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	<title>Yoskhaz &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>Yoskhaz &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Desatar nós</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Nov 2025 14:16:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">O ônibus me deixou em frente à estalagem da pequena vila chinesa na subida para o Himalaia. A dona do estabelecimento me entregou a chave do quarto com a indiferença de sempre. Deixei a mochila e parti em direção à residência de Li Tzu, o mestre taoísta. Ainda faltava um par de horas para o anoitecer. Como de costume, o portão da casa estava aberto. Atravessei o lindo jardim de bonsais sob o perfume do incenso de jasmim que emanava do interior da residência. Notei pendurada no umbral da cozinha, de modo que todos a vissem, uma corda com vários nós atados. Não me lembrava de tê-la visto antes. Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, me olhou entediado de cima da geladeira, virou a cabeça para o lado e tornou a dormir. Fui recebido por Li Tzu com um sorriso afável e uma xícara de chá quente. Sentados à mesa, perguntei sobre o significado daquela corda repleta de nós. O mestre taoísta explicou: “Trata-se de uma simples ilustração para lembrar a todos que os ensinamentos do Tao Te Ching terão pouca serventia caso o indivíduo não consiga enxergar, entender e desmanchar os nós existenciais acumulados ao longo da existência que o prendem e limitam. Um importante exercício evolutivo. O verdadeiro campo de batalha está no âmago de cada pessoa. O jeito como atravessamos o mundo é apenas o seu reflexo”. Indaguei se ele conseguia ajudar aos alunos. Li Tzu manteve a sinceridade habitual: “Muito pouco. Entrego somente um mapa e uma bússola na plataforma de embarque. Nada mais do que isto. Essa viagem não permite acompanhantes. Aos guias, apenas é possível orientar à distância”. Deu de ombros e ressaltou: “Por se tratar de um movimento interno profundo, ninguém jamais conseguirá desamarrar os nós de outra pessoa. Cada uma precisa fazer isso por si mesma. É um ato íntimo, luminoso e solitário. Exige determinação, coragem e amor-próprio. Como gesto de genuína libertação, desatar os nós é parte da arte aprendida pelos viajantes a caminho da luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei como se desata um nó. O mestre taoísta se levantou, retirou a corda pendurada no umbral e me entregou. Disse para que eu o fizesse. Fui ao miolo de um dos nós, aliviei a pressão da corda e desfiz a amarração. Ele me questionou: “Por que não o desatou pelas pontas da corda?”. Respondi que não seria possível. Somente é possível desatar um nó a partir do ponto central. Li Tzu sorriu satisfeito e comentou: “Assim também acontece com os nós existenciais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber no que consistia os referidos nós. Ele esclareceu: “Há muitos tipos. Os mais comuns são as mágoas e as culpas. Ficamos magoados ou nos sentimos culpados por diversos motivos. Ao longo da existência, lidamos com abusos, ofensas e traições de diferentes nuances e matrizes. São produtos amargos resultantes de experiências mal-elaboradas e ainda incompletas. O sentimento ácido que emerge nas vezes que a lembrança vem à tona não é o único problema. Embora seja o mais perceptível, não é o mais danoso. Esses sofrimentos, enquanto não curados, encurtam as possibilidades de movimento e amiúdam a realidade. O mundo e a vida se estreitam quando verdades, bons sentimentos e diferentes escolhas restam reprimidas ou negadas. Tudo que acreditamos impossível se manterá invisível, como se não existisse, enquanto não nos permitirmos uma melhor compreensão. Assim como todos os outros nós, as mágoas e as culpas nos dominam, anulam e esgotam. Ficamos impedidos de ir além de quem somos ou de onde estamos, dentro e fora da gente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste instante, fomos surpreendidos com a entrada de Maria de Guadalupe. Eu a conhecera em outro período de estudos. Mexicana, com cerca de quarenta anos de idade, tinha estatura mediana, pele morena, cabelos negros encaracolados, na mesma tonalidade dos olhos. Usava enormes e lindos brincos coloridos. Com uma conversa inteligente e agradável, a simpatia lhe era uma marca registrada. Uma mulher de iniciativa e atitude, que demonstrava saber quem era, o que queria e para onde ia. Recordei ter ouvido duas jovens comentarem que gostariam de ser como Maria de Guadalupe, <em>uma mulher que preenche todos os espaços do ambiente onde está</em>. Ainda que pese a sua impactante presença, havia uma disfarçada tristeza em seu olhar. Como se as ondas agitadas da praia desviassem a atenção dos segredos escondidos nas águas profundas do mar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria assistira as aulas da manhã, quando Li Tzu explicara as razões de ter pendurado no umbral da cozinha a corda com os nós. Aquilo a impressionara sobremaneira. Disse que precisava conversar. O mestre taoísta a convidou para se sentar à mesa conosco. Em seguida, lhe serviu uma xícara com chá. Nada perguntamos, e nem foi preciso. Com os olhos marejados, antes mesmo de provar o chá, Guadalupe confessou estar cansada. Muito cansada. Então, nos contou a sua história. Ou uma parte dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filha única de pais muito exigentes, teve uma educação rigorosa, repleta de atribuições severas. Cresceu com obrigações para além da sua idade. Acostumara-se a resolver os problemas da família. Aceitara o fardo sem questionar ou reclamar. Para esquecer a dor de abdicar das próprias escolhas, gostos e interesses, inventou a personagem da heroína sempre disposta a ajudar as pessoas a solucionar os seus problemas. Sentia-se obrigada realizar tarefas que não eram suas. Com o passar do tempo, ela e os outros achavam isso natural. Considerava-se uma mulher generosa, bem-resolvida e resolutiva. Condicionara-se a assumir responsabilidades que não eram suas. Sem saber como reagir, preferiu acreditar que o abuso era virtude e prazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda bem jovem, se casou com Moacir, um charmoso aspirante a músico com muito entusiasmo e pouco talento. Por vício comportamental, Guadalupe repetiu o padrão: recaiu sobre ela as obrigações que deveriam ser compartilhadas pelo casal, uma vez que o marido se recusava a procurar outro trabalho. Insistia em viver da música que nada lhe rendia, salvo a boemia em bares mal-afamados. Logo se tornou mãe, aumentando os próprios níveis de compromissos e exigências. Desde a adolescência, trabalhava em uma fábrica de papel durante o dia e estudava à noite, sem se descuidar dos serviços da casa. Com o passar do tempo, após a graduação universitária, galgou vários degraus dentro da empresa. Tinha um bom salário, compatível com o cargo que alcançara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pacato, porém, indolente, Moacir em nada colaborava com as despesas do lar. Embora não fosse um bom marido, era um pai atencioso e amigo do filho, já um jovem adulto. Este, apesar de ter se tornado uma rapaz amoroso, não gostava de estudar e, como se não bastasse, tinha apreço pela vida descompromissada do pai, a quem considerava <em>um homem livre</em>. Apesar do carinho que possuía pelo marido, não o amava mais. Sentia-se desconfortável em casa. Achava injusto o modelo de relação familiar. Contudo, afastava a ideia de separação. Era uma mulher digna. Assumira compromissos e responsabilidades. Sabia que eles passariam por enormes dificuldades se decidisse ir embora. Viveram desde sempre em absoluta dependência do trabalho dela. Não levaria dor àqueles que queria bem. Como em um dilema sem solução, não gostava do que lhe prendia, mas também não sabia como desfazer o nó que lhe atava. Estava onde não queria mais estar, mas era melhor ficar. Confessou que se sentiria culpada caso algum dia partisse, ainda que ficar significasse aceitar a infelicidade como o único e definitivo sentimento que lhe cabia. Talvez fosse o seu carma, ponderou. No entanto, estava resignada, admitiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Li Tzu a ouviu sem interrupções. Depois, com candura nos olhos e voz serena, comentou: “Os nós precisam ser desatados o quanto antes, sob o risco de termos a alegria estrangulada e a existência desperdiçada. Conseguimos desamarrar os nós quando revisitamos acontecimentos para refazer o entendimento, seja sobre o sentimento provocado por determinada experiência, seja pelo comportamento que insistimos em manter apesar dos resultados dolorosos. Todo nó surge na crença de inexistir um jeito diferente de lidar com determinadas situações. Com o passar do tempo o nó aperta. Por vezes, sufoca. O sofrimento parece inevitável e sem fim. Acreditamos que o tempo se encarregará de tudo. Ledo engano. O tempo nada cura. Apenas lança camadas de areia sobre a dor, como se fosse possível a esconder. Em conluio com o tempo, mentimos para nós mesmos dizendo que estamos bem. Não existe mentira maior. Ninguém fica bem quando a vida se apequena enquanto há muito mais à espera”. Li Tzu argumentou: “Todo sofrimento é resultado dos elementos errados que usamos para elaborar as experiências vividas. Algumas experiências ainda não terminaram. Alguns movimentos precisam ser reprocessados com elementos nunca utilizados. Quando o resultado muda, o nó se desfaz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Guadalupe quis saber como fazer isso na prática. O mestre taoísta bebericou o chá e explicou: “Vamos realizar o trajeto da sua fala de trás para diante. Ao relatar as suas dores, você termina por dizer que não tem escolha. Está aprisionada à condição de cuidar do marido e do filho, adultos saudáveis, porém, indolentes. Acredita que esse seja o seu carma. E que está resignada quanto a isso. Vive envolvida em sentimentos amargos porque elabora a experiência com esses elementos de convicção”. Ela balançou a cabeça como dizendo de que era isso mesmo. Li Tzu mostrou a bússola para uma nova orientação: “Carma não é prisão, é aprendizado. Ficaremos amarrados a sentimentos densos e corrosivos enquanto não encontrarmos um jeito diferente de lidar com a situação. Sempre há escolhas”. Guadalupe explicou que estava cansada de conversar com Moacir e com filho. Eles se mostravam insensíveis a qualquer mudança. O mestre taoísta ponderou: “A insistência para mudar os outros é o exercício dos tolos. Para haver mudanças é preciso um novo nível de compreensão. A firme vontade de deixar para trás quem sempre foi para se tornar outro. Equivale a um renascimento. Isto também serve para você. Cada um é responsável pelo modo como vive, assim como pelas dificuldades que enfrenta. Aceitar esse compromisso se denomina maturidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa antes de prosseguir: “Resignação é a aceitação do inevitável. Há muita sabedoria em entender o fato consumado. Uma determinada situação pode estar finalizada, como uma demissão, separação ou falecimento, por exemplo. Contudo, o sofrimento dela decorrente não é um sentimento definitivo. Haverá dor enquanto não houver uma mudança no olhar. Somente assim se inicia uma transformação. A resignação não serve como fuga nem significa desistência. O fato pode estar consumado, mas se existe dor, a experiência ainda está em andamento. Em algumas, os movimentos internos bastam para a cura. Noutras, há a necessidade de deslocamentos pelo mundo. De um jeito ou de outro, ninguém pode ficar resignado diante do sofrimento de uma experiência que ainda não terminou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria disse que se sentiria culpada se os abandonasse. Eles enfrentariam sérias necessidades. Li Tzu esclareceu: “Não se deve abdicar da caridade nem da solidariedade. São autênticas potências evolutivas. No entanto, se faz necessário entender que as dificuldades são ferramentas de desenvolvimento existencial, moldam o caráter e aperfeiçoam as capacidades pessoais. Ajude sempre que possível, mas tenha o cuidado de jamais trazer para si a responsabilidade que não lhe cabe”. Ela perguntou qual era o limite entre a caridade que salva e o auxílio que prejudica. O mestre taoísta explicou: “O progresso é a fronteira almejada. Todo ato que retarda a evolução é prejudicial. É contrário à luz. Aja sempre de modo a fortalecer os