MANUSCRITOS VIII

Pedidos e achados

Não, não é verdade. Isso não pode estar acontecendo! Esse grito rasgou a madrugada silenciosa do mosteiro. Acordei assustado, ainda sem saber se aquele desespero era decorrente de um sonho ruim ou vinha da voz de algum monge em um quarto próximo. Aquietei-me para ouvir melhor. Após alguns instantes, apesar das paredes de pedra, foi possível escutar um choro que mais se assemelhava a um pranto. Fui para o corredor na tentativa de descobrir quem necessitava de acolhimento. Sem precisar andar muito, percebi que os lamentos vinham do quarto ao lado. Quem o ocupava era o Hermes, um monge grego, residente em Atenas, com quase setenta anos de idade. Um homem sensato, gentil e simpático, muito admirado por todos no mosteiro, integrante da Ordem há mais de três décadas. Formado em Economia, era professor da principal universidade pública do país. Hermes representava os valores ancestrais de ética, estética e mística preconizados por Platão, um conterrâneo milenar. Valia-se de um precioso código pessoal de conduta, confeccionado ao longo da existência, sempre se questionando se as suas ações e escolhas primavam pelo bem e pelo justo. Entregava na exata medida do merecimento de cada pessoa, independentemente do sentimento que nutria por ela. Embora praticasse atividades físicas e mantivesse uma saudável dieta mediterrânea, não se descuidando nem do corpo nem da aparência – jamais como vaidade, mas como exercício de autoestima –, a sua preocupação final versava sobre a estética da alma, ideal maior de beleza. A mística, na acepção original da palavra, o incentivava a buscar a verdade além dos últimos limites alcançados pela ciência. Sempre equilibrado e atencioso, era muito procurado pelos monges mais jovens, quando em busca de orientações e conselhos.

Sabíamos do falecimento recente da sua esposa. Diferentemente dos outros períodos de estudos, desta vez, chegara abatido. Apesar da delicadeza e polidez de costume, Hermes se mostrara um tanto quanto arredio. Nas horas vagas, se isolava na varanda ou realizava longos passeios pela montanha. Todos compreendiam a mudança de comportamento face o impacto do fato. Tratava-se de uma situação pontual. As constantes reflexões eram necessárias para rearrumar a vida dentro de si, a partir de agora, sem ter ao lado alguém com quem brindou os bons momentos e dividiu as angústias no avesso dos melhores desejos. Por definição, luto é a dor oriunda de uma perda. Qualquer que seja. Há diferentes tipos de perdas. Algumas são mais significativas e difíceis de lidar. Quanto maior o apego àquilo que se perdeu, mais enredado ficará o indivíduo nas teias do sofrimento. Quando a perda representa o único pilar de sustentação, a pessoa desaba.

Curar-se do luto exige uma restruturação do olhar e, muitas vezes, uma reconstrução no jeito de ser e viver.  A depender da perda, não raro, será necessária uma completa reinvenção de si mesmo. Como nem sempre estamos prontos e abertos às indispensáveis transformações, sem saber, autorizamos o sofrimento a deitar raízes. Algumas permanecem por tanto tempo que o sujeito passa a considerar o sofrimento como parte inerente da sua personalidade. Não é. A intensidade e o tempo da dor variam segundo o nível de consciência, conforme a capacidade de elaborar a experiência com exatidão, extraindo do resultado imensuráveis doses de amor e sabedoria. Então, o sofrimento se desfaz para sempre. Enquanto não acontecer, a dor se alargará pelas entranhas e deixará um sabor amago no coração. De acordo com esse raciocínio, e por conhecermos a enorme capacidade de resolução e superação do monge grego, acreditávamos que ele logo ficaria bem.

Por isso a estranheza do pranto e do grito vindos do seu quarto. Quando ele abriu a porta, tomei um susto. Diante de mim, encontrei um homem destroçado. O caos nos arranca tudo que não está agregado à essência. Leva embora o que é adorno e aparência. Quem não ergue os fundamentos que o manterá firme e seguro em si mesmo, restará destruído após cada ventania. Não o reconheci. Apenas o abracei por longos minutos. Não era hora de falar. Aquele homem de cabelos brancos chorou como um menino perdido.

