MANUSCRITOS VIII

Elegância, maturidade e riqueza

Nádia trabalhava conosco na editora. Uma excelente funcionária, cuidava do setor financeiro. Das contas a pagar, dos créditos a receber, da contabilidade junto às livrarias e gráficas. Eram muitos números e detalhes. Ela exercia a função de modo impecável. Era uma pessoa gentil e atenciosa, salvo nos dias que se desentendia com o marido, quando então, com os olhos inchados e avermelhados, não saía da sua sala para interagir com os demais colaboradores da empresa, seja no café, no almoço ou mesmo para alguns instantes de descanso e descontração indispensáveis ao bom serviço. Nesses dias, o trabalho servia como escape, um jeito de deixar os problemas em modo de espera por algum tempo. Costumava ficar assim até que algumas manhãs depois surgia sorridente e alegre como se a tristeza e as aporrinhações recentes nunca tivessem existido. Sem que nada precisasse ser dito, sabíamos que ela havia se reconciliado com o Mauro, com quem estava casada havia mais de dez anos. Talvez em razão das brigas recorrentes, talvez pelo estilo de vida adotado, o casal optara por não ter filhos.

Os desentendimentos eram constantes. No decorrer dos anos, o afastamento entre eles ocorria de maneira lenta e gradual. A cada dia se acostumavam a uma convivência desprovida de cuidado, carinho e afeto, como se o distanciamento fosse algo normal e corriqueiro. Chamava atenção o fato de a Nádia estar sempre vestindo roupas, bolsas e sapatos de grife caríssimos, assim como o carro de luxo e as viagens internacionais realizadas durante as férias. Nada havia de errado nisto. Todavia, era nítido que os gastos não eram condizentes com as condições financeiras do casal. Contudo, isso era uma questão que dizia respeito apenas a eles e a mais ninguém.

Ao contrário do habitual, Nádia não apareceu na editora naquela sexta-feira. Ela tinha passado a semana escondida na sua sala, sinalizando mais um dos infindáveis desentendimentos do casal. Sentimos a ausência da moça. Ligamos, ela não atendeu; enviamos mensagem, não recebemos resposta. Preocupado, me dirigi à sua casa. A encontrei destroçada emocionalmente. Mauro havia rompido o casamento de modo definitivo. Como trabalhava em uma empresa com sede em São Paulo, pedira transferência para esta cidade. Estavam se divorciando. Decidido, disse que precisava recomeçar uma nova vida e recompor o padrão de gastos conforme o seu salário. O casal estava atolado em dívidas. Há tempos conversava com a esposa sobre as compras em avalanche e as recorrentes viagens para destinos caros, como práticas contumazes de um vício crescente e avassalador. Nádia argumentava que queria ser feliz e aproveitar a vida. Como o diálogo se mostrara insuficiente para que encontrassem um ponto de luz, no qual diferentes olhares se alinham em uma ambiência comum e saudável de convivência, ele aprontou a mala e partiu. Recomeçaria sem ela. Se ficasse, sucumbiria por anulação de vontade e de personalidade, explicou à esposa.

Esforcei-me para conversar com a Nádia, mas o seu desespero tornava impossível qualquer escuta. Ela amava o marido. Preparei-lhe um chá de cidreira com camomila e deixei que chorasse até adormecer no sofá. Escrevi um bilhete aconselhando-a tirar férias para que tivesse tempo de arrumar as prateleiras da vida, colocando cada ideia e sentimento em seus devidos lugares. E, se entendesse necessário, refazer a rota. Nunca é tarde para os devidos ajustes. De início, ela aceitou. Passados alguns dias, apareceu na editora para trabalhar. Estava um pouco melhor. Apesar de se valer de frases de superação, típicas àquelas usadas em momentos complicados, a fisionomia não conseguia esconder o quão distante estava de conseguir usar aqueles conceitos como ferramentas de transformação. Vislumbrar uma diferente realidade não basta para a viver. Faz-se necessário se movimentar através desse olhar. Do contrário, serão apenas frases de efeito repletas de efeitos vazios. Sem demora, ela despencaria no abismo das próprias incompreensões.

