Tirei aquela terça-feira para arrumar a casa. Não a física, mas a psíquica. Se em melhor análise, cada um mora dentro de si mesmo, convivendo diariamente com os seus pensamentos e sentimentos, a limpeza exige atenção e manutenção constante. Ninguém pega o lixo da rua e o leva para guardar na casa de tijolo e concreto. A pergunta é porque mantemos o hábito de acumular o que não presta dentro da gente. Eu precisava avaliar ideias e emoções que pernoitavam em mim. Colocar as boas para gerar frutos, assim como descartar aquelas que não mais serviam, prejudicavam e me impediam de seguir em frente. Faxinar a mente e o coração é tarefa primordial para manter a sanidade mental e emocional. Do contrário, conflitos se avolumam, caminhos se fecham, a alegria desaparece. Culpamos os outros, a sorte, o mundo e o destino quando, em verdade, se trata tão e somente de negligência com a casa interior, a qual não fomos educados a manter limpa e arejada. Não raro, um erro caro. Ninguém pode fazer isso por ninguém, salvo cada um por si mesmo. Eu preciso ser um bom lugar para viver. Se possível, todos os dias. Enquanto a paz não morar comigo, jamais a conhecerei.
Organizei a agenda; transferi afazeres e compromissos para os dias seguintes. Isto sempre é possível quando priorizamos a prioridade do momento. Priorizar a prioridade não é pleonasmo, é hipérbole funcional. Naquele instante, cuidar de mim era a coisa certa a fazer. Tudo mais poderia esperar. Não se trata de egoísmo, mas de autorrespeito e amor-próprio. Quando não estamos bem, nada nos será bom o suficiente. A vida perde o sabor. Somos o sal da vida. Se não soubermos a temperar e a preservar, desperdiçaremos uma inestimável riqueza.
Esta riqueza desperdiçada era a agonia e a tristeza do Beto. Depois de décadas sem nos ver, o acaso criou um encontro na subida da Pedra Bonita, um enorme maciço de granito algumas centenas de metros acima do nível do mar, de frente para a icônica Pedra da Gávea e aos pés do majestoso Atlântico. Do topo, se avista vários bairros do Rio de Janeiro, sendo permitido sentir o pulsar dessa cidade linda, enigmática e repleta de contradições.
Tínhamos estudado juntos no Ensino Médio. Diferente de mim, ele optou por cursar Direito. Tinha o sonho de se tornar um grande criminalista. Estudou bastante e fez bons estágios. Preparou-se adequadamente para o início da carreira. Após os primeiros anos, muito promissores, foi apanhado por um plano econômico equivocado e extremista, que arrestou quase a totalidade dos valores contidos nas contas bancárias da população. Os clientes não podiam honrar com os honorários, tampouco Beto podia utilizar a poupança confiscada pelo governo para pagar os seus compromissos. Enfrentou meses de enormes dificuldades financeiras. Os boletos se acumulavam na razão direta que o sono desaparecia. Seu pai era proprietário de uma empresa de ônibus, um dos poucos setores empresariais a superar sem maiores problemas aquele período de tantas complicações. Todos os dias recebia valores significativos referentes à venda de passagens. As multidões precisavam se deslocar para trabalhar. Assim, o fluxo de caixa se manteve estável e satisfatório. Foi quando o pai, na melhor das intenções, o convidou para trabalhar na empresa. Receberia um ótimo salário e seria preparado para o suceder no tempo oportuno. Contudo, havia uma condição inegociável: teria de abdicar da advocacia para se dedicar integralmente ao negócio. Embora houvesse alívio da pressão financeira que o espremia, como quem lança ao mar uma carga preciosa para salvar da tempestade o barco à deriva, ele teve que se desfazer de quase dez anos de estudos. Para dirigir uma empresa de viação urbana, os conhecimentos na área do Direito Penal em muito pouco ou em nada serviriam. Com uma nítida a tristeza em seus olhos, me disse Beto à época: “A necessidade falou mais alto do que o sonho”.
Mais de trinta anos depois, eu o reencontrei ao estacionar o carro próximo à rampa de saltos para voos em asa-delta, alguns metros abaixo do topo da montanha. Ele me contou estar casado com uma mulher incrível, com quem tivera três filhos maravilhosos. Após a partida do pai para as Terras Altas, assumira o controle da empresa. Tinha uma vida confortável, sem maiores problemas. Todavia, ainda trazia o desconforto de uma escolha realizada quando nem sequer tinha completado trinta anos de idade. Por vezes, acordava sobressaltado no meio da noite, assombrado pelo verso de um poema do Manuel Bandeira: uma vida que poderia ter sido, mas não foi.
