O ônibus me deixou na praça em frente à estalagem da pequena vila chinesa, na subida para o Himalaia. A dona da estalagem me entregou a chave do quarto com o seu costumeiro mau humor. Deixei a mochila e, depois de tomar um banho, me dirigi à casa de Li Tzu, o mestre taoísta. Como de hábito, o portão estava aberto. Atravessei o lindo jardim de bonsais perfumado por incensos de jasmim. Ao entrar na cozinha, Meia-noite, o gato negro que também morava na casa, me olhou entediado de cima da geladeira, virou a cabeça para o lado e voltou a dormir. Fui recebido com um caloroso abraço pelo mestre taoísta. Havia tempos que eu não aparecia por lá. Enquanto colocava um punhado de ervas em infusão para o chá, ele quis saber notícias do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Quando ainda rapazes, tinham sido contemporâneos em uma universidade inglesa. Apesar do tempo e da distância, a amizade permanecera inalterada. Assim acontece com os sentimentos puros.
Ele serviu o chá e se sentou à mesa. Após as conversas iniciais para as devidas atualizações, Li Tzu perguntou se a visita era movida à saudade ou se havia outro motivo. Respondi que estava ali por ambas as razões. Entre a gente também havia nascido uma bonita amizade, sem contar o quanto eu havia aprendido com o mestre taoísta. Graças às camadas profundas de interpretações conduzidas por ele, o Tao Te Ching se tornara um manual de vida tão importante para mim quanto sempre fora o Sermão da Montanha. As incontáveis lições oferecidas por esses livros sagrados são de inestimável valor. Sem demora, abordei o outro motivo que me levara a estar ali. Nas últimas semanas, como se uma grossa cortina fosse descerrada no despertar de uma manhã qualquer, me dei conta de algo que me acompanhara por toda a existência.
O olhar atento de Li Tzu me autorizou a prosseguir. Contei haver percebido que sempre estive muito sozinho, desde a infância, mesmo quando acompanhado dos meus familiares. Não se tratava de maus-tratos físicos ou de abandono material, mas de menosprezo e indiferença. Ninguém nunca tinha se preocupado com as minhas necessidades emocionais. Não se tratava de nenhum melodrama barato. Eram fatos. Foram décadas de convívio e relacionamentos acompanhados de um sem-número de frustrações e decepções. Embora a convivência fosse frequente, existia um abandono emocional velado. Todos percebiam, mas ninguém tocava no assunto; quando eu tentava conversar, desconversavam. Tentei os convencer a mudar de postura, de nada adiantou; tentei entender a razão daquelas atitudes, não consegui. Com o passar do tempo, o abandono emocional se intensificou. Aos poucos, deixei de ser convidado para festas, encontros e natais. Como acontecera de modo lento e crescente, eu não tinha me dado conta de como era doloroso. Acostumarmo-nos à dor é um erro. Não podemos acreditar que o sofrimento é natural, inevitável e sem fim. Sofremos por incompreensão e incompletude. Sofremos por evitar ou negar a verdade. Aos poucos, eu havia me acostumado à rejeição. Acostumar-se ao sofrimento não o impede de nos dilacerar, como um hóspede embusteiro sempre disposto a atacar nos corredores escuros das emoções aviltadas. Até que compreendi que não o queria mais morando em mim. Todos temos esse poder. Todas as dores da alma são passíveis de cura. Sem exceção. Desde, é claro, que consigamos iluminar os vãos escuros por onde circulam os sentimentos densos. Onde há luz, fenece a escuridão. Torna-se território da paz.
Eu não tinha dúvida de que aquelas situações haviam sido determinantes para forjar quem eu me tornara. Contudo, era preciso entender quais os aspectos bons, e também os ruins, que restaram moldados em mim como resultantes dessas experiências existenciais. Esse movimento é fundamental ao processo de cura. É preciso sinceridade e coragem para, primeiro identificar, e depois cuidar dos sofrimentos que, de tão antigos, os consideramos partes indissociáveis de quem somos. Não são. Nenhuma dor tem o direito de viver eternamente dentro de ninguém.
