Eu andava estranhamente cansado naqueles dias. Mesmo pela manhã, logo após o café, antes dos meus afazeres no mosteiro, eu já me sentia esgotado, com vontade de me deitar. Havia um desânimo que os médicos não conseguiam identificar. Os exames clínicos nada apontavam de errado com a minha saúde. Eu amava os períodos de estudos no mosteiro por todo o bem que me proporcionavam. Durante todo o ano, esperava por aquelas semanas de aprendizado e renovação. Transformações angulares na minha vida tiveram suas origens naquele lugar. Contudo, daquela vez, tudo estava diferente. Em mim, parecia não existir alegria nem prazer.
Cheguei a cogitar o fim do meu ciclo na OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha –, irmandade na qual estava associado havia muitos anos. A ideia perdia o sentido quando eu reconhecia a grandeza dos propósitos das atividades ali realizadas. Naquela manhã, pedi para que o Heitor, o monge argentino, me substituísse nas aulas sobre O Sermão da Montanha, texto contido no Livro de Mateus, curso obrigatório ministrado aos monges iniciantes, eixo primordial de todos os demais estudos no mosteiro. Embora eu adorasse esse texto sagrado por tanta clareza revelada, naquele momento, me faltava ânimo para ministrar as aulas. A minha mente parecia turvada. As minhas forças, exauridas. O raciocínio estava embotado, sem as mínimas condições para as indispensáveis progressões e expansões conscienciais. Sentei-me na cantina para tentar entender o que acontecia comigo. Quase que ao mesmo tempo, entrou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele pegou duas canecas com café, sem pedir licença, as colocou sobre a mesa e se sentou à minha frente. Como se soubesse como eu me sentia, afirmou com a voz mansa e pausada de costume: “Você não sabe pensar. Isto termina por drenar a sua energia vital. Quando acontece, os dias ficam descoloridos. É necessário aprender a pensar com urgência. Do contrário, será esmagado pelos próprios pensamentos”.
Sorri com certa dose de ironia. Todos pensam. Pensamos desde sempre. Pensamos o tempo todo. Pensamos até quando não queremos pensar. Se existia algo que eu não precisava aprender, era pensar. O bom monge me corrigiu: “Não me refiro ao fluxo ininterrupto dos pensamentos, algo comum em todas as pessoas, mas a maneira como lidamos com cada um deles. Isto define as enfermidades ou a saúde da alma”. De imediato, o meu sarcasmo desapareceu. Dei-me conta da importância daquela conversa. Ao notar o meu interesse, ele prosseguiu: “Todos os dias somos invadidos por torrentes de ideias das mais diversas origens. Acontecimentos recentes e remotos, lembranças boas e ruins, conquistas e frustrações, expectativas e suposições, ideias elaboradas ou pré-fabricadas”. Calou-se por instantes, como se buscasse por uma metáfora que me auxiliasse o raciocínio, e disse: “Pensamentos não são pratos prontos. São ingredientes. Quando usados e misturados sem critério nem controle na cozinha da mente, criam o caos pelos restaurantes do mundo, onde realizamos as nossas ceias existenciais, seja cada um consigo mesmo, seja nas relações interpessoais. Sem um bom cozinheiro para selecionar, preparar e harmonizar os ingredientes, os pratos terão sabores bem desagradáveis. Por vezes, podem envenenar”.
Pedi para que explicasse melhor. O Velho foi generoso: “Os ingredientes não podem ser utilizados sem o devido cuidado. Há que se limpar o peixe, tirar a casca do abacaxi e dosar o sal. Alguns precisam hidratar; outros, esperar pelo amadurecimento. Assim são com os pensamentos que têm, entre outras origens, os resultados das experiências oriundas das relações e dos acontecimentos. Todas geram conclusões, que servem de base para a formação das crenças. Não estreite o conceito de crença à religião. Entenda como crença tudo aquilo que acreditamos como verdadeiro. Por vezes, estamos certos e temos um ingrediente de qualidade para preparar bons pratos. Fartamo-nos com as delícias da vida. Noutras, estamos errados e fazemos uso de ingredientes podres. O resultado é desastroso. Os dias azedam”.