Beto contou que costumava se sentar na rampa para assistir homens e mulheres voarem como se a asa-delta fosse extensão natural de seus corpos. Havia um inegável fascínio em singrar os mares do céu, ver o mundo de cima e apreciar o silêncio que existe nas grandes alturas. Até que aderiu à aventura de voar, de se lançar no abismo e se deixar sustentar somente pelo ar. Havia uma indizível sensação de leveza, impossível de explicar para quem nunca tinha voado. Com a administração da empresa devidamente azeitada, cada vez mais delegava funções. Assim, passou a se dedicar todos os dias ao esporte antes de trabalhar. Para ele, voar equivalia à meditação em um templo inexpugnável. Sentia-se bem assim, explicou. Perguntei se a agonia do sonho abandonado desaparecia nesses momentos. Beto se limitou a dizer não com a cabeça.
Ato seguinte, me convidou a realizar um voo. Garantiu que seria uma experiência sem igual. Declinei da oferta. Expliquei os motivos pelos quais estava ali. Eu precisava arrumar a casa. Falei que seguiria rumo ao topo da montanha. Em tom de brincadeira, Beto comentou sobre a Cléo, a bruxa, a quem todos comentavam na cidade, sendo considerada, pela grande maioria, mera personagem de uma famosa lenda urbana. Algumas pessoas juravam a ter encontrado na Pedra Bonita. No mesmo tom de descontração, por saber que certas histórias são difíceis de acreditar, contei que tinha encontrado com ela por diversas vezes. Embora não tivesse obtido sucesso nas últimas tentativas, confessei. O encontro sempre dependeu dela, nunca de mim. Beto me observou por alguns instantes como quem percebe a seriedade das palavras por trás de uma fala aparentemente descompromissada. O seu olhar sério me fez uma pergunta silenciosa. Maneei a cabeça para responder que sim. Ponderei que, talvez mais do que eu, ele também precisasse arrumar a casa. Havia um cômodo fechado há décadas que necessitava de uma boa faxina. Se ele tivesse a ventura de encontrar com a Cléo – algo que eu não podia garantir –, viveria uma experiência sem igual. Beto sorriu sem certeza se acreditava naquilo que eu falava, mas aceitou o risco da aventura.
Diz o poeta que os outonos do Rio se equivalem as primaveras de Paris: céus incrivelmente azuis com temperaturas deliciosamente amenas. Vencemos sem maiores dificuldades uma trilha de cerca de vinte minutos até o platô soberano da montanha. Tínhamos uma vista encantadora acompanhada de uma quietude inspiradora. Sentei-me de frente ao mar, fechei os olhos e me deixei conduzir por alguém que sou, mas nem sempre permito que participe do meu cotidiano. Algo que aos poucos me esforço para corrigir. Beto se sentou ao meu lado.
Passado um tempo que não sei precisar, tive a atenção despertada pelo grasnar das gaivotas. Ao virar para o lado, me deparei com o olhar assustado do Beto. Envolta pelos pássaros, rodopiando à beira do penhasco, Cléo se aproximava. O vestido esvoaçante, para olhos afoitos, se assemelhava a asas coloridas. As gaivotas se foram, a boa bruxa ficou.
Acomodou-se ao lado de Beto e, com o timbre de voz doce e delicado, o perguntou-lhe: “O que veio fazer aqui?”. Um tanto desconcertado, embora conhecido como uma pessoa articulada, inteligente e de raciocínio veloz, ele teve dificuldade em responder. De modo a se esquivar do questionamento, brincou dizendo que eu o convidara a arrumar a casa. Apesar de estar com a vassoura e o balde na mão, sequer tinha noção de por onde começar. Gentil e séria a um só tempo, Cléo o orientou: “Comece por onde incomoda. Alguns cômodos, mesmo que considerados pequenos ou insignificantes, de tão bagunçados, têm o poder de atrapalhar o funcionamento e o bem-estar da casa inteira. Não se consegue esquecer nenhuma das feridas da alma, mas sempre é possível curá-las. Algumas precisam apenas de um melhor entendimento, outras, contudo, carecem de posturas e atitudes para que parem de sangrar. Toda cura se inicia através de um olhar mais aperfeiçoado em relação à experiência vivida. Quando a equação resulta em sofrimento, significa que erramos o cálculo da vida. Faz-se indispensável a refazer quantos vezes for necessário até que o resultado seja a libertação e a paz”.
Beto parecia nem respirar. Cléo o convidava para um voo diferente do qual se acostumara a fazer com a asa-delta. Não teria o ar para se sustentar. A coerência com a verdade era o que o manteria em pleno voo. Do contrário, despencaria em si mesmo, como todos os dias, há tanto tempo, acontecia. Não havia outro jeito. A bruxa acrescentou: “Distante da coragem a verdade não consegue sair do solo para alçar voos mais altos. Você continuará a se perder em adiamentos, maquiagens e fugas. Aos poucos, restará bem pouco, quase nada de si mesmo. Quem faz isto conosco não são as circunstâncias da vida, mas as escolhas que realizamos diante delas”.
