Eu estava com saudade de Sedona, a pequena cidade localizada nas montanhas do Arizona, onde morava Canção Estrelada, o xamã que possuía o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através das letras das músicas que cantava ou das histórias que narrava com rara mestria. Eu trazia comigo um desconforto interno, como se fosse uma espécie de agonia branda, sem qualquer explicação aparente. O trecho da estrada a partir de Flagstaff, riscando a floresta de pinheiros e carvalhos à beira de penhascos de beleza sem igual, sempre me trouxe uma sensação agradável, como se o coração antecipasse que algo de bom estava preste a acontecer. Contudo, o que é genuinamente bom quase nunca chega sem esforço ou a necessidade de enfrentar um desafio íntimo. Desta vez, não foi diferente.
Fui recebido com a alegria serena e o abraço forte típicos do Canção Estrelada. Após deixar a mochila e a mala no quarto de hóspedes, nos sentamos na varanda refrescada pela brisa suave das tardes de outono. Conversávamos amenidades, quando fomos surpreendidos por Kenai, um jovem com cerca de 20 anos de idade, cujos pais eram amigos do xamã desde sempre. O rapaz precisava conversar. Ele estava muito chateado. Kenai trabalhava em um dos luxuosos resorts da região para ajudar no sustento da família. Além das despesas básicas da casa, ele contribuía para que os pais conseguissem pagar a universidade da sua irmã, alguns poucos anos mais velha do que ele. Depois de formada, seria a vez de ela retribuir para que Kenai cursasse uma faculdade, caso assim ele quisesse. Embora pertencesse a uma família com parcos recursos financeiros, os bons sentimentos, valores e princípios nobres serviam como amálgama a manter esse pequeno núcleo unido como em um só coração. Uma riqueza inestimável. Apesar de morar numa casa na qual a dificuldade para suprir o básico das necessidades materiais fosse comum ao cotidiano, Kenai residia em um lar onde o amor transbordava e a dignidade estava misturada ao ar que respirava. Era um jovem gentil, tranquilo e alegre.
Kenai contou que Peter, gerente e filho do proprietário do resort, de um momento para outro, sem motivo aparente, passou a o tratar com rudeza. Eles tinham quase a mesma idade. No início, o patrão atribuiu ao funcionário as funções mais desagradáveis, como o trato com o lixo e a limpeza dos banheiros das áreas comuns. Onde antes havia um rodízio para não sobrecarregar ninguém, passou à responsabilidade exclusiva de Kenai que, embora notasse a mudança inexplicável na distribuição das tarefas, as executava sem qualquer reclamação. Interrompi a narrativa para argumentar que em algumas empresas, práticas semelhantes são adotadas para avaliar o nível de comprometimento do funcionário. Casos em que são testados somente aqueles que apresentam maior potencial de crescimento profissional. O jovem explicou que por algum tempo até considerou essa hipótese. Ocorre que as atitudes do gerente escalavam tons de aspereza. As críticas eram desmedidas e insensatas. Algumas beiravam à grosseria. Nas reuniões sempre fazia algum comentário sarcástico ou debochado tendo, invariavelmente, Kenai como alvo – o sarcasmo é uma forma disfarçada de agressividade na qual o humor serve para disfarçar a intenção de ferir; o deboche demonstra menosprezo, a vontade vil de humilhar através do escárnio. Embora tivesse aprendido que o destino final do mal reside no remetente, e jamais no destinatário, se sentia desconfortável pelo modo recorrente como estava sendo tratado. Kenai salientou que cada um está onde se coloca ou permite que os outros o coloquem. Se não está agradável, sem demora, se faz necessário ir embora, caso não seja possível modificar os moldes do relacionamento. Relações sem limites se tornam necessariamente abusivas e nocivas. Limites são ferramentas indispensáveis ao respeito. Ao autorrespeito. Um gesto fundamental à dignidade e, portanto, indispensável ao amor-próprio. Canção Estrelada balançou a cabeça em aprovação ao raciocínio.