O bom monge acrescentou: “As crenças, em alguns casos, se originam das experiências vividas, no limite extremo da percepção e da sensibilidade de cada indivíduo. Uma elaboração interna pode ser boa ou ruim, trazer clareza ou nebulosidade, a depender da capacidade de cada indivíduo. É comum que uma mesmíssima situação seja compreendida de várias maneiras por diferentes pessoas”. Bebeu um gole de café e continuou: “Em outras situações, a crença surge de uma ideia externa, que nos chega pronta e a aceitamos como verdadeira; seja por lógica, servindo para escalar tons de compreensão, seja por comodismo, como maneira de nos deixar confortáveis no lugar de onde não desejamos sair. Do mesmo modo, pensamentos desconfortáveis são recebidos como convites à transformação por alguns, enquanto por outros, são rechaçados de imediato por aparentarem má-formação. Assim escolhemos os ingredientes que usamos em nossas refeições espirituais. Somos o exato reflexo das verdades que acreditamos. Elas nos moldam o comportamento e as escolhas. Forjam o caráter e o destino. Progresso ou decadência, movimento ou estagnação, alegrias ou tristezas, conquistas ou frustrações, encontros ou fugas, cada pessoa vive a realidade possível na última fronteira alcançada pela verdade que construiu em si e para si”.
Então, concluiu: “Enfim, tudo começa e termina por aprender a pensar. Pensamentos mal selecionados ou mal construídos conduzem a escolhas equivocadas. O inverso também se aplica: bons pensamentos e ideias bem elaboradas servem ao bem-estar e à evolução. Isto define a doçura ou a amargura da vida e, por consequência, a disposição ou o desânimo da caminhada. Todo poder e equilíbrio reside na mente”.
Os meus olhos pediam para que ele aprofundasse o raciocínio. O Velho compreendeu as palavras não pronunciadas e ponderou: “A partir daí, fica fácil entender que as tempestades existenciais são diretamente proporcionais aos equívocos das verdades que acreditamos e aos erros cometidos nas conclusões das situações que nos envolvem. O contrário também se aplica às pessoas que já conseguem trazer um sol radiante no coração. Faz-se necessário criar boas condições na mente para que os bons pensamentos encontrem motivos para ficar. Por hábito – alimentado por um tipo de prazer que, enquanto se manter inconfessável, não conseguiremos domar –, somos atraídos pelas tragédias. Isto explica a razão dos veículos de comunicação focarem nesse tipo de notícia. As tragédias, por sua vez, criam condições propícias para os maus pensamentos direcionarem escolhas e comportamentos desastrosos. Contudo, os hábitos não traduzem a essência de ninguém. A nossa essência é luz. Os hábitos surgem das influências e condicionamentos socioculturais, moldados por heranças ancestrais erguidas em conflitos, disputas, medos, culpas, rancores e outros vícios comportamentais ligados aos sentimentos de inferioridade – como o orgulho, a vaidade, a ganância, a inveja e o ciúme – que, em maior ou menor grau, ainda nos integram, compõem e fazem parte da nossa personalidade. De outra face, hábitos também se modificam, sendo remodelados a partir de uma nova postura com a qual o sujeito decide se relacionar consigo e com o mundo”.
Perguntei o quanto de um indivíduo é passível de transformação. O Velho respondeu: “O tanto de cascas, disfarces, enganos e arestas que ocultam a essência necessitam de descarte e reconstrução. Ninguém nasce pronto. Sim, todos têm hábitos, comportamentos, personalidades e temperamentos. Contudo, ao contrário do que muitos imaginam, essas características não são estáticas ou imutáveis. Em verdade, foram adquiridas ao longo da estrada do tempo. Logo, são transitórias e dinâmicas. É fundamental que seja assim, pois, do contrário, em nada serviriam à evolução que, por princípio, exige infinitas mudanças. Na sequência de contínuas transformações, aos poucos, a consciência amadurece e adquire condições para expressar a sua originalidade, raiz da beleza individual, que faz revelar os aspectos do ser e do viver que nos tornam únicos, gerando sentimentos autênticos de paz, dignidade e alegria, mesmo durante os momentos difíceis e conturbados dos dias. A origem dessa genuína revolução existencial está de acordo com a capacidade de selecionar ideias e elaborar as experiências para as usar em prol da própria evolução. Tudo e todos ao redor se beneficiam. Aprender a pensar é fundamental para conseguirmos amar mais e melhor”.