Sem dúvida, naquele momento o trabalho serviria de terapia ocupacional, de utilidade infinitamente maior do que o ócio. Contudo, Nádia precisava ajustar a rota se quisesse seguir em frente. Do contrário, continuaria a andar como quem não tem rumo. Em casos assim, o caos se apodera dos destinos, não restando qualquer bom lugar para viver dentro de si mesmo. Eu sempre fui desastrado para conversas desse naipe, sem contar que ela estava envolvida em uma psicosfera muito densa. Os pensamentos eram derrotistas, os sentimentos a corroíam. Sugeri que fôssemos conversar com a tia Francisca, a benzedeira de Madureira. Aleguei que uma boa reza acompanhada de alguns bons conselhos, se não fizessem bem, jamais fariam qualquer mal. A moça aceitou de imediato.

Tia Francisca, para quem não a conhece, é uma mulher preta, magra, com os cabelos brancos, possuidora de sabedoria invulgar e palavreado refinado. Ela mora em uma rua tranquila e arborizada, transversal à estação de trem, na mesma casa simples e humilde que a conheci quando ainda era criança, levado pelas mãos do meu pai, preocupado com aquele garoto disruptivo e avoado. Sentada em sua surrada poltrona azul, “da cor do manto de Nossa Senhora”, em frente ao altar com as imagens de “Mestre Jesus, Mãe Maria e do Santo Guerreiro”, tia Francisca me acolhia com carinho e me rezava com fé, palavras e ervas. Ao final, me abraçava e soprava ao meu ouvido para que eu não me preocupasse. O tempo mostraria a todos que o meu comportamento não era um problema, mas um caminho. Só fui entender isso muito tempo depois. Como de costume, ela estava certa. Conseguia ver o que a maioria não era capaz de enxergar. Sempre a considerei um farol de navegação em dias de nevoeiro. A sua idade é um mistério do qual ninguém ousa falar. O relógio corre sem que os ponteiros do tempo a alcancem. Dizem que coisas assim só acontecem em Madureira.

A fila de espera era grande. O que, por vezes, é muito bom. Exercitar a paciência acalma a alma e traz clareza ao olhar. Fomos os últimos a ser atendidos, já no fim da tarde. A disposição, o ânimo e o carinho da tia Francisca eram inabaláveis ao cansaço e às horas. Ela nos recebeu com um lindo sorriso e um abraço caloroso. Apresentei a Nádia e disse que as deixaria a sós. A benzedeira falou que não. Pediu para que eu me sentasse em um dos banquinhos de madeira branca. A importância da minha participação na conversa era para que lembrasse à Nádia o que ela não podia esquecer, caso quisesse modificar a ambiência sombria do próprio coração.

Tia Francisca perguntou com a doçura habitual: “Quando tudo começou a desmoronar, filha?”. Nádia respondeu que com a partida do marido para São Paulo. O Mauro nem mesmo respondia mais as suas mensagens. A benzedeira retrucou: “Nesse momento, da demolição restou a destruição. Vou refazer a pergunta. Quando as paredes da relação começaram a ruir? Nas relações afetivas o distanciamento costuma preceder à ruptura”. A jovem buscou nas gavetas da memória o dia em que o afastamento teria se iniciado. A cada escaninho aberto, lembrava de um acontecimento anterior, em sucessivos fatos que pareciam sem fim. Apesar do esforço, não soube precisar quando o primeiro tijolo despencou da parede. Tia Francisca ponderou: “Não devem ter dado a devida importância ao ocorrido. Afinal, nenhuma casa desaba por causa de um tijolo. Em muitos casos, o descaso se torna rotina, o detalhe perde a importância, as diferenças se agigantam, quando então, a intimidade e a convivência se assemelham a um castigo. São sinais claros de que algo de muito grave está acontecendo. Fechamos os olhos para não ver o que não estamos dispostos a enfrentar. Isso não impede que os tijolos continuem a despencar das paredes. Até que certa manhã, ao despertar, notamos que a casa caiu”. Fez uma pausa e acrescentou: “O amor é cura, jamais sofrimento. Se de fato há amor, mas também existe dor, significa haver sentimentos ou comportamentos nocivos asfixiando o amor, do mesmo modo como as ervas daninhas danificam os mais belos jardins, caso o jardineiro seja descuidado”.

