MANUSCRITOS VIII

A casa da liberdade

Sentado na cadeira de balanço, Canção Estrelada, o xamã que possuía o dom de ensinar a filosofia ancestral dos povos nativos do Arizona, acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, enquanto conversávamos na varanda da sua casa no entardecer de um outono recente. Combinávamos os últimos detalhes de um cerimonial que realizaríamos em uma montanha próxima na manhã seguinte, quando fomos interrompidos com a chegada de Yuma, filho caçula de Dasan, um dos anciãos do Grande Conselho dos Povos Originais, amigo desde sempre de Canção Estrelada. Apesar de receber a mesma educação e afeto que os demais irmãos, o jovem tinha um comportamento rebelde, pouco afeito aos estudos e à disciplina, sem jamais se adequar a nenhum colégio ou emprego fixo. Yuma se declarava um espírito livre. Conhecido pelo temperamento explosivo, eram recorrentes as brigas com as quais se envolvia na rua, assim como as palavras indelicadas que usava. Argumentava que a verdade não precisava de filtros. Tinha abandonado os estudos ainda adolescente e sobrevivia de trabalhos esporádicos, como o de garçom ou de aparador de grama, entre outras atividades pontuais. Dizia não suportar qualquer tipo de vínculo ou responsabilidade de longo prazo. Para o jovem, compromissos se equivaliam às prisões; rotinas eram como os trilhos que proíbem outros rumos às locomotivas; e a estabilidade trazia o risco comum das raízes que impedem as árvores de saírem do lugar. Argumentava se tratar de características imbuídas em estilos de vida antagônicos à liberdade. Por consequência, os seus relacionamentos afetivos não duravam mais do que algumas poucas noites. Considerava-se um homem do mundo.

Assim que recebeu a carteira de habilitação, percorreu a lendária Rota 66 com a velha, porém, bem conservada Harley-Davidson de Dasan, a qual usou sem autorização. Fez o trecho de Flagstaff até Chicago. Através de trabalhos casuais, pagava pela gasolina e se alimentava. Dormia ao relento ou onde era possível. Conheceu algumas pessoas, namorou outras. Na volta, contou ter vivido uma incrível aventura. Declarava que nada se comparava ao prazer de viajar sentindo no rosto o vento da liberdade. A recepção em casa não foi boa. Dasan chamou o filho para conversar. Ele teria de retomar os estudos e conseguir um emprego fixo. Precisava de meta e responsabilidade para compreender melhor a vida e, com rotina e disciplina, crescer através dela. Exaltado, Yuma respondeu que um homem livre jamais permitiria que outra pessoa lhe dissesse o que fazer ou obedeceria às regras que não fossem criadas por ele próprio. Sem alterar o tom de voz, Dasan tentou explicar ao filho que ninguém se torna livre por discurso. Antes se faz indispensável entender para, somente depois, viver os significados e os meandros profundos da liberdade. Irritado, com bravatas típicas do deslumbramento da imaturidade e da incompreensão, Yuma bateu a porta com a promessa de que nunca mais colocaria os pés naquela casa. O rapaz não tinha ouvidos para o pai, a quem considerava limitado e antiquado.

Yuma foi para Phoenix, uma grande e movimentada cidade a cerca de quatro horas da pequena e acolhedora Sedona. Sem demora, se enamorou. Não por sentimento, mas por conveniência. Como precisava de uma casa para morar, o relacionamento se mostrava conveniente. Embora conveniência denote a estrada fácil ao invés do caminho certo, Yuma não tinha qualquer problema consciencial com isso. Vivia como compreendia a vida. Todos somos assim. Por isto, o conhecimento e o autoconhecimento são fundamentais para forjar uma diferente realidade através da transformação de quem somos por aquele que podemos nos tornar. Não existe outra maneira. As asperezas ou as suavidades da viagem surgem ou desaparecem conforme o jeito de caminhar do viajante, assim como das rotas que escolher seguir. A estrada fácil quase nunca leva ao bom destino. A diferença entre a conveniência e a maturidade equivale à escolha entre a palha ou a alvenaria para construir uma casa. De certo, é que um dia o lobo chega.

