que eu puder.

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FABIANA BARBOSA AMARAL PEREIRA GUIMARAES março 24, 2017 at 2:11 pm

Gratidão Yoskhaz!
A grande batalha é essa mesmo! Primeiro aceitar que o maior inimigo mora dentro de nós, depois vem a metamorfose, a iluminação do monstro. A transmutação é o nascimento do homem sábio.
Sigo nesta busca. Namastê.

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Christina Mariz de Lyra Caravello março 24, 2017 at 9:01 pm

Lendo esse texto creio que cada um de nós se colocará no lugar do guerreiro.

Todos temos uma definição sobre como somos, como agimos, quais nossas verdades, como achamos que os outros nos veem.

E nem sempre somos uma unanimidade para nós mesmo. Sabemos que existem sombras, escuridão que nos incomodam e que precisam ser enfrentadas, transmutadas a fim de que nossa luz possa irradiar completamente não só para benefício próprio mas também para nosso próximo.

Existem fases em que parece que estamos em evidência. Uma boa evidência. Muitos elogios, muita admiração. Nos sentimos poderosas. Mas sabemos que existe um monstro dentro de nós que precisa ser enfrentado. E ele tem muito a ver com um senso crítico exacerbado em relação a outras pessoas. E pior do que isso é espalhar para outros essas críticas.

Não suporto ver injustiças, humilhações, discriminações nem preconceitos, mentiras. E muitas vezes arraso com quem age assim, me queixando para terceiros, expondo a figura ao julgamento de outros. Esse é o meu monstro particular.

Na verdade, me arrependo. Fico mal. Não sei como reparar. Rezo, peço perdão a Deus, peço que me dê uma luz . Mas muitas vezes, permaneço solitária embaixo de minha árvore por muito tempo . Até que surja uma oportunidade de, de alguma forma, eu poder me redimir , atenuando para os terceiros, a imagem da criatura arrasada por mim.

Sei que tenho que trabalhar isso . E esse texto de Yoskhaz colocou o dedo nesta minha ferida, desentocou meu monstro escondido. Grata, meu amigo, pela sua luz.

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Adhemar Mariano abril 3, 2017 at 9:03 am

Sem comentários , só emoção e gratidão.

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Marie Maria abril 8, 2017 at 1:00 pm

Muito importante abraçar a nossa sombra é o melhor caminho estou aprendendo muito, a primeira vez que li sobre abraçar o lado escuro não consegui entender tem mais ou menos um ano. Hoje consigo entender perfeitamente e esse texto vem ratificar essa questão muitas vezes criamos monstros e e difícil realmente transmutar toda mudança é assim. Ótimo
texto Grata !

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Anne Louise maio 6, 2017 at 9:57 pm

Obrigada!

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Andréa julho 7, 2017 at 12:30 pm

Primeira vez que ouvi o texto ao invés de somente lê-lo. Que presente!

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