Depois de deixar transbordar as emoções que o sufocavam, o convidei para irmos à cantina do mosteiro. Hermes precisava falar e eu estava disposto a ouvir. Ele aquiesceu. Preparei um bule com café fresco e o coloquei sobre a mesa. Quando fui pegar as canecas, ouvi uma voz atrás de mim: “São três, por favor”. Era o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele se acomodou à mesa conosco, olhou para o Hermes, arqueou os lábios em um singelo, porém sincero e belo sorriso, para dizer, sem a necessidade de expressar palavra, que estava disposto a usar o próprio coração na tentativa de o resgatar dos mares revoltos do sofrimento. Quem já se afogou nas águas das incompreensões ou se viu retido pelas correntezas do luto, sabe o valor e a importância desses salvamentos. São incomensuráveis.

Ao expor as entranhas da sua dor, fui surpreendido. A partida de Helena, sua esposa, para as Terras Altas, não era razão primordial do desespero como eu imaginava. Embora a amasse profundamente e sentisse a sua falta todos os dias, tinha aprendido a não tratar a morte como uma perda, mas como uma plataforma de embarque, o ponto de partida para um novo trecho de aprendizados e realizações, se valendo de novas e impensáveis ferramentas e circunstâncias, em prol da própria evolução. Helena merecia prosseguir e avançar. A morte lhe ofereceria renovação e regeneração sob condições mais adequadas aos progressos conscienciais que alcançara. A morte jamais significaria um fim ou uma perda. Tratava-se de uma necessária e importante transformação. Nunca uma punição, porém um ato de amor da vida pela vida. Como a fruta que, consumida ou apodrecida, renasce revigorada através da própria semente.

Sem dúvida, a saudade que sentia de Helena era enorme. Ao contrário do entendimento comum, a saudade não era motivo de tristeza. Era fonte de alegrias. Afinal, só sentimos saudade dos momentos bons. Não a saudade como nostalgia, do desejo absurdo de retroceder no tempo, mas de reconhecer que somente há saudade onde existe amor. A ausência de saudade pode indicar o vazio de um existência. De outra face, a sua presença narra os melhores capítulos das nossas vidas. O amor vivido traz alegria, esperança e dinamismo aos movimentos que ainda nos restam fazer. Além de lembrar ao amor que sempre haverá muitos motivos para seguir amando mais e melhor.

O Velho tornou a sorrir. Desta vez em aprovação à plena compreensão de Hermes quanto a esse complicado, porém, delicado e bonito fenômeno, inevitável e natural, denominado morte, ainda tão mal compreendido. O problema, comentou o monge grego, foi que na esteira da partida de Helena, chegaram outros acontecimentos difíceis de lidar. Nos últimos meses, alguns amigos também tinham partido para as Terras Altas, enquanto outros foram acometidos por enfermidades que lhes furtaram a autonomia motora ou a de manifestação de vontade. Isto o entristecera sobremaneira. Havia também os amigos que se mudaram para longe, no intuito de morar mais perto dos filhos e dos netos. Helena e ele tinham um filho, Andreas, que também se graduara em Economia, mas residia na América, onde trabalhava no mercado financeiro. Para Hermes, Nova Iorque era uma cidade maravilhosa para se visitar, frenética demais para morar. Embora estivesse intacta a autonomia de movimentos físicos e cognição mental, a saúde mostrava sinais de declínio. Não apenas a perda de força muscular e reflexo, comuns a idade. No seu caso, a artrite e a artrose, heranças genéticas, o obrigavam a sessões frequentes de fisioterapia, além dos medicamentos de uso permanente. Era como se tivesse acendido um alerta sobre o prazo de validade do seu corpo.

