TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Décimo quinto limiar – Os passos do sábio)

Eu estava de volta ao Oriente. Uma enorme quantidade de pessoas seguia por uma estrada em direção a uma montanha que podíamos avistar ao fundo. Andavam com determinação. Aproveitando a generosa sombra de uma enorme e florida cerejeira, alheio ao intenso movimento, um ancião esculpia um pequeno busto em madeira. Trabalhava sem pressa para terminar, como quem está em paz com o tempo. Abaixo do nível da estrada, um vale verdejante acolhia uma pequena vila. Ao me aproximar do ancião, pude perceber que a sua visão restara prejudicada pela idade. Ele precisava usar o tato para complementar a dificuldade dos olhos. Tirava lascas da madeira e com os dedos analisava a necessidade dos próximos ajustes e avanços. As suas feições transmitiam a serenidade de quem não mais se amedronta com coisa nenhuma. Fiz um elogio honesto à singela obra em andamento. O ancião sorriu com sincera alegria. Perguntei se ele era escultor, pois possuía muita habilidade. O homem comentou: “No momento, sim. Já tive diferentes profissões. Gosto de pensar que sou muitos em um. Isso me concede múltiplas perspectivas e infinitos olhares. A visão que os olhos não mais permitem se tornam desnecessárias quando se aprende a ver com a alma. As muitas experiências também me permitiram melhor depurar as ideias e os sentimentos. Acredito que esse aprimoramento do pensar e do sentir estabelecem o sucesso da existência de um indivíduo”. Encantado, murmurei um sim.

Em seguida, questionei para onde aquelas pessoas se dirigiam. O ancião explicou: “Reza a lenda que nesta região habita o maior sábio de nossa época”. Apontou para a montanha e disse: “Como lá existe um palácio onde alguns estudiosos se dedicam a elaborar textos sagrados; muitos acreditam que o tal sábio é um deles. Então, se dirigem ao local em busca de iluminação”. Perguntei se havia fundamento naquela história. O ancião arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Conheci muitos sábios. Todos misturados ao povo e à paisagem, sem nunca terem chamado atenção para eles mesmos. As pessoas costumam aplaudir a erudição e a pompa em desprezo à sabedoria e a clareza. Impressionam-se mais com o impacto da soberba do que com o poder da humildade”. Fez uma pausa e concluiu: “Enquanto não entenderem a busca, não encontrarão o tesouro”.

Indaguei como fazer para reconhecer um sábio. O ancião franziu as sobrancelhas e falou: “Os velhos sábios são sutis, enigmáticos, profundos e generosos”. Com a espátula arrancou mais uma lasca da madeira e, em seguida, conferiu com a mão se o talho tinha sido preciso. Sorriu com o resultado. Prosseguiu em sua breve explicação: “Ainda que tenham pouca idade, eles são velhos, pois a sabedoria e o amor datam do início dos tempos. Toda a sabedoria e amor já existiam muito antes de nascermos. Tornar-se um sábio trata-se de uma criação, mas também de um resgate. Faz-se necessário viver muitas vidas”. Fez uma pausa como se escolhesse as palavras e me lembrou: “Ninguém é sutil sem ser verdadeiramente humilde. Sutileza é o refinamento do espírito, apenas possível para aqueles que se livraram da casca para priorizar a essência. Nem todos entendem o valor disso”. Virou o rosto em minha direção e prosseguiu: “O sábio é enigmático por, ao invés de procurar a resposta, se dedica em compreender a pergunta que a traduz. Ninguém se define pelo próprio discurso nem se realiza na miragem das suas ilusões. As qualidades de uma pessoa se manifestam em sua capacidade de observar, pensar e de amar. Ser e viver de um jeito singular e sem igual é o enigma de cada pessoa. Isso faz o sábio falar sobre todas coisas sob o prisma de uma verdade que poucos estão pronto para compreender. A verdade será sempre enigmática para aqueles que não encontram a resposta certa por fazerem a pergunta errada”.

Voltou a dar mais um delicado corte na madeira antes de prosseguir: “Entender sem viver faz um erudito, jamais um sábio; assim como nada é um fim em si mesmo dentro da infinitude da vida. Depois de uma porta há outra. E outra; infinitas portas com luzes mais intensas atrás. Construir e seguir, sem se aprisionar a obra realizada; a genuína arte não conhece, tampouco se preocupa com o fim; apenas prossegue no refinamento em si mesmo. Em verdade, o artista é a obra que nunca ficará pronta. Poucos entendem isso, daí haver o enigma da criatura por não se aceitar como a sua única e autêntica criação. Muitos acreditam que as obras da existência são os palácios e templos que construíram. Um engano comum para olhares insensíveis”.

Um grupo de pessoas conversava em voz alta. Pararam em frente a casa e pediram para encher os seus cantis na fonte d`água que havia no jardim. O ancião fez um gesto gentil com a cabeça para que ficassem à vontade. Comentaram que seguiam rumo ao palácio na tentativa de falar com o sábio. Precisavam de orientação para os seus problemas. O ancião sorriu com amabilidade. Após se abastecerem, agradeceram a breve hospitalidade e seguiram rumo ao castelo.