Li Tzu me olhou com carinho e ponderou: “De início, há um importante aspecto a ser ressaltado. Apesar das muitas situações dolorosas provocadas por aqueles de quem você esperava amor e acolhimento em razão dos laços consanguíneos, o sofrimento provocado jamais foi capaz de o transformar em um homem amargurado, ranzinza, desesperançoso ou triste. Ao contrário, apesar das dores, sempre o vejo alegre, bem-humorado e animado, sem se lamentar, reclamar ou desistir de encontrar todas as faces boas e bonitas da vida. E, sem dúvida, elas são muitas”. Bebeu um gole de chá e considerou: “Essas experiências forjaram aspectos de muita maturidade à sua personalidade. Ensinaram a se tornar responsável por si mesmo; a aceitar as consequências danosas das escolhas ruins; a contar consigo mesmo para solucionar problemas e superar dificuldades; a se deliciar com o silêncio e a quietude de morar sozinho, sem, no entanto, abdicar de conviver com outras pessoas, ainda que fora do ambiente familiar. Isto o fez aprender que existe uma família cósmica ainda mais acolhedora do que a formada por laços de sangue. Os laços de amor são infinitamente mais poderosos. A solidariedade está nos lugares mais insólitos e se manifesta através de anjos improváveis, disfarçados em personagens por demais comuns e pouco prováveis”. Pousou com delicadeza a xícara sobre o pires e pontuou: “Todas essas conquistas são suas por direito. Uma riqueza livre dos furtos, das traças e da ferrugem”.
Serviu-me mais um pouco de chá e acrescentou: “Contudo, noto que você se refere às situações de rejeição como se fossem fraturas emocionais. Sim, por vezes, este é o efeito causado. A maneira como lida com as rupturas do passado as fez geradoras das dores que insistem em o acompanhar”. Argumentei que eu me considerava um sobrevivente. Quem não se afoga nas tempestades dos sentimentos sombrios, adquire uma força descomunal, pois aprende que é capaz de lidar com qualquer outro problema ou dificuldade. Li Tzu concordou, mas retrucou: “Sem dúvida. Todavia, se faz necessário uma leitura mais apurada para entender como você elaborou as experiências dolorosas do passado”.
Em seguida, o mestre taoísta questionou: “Sabe a diferença entre um sobrevivente e um náufrago?”. Respondi que este, embora vivo, ainda não foi resgatado, permanecendo à deriva e ao sabor das marés. Já aquele, superou as intempéries e pisa em solo firme. Em suma, sob o prisma emocional, consegue dominar os sentimentos, não mais estando à mercê deles. O mestre taoísta aprovou a definição e redarguiu: “Adeque-se com sinceridade a esse conceito e, sem negar a verdade, diga se, de fato, já é um sobrevivente?”. Calei-me por alguns instantes para abraçar a verdade. Após uma breve reflexão sincera, tive de admitir que me assemelhava a um náufrago. Algumas das minhas emoções ainda me conduziam para lugares sombrios e desconhecidos. Se eu quisesse me curar, teria de me conhecer melhor, pois, do contrário, não conseguiria me apoderar dessas emoções e, no descuido de uma noite tempestuosa, ainda corria o risco de me afogar nelas. Não cabia mais me esconder na ilusão das palavras confortadoras.
Li Tzu prosseguiu: “Os naufrágios emocionais podem ser interpretados como uma maldição, dando causa às eternas lamentações, assim como alimentar crescentes sensações de desfortúnio e tristeza. De outra face, qualquer que seja a tragédia, cabe o olhar da benção, da oportunidade extraordinária, da construção de um caráter de excelência, da descoberta do mestre escondido por trás das dificuldades, proporcionando lições diferenciadas e únicas. Sim, para isso servem as contrariedades, decepções, frustrações e traições. Enfim, fraturas podem significar impossibilidades e amarguras, mas podem também conduzir às mais incríveis conquistas sobre si mesmo. Entretanto, as verdadeiras vitórias deixam cicatrizes. Contudo, nem todas são iguais. O que as diferencia é o olhar. Náufrago e sobrevivente não as percebem da mesma maneira”.
