MANUSCRITOS VIII

As paixões

Sou um amante das manhãs de sol, mas confesso que um céu estrelado ou uma noite de lua crescente me trazem uma indizível inspiração de transcendência. Naquela madrugada, enquanto caminhava da estação de trem até a oficina do Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, pelas ruas tortas e estreitas da pequena e charmosa cidade, próximo à montanha que abrigava o mosteiro, tive como companheira uma lindíssima lua cheia, que me recitava poesias impossíveis de traduzir. Eram dias de empolgação, preocupação e ansiedade. Momentos assim, mais embotam do que clareiam a mente. Eu passara recentemente por uma transição angular. Depois de décadas como publicitário, havia deixado para trás um importante capítulo profissional para iniciar uma carreira como editor. Os negócios seguiam com as dificuldades comuns aos empreendimentos jovens, que, como qualquer ente imaturo, necessitava das experiências oferecidas pelas noites escuras, não apenas para amadurecer, mas também fazer com que a mais pura originalidade pudesse florescer.

Sou como o aço forjado no fogo, bradam os guerreiros. Sou como o barro moldado nas mãos do oleiro, sussurram os monges. Aqueles se valem da força para superar os obstáculos, enquanto estes escolhem a suavidade como meio para os atravessar. Os guerreiros lutam bravamente para sobreviver às noites escuras. Os monges simplesmente as navegam. Para aqueles, as noites são inimigas; para estes, valiosas professoras. Não existem para impedir, mas para ensinar. Eu era um guerreiro. Movia-me por paixão. Os dias eram de lutas e, por isto, se mantinham impróprios à navegação.

O dia ainda estava longe de amanhecer quando entrei na oficina do Loureiro. O encontrei confeccionando uma linda bolsa de couro grená, com a mesma mestria com que costurava ideias. Fui recebido com um sorriso sincero e um abraço apertado. O elegante sapateiro vestia uma camisa de linho azul claro, com as mangas dobradas até os cotovelos para não atrapalharem o serviço, e uma calça caqui de fina alfaiataria. Os sapatos de couro eram de fabricação própria. A barba branca era curta e bem aparada, ao avesso dos cabelos fartos que, embora também brancos, estavam rebeldes e despenteados. Sem demora, ele preparou um bule de café fresco e colocou duas canecas sobre o pesado balcão de madeira. A conversa fluiu com a naturalidade habitual de dois amigos que emendam assuntos como se fossem trechos de estradas sem fim.

Apesar das dificuldades inerentes aos novos negócios, o desempenho da editora superava as melhores expectativas. Graças, sobretudo, ao excepcional trabalho de um casal. Ele, escritor; ela, desenhista. Tinham vertido para o universo dos quadrinhos romanceados o livro A voz do silêncio, um clássico da Teosofia de Helena Blavatsky. Ao mudarem o formato da obra, a tornaram acessível a um maior número de leitores. Os vários ensinamentos extraídos do Budismo pela escritora, restaram mais facilmente compreendidos. A linguagem poética, e um tanto quanto hermética utilizada no texto original, foi substituída por imagens de ação. Embora o texto tenha ficado mais cru, expôs de maneira simples algumas práticas fundamentais à iluminação, até então incompreendidas por boa parte do público ocidental. O sucesso foi enorme e imediato. Eu havia adquirido os direitos internacionais de publicação. A experiência em alguns países da América Latina tinha sido bem-sucedida. Era hora do grande passo: o hemisfério norte.

Eu estava animadíssimo. Além de um tanto quanto preocupado. Ocorre que, na esteira do sucesso, os autores receberam uma fabulosa proposta de uma poderosa multinacional para que trocassem de editora. Essa empresa era, na verdade, um enorme conglomerado de editoras, presente em quase todos os cantos do planeta. O casal, claro, adorou a ideia e a oferta. A multinacional tinha um inegável poder de publicação e penetração, algo impensável à minha pequena editora. Contudo, era a minha chance de crescer. Eu era apaixonado tanto pelo meu negócio quanto pelo universo literário. Sequer cogitei a ideia de rescindir o contrato. Ainda que tivessem me oferecido uma boa indenização, a longo prazo, os meus lucros ultrapassariam, em muito, a oferta do conglomerado. No mais, eu queria fazer do meu jeito a edição de uma obra que fora descoberta e ganhara corpo dentro da minha pequena editora. Isto me encantava e me deixara apaixonado por todo o processo, da idealização à realização.

Com o conglomerado, o casal ganharia rapidamente muito dinheiro. Assim como eu, eles tinham sonhos. O que nos afastava era a questão do tempo. Eles tinham pressa. Era-me impossível acompanhar o novo ritmo que lhes fora proposto. Como resultado desse impasse, eu havia me tornado réu em uma ação judicial cuja finalidade era forçar a rescisão contratual. Contratei um renomado escritório de advocacia para que os meus direitos fossem respeitados. A lei estava do meu lado, me garantiram. Embora me afiançassem as enormes chances de sucesso nessa batalha jurídica, um veredito favorável não era uma garantia absoluta. Preocupações e incertezas me rondavam os dias. Dali a dois meses, haveria uma primeira audiência. As noites estavam maldormidas. Por enquanto, eu ainda conseguia resistir aos ansiolíticos. Não sabia até quando.