O jovem confessou não compreender o comportamento do Peter. Já havia tentado conversar com ele, sem obter sucesso. Foi tratado com irritação e desdém. Por mais que se aplicasse na execução das tarefas, o serviço realizado nunca estava bom o suficiente aos olhos do herdeiro do hotel. Não entendia o motivo de ainda não ter sido demitido. De outra face, nos últimos dias vinha avaliando a possibilidade de pedir demissão. Uma decisão delicada uma vez que poderia prejudicar os estudos da irmã que tanto amava, caso demorasse a conseguir outro emprego. Tinha ido em busca dos conselhos de Canção Estrelada.
Enquanto ouvia com atenção as aflições e as incertezas de Kenai, o xamã preencheu com fumo o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha. Ao final da narrativa, o acendeu, baforou algumas vezes para que o tabaco incendiasse, olhou com profundo respeito para o jovem e ponderou: “A dúvida é um nevoeiro; toda decisão define um caminho. Ninguém escolhe uma boa rota antes de enxergar com clareza as razões dos próprios movimentos, assim como, aonde pretende chegar”. Observou por instantes a fumaça bailar diante dos seus olhos e prosseguiu: “Acalme o coração para que consiga ver o que precisa enxergar. A pressa, a irritação e a ansiedade fecham a janela da lucidez. A consciência se retrai. A emoções aviltadas ofuscam as melhores soluções. Se o viajante está perdido na encruzilhada é porque a estrada ainda não se apresentou para ele. Nem tudo no caminho é apenas caminhar. Em toda viagem há o tempo de aquietar, observar e entender. É quando o caminho se apresenta ao viajante. Então, estará pronto para prosseguir”.
A primeira estrela surgia ao longe se destacando no manto escuro da noite. Kenai olhou preocupado para o relógio. Toda sexta-feira, à frente de uma banda country, ele cantava em um galpão que, nos fins de semana, entre as enormes obras de arte inacabadas de uma artista plástica, se transformava num delicioso bar e em palco improvisado. Um agradável lugar para manifestações de talentos e encontros. Ele queria continuar aquela conversa, ainda longe de terminar. Porém, tinha um compromisso. Canção Estrelada perguntou se poderíamos assistir ao show. O jovem nos disse sim com um lindo e alegre sorriso de satisfação e alegria. Ao passar pelo portão da casa, montou em sua motocicleta – apelidada de Frankestein pelos moradores da cidade, por ter sido construída com peças velhas de diferentes marcas, dispensadas ao lixo, e renascidas pelas mãos de Kenai – e partiu.
Comentei que o jovem, embora não tivesse uma beleza considerada padrão, possuía um incrível magnetismo e inegável carisma. Pela sua postura e ideias, não era difícil reconhecer o seu talento para lidar com as dificuldades, sempre de maneira doce e serena. Pareceu-me capaz de se valer de enormes doses de criatividade e ousadia para encontrar impensáveis soluções. A motocicleta era um ótimo exemplo prático. Os traços ancestrais da etnia navajo, juntamente com seu jeito próprio de se vestir, falar e agir, conferiam-lhe um charme sem igual. No mais, tinha à disposição algo precioso: um bom coração a lhe guiar os passos. O xamã assentiu com a cabeça.
Confessei que muitas vezes presenciara cenas de perseguição semelhante, em situações diversas, sem nunca entender o motivo daquele tipo de comportamento. Perguntei se Canção Estrelada sabia a razão de o milionário Peter perseguir o humilde Kenai. O xamã tornou a dizer sim com a cabeça sem acrescentar palavra.
Demoramos a chegar ao local do show. Ficamos um bom tempo conversando sobre outros assuntos. Um pouco antes de sairmos, comentei que um dos meus ex-sócios na época que dirigíamos uma agência de publicidade, depois do rompimento da sociedade, havia alavancado a empresa ao ponto de se tornar uma das maiores da América Latina. Acumulara vários prêmios internacionais e amealhara uma grande fortuna. Canção Estrelada me olhou com profundidade e preparou o arco: “Por que essa informação é importante para a nossa conversa?”. Desconversei, dizendo se tratar de mera curiosidade. Então, o bom guerreiro disparou a flecha: “Tive a sensação de ouvir um tom de amargura e lamento na sua voz”. Um tanto desconfortável, garanti que ele estava equivocado. Nada mais foi dito. Nem precisava. A flecha restara cravada na minha consciência.