A namorada o apresentou a um casal de estrangeiros recém-chegados a Phoenix. Moravam em uma linda casa em um dos bairros mais elegantes da cidade. O carro estacionado na garagem era caríssimo. Foi recebido com gentileza e educação. Após as conversas iniciais, o casal o convidou para realizar entregas recorrentes a clientes previamente cadastrados. Quando perguntados, confirmaram a suspeita de Yuma, sem esconder que se tratava de substâncias ilícitas. Com alguns meses de trabalho, teria dinheiro suficiente para montar um negócio próprio. Garantiram não haver nenhum perigo. Yuma aceitou a oferta. Não se considerava um traficante. Aquele trabalho em Phoenix não era um destino, mas uma ponte para chegar onde desejava. Em outras palavras, uma conveniência oportuna. Seria uma atividade pontual de curtíssima duração, indispensável para atingir o verdadeiro objetivo. Comprar um bar que tivesse um pequeno palco para shows era o sonho do rapaz. Música com bebida perfaziam uma mistura que o agradava. Quando não estivesse disposto a trabalhar ou quisesse viajar, manteria o bar fechado. Era o que faltava para concretizar o seu projeto de liberdade. Para ele, a vida era um jogo inteligente de conveniências oportunas.

Depois daquele dia, não mais teve qualquer contato com o casal. O plano transcorria bem. A cada encomenda, recebia uma mensagem pelo celular especificando onde estava a mercadoria. No pacote vinha anexado um envelope com os detalhes da entrega e a comissão a que tinha direito pelo trabalho realizado. Não sabia como o cliente pagava pela mercadoria, tampouco se importava com isso. O esquema se mostrara perfeito. Em uma caixa embutida na parede de casa, cujo acesso era a tomada elétrica da televisão, escondia o dinheiro que ganhava. Quando o esconderijo ficou abarrotado de cédulas, decidiu que aquela seria a sua última semana de trabalho. Embora nada revelasse à namorada, ele partiria sozinho. Um homem livre não se apega a nada nem a ninguém. Yuma já havia acertado a compra de um bar lindamente decorado no centro histórico de Flagstaff, uma cidade bem próxima de Sedona. O jovem poderia escolher qualquer outra das milhares de cidades espalhadas pelo país, mas estar próximo da família trazia a importância de mostrar que vencera, apesar do estilo de vida censurado pelo pai.

Naquele dia, ao se aproximar do local onde entregaria a mercadoria, Yuma foi preso. Tentou falar com a namorada e com o casal, mas não obteve sucesso. Não teve coragem de avisar aos pais. Condenado a três anos de prisão, depois de cumprir a metade da pena, foi libertado por bom comportamento. Voltou à casa onde morava com a namorada. Ninguém respondeu ao toque da campainha. Como a chave ainda servia, entrou. Havia muito tempo que ninguém morava ali. A bagunça denotava a pressa de quem foi embora. Não se importou. Queria apenas o dinheiro guardado para recomeçar a vida. Contudo, a caixa do esconderijo estava aberta e vazia. Ao procurar pelo casal, descobriu que a mansão se destinava a aluguéis de curta temporada. Nada mais restara. Não foi difícil de entender. Ele tinha sido conveniente para a namorada e para o casal. Naquele instante se lembrou dos ensinamentos do pai sobre a Lei Cósmica de Causa e Efeito. Daquela vez ele tinha sido usado ao invés de usar as pessoas. Amargurado e resignado, decidiu retornar a Sedona. O pai o acolheu com carinho, mas foi firme. Para ficar, Yuma teria de fazer o trajeto de volta para casa. O jovem disse não compreender, afinal, tinha voltado para casa. Dasan pediu que o filho fosse conversar com Canção Estrelada.

Foi nesse momento, enquanto eu conversava com o xamã na varanda, que o conheci e soube da sua história. Ele confessou estar disposto a fazer o que fosse necessário para pacificar a relação com o pai. Estava cansado de conflitos e confusões. Canção Estrelada explicou: “Enquanto não pacificar a sua relação consigo mesmo, o mundo se mostrará hostil e desagradável. Você foi ao mundo buscar o que apenas é possível encontrar dentro do próprio coração. O seu coração é a sua verdadeira casa”. Yuma admitiu ter feito escolhas erradas, mas ressaltou que nunca quis fazer mal a ninguém. Apenas queria ser livre. Comentou que na sua busca por uma liberdade diferenciada terminara como um prisioneiro comum. O xamã maneou a cabeça e explicou: “Você não perdeu a liberdade quando foi preso pela polícia. Ninguém perde o que nunca teve”. O jovem disse não ter entendido. Canção Estrelada esclareceu: “Quando se fala em liberdade, poucos se dão conta do seu enorme significado. Liberdade é bem mais do que perambular pelas ruas ou manifestar a opinião sobre um assunto qualquer. Esses exemplos são apenas duas pequenas estrelas em um firmamento de grande magnitude. A genuína liberdade é bem mais ampla e profunda do que isso”.

