MANUSCRITOS VIII

Abrir caminhos

Essa história aconteceu tem quase um par de décadas. Fausto, de quem eu era padrinho, filho de um dos meus melhores amigos, tinha se graduado em Engenharia Civil havia pouco tempo. Ao contrário das suas expectativas, o progresso profissional se mostrara lento, bem diferente de como ele imaginara, conforme me relatou quando me procurou. Os empregos oferecidos estavam bem aquém da sua capacidade. Eram cargos e funções nos quais jamais teria condições de expor o talento que possuía. Os seus caminhos estavam fechados. Intransponíveis. Todas as tentativas se mostraram infrutíferas, sem nenhuma boa razão aparente. Algo de anormal estava acontecendo. Fausto se lembrou das histórias que eu contava sobre a tia Francisca, a benzedeira de Madureira. Pediu para que eu o levasse até ela. Tinha certeza de que a boa senhora poderia lhe ajudar. Hesitei por alguns instantes, sem a convicção se era disso que ele mais precisava naquele momento. No entanto, como as orações só podem fazer bem, atendi ao pedido.

O Rio de Janeiro é repleto de personagens fantásticos que parecem transitar entre a realidade e a ficção em razão de suas incríveis características pessoais. Tia Francisca era uma dessas pessoas. Moradora de Madureira, um dos bairros mais icônicos da cidade, berço de artistas geniais e trabalhadores tenazes, a benzedeira morava na mesma casa simples que a conheci ainda garoto, levado pelas mãos do meu pai, preocupado com aquele menino que parecia habitar diversos mundos distintos a um só tempo. Apesar dos hábitos e condições humildes, possuía um modo culto e refinado de se expressar, fazendo a prosa se enamorar com a poesia. Sempre com as portas abertas, ela recebia almas aflitas que não compreendiam as aparentes incoerências da vida. Assisti muitas pessoas saírem de lá com uma luz no olhar que não existia ao chegarem ali. Quando queriam pagar pela reza, ela oferecia um sorriso doce, apontava com o queixo para o altar e falava, quase em sussurro, com sinceridade: “Agradeça ao Nosso Senhor Jesus Cristo, a Ele toda honra e glória. A mim, nada é devido”.

Como de costume, a encontrei sentada na surrada poltrona azul, da cor do manto de Nossa Senhora. Apresentei o meu afilhado a ela. Com um gesto gentil, sugeriu que Fausto se acomodasse em um pequeno banco de madeira à sua frente. A pedido da anciã, me sentei ao lado deles. Sem que fosse preciso perguntar, o jovem engenheiro, agoniado, explicou das improváveis dificuldades que o impediam de escalar os merecidos degraus profissionais. Pediu para que ela intercedesse junto aos bons Espíritos. Os seus caminhos estavam fechados. Não lhe parecia natural tantos entraves e obstáculos. Em seguida, elencou vários deles. A benzedeira o ouviu com infinita paciência, sem qualquer aparte ou interrupção. Ao final, sorriu com meiguice e pontuou: “Em primeiro lugar, jamais esqueça que Deus, independentemente de como você o compreenda, não privilegia as súplicas de um filho com mais atenção ou interesse do que a de outro. Não há distinção. Cuide apenas para que o seu pedido esteja de acordo com as suas necessidades, nunca dos seus desejos. Preste atenção também para que esteja eivado em justiça e amor. Nestas condições, todos são atendidos. Nunca nos moldes da imaginação mundana, sempre em prol do aprendizado e da evolução espiritual”. Fez uma breve pausa antes de esclarecer outro aspecto de extrema importância: “Nenhum lugar ou pessoa séria prometerá o que está fora da sua esfera de realização. Ninguém tem o poder de abrir os caminhos de outra pessoa”.

Fausto retrucou. Existiam igrejas e templos, assim como gurus e líderes religiosos, que garantiam tal proeza. Tia Francisca o corrigiu: “Você deve ter entendido errado ou eles faltaram com a verdade. Há vários lugares e pessoas que têm condições de oferecer as ferramentas indispensáveis a esse objetivo. No entanto, a obra é pessoal e intransferível”. O olhou com compaixão e continuou: “Embora, na medida do possível e da sensatez, todos devam ajudar a todos, a pavimentação do caminho e o consequente avanço são tarefas individuais. E tem que ser assim mesmo, ou retiraríamos da vida a função pedagógica de fomentar as transformações indispensáveis para que possamos nos tornar pessoas diferentes e melhores”. Ele voltou a contestar. Argumentou que viajava por um caminho intransitável. Era esforçado e inteligente. Havia estudado muito. Não fazia mal a ninguém. Era preciso que lhe fosse concedida outra estrada existencial, na qual houvesse meios para alcançar o que lhe deveria pertencer por merecimento. A benzedeira disse não com a cabeça e explicou: “Entenda você ou não, tudo está do jeito como deveria estar. A cada um cabe as exatas dores e delícias dos dias que atravessa”. Em seguida, vaticinou: “Se a estrada está ruim, não se lamente nem reclame. Apenas mude o seu jeito de caminhar. Do contrário, o caminho permanecerá igual. Ninguém poderá lhe ajudar”.

