MANUSCRITOS VIII

O ignorante

Era o fim de tarde de uma quarta-feira qualquer no Rio de Janeiro. Eu estava extenuado depois de um dificílimo dia de trabalho. Problemas de todos os tipos se avolumavam, exigindo soluções nervosas e urgentes. Tive a desagradável sensação de estar aprisionado em um círculo vicioso. Em síntese, os movimentos que tinham me ajudado a chegar até aquele momento existencial, o jeito de ser e viver que havia me tornado quem eu era, não mais me serviam. O meu estilo de vida se tornara obsoleto. Não me refiro a roupas, profissão ou entretenimento. O modo como eu me compreendia não cabia mais em mim. Para crescer, eu teria de romper a casca dos padrões de comportamento que me deixavam estacionados, dentro e fora de mim. Quem eu era tinha me levado até ali, mas para prosseguir seria necessária uma reconstrução. Ou uma reinvenção. Vivemos mundo afora a realidade construída universo adentro. Nem mais nem menos. Isto define o nosso rol de possibilidades, assim como nossas alegrias e tristezas. A realidade se expande ou se contrai no limite da percepção e da sensibilidade alcançadas. O que é impossível para alguns, é uma realidade para outros. Não falo de condições financeiras, mas dos movimentos possíveis à extensão da verdade compreendida e das virtudes agregadas à bagagem pessoal. Isto estabelece as fronteiras do viver. Os problemas que tenho sinalizam as transformações que me aguardam.

Conhecer o teorema não garante a solução. É preciso elaborar a equação. Ninguém é o que sabe, mas o que faz. Quando a vida está ruim é preciso mudar. Mudanças internas viram o comportamento pelo avesso. Tornamo-nos uma outra pessoa. Ocorre que eu não sabia o que estava errado nem o que mudar. Decidi ir para casa. Era preciso pensar. Encerrei o expediente e chamei um táxi. No rádio do carro tocava Norah Jones. A música me transportou para as mesas de uma agradável cafeteria na Gávea, escondida em uma rua transversal, tranquila e arborizada. Pedi ao motorista que mudasse a rota. Sem nenhuma placa ou letreiro na porta, a antiga casa, erguida em meados dos anos 1950, parecia encantada – no sentido mais transcendental da palavra. Repartida em diversos ambientes, era possível ouvir jazz, blues ou bossa-nova sem precisar aumentar o volume da voz nas conversas embaladas por espressos, frappuccinos e mochas quentes ou gelados. Havia um jardim central sombreado por uma secular e frondosa mangueira, onde confortáveis sofás e poltronas tornavam o ambiente perfeito para passar as tardes na companhia de livros entremeados a capuccinos.

Bárbara, a barista, e dona do estabelecimento, preparava o melhor café da cidade. Formada em Psicologia, e amante da Psicanálise, abdicara da clínica havia algum tempo. Entretanto, jamais abandonou os mistérios da psique. Para tanto, duas vezes por semana, sempre no final da tarde, subia num pequeno púlpito montado em dos cantos do salão principal para falar de algum assunto relacionado aos prazeres e as dores da alma. Mesmo sem nenhuma divulgação, a casa transbordava de gente. Com os braços estampados por um sem-número de tatuagens sobre a pela clara, variava as cores do cabelo conforme o seu estado de espírito, transitando do ruivo ao lilás, das asas negras da graúna ao dourado dos raios de sol. Por vezes, Bárbara pedia licença para se sentar à mesa com alguém. Isto acontecia quando a sua aguçada sensibilidade indicava um viajante desorientado diante de uma encruzilhada à espera de uma orientação. Então, oferecia um olhar traduzido em palavras concisas e precisas, capazes de mostrar passagens por entre as muralhas dos acontecimentos incompreendidos. De nada adiantava solicitar uma consulta. Era a guia quem escolhia o viajante. “Aqui não é um consultório, é uma cafeteria”, insistia em repetir. Contudo, era bem mais do que isto.