Quando chegamos ao galpão, a rua estava lotada de carros estacionados. Deixamos a surrada picape do xamã em uma vaga distante. Como ensinava um sábio alquimista de almas, o acaso não existe. Próximo dali, vimos estacionar uma linda Mercedes conversível. Um rapaz muito bonito, alto, com o corpo bem delineado, vestido com requinte, desceu do carro acompanhado de duas mulheres que pareciam ter saído de um catálogo de modelos fotográficos. Como quem carrega troféus em forma de pessoas, ele seguiu acompanhado por uma beldade de cada lado. De outro carro, saíram dois homens corpulentos que os seguiam a uma distância segura, capaz de intervir em caso de necessidade. Eram seguranças. Como se aquela cena fosse importante para a compreensão correta do enredo, o xamã disse que aquele belo rapaz era o Peter, filho do proprietário do resort, com quem Kenai enfrentava problemas recorrentes.
O lugar era fantástico. Minimalista e elegante a um só tempo. Ao entrarmos, uma linda moça cantava uma agradável canção que exigia um timbre raro de voz. Ela a executava com incrível perfeição. Muito aplaudida, ao descer do palco foi abraçada por Kenai, com quem trocou um beijo apaixonado. Em seguida, foi a vez do jovem navajo comandar o palco, acompanhado por uma banda cujos integrantes eram seus amigos de infância. Cantou meia dúzia de canções alegres, fazendo com que as pessoas dançassem com alegria. Ao final, foi aplaudido com entusiasmo pelo público. Elogiei a qualidade das músicas. Canção Estrelada revelou que eram da autoria do rapaz.
Notei que tanto a mesa de Peter como a de Kenai estavam repletas de pessoas. No entanto, tive a nítida sensação de que estavam ali reunidas por motivos diferentes. Semblantes e comportamentos serviam como indicativos. Enquanto ao redor de Kenai havia brincadeiras, amizade e confraternização, no entorno de Peter imperava a formalidade, os negócios e uma inegável dose de tensão. Uma mesa era movida por virtudes e admiração mútua; na outra, existiam interesses e uma encenada descontração. Notei também que Peter, embora tentasse disfarçar, observava Kenai com estranha atenção, como se envolvido por uma espécie de fascínio.
Ao saber o que eu havia percebido, o xamã me fez uma indagação sutil, suscinta e certeira: “Entendeu?”. Admiti que não. Nada naquele contexto me parecia lógico para explicar a perseguição implacável sobre Kenai. Embora os dois jovens frequentassem um mesmo bar, habitavam universos distintos. Cada um com os seus gostos e sabores, suas delícias e dificuldades. Nada havia de errado nisso, argumentei. Canção Estrelada me olhou com firmeza e revelou o motivo do comportamento do Peter com uma única palavra: “Inveja”.
Discordei com veemência. Ainda que Kenai fosse um rapaz extremamente virtuoso, era pobre e tinha uma vida muito simples, sem qualquer regalia material. De outro lado, Peter nascera em uma família milionária, tendo acesso aos bens de consumo mais sofisticados que se podia imaginar. Bastava querer para ter. Kenai era um funcionário de baixo escalão do Peter. Não fazia o menor sentido de a inveja ser a motivadora daquela perseguição. Haveria de existir outra razão. Canção Estrelada maneou a cabeça em desaprovação e explicou: “Incomodar-se com o que o outro tem é o tipo mais conhecido de inveja. No entanto, há outra inveja mais profunda, e por isto quase nunca percebida: a amargura por não ser quem o outro é. E isto nada diz sobre dinheiro, fama ou poder social. Fala sobre virtudes e talentos; dignidade no trato pessoal e paz no coração. Dialoga com a enorme capacidade de perdoar, amar, ter amigos, ser feliz e seguir adiante. Evidenciam aqueles que já entendem e vivem a genuína liberdade. Para conseguir ser muito não se faz indispensável ter muito. Faz-se necessário entender sobre as prioridades da vida. E as viver de verdade. Exige lucidez, equilíbrio emocional e força de movimento. Raros estão prontos. Uma riqueza desejada por muitos, um tesouro que o dinheiro não consegue comprar”.