envolvidos, mesmo que isso lhes contrarie o desejo e o costume. A ajuda indevida sobrecarrega uns para enfraquecer os demais. Todos perdem. Auxilie quem precisa se levantar, mas não carregue ninguém nas costas. Interferir na viagem daqueles que precisam aprender a caminhar com os próprios pés é o avesso do amor. Por vezes, diante do abismo, a genuína caridade não consiste em oferecer asas; está em deixar que construam as pontes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela indagou se o mestre taoísta se referia ao marido e ao filho, que eram adultos saudáveis. Liz Tzu pontuou: “Falo de todos que abusam da generosidade alheia por recusar o esforço ao trabalho ou à transformação pessoal. A culpa é uma invenção maléfica. São como rédeas invisíveis colocadas no coração. Somos conduzidos por mãos que não as nossas. Temos as emoções manipuladas. A liberdade e a felicidade restam suprimidas. Um processo de dominação dissimulado e atroz. O limite da caridade está na responsabilidade de cada indivíduo em buscar e desenvolver as próprias capacidades. De progredir moral, emocional, mental, profissional e espiritualmente. A generosidade é sagrada pelo poder de cura que oferece ao mundo. Entretanto, o abuso desta virtude gera sofrimento porque fomenta o vício do domínio e da estagnação. Criam-se dependências desnecessárias. Por fim, todos se atrapalham”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Guadalupe se calou por alguns instantes, como se mergulhasse fundo em si mesma para trazer algo há muito escondido. Depois, se confessou magoada com todos aqueles que abusaram da sua generosidade. Li Tzu lhe corrigiu o raciocínio: “Ainda que tenha sido educada a servir aos outros indevidamente, você continua a permitir os maus-tratos quando se recusa a reagir de outra maneira. Segue magoando a si mesma por negligência, comodismo e falta de coragem. Nega-se à mudança. Nega-se a conhecer o verdadeiro amor. Acredite, o que mais a magoa não é como os outros a tratam, mas a maneira como continua se maltratando”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria bebeu alguns goles de chá sem nenhuma pressa. Ela precisava de tempo para alocar aquelas ideias, como um viajante que pela primeira vez se depara com um mapa desconhecido, se dando conta de que há outros caminhos diferentes daquele que sempre percorreu. Ao esvaziar a xícara, perguntou ao mestre taoísta se, ao falar <em>não</em> quando sempre disse <em>sim</em>, o nó desataria. Li Tzu ponderou: “Sim e não”. Em seguida, explicou: “A resposta é sim, porque, ao processar a experiência com novos elementos, você alcançará diferentes resultados. O <em>não</em> é libertador quando substitui o <em>sim</em> que nos maltrata e desagrada. A depender das circunstâncias, existe amor tanto em dar quanto em negar. Entretanto, para não haver recaídas nem tropeços emocionais, a mudança de postura precisa estar respaldada na clareza e na firmeza de um novo olhar”. E complementou o raciocínio: “A resposta é não, enquanto restar o menor traço de mágoa. Seria como afrouxar o nó sem o desatar definitivamente. Não pode faltar o perdão, seja aos outros, seja para si mesma. O passado precisa servir de escola, jamais se tornar uma prisão. Sem essa compreensão, a trajetória restará incompleta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Guadalupe lamentou que os seus relacionamentos a tivessem prejudicado tanto. O mestre taoísta tornou a corrigir o raciocínio: “Ao contrário do que muitos acreditam, os relacionamentos difíceis e complicados, apesar de não serem desejados por motivos óbvios, são os melhores laboratórios ao autodescobrimento e aperfeiçoamento pessoal que existem. São esses <em>cientistas existenciais</em> quem mais costumam progredir em suas transformações e reconstruções. Desde, é claro, que saibam aproveitar as oportunidades com amor e sabedoria, sem se perder em crenças infundadas, desânimos e lamentações inúteis. A vida se descortina na mudança do olhar, e se transforma quando aperfeiçoamos os movimentos internos para que sirvam de sustentação segura aos deslocamentos pelo mundo”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Guadalupe perguntou como deveria, na prática, agir com a família. Li Tzu deu de ombros e manteve a habitual sinceridade: “Não faço a menor ideia. Foi-lhe oferecido a bússola e o mapa. A viagem é sua. Aprender a tomar as próprias decisões é exercício evolutivo de percepção, sensibilidade, aprimoramento de virtudes e conhecimento da verdade. Lembre-se de que as consequências das suas escolhas recairão sobre você. Enquanto não aceitar desafio e a responsabilidade pela reconstrução de si mesma, assim como a definição da rota pela qual atravessará a vida, continuará sendo aquela que os outros querem que você seja, sem nunca chegar a lugar nenhum”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerramos aquele período de estudos sobre o Tao Te Ching sem mais tocar no assunto. Encontrei com a Maria dois anos depois em um congresso para editores latinos em Buenos Aires. Como representante de uma multinacional fabricante de papel, ela era responsável por oferecer aos editores um tipo de papel pólen, de alta qualidade, produzido de modo menos agressivo ao meio-ambiente. Convidou-me para um café. Disse que queria me contar algumas coisas. Fomos a uma agradável cafeteria na Recoleta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após retornar ao México, Maria conversou com o marido e o filho. Tinha decidido se separar de Moacir e estava disposta a incentivar o filho a desenvolver as próprias potencialidades. O rapaz disse que, pela afinidade que havia, ficaria morando com pai. Ela deixou a casa para eles e depositou uma boa quantia na conta de cada um. O suficiente para se manterem por mais de um ano, caso tivessem as despesas regradas e sob controle. Tempo suficiente para conseguirem um emprego. Poderiam também usar o dinheiro para montar um pequeno negócio. Ambos ficaram satisfeitos. Assim, Guadalupe partiu. Foi morar em um apartamento em outro bairro da cidade. Passados alguns poucos meses, a procuraram. Não tinham emprego nem negócio. O dinheiro acabara. Precisavam de mais. Foi quando Maria entendeu que aquele era um momento angular: se mostraria capaz de desatar o nó das emoções manipuladas ou prosseguiria guiada pelas rédeas da culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alicerçada na própria consciência, afirmou que não daria nem mais um tostão. Estavam aptos a trabalhar e ganhar o próprio sustento. Não havia ajuda melhor. Revoltados por não serem atendidos como de costume, gritaram ofensas e maldições. Apesar das acusações de insensibilidade e impiedade, Guadalupe não se abalou. Manteve-se firme, serena e irredutível. Embora uma leitura superficial pudesse indicar uma atitude de abandono ou egoísmo, em verdade, era ato de crescimento e redenção. O bem-estar proporcionado pelos bons tratos de como passou a se tratar, fez a mágoa se dissolver. Foi envolvida por uma paz até então desconhecida. Aprendera mais sobre o amor ao reelaborar aquela experiência familiar do que em mais de quatro décadas de existência. Vivia sentimentos que até então acreditava impossíveis. O seu olhar e sorriso afiançavam as suas palavras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que ela havia vencido o mundo. Maria negou. Disse que vencera a si mesma. E isto bastava para se sentir digna e livre. Retirou da bolsa o pequeno livro do Tao Te Ching e me mostrou a estrofe inicial do poema trinta e três:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<em>Vencer os outros é destruição,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Vencer a si mesmo é iluminação</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela tinha razão. Do coração de uma mulher nascera a mesma mulher. Embora fosse a mesma, era outra. Os nós existenciais finalmente estavam desatados. Brindamos à transformação com duas xícaras de espresso duplo.</p>
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		<title>Recomeçar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Sep 2025 15:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Era uma tarde modorrenta de uma segunda-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Eu tinha trabalhado desde cedo. Decidi encerrar o expediente. Antes de voltar para casa, caminhei pelas ruas transversais, tranquilas e arborizadas da Gávea até uma cafeteria escondida dos burburinhos da cidade. Funcionava no térreo de um antigo casarão...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Era uma tarde modorrenta de uma segunda-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Eu tinha trabalhado desde cedo. Decidi encerrar o expediente. Antes de voltar para casa, caminhei pelas ruas transversais, tranquilas e arborizadas da Gávea até uma cafeteria escondida dos burburinhos da cidade. Funcionava no térreo de um antigo casarão do bairro. Não havia placa ou letreiro na fachada. O portão aberto e as luzes acesas indicavam que estava disponível ao público. Apesar da completa ausência de divulgação, as mesas estavam quase sempre ocupadas. Quando não chovia, era possível se sentar em uma das mesas disponíveis no agradável jardim ao fundo. Entre canteiros de flores, era possível se acomodar debaixo de uma frondosa e secular mangueira. Eu gostava de ficar no salão interno. Com as paredes repletas de estantes com livros publicados por editoras independentes, alguns quase impossíveis de serem encontrados nas livrarias tradicionais, tinha o ambiente sublimado pelos clássicos do jazz, do blues ou da bossa-nova, em volume suave, servindo de inspiração às reflexões e sem a necessidade de elevar o tom da voz para entabular um boa conversa. Ao menos uma vez por semana eu passava por lá. Já conhecia de vista alguns frequentadores habituais e travara amizade com a Bárbara, a barista, responsável pelo estabelecimento que, sem dúvida, servia o melhor café da cidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De estatura mediana, tinha os braços completamente ilustrados por belos desenhos eternizados por tatuagens sobre a pele clara. Os cabelos se mantinham cortados rentes à nuca, estampando cores sazonais que se alternavam do azul ao ruivo, da intensidade negra do ébano às diversas tonalidades de loiro, a depender do estado de espírito do dia. As finas argolas de ouro nas orelhas, somadas ao surrado avental de couro usado pelo seu pai durante muitos anos, enquanto foi operário de uma famosa, porém, extinta fábrica em Vila Isabel, proporcionavam à Bárbara uma aparência bonita, exótica e singular. Eu brincava com a moça, dizendo que ela era uma personagem escapada de algum mangá nunca publicado. Ela se divertia. Dizia que para conhecer as suas histórias era preciso entender aquela cafeteria encantada. O que fascinava na barista, mais do que a personagem ou o cenário, era a sua personalidade, dom e sensibilidade. Graduada em psicologia e amante da psicanálise, em certo momento da carreira profissional, abdicou da clínica e dos pacientes sem jamais abandonar o estudo e a paixão pelos mistérios da psique. Ao contrário, as dores e os prazeres da alma a fascinavam mais e mais a cada dia. Assim como Sócrates ensinava em praça pública, duas vezes por semana, ao final da tarde, a barista subia em um pequeno púlpito, discretamente instalado num dos cantos do salão, para abordar de maneira concisa, clara e profunda, mas sem qualquer academicismo, algum tema que servisse ao interesse de todos. As palestras eram gratuitas e de livre acesso. Mesmo sem nenhuma divulgação, a casa transbordava de tanta gente. &nbsp;Aqueles que conseguiam se valer das ideias, a transformavam em ferramentas do bem-viver, transitando pelo mundo e pela vida com leveza e suavidade crescentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, o maior encantamento se manifestava de outra maneira. Não raro, a sua apurada percepção a fazia interromper o serviço, pedir licença para se sentar à mesa ocupada por alguma pessoa que ela sentisse precisar de algumas palavras, assim como um viajante perdido e assustado necessita entender que sempre haverá caminhos ensolarados à sua disposição, difíceis de visualizar nos momentos tormentosos e incertos da viagem. A sensibilidade e o conhecimento sintetizados em palavras certeiras atingiam o alvo da consciência em poucos minutos. Então, Bárbara se levantava e retornava à confecção dos cafés. Deixava o indivíduo consigo mesmo para metabolizar as ideias oferecidas em prol da resolução das suas próprias dificuldades existenciais. “Podemos oferecer as sandálias, jamais caminhar pelos outros”, explicava os fundamentos do método utilizado. Por vezes, nenhum resultado satisfatório era alcançado, noutras, o mecanismo se mostrava fantástico e revelador. Um detalhe importante: era a barista quem escolhia o viajante. Era inútil requisitar uma orientação. “Aqui não é um consultório, é uma cafeteria”, repetia Bárbara. Contudo, era bem mais que isso. Creio não haver no planeta outra igual a essa da Gávea. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele dia, me sentei à mesa próxima à estante repleta dos livros sobre Morserus, o fantástico universo habitado por seres antropomórficos criado pelo genial escritor MM Schweitzer. Com cabelos ruivos, Bárbara se aproximou, me ofereceu um sorriso acolhedor e perguntou se podia trazer um espresso duplo acompanhado de um generoso pedaço de bolo de milho com coco. Era o meu pedido de sempre. Retribui o sorriso e disse sim com a cabeça. Foi quando vi Elisa entrar. Quase não a reconheci. Havia alguns anos, como arquiteta de um estiloso escritório, fora a responsável pelo projeto de reforma da vila residencial, localizada em um bairro operário no subúrbio do Rio, transformada em sede da editora onde eu trabalhava. Sob o seu comando, as casas foram modernizadas e conectadas internamente, sem alterar os aspectos históricos da antiga construção, salvo nas cores alegres e vibrantes utilizadas nas fachadas. Alguns telhados receberam claraboias para aproveitar a iluminação natural. O paisagismo também ficou sob a sua responsabilidade. O resultado foi fantástico. Eu adorava trabalhar lá. Soube que o projeto lhe rendera não apenas muitos elogios, mas também vários outros contratos de maior porte. Depois, nunca mais a encontrara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu a tinha na memória como uma mulher bonita, elegante e, o que mais me chamava a atenção, dona de si. Mostrava convicção nas suas decisões, expressadas de maneira firme e tranquila, sem se deixar abalar pelas opiniões contrárias. Cheguei a duvidar se era a mesma pessoa. Cabelos desgrenhados, pele sem viço, olhos sem brilho. Vestia-se de modo desleixado. Não se trata de elogiar a vaidade, mas de entender a importância da autoestima. Elisa parecia apenas uma sombra daquela mulher luminosa que alguns anos antes irradiava alegria e entusiasmo. Como as mesas estavam todas ocupadas, a convidei para sentar-se comigo. Elisa hesitou por uma fração de segundo, mas aceitou. Notei que por trás do balcão, a barista a observava. Indagada pelo garçom, disse que me acompanharia no espresso e no bolo. Antes que eu falasse algo, fomos surpreendidos pela Bárbara, que nos olhou com doçura e pediu para se sentar conosco. Deixei que Elisa decidisse. A arquiteta tornou a hesitar e, mais uma vez, consentiu. Iniciei a conversa perguntando se ela continuava a desenhar os lindos projetos que tanto refletiam o seu talento. Expliquei à barista que Elisa tinha a capacidade de sintetizar em poucos traços, ideias de extrema criatividade. Lembrei que a logomarca da editora, uma máquina de escrever desenhada com apenas algumas linhas, nos havia sido presentada por ela na ocasião. Um dom raro e precioso. A arquiteta se calou por alguns instantes. Com o olhar distante, como quem assiste a uma cena longínqua, avaliou se abriria ou não o seu coração naquela mesa. O olhar bondoso e delicado da barista lhe quebrou a última resistência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contou que logo após a obra da editora, quando a vida parecia melhorar, tudo começou a ruir. Nos projetos seguintes sofrera severas críticas. Ninguém se mostrara satisfeito com os seus traços e ideias. Um cliente sibilou ter vontade de colocar abaixo o prédio recém-construído. Outro, cancelou o contrato assim que o projeto foi apresentado. Horroroso foi o adjetivo usado no encerramento da reunião. A partir daí todas as suas ideias e desenhos passaram por constantes questionamentos no ambiente de trabalho. Tornou-se medrosa e insegura. Tinha a sensação de que o mundo passara a observá-la com lentes rachadas e embaçadas, sem condições de encontrar nela o menor resquício de talento. O mesmo talento que até pouco antes, sobrava. A demissão não tardou. Passaram-se os dias. Nenhum outro escritório teve interesse em a contratar. Sentia-se como se não prestasse mais para viver. Estava cansada, desanimada e infeliz. Pior, não via perspectiva de mudança à vista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Calou-se quando o garçom se aproximou trazendo o nosso pedido. Ele colocou os cafés e os bolos sobre a mesa. Ao invés de dois, eram três xícaras e pratos. A barista perguntou à arquiteta: “Por que tanto abandono?”. Elisa disse não saber a razão de as pessoas se afastarem dela. Bárbara a corrigiu: “A questão não é essa. Qual a razão para você ter se afastado do seu próprio centro de força e equilíbrio?”. A arquiteta alegou ser impossível obrigar o mundo a aceitar. A barista anuiu com a cabeça e acrescentou: “Só os tolos se lançam nessa luta insana. No entanto, repito, a questão não é essa”. Elisa confessou que a rejeição sofrida a desequilibrava e fragilizava. Bárbara a alertou: “Ninguém precisa da aceitação alheia. Para cada um, basta a aceitação de si mesmo”. A arquiteta deu de ombros e alegou que lhe restava aceitar que tinha sido banida do mercado por ser quem era. A barista contextualizou o enredo: “A questão é outra. Em verdade, quando você vai aceitar que as coisas podem dar errado? O ideal de infalibilidade é uma grave enfermidade da alma”. Bebeu um gole de café e arrematou: “Não reconhecer os próprios erros é o que movimenta a engrenagem da exclusão. A autoexclusão. Orgulho e vaidade escondem sentimentos de inferioridade. Daí a sensação de abandono. A genuína solidão não é proveniente do distanciamento das pessoas, porém, de quando nos afastamos do nosso eixo de luz. Então, passamos a viver numa noite escura que parece não ter fim”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elisa disse não ter entendido aonde Bárbara queria chegar. A barista explicou: “Após um excelente trabalho, me pergunto se não houve erros nos projetos seguintes. Digo isso porque as críticas chegaram de todos os lados. Inclusive de quem a admirava. Se aconteceu, resta saber como você reagiu a elas”. A arquiteta olhou para a barista com a fúria de quem tem a intimidade da alma invadida. Bárbara sustentou o olhar com serenidade, como se oferecesse o remédio amargo indispensável à cura. Foram breves instantes que pareceram demorar uma eternidade. Aos poucos, a fúria se transmutou num arrependimento que se mantinha inconfessável. Uma lágrima escapou para mostrar o sofrimento reprimido na alma pelo orgulho e pela vaidade de não aceitar ou não saber lidar com os próprios erros. Elisa balançou a cabeça, respirou fundo e admitiu: “Após os aplausos e os elogios, passei a me comportar como se tudo que eu fizesse tivesse a marca da genialidade. Fiz os projetos ao meu gosto, sem me importar com os clientes que tinham os seus próprios gostos e interesses. Sem dúvida, motivei uma quebra de confiança com aqueles para quem eu prestava serviço. Quando vieram as reações contrárias, as repudiei com a arrogância daqueles que acreditam que o mundo tem que se ajoelhar aos seus pés”. Mais calma, saboreou um pedaço de bolo, arqueou as sobrancelhas como aprovando o sabor, bebeu um gole de café e questionou: “Essa é a manifestação do sentimento de inferioridade a que se referiu há pouco?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A barista disse sim com a cabeça e esclareceu: “Desde a tenra idade, seja através da educação recebida ou dos condicionamentos culturais que nos modulam, reprimimos ou negamos a diversidade de sentimentos e emoções do nosso universo interior. Mormente aqueles considerados ruins ou errados. Isto não os elimina nem os faz desaparecer. Ao contrário, permitimos que campeiem soltos e sem controle, influenciando de modo desordenado as nossas construções mentais e, por consequência, nosso comportamento. Criamos crenças equivocadas, quando não, desvairadas, que terminam por nos furtar o banquete da vida. Faz com que as experiências, em sua maioria, tenham um terrível sabor amargo. Sem saber lidar com nossas emoções e sentimentos, perdemos o controle da existência e as rédeas do destino. Ainda que negada ou irrefletida, a sensação de navegarmos numa nau sem rumo no oceano dos acontecimentos incontroláveis, traz a sensação de inferioridade diante do poderio de um inimigo imponderável e invencível”. A arquiteta pontuou sobre a insensatez de tentar controlar o incontrolável. A barista a corrigiu: “Se quiser dominar os acontecimentos da vida, perderá. Caso se dedique a descobrir e conquistar a si mesma, nada nem ninguém a derrotará”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elisa quis saber mais. Bárbara esclareceu: “Refiro-me a necessidade de conhecer e aprender a lidar com todas as emoções e sentimentos, sem esconder nem repudiar aquelas consideradas feias ou ruins. Elas são inerentes a quem somos. O problema não são os estímulos amargos dos dias, mas a incapacidade de reagir de maneira saudável a eles. Apesar da sua imensidão e poder, não é o tamanho do oceano que faz um barco naufragar, porém, a falta de habilidade para navegar em águas revoltas. Somos todos timoneiros nos mares das emoções agitadas e dos sentimentos tormentosos”. Bateu com o dedo na mesa para ressaltar as palavras seguintes e concluiu: “Para ocultar essa sensação de inferioridade provocada pelo medo, face o desconhecimento de quem somos e de como funcionamos, acreditamos possível nos esconder das tempestades por trás dos nevoeiros do orgulho e da vaidade. Por ignorância, nos tornamos ainda mais vulneráveis. Daí o desequilíbrio e a fragilidade que nos abandona nas noites escuras do medo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elisa disse que aquela conversa era tardia. A viagem fora interrompida. O naufrágio já acontecera. Bárbara a alertou: “Educamos os nossos sentimentos ou eles nos dominam. Isto serve para o medo que a envolveu. Após um projeto bem-sucedido, os seguintes tiveram respostas negativas. Ao invés de pedir desculpas, assumir e corrigir os erros, preferiu se comprometer com os equívocos como se a teimosia tivesse o poder de os transformar em acertos. As reações contrárias ao seu comportamento se tornaram crescentes. Num determinado momento, você não mais suportou a pressão e sucumbiu. Ninguém a destruiu. Foi um processo de autodestruição. Insistir no erro, usando o orgulho e a vaidade como alicerces, equivale a construir uma casa de areia na ventania”. Bebeu mais um gole e de café e prosseguiu: “Ao notar que não mais se sustentaria com esse comportamento, ao invés de refazer a rota, deixou-se duvidar da própria capacidade. Um triste tipo de medo que nos traz cansaço, desânimo e desesperança. Perdemos o gosto pela vida”. Fez uma pausa antes prosseguir: “O medo nos convence que não vamos conseguir superar as dificuldades, que seremos devorados pelas adversidades, nos restando apenas a fuga. O medo não explica que, em melhor análise, não fugiremos dos problemas, mas de quem somos, abrindo mão do melhor que há em nós. Abandonar-se equivale a fugir da verdade e, porquanto, da realidade. Um ato de imaturidade por negar a responsabilidade pelas inevitáveis consequências a que deu causa”. A arquiteta ouvia atenta, como se aquelas palavras ecoassem no seu âmago.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A barista sorriu e continuou: “O medo é como uma lanterna encontrada num quarto escuro que aponta para uma única direção, como se nada mais existisse ao redor. O olhar fixo num pequeno camundongo, em pouco tempo, o torna um enorme leão faminto prestes a nos devorar se ousarmos sair de onde ele quer que fiquemos. O erro superdimensiona o abismo e nos convence que somos incapazes de erguer pontes para o atravessar. Assim, nos afastamos da nossa essência e das maravilhas da vida até nada mais restar de quem somos”. Olhou nos olhos de Elisa com candura e sussurrou: “Assim como qualquer outra pessoa, você é maior do que o maior dos seus medos. Reaja!”