Em seguida, para que o rapaz pudesse começar a entender o arco filosófico que estava por vir, o xamã o questionou com uma sequência de perguntas: “Pode um homem que não domina as próprias emoções ser considerado livre? Pode um homem que restringe as suas escolhas por medos, culpas e traumas ser considerado livre? Pode um homem que diz sim, quando acredita que o certo seria falar não, ser considerado livre? Pode um homem arraigado em preconceitos, condicionamentos, crenças e ideologias, que segue os preceitos e as normas sem questionar seriamente os seus fundamentos, ser considerado livre?”.

Yuma o ouvia com interesse. O xamã acrescentou: “O que o impede de ser livre é justamente aquilo que o afasta do seu coração. Por isto Dasan pediu que você aprenda o caminho de casa. Embora ainda não o entenda, ele sempre o quis livre”. Atônito, o rapaz não disse palavra. Então, Canção Estrelada o convidou para o cerimonial da manhã seguinte nas montanhas. Sairíamos ao nascer do sol.

Logo cedo, partimos na surrada picape do xamã até onde terminava uma estrada vicinal de terra. A partir dali, subimos a montanha a pé. Ao chegarmos a um agradável platô onde Canção Estrelada costumava realizar os cerimoniais, estendemos as mantas coloridas no chão e nos acomodamos. Sem demora, o xamã rufou o tambor de duas faces, entoando cantigas ancestrais, rogando por luz e proteção aos mensageiros e guardiões celestes. Em seguida, orientou: “Prestem atenção à música. Serenem a mente, evitem os ruídos das preocupações. Muitas vozes falam dentro da mente, entendam de onde vem cada uma delas. Nem todas nos pertencem; nem todas nos fazem bem. O coração não grita, ele sussurra baixinho entre um pensamento e outro. Para ouvir, há de existir silêncio e quietude interior. A voz do coração não se impõe as demais, mas propõe ideias e caminhos inusitados. Ele murmura soluções simples e ousadas a um só tempo. O coração não sugere correrias e asperezas, ele fala de movimentos suaves, porém firmes; pede compreensão, respeito e maturidade. Fala de coragem, nunca de agressividade; de mansidão ao invés de conflitos; de abnegação em vez de disputas ou imposições. Se a voz não trouxer lucidez, equilíbrio e serenidade, tenham certeza, ela não veio do coração”.

Com o seu jeito simples, o xamã se valia do termo coração para se referir à alma ou à consciência. Ficamos com os olhos fechados, sem dizer palavra, por um tempo que não sei precisar. Quando a mente parou de gritar foi possível ouvir a voz do coração. Depois, Yuma comentou que pareceria ridículo ou loucura o que iria falar, mas precisava confessar algo muito estranho. Ele teve a estranha sensação de que muitos dos seus pensamentos, em verdade, pareciam não lhe pertencer. Pior, muitas vezes, esses pensamentos lhe impuseram condutas na contramão da sua convicção mais íntima.  Canção Estrelada sorriu satisfeito com a compreensão de Yuma, e o tranquilizou: “Nada há de errado nessa percepção. É exatamente assim que acontece. Contudo, é preciso entender melhor o funcionamento da mente para que a luta não seja inglória. Enquanto não aprendermos a silenciar os gritos da mente, jamais conseguiremos escutar os sussurros do coração. As vozes da mente têm muitos donos e origens diversas. Situações dolorosas, experiências mal-elaboradas, decepções, traições, orgulhos, vaidades, ciúmes, comparações insensatas, medos, culpas e mágoas são algumas delas. Outras são as ideologias e as crenças quando, por desconhecer quem somos, as usamos como componentes de identidade. Adaptamos conceitos verdadeiros através de raciocínios tortuosos para justificar uma vida vazia de sentido, interesses egoístas, desejos rasos, dependências emocionais e vícios de comportamento, validação e pertencimento”. Fez uma pausa antes de ponderar: “Na mente também falam as vozes da verdade, das virtudes, dos acontecimentos alegres, das conquistas, assim como dos encontros, sorrisos e abraços aconchegantes. Em cada mente existe um universo próprio habitado por elementos díspares, contraditórios e singulares. Um autêntico império de luz ou de sombras, a depender da voz que o comanda naquele instante”. Olhou para Yuma e perguntou: “Entendeu onde se esconde a liberdade?”.