Como uma pessoa que podia ter quase tudo sentia inveja de quem não tinha quase nada? Era difícil de entender. Não era assim que eu havia aprendido sobre a inveja. Canção Estrelada se levantou e pediu que eu o acompanhasse. Passamos pelo balcão e entramos na cozinha. Um senhorinha de cabelos brancos, cortados rentes à nuca, o recebeu com alegria. Era a Doris, uma amiga de longa data, ajudante de limpeza do estabelecimento. Imediatamente, ela avisou à equipe que faria um intervalo de alguns minutos. Retirou o avental, pegou três cervejas no freezer, entregou uma para cada um, e a seguimos para o lado de fora do galpão. A pedido do xamã, em poucos minutos de conversa, ela me contou que havia trabalhado por muito tempo na mansão dos pais de Peter, quando ele ainda era criança. O pai, como sócio de um dos cassinos de Las Vegas, quase não aparecia em casa. A mãe estava sempre ausente, deslumbrada pelas frivolidades do luxo. O garoto cresceu desorientado pelo poder de compra do dinheiro. Coisas caras e caprichos nunca negados serviam para compensar a falta de acolhimento emocional naquela família. Uma rotina de sentimentos rasos o fez atropelar princípios e pessoas. Virtudes importantes como humildade, simplicidade, delicadeza, compaixão, abnegação, moderação, entre outras, por não terem sido ensinadas, para ele não passavam de teorias hilárias pregadas por filósofos fracassados e religiosos obtusos. Peter nunca construíra nada. Sem nenhum esforço, sempre comprara ou ganhara tudo o que quis.
Em seguida, Canção Estrelada concluiu: “Sem se dar conta, isso gerou um vazio interior sem aparente explicação, além de uma triste inversão de valores a guiar condutas e escolhas. Ainda que sem compreender a exata dimensão da própria percepção, ele identifica algo em Kenai que é mais precioso do que tudo que tem. Sente, mas não entende a origem do sentimento. Peter é uma construção com caros adornos, belos contornos e nenhum alicerce. Por isto, sob o prisma emocional e existencial, é de extrema fragilidade e desequilíbrio diante das contrariedades da vida. Kenai é simples, mas possui pilares sólidos. Isto lhe concede tenacidade e consistência para lidar com as inerentes dificuldades do dia a dia. Pilares se erguem conforme as virtudes agregadas à personalidade. São as belezas da alma. Isso não está à venda. Faz-se necessário conquistar. Peter quer esse tesouro, mas não o pode ganhar ou comprar. O jovem milionário não aprendeu o significado do verbo conquistar. Então, por instinto e impulso, decide destruir o que não sabe como possuir. A perseguição é inconsciente, movida por um sentimento que ele desconhece e, por isto, é incapaz de dominar. A inveja o dirige, do mesmo modo como as correntezas e as marés fazem com as naus sem leme nem bússola”.
Nesse instante, fomos surpreendidos com a chegada de Kenai. Tinha sentido a nossa falta e, preocupado, nos procurou para saber se estava tudo bem conosco. Porém, não era somente isso. Contou sobre um princípio de confusão ocorrido no bar, alguns minutos atrás. O pai de Peter chegara em busca do filho. Tiveram uma conversa ríspida. Pessoas que estavam próximas, ouviram que eles tinham discutido por causa de uma enorme dívida de jogo que o jovem milionário acumulara nos cassinos de Las Vegas. O pai estava sendo pressionado pelos sócios a quitar o débito que até então ignorara. Estava irritadíssimo pela contradição de, como banqueiro de jogos de azar, ver o filho agindo igual aos jogadores irrefreáveis que tanto desprezava, a quem chamava de perdedores.