. A arquiteta perguntou como poderia sair do lugar escuro que se escondera em si mesma. A barista foi categórica: “Confie em si mesma. Não há poder maior”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bárbara fez menção em se levantar. Precisava retornar ao trabalho. Concisa e objetiva, havia falado o que precisava ser dito. Tudo mais seriam comentários sobre o mesmo tema, avaliei sem dizer palavra. Elisa segurou na mão da barista, pedindo para que ficasse mais alguns instantes. Admitiu que aquelas ideias iluminavam aspectos fundamentais de si mesma, que até então mantinha na escuridão porque não os queria ver. No entanto, ao lhe serem mostrados, não mais era possível negar as evidências. Estava disposta a enfrentar tanto o medo como o equívoco das próprias incompreensões. Contudo, confessou não saber como fazer. A barista pontuou: “Recomeçar é reconstruir-se sobre melhores e diferentes pilares. É nascer de novo. Todos precisam passar por isso algumas vezes em uma mesma existência”. Elisa se calou por alguns instantes, como se precisasse arrancar um segredo guardado no fundo da alma. Depois, disse não ter vontade de retornar à arquitetura. Não queria retomar à rotina de antes. Não havia ânimo ao se imaginar fazendo as mesmas coisas, independentemente das críticas ou elogios que viesse a receber. O ciclo se encerrara. Bárbara a provocou: “Para quem sempre trabalhou com criação, qual dificuldade em criar para si uma nova realidade?”. A arquiteta pediu para que fosse mais clara. A barista esclareceu: “Falo de inventar uma vida diferente, na qual caiba uma nova rotina e profissão. Algo no qual você se identifique e lhe dê prazer, sem cair nas armadilhas dos devaneios ou da ilusão. A cabeça pode e deve viajar até as estrelas, mas os pés precisam aprofundar as raízes no solo da sensatez. Esse é o equilíbrio indispensável”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bárbara a alertou: “Não espere por solenidades, plateia ou aprovação alheia. Não haverá. Recomeçar é um ato íntimo e solitário, exclusivo de uma consciência que retomou as rédeas da existência e traçou uma nova rota e destino. Trata-se de um gesto íntimo de amor-próprio e autovalidação, ao viver a verdade no limite que a percebe, assumindo os seus gostos e escolhas, crenças e sentimentos, sem depender da aprovação do mundo. Uma alegria serena e silenciosa. Um ato de humildade e fé em si mesmo. Etimologicamente, a palavra humildade é derivada de humus, terra fértil, apta a germinar sementes ainda não cultivadas. Refiro-me às novas ideias, descobertas e conquistas capazes de elevar o padrão de equilíbrio emocional e clareza mental, fundamentais à viagem evolutiva. Fé é a força que nos movimenta ao encontro do sagrado que nos habita e envolve. Confiar na própria capacidade de realizar e progredir é um ato de fé”. Elisa a olhou como quem diz que a teoria era ótima, mas lhe faltava a aplicação prática. Bárbara identificou o anseio, sorriu e sugeriu: “Um jeito eficaz e seguro é ir em busca do dom, um talento pessoal com o qual nos identificamos e que nos nutre de alegria e prazer”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A barista a provocou: “Há tempos a observo. Vejo-a se sentar debaixo na mangueira no jardim e desenhar por horas. Impressiona-me o brilho dos seus olhos nesses momentos”. A arquiteta abriu a bolsa e colocou sobre a mesa um calhamaço de papel repleto de desenhos feitos à mão. Os olhos de Bárbara pediram para que eu os examinasse. Sem pressa, passei as folhas uma a uma. Na medida em que avançava na leitura, o meu encanto aumentava. Eram tiras de quadrinhos, com histórias curtas, de no máximo quatro imagens cada uma. Nelas, uma mesma personagem, representada por uma menina, lidava com questões comuns ao cotidiano, sempre reagindo com um sarcasmo demolidor e divertido quanto às obsoletas formas de responder à realidade. Com um humor singular e discreto, a menina se mostrava capaz de reinterpretar as situações sem as amarras dos condicionamentos socioculturais. Com graça, encontrava a beleza inusitada por trás das incoerências a que nos habituamos no dia a dia. Sem que se desse conta, a personagem trazia consigo a coragem que faltava para trazer à tona a verdade oculta e reprimida de Elisa. Mostrei à barista. Depois de ler, ela arqueou os lábios em um lindo sorriso e murmurou: “Quem é essa menina? O mundo precisa a conhecer”. Elisa sorriu sem jeito. Bárbara complementou: “É a voz silenciosa e profunda da consciência batendo à porta da existência para realizar a transformação que não mais pode esperar. Um autêntico convite ao recomeço”. Elisa quis saber se lhe era sugerido fazer do passatempo uma profissão. Bárbara esclareceu: “Não se trata de um mero passatempo, porém, de uma genuína terapia. A personagem traz a face oculta da Elisa, que até então era desconhecida ou reprimida. Através dela, você se descobre. Conhece a sua autêntica personalidade. Apresenta-se, provoca e faz repensar conceitos e comportamentos que se acreditavam definitivos. Não com discursos longos e enfadonhos, mas com agilidade e bom humor. O <em>biscoito fino</em> da arte. Esse material, que considera sem valor, encontrará voz em um sem-número de pessoas que atravessam processos semelhantes, mas ainda não conseguiram trazer das profundezas da alma as suas verdades transformadoras”. Em seguida, segurou nas mãos de Elisa com carinho, lhe deu um beijo no rosto e se levantou para voltar ao trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sós com a arquiteta, ela quis saber se, como editor, eu poderia a ajudar. Disse que faria por gosto e prazer. O material era de excelente qualidade. Publicamos uma edição experimental com uma tiragem bastante reduzida. O lançamento foi realizado na cafeteria da Gávea, numa tarde de segunda-feira, sem qualquer solenidade especial. Elisa não convidou ninguém. Em ato simbólico, a cartunista assinou dois exemplares, um para mim, outro para Bárbara, entre espressos e pedaços de bolo de milho com coco. Era um momento exclusivo de Elisa. De reencontro, regeneração e recomeço. Desconfio que, universo adentro, a alma festejava repleta de júbilo. Nada mais importante e significativo. Os poucos exemplares demoraram a esgotar. Por algum desses mistérios da vida, um dos livros chegou às mãos de um influente editor chileno com grande penetração na América Latina, Europa e América do Norte, que adquiriu os direitos de publicação. A partir daí, ganhou o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passado algum tempo, comentei com a Bárbara sobre a cartunista. Elisa voltara a ser aquela linda e elegante mulher; forte, equilibrada e dona de si. Contudo, não era a mesma mulher. A barista ponderou: “As mais lindas histórias de recomeço têm início quando tudo parece dar errado. Na verdade, é a vida nos corrigindo a rota para que tudo possa dar certo. Quase sempre de um jeito inesperado. Basta não desistir. Por vezes, desde que com novos e melhores fundamentos, é preciso persistir quando os projetos permanecem válidos e reais. Noutras, se faz necessário se reinventar. Em todas, é preciso recomeçar”.</p>
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		<title>A traição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Sep 2025 17:32:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">“De todas as brutalidades que nos atingem, a que mais nos afeta é a tentativa absurda de viver um modelo de comportamento incompatível com os nossos gostos, olhares e verdades. A beleza latente, existente no âmago de todos, sempre à espera de movimentos singulares para que possa florescer, termina por minguar quando não encontra o solo fértil necessário ao seu desenvolvimento. Fingimos nos satisfazer com a beleza de aluguel de um personagem encaixado numa pretensiosa e preestabelecida fórmula de sucesso fácil e felicidade aparente. Então, perdemos quem poderíamos nos tornar. Ao abdicar da originalidade, sem darmos conta, sucumbimos em atos contínuos de traição. De autotraição”, disse Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, enquanto colocava um bule com café fresco sobre o pesado balcão de madeira da oficina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leila era filha de Jean, amigo de infância do sapateiro, que regressara havia pouco tempo para as Terras Altas. Ela precisava desabafar com alguém que confiasse. Desembarcou do mesmo trem que eu chegara. Sem nos conhecermos, caminhamos da estação à oficina pelas estreitas e sinuosas ruas da pequena cidade, iluminadas parcamente pelos antigos lampiões de ferro fundido. A madrugada ainda não encerrara a noite. Como se intuísse que nos dirigíamos para o mesmo lugar, ela se virou para mim e sorriu quando viu a bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente ao ateliê. De modo velado, sem palavra, esse trajeto feito lado a lado a deixou à vontade para me permitir ouvir as suas angústias e mágoas. Desde jovens, Jean construíra uma amizade diferenciada com Loureiro. Como confidentes, conversavam sobre os seus sentimentos, ideias e sonhos mais íntimos. A pedido do pai, Loureiro batizara Leila antes de a menina completar um ano de idade. Acompanhara de perto o crescimento da moça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jean tinha um talento nato para o comércio. Desde cedo, comprava e vendia os mais diversos produtos como quem nascera para este propósito. Logo após a adolescência, montou um pequeno mercadinho que, duas décadas depois, se tornara uma grande rede de supermercados em uma metrópole próxima, a cerca de uma hora de trem dali. Com os lucros, reinvestira na abertura de novas filiais na região. A fortuna não lhe furtou a simplicidade nem o jeito carinhoso de tratar as pessoas. Um homem encantador, com uma incrível capacidade de agregar pessoas ao seu redor. Leila crescera numa ambiência de negócios, ao lado dos irmãos gêmeos, Rafael e Gabriel, apenas um ano mais novos do que ela. Apaixonados pelo pai, os filhos se empenhavam em o agradar, se dedicando com afinco à administração da rede de lojas, numa competição velada em busca dos seus elogios. Embora nada exigisse dos filhos, Jean se mostrara satisfeito em os ver trabalhando ao seu lado, compartilhando de um mesmo projeto de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se aproximou dos trinta anos de idade, Leila se casou com Maurice, um economista pós-graduado na Sorbonne, prestigiosa universidade de Paris. Jean o havia contratado para cuidar dos investimentos financeiros da rede, que se sofisticavam à medida que o mundo mudava. O casamento agradou ao pai. Os gêmeos tinham entre si uma ligação mais visceral. Não raro, à título de supostos esquecimentos, sonegavam à irmã algumas informações importantes, num movimento sub-reptício para aos poucos a alijar da administração dos negócios. Jean acreditou que o matrimônio equilibraria as forças na direção da empresa quando ele não mais estivesse no comando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até que aconteceu. Apesar da tristeza pela partida do pai, além da falta que a sua presença física faria, Leila acreditava que quase nada mudaria, tanto na empresa quanto na sua vida. Passado menos de um mês, Maurice comunicou o seu desligamento da firma. Estava de partida para Londres, onde atuaria no mercado financeiro. Este fora o seu plano desde que entrara na faculdade, admitiu. Numa conversa franca e desagradável, confessou que o casamento era apenas parte indissociável ao emprego, indispensável ao seu projeto profissional a longo prazo. Não havia amor. Nunca houvera. Emprego e matrimônio representavam a ponte necessária para atravessar o abismo das dificuldades até que adquirisse condições de se tornar sócio de uma corretora de valores mobiliários. Tinha fascínio pelo universo do mercado de ações. E, agora, sem a forte presença de Jean, chegara o momento de levar adiante o antigo plano, no qual, claro, a esposa não cabia. Assim, Maurice se foi sem outras explicações. Tampouco precisava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se não bastasse, ao retomar a rotina na empresa, já sem a presença de Maurice, a convivência com os irmãos transcorrera de mal a pior. Tinham chegado ao ponto de trocar meros cumprimentos formais, sem qualquer resquício de afeição e respeito. Os gêmeos já não mais ocultavam a intenção de que a participação da irmã se tornasse figurativa. Juntos, na ausência do pai, se tornaram majoritários na sociedade. Planejavam para ela um cargo na diretoria com muita pompa e nenhum poder. Algo que Leila jamais admitiria. Reunira-se com um importante escritório de advocacia sobre o comportamento segregacionista dos irmãos. Restava-lhe uma batalha judicial longa e cara pelo controle da rede de supermercados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Declarou-se cruelmente traída pelo marido e pelos irmãos, justamente aqueles que lhe eram mais próximos. A sua família ruíra. A vida que escolhera para si, desmoronara. Considerava-se uma guerreira. Construiria outra, ainda melhor. Não fugiria da guerra nem se daria por vencida. Estava disposta a encontrar um amor verdadeiro, assim como lutar incessantemente até assumir o comando definitivo e absoluto da empresa. Jamais desistiria. Não descansaria um único dia até que a justiça lhe fosse feita. Uma decisão irrevogável, afirmou antes de bebericar o café.