O xamã prosseguiu: “A falsa liberdade se apresenta nas vezes que acreditamos realizar escolhas, quando, na verdade, usamos os arquivos de experiências mal-elaboradas guardadas nos porões da mente ou seguimos as vozes do mundo sem as questionar com seriedade. Quando acontece, sem perceber, limitamos ao invés de expandir. Isto é o avesso da liberdade”. Yuma quis saber o que ele sugeria fazer para desmontar esse mecanismo vicioso. Canção Estrelada orientou: “Nunca responda de imediato ou decida por impulso. Pare e pense se pode ser diferente. Conceda-se o valioso tempo da reflexão profunda. Faça a si mesmo alguns questionamentos: Este é o caminho que eu sempre segui. Sei onde me levará. Se não é um lugar no qual me sinto pleno, por que insisto em retornar? Há em mim coragem para percorrer um caminho desconhecido?”. Fez uma breve pausa antes de continuar: “Temos por vício repetir que decidimos dessa ou daquela maneira porque não tínhamos escolha. Não é verdade. Sempre temos escolhas. Não por acaso, as mais angulares e significativas sugerem substituir o ordinário, de grande interesse às multidões, pelo extraordinário, de incomensurável valor para o coração. A capacidade de decidir neste diapasão demonstra a importância que a liberdade possui para essa pessoa”.

O olhar desconcertado do rapaz pedia mais explicações e detalhes. Canção Estrelada salientou: “Ninguém tem como impedir que as melhores e as piores ideias transitem pela mente todos os dias. Basta uma palavra, acontecimento ou lembrança para alterar a polaridade e a sintonia dos pensamentos. De um instante a outro, sombras ou luz se manifestam, alternando entre a escuridão e a claridade, a harmonia ou o conflito. Sentimentos sutis ou densos afloram. No entanto, todos têm o poder de escolher os pensamentos que serão mandados embora, assim quais as ideias que criarão raízes para frutificar na mente. Tanto para o bem quanto para o mal. Daí a importância de o coração assumir o controle da mente. Este é o caminho de volta para a casa, onde mora a paz e se vive a liberdade”.

Em seguida, pontuou: “A relação entre o pensar e o sentir é simbiótica. A qualidade dos sentimentos se ajusta ao quilate dos pensamentos. Boas ideias, belas emoções. O contrário também se aplica. Alegrias ou tristezas se instalam conforme a capacidade de elaborar as experiências, de interpretar os fatos, compreender as pessoas, o mundo e a vida. Isto revela o modo como cada indivíduo se relaciona com a própria mente e como lida com a verdade quando esta se apresenta diante dos seus olhos. Impulsiva, a mente rejeita tudo que supostamente sinaliza perigo. Os arquivos guardados nos porões da mente fazem uma correlação entre as situações do passado com as do presente, na vã tentativa de mitigar riscos e perigos. Não sofremos pelos acontecimentos, mas pelas interpretações e projeções baseadas em hipotéticas verdades e crenças infundadas. Sofremos por incompreensão e incompletude. Se o desconhecido assusta, a verdade causará pavor. Por instinto ou vício, mantemos as mentiras, os enganos e as ilusões como se fossem trincheiras mentais. Acreditamos estar seguros assim. Ledo engano. Da repetição se faz um método de pensar, escolher e viver. Instaura-se o padrão do medo e a aversão às transformações. Ainda que por absurdo, preferimos a segurança de um sofrimento conhecido ao risco de uma felicidade desconhecida. Assim, infinitas e impensadas possibilidades são afastadas antes de quaisquer considerações ou ponderações. É neste ponto que a liberdade se esvai pelos esgotos das confusões e ruídos da mente. Somos menos quando poderíamos no tornar mais. Não há como falar em liberdade quando se teme, se descarta ou se foge da verdade”.

Yuma afirmou que nunca repudiou a verdade. Ao contrário, sempre a viveu, ao menos como a conhecia. Estava sendo honesto. O xamã anuiu e ponderou: “Ser honesto é fundamental, mas não basta. É preciso coragem para buscar a verdade além das ideias rasas e discursos vazios dos condicionamentos, preconceitos e ideologias seculares. O custo da liberdade não é o preço de uma viagem para uma cidade dos sonhos. A liberdade pode custar o repúdio das pessoas próximas, inconformadas com as diferenças de olhar e do novo jeito de se deslocar pela vida, seja por inveja, seja por não mais o ter à disposição dos seus interesses imediatos. A liberdade está intimamente vinculada ao desenvolvimento espiritual. Ninguém é livre sem se desfazer das amarras que o impede de ir além de onde está dentro de si mesmo, de se curar das traições, decepções, quedas, erros, medos e culpas. De repensar crenças. De perdoar e de se perdoar. De nada adianta viajar pelo mundo sem antes realizar esses importantes movimentos internos. Ninguém consegue ser livre sem rotina, disciplina e trabalho sério. As metamorfoses existenciais não surgem como cogumelos depois de uma noite chuvosa. Quem vive sem destino ou sem compromisso com a verdade, não é livre. Está perdido ou dominado pelo medo”.