Narrei esses fatos ao sapateiro antes mesmo do primeiro gole de café. A ansiedade transbordava na fala rápida e nos gestos de impaciência, como se o tempo fosse um inimigo por demorar a me fazer as vontades. Loureiro me ouviu com atenção e sem qualquer interrupção. Ao final, comentou: “A reunião de todas as suas preocupações, inseguranças e medos é incapaz de lhe modificar o destino. Não se atenha a elas. De nada servem. Somente as suas ações têm tamanho poder. Caso não aprenda a lidar com as contrariedades inerentes à existência, compreendendo os aspectos educativos que oferecem, e como reagir da melhor maneira possível, terminará esmagado pela avalanche dos acontecimentos que desabam na contramão dos seus desejos e verdades”. Argumentei que eu enfrentava uma difícil batalha que poderia, sim, definir o futuro da editora. Eu era apaixonado pelo que fazia e estava determinado a fazer com que a empresa prosperasse. Disse, ainda, que as paixões eram poderosas alavancas para o progresso e para a luta. Afirmei que sairia triunfante daquele combate. O sapateiro deu ombros e pontuou: “Você jamais vencerá enquanto não entender os mecanismos de ação do inimigo”.

Perguntei se ele sabia algo sobre o casal que não fosse do meu conhecimento. Loureiro balançou a cabeça e esclareceu: “Não me refiro ao casal. Falo sobre as paixões”. Pedi para que explicasse melhor. O sapateiro ponderou: “Um genial alquimista francês escreveu que as paixões são como os cavalos. Se domados, são úteis e valiosos. Quando selvagens, derrubam os cavaleiros. Caso não domine as suas paixões, se tornará escravo delas até que nada mais reste de autêntico na sua vida. Nem suas vontades, nem os seus desejos. Nenhuma rota ou rumo. Nada lhe pertencerá. A paixão se tornará a sua dona, fazendo de você uma mera montaria”.

Ele bebeu um gole longo de café antes de prosseguir: “As paixões são parte da natureza humana. Logo, são neutras, não sendo a princípio boas nem ruins. A maneira de as vivenciar estabelecerá o polo positivo ou negativo. Quando dominadas, são bem usadas e servem para impulsionar as mais belas realizações. Se mal compreendidas, dominam o indivíduo e o esmagam em um triste processo de autodestruição”. Fez uma breve pausa e acrescentou: “O problema com as paixões reside nos excessos ligados aos desejos, ao querer sem medida, às vontades desenfreadas ou às necessidades extravagantes”.

Pousou a caneca sobre o balcão de madeira e prosseguiu: “É neste ponto que atropelamos os direitos alheios com a mesma insensibilidade com que passamos a tratar a nossa própria dignidade. Agimos com as pessoas de modo que não gostaríamos que fizessem conosco, caso os papéis estivessem invertidos”. Interrompi para saber como é possível identificar o domínio das paixões sobre a nossa consciência.  O sapateiro esclareceu: “Perceba se a mente está criando raciocínios tortuosos para justificar a ausência das virtudes ou para alterar a verdade, com a finalidade de que as escolhas se adequem às paixões descarrilhadas. Um dos sinais evidentes da supremacia das paixões sobre a verdade interior ocorre quando queremos nos tornar donos das situações para que, a qualquer custo, nossas vontades e necessidades se sobreponham às das demais pessoas envolvidas. As paixões fora dos trilhos da sensatez e do senso de justiça, fomentam o egoísmo, o ciúme, a ganância, o fanatismo, a manipulação, a coação, a chantagem, a mentira, entre outros vícios comportamentais. Ódios, mágoas e rancores são os sentimentos subsequentes às paixões descontroladas. Perdemos o que há de melhor em nós. Damos margem às sombras em detrimento à luz”. Em seguida, concluiu o raciocínio: “Indivíduos verdadeiramente livres se empenham em apenas ser senhores de si mesmos. As escolhas no concernente às suas próprias vidas lhe bastam. Para tanto, têm as paixões sob controle. Acredite, não é pouco. Os acontecimentos, assim como as verdades e as vontades dos outros, são apenas marés, ora favoráveis, ora contrárias, nas quais navegam com amor e sabedoria, sem qualquer contrariedade”.