Nádia confessou que tinha brigas recorrentes com o marido por causa dos enormes gastos que ela fazia com vestuário e viagens. Disse não se arrepender. Era uma mulher bonita, jovem e cheia de vida. Tinha fome de viver. Queria ser feliz e aproveitar o que havia de melhor no mundo. Embora estivesse sofrendo com a ruptura do relacionamento, queria ao seu lado uma pessoa que compartilhasse consigo o estilo, o padrão e os hábitos que entendia como fundamentais para que a existência não restasse desperdiçada em rotinas de muito trabalho e pouco prazer. Como trabalhava muito, precisava se divertir e aproveitar a vida ainda mais. Admitiu que talvez a separação fosse o que de melhor pudesse ter acontecido. Aparentemente resignada, deu de ombros e afirmou não ter dúvida de que encontraria outro alguém que a fizesse feliz.

Sem nada comentar, tia Francisca a benzeu com devoção e fé. Alguns minutos depois, sem abdicar da doçura que lhe era costumeira, disse com firmeza: “A moça pode ir. O que me cabia fazer, foi feito”. Desconcertada, Nádia disse esperar acolhimento e bons conselhos naquela visita. A benzedeira retrucou: “Filha, você foi acolhida com carinho. No entanto, diagnosticou a própria dor e afirmou conhecer o remédio para a cura. Não me é lícito dizer que está errada. Afinal, a vida é sua, assim como as consequências da rota que, por ventura ou desventura, escolheu seguir”. Pegou uma caneca com café pousada no chão, bebeu um gole e acrescentou: “Os conselhos servem apenas para aqueles que estão dispostos a ponderar sobre as verdades que os guiam. Aos demais, me cabe respeitar o olhar e as decisões. As convicções da moça me parecem inabaláveis. O direito de decidir sobre a própria vida é inalienável”.

Aquelas palavras impactaram a Nádia sobremaneira. A moça se calou por alguns instantes, arrumou os pensamentos, pediu desculpas pelo jeito impulsivo e revelou ter interesse em conhecer o olhar da benzedeira sobre o momento que atravessava. Era um pedido humilde e sincero, afirmou. Tia Francisco arqueou os lábios em um doce sorriso e explicou: “A jornada de cura de alma costuma se iniciar quando o sofrimento se mostra insuportável ou, em casos mais raros, atentos aos desconfortos e incômodos, recorremos à profilaxia para que a enfermidade não se instale. Em qualquer dos casos, os movimentos internos precisam preceder os deslocamentos externos. Estes, para serem firmes e bem-direcionados, devem ser o exato reflexo da lucidez e do equilíbrio daqueles”.

Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “A humildade abre o coração para a transformação, um eficiente elixir de cura. Por sua vez, a sinceridade nos arranca da mesmice e cria a coragem indispensável à desconstrução de obsoletos hábitos que há tempos nos deixam estagnados em confortáveis ou imperceptíveis práticas viciosas. Não há vício mais danoso do que o olhar incapaz de vislumbrar cores, cenários e caminhos diferentes quando em um pomar de ideias infrutíferas”.

Nádia disse se sentir aprisionada em uma armadilha energética. Confessou precisar de ajuda. Tia Francisca franziu as sobrancelhas e pontuou entre a seriedade e meiguice: “As energias deletérias foram afastadas momentaneamente. Todavia, podem retornar a qualquer instante. A armadilha que a mantém cativa é de raiz existencial. Não atraímos e emanamos aquilo que desejamos, mas em sintonia com quem somos. Há de existir entendimento sobre os elementos que nos compõem. Cada pessoa se traduz em pensamentos, sentimentos, escolhas e atitudes. As energias que nos acompanham têm afinidade conosco. Boas ou ruins, vivemos as consequências dessa composição. Para alterar a frequência energética se faz necessário modificar o jeito de ser e viver. Assim, cada pessoa define o seu caminho e se torna responsável pelo próprio destino”.