Fez uma pausa e concluiu: “O esforço de ser livre é infinitamente maior do que o de se manter cativo às circunstâncias do mundo e da vida. Faz-se indispensável arrancar a máscara e demitir o personagem. Ninguém consegue isto sem extrema coragem e muito trabalho. Não raro, a liberdade consiste na desconstrução da imagem que o indivíduo tem de si mesmo, sem mais se moldar a modelos pré-estabelecidos e socialmente aprovados, mas que não o faz se sentir pleno. Será preciso encontrar, e depois forjar, um estilo singular de ser e viver, sem a necessidade dos aplausos alheios, das conveniências e privilégios que tantas facilidades oferecem, mas que o mantêm aprisionado a antigos vícios comportamentais, impossibilitando qualquer possibilidade de expansão. A liberdade nasce de uma relação íntima, lúcida, sincera e de respeito consigo mesmo. Poucos têm essa compreensão e disposição. Ninguém é livre antes de entender e construir a própria identidade”.

Yuma argumentou que, pelo que havia entendido, a liberdade seria mais uma conquista mental do que um comportamento físico. Canção Estrelada ajustou a ideia: “Em verdade, ser livre é consequência natural de uma compreensão clara e bem estruturada sobre si mesmo. A partir daí, surge a liberdade de dizer sim ou não diante de situações em que sempre se acreditou existir apenas uma dessas possibilidades. A liberdade se manifesta de mil outras maneiras, como se deslocar com mansidão onde sempre houve conflitos, ainda que permaneça a contrariedade e a incompreensão por parte das pessoas ao redor. A liberdade se apraz e perfaz na luz do silêncio, sem gosto por brilhos, gritos e alardes. Consiste em orientar sem manipular, a ter sem possuir, a fazer sem ferir, a agradar sem se desagradar, a erguer sem precisar morar, a ir sem carregar, a chegar sem invadir”.

Em seguida, concluiu: “A liberdade floresce quando o indivíduo compreende que, por não ser igual a ninguém, os seus passos e traços também não serão. Agir conforme um impulso primário é uma falsa liberdade movida por desejo, conveniência e desequilíbrio. Ser livre é decidir na exata medida da própria consciência: a última fronteira da verdade alcançada no pleno exercício das virtudes agregadas à bagagem. Escolhas assim quase nunca são fáceis. Pessoas livres são raras. No caminho de volta para casa, todos os dias deixam para trás uma versão de si mesmas que já não lhes cabe mais. Não é pouco. Só quem é livre conhece a paz”.

Yuma fechou os olhos por um longo tempo. Não havia pressa. Ele precisava alocar aquelas ideias na mente se, algum dia, quisesse fazer bom uso delas. Entardecia quando o rapaz indagou, diante de tudo que foi conversado, se para existir a liberdade exigia independência e autonomia mentais. Canção Estrelada arqueou os lábios em um lindo sorriso, disse sim com a cabeça e acrescentou: “Independência é quando o indivíduo alcança a capacidade de pensar e decidir por si mesmo, sem se deixar influenciar por atavismos, conveniências, pressões, dependências nem subjugações de qualquer espécie. Por sua vez, a autonomia consiste em estruturar um jeito de pensar baseado na própria identidade, de modo que cada escolha esteja fundamentada nos princípios e valores que acredita, sem jamais descartar os mais inusitados caminhos sussurrados pelo coração”.

A mim, que assistia encantado àquele diálogo, foi inevitável lembrar de uma passagem do Sermão da Montanha: onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração. O livre-pensar é base da identidade pela qual, imersa no imenso jardim da humanidade, as cores de uma flor a diferencia das demais. Nem melhor nem pior, apenas diferente. Uma riqueza imensurável.

Canção Estrelada rufou o tambor de duas faces para encerrar o cerimonial. Ao final, emocionado, Yuma abraçou o xamã em agradecimento. Em seus olhos havia uma luz que antes não existia. Através deles, transbordava o entendimento de que a genuína liberdade nada mais teria a ver com a agradável sensação do vento ao rosto em uma viagem de motocicleta. Em verdade, os ventos da liberdade sopram no coração.

Yoskhaz

1 comment

Rai outubro 13, 2026 at 11:10 pm

Grato.

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