O ancião prosseguiu: “A profundidade apenas se torna possível quando se aprende a pensar através de si mesmo. Em mim estão as equações para quaisquer soluções. Aquilo que não encontro em mim também não acharei no mundo. Não há dificuldade em ver uma semente de tamarindo; muito poucos conseguem enxergar a árvore em potência que aguarda invisível dentro do caroço. Quase nada adianta entender o que há na superfície, o valor consiste em compreender o que existe na profundidade de cada pessoa, coisa ou situação, onde há bem mais mistérios do que aparenta”.

Franziu as espessas sobrancelhas brancas e acrescentou: “Por isso a escuridão da noite apavora. Aquilo que não está às claras aguarda à espreita. Nem sempre temos os raios de sol para evidenciar tudo que existe. Nestes momentos, e eles são muitos, precisamos de luz própria para a exata leitura do momento que se apresenta. Não há como encontrar e acender essa luz sem uma caminhada ao âmago de si mesmo, no mesmo compasso em que se anda pelas estradas do mundo. São vias que se explicam por se completarem”.

Voltou-se para a escultura, fez mais um talho, avaliou com a ponta dos dedos e arqueou os lábios em um sorriso quase imperceptível de aprovação. Depois, disse: “Os sábios são generosos porque são dignos. Oferecem na exata métrica que gostariam de receber. Ajudam a iluminar os passos daquele que ainda não conseguiram acender a própria luz. Uma generosidade em forma de alegria, delicadeza, bondade, paciência, gentileza, tolerância, compaixão e bom humor. Acredite, um indivíduo ranzinza, irascível, intolerante, sisudo e mau humorado está longe de se tornar um verdadeiro sábio. Por falta de luz, reside na escuridão das incompreensões. Torna-se incapaz de encontrar a face luminosa de todas as pessoas, coisas e situações”. Deu de ombros e concluiu: “Os sábios costumam estar onde menos imaginamos”. Deu um sorriso travesso e disse: “Inclusive dentro de cada um de nós”.

Eu quis saber como reconhecer um sábio. Ele explicou: “Conhecê-los não é fácil, requer simplicidade. Ao contrário do que se imagina, ser simples é bem mais difícil do que se imagina. Exige viver sem subterfúgios, sem segundas intenções, sem as máscaras exigidas pelos costumes e preconceitos, sem os personagens inventados em busca de aceitação e aplauso. Ser simples é se pertencer; é viver sem enganos. Encontrar o encanto dos dias sem se corromper às inevitáveis pressões do mundo, de maneira coerente à verdade alcançada, com todas as suas partes harmonizadas sob um mesmo eixo, na intensidade da luz conquistada”.

Questionei como os sábios se portavam no mundo. Ele pareceu se divertir com a minha pergunta e comentou: “De mil maneiras, afinal somos únicos por sermos muitos; somos muitos em um único”. Fez uma pausa para me deixar compreender a ideia antes de prosseguir: “O sábio é aquele que descobriu a própria disciplina, mantendo o ritmo sereno de constantes transmutações. Isto o liberta dos obsoletos modelos à medida que deixam de servir aos seus avanços”. Indaguei se a transmutação seria uma regra. Ele pontuou: “Ninguém é obrigado a nada. Porém, entenda que o mundo será sempre um reflexo da realidade alcançada pelo olhar de quem o observa. Isto define alegrias e tristezas; evolução ou estagnação. Tudo que vivo hoje são consequências do que causei. Nada escapa do ajuste; não se trata de vingança, mas aprendizado e justiça. Ao invés de lamentar, aproveite com alegria”.

Fez um gesto com a mão como se falasse o óbvio e pontuou: “Isso faz que sábios fiquem atentos, como quem atravessa a noite escura. Sempre haverá perigo tanto dentro quanto fora da gente. Eu diria que a noite oferece mais riscos dentro do que fora. As tentações e os desejos são muitos. Tropeçamos nas próprias pernas. As emoções são facilmente envolvidas pelas sombras, que permanecerão nos dominando enquanto não forem iluminadas. Qualquer descuido é suficiente para nos levar ao chão. Deixar de corrigir as próprias imperfeições equivale a errar de novo. Não será o fim, mas se fará necessário iniciar mais uma vez; muito trabalho restará perdido”.

Comentei que os sábios me pareciam pessoas frágeis, fáceis de aprisionar e maltratar. Diferente dos bravos guerreiros. O ancião segredou: “Os sábios são difíceis de conter, sãocomo gelo ao Sol. Os rudes somente conseguem reter aquilo que seguram pelos dedos”. Voltou a me olhar como se fosse capaz de ver a verdade além das cortinas diante dos meus olhos e esclareceu: “Quem vive pelo espírito nunca restará aprisionado. Quem vive pelas riquezas das virtudes está além das algemas da fortuna, não será coagido pelas delícias da fama nem pelos deleites dos privilégios. Nada pode perder porque não há coisa nenhuma que os poderosos do mundo possam lhe subtrair. É impossível encontrar um cárcere capaz de aprisionar um indivíduo verdadeiramente livre na amplitude do pensar, na profundidade do sentir e na simplicidade do agir”.