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro a ouviu com muita atenção e nenhuma interrupção. Quando ela finalizou, a questionou: “Tem certeza de que essa é a batalha que deseja lutar?”. Leila disse não ter escolhas. O sapateiro ponderou: “Sempre temos escolhas. Contudo, muitas vezes, acreditamos restar somente as escolhas que esperam da gente. Noutras, nos falta lucidez para desmontar as escolhas condizentes com o personagem que inventamos para viver”. A executiva disse não ter entendido. O sapateiro explicou: “Quando você se define como uma guerreira, e não há nada de errado nisso, fica pendente saber qual tipo de guerreiro a define. Gengis Khan e Mahatma Gandhi foram dois guerreiros de perfis, métodos, eficiência e luminosidade diametralmente opostos. Enquanto o imperador dominou a Ásia ao preço de um colossal tapete de sangue, o monge derrotou o poderoso Império Britânico sem disparar um único tiro. Nada os aproxima, no entanto, ambos eram guerreiros”. As feições da mulher pediam para ele prosseguir. Loureiro pontuou: “A primeira escolha é decidir se a prioridade é derrotar os seus irmãos ou vencer a si mesma. Isto estabelecerá os seus objetivos, limites e métodos de atuação. Se caminhará na luz ou nas sombras. Atitudes de autorrespeito e amor-próprio são fundamentais ao equilíbrio emocional e à força necessária aos movimentos em prol da sua plenitude. Tudo mais são vitórias vazias”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leila questionou se o padrinho a aconselhava a entregar o controle da empresa aos irmãos. Loureiro refutou o raciocínio: “Eu não disse isso. A questão reside na imagem que criamos para transitar pela vida. Esta imagem nos compele a determinadas escolhas, reduzindo muitas das possibilidades à disposição. Então, ao contrário do que imaginamos, nos tornamos menos quando poderíamos ser mais. Por exemplo, se me considero fraco ou manso, fujo ou evito a luta. Assim, possibilidades se abrem e se perdem. De outro modo, se me vejo como um guerreiro, não posso desistir da batalha. Tenho que enfrentar os meus inimigos. Contudo, não basta. Importantes perguntas ficam pendentes: qual será o verdadeiro combate que me aguarda? Quem são os meus maiores adversários? Onde eles estão, no mundo ou em mim?”. Olhou a afilhada com doçura e ponderou: “Faz-se necessário responder essas perguntas antes de iniciar qualquer movimento, sob risco de sucumbir sem entender a guerra perdida antes mesmo de a iniciar. Não importa o resultado. Não há como vencer a batalha errada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sapateiro bebeu um gole de café e comentou: “Noutras vezes, escolhemos em função dos outros, do personagem que queremos manter vivo aos olhos das pessoas que nos admiram, desconsiderando por completo aquilo que, no fundo da alma, tínhamos vontade de fazer”. Leila afirmou não haver ninguém que quisesse agradar. Loureiro a corrigiu: “Existe você. Ou deveria haver”. Ela disse não ter entendido. Ele perguntou: “Quem decide os rumos da sua vida? A executiva decidida e eficiente, que sempre se esforçou para agradar ao pai, a jovem que cresceu em busca da admiração das pessoas ao redor, ou a empresária capaz de superar todas as crises com uma determinação inabalável?”. Fez uma pausa proposital para enfatizar a conclusão do raciocínio e voltou a indagar: “O que aconteceria se, pela primeira vez, ouvisse a mulher sensível e delicada, genuína e autoral, que pode ser igualmente forte e poderosa, só que de um jeito diferente, que nunca sequer ousou conhecer?”. Aturdida, Leila se calou. Loureiro arqueou os lábios em doce sorriso e arriscou: “Uma mulher até então desconhecida por ter sido abandonada, mas que ainda a aguarda em semente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A empresária pediu para que Loureiro explicasse melhor. O sapateiro pontuou: “Quando uma batalha se anuncia, alguns fogem, outros a negam. Há os que se levantam para a enfrentar. Vencem somente aqueles que descobrem que batalhas não são guerras, porém, portais de transformação”. Bateu com o dedo no balcão para prestarmos atenção ao raciocínio e disse: “Quando alguém se opõe ao nosso caminho, interesse ou vontade, nos deparamos com um antagonista. Etimologicamente, de origem grega, a palavra significa <em>aquele que nos impede de ganhar o prêmio</em>. Na literatura ou na vida, quando temos um adversário, temos um conflito à espera. Derroto o adversário para vencer a guerra. Simples assim, certo?”. Leila respondeu que sim com a cabeça. Loureiro a corrigiu: “Nem sempre. Tombar o inimigo não é garantia de vitória. A verdadeira função dos antagonistas, muitas vezes, não é a de impedir o acesso ao prêmio, mas nos levar a descobrir que o melhor prêmio não era aquele que imaginávamos quando a batalha se apresentou. Se desconsiderarmos as questões de fundo do combate, desperdiçaremos as melhores oportunidades oferecidas pelos conflitos: as transformações existenciais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leila questionou qual seria a questão de fundo a que se referia. O sapateiro explicou: “Todo conflito externo sinaliza uma potencial descoberta interna. Este é o ponto crucial das genuínas conquistas, quase sempre desconsiderado nos combates. Como guerreiros contemporâneos, nos armamos de advogados, contadores, peritos, laudos, entre outros apetrechos bélicos, movidos de acordo com o nível de poder econômico, político ou social dos contendores envolvidos. Embora não se use mais as espadas, lanças e catapultas da Antiguidade, a ideia ainda é aniquilar o inimigo, no sentido de o tornar impotente à nossa vontade ou interesse. Este ainda é o significado de vitória que move as multidões”. Antes que a afilhada perguntasse, Loureiro explicou: “Sem dúvida, há situações que o enfrentamento se faz necessário. Embora precise de melhor entendimento, não se despreza o senso natural de justiça nem se negocia com a verdade. Contudo, na grande maioria das vezes, o adversário serve apenas para apontar algo mal construído dentro da gente ou sinalizar por uma decisão angular, capaz de mudar para melhor a rota e o rumo das nossas vidas, seja mundo afora, seja universo adentro”. Fez uma breve pausa antes de concluir: “Embora não seja a sua intenção, quando o seu papel em nossas vidas é compreendido, o antagonista nos faz entender, aceitar e manifestar a mudança interna até então reprimida. Jamais pelo medo de se colocar diante de ninguém, mas pela coragem de renascer perante a si mesmo sob novos fundamentos existenciais”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A empresária se calou. Por longos minutos, ninguém disse palavra. Até que Leila indagou se os argumentos do sapateiro seriam para demonstrar o despropósito de uma guerra entre irmãos. Se fosse, queria avisar que não estava disposta a abrir mão dos seus direitos e do seu patrimônio. Loureiro recolocou o raciocínio dela no prumo: “Eu não disse isso”. Em seguida, a questionou: “Você sempre se mostrou muito firme nas suas escolhas e na condução da própria vida. Se essa batalha judicial é mesmo necessária, o que a trouxe aqui? Veio na tentativa de ouvir palavras que pudessem abafar as vozes que transbordam do seu coração? Se foi, não vai acontecer”. Leila perguntou o que ele acreditava que ela se negava a ouvir. O sapateiro foi categórico: “Só você saberá responder”. A afilhada o olhou com doçura como quem diz <em>não faça isso</em>. Ele franziu as sobrancelhas e pontuou: “Não há outro jeito. Apenas a plena responsabilidade pelas consequências de cada escolha cria as condições indispensáveis à maturidade. Somente então, a beleza da vida floresce”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leila tornou a se calar por alguns instantes. Tentava alocar novas ideias à velha maneira de pensar. Depois, questionou Loureiro apenas com o olhar: <em>Será?</em> O sapateiro sorriu satisfeito e deu de ombros como quem responde <em>não sei</em>. Emocionada, ela sorriu de volta, não sem deixar escapar uma lágrima rebelde. Neste breve diálogo sem palavra, eles se referiam a um hobby de Leila. No seu tempo livre, Leila gostava de estudar e ler sobre moda. Tinha fascínio pelo assunto. Por paixão e prazer, montara uma alfaiataria artesanal para desenhar e fabricar as roupas que usava. Um estilo de vestir como reflexo da sua maneira de pensar e sentir a vida. Com o tempo, passou a presentear as amigas que se afinavam ao seu gosto. Gostava mais de cuidar da alfaiataria do que administrar o supermercado. No entanto, apesar dos elogios recebidos, nunca considerara fazer da confecção uma grife. Do hobby, uma atividade profissional. “Por quê?”, indagou Loureiro. Leila ensaiou algumas respostas, mas não conseguiu oferecer nenhuma com argumentos consistentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste instante, enquanto ouvia a fragilidade dos próprios argumentos, Leila se deu conta da traição que cometia contra si mesma. Era o ponto de mutação consciencial. As suas escolhas não podiam mais servir para sustentar as expectativas que criara para manter viva uma personagem que não mais lhe servia. Por motivos justificáveis de acolhimento, pertencimento e validação, principalmente do pai que tanto amava e admirava, a narrativa escolhida servira de condução até aquele momento. Dali em diante, se quisesse seguir em frente, precisaria <em>matar</em> a personagem. Do contrário, a verdadeira autora nunca assumiria o controle da história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando à medida que os pensamentos borbulhavam na mente, Leila considerou a hipótese de, ao invés de brigar indefinidamente pelo controle da empresa, deixar a administração por conta dos gêmeos. Embora fosse receber uma parcela menor dos lucros, teria todo tempo necessário para fazer o que sempre desejou, mas nunca teve a lucidez de aceitar nem a coragem de realizar. Ela sorriu diante do cenário imaginado. Num breve instante de deslize, comum às transições evolutivas, lamentou ter de jogar fora os vinte anos dedicados à rede de supermercados. Loureiro a lembrou: “Foram vinte anos de convivência intensa ao lado do seu pai. Isto tem um valor afetivo impagável. No mais, a experiência acumulada na direção de um grande negócio será útil e indispensável à nova empreitada. Nada se perderá”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Notei que as suas mãos tremiam. Perguntei se era medo do futuro. Ela respondeu que não. Leila estava emocionada por se perceber na plataforma de embarque da viagem mais importante da sua vida. Uma viagem sem volta por levar ao encontro da outra face da mulher que ainda desconhecia em si mesma. Essa possibilidade a encantava. Deu um beijo na bochecha do padrinho, agradeceu a conversa e foi embora. Muito a esperava. Sem saber, eu assistira o espocar do embrião de uma grife de enorme sucesso alguns anos depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sós, Loureiro se levantou para preparar mais um pouco de café. Enquanto isso, elogiei a têmpera da Leila. Não era uma decisão fácil. Foi quando o sapateiro se valeu dos argumentos citados na abertura desta história: “De todas as brutalidades que nos atingem, a que mais nos afeta é a tentativa absurda de viver um modelo de comportamento incompatível com os nossos gostos, olhares e verdades. A beleza latente, existente no âmago de todos, sempre à espera de movimentos singulares para que possa florescer, termina por minguar quando não encontra o solo fértil necessário ao seu desenvolvimento. Fingimos nos satisfazer com a beleza de aluguel de um personagem encaixado numa pretensiosa e preestabelecida fórmula de sucesso fácil e felicidade aparente. Então, perdemos quem poderíamos nos tornar. Ao abdicar da originalidade, sem darmos conta, sucumbimos em atos contínuos de traição. De autotraição”, disse Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, enquanto colocava um bule com café fresco sobre o pesado balcão de madeira da oficina. Em seguida, finalizou: “Ao compreender esse processo, a dificuldade se desmancha. O complicado se torna simples”.</p>