Como se não bastasse, algumas horas atrás, sem sono, decidiu olhar a caixa de e-mails. O Congresso da Grécia tinha promulgado uma lei que estabelecia aposentadoria compulsória aos professores a partir dos sessenta e cinco anos. Como já ultrapassara essa idade, a universidade comunicou o afastamento do cargo e das funções exercidas por décadas e que ainda lhe proporcionavam alegria e prazer. Ele adorava lecionar e conviver com os jovens, repletos de ideais, sonhos e uma enorme vontade de viver. Sentia-se bem no frescor do ambiente acadêmico, do qual, de uma hora para outra, fora alijado. Com a aposentadoria, teria um corte drástico em seus vencimentos. O tratamento de Helena drenara a poupança amealhada ao longo dos anos – não se lamentava quanto a isto. Ela merecera os melhores médicos e cuidados. Ocorre que, naquela noite, com a redução dos ganhos, as perdas pareciam ter atingido o ápice, num estágio que não imaginara nem nos piores cenários. Dentre outras perdas, acabara de perder, não apenas o status social e profissional, mas também o acesso a bens de consumo e de conforto. Nada disso fazia parte dos seus planos. Como se a vida tivesse virado inimiga, e portando uma navalha de sonhos com corte afiado, rente e insaciável, retirava tudo, não somente o que possuía, mas também o homem que havia sido. Naquele instante, parecia ocorrer uma ruptura interna, entre quem foi e quem passaria a ser. Esta fragmentação inesperada causava um sofrimento inominável. Teria que se contentar com menos em todos os aspectos da vida.  Precisaria se reinventar, encontrar novos motivos para viver. Duvidava se conseguiria. As perdas pareciam irreparáveis.

Neste momento de inimagináveis mudanças, vivia uma enorme contradição interior. Ainda que pesasse o conhecimento que possuía sobre os arcanos da vida, sentia falta da Helena, na contramão das verdades que conhecia. Uma mulher forte e amorosa. Ao lado dela nunca sentira medo ou insegurança. Juntos se mostravam maior do que o maior dos problemas. Moldavam o futuro conforme as realizações do presente. Esta fé também se perdera, pois, mesmo que evitasse pensar nos acontecimentos como perdas, percebia a vida se desmoronando. Os fatos se mostravam mais convincentes que as ideias. Considerou a possibilidade de estar errada a crença de que as perdas eram ilusórias. Talvez fossem reais. Naquela noite teve a horrível sensação de que, pelo ritmo avassalador dos últimos dias, cada vez mais corrosivos e ásperos, em breve perderia o que tinha, as referência que possuía, aquele quem tinha sido e tudo mais que o aprazia. Restariam apenas as ruínas de si mesmo. Não sabia como lidar com isso, confessou.

O Velho o ouviu sem qualquer aparte. Bebeu um gole longo de café, como quem procura a exatas palavras, e argumentou: “Toda perda pode ser real ou ilusória, a depender de como o indivíduo lida com os acontecimentos. Quando se recusa a aceitar os inevitáveis movimentos da vida, fica atado à inútil tentativa de reter algo que não tem mais como possuir ou estar ao lado de alguém que já se foi. Então, a perda se mostra real e dolorosa. Não por culpa da vida, mas como resultado da incapacidade de encontrar a riqueza escondida por trás de cada partida. Ao compreender que a vida nos toma o que não mais cabe ficar, desperdiçamos o solo fértil da criatividade e do imponderável. Faça o melhor por si, ofereça o melhor de si e deixe a vida o surpreender. Sejam pessoas e momentos, sejam aprendizados e crescimentos. A vida é farta e generosa, embora nem sempre a percebamos dessa maneira, mormente durante o caos. Os imaturos julgam o caos pelo grau de destruição, os sábios o aproveitam pelas oportunidades de renovação. Os tolos tratam o caos como maldição, os indivíduos maduros o percorrem como uma estrada de regeneração. Regenerar-se é se reconstruir a partir do próprio âmago. Ninguém consegue isso sem se conhecer mais e melhor. Não há riqueza maior. Para estes, o caos é sagrado”. Antes que o monge grego interviesse, o Velho se adiantou ao raciocínio: “Não há idade para isso”.

Desde que ingressara na Ordem, Hermes alegou haver aprendido a enfrentar os reveses da existência, pois bem sabia que, além de inevitáveis, são movimento renovadores e construtivos. Tinha se preparado para todas aquelas situações. Se os monges mais jovens o procurassem para conversar, seria capaz de dar uma aula sobre o assunto. No entanto, mostrava uma enorme dificuldade de aplicar a teoria à prática. Talvez pelas muitas mudanças involuntárias em um curto espaço de tempo. A elaboração em conjunto de todas aquelas experiências dificultava a melhor resolução, considerou. O Velho disse sim com a cabeça e esclareceu: “A vida tem uma lógica e um modo de operar que quase nunca é de fácil compreensão. Como ninguém é igual a ninguém, a aplicação do método pedagógico também difere de uma pessoa para outra. Por isto, as comparações são incabíveis”.