O empresário deixou que a frustração do sonho abandonado saísse do quarto escuro das memórias desagradáveis e reprimidas. Contou em detalhes como tudo acontecera. Das necessidades que enfrentara à época, das tentações que não conseguira resistir. Tinha optado pelo caminho mais fácil, todavia, uma via sem coração. Por não ter tido forças para lidar com as difíceis circunstâncias que o pressionaram, negou o próprio destino. Tinha uma vida confortável e tranquila, porém, convivia com um vazio que não conseguia esquecer nem se desvencilhar. Se é vazio, por que dói? Questionava-se. Emocionado, suas mãos tremiam. Uma lágrima expôs a dor de um sentimento reprimido há mais de trinta anos. Encerrou com uma pergunta que entendia não caber resposta: para onde vão os sonhos abandonados?
Cléo o olhou com compaixão e explicou: “Os sonhos jamais restam esquecidos. Os sonhos não vão a lugar nenhum. Eles ficam sangrando dentro da gente. Negamos, mentimos ou reprimimos, justificamos o abandono com argumentos sagazes. Desculpas até podem trazer algum consolo, mas jamais aperfeiçoam ou melhoram a vida de ninguém”.
Fez uma pausa antes de acrescentar: “Abandonar um sonho pode significar uma séria desistência quanto a si mesmo. Equivale a deixar um pedaço de quem poderíamos nos tornar à beira da estrada. No lugar do que foi suprimido, surge o vazio”. Em seguida concluiu: “O que dói não é o vazio. É o pedaço arrancado, pois não se trata de uma parte ruim ou enfermiça. Trata-se da parte que faria a diferença, mas foi jogada fora. O que dói é a verdade compreendida pela consciência, porém, reprimida pela mente que se nega a enfrentar o erro e corrigir a rota”.
Beto sacudiu a cabeça. Alegou ter sido pressionado pelas circunstâncias históricas. Tinha acumulado muitas dívidas. Na época, muitas incertezas sobre o futuro assolavam a população. Aceitar o convite e as condições impostas pelo pai foi uma necessidade premente. Não teve escolha, afirmou. Cléo o corrigiu: “Sempre temos escolhas. Você realizou aquela que entendeu adequada ao momento. Nada há de errado nisso”. Em seguida, ponderou: “Algumas pessoas lidam bem por se deixarem conduzir pelas forças das circunstâncias, como barqueiros que se entregam à força das correntezas. Nunca sabem para onde vão. A vontade mais íntima não lhes serve de leme. Navegam ao gosto das marés. Para estes, qualquer porto vale como destino. Vivem como coadjuvantes de histórias sem enredo. Contudo, há aqueles que não admitem ser menos quando poderiam se tornar mais. Precisam ser os autores da própria história. Para estes, o sonho faz a diferença. Não falo de brilho ou fortuna, me refiro à luz que recusa a se apagar em seus corações. Ainda que ninguém perceba, aprove ou acompanhe, eles sabem a importância do caminho e do destino que querem para si”. O olhou com seriedade e indagou: “Que tipo de barqueiro você é?”.
O empresário comentou que, apesar de gozar de boa saúde, já havia passado dos sessenta anos de idade. Algumas semanas atrás, fora convidado para uma solenidade na Universidade em comemoração aos quarenta anos de formatura da sua turma. Havia colegas advogados, juízes, procuradores e até mesmo alguns desembargadores. Eles falavam em aposentadoria. Não fazia sentido recomeçar agora. O trem passara. Aquele percurso não existia mais. O destino estava inacessível. Perdera para si mesmo ou para as forças das circunstâncias. Não importava saber. Admitia-se resignado.
Cléo argumentou: “Toda comparação é insana e absurda. Ninguém é igual a ninguém. Logo, nunca haverá dois caminhos ou duas histórias iguais. De certo, não são as circunstâncias que impedem o destino. Dificuldades, problemas e obstáculos são inerentes à vida de todas as pessoas, assim como tempestades rasgam velas, rochedos obrigam a reajustes de rota e rachaduras no casco levam o barco ao estaleiro, em diferentes períodos, para os devidos reparos. Intempéries e imprevistos são ocorrências comuns às travessias. Alguns os tratam como impedimentos, outros, porém, os usam para importantes aperfeiçoamentos. Isto define como cada barqueiro singra pela vida”.