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		<title>O lugar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Aug 2025 15:38:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[“Todos precisam encontrar um bom lugar para viver em si mesmo. Temos o poder e o direito de escolher esse local. Não raro, deixamos que os outros nos coloquem onde eles acreditam que devemos ficar. Na maioria das vezes, quando isso acontece, nos permitimos morar em lugares muito ruins. Se...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“Todos precisam encontrar um bom lugar para viver em si mesmo. Temos o poder e o direito de escolher esse local. Não raro, deixamos que os outros nos coloquem onde eles acreditam que devemos ficar. Na maioria das vezes, quando isso acontece, nos permitimos morar em lugares muito ruins. Se permitimos, a culpa não é deles”, ponderou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Enrico, o monge italiano, estava irritadíssimo. Sentia-se assim por causa das atitudes de Francesco, seu irmão. Alegava que tivera a paz usurpada. O bom monge lhe ofereceu outro olhar: “A paz é uma conquista, jamais uma concessão. Logo, nunca vem do mundo. Ela brota no coração. Não pelo acaso da mudança dos ventos ou das estações, mas pela dedicação incansável de quem sabe que somente a consciência tem o poder de definir o endereço da sua própria residência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa conversava começara havia alguns minutos. O mosteiro ainda dormia. Acordei de madrugada. Dirigi-me à cantina em busca de uma caneca com café. Ao entrar, o aroma do café fresco denunciava a presença de alguém. Encontrei o Velho sentado à mesa próxima às janelas com vista para as montanhas e as estrelas. Servi-me de uma caneca, e logo após me sentar ao seu lado, ouvimos um toque aflito na campainha. Fui até o portão. Enrico acabara de chegar. Viera dirigindo desde Gênova. A sua fisionomia revelava o transtorno emocional que o acompanhava. Levei-o à presença do bom monge. Foi quando soubemos dos fatos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A história se iniciara vinte anos antes. Enrico era um jovem oficial da Marinha italiana quando, no comando de uma fragata, impediu que piratas contemporâneos assaltassem um navio de carga pertencente a Zinedine, um importante armador grego. Desse fato, surgiu uma sincera amizade entre os dois. Em uma das suas conversas, Enrico manifestara a vontade de mudar de profissão, embora jamais tivesse vontade de abandonar a navegação, sua grande paixão. Desde os fenícios, o comércio marítimo se mostrara um excelente negócio. Porém, nesse ramo, mesmo para montar uma pequena empresa, era necessário um investimento com o qual, na época, como militar, ele não tinha condições de arcar. O amigo prometeu ajudar. Arrendaria ao italiano uma embarcação de pequeno porte a preço de custo e, ainda mais, transferiria alguns contratos que não mais o interessavam devido ao baixo volume de carga. Quase sem dinheiro, mas com enorme dedicação, além da inestimável ajuda de Zinedine, a empresa se firmou no mercado e, aos poucos, aumentou o fluxo de mercadoria transportada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o crescimento da empresa, precisou de alguém que cuidasse da parte financeira e contábil. Foi quando convidou Francesco, seu irmão, graduado em administração de empresas pela prestigiosa Universidade de Roma, onde lecionava várias matérias. Com inegável talento, não apenas para lidar com os números, mas também para angariar novos clientes face à sua notável inteligência social, Francesco se mostrou uma escolha acertada. Contudo, Enrico desconsiderou possíveis problemas decorrentes da personalidade dominadora do irmão. Acreditava que os elos familiares seriam suficientes para harmonizar conflitos oriundos das inevitáveis diferenças de propósito e temperamento. De início, como os talentos eram complementares, a empresa galgou patamares econômicos a passos largos. Chegaram novos navios e contratos. Do Egeu, foi ao Mediterrâneo, e atravessou o Gibraltar para ganhar a costa atlântica da África. À leste foi até o Mar da China. Tornaram-se uma potência do transporte comercial marítimo. Para crescer ainda mais, precisaram abrir o capital da empresa. Coordenados por Francesco, um conselho composto pelos principais acionistas opinava quanto aos novos rumos e negócios. Apaixonado pelo mar e por embarcações, avesso aos números e às reuniões, Enrico se dedicava à área operacional. Passava os dias nos portos e convés sem maiores preocupações administrativas. Tinha total confiança no irmão. Visando não apenas lucros maiores, mas também o controle absoluto da empresa, Francesco convenceu ao conselho que o irmão, sob o pretexto de não se descuidar da segurança, realizava gastos excessivos na manutenção dos navios, deixando escoar boa parte dos dividendos. <em>Um marinheiro dedicado com uma visão empresarial ultrapassada</em>. Com esta frase encerrou a reunião na qual atingiu a maioria dos votos que deliberou pelo afastamento de Enrico da diretoria na empresa criada pelo próprio Enrico. Continuaria recebendo um ótimo salário, além dos dividendos correspondentes às ações que possuía. Entretanto, não mais exerceria qualquer função diretiva ou operacional. Na prática, uma aposentadoria compulsória. <em>Sinto-me como se tivessem me amputado, não um dos membros, mas a paixão e o prazer</em>, confessou. Estava inconsolável com o que considerava uma traição. Mais ainda, por ter vindo de quem menos esperava.&nbsp; &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enrico se recusou a aceitar os argumentos do bom monge. Estava longe dos navios e do mar. Não por escolha, mas por maquiavelice de Francesco. Não tinha se colocado neste lugar amargo que estava, porém, fora empurrado para lá. O Velho lhe corrigiu o raciocínio: “O bom lugar a que me refiro é dentro de você. O ódio e a mágoa têm o poder de nos deixar morando em lugares horrorosos. Lembre-se, cada um mora em si mesmo”. Inconsolável, Enrico disse que se sentia assim por culpa do irmão. O bom monge ponderou: “O comportamento do seu irmão pertence a ele. As consequências também”. O monge italiano discordou. Embora tivesse se valido da maldade, Francesco estava bem. Tinha se tornado o mandachuva da empresa. Em contrapartida, a ele caberia <em>viver de pijamas</em>, ironizou a si mesmo. O Velho pontuou: “Percebe que por não saber reagir às adversidades, permite que o mal o destrua. Não porque alguém o praticou, mas em razão de o ter aceitado como hóspede na sua casa. Não há como controlar o comportamento dos outros, mas temos pleno poder para decidir como iremos lidar com qualquer situação. Isto define com quais sentimentos iremos conviver. Tudo se inicia com a decisão de impedir que o mal praticado por alguém encontre um lugar para morar dentro da gente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquelas palavras não faziam sentido para Enrico. O seu sofrimento tinha causa na maldade do irmão, tornou a repetir. Estava irritado porque o Velho se recusava a entender algo de absurda obviedade. O bom monge lhe ofereceu outro olhar: “Embora o mal seja de responsabilidade do remetente, o sentimento pertence ao destinatário”. O italiano disse não ter entendido. O Velho explicou: “Ninguém jamais plantou nenhum sentimento em ninguém. A semente sempre esteve lá. No entanto, germinará apenas aquela que cultivarmos. Seja o amor ou o ódio. Isso define a beleza ou a decadência do lugar onde vivemos”. Enrico disse que era impossível não sentir raiva diante da maldade, do abuso e da traição. O bom monge concordou com o italiano: “Você tem razão. Em nós existem todos os sentimentos. Os bons e os ruins. Sem exceção”. Em seguida, argumentou: “Porém, quem não domina as próprias emoções se torna escravo delas. Cada um mora nos sentimentos que escolheu para viver”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enrico rebateu que não se arranca um sentimento como se joga fora um objeto ou se troca de roupa. O Velho anuiu para argumentar: “Sem dúvida. Os movimentos internos têm níveis de dificuldade mais elevados. Temos mais facilidade em lidar com as coisas do mundo do que com a própria alma. Daí a estranheza no trato consigo mesmo”. Bebeu um gole de café antes de continuar: “Contudo, vale lembrar, sentimentos não são como cogumelos que brotam depois da chuva. São construções mentais”. O monge italiano pediu para que explicasse melhor. O Velho foi didático: “Ora como um laboratório, ora como uma fábrica, a mente processa toda informação a que tem acesso. Fatos e notícias, estudos e condicionamentos, conceitos e preconceitos, observações e crenças interagem em ritmo contínuo e incessante, por vezes, lúcido. Noutros, caótico. Cada momento produz um entendimento, igual ou diferente do anterior, a depender da capacidade de dinamismo, harmonia e resiliência mental. Por sua vez, cada entendimento gera um tipo de sentimento”. Em seguida, o Velho perguntou: “Alguma vez você mudou o olhar que tinha sobre algo ou alguém?”. Enrico respondeu que isso acontecera diversas vezes. O bom monge prosseguiu: “Ao modificar o olhar, o sentimento sobre aquela pessoa ou situação também mudou?”. O italiano disse sim com a cabeça. O Velho concluiu: “Se ao mudar a compreensão conseguimos transformar as emoções, constatamos a simples, porém, poderosa verdade de que os sentimentos não passam de construções mentais. A depender da interpretação, um diferente sentimento será construído. Assim produzimos os sentimentos bons ou ruins que nos servirá de moradia”. Em seguida, concluiu o raciocínio: “Se os sofrimentos são decorrentes dos sentimentos ruins e, se a mente os cria conforme o seu grau de lucidez, o poder de desmanchar os sofrimentos está em nossas mãos. Ou melhor, em nossa mente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O monge italiano perguntou se o seu sofrimento era decorrente do modo caótico de como a sua mente processava todas as informações, experiências e crenças que a habitavam. O Velho foi assertivo: “Exatamente. Para adquirir maior capacidade de percepção e sensibilidade no pensar, escalando do caos à lucidez, se faz necessário permitir uma maior participação da consciência para faxinar da mente os elementos que a poluem e aperfeiçoar a elaboração do raciocínio através de um conteúdo que, aos poucos, tenha cada vez menos vícios e mais virtudes”. Enrico questionou se a mente e a consciência não seriam a mesma coisa. O bom monge esclareceu: “De jeito nenhum. Embora seja um engano comum, tratam de aspectos diferentes do Ser. A mente é o ego. A consciência manifesta a alma. A mente cuida das questões do mundo, a consciência também. Porém, sob outro viés. Enquanto o ego tem preocupações inerentes à sobrevivência, a alma prioriza os valores de transcendência, apenas possível de realizar através das experiências de sobrevivência oferecidas no mundo. Uma simbiose necessária. Em suma, transcendemos no exercício das relações comuns ao cotidiano após alinhar tanto a mente quanto a consciência sob um mesmo propósito evolutivo. Um genuíno desafio existencial”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Velho prosseguiu: “Um sujeito com o ego exacerbado e a alma acanhada, tem o pensamento influenciado pelos interesses rasteiros do orgulho, da vaidade, da ganância, do egoísmo e de sombras similares. No extremo contrário, com a consciência exaltada e a mente anulada, viverá em devaneios distantes da realidade, desperdiçando as experiências evolutivas. Faz-se indispensável o exato alinhamento entre mente e consciência. À medida do amadurecimento do ego, iniciado após o entendimento de que o atual modo de compreender a realidade produz uma sequência de sofrimentos sem fim, pela necessidade de cura e libertação, vai buscar na alma diferentes orientações para reaprender a pensar. Este é o ponto