Aquelas palavras me deixaram confuso. Pedi para que explicasse melhor. Li Tzu se levantou, abriu o armário, pegou uma tigela remendada em vários pedaços. Havia algo de diferente nos remendos daquela louça. Tinham sido restaurados com uma cola dourada e cintilante, que, ao contrário do usual, os ressaltava ao invés de os esconder. Ele a colocou sobre a mesa da cozinha. Depois, indagou: “Já ouviu falar em kintsugi?”. Respondi que não com a cabeça. Ele explicou: “Trata-se de uma arte de restauração originária do Japão feudal, época de intensos conflitos entre clãs dominados pelos afamados xoguns. Conflitos geram fraturas. Rupturas emocionais são inerentes ao processo pedagógico da vida e, quando bem aproveitadas, se tornam muito valiosas. Nada nem ninguém nos causa derrotas mais devastadoras do que as nossas próprias emoções, quando ainda selvagens e descontroladas. Cada vitória na batalha das emoções incompreendidas gera uma cicatriz. O valor de uma pessoa está na quantidade de cicatrizes que possui. Daí a importância de evidenciar as quedas e quebras ao invés de as esconder, como equivocadamente se costuma fazer. A partir dessa ideia, os artesãos da época criaram uma cola à base de laca, uma resina natural, que misturaram ao pó de ouro como maneira realçar os pedaços quebrados da porcelana. Assim, quanto maior a quantidade de remendos, mais valiosa a louça se torna nessa tradição oriental”.
Bebeu mais um gole de chá e argumentou: “Observadores afoitos e imaturos se perguntam se não seria mais fácil trocar a porcelana quebrada por outra intacta”. Deu de ombros e explicou o raciocínio: “Uma louça pode ser trocada por outra; uma vida, jamais. Trata-se de um simbolismo de profundo valor filosófico, o qual ressalta as cicatrizes como a tônica das narrativas pessoais. Cada queda, uma fratura; cada restauração, uma conquista. Onde existe uma cicatriz, antes houve um golpe ou havia uma ferida. Usando as peças de porcelana como metáforas do coração, mostram que fraturas e quedas não sinalizam derrotas. Ao contrário, depois de restauradas, sinalizam as mais incríveis vitórias existenciais. Quem as esconde, ainda não entendeu o verdadeiro valor que possuem. As quedas merecem destaque, sem nunca darem motivo à vergonha ou à humilhação, quando seguidas do devido reparo e reconstrução. Assim nascem as cicatrizes como signos de beleza e de riqueza. São linhas insculpidas na alma pelas mãos da coragem e do amor. Daí a utilização do ouro como representação a esse ainda pouco conhecido tesouro existencial. Em essência, o kintsugi não fala sobre o refinamento de utilizar o ouro e a laca para restaurar louças quebradas, mas sobre a beleza de usar o amor e a coragem para regenerar vidas despedaçadas. Onde há cicatrizes, existem histórias ricas e significativas”.
Li Tzu bebeu mais um gole de chá e argumentou: “Enquanto você observar e tratar as suas fraturas como momentos de vergonha, injustiça ou abandono, viverá como um náufrago ao sabor inconsequente das marés insensatas. Em verdade, os pedaços ainda não foram colados ou os remendos estão escondidos no inconsciente em razão de não conseguir olhar para eles como uma genuína vitória. O real valor da reconstrução não restou compreendido. Ainda interpreta o péssimo relacionamento familiar como um fracasso pessoal. Assim, o sofrimento segue fazendo morada em seu coração. Quando as enxergar como conquistas definitivas, não mais permitirá que as frustrações e as traições do passado continuem a lhe roubar o mel da vida. Será capaz de fazer uma retrospectiva dos fatos sem qualquer mágoa ou ressentimento. O processo do perdão terá finalizado por completo. Então, finalmente terá conseguido superar o oceano das emoções revoltas e pisará em terra firme, trazendo consigo todo poder imbuído em um sobrevivente”.