O jovem engenheiro respirou fundo para conter a impaciência, como se dissesse que não tinha ido a Madureira para ouvir aquelas palavras. Antes que se manifestasse, tia Francisca propôs uma reza para acalmar o seu coração: “Desequilíbrios emocionais turvam a clareza mental. Por isto, orações e meditações, assim como boas leituras têm grande valor. Quando a realidade vai na contramão da imagem irreal que temos sobre quem somos, restamos destruídos. Conhecer-se mais e melhor é a base da verdade e das virtudes. São os alicerces da reconstrução pessoal. O avesso disto nos conduz à descompensação, à estagnação e ao sofrimento, sem que tenhamos condições de entender que demos causa aos efeitos que nos envolvem e, por consequência, terminamos por fincar bandeira em um destino indesejado”. Ele se calou para que ela o benzesse. Passados alguns poucos minutos, nada havia mudado, salvo uma pequena, porém nítida, sensação de serenidade nas feições de Fausto. Um sinal de que a sua escuta estava um pouco menos obstruída.

Mais por gentileza do que por convicção, Fausto perguntou como a benzedeira poderia o ajudar a mudar o seu jeito de caminhar para que, enfim, os caminhos se abrissem. Com a generosidade e a paciência que lhe eram típicas, a benzedeira explicou: “Aquele que você é hoje, o trouxe até o presente momento existencial, mas não tem poder de o levar adiante. Quem você é está com a capacidade de movimento esgotada. Para seguir em frente, terá que se descontruir para que uma nova construção interna, diferente e melhor do que a atual, possa se erguer. Ninguém muda a maneira de se deslocar pelo mundo e pela vida sem modificar o próprio comportamento. Entenda como comportamento o modo de agir, reagir e realizar escolhas. Hábitos não definem a essência de ninguém, apenas demonstram o nível atual de consciência, que sempre poderá se elevar, caso o indivíduo tenha a firme determinação de modificar o seu jeito de olhar e lidar consigo mesmo. Todos os hábitos, por mais antigos e arraigados, são passíveis de transformação, caso o indivíduo compreenda que esses comportamentos usuais impedem o florescimento do melhor que há em si. A vida sempre responde no exato compasso ou descompasso dos nossos passos”.

Os olhos do engenheiro demonstravam interesse. Tia Francisca prosseguiu: “Para mudar o comportamento e, porquanto, a própria história, é preciso transformar a maneira de pensar. Pensamentos definem rotas que, por sua vez, determinam destinos. A mente é a janela pela qual a alma observa, entende e se manifesta. Pensamentos sutis ou densos têm o poder de abrir ou fechar janelas, de deixar a mente clara ou turva, de permitir que a consciência se expanda ou se retraia. Logo, os pensamentos têm o poder de ampliar ou estreitar a realidade – a percepção dinâmica que cada pessoa tem do mundo e da vida –, o lugar onde os caminhos se apresentam ou se escondem. Preste atenção ao tipo de ideias que ocupam a sua mente na maior parte do tempo. Não há como impedir que pensamentos corrosivos nos invadam, mas temos condições de os deixar passar, sem permitir que criem raízes. Quase todas as tormentas os têm como sementes”.