de mutação do caos à lucidez. A consciência reorganiza a mente, alterando interesses, valores e prioridades. Embora jamais abandone as conquistas materiais, não mais permitirá que esteja dissociada e à frente dos avanços espirituais. Com essas novas lentes e filtros conseguirá depurar inconsistências e redimensionar os limites da verdade. De densos a sutis, os sentimentos se modificam por completo, redesenhado a realidade, o lugar onde cada pessoa transita no mundo como resultado da própria compreensão sobre si mesma e a vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segurando a caneca com as duas mãos, Enrico deixou os pensamentos vagarem entre as estrelas de uma noite sem lua. Após alguns minutos sem dizer palavra, o monge italiano quis saber como se livrar do ódio que o corroía. O Velho respondeu de pronto: “Perdoe”. Enrico balançou a cabeça em negação e disse que o irmão estava orgulhoso e satisfeito pelo ardil engendrado. Nem de longe dava sinais de arrependimento. O bom monge argumentou: “Francesco pode demorar séculos para se arrepender. Literalmente. Enquanto isso, a raiva e a mágoa destruirão um pouco de você a cada dia. Não faça isso consigo mesmo. Ficar à espera do arrependimento de alguém é criar um vínculo doloroso com a disponibilidade alheia. Equivale a entregar a sua vida nas mãos de quem, neste momento, não lhe nutre afeto e respeito. Deixe-o ir para que você possa se libertar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Velho seguiu com os argumentos: “O perdão surge da sabedoria de impedir que o mal praticado por outra pessoa faça morada dentro da gente. Perdoar é, antes de tudo, gesto de amor-próprio. No mais, não significa que esteja validando a atitude de Francesco. Perdoar não é absolver. Tampouco esquecer. Porém, se desconectar do mal e da dor. Resignar-se é aceitar o fato consumado, sabendo que nada acontece por acaso. A vida é pedagógica. Todos os envolvidos numa experiência, seja qual for, possuem diferentes lições à disposição. Entenda os desafios que lhe cabem. Há muito o que fazer por si mesmo. Quanto ao seu irmão, enfrentará os percalços condizentes à situação que ele próprio criou. Nada termina aqui ou ali. A cada um será entregue conforme as suas obras. Nunca nos parcos desejos vingativos do lesado, mas na medida das necessidades evolutivas de quem se equivocou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O monge italiano indagou como poderia fazer isso na prática. O Velho explicou: “A vida se tornará uma escola ou uma prisão, a depender da sua reação. Se ficar parado, afogado em ressentimentos, à espera de uma resolução do acaso ou fizer movimentos retributivos, erguerá as paredes que impedirão o mal de ir embora. Assim surgem os cárceres emocionais. Não há lugar pior para morar. Ao decidir seguir em frente, se movendo em prol da renovação e do inusitado, a vida oferecerá os devidos mecanismos de superação e crescimento. O aprendizado será incomensurável”. Deu de ombros e finalizou: “A escolha é sua”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mosteiro despertava. Aos poucos, os monges chegavam para o café da manhã. Ainda impactado com os fatos e com a conversa, Enrico agradeceu o acolhimento e se retirou para levar a mala ao quarto que ocuparia durante aquele período de estudos. Os dias se passaram. Observei o monge italiano dedicado aos cursos e palestras, embora participasse pouco dos debates. Como se uma transformação interior estivesse em curso, ficava sozinho nos intervalos, sentado na varanda com o olhar para além da montanhas. Notei a sua presença nas sessões de meditação, um importante exercício para auxiliar a consciência emergir à tona da mente. Era nítida e admirável a movimentação íntima de Enrico, um jeito seguro de sustentar e balizar as próximas ações pelo mundo. Assim como a vida, o perdão exige movimento, tanto intrínseco como extrínseco, para que possa florescer. Com quase cinquenta anos de idade, ele se mostrava um dedicado aprendiz. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao final daquele ciclo de aprendizagem, o monge italiano nos procurou. Disse ter tomado uma decisão. A sua paixão pelo mar e pelas embarcações não podia restar cerceada pela atitude de outra pessoa. Essa decisão cabia apenas a si mesmo e ele estava longe de a adotar. Aproveitaria o dinheiro e a experiência que acumulara nos últimos anos para montar uma empresa especializada na manutenção e reparos de navios. Assim, trabalho e paixão se manteriam alinhados à sua vida. Quanto à antiga empresa de transporte de mercadorias, em Gênova, venderia as ações que possuía. Em um só ato, não apenas se desligaria do passado, mas também aumentaria a capacidade de investimento necessário à nova empreitada. O Velho sorriu em aprovação. Ao dar continuidade à vida, Enrico realizava um nítido e eficaz movimento em prol do amadurecimento do perdão e da regeneração pessoal. O italiano sorriu de volta, girou nos calcanhares e partiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns anos se passaram. A cada período de estudos, Enrico atualizava as notícias da sua nova empresa. Instalada no Porto de Gioia Tauro, o maior do sul da Itália, localizado num ponto estratégico para as rotas comerciais entre a Europa, África e Ásia, recebia um fluxo cada vez maior de navios para manutenção e reparo. Dessa vez, não transferiu a administração para a responsabilidade de terceiros. Embora assessorado, se mantinha à frente das principais decisões. Adquirira maior confiança em si mesmo. Não se tratava de soberba, mas de um poder oriundo do autoconhecimento e do amor-próprio, natural em quem aceita os desafios inerentes à superação. Conquistara um sorriso sincero e uma encantadora doçura no olhar. Tornara-se um homem acolhedor e delicado no trato pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um ciclo de estudos recentes, Enrico enviou uma mensagem avisando que se atrasaria alguns dias. Quando comuniquei o fato ao Velho, o bom monge me mostrou a notícia de que a empresa de Francesco tivera um grave problema com um dos seus navios por falta de manutenção. Justamente no setor que era de responsabilidade do monge italiano, do qual, na época, fora afastado por causa dos alegados gastos excessivos. Desde então, o irmão passara a economizar na manutenção das embarcações. Após o sério incidente, acusado de negligência, Francesco foi afastado sumariamente da direção da empresa em Gênova e, de sobra, se tornara réu em processos cíveis e criminais. As ações despencaram na bolsa de valores. Enrico aproveitara o momento de baixa para adquirir o controle acionário da empresa de transporte, a anexando como segmento à sua firma de manutenção e reparos. Esta se tornara proprietária daquela. Francesco usaria sua credibilidade e experiência no setor para reerguer a empresa que um dia o considerara inapto para trabalhar nela. Ninguém no mercado de navegação tinha dúvida de que ele conseguiria superar mais esse desafio. De imediato, as ações começaram a subir.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A vida é pedagógica</em>, lembrei de uma frase dita pelo Velho ao monge italiano na madrugada que chegara destruído emocionalmente ao mosteiro. O bom monge ponderou: “É pedagógica apenas para quem esteja disposto a encontrar o lado bom de todas as situações e queira descobrir o mestre oculto por trás das dificuldades. Do contrário, seguirá morando nos endereços do ódio, do medo, da inércia ou da culpa”. Fez um gesto com a mão como se falasse o óbvio, e complementou: “São péssimos lugares para se viver”. Em seguida, comentou: “Por uma necessidade de encontrar um bom lugar para viver, Enrico precisou se desligar do passado. Após ter feito o exato movimento em prol da própria evolução, a vida permitiu que se reconciliasse com a sua história. E isso só lhe foi permitido porque não desejou se vingar do irmão. A vida não erra nem é injusta. Costumeiramente perdidos e desorientados, somos nós que insistimos em seguir na contramão da verdade, nunca oferecida na superfície do olhar, mas disponível na profundidade da vida”.  </p>



<p class="wp-block-paragraph">O Velho ressaltou o mérito de Enrico: “Apesar do duro golpe, ele não permitiu que o comportamento dos outros furtasse o que de mais valioso possuía: a autoestima, o caráter e a alegria de viver”. Fez uma pausa antes de finalizar: “Todo o poder está na mente. O grande equívoco é acreditar que a mente lida apenas com as ideias, sendo alheia às emoções. Os sentimentos revelam como a mente elabora cada experiência. É a reação interna ao estímulo externo. Se o sentimento é ruim, a situação carece de melhor compreensão. Ao dominar esse processo, Enrico encontrou um bom lugar para morar em si mesmo. Definitivamente”.</p>
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		<title>Não é pouco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Aug 2025 18:39:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a filosofia ancestral do seu povo através de histórias e cantigas, baforou o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha, como se procurasse as melhores palavras, e comentou: “A verdade tem um preço alto. O pagamento é sempre à...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a filosofia ancestral do seu povo através de histórias e cantigas, baforou o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha, como se procurasse as melhores palavras, e comentou: “A verdade tem um preço alto. O pagamento é sempre à vista. Em muitas situações, traz o desconforto das mudanças indesejadas, porém, indispensáveis. Exige ousadia e coragem. Por não estarem preparados, faz com que muitos se assustem ou a evitem. Apesar do desconforto, esquecem, ou ainda não sabem, que a verdade oferece em troca a liberdade, a dignidade e a paz. Não é pouco. No entanto, poucos estão prontos para fazer destas conquistas as genuínas prioridades da vida”. Observou, por instantes, o bailar da fumaça diante dos olhos e, em seguida, retornou ao raciocínio: “De outra face, a mentira também tem um preço. Não cobra nada de entrada. Costuma oferecer conforto e alívio como um perigoso entorpecente de duração indeterminada. Engana porque transmite a sensação de que nada custará ou sairá quase de graça. Nada fala sobre os juros ocultos a serem pagos a longo prazo. O preço final se torna exorbitante. Em troca, a mentira oferece o avesso da verdade. É a contrafação da vida e da luz”. Deu de ombros e sugeriu: “Cabe a cada um escolher por qual irá pagar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentado na cadeira de balanço, Canção Estrelada conversava com Aiyana, uma jovem artesã que, assim como ele, também pertencia à etnia Navajo. Com vinte anos de idade, a moça já evidenciava uma rara habilidade na confecção de objetos em cerâmica. Moradora de Jerome, localizada nas montanhas Black Hills, próxima a Sedona, expunha em uma loja de artes na <em>Vila Assombrada</em>, como a cidade ficou conhecida. Erguida em torno da extração de cobre no século XIX, foi abandonada nos anos 1920 após o trágico desabamento de uma das minas e o consequente fechamento da empresa que a explorava. Todos foram embora. A cidade ficou abandonada por décadas. Como muitos prédios permaneceram intactos, artistas da região, com muito talento e pouco dinheiro, passaram a ocupar as casas vazias no final do século passado. Aos poucos, surgiram ateliês, cafés e restaurantes. O lugar se tornou atração turística. Alguns artistas, de pintores a escultores, de músicos a escritores, de artesões a chefs de cozinha, tiveram o trabalho reconhecido mundo afora, graças aos seus talentos, mas também ao encanto e à magia de Jerome. Todas as vezes que eu viajava para Sedona, um dos meus programas prediletos era dançar música country em um dos bares locais. Ao retornar ao Rio de Janeiro, sempre havia ao menos um objeto de algum dos seus artistas na minha mala. De tez morena e cabelos negros presos em tranças, Aiyana usava lindos vestidos com padronagens que remetiam à rica cultura do seus ancestrais. Os olhos da cor de mel e o nariz afilado lhe conferiam uma beleza exótica e apreciada. A jovem estava ali a pedido da avó, cuja amizade com o xamã remontava à juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cercada por artistas mais antigos e já reconhecidos, porém, igualmente talentosos, a arte de Aiyana ficara ofuscada. Restava pouco espaço para expor as