Nádia comentou que o marido tinha sido covarde. Ele rompera um pacto. Desde que se conheceram, haviam combinado de que aproveitariam tudo aquilo que a vida oferecia de melhor. No início, tudo fora maravilhoso. Mas agora ele se mostrava mais preocupado com o dinheiro do que em ser feliz. O Mauro não parecia a mesma pessoa. Quando o conhecera, era homem repleto de sonhos e ideais. Havia mudado muito. Era verdade que tinham acumulado muitas dívidas, mas havia coisas mais importantes. Ele envelhecera cedo demais. Tia Francisca a ouviu com paciência e, ao final, ponderou: “Manter-se jovem não significa viver uma rotina de inconsequências, porém estar disposto a infinitas mudanças. Até em razão de as inconsequências cobrarem um preço, não raro, caro demais. A juventude não é cronológica, mas comportamental. Mantém-se jovem quem ousa renovar o olhar e as escolhas sempre que entender a necessidade de renascer através de sequentes desconstruções e consequentes reconstruções internas. É estar disposto a se tornar outro quando o jeito de ser e viver já não tem força para o levar além de onde está em si mesmo. A vida exige dinamismo. Não me refiro sobre vagar a esmo em um universo de propósitos rasos, falo de movimentos com sentido e direção, amplitude e profundidade. Envelhecer é se manter estático diante das ininterruptas metamorfoses existenciais propostas pela vida. Talvez o Mauro não tenha envelhecido, talvez haja amadurecido. Como você não entendeu, concluiu de maneira equivocada”.

Pousou a caneca no chão e prosseguiu: “Amadurecer é o único método seguro e eficaz de rejuvenescimento. Ensina a aceitar as consequências das próprias decisões, aprender com os reveses e se aperfeiçoar a cada experiência. Não permite desistir de buscar por diferentes sementes quando as árvores secam ou os frutos amargam. Contar essencialmente consigo como mecanismo de resgatar o poder da própria existência, se valer das ferramentas por ora disponíveis, sem jamais reclamar das condições existentes propostas pela vida. É o avesso do comodismo, do desânimo e do desatino. É enxergar a face bonita do aprendizado oferecida pelos momentos ruins. Ninguém amadurece mantendo os mesmos hábitos, escolhas e rotinas. Quando algo se transforma dentro da gente, termina por refletir no nosso modo de ser e viver. São experiências fantásticas de regeneração e rejuvenescimento. Todo amadurecimento se traduz em evolução. Toda evolução se perfaz em infinitos inícios sem jamais conhecer o fim. A incompreensão dessa jornada denota imaturidade. A repetição de obsoletos padrões revela o verdadeiro rosto do envelhecimento”.

Inconformada, Nádia alegou ser uma mulher que primava pela elegância, ao contrário do Mauro que com o passar do tempo ficara com cabeça de pobre. Ele parecia ter desistido do lado bom da vida. Tia Francisca franziu as sobrancelhas e retrucou: “A verdadeira elegância nada tem a ver com dinheiro, luxo e sofisticação”. A moça disse não ter entendido. A benzedeira explicou: “Talvez o Mauro tenha descoberto o valor existente na simplicidade, uma virtude cujo poder é evidenciar a riqueza apenas encontrada na essência de todas as pessoas, coisas e situações. O requinte que tanto seduz as multidões, em verdade, tem equivalência aos cascalhos que ocultam o diamante no subsolo da existência. O supérfluo funciona como cortinas e adornos que impedem a passagem da luz. Tirando-se o mais, restará a riqueza contida no menos. Não se trata do que usamos, mas para onde caminhamos. Assim, embora não seja regra nem algo tão luxuoso, uma tarde em Madureira pode ser mais significativa, chique e agradável do que em Montmartre. O significado, a elegância e a alegria estão nos detalhes invisíveis aos olhares imaturos, apressados e desatentos. O teor dos movimentos internos e a maneira de se deslocar pelos dias traz mais sentido, beleza, elegância e riqueza do que a opulência das roupas ou do lugar. A autêntica elegância não está no brilho da sofisticação, ela reside na luz da simplicidade. A elegância não dialoga com preços, ela se revela através de atitudes com valor. Ninguém consegue comprar aquilo que somente se alcança com consciência e comportamento”.

Nádia lembrou que o Mauro rompera com o pacto do casal. Sentia-se traída. Havia um modelo de felicidade traçado e acertado. Aos poucos, ele ficou irreconhecível. Tinham perdido a sintonia, afirmou. Tia Francisca anuiu: “Sem dúvida, a afinidade não é mais a mesma. A culpa não é dele. A cada compra ou viagem, outra se fazia necessária na vã tentativa de repor a indefinição que faltava. Um vazio impossível de preencher com objetos e passeios. Tudo era nada, nada bastava. Uma fome insaciável. Enquanto você se mostrava renitente, o Mauro entendia que esse estilo de vida não o levaria a lugar nenhum. Quando a compreensão se modifica, gostos e sabores se alteram. Faz-se necessário ajustar o pacto. Havia uma transformação à espera. Ele compreendeu, você não”.