Argumentei que aquele discurso não se aplicava ao meu caso. Havia um contrato que me garantia os direitos internacionais de publicação. Quando decidi apostar naquela obra, o trabalho deles já tinha sido recusado por diversas editoras. Poderia ter dado errado e eu teria perdido o investimento realizado, fato corriqueiro no mercado literário. Eu não os tinha obrigado a nada. Ao contrário, talvez eu tivesse sido a última chance do casal. Era possível até que desistissem do livro, caso eu não reconhecesse o valor da obra quando ninguém mais se importou com eles. Não era justo que os deixasse sair naquele momento tão promissor e angular aos negócios. Loureiro me enredou nas tramas do arco filosófico com uma pergunta: “Por que mantê-los amarrados a você?”.

Fiquei irritado. Indaguei se ele não percebia a ingratidão e a injustiça do casal em querer romper o contrato após eu os colocar em evidência. Jamais teriam recebido qualquer oferta milionária se eu não tivesse editado o livro de maneira tão caprichosa.  O sapateiro bateu com o dedo indicador no balcão de madeira para ressaltar as palavras e pontuou: “Não me refiro a dinheiro. Falo de liberdade, dignidade e paz. Não se preocupe com os erros ou acertos de ninguém. Concentre-se apenas nos seus. As atitudes dos outros não cabe a você dar direção. Cuide de fazer diferente e melhor, de um jeito nunca tentado. Se souber pensar, entenderá que não são as escolhas alheias que definem as alegrias ou as amarguras dos seus dias. A vida entrega a cada um conforme as suas ações. Nem um grama a mais nem a menos”.

Comentei que os acordos não podiam mudar só porque a realidade se modificara. Loureiro me desconcertou: “Por que não?”. Como titubei para responder, ele argumentou: “Sem dúvida, a manutenção da palavra dada é muito importante para a segurança das relações. Quando não se manifesta como orgulho e vaidade, é exercício de dignidade, liberdade e paz. Entretanto, as relações também necessitam de outras qualidades para se manterem saudáveis. É natural que a vontade mude quando o olhar se modifica. Então, por que manter um modelo de relação que não serve mais e, tampouco, apraz?”. Mais uma vez, fiquei sem responder. O sapateiro ponderou: “Nunca haverá uma boa razão para forçar a ficar quem deseja partir. Querer ir embora, evidencia o olhar de alguém sobre uma situação; não se opor à partida revela uma manifestação sublime de respeito por parte da outra pessoa. Se houve ingratidão ou injustiça, o problema não é seu, porém, deles. O mal que mais nos atinge não vem dos outros, é aquele que praticamos. Não obrigar a ficar quem tem vontade de ir, independentemente das promessas que foram feitas, também é exercício de dignidade, liberdade e paz”.

Questionei se ele considerava errado eu lutar pela manutenção do contrato. Afinal, era o combinado desde o início. Loureiro ponderou: “Você estará certo como muitos. Porém, se fizer diferente, estará certo como poucos”. Falei que não tinha entendido. O sapateiro explicou: “Não há nada de errado caso decidida lutar para manter o contrato. Assim determinam as leis, os contratos e os negócios. Será muito bom financeiramente para a editora. Contudo, os obrigará caminhar ao seu lado contra a vontade deles. Algo que não faz bem a ninguém. Se, de outra face, os deixar partir, encerrará a relação carcereiro-prisioneiro que se instalou a partir do momento que os olhares e os desejos se modificaram. Em contrapartida, você perderá uma quantia considerável”. Deu de ombros e concluiu: “O preço da paixão dominada nunca será fácil de pagar”. Franziu as sobrancelhas e aumentou o tom da seriedade: “Cabe a você decidir o que quer ganhar e perder”.

Eu quis saber a razão de tamanha dificuldade para se dominar as paixões. Loureiro respondeu de pronto: “O domínio das paixões exige abnegação, uma virtude rara”. O meu olhar pedia para que ele falasse mais sobre o assunto. O sapateiro entendeu: “A abnegação é a virtude que modifica a medida das prioridades existenciais. Ao invés de usar a régua das conquistas materiais para medir o sucesso de uma vida, passa a utilizar as conquistas espirituais como parâmetro de êxito e vitória”. Esvaziou a caneca e finalizou: “O certo e o errado, assim como o bem e o mal, têm muitas camadas de compreensão. Muito poucos estão prontos para ir às suas camadas mais profundas para, então, emergir com a luz de uma intensidade quase desconhecida e, por isto, pouco reconhecida. Apenas aos abnegados é permitido tamanho mergulho em si mesmos”.

O dia amanhecia. Os raios de sol invadiam a porta de vidro da oficina sem pedir licença nem desculpa. A minha carona – a caminhonete que todos os dias levava pão fresco para o mosteiro – não tardaria a sair. Havia muitas novas ideias a serem metabolizadas. Algumas estavam quase prontas, outras precisariam de mais algum tempo para o devido amadurecimento. Eu precisava pensar. Existia um dilema, mas também uma oportunidade. Eu precisava me preparar, caso quisesse ir a lugares desconhecidos dentro de mim. Somente assim, seria possível transitar pelos dias de um jeito que eu não conhecia.

Yoskhaz

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