O rapaz argumentou que, de tempos em tempos, assumia compromissos de mudanças consigo mesmo. Ele disse saber da importância das constantes transformações. Ela o olhou com enorme compaixão e indagou: “O que acontece depois desse diálogo interno?”. Fausto admitiu que nada mudava. Confessou desconhecer o porquê. A benzedeira explicou: “Compromissos sem projetos viáveis e acompanhado de incansáveis ações direcionadas ao objetivo final, traduzem os sonhos que nunca se realizam. A rotina é fundamental ao sucesso. A rotina é a própria estrutura do caminho. Não existe rotina que sobreviva à falta de disciplina e determinação. Nela devem estar contidos, necessariamente, todos os elementos essenciais às modificações intrínsecas para que sirvam de sustentação às realizações extrínsecas. Haverá bifurcações, onde as escolhas se mostrarão determinantes como manifestação da verdade e da vontade mais íntima. Não faltarão tempestades para mostrar o quão firme estão construídos os pilares da consciência na moldagem de um novo jeito de ser e viver. As tormentas servem para carregar o que em nós nada mais acrescenta nem impulsiona. Então, abrem espaço para novo. O olhar fica mais claro; o coração aprende a se manter sereno e alegre a um só tempo. Os pensamentos ganham altitude, não pelos saltos dos devaneios, mas pelas asas do amor. As paixões restam dominadas, sem mais nos dominar. Passam a servir de impulso, não mais de desvario nem de descontrole. Assim, impensados caminhos nos dizem sim”. Deu de ombros e concluiu: “Eles sempre estiveram lá, a gente é que não os enxergava”.

Fausto comentou que aquelas palavras, repletas de poesia, tinham pouca praticidade. A mudança, ao menos a que pretendia, não dependia dele. Afirmou estar aprisionado às circunstâncias externas. Improváveis obstáculos impediam o prosseguimento natural da sua jornada. Repetiu os argumentos dos empregos inconsistentes e das remunerações insuficientes. Dos cargos e funções aquém da sua capacidade. Contou que o mercado de trabalho operava de maneira injusta e cruel. Empreender exigia um dinheiro que não tinha, além de envolver riscos bastante altos. Uma ansiedade atroz, acompanhada por uma agonia crescente, se instalavam como sentimentos inevitáveis. O que fazer quando nada é possível fazer, perguntou. Tia Francisca ponderou: “Ninguém está preso às circunstâncias do mundo, mas às crenças que tem sobre si mesmo. Orgulho, vaidade e ganância são frutos de sentimentos de inferioridade imperceptíveis ou inconfessáveis”.

O jovem engenheiro discordou com veemência. Não existia nele qualquer sentimento de inferioridade. Ao contrário, se sentia mais preparado e capaz do que a maioria da pessoas. A benzedeira balançou a cabeça e o indagou: “Entende agora a origem do orgulho, da vaidade e da ganância?”. Sem compreender o que ela queria explicar com aquele questionamento, ele não respondeu. A anciã esclareceu: “O orgulho, a vaidade e a ganância são sentimentos originados das fraquezas que recusamos a admitir. Por isto as chamamos de sombras, pois, ainda habitam nos becos escuros da mente. Temos dificuldade em perceber e admitir as suas manifestações. Sempre prejudiciais, nos valemos de raciocínios tortuosos e adjetivos falaciosos para as justificar.  Embora possam aparentar força e poder, não passam de armaduras rígidas usadas para disfarçar uma mente fragilizada e um coração despedaçado. Acreditar-se melhor do que alguém é um ato de traição da mente para com a consciência, na vã tentativa de evitar o esforço da reconstrução interna que cedo ou tarde terá de acontecer. Todo sofrimento é proporcional à negação ou ao desconhecimento que cada pessoa possui sobre si mesma”.

Bebeu um gole de café contido em uma caneca que ficava no chão, ao lado da poltrona, e ponderou: “O caminho se manterá instransponível ao viajante que se nega a desmontar as próprias armadilhas mentais. Não há engodo maior do que acreditar que merecemos a vitória antes mesmo de lutar e a alcançar por direito”. Pousou a caneca no chão e pontuou: “Transferir para o mundo a responsabilidade pelas nossas insatisfações e insucessos, em nada ajudará. A revolução é interior. A vitória também. O início de toda transformação começa com a coragem de reconhecer as próprias fraquezas. Assim nascem os fortes. Assim se estruturam as verdadeiras conquistas. Essa também é a fonte do genuíno amor pela própria evolução espiritual, a essência da vida. Um poderoso sentimento proveniente de uma consciência que não teme nem cede às dificuldades”.

