MANUSCRITOS VIII

Alegria triste

Tinha sido um dia difícil de trabalho. Entre vários problemas comuns ao cotidiano de uma empresa, eu lidava com as exigências crescentes da Fátima, uma talentosa ilustradora de uma série de livros infantis escritos por vários autores brasileiros, ainda inéditos. Cabia a ela criar as imagens que povoavam as narrativas dos diversos universos oníricos. A ilustradora as realizava com rara habilidade. Ela era detentora de vários prêmios pelos excelentes trabalhos já realizados. Os primeiros títulos publicados fizeram um grande sucesso. Muitas histórias ainda aguardavam na esteira das edições. Textos que precisavam de lapidação, desenhos à espera da criação. Da ideia original até a obra final há uma longa e trabalhosa jornada. Ocorre que, a cada dia, a talentosa ilustradora se mostrava mais exigente, interferindo no funcionamento da editora em setores que não eram ligados à sua área de atuação. Argumentava que tudo na editora estava interligado e, sendo assim, afetava o modo como o seu trabalho era visto pelo público. Logo, no seu entendimento, apenas exercia um direito que lhe era legítimo. Cobrava mudanças de métodos e posturas, sempre com a ameaça de se desligar do projeto já em andamento, caso suas orientações não fossem atendidas. Impunha alterações nos textos, na fonte das letras usadas na diagramação, no tipo de papel usado para impressão e muito mais. Eram atribuições que não lhe cabia decidir. Embora todos os setores da empresa estivessem conectados, nem todas as decisões lhe eram pertinentes. Outros profissionais respondiam por suas respectivas áreas, de acordo com as suas habilidades específicas. Como ela tinha muito prestígio e era requisitada no mercado por várias editoras, com medo de a perder, embora considerasse descabidas as exigências, eu sempre cedia. Na rotina dos funcionários e colaboradores, ficou inconsciente o zelo de sempre a agradar, ainda que fosse do desagrado de todos. Apesar do sucesso, eu não estava bem.

Eu pensava nisso enquanto andava pelas ruas transversais e arborizadas da Gávea, rumo à cafeteria da Bárbara, a barista que havia abdicado da clínica de psicologia sem, no entanto, abandonar os mistérios da psique. Localizada num casarão antigo e bem-conservado, servia espressos, cappuccinos e frapês de sabores únicos. Embora não houvesse qualquer placa ou letreiro na porta, o lugar estava sempre com as mesas ocupadas em seus diversos ambientes, decorados com estantes de livros e harmonizados ao som do jazz, do soul e da bossa-nova, em tom audível, porém baixo, para que ninguém precisasse aumentar o volume da voz para se fazer ouvir. O jardim interno, com sofás e poltronas sombreados por uma frondosa mangueira, era o cenário perfeito às tardes de leitura. Duas vezes por semana, no início da noite, sem nenhum academicismo, mas com a profundidade simples e necessária para estar ao alcance de todos, Bárbara realizava breves palestras sobre as dores e os prazeres da alma. Por vezes, a qualquer hora do dia, ao perceber uma aflição à beira da erupção, se sentava à mesa para oferecer palavras capazes de despertar lampejos de claridade e doses de serenidade. Por mais complicada que possa parecer o problema, onde há lucidez e equilíbrio, existirá um bom caminho. Contudo, não era possível solicitar uma consulta. Era a barista quem escolhia o interlocutor. Ela desconversava dizendo que ali não era um consultório, mas uma cafeteria. Em verdade, era bem mais.

Não havia mesa vaga. Dirigi-me ao balcão para aguardar. Para minha surpresa, encontrei com a Maria Clara, amiga de escola de uma das minhas filhas. Ela sorriu ao me ver. Havia alguns anos que eu não a encontrava. A jovem contou que estava casada com Gabriel, um médico que conhecera quando ambos ainda eram alunos da faculdade de Medicina. Tinham três filhos pequenos. Embora também tivesse se formado – havia se especializado em cirurgia-geral, após um difícil aprendizado na emergência de um concorrido hospital público –, deixara a carreira para se dedicar à família. Assim, o marido podia se dedicar à profissão mais intensamente. Além de ser um homem inteligente e charmoso, ele se tornara um requisitado cirurgião oftalmológico. Tinham adquirido um belo apartamento no Leblon, um dos bairros mais nobres da cidade. Os filhos estudavam em um excelente colégio e todos os anos viajavam para o exterior. Tinha uma vida de princesa, afirmou.