Sem precisar falar, o xamã teve uma troca significativa de olhares com Kenai, como quem pergunta se ele havia entendido. O jovem disse sim com a cabeça. Peter tentava com movimentos erráticos e impulsivos preencher o vazio existencial que sentia, mas era incapaz de compreender por desconhecer a origem dos sentimentos que o dirigiam. Apesar de ter quase todas as coisas que o dinheiro podia comprar, faltava algo em si que o desorientava, desequilibrava e fragilizava. Sentia, mas não compreendia. Tornou a olhar para Canção Estrelada e perguntou se a questão era porque Peter enxergava existir nele, Kenai, os pilares existenciais que lhe faltavam. Uma percepção sem entendimento nos faz agir através de impulsos e instintos. São movimentos dirigidos pelo medo, que nos levam na contramão da luz. O silêncio do xamã confirmou o raciocínio do rapaz. Kenai havia compreendido o sentimento que movia o comportamento persecutório de Peter.
Kenai se mostrou compassivo, afirmando que Peter era vítima do desconhecimento que possuía sobre si mesmo. Canção Estrelada anuiu: “Sem dúvida. Essa compreensão é de enorme serventia para que você não alimente nenhum ressentimento em relação a ele. Pelo aprisionamento que provoca, quando alimentamos mágoas, permanecemos como coadjuvantes da existência alheia. Pela libertação que oferece, o perdão nos traz de volta ao protagonismo da vida”. Fez uma pausa e ressaltou: “Contudo, se faz necessário se defender do mal. O comportamento dele vem escalando patamares de desequilíbrio e agressividade. Ele não o demite porque se alimenta do achincalhe e do menosprezo, sensações vazias de falsa superioridade. Ele ainda está distante de entender o mal que o acomete. Nesse momento é recomendado que se afaste do Peter e, portanto, do seu atual emprego”.
Kenai admitiu que vinha considerando essa decisão havia alguns dias. As palavras do xamã corroboravam o que a intuição lhe soprava à mente. Tinha vontade de montar uma banda com a sua namorada e alguns amigos. O sucesso que faziam em Sedona podia reverberar pelo mundo. No entanto, era uma jornada difícil que, na maioria das vezes, mesmo dando certo, costuma ter um amadurecimento demorado. Por ora, precisava de algo imediato para se manter e ajudar a família até que a música indicasse se viria a se tornar uma carreira ou seria apenas, mas não menos importante, parte da arte essencial à sua vida. Paralelamente, montaria uma oficina de motocicletas na garagem da sua casa. Tinha uma boa experiência no assunto. Aproveitaria para, entre um conserto e outro, construir outras Frankensteins para vender. Confessou que a simples ideia de mudança já fazia o seu coração transbordar de alegria e entusiasmo. Depois de algum tempo de quietude e reflexão na encruzilhada da existência, o caminho se apresentava a Kenai. Não o destino, mas a direção a seguir. Assim, era possível ajustar a rota e o rumo da sua história pessoal. Um movimento sempre necessário. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso de aprovação. O rapaz agradeceu a conversa e retornou ao galpão. Queria compartilhar a decisão sobre a oficina e convidar a namorada e os amigos para a aventura que se anunciava.
Resiliência é a virtude de, apesar das rigorosas circunstâncias e pressões que, por vezes, a vida nos impõe, não permite que sejamos deformados por elas. Ao contrário, graças às dificuldades, nos reinventamos, reconstruímos e aperfeiçoamos. Então, alcançamos lugares inimagináveis, dentro e fora da gente. Referindo-me ao Kenai, no trajeto de volta à casa, comentei que o jovem havia entendido a lição proposta pela vida. Assim, conseguiria ir além de si mesmo. Sem desviar a atenção da estrada, Canção Estrelada retornou a pergunta: “E você, entendeu?”. Respondi que havia aprendido muito sobre as armadilhas falaciosas dos sentimentos densos, como a inveja. Seria mais fácil de a identificar quando acontecesse comigo e, assim, a dominar, antes que ela dominasse o meu coração e as minhas escolhas. O xamã estacionou a picape no acostamento, olhou para mim com seriedade e redarguiu: “Entendeu mesmo?”. Passados os instantes iniciais de estranhamento, a minha consciência me trouxe à mente o comentário que eu fizera mais cedo sobre o sucesso do ex-sócio que permanecera como dono da agência de publicidade após a ruptura da sociedade. Comentei que, de fato, o comportamento mesquinho e egoísta que ele tivera, motivo da dissolução empresarial, fazia com que eu não nutrisse um bom sentimento em relação a ele. Confessei que o sucesso dele me incomodava. Porém, não se tratava de inveja. O sentimento existia por eu ter sido traído e prejudicado na ocasião.