Interrompi para alegar que eu os tinha perdoado. Não existia raiva ou mágoa pelo fato deles não gostarem ou não terem sido bons para mim. Havia honestidade nas minhas palavras. Li Tzu me corrigiu: “A questão é outra. Enquanto olhar para as cicatrizes e as interpretar como um fracasso pessoal, por não ter conseguido contornar as recusas ou reverter o comportamento dos seus familiares, sempre se questionando se não poderia ter feito melhor ou se deveria ter insistido na relação abusiva, significa que ainda não aceitou o limite indispensável ao autorrespeito. Ainda está no lugar ruim e sombrio que os seus familiares o colocaram sem que você merecesse estar. Isto impossibilita o indispensável e libertador perdão a si mesmo. Pune-se por ter sido permissivo e ingênuo, por ter se deixado maltratar e enganar por tanto tempo. Este remorso impede o autoperdão. Nada mais humano do que desejar ser amado. Nada há de errado nisto. De alguma maneira, ainda que insensata, se considera responsável pelo abandono e maus-tratos que eles impuseram a você. É como se o agredido fosse culpado pela violência do agressor. Por mais absurdo que pareça, somos castigados e dominados pela própria mente com raciocínios imponderados e cruéis de uma culpa sem sentido, por se tratar de ações cuja vontade e responsabilidade jamais nos pertenceu. Nenhuma rota necessita de ajustes mais finos, frequentes e justos do que a dos pensamentos. A qualquer descuido, eles nos arrancam do bom caminho”.
O mestre taoísta acrescentou: “Jamais se envergonhe das suas cicatrizes. Elas contam os melhores capítulos da história e das vitórias de uma vida. Enumeram as dificuldades das batalhas vencidas, as emoções dominadas, a consciência expandida, a trajetória reconstruída. Mostram a incomensurável força de um sobrevivente, assim como os mestres que encontrou pelo caminho. Não é pouco”.
Calei-me por alguns instantes. Sorvi o chá sem pressa, como quem busca coragem para uma derradeira confissão. Em seguida, admiti que nem sempre reagi bem ao que fizeram comigo. Tomei atitudes não apenas emocionalmente descontroladas, mas também de moral reprovável. Eu me arrependia muito de algumas decisões e comportamentos. Nada tão grave. Nenhum crime. Algumas vezes havia reagido com palavras grosseiras às atitudes de rejeição sofrida. Foram gestos agressivos e impulsivos, desequilibrados e sofridos. Essas reações me deixavam ainda pior. Eu me arrependia muito. Existiam inegáveis erros a serem debitados na minha conta. Não havia como negar. Li Tzu me corrigiu o raciocínio: “Não se trata de negar. Isto seria dar as costas à verdade, algo que apenas serve para alastrar a dor. Trata-se de reinterpretar os fatos, não sob a ótica da culpa, da fuga ou do engano, mas com os olhos do amor e da responsabilidade”. Ele tornou a encher de chá as xícaras e esclareceu: “Tudo na vida tem o tempo certo de amadurecimento. Naquela época, por não entender a razão do repúdio por parte das pessoas que amava, você ficava desorientado com as provocações e maus-tratos. Isto o desequilibrava. Embora tenha reagido mal, você não causou nenhum mal a ninguém”.
Perguntei como isso era possível. O mestre taoísta esclareceu: “Quando os seus familiares o rejeitavam, não o convidando para encontros e festas, no íntimo tinham a intenção de que se sentisse marginalizado, como se fosse um pária. Ao reagir mal pela dor provocada, ainda que eles se mostrassem supostamente surpresos ou ofendidos, no fundo, se apraziam com o seu sofrimento. Mesmo que neguem, esta é a intenção final de todos aqueles que praticam deliberadamente o mal. Assim, sem que você compreendesse, por mais sórdido que possa parecer, eles se deliciavam com sua dor. O mal é o ritmo pelo qual os maus dançam em torno do inimigo combalido e fora de combate”.
Comentei que esse cenário me parecia aterrorizante e cruel. Eles não eram pessoas tão ruins assim. Li Tzu concordou com restrições: “Sem dúvida, não eram criminosos, mas nunca foram bons para contigo. Como todo sentimento, a maldade tem graus e escala. Se a crueldade não foi extrema, sobrou-lhes insensibilidade, rudeza e aspereza no coração. Faltou o amor em forma de bondade, solidariedade, empatia ou compaixão”. Fez uma pausa e ressaltou: “Do mesmo modo que você não deve fugir à verdade sobre si mesmo, não pode se negar a compreender com exatidão o comportamento daqueles que o rodeiam, assim como nomear com as devidas letras os sentimentos que os movem. Por mais duro que seja. Sem vitimismo, mas com responsabilidade e coragem. Isto vale para todos. Não se deve romancear nem paramentar a verdade. Use-a nua. Sem conhecer o mal em todas as suas nuances, ninguém consegue escapar das suas armadilhas. A verdade é fundamental ao entendimento das fronteiras impostas a todos os relacionamentos, assim como é indispensável ao respeito e ao amor-próprio”.