“Princesas costumam ter uma alegria triste”, ouvimos de uma voz por atrás do balcão. Era Bárbara. A barista nos serviu dois espressos como cortesia pela espera e, antes que eu fizesse qualquer menção à evidente contradição na expressão alegria triste, ela explicou: “Refiro-me à alegria de viver o mundo sonhado, em contraponto com a decepção de não encontrar em si os sentimentos aguardados na chegada ao destino desejado. Então, surge uma dor incompreendida”. Maria Clara disse não ter entendido. A barista esclareceu: “Por fora, tudo perfeito. Por dentro, nada satisfeito”. A jovem mãe admitiu que, de fato, havia nela uma tristeza sem sentido. Sofria de depressão, mas estava medicada. Embora soubesse não existir farmacológico capaz de curar as dores da alma, alegou não haver motivo para se sentir triste. Logo ficaria bem. Tinha uma vida perfeita. Bárbara deu de ombros e ponderou: “Talvez falte você a si mesma. Então, tudo será pouco”.

O garçom nos interrompeu para avisar que vagara uma mesa. Perguntou se nos sentaríamos juntos. Assentimos. Aquela conversa precisava continuar. Bárbara nos acompanhou. Depois de acomodados, a barista foi direto ao ponto: “Princesas escolhem suas roupas, sapatos, joias, a marca do carro e o restaurante onde almoçará com as amigas. Em alguns casos, até mesmo aonde a família irá no fim de semana. Enfim, têm um enorme poder para decidir sobre as bagatelas existenciais”. Maria Clara pediu para que explicasse melhor. A barista esclareceu: “A questão reside no poder de decidir sobre o próprio destino. Não me refiro ao destino das férias de verão. Falo em viver de acordo com as próprias percepções e escolhas no concernente ao rumo para onde deseja ir além das aparências e das escolhas rasas. Na pessoa que planeja se tornar e as revoluções internas que precisa realizar. Falo sobre equilíbrio emocional, clareza mental e autonomia material. A maturidade da alma exige a ruptura de todos os tipos de dependência. Enquanto não acontecer, o molde será o modelo dos outros, nunca a escolha por um jeito próprio. O medo de perder algo ou alguém que consideramos fundamentais ao nosso bem-estar, inibe o crescimento de quem originalmente somos. Terminamos por ceder além dos limites da identidade pessoal. Tornamo-nos outro que não nós. A insistência por um estilo de vida sem identificação com a essência que a anima e traduz, embora, muitas vezes, dentro de um padrão social desejado e considerado ideal, também é causa de depressão”.

Bebeu um gole de café e comentou: “Se eu tenho uma vida maravilhosa, por que me sinto triste? Príncipes e princesas perguntam todos os dias a si mesmos. Sentimentos que aparentam não ter sentido, são mensageiros de desconhecidas verdades. Aquilo que tão bem completa uma pessoa pode não caber em outra. Não se trata de número e tamanho, mas de tempero e sabor”.

Maria Clara se mostrou desconfortável. Disse que a barista estava flertando com a grosseria. Bárbara pediu para que as suas palavras, apesar de duras e fortes, não fossem recebidas com nenhum resquício de agressividade. Não tinha essa intenção: “Apenas proponho raciocínios que, ao se opor a ideias, conceitos e padrões até então aceitos sem grandes questionamentos, rasgam o tecido colorido de uma realidade de feições agradáveis. Contudo, por trás, esconde sentimentos contraditórios, incapazes de sustentar momentos mais profundos de felicidade. Enquanto a origem da dor restar incompreendida, apesar de uma vida de contornos perfeitos, persistirá essa alegria triste como lembrança da essência esquecida”.

A jovem mãe balançou a cabeça em negação. Amava e admirava o marido. Amava os filhos e vivia o sonho de uma vida perfeita e confortável. Não lhe faltava nada, garantiu. Bárbara se calou por alguns instantes. Lembrou do ensinamento de um antigo alquimista de almas que dizia que enquanto você não tiver a si mesma, nada será suficiente. No entanto, aquilo já fora dito de outra maneira naquela conversa.  Bebeu sem pressa um gole longo de café, como se avaliasse o poder das próximas palavras e, enfim, decidiu pelo golpe necessário: “Você atravessou noites insones de estudos para as provas da faculdade, estagiou nos umbrais do desespero nas salas de emergência dos hospitais públicos para, ao final, somente encontrar um marido e se tornar mãe…”, fez uma pausa propositalmente dramática antes de concluir a pergunta: “… ou há algo igualmente valioso que foi deixado para trás?”. Houve um silêncio semelhante a uma confissão. Sem esperar pela resposta reprimida, a barista a lembrou: “É preciso resgatar o que foi abandonado em si mesma. Ninguém abandona um dom em vão. Todos temos um dom. O seu é o de curar. Todo dom revela o amor sagrado de uma alma pela vida e melhor instrumentaliza o indivíduo a escalar as montanhas da existência”. Em seguida, se referindo ao conflito aparente entre a família e a profissão, arrematou: “Será que uma escolha anula a outra ou, em muitos casos, cabe uma convivência harmônica entre interesses de valores tão importantes?”.