Beto tornou a repetir, como se a bruxa não tivesse entendido ou, talvez, para ressaltar um fato que não poderia ser desconsiderado: a sua formatura acontecera há quarenta anos. Era muito tempo. Cléo sorriu, deu de ombros e o lembrou: “Moisés conduziu os hebreus por quarenta anos através do deserto. Poderia ter feito a travessia em poucos meses. Porém, entendeu que ainda não estavam prontos para iniciar um novo e valioso ciclo. Ele não desperdiçou tempo, tampouco se perdeu naquela jornada. Fez uma longa e indispensável pausa para preparar aquele povo, evitando assim que um dos capítulos mais importantes da História não restasse mal escrito”.
Olhou para o Beto com carinho e ponderou: “Você estava pronto para ser o advogado que gostaria de ter se tornado naquela época?”. Beto confessou que foi um jovem adulto bastante imaturo e inconsequente, com pouca clareza mental e nenhum equilíbrio emocional. Era imprudente, impulsivo e afoito. Embora tivesse estudado bastante e adquirido muito conhecimento, admitia que não estava pronto. Advogar na esfera penal exige uma postura ética irrepreensível para que a linha tênue que separa o criminalista do crime jamais seja ultrapassada. Isto talvez tivesse comprometido bastante a sua carreira, caso tivesse prosseguido. Contudo, agora, considerava estar próximo da maturidade existencial. Muita coisa havia mudado. As diversas experiências vividas ao longo de tantas décadas haviam contribuído em muito para essa compreensão. A bruxa arqueou os lábios em lindo sorriso e pontuou: “Bem-aventurados aqueles que entendem a razão pela qual atravessam um deserto. Não o amaldiçoe nem o lamente. Os desertos não são circunstâncias intransponíveis, tampouco roubam sonhos. Existem para forjar os mais belos destinos”.
O empresário admitiu estar receoso se faria sentido retomar a carreira no momento em que todos aqueles que se graduaram com ele estavam se aposentando. Parecia incongruente caminhar na contramão do sentido natural da vida, conforme denominou. Cléo franziu as sobrancelhas e o questionou em sequência: “Por que seria insensato? O que o proíbe de começar no momento que os outros estão parando? O seu referencial é a sua verdade ou a vida alheia? Se você não assumir a autoria da sua história, quem a escreverá para você?”. Em seguida pontuou: “O sentido natural da vida é a evolução, a qual cada um faz ao próprio tempo e maneira, pois, as necessidades são distintas”.
Fez uma pausa antes do questionamento final: “Entende que não são as circunstâncias ou as dificuldades externas que o impedem de alcançar o destino planejado? Cada qual tem o próprio deserto para atravessar. Alguns são mais extensos e demorados do que outros. Nada há de errado nisto. O erro consiste em pensar que o deserto é atravessado somente mundo afora, esquecendo dos trechos que precisam caminhar universo adentro”.
Antes que Beto pudesse dizer palavra, as gaivotas se aproximaram. Ladeada pelos pássaros, como em um majestoso e orquestrado balé, a bruxa rodopiou à beira do penhasco até desaparecer ao longe. Ficamos sentados em silêncio por um bom tempo. Não havia pressa. Cada um tinha uma casa para arrumar. Por vezes, abria os olhos e percebia o Beto observando o voo dos homens-pássaro. Pensei, sem nada dizer, que quem tem coragem de se lançar no abismo, tendo apenas as próprias asas para se manter no ar, nada mais deveria temer. Era uma imagem portadora de um poderoso simbolismo. Quem teve a coragem de deixar para trás algo tão valioso, há de ter a ousadia de buscar o que sempre lhe pertenceu. Nada é mais importante do que zelar pelo próprio destino. Era fim de tarde quando descemos a montanha. Sem nada revelar, Beto me deu um forte abraço e agradeceu por aquele dia. Disse ter sido angular. Assim nos despedimos e não mais nos vimos.
Passados quase três anos, liguei para o contador que prestava serviço à editora. Um colega, também empresário, havia sido denunciado por suposto crime fiscal. Perguntei se ele conhecia um bom advogado para indicar. O contador me falou sobre um profissional que, embora tivesse reingressado na carreira recentemente, realizava um excelente trabalho nessa especialidade do Direito. Deu-me o nome e o telefone do Beto. Foi quando soube que ele passara a direção da empresa para um dos filhos, se dedicara ao estudo das novas legislações para, somente então, voltar à atividade. Contudo, não era um retorno qualquer. Para se movimentar com ética, clareza e equilíbrio através das leis e dos tribunais, o advogado teve de aguardar pela maturidade do homem que o imbuía. Alguns desertos são mais extensos, as travessias necessitam de mais tempo. Sem dúvida, a vida é pedagógica: circunstâncias aprimoram viajantes, jamais impedem destinos.