O Velho ponderou: “Quando não se aprende a pensar, os pensamentos ruins se sobrepõem aos bons, corroem a mente, esmagam o indivíduo e azedam a realidade. Instalam um império sombrio de amargura e sofrimento. Os melhores pensamentos são degredados para a consciência reprimida. Ficam exilados no inconsciente. Erros, desencontros, conflitos, abandonos, mágoas, cobranças e confusões se tornam crescentes e comuns ao cotidiano. Aos poucos, perdemos o melhor que nos habita, ficamos descrentes e irritadiços, cansados e desanimados. O amor, a alegria, a esperança e a fé restam desabrigados. A casa fica vazia de bons moradores. Lembre que cada um mora em si mesmo com os pensamentos que escolheu como companhia. Os pensamentos erguem e destroem universos interiores”.
O bom monge retornou à metáfora da cozinha para dirimir o meu questionamento: “Faz-se necessário retirar as cascas da superficialidade para encontrar o significado profundo dos acontecimentos: nele reside o doce do amor manifestado ou o azedo do amor sufocado. Por trás da verdade das palavras proferidas, existe a verdade inconfessável por ainda restar incompreendida. Esta revela muito mais do que aquela. Há mais sobre quem somos no que negamos e calamos do que naquilo que falamos. Assim é com todos. Mas não se preocupe em as descobrir nos outros. Antes, cuide de as encontrar em si mesmo. Essa será a sua riqueza e poder”.
Usei a mesma analogia para saber se existia uma receita para que os bons pensamentos voltassem a preparar bons pratos para serem servidos em minhas refeições existenciais. Ele disse sim com a cabeça e a detalhou: “É preciso limpar das palavras alheias os sentidos que nelas não cabem, que tanto aporrinham, iludem, enganam, furtam energia e, por isto, conseguem nos arrancar do eixo de luz. Muito pouco do que é dito tem a ver conosco. Do mesmo modo, quase nada do que falamos tem a ver com os outros. Quando alguém fala, expressa um olhar ou um sentimento, não necessariamente a verdade. Mostra a realidade como a compreende, os abismos que vê e as pontes que atravessou. Alguns abismos apontados mundo afora, muitas vezes, não passam de vazios interiores. Assim como, embora sirvam para muitos, nem todas as pontes suportarão a travessia de todos, pois levam para onde muitos não querem ir. Quando alguém cala, deixa um vazio que não se preenche com suposições. Apenas paciência e respeito, indispensáveis ao amadurecimento da verdade. Lembre que o cozimento em fogo lento é essencial para refinar o sabor das mais finas iguarias. O fogo alto das paixões não serve à textura delicada do amor e da sabedoria”.
Bebeu um gole de café e concluiu a receita: “Dosar em quantidades mínimas as expectativas e as preocupações, para que nunca falte à vida o mel dos sonhos, uma sobremesa que precisa constar em todos os cardápios. Em contrapartida, abuse da sensatez, como jeito seguro para jamais resvalar nos excessos típicos aos devaneios ou, tampouco, na escassez provocada pelos medos, culpas e mágoas, sempre tão insossos, azedos e desnecessários. Do mesmo modo, não se deve confundir os mecanismos equilibradores e fortalecedores da dignidade com as coerções típicas do moralismo que, em melhor análise, sempre escondem imoralidades marinadas em sentimentos rasteiros. No mais, bons pensamentos sustentam boas atitudes, ainda que ninguém entenda, concorde ou queira nos acompanhar. Nunca esqueça: a sua consciência basta para validar e autorizar os seus movimentos. Contudo, tenha maturidade para lidar com as inevitáveis consequências. Sejam quais forem”. Deu de ombros e concluiu: “Uma cozinha comandada por um chef sempre oferecerá um cardápio repleto de pratos maravilhosos. Sem um bom cozinheiro, será uma catástrofe anunciada”.