A minha alma pedia para que ele continuasse. O homem parecia ouvi-la: “Os sábios são autênticos como o cerne da madeira.O cerne é o núcleo onde se guarda a parte vital e mais pura do ser. Quem o alcança é sincero, honesto, firme, confiável e justo. Não existe mais qualquer casca entre a essência e o essencial. Essa clareza os torna férteis como os valesfloridos, abundantes e prósperos que são abençoados pelas chuvas e irrigados pelos rios que descem das montanhas. As águas, ora das nuvens, ora do interior do solo, são as vozes da intuição, fartas em amor e sabedoria, que chegam dos céus e da alma. Nada falta porque tudo são. Ao frutificar na alma, a luz do sábio alimentará o mundo em suas ceias espirituais. Todas as pessoas são convidadas, poucas comparecem”.

Perguntei ao homem o que acontecia quando um sábio enfrentava momentos complicados ou cometia equívocos. Ele explicou: “Quando tudo se torna turvo, se aquieta e silencia;aguarda a visão clarear.Momentos de tumultos e conflitos se equivalem às tempestades. O céu fica tomado por nuvens densas, a névoa não permite o olhar de longo alcance. A vida se estreita como tudo terminasse ali. Muitas vozes gritam dentro e fora da gente. São como tambores convocando para a guerra. Não é o momento adequado para nenhuma decisão. É hora de quietude e solidão para que seja capaz de ouvir as palavras serenas da alma, que trará a paz necessária para encontrar as impurezas que atrapalham o viver. Em seguida, arrancá-las de si. Fortalecido, se movimenta e retorna à criação, sem qualquer desejo de vingança, vontade de se sobrepor a ninguém ou de impor a própria verdade sobre a de outra pessoa; apenas segue no empenho da construção de si mesmo, a Grande Arte. Como se nega a ouvir as vozes da guerra, muitos o imaginam pequeno por não possuir o poder de um imponente imperador ou as glórias de um bravo general. No entanto, ali vive um gigante invisível. Embora possa ter dimensões físicas acanhadas, é dono de uma força mental e equilíbrio emocional descomunais; uma fonte luminosa de sabedoria e amor”.

Tornou a fazer uma pausa e, sem alterar o tom suave na voz, me contou um segredo: “Toda a sabedoria reside em não se deixar encantar pelos feitiços esfuziantes dos privilégios da fama, da política e da fortuna, tampouco em sobrepor o seu interesse ou desejo sobre a verdade de ninguém. Aquele que segue no Caminho não se orienta pelos brilhos. Assim, não se afasta da Luz”.

Havia uma série de dúvidas que eu ainda queria dirimir com aquele homem, quando fomos interrompidos por uma simpática senhorinha, avisando que estava na hora de retornar à pequena vila situada no vale. Ele guardou as ferramentas, assim como a pequena estátua ainda inacabada em uma sacola de couro. Depois a transpassou no ombro, agradeceu a conversa e, apoiado na bengala, partiu. Olhei para a multidão que seguia rumo ao castelo, incapaz de perceber onde estava o sábio que tanto procuravam. Andei em sentido contrário à turba. Na primeira curva, uma mandala surgiu em convite ao prosseguimento da viagem.

 

Poema Quinze

 

Os velhos sábios são sutis, enigmáticos, profundos e generosos.

Conhecê-los não é fácil, requer simplicidade.

Atentos, como quem atravessa a noite escura.

Difíceis de conter, como gelo ao Sol.

Autênticos como o cerne da madeira.

Férteis como os vales.

Quando tudo se torna turvo, se aquieta e silencia;

Aguarda a visão clarear.

Fortalecido, se movimenta e retorna à criação.

Aquele que caminha no Tao não busca o brilho.

Assim, não se afasta da Luz.

 

5 comments

Cris Matsuoka fevereiro 23, 2022 at 5:13 pm

Não sei qual a magia de transformação está em seus textos, yoskaz, mas a verdade é que tudo que leio em tempo real de produção, se assemelham aos meus aprendizados do momento. Toda palavra soa como um guia para o caminho. Agradeço 🙏

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Terumi fevereiro 25, 2022 at 11:41 pm

Gratidão 🙏

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Gustavo Mota março 9, 2022 at 3:57 am

Muito obrigado e parabéns. Há quanto tempo, amigo Yoskhaz. Fica com Deus

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Fernando março 18, 2022 at 10:58 pm

Gratidão profunda e sem fim, sem fim…

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Luiz Carlos Dias junho 7, 2022 at 12:46 pm

Gratidão pelos ensinamentos, seus textos são de uma realidade que muitas vezes me vejo no local e conversando com seus personagens. Namastê.

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