Como se tivesse com a alma desnuda, Maria Clara a olhava desconcertada. A barista prosseguiu: “Cada indivíduo precisa traçar o mapa do seu desenvolvimento espiritual. Não é fácil, pois o sagrado precisa se manifestar nas situações corriqueiras do cotidiano, e não apenas dentro de igrejas e templos como muitos imaginam. A pessoa evolui pelo que faz, nunca pelo que pensa ou sente, por mais nobres que sejam os seus pensamentos e sentimentos. O grau de dificuldade aumenta quando nos damos conta de que não há dois mapas iguais. Se percepções e sensibilidades são diferentes, e sempre são, as rotas também hão de ser. Daí, nenhuma comparação é sensata”. A jovem esposa pediu para que falasse um pouco mais sobre esse tal mapa. Bárbara explicou: “O mapa do desenvolvimento espiritual é um projeto original de autoconstrução. Nada contra com quem passa as manhãs à beira-mar, entre aulas de pilates, conversas com outras mães na porta da escola dos filhos e a leitura de bons romances ou deliciosos chás no meio da tarde. Podem acompanhar mais de perto o desenvolvimento dos filhos e estão sempre bem-dispostas à noite. Não sem razão, muitos desejam a rotina desses dias tranquilos. Não por falta de bons motivos, considerariam loucura abrir mão desse maravilhoso sossego em troca do estresse e da angústia diária de tentar salvar vidas banhadas em sangue, corpos atravessados por tiros ou quebrados em acidentes. Contudo, o que é o inferno para muitos, é a autêntica porta do céu para poucos”. Olhou com seriedade para Maria Clara e concluiu: “Há almas forjadas para levar luz a quem está perdido no breu de dores profundas. Não conhecerão a autêntica alegria enquanto se mantiverem distantes do seu propósito original”.

O café de Maria Clara havia esfriado. Fiz menção em pedir para trocar. Ela olhou para o relógio e recusou a oferta. Alegou precisar pegar os filhos na escola. Um tanto sem jeito, agradeceu a conversa, se despediu e foi embora.

Bárbara me olhou como quem diz essa reação é comum à descoberta do destino à espera. Pediu ao garçom que trouxesse mais dois espressos. Duplos, acrescentei. Eu precisava pensar. De alguma maneira que eu ainda não conseguia entender, aquela conversa mexera comigo. A barista sorriu e provocou: “Que tal falar um pouco da alegria triste que transborda dos seus olhos?”. Estranhei. Disse não saber ao que ela se referia. Bárbara explicou: “Quando alijamos escolhas por recear consequências ou perdas, deixamos germinar uma erva daninha chamada dependência, capaz de sufocar a alma, provocar tristeza e, com o tempo, dar margem à depressão. Fruto do medo e da equivocada crença quanto à própria capacidade de superar as inevitáveis dificuldades, pois são inerentes à existência, a dependência traz a reboque outra enfermidade da alma: a estagnação, que faz apodrecer o ânimo, a vida e os sonhos. Uma grave perda. Ainda que, aparentemente, tudo ao redor esteja perfeito, o coração não está satisfeito. É preciso reagir. Toda dependência nos torna menos quando poderíamos ser mais”. Não foi difícil associar aquelas palavras às crescentes exigências e absurdas interferências realizadas pela ilustradora da coleção de livros infantis da editora. Embora considerasse abusivo o comportamento da Fátima, eu tinha medo de, ao contrariar as vontades dela, não mais contar com o seu talento nas publicações da editora. Uma relação nada saudável que, por consequência natural, me deixava mal, apesar dos excelentes ganhos financeiros.

Comentei que qualquer relação interpessoal terá de lidar com o fator outro. Sempre haverá diante de mim uma pessoa diferente em vários aspectos daquele que sou. Olhares e intenções, percepções e sensibilidades, escolhas e desejos. Bárbara não discordou, mas ponderou: “As diferenças podem ser elementos de interação altamente positivos, desde que sirvam para ensinar e indicar impensáveis possibilidades de crescimento. Cada um é de um jeito. Logo, toda relação tratará de dois universos distintos que coexistem em busca de uma convivência saudável. A intercessão entre esses universos nunca será integral, acontecerá sempre em parte, com maior ou menor interação, a depender da sintonia e das afinidades que possuem. Entretanto, isso não é um problema. Ao contrário, quando bem trabalhado, impulsionará improváveis soluções e aprendizados mútuos. Para tanto, ninguém deve se acomodar à sombra de ninguém. Faz-se necessário que cada pessoa aprenda a caminhar com a clareza gerada pela própria luz”.