A benzedeira olhou com carinho para a moça e disse: “Ao entender a inutilidade do estilo adotado, ele percebeu aonde aquele hábito os levaria. Contudo, você quis insistir”. Esperou alguns instantes para a Nádia concatenar o raciocínio e continuou: “Inúmeras vezes, o Mauro tentou explicar o que já enxergava, mas você não conseguiu ou se negou a ver. Ele mostrou haver um abismo onde você acreditava existir um paraíso. O Mauro não desistiu da felicidade, apenas entendeu que daquela maneira jamais a encontraria. Ele nunca a traiu, apenas recusou o precipício. Preferiu partir para não despencar no vazio da existência”. Nádia ressaltou que o marido não precisava ter ido embora. Tia Francisca a corrigiu: “Ele não foi embora, apenas seguiu em frente. É você que teima em não sair do lugar. A evolução é o ritmo da vida”.

A moça fez que sim com a cabeça e se calou. Uma lágrima rebelde escapou do coração. O sofrimento ainda se fazia presente, mas uma luz até então desconhecida tinha acendido em seus olhos. A mudança de olhar modifica a realidade. Naquele momento, Nádia conseguira compreender o motivo de estar envolvida em tanto sofrimento. A lucidez traz equilíbrio, concede direção e firmeza aos movimentos. Não é a verdade que dói, mas o quanto estamos afastados dela. A verdade incomoda por mostrar os enganos e as mentiras que adoramos acreditar. Como se não bastasse, ainda convida ao enorme esforço para uma indispensável reconstrução. Nem todos estão prontos para a verdade. Por isto, a evitam. No entanto, somente a verdade ilumina e transforma, cura os sofrimentos e liberta dos cárceres comportamentais. Quando se inocula a causa, o efeito cessa. Para a alma, não existe outro remédio. Desse modo, e somente assim, novos caminhos se apresentam, diferentes rotas são forjadas, os viajantes rejuvenescem e os destinos amadurecem.

Envolvida em uma leveza que havia tempos não sentia, Nádia brincou ao dizer que tinha ido a Madureira em busca de uma reza para afastar as energias densas, no entanto, recebera uma aula sobre elegância. Não aquela das páginas de moda, mas a que se oculta nos meandros e na essência da vida. A verdadeira elegância está envolvida em simplicidade, virtudes e verdades. Veste-se de humildade, respeito e coragem sem qualquer necessidade de roupas caras, viagens dispendiosas, cabeleireiros famosos ou passarelas de neon. Valor é elegância, maturidade e discrição; preço é insegurança, vaidade e exibição. Valor é riqueza; preço é dinheiro. Elegância é o reflexo de um poder real sobre si mesmo; ostentação é a manifestação da ilusão de um poder inexistente sobre os outros. Discreta, sensata e suave, a elegância traz consigo a semente da inquietude como transformação, jamais como desatino, aspereza ou desorientação. A elegância é avessa à superficialidade, à soberba e ao alarde.

Com carinho, Nádia agradeceu a conversa angular daquela tarde, beijou o rosto da tia Francisca e quis pagar pela consulta. A benzedeira tornou a arquear os lábios em lindo sorriso e pediu: “Vá ao altar e agradeça ao Nosso Senhor Jesus Cristo. A ele, toda honra e glória. A mim, nada é devido”.

Dentro do carro, no caminho de volta, com um sorriso enigmático, Nádia se manteve calada por quase todo o percurso. Daquela conversa, muitas ideias aguardavam ser metabolizadas em ferramentas do bem-viver. Ela também tinha importantes decisões à sua espera. Já em São Cristóvão, perto da sede da editora, quebrou o silêncio para comentar que, embora conhecesse Paris, Londres e Milão, nunca conhecera uma mulher mais elegante do que a tia Francisca, a benzedeira de Madureira. Nem tão rica. Sorri satisfeito. Era verdade. Nádia havia entendido bem mais do que eu imaginara.

Yoskhaz

1 comment

Alex setembro 12, 2026 at 3:06 am

Gracias maestro

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