Li Tzu bebeu um gole de chá e questionou: “Percebe os mestres escondidos por trás desses episódios?”. Espantei-me por ele se referir aos meus parentes como mestres. O mestre taoísta balançou a cabeça como maneira de dizer que não era bem isso e explicou: “Os mestres da vida se ocultam nas dificuldades do cotidiano, nos impulsionando a descobrir algo que desconhecemos sobre quem somos e aonde podemos chegar. Ao olhar para a dor como quem busca por algo que está incompreendido ou incompleto dentro da gente, adquirimos o poder de reestruturar o olhar e, com isto, modificar a realidade e encerrar o problema. Basta pensar e agir de modo nunca antes ousado. O erro é acreditar que o movimento de liberdade e de cura devem acontecer no mundo, esquecendo que o poder reside tão e somente na mente. Assim nasce o perdão, o autoperdão… e as cicatrizes”.
Perguntei qual mestre eu havia encontrado nesses acontecimentos familiares. Confessei não saber. O mestre taoísta me devolveu a pergunta: “Diga você”, ele me provocou a pensar. Considerei que a dor começou a arrefecer quando passei a me respeitar, a impor limites às relações parentais e a fechar a porta para os abusos. Antes disso, tinha decidido nunca mais rebater o mal com o mal. Havia entendido que a agressividade e o desatino eram deles. Eles agiam do modo como compreendiam a si mesmos e a vida. Desisti de tentar que mudassem os próprios comportamentos. Contudo, não lhes permitiria que me colocassem onde eu não queria nem merecia estar. Bastou-me mudar a postura, sem qualquer necessidade de brigar com ninguém. Afastei-me em silêncio e resignado, na certeza de que os apertos da vida são valiosos aspectos pedagógicos. Apenas a régua da minha consciência passou a servir para me medir. Esses movimentos internos me trouxeram um bem-estar até então desconhecido. Passo seguinte, entendi o poder de oferecer a outra face. Não o de se deixar espancar ou abusar, mas o de mostrar a face da luz a quem só conhece o rosto da escuridão. Uma receita temperada com doses de doçura e de firmeza na mesma proporção. Percebi que a partir daí as espadas perdem o fio e o corte. Entendi onde mora a paz.
O exercício de traduzir em palavras os sentimentos pulsantes e as percepções latentes são fundamentais à compreensão. Sorri e admiti que eu havia encontrado muitos mestres pelo caminho. Li Tzu considerou: “Ainda não terminou. Resta uma última cicatriz. Do mesmo modo como os perdoou, deixe se envolver pela mesma doçura, compreensão e amor. Pouco importa se você foi ingênuo, insistente, permissivo e, por vezes, agressivo. Não permita que a insensatez da culpa o impeça de perdoar a si mesmo. As reações equivocadas do passado foram essenciais para a compreensão adquirida no presente. Ninguém nasce pronto. A evolução gradual dita a dinâmica da vida rumo à luz. Em estágios não muito distantes, todos carecemos desses movimentos essenciais”. Esvaziou a xícara e finalizou: “Sem nenhuma leniência, mas com plena responsabilidade para que continue a fazer diferente e melhor, perceba o quanto você já conseguiu caminhar. Alegre-se por ter saído do lugar escuro onde estava. Alegre-se pela estrada que o convida a prosseguir a viagem. Alegre-se pela beleza e riqueza das suas cicatrizes. Permita que a última ferida desse episódio, enfim, cicatrize. Perdoe-se e seja feliz”.
Agradeci com os olhos marejados. Fazer as pazes com o passado, me reconciliar com quem eu já tinha sido e olhar com alegria para as minhas cicatrizes, me permitiu redimensionar a minha história e recalcular a rota percorrida. Essa compreensão trouxe lucidez, equilíbrio e força para eu prosseguir em frente.
Como se a existência fosse uma prateleira com diversas porcelanas quebradas à espera dos devidos reparos, apenas uma delas havia sido restaurada naquela tarde. Outras cicatrizes, oriundas de outras situações, ainda me aguardavam. A cada episódio resolvido dentro do meu coração, passei adquirir um kintsugi como símbolo de aprendizado e superação. Ainda há lugares vagos na prateleira.