Pousou a caneca na mesa e pontuou: “Embora a sequência rápida de acontecimentos desagradáveis tenha afetado momentaneamente o seu equilíbrio e a sua lucidez para enfrentar a torrente de mudanças, emperrando as engrenagens da força de movimento, não há nada que o impeça de, a qualquer instante, retomar o poder sobre si mesmo para seguir em frente. Ainda que entenda que as perdas são ilusórias, elas se tornam reais quando não se compreende o exato luto que o envolve. Então, aos poucos, a dor se espraia e instala um império. O indivíduo fica perdido em si mesmo. Todo sentimento tem um nome. Enquanto não identificar a verdadeira razão do luto, não conseguirá se reconquistar. Continuará dominado por um sofrimento que, enquanto a sua origem se mantiver oculta, tornará a cura impossível. Não existe remédio para uma dor desconhecida”.

Hermes perguntou do que ele falava. O Velho explicou: “Você vive o luto da velhice”. O grego o olhou assustado com a utilização da palavra velhice, como se fosse proibida ou de mau gosto, principalmente por ter sido pronunciada por alguém sempre tão meigo e gentil. O bom monge o alertou: “Não tenha medo das palavras. Usar palavras bonitas não diminui o problema. Ao contrário, muitas vezes o mascara, passando uma sensação equivocada por minorar ou disfarçar a sua gravidade. Ninguém modifica a realidade com belos discursos, apenas com boas e acertadas ações. Tudo mais é engano e maquiagem. Usar a palavra exata para descrever a exata situação é de muito valor para a compreensão e o enfrentamento da verdade”.

O monge grego concordou com a cabeça. O Velho prosseguiu: “A Humanidade, ainda perdida em seus anseios imaturos, não está preparada para lidar com a estrada do tempo. Trata-se de um desconhecimento por negação. Ao evitar a verdade, as multidões se lançam no abismo do isolamento, do abandono ou do desespero à medida que a viagem se aproxima do último trecho. Olhamos para o envelhecimento como quem escuta o apito de aproximação do trem da morte. Um erro crasso. Faz-se necessário lidar com a velhice como a oportunidade de deixar para trás os apetrechos que se valeram necessários, mas que daqui em diante, teremos de aprender a seguir sem eles. Isto fala sobre autonomia e ensina muito sobre liberdade, dignidade e paz. Serve para tudo que gostamos e para todos que amamos. Perdemos as coisas, mas ficamos com as boas experiências que elas nos proporcionaram. As pessoas se dispersam pelo caminho – afinal, cada qual tem o próprio rumo e necessidades de aprendizado e evolução –, mas deixam conosco o amor e as histórias que dão sentido, cor e mel à vida”.

Em seguida, fez uma pergunta de simples retórica: “Já se atentou que nunca fomos treinados e educados, quando jovens, a projetar a vida durante a velhice?”. Sem aguardar a resposta conhecida, continuou: “Mesmo quem se presta ao exercício, o realiza com idealizações irreais, abrandadas por doces cenas de mera ficção. Ninguém quer olhar para as inevitáveis limitações, cerceamentos e mudanças impostas pelo envelhecimento. Comigo será diferente, mentem para si mesmos. Por estarmos despreparados para a fase derradeira do ciclo, terminamos por enfrentar a velhice como se fosse um acúmulo de perdas, desperdiçando as fantásticas oportunidades que o ocaso da existência oferece. Se faz luto – mantendo-se dolorosas perdas – num lugar dentro da gente onde cabem maravilhosos achados”.

Os olhos do monge grego indagavam que achados seriam esses. O Velho os elencou: “A vida é sabia. As crescentes limitações do corpo físico, abrem espaço ao florescimento da alma. Trata-se do último chamado para o reposicionamento das peças no tabuleiro das prioridades. Entregamos as peças pesadas para valorizar o uso das que oferecem leveza. Se houver atenção e desprendimento, o jogo se tornará favorável. O que verdadeiramente tem valor não cabe em nenhuma caixa, não precisa de assinatura nem serve como moeda de troca”. Arqueou os lábios em um lindo sorriso e elencou: “Perdoe a todos, confie em si e siga em frente. Para ser livre, ame sem reter. Para viver em paz, oriente sem tentar convencer. Para ser feliz, faça sem possuir.  Para ser digno, basta a verdade. Para o amor germinar, servem as virtudes aplicadas ao cotidiano. Todas essas conquistas dependem apenas de percepção e sensibilidade. Nada mais. Não existe riqueza maior. Sei que sabemos disto, mas nem sempre lembramos disso. Então, no esplendor da sua sabedoria, a vida nos oferece a velhice do corpo como um elixir sagrado para o rejuvenescimento da alma. Sagrado é tudo aquilo que nos torna pessoas melhores. A arte de envelhecer fala sobre ser mais com menos”.