Canção Estrelada esclareceu: “Naquele momento, você fez uma escolha. Certa ou errada, assuma a responsabilidade pela sua decisão e siga em frente. Jamais fique atrelado ao arrependimento por uma escolha equivocada ou pelo comportamento de outras pessoas. As experiências são escolas ou prisões, a depender de como lidamos com elas. Os sentimentos também”. Franziu as sobrancelhas como quem diz que não falaria mais sobre isso e ponderou: “O que nos falta não é o que ficou para trás, mas o que ainda não realizamos. Compreender essa verdade faz germinar a raiz da maturidade”.
Fez uma pausa antes de continuar: “Sem esse entendimento, nenhum indivíduo conseguirá sair da encruzilhada na qual se encontra. Se afogará em sentimentos que, por serem considerados de baixo padrão, negará suas presenças e influências. A inveja é um dos sentimentos mais difíceis de se admitir por ser tratada como uma marca de inferioridade pessoal. Entretanto, todos os sentimentos nos percorrem as entranhas. Os melhores e os piores. Sem exceção. Ocorre que, com a negação, a inveja transita do coração à mente pelos becos escuros e escondidos das incompreensões como se fosse uma sombra na noite escura da consciência. Ninguém se defende do que acredita não existir. Sentimentos ignorados adquirem poder para deformar raciocínios e comportamentos. Sem a humildade indispensável para admitir a sua presença e influência, será impossível de a transmutar por outro melhor. Não menos grave, o indivíduo se manterá cativo na vida de outra pessoa, a quem se aprisionou por conexão corrosiva. Isso o faz ficar à margem da própria vida. Um típico comportamento estacionário e de autodestruição, causa de muitas dores, mais comum do que muitos acreditam”.
Comentei que o tempo me ajudaria a processar o meu sentimento. Somente assim eu estaria apto a reprocessar aquela situação para obter uma compreensão diferente e melhor daquela situação. O xamã me corrigiu: “O tempo não muda nem conserta nada. Pode até distanciar a dor, mas não a extingue. Os sentimentos não se modificam como se fossem estações do ano. Não raro, muitas pessoas atravessam toda uma existência sem conseguir desfazer os males que provocam a si mesmas. Mostram-se incapazes de dissolver os dissabores de experiências mal elaboradas, se acostumando aos sofrimentos como se não houvesse cura ou ficam à espera por um dia mágico que nunca acontecerá”.
Fez uma breve pausa antes de continuar: “Como ensinavam os povos ancestrais, onde há vontade, existe um caminho. Tudo mais são desculpas e fugas. Não existe a substituição de um sentimento por outro sem que antes ocorra uma eficaz movimentação interior. O que dissolve um sentimento denso é a decisão firme e consciente de não mais o ter em si. A vontade é a força primordial que o arranca do atoleiro dos dias parados e dolorosos. É o que o faz buscar uma melhor compreensão sobre os acontecimentos desagradáveis, a olhar por um viés até então inusitado e impensado, porém, revelador e redentor. Então, a partir de um melhor entendimento – e somente assim –, o sentimento se transmuta em outro, desmanchando amarguras e oferecendo lucidez. O coração encontra uma nova direção para seguir com equilíbrio, firmeza e alegria serena. Do contrário, ainda que recite refinadas teorias para justificar raciocínios tortos e comportamentos erráticos, permanecerá como um viajante perdido diante das encruzilhadas dos sentimentos incompreendidos”. Em seguida, finalizou a conversa com a desconfortável pergunta: “Entendeu?”.
Eu disse sim com a cabeça. Todavia, enxergar uma porta não significa já estar pronto para a atravessar. Como antecipado no início deste texto, o que é genuinamente bom quase nunca chega sem esforço ou a necessidade de enfrentar um desafio íntimo. Ninguém volta de Sedona do mesmo jeito que chegou. Desta vez, não foi diferente.