Naquele dia, o cabelo de Bárbara estava azul. Eu não sabia o que aquela cor significava, tampouco perguntei. A cumprimentei com um sorriso. Ela me observou por breve e expressivo instante. Em seguida, sugeriu que eu me acomodasse junto ao balcão. Falei que gostaria de ficar no jardim. Eu queria ficar sozinho, beber um café e pensar. Eu precisava de quietude para me encontrar comigo mesmo. A barista pontuou: “Sem dúvida, você precisa desse momento. Todos precisamos. No entanto, desconfio que talvez fosse interessante que hoje, quando for ao jardim, leve consigo algumas ideias diferentes, capazes de conduzir os seus pensamentos a locais onde eles nunca estiveram”.

Aceitei a oferta. Ela me trouxe o espresso duplo de sempre e perguntou: “O que o atormenta? Nunca o vi assim”. Expliquei que estava enredado num emaranhado de problemas intermináveis. Tinha a sensação de que nunca terminariam. Falei que me considerava um Sísifo contemporâneo. Fiz alusão ao personagem mitológico condenado a carregar uma pesada pedra até o alto de uma montanha. Ocorre que, dia após dia, ao se aproximar do topo, a pedra lhe escapava dos braços e rolava montanha abaixo, o obrigando a recomeçar infinitamente a exaustiva tarefa. Bárbara sorriu e indagou: “Como você compreende esse mito?”. Fugi da resposta dizendo que havia mil interpretações, todas válidas. A barista disse sim com a cabeça e esclareceu: “Sísifo foi castigado por enganar a morte, cujo nome é Tânatos no texto grego. Das muitas interpretações possíveis, gosto daquela de que trata a morte, não como o falecimento do corpo, mas como simbolismo ao encerramento dos ciclos evolutivos. Podemos nascer e morrer muitas vezes em uma única existência – e isto é ótimo –, desde que entendamos o fim de um ciclo e estejamos dispostos a iniciar uma nova e desconhecida jornada existencial. Não é fácil abdicar de traços da personalidade que, apesar dos prejuízos causados por cercearem importantes movimentos intrínsecos, não raro, são motivos de orgulho e prazer. Ou aceitar as imperfeições dos raciocínios tortuosos, erguidos para servir ao conforto rasteiro de uma consciência que se recusa a ir mais longe. Em alguns casos, uma reforma basta. Noutros, será necessário demolir o prédio para construir outro, com novos e diferentes fundamentos”.

Deu um sorriso maroto e explicou: “É mais fácil ludibriar Tânatos e negar a necessidade da renovação contínua dos ciclos evolutivos. Então, a vida se repete indefinidamente sem nada acrescentar. Não há castigo maior do que viver uma vida vazia em conteúdo e utilidade. Ainda que por um breve período, será um desperdício. Sísifo nunca consegue levar a pedra – o peso morto de si mesmo – até o alto da montanha por se recusar a se libertar de quem não mais lhe serve em si mesmo. A reconciliação com Tânatos equivale à aceitação do desafio existencial para iniciar uma nova jornada de aprendizados e transformações”. Deu de ombros e concluiu: “O problema não são os problemas. Estes são apenas os mensageiros das mudanças necessárias. Não culpe o mensageiro por não gostar, ou não compreender, o significado da mensagem”.

Perguntei se ela queria me dizer que os problemas que eu vivia tinham causa no meu padrão de comportamento e, por isto, eram da minha responsabilidade. Bárbara tornou a dizer sim com a cabeça e acrescentou: “Se os problemas são seus, a responsabilidade também será”. Argumentei que eu tinha problemas de diferentes tipos. E eram muitos. Seja com livreiros, gráficos, autores, ilustradores, diagramadores ou funcionários. A barista ponderou: “São questões que você rotula como comerciais ou empresariais, mas que, em essência, são dificuldades de relacionamento”. Ela fez uma pausa antes de me desconcertar: “Dificuldades suas, não deles. Por isto vive com tantos problemas com tanta gente”.