Por fim, concluiu: “Nenhum trabalho é indigno. Aceite e faça o que estiver ao seu alcance. Trate a todos como gostaria que lhe tratassem na inversão de papéis. Agradeça as oportunidades com respeito e atitude. Toda dedicação será recompensada. Viva no limite da sua capacidade, sem esquecer de descansar e se divertir. Todos os dias, em qualquer situação, ofereça sempre o melhor que há em si. Retribua o mal com o bem, pois, este é o único meio para se livrar de toda a maldade. Por mais difícil que sejam as atribulações e dissabores, não esqueça que o mundo é perfeito à lapidação e ao aperfeiçoamento pessoal. Viva em paz e com alegria. A paz não consiste na ausência de tormentas. Isto se chama calmaria. A paz está em manter a clareza mental, o equilíbrio emocional e a força de movimento durante as tempestades. Do mesmo modo, a alegria não reside apenas nos acontecimentos agradáveis. Isto são bênçãos. O segredo da alegria está na capacidade de encontrar as maravilhas da vida durante o enfrentamento e a superação das dificuldades. É quando conseguimos trazer à tona a beleza oculta da alma. Não existe vitória maior”.

“No mais, como ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo, reze e vigie o tempo todo. Não os outros, mas a si mesmo. O maior poder da prece é pedir a ajuda dos bons Espíritos para nos inspirar na luta contra os maus pensamentos. O resultado deste bom combate determinará a abertura ou o fechamento dos caminhos. Tudo começa ou termina com os pensamentos. Este poder é seu. Sempre esteve nas suas mãos. Aprenda a usar”.

A conversa estava encerrada. Fausto agradeceu, mais por educação do que por satisfação. Contudo, notei algo de diferente em seu olhar. Ainda sem entender o motivo, ele estava desconcertado. Uma semente havia sido lançada. Se encontrasse solo fértil, floresceria. Despedi-me da tia Francisca e partimos. No trajeto de volta para casa, Fausto não disse palavra.

Nunca mais tocamos no assunto. Os diversos compromissos e projetos pessoais me afastaram do meu afilhado. Quando nos encontrávamos em alguma festividade, não tínhamos o que conversar mais a fundo. Até que, num certo domingo, pela manhã, fui surpreendido por um telefonema. Ele queria agradecer a tia Francisca. Disse que me pegaria em casa. Conversaríamos no carro, prometeu. Fausto estava diferente. Não pela barba que antes não havia, mas pela luz no olhar que antes não existia. Ele estava feliz. Contou que, alguns dias depois daquele encontro, um tanto quanto contrariado, aceitou o emprego de apontador no almoxarifado de uma obra, em uma construtora de grande porte. Uma função subalterna ao de engenheiro, a qual tinha se graduado. Nos momentos de insatisfação, afastava os pensamentos de contrariedade e se lembrava das palavras da benzedeira. Com o passar dos meses, começou a entender que aquele cargo lhe oferecia a oportunidade de conhecer aspectos subliminares de uma construção, que jamais conseguiria caso tivesse iniciado na empresa já como engenheiro, conforme a suas pretensões iniciais. Como apontador, teve a oportunidade de conversar com pedreiros e fornecedores, ouvir suas queixas e sugestões mais amiúde. Tinha acesso aos bastidores da construção. Era o primeiro e chegar e o último a sair da obra. Adquiriu um olhar diferenciado pela capacidade de entender a construção por um viés inusitado, impossível aos engenheiros e diretores da empresa. Um conhecimento que o fortalecia como profissional. Fausto impressionava pelas opiniões seguras e assertivas. Aos poucos ganhou a confiança da diretoria.

Na primeira oportunidade, Fausto ascendeu ao cargo de engenheiro de uma das obras. Logo aquela construção teve um desenvolvimento diferenciado. Os funcionários não apenas o obedeciam; eles o respeitavam, tanto pela postura digna como pelo saber minucioso. Naquela semana recebera outra promoção. Seria o engenheiro-chefe, responsável por todos os engenheiros da construtora nas demais obras. Os diretores o admiravam e confiavam nele. Perguntei se acreditava que, algum dia, seria convidado a fazer parte da diretoria. Fausto respondeu que não se envolveria com essa ideia. Manteria a concentração no trabalho, o realizando da melhor maneira possível. Tão e somente.  Afinal, os caminhos se abriram quando ele, no convívio diário com os seus pensamentos, deixara passar, como se fosse uma brisa da tarde, as ideias de orgulho, vaidade e ganância, enquanto encontrava um bom motivo e lugar para a humildade fincar as raízes. Aprendera que nada havia de bom em se deixar conduzir pelos maus pensamentos. Fausto rezava e vigiava os próprios pensamentos o tempo todo. Não queria tornar a perder o poder sobre si mesmo. O seu pacto era com as boas ideias, com o trabalho e com a luz. Ao contrário de todos os Faustos da literatura e dos séculos, ele não queria mais encontrar fechados os portões do seu destino.

Yoskhaz

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