Olhou por instantes pela janela. O céu começava adquirir os tons rosa e amarelo típicos das manhãs. Esvaziou a caneca e pontuou: “A velhice nos toma muitas coisas. Algumas, de muita importância. No entanto, nos oferece outras ainda mais valiosas. Não se trata de uma troca, mas de imperdíveis chances de transformação. Troca tem preço, transformação tem valor. O entardecer da existência pode proporcionar tesouros como equilíbrio emocional, desprendimento material, melhor aceitação quanto às vontades e verdades alheias, uma percepção mais cristalina da realidade e profunda da vida, maior lucidez e liberdade consciencial. Não há época mais adequada à plenitude”. Pousou a caneca na mesa e finalizou: “São dias perfeitos para rever conceitos, costumes, ideias, sentimentos, atitudes e hábitos. Uma última oportunidade de reconstrução, desta vez, tendo somente a própria essência como matéria-prima. Mais do que um achado, o derradeiro trecho da viagem pode proporcionar as conquistas mais importantes de uma existência”.  

Ninguém mais disse palavra. Hermes precisava se reposicionar perante a si mesmo e diante da vida. Podia se acovardar, se esconder e lamentar. Podia também agradecer, se reerguer e bailar com a vida. Sempre há escolhas. O sorriso franco de gratidão do monge grego encerrou a conversa. Os olhos marejados diziam que a lição restara aprendida. Uma decisão silenciosa havia sido tomada.

            Alguns dias se passaram. Percebi em Hermes uma agitação juvenil. Não me refiro à imaturidade, mas quanto à vitalidade e ao frescor típicos da juventude, cujo melhor significado se revela na irrefreável vontade de crescer e realizar. Quando não estava assistindo às aulas, se mantinha concentrado em anotações e troca de mensagens. Achei estranho e comentei com o Velho. O bom monge me tranquilizou: “Não há motivo para preocupação. Hermes decidiu aproveitar todos os anos de estudo em Economia e o enorme tempo disponível, graças a tudo aquilo que considerava como perda, para iniciar um antigo projeto. Junto com um amigo empresário, que passou a direção da empresa para os filhos, darão início a uma escola de negócios, no intuito de formar novos empreendedores. Cursar Economia e Administração é apenas parte do que se precisa para enfrentar as muitas dificuldades, comuns ao complicado e competitivo mundo dos negócios. Este desconhecimento faz com que muitas pequenas empresas não consigam resistir aos obstáculos iniciais, gerando frustrações ao abortar voos que poderiam ser prósperos e de longo alcance. Ele está animadíssimo para reverter o cenário”.

Perguntei ao Velho se, na sua opinião, o projeto da escola daria certo. Ele me lembrou: “Manter-se jovem é continuar a ter sonhos, metas e propósitos, independentemente da idade que se tenha. É não desistir nem se acomodar. É seguir lapidando as próprias ações, mantendo-as boas, justas e saudáveis. Não se assuste se houver dias de recaídas e desânimo. Os resultados, ora não serão os esperados, ora demorarão mais que o previsto. É assim mesmo. Isto não traduz derrotas, mas convida para exercícios de versatilidade, lucidez, disciplina e fé. A vitória reside na luz das melhores ações, nem sempre no brilho dos resultados desejados”.

Presenteou-me com um lindo sorriso e finalizou a conversa: “Nos últimos dias, Hermes rejuvenesceu e encerrou as perdas. Entendeu e aceitou o desafio da evolução. O processo de aprimoramento precisa continuar, agora, com diferentes ferramentas e sob novas condições. Ele está prestes a viver algumas das experiências mais encantadoras da sua vida. Sem importar o que acontecerá, haverá muitos achados. O verdadeiro sucesso consiste nas vitórias sobre si mesmo. Ele está no caminho certo. Basta prosseguir”. Em seguida, disse que precisava podar as roseiras do jardim interno do mosteiro. Observei-o se afastar com o seu passo lento, porém, seguro.  

Yoskhaz

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