Com a irritação controlada, expliquei que eu me deparava com pedidos, exigências ou condições insensatas. As pessoas pareciam ter perdido o senso e o juízo. Bárbara se calou por alguns instantes, como se avaliasse a necessidade de ir mais fundo, e argumentou: “As pessoas são do jeito que são, com os seus olhares, gostos e interesses. Elas têm tanto direito a isso como a gente. Quando não entendemos esse processo, damos margem ao surgimento de problemas. Isto se chama conflito”. Eu estava à beira de não conseguir conter a irritação diante daqueles argumentos. Eu sabia o que era um conflito. Não precisava que ninguém me explicasse. Para mim, o problema estava na impossibilidade de concordar com a insensatez alheia. A barista me corrigiu de imediato: “Não falei em concordar, porém, respeitar. São comportamentos distintos. Confundir um com o outro é causa de muitos problemas”.

Reclamei que o mundo estava cada vez mais estranho. Ela voltou a me corrigir: “O mundo muda conforme mudam as necessidades e os anseios das pessoas. Sempre foi assim e nada há de errado nisso. Isto afeta as relações quando nos negamos a entender as rotações e translações sociais”. Bateu com o dedo indicador no balcão, como maneira de ressaltar as palavras, e voltou a lembrar: “Respeitar os elementos de formação do ponto de vista alheio, mesmo sem concordar, é ato de dignidade típico daqueles que já conhecem as raízes da liberdade e da paz”. Pedi para que explicasse melhor. Ela foi generosa: “Devemos nos manter leais às convicções que nos servem de direção quando o posicionamento de outra pessoa nos trouxer prejuízo de qualquer ordem. É momento de agradecer e partir. A partida deve acontecer sem sofrimento, rancor ou mágoa. Adquire-se assim equilíbrio emocional e força de movimento. Como em qualquer ciclo, parcerias e amizades também chegam ao fim. É natural. Contudo, por vezes, haverá situações em que nos será oferecida uma verdade desconhecida. É hora de mudar algo dentro da gente, agradecer e ficar. Ganha-se clareza no olhar. A realidade se expande”.

Em seguida, pontuou: “Sempre temos a escolha de nos encantar com o olhar alheio ou de seguir em frente com as nossas próprias percepções. O importante é jamais esquecer que ninguém tem a obrigação de concordar ou de acompanhar ninguém. Onde para muitos existe um problema, para outros é apenas exercício de autonomia e liberdade”. Esperou eu beber um gole de café e concluiu: “Uma mente flexível e dinâmica será sempre mais forte do que uma mente endurecida e estática. Mentalidades rígidas são embaçadas e lentas, nunca disponíveis ao novo e à evolução”.

Argumentei que eu não era inflexível. No entanto, me mantinha leal à verdade no limite que eu a compreendia. A barista explicou: “Nada há de errado na lealdade às suas percepções e convicções. Ao contrário, há muita virtude em as preservar quando elas mantêm um diálogo harmonioso com a consciência. Contudo, há um limite tênue entre a lealdade e a teimosia. Há cantões incompreendidos dentro da gente. Por trás dos excessos e da rigidez existe muita incompreensão e rejeição por quem somos. O moralismo esconde atos ou desejos de imoralidade; ares de superioridade ocultam sentimentos inconfessáveis de inferioridade; o saudosismo revela a dificuldade em aceitar as mudanças. A teimosia, por tratar de um apego exagerado às próprias ideias e, por consequência, de repúdio ao novo e às diferenças, enrijece e dificulta os movimentos de renovação e regeneração, essenciais ao processo evolutivo e ao bem viver”.

Bárbara prosseguiu: “O segredo dos problemas consiste em não lidar com eles como se fossem tragédias. Nem mesmo os tratar como algo desagradável ou ruim. Viva-os como experiências pedagógicas, disponíveis a ensinar algo que você ainda não sabe. Não somente sobre as coisas, mas, e principalmente, sobre si mesmo. Enquanto o problema perdurar, ou se repetir, significa que a experiência está em andamento. É preciso a elaborar de outra maneira, com outros elementos de ponderação, aperfeiçoadas verdades e melhores virtudes”. Perguntei quando eu saberia que determinada experiência estava finalizada. Ela respondeu de pronto: “Quando aquele tipo de situação não mais for um problema. O sentido primordial das experiências não é aprender a solucionar problemas, mas o descobrimento das riquezas interiores. Somente estas são capazes de dissolver aqueles. Tudo mais são meros adiamentos”.