Perguntei quem seria o chef na cozinha da mente. O bom monge respondeu de pronto: “A consciência”. Indaguei como saber ou fazer para que a consciência esteja sempre no comando. O Velho esclareceu: “Não podemos nos confundir com os nossos pensamentos. Este é um erro comum e vulgar. Ideias das mais diversas estirpes atravessam a mente todos os dias. Todos temos bons e maus pensamentos, não há como os evitar. Contudo, temos o poder de decidir aqueles que usaremos como ingredientes para as refeições. Portanto, ainda que assolados por catástrofes, decepções, traições, frustrações ou notícias sobre os esgotos do mundo, temos a escolha de descartar as ideias que apenas servem ao azedume dos pratos”. Franziu as sobrancelhas e pontuou: “Quem desconhece ou não reconhece esse poder, ainda é um fantoche das circunstâncias. O proprietário que não entende o que acontece na cozinha, está longe de se tornar o verdadeiro senhor do próprio restaurante. Nenhuma reclamação será cabível se os frequentadores forem de péssima índole ou se as refeições restarem contaminadas”.
Ele prosseguiu: “Recuse os pensamentos que não servem à tarefa do bem e da boa transformação pessoal. Porém, antes, identifique as origens e os motivos. Ou seja, de onde vieram e por qual razão. Somente assim será possível, aos poucos, diminuir as suas presenças, até se tornarem insignificantes ou, antes disto, que consiga os descartar cada vez mais rapidamente”. Bebericou mais um gole de café e sugeriu: “Deixe ficar os que sustentam as virtudes e ampliam a verdade, pois, são indispensáveis ao equilíbrio emocional, à clareza mental e, portanto, indispensáveis ao aprimoramento das escolhas e ao bem-estar. Mesmo que o mundo, aos gritos, exija a adoção de uma ideia, acolha a consciência se, num sussurro, ela lhe sugerir uma postura diferente. Só se cria um cardápio original se valendo de receitas únicas”.
Por fim, o Velho abordou a questão dos sentimentos, os temperos que realçam ou estragam o sabor dos pratos: “A relação entre pensamentos e sentimentos é simbiótica. Há uma poderosa, porém, saudável e perigosa ligação que os retroalimenta. As emoções densas têm o poder de estragar as boas ideias. Os sentimentos sutis têm a força de desmanchar os maus pensamentos. Assim como o sal realça o sabor, o bem sentir apura o bom pensar. Para compreender os processos da mente se faz necessário entender os movimentos do coração. Enquanto não acontecer, viveremos atabalhoadamente tentando administrar as consequências das incessantes decisões equivocadas, sem admitir que fomos nós que as provocamos. Seguiremos no longo e penoso círculo vicioso de transferir responsabilidades, amaldiçoar a falta de sorte e lamentar as injustiças do mundo num comportamento que nos retém na imaturidade e nos drena a vontade de viver”. Deu de ombros, me lembrou do cansaço e do desânimo que me abatiam sem aparente explicação, e finalizou a conversa: “Ingredientes estragados contaminam os pratos; os comensais adoecem. Bons alimentos revigoram a saúde. Isto serve tanto ao corpo como à alma”.
O Velho alegou precisar se preparar para a palestra daquela tarde e se levantou. Receita dada, conversa encerrada. Para ele, não para mim. Era preciso arrumar aquelas ideias nas prateleiras da mente. Somente assim eu poderia fazer uso do poder que, embora sempre me pertencera, eu insistia em desperdiçar. Um movimento interno que, não apenas me devolveria a autoria dos meus rumos, como me permitiria recuperar a alegria e o ânimo perdidos nos becos escuros das minhas incompreensões. Com os seus passos lentos e seguros, o observei caminhar até onde os meus olhos não mais o enxergaram. Em silêncio, agradeci por mais aquela receita. Transformá-la nas mais finas ceias espirituais era a tarefa que me cabia. Caso, é claro, eu quisesse me tornar um bom cozinheiro.