Falei que não conseguia encaixar aquelas palavras na situação vivida com a ilustradora da editora. A barista explicou: “Refiro-me ao dilema entre coerência e conveniência”. Bebeu um gole de café e continuou: “Coerência é a ação exata e alinhada ao entendimento da consciência. Fazer o certo sem medo das consequências materiais. A coerência é base da abnegação, a virtude que prioriza os valores espirituais em detrimento às vantagens mundanas. Por sua vez, a conveniência dialoga com o medo e a acomodação, aceita a dependência e se deixa corroer pela estagnação. Quando sobra conveniência, falta coerência. Onde há privilégios, inexiste justiça. A coerência exige riscos e sacrifícios, enquanto a conveniência acena com comodismo e a ilusão de segurança. A genuína alegria nunca está no prazeres do mundo, mas na dignidade do espírito que anima, identifica e traduz cada indivíduo”. Esvaziou o café da xícara e concluiu: “A coerência é um dos pilares da ética, a arte da nobreza nas virtudes aplicadas a todas as situações do dia a dia. No outro lado da moeda está a conveniência oportunista, mentirosa e covarde. Oferece atalhos que nos fazem retornar ao ponto de partida, numa triste repetição de ciclos viciosos. A coerência é a porta estreita da lapidação evolutiva, da dignidade em fazer os movimentos certos, da liberdade em viver sem medo e da paz interior conquistada em uma viagem realizada nos trilhos da consciência. Sem coerência o amor é raso e a felicidade permanecerá como uma figura de mera ficção”.

Fomos interrompidos pela chegada repentina e abrupta de Maria Clara. Com os olhos inchados e avermelhados por lágrimas sinceras e irrefreáveis, deu um beijo delicado no rosto da barista, abriu a bolsa, mostrou um estetoscópio como quem revela um segredo e uma decisão. Sussurrou muito obrigado e foi embora. Uma revolução intrínseca dera início naquela tarde. Sorrimos.

Em seguida, Bárbara se levantou para retornar ao trabalho. Sem precisar dizer palavra, me deixou com um inusitado conteúdo, repleto de instigantes elementos para eu refletir e decidir entre a coerência e a conveniência dos meus atos recentes. Ocorre que, depois de compreendermos o significado e o alcance de alguns comportamentos, as escolhas se resumem entre libertar a alma ou a manter aprisionada no medo e na dependência. A decisão se define entre a alegria ou a tristeza dos dias. Quando a escolha amadurece, se torna simples e inevitável.

Na manhã seguinte, algumas mudanças ocorreram na editora. Tive uma conversa franca com a ilustradora. Queríamos continuar trabalhando com ela, porém deveria se ater à sua área de atuação profissional. Compreender limites é fundamental para se viver com respeito. Sob as mesmas e inconsistentes alegações, Fátima se recusou a aceitar as novas condições. Demitiu-se. Tivemos de buscar no mercado um novo ilustrador. Como demorou mais tempo que o previsto, o projeto atrasou e amargamos um prejuízo considerável. Nada que afetasse o bem-estar de viver em harmonia com os princípios e valores que moviam a minha consciência. Com coerência, sem ceder às tentações das conveniências. Apesar das perdas e das incertezas que me aguardavam por causa dos necessários ajustes de rota, que sempre nos levam a lugares desconhecidos, eu estava em paz. Sentia uma alegria que pareceria estranha se não me fosse dado saber a sua verdadeira origem.

Assim como ninguém é igual a ninguém, o traço de dois artistas também é diferentes. Quando contratamos o Jonas, o novo ilustrador, a solução encontrada foi dividir as coleções. A nova coleção trazia textos inéditos, agora ilustrados por outro desenhista. Um título diferente foi necessário para registrar a diferença de estilos. Como o hábito e o gosto podem se tornar um vício paralisador – vale salientar a absurda mania de comparar as diferenças: o que é único cabe em si, com os próprios dissabores e belezas, sendo incabível usar uma mesma régua para medir algo extraordinário por não haver outro igual, como eu e você –, no início, o público estranhou e rejeitou as linhas que desconheciam. Com o tempo, e aos poucos, o talento, a qualidade e o trabalho dedicado terminam por florescer. Até que certa manhã, depois de alguns meses, ao entrar na editora, fui surpreendido com a notícia de que a nova coleção havia se igualado à anterior na preferência dos leitores. As vendas refletiam isso. De certo, a lucidez de que a vida nunca abandona quem vai ao encontro dos seus autênticos significados. De certo também, que a cafeteria da Gávea oferece bem mais do que deliciosos espressos, cappuccinos e frapês.   

Yoskhaz

1 comment

SCHWEITZER março 25, 2026 at 4:31 pm

Um lindo texto sobre a beleza do equilíbrio harmonico.

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