Calei-me. Bebi o restante do espresso sem pressa enquanto a Bárbara preparava outros pedidos de cafés. Eu já tinha passado dos sessenta anos de idade havia algum tempo. Acreditava que estaria ensinando e não aprendendo com os mais jovens. Comentei isto quando ela retornou. A barista sorriu e disse: “Aprendemos e ensinamos o tempo todo. Todos com todos. A dinâmica da vida nos faz aluno e professor em tempo integral”. Olhou-me com compaixão e me provocou: “Você ainda é um ignorante, meu amigo”. Achei agressiva a colocação. Ela esclareceu: “Não me refiro ao sentido pejorativo da palavra, tampouco à escolaridade, diplomas e títulos. Não se apegue ao preconceito comum. Falo da acepção filosófica do termo ignorante: aquele que não tem plena consciência de si mesmo e das suas infinitas possibilidades. Sob este aspecto, não tenha dúvida, somos todos ignorantes”.

Ela tinha razão. Confessei que eu teria de me passar a limpo. O rascunho ainda estava distante da arte final. Havia muita coisa em mim à espera de mudanças. Apesar da idade avançada, um novo jeito de ser e viver se fazia indispensável. Bárbara foi didática: “O nosso estilo de vida é o resultado das experiências vividas. Isto cria um padrão de comportamento para lidar com os problemas e as dificuldades inerentes aos dias. Uma espécie de modelo de defesa ou de sobrevivência emocional que, enquanto gerar problemas, sinalizará a necessidade de aperfeiçoamento. Para modificar o padrão, se faz indispensável buscar por novas experiências, só que, a partir de agora, vividas e apreciadas com olhares mais ousados e até então nunca testados. Os problemas revelam as incompreensões pulsantes da alma”. Passou a mão nos cabelos azuis e ponderou: “Quando os negócios não vão bem, muitas vezes, nada há de errado com os negócios. Quando estamos diante de pessoas complicadas, por vezes, nada há de complicado nelas. Não raro, a questão reside nas nossas próprias incompreensões e teimosias”.

Em seguida, esclareceu: “Ao melhorar a relação que temos conosco, melhoramos as relações que mantemos com o mundo. As novas experiências, desde que elaboradas com diferentes elementos de compreensão, serão de enorme valia para o reprocessamento das antigas. Por conexão e consequência, da mágoa surgirá o aprendizado, do medo nascerá a coragem, a culpa desaparecerá para dar vez à responsabilidade e ao compromisso de fazer cada vez melhor dali por diante. Até que das amarguras encontremos o mel, das tragédias surjam as maravilhas ocultas. É cura, amor e liberdade a um só tempo. Uma incomensurável conquista traduzida em alegria, paz e dignidade”. 

Sem que eu pedisse, ela colocou sobre o balcão uma caneca grande com café coado, piscou um olho e disse gaiata: “Para o meu adorável ignorante, esse é por conta da casa”. Rimos. Em seguida, apontou com o queixo uma poltrona vazia no jardim. Eu tinha muito o que pensar. Contudo, naquele dia, levava comigo algumas ideias diferentes, importantes para me ajudar a descobrir algo que ainda desconhecia em mim. Seria uma jornada interessante e muita valiosa. Sísifo estava disposto a jogar fora a pedra. Para tanto, era preciso se reconciliar com Tânatos: tornar maduras as mudanças que não mais podiam esperar. Depois viriam outras e mais outras. Agradeci e fui para o jardim com uma única certeza: a cafeteria da Gávea era mesmo encantada. Um incrível portal para uma fantástica dimensão interior. 

Yoskhaz

2 comments

Terumi janeiro 3, 2026 at 4:45 pm

Gratidão 🙏

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Márcia Campos janeiro 4, 2026 at 1:29 pm

Querido, Yoskhaz, sempre uma benção ler os seus contos, que caem feito luvas em meu ser, gratidão sempre e um feliz bem fazer ano para você 🙏🕊️✨

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