suas obras em Jerome. A carreira se desenvolvia de maneira bem mais lenta do que gostaria. Ou merecia, na opinião da artista. Sonhava em colocar as cerâmicas nas galerias famosas de Londres ou de Nova Iorque. Para isto, acreditava, precisaria morar em uma cidade onde pudesse estar em contato com pessoas influentes. Lugares assim são caros de morar. A jovem precisava juntar um bom dinheiro para se mudar e se manter até que a carreira decolasse. Foi quando, aconselhada por um turista com quem tivera um breve envolvimento, produziu peças com a aparência de terem pertencido aos habitantes de Jerome na época da exploração do cobre. Devido à raridade e à enorme procura, esses objetos eram muito caros. Ele prometeu apresentar Aiyana a colecionadores de antiguidade. Assim fez. Ela vendeu a coleção de peças envelhecidas através de processos químicos. Como o comprador as manteria em casa para o próprio deleite e, talvez, mostrasse para apenas alguns poucos amigos, não haveria risco de ter problemas mais à frente. No mais, argumentou, se o comprador ficara satisfeito com os objetos adquiridos, nenhum mal havia praticado. Ainda que não fossem verdadeiros, o homem jamais se frustraria com aquelas peças. A ignorância protege, garantiu. Tanto ela como o colecionador estavam felizes com o negócio realizado. Nada há de errado em vender um prazer, ponderou a moça. Estava de malas prontas. Viajaria no dia seguinte. Moraria em uma cidade próxima a São Francisco, onde teria o padrão e o ritmo de vida que sempre buscara. Jerome era pequena demais para ela, afirmou. Não tinha dúvida de que residindo em uma cidade cosmopolita, seria mais fácil ter o seu talento reconhecido. Ressaltou que estava ali somente para acatar um pedido da avó. Acrescentou ter a consciência tranquila e estar segura da escolha feita. Deu a conversa como encerrada, se despediu e foi embora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estávamos na varanda da casa de Canção Estrelada. A jovem ainda não tinha virado a esquina, o xamã murmurou, como se falasse consigo mesmo, em tom quase inaudível: “Para cada busca, uma recompensa&#8230;”. Havia compaixão em seus olhos. Perguntei se ele dizia que a jovem encontraria a recompensa por aquilo que buscava. Canção Estrelada respondeu sim com a cabeça e acrescentou: “A ignorância ilude sobre o alcance do mal, jamais oferece proteção”. &nbsp;Indaguei se ele se referia à artista ou ao colecionador. O xamã esclareceu: “A ambos e a todos. Porém, a responsabilidade cabe a quem a utiliza para prejudicar outras pessoas”. Comentei sobre o inegável talento de Aiyana. Indaguei se na opinião dele a moça alcançaria a fama e a fortuna desejadas. Ele tornou a confirmar com a cabeça e ponderou: “Contudo, todos os desejos têm o preço condizente ao método utilizado na conquista”. Pontuei que, sem nenhuma dúvida, Aiyana era uma artista extraordinária. O xamã me olhou como se estivesse diante de uma criança e desmontou os meus argumentos: “Uma artista extraordinária perdida em escolhas ordinárias”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falei que não tinha entendido. Aiyana possuía o incrível dom de dar vida à terra, de transformar o barro em arte, argumentei. Se para cada busca existe a devida recompensa, nada mais justo que encontrasse o merecido reconhecimento. Talento não lhe faltava. Canção Estrelada me ofereceu um doce sorriso e, como se ainda falasse a um garoto, comentou: “Refiro-me a encontrar a recompensa adequada à busca realizada, não aquela que se espera encontrar. A vida nunca se engana. A genuína recompensa não é a ilusão da conquista mundana, mas a exposição à verdade contida na essência do movimento, não raro, inadmitida pelo buscador. Ao ignorarmos ou desprezarmos os elementos fundamentais da busca, a recompensa parecerá estranha. Nada haverá de errado. Apenas aceite, aprenda e agradeça”. Falei que aquelas ideias me pareciam por demais confusas. Na grandeza dos gestos suaves, típicos das almas maduras que carregam consigo a certeza de que o mau caminho nunca leva ao bom destino, em resposta, ele apenas soprou para longe a fumaça do cachimbo pairada à sua frente. Um gesto ancestral cujo significado fala sobre a verdade escondida por trás das camadas nebulosas dos enganos comuns a quem só consegue ver o que é imediato ou está no raso da existência. Não disse outra palavra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passaram-se alguns anos. Lembrei-me desse episódio somente uma única vez, quando em uma viagem, por acaso, soube da exposição da mais recente coleção de peças confeccionadas pela Aiyana em badaladas galerias mundo afora. Ávidos, fosse por um bom negócio, fosse por um raro capricho, marchands e colecionadores disputaram cada peça como refugiados lutando por um lugar ao sol. Nas rodas frequentadas por influentes e endinheirados, ter uma peça confeccionada pela designer era sinal de elegância e vanguarda. Por preços estratosféricos, a coleção fora toda vendida antes mesmo da exposição de abertura na capital, em Washington. Ainda percorreria Nova Iorque, Londres, Madri, Paris e Milão. No encarte oferecido nas galerias, o trabalho foi definido como <em>objetos de vieses incomuns aos aspectos vulgares do cotidiano. Isenta de qualquer sofisticação, a simplicidade transcende ao uso e para além da utilização. A simplicidade serve como condutor à verdade oculta por trás da aparente banalidade das situações do dia a dia, cuja importância se despreza e desperdiça. A simplicidade é a elegância levada ao expoente máximo</em>. Na fotografia da designer no encarte, ela em nada se parecia com a jovem que eu conhecera em Sedona. Embora estivesse muito bonita, era uma beleza diferente, que eu não sabia explicar. Perceber não basta. Para explicar se faz necessário entender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foram muitos os elogios. A artista passou a morar num espaçoso apartamento em Upper East Side, sofisticado bairro nova-iorquino, onde também funcionava o ateliê que a designer garantia primar pela simplicidade dos móveis e da decoração. Já havia exposições programadas para a nova coleção ainda em fase de preparação. Enquanto isso, por preços condizentes à fama alcançada, confeccionava peças exclusivas a pedido de clientes especiais. A fortuna também lhe sorrira. Ela recebera a devida recompensa pela incansável busca a que se dedicara desde cedo. Uma pessoa com incrível talento e determinação, pensei naquele instante. Depois, envolvido em meus próprios projetos, esqueci de Aiyana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tornei a lembrar da designer ao chegar em Sedona no ano seguinte. Canção Estrelada havia me convidado para os cerimoniais do equinócio da primavera, quando, por causa da sua posição, a Terra recebe do Sol a mesma quantidade de luz e escuridão em ambos os hemisférios. Ao chegar, o xamã conversava com Halona, avó de Aiyana, na varanda da casa. Notei uma inegável tristeza nos olhos da anciã. Ao perguntar o que tinha acontecido, a sábia senhora respondeu que quem está vivo não se acomoda na tumba. Achei estranho. Questionei quem estava vivo. A verdade nunca morre, afirmou Halona. Entendi menos ainda. Ela explicou. Com o falecimento do colecionador que havia comprado as peças de Aiyana, a julgar pelo valor histórico que possuíam, os herdeiros as ofereceram para alguns museus. Como de costume, antes de efetivar a compra, as instituições enviaram as obras para análise. Os peritos não tiveram dificuldade em constatar a fraude. Na época, o colecionador exigira um certificado de autenticidade. Ansiosa por fechar o negócio, e na crença de que a mentira nunca lhe causaria problema, Aiyana forjou um documento com falso teor. Um crime com pena mínima de dois anos de prisão. Caso condenatória, a sentença criminal talvez fosse a mais branda das penas. A condenação social é instantânea e possui uma crueldade própria, exacerbada pela falta de critérios, sensatez e limites. Ao se tornar manchete, de imediato, as exposições foram canceladas. Marchands e colecionadores retiraram as peças dos catálogos e das estantes. A fraude corroeu a carreira de Aiyana de maneira drástica e vertiginosa. A noticiada falta de caráter da artista imprimiu uma mancha de difícil remoção no seu inegável talento. A imprensa e as redes sociais, sedentas por tragédias e malfeitos, precisaram de apenas algumas horas para moldar a artista extraordinária em uma bandida ordinária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deprimida, Aiyana estava trancafiada na casa da avó. Não queria ver nem falar com ninguém. Escondia-se do mundo e, sobretudo, de si mesma. Sentia vergonha. Muita vergonha. Ao andar na rua, tinha a absurda sensação de que todos os olhares lhe eram dirigidos com censura. O mais difícil para a artista era se olhar no espelho. Simplesmente, não conseguia. Num desesperado gesto de negação, tapara os espelhos do banheiro e do quarto que ocupava. Nem mesmo olhava nos olhos de Halona que a acolhera com extremo carinho naquele momento de turbulência, instabilidade e incertezas. Canção Estrelada se ofereceu para conversar com a artista. A avó explicou que a neta não queria ir a lugar nenhum nem falar com ninguém. O xamã rufou o tambor de duas faces, entoando uma prece em forma de cantiga para que Aiyana aceitasse ajuda e, ainda mais importante, conseguisse ajudar a si mesma, movimento indispensável para superar o difícil momento que atravessava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns dias se passaram sem que houvesse modificação no ânimo e no comportamento da artista. Incansável, Halona fazia um inestimável trabalho com ervas e orações para que as vibrações lentas e deletérias emanadas por Aiyana não ganhassem forma e poder na atmosfera da casa. Contudo, sabia que eram medidas paliativas. Caso a neta não modificasse o padrão vibratório dos pensamentos e sentimentos, em breve seria engolida pela própria tristeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegara o dia do cerimonial referente ao equinócio da primavera. Acompanhados por um pequeno grupo de pessoas próximas, Halona entre elas, subimos à montanha através de uma trilha íngreme na floresta. Paramos num enorme platô onde alguns dos rituais aconteciam desde tempos imemoriais. Lá de cima era possível avistar Sedona ao longe. O céu parecia tão perto que tínhamos a sensação de que bastava esticar o braço para tocar nas estrelas. Foi acesa uma fogueira com tamanho suficiente para arder por toda a noite. Em volta, estendemos as mantas. Sentamo-nos formando um enorme círculo. Ritmado pelo tambor de duas faces, Canção Estrelada entoou uma cantiga que agradecia à escuridão a oportunidade de compreendermos a grandeza da luz, em uma das traduções simbólicas dos cerimoniais dedicados aos equinócios. A luz e a escuridão que cuidam dos rituais não se referem ao determinismo da posição planetária, mas às contradições internas provocadas pelas incompreensões oriundas ao posicionamento do engano e da verdade em nossas vidas. Um conhecimento determinante para distinguirmos o bem do mal. Só assim é possível ajustar rotas e encontrar o bom caminho. A dualidade ainda se faz necessária ao nosso nível de consciência. Graças ao preço cobrado pelos erros é que entendemos a importância da verdade e das virtudes em nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao término da música, fomos surpreendidos com a chegada de Aiyana. Estava malvestida, descabelada e com olheiras fundas. Em nada se parecia com a artista elegante das exposições. Como desde criança participara dos rituais, sabia onde cada um deles acontecia. Antes que lhe perguntassem, esclareceu que fora tomada por um ímpeto de vontade de buscar a própria cura. Queria sair do lugar escuro que naquele momento habitava em si mesma. Para isto, sabia, bastava uma nesga de luz, admitiu com os olhos marejados. Estava ali para conseguir reencontrar a luz que havia perdido ou deixado apagar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imediatamente, Aiyana foi acomodada no círculo sagrado ao lado de Halona. Sagrado como tudo, cuja razão de existir tenha por finalidade nos tornar pessoas melhores. O xamã entoou algumas músicas para alterar o estado de consciência do grupo. Jamais no sentido de entorpecer a mente ou levar ao devaneio, mas para relaxar o ego, gerente do consciente, e assim permitir a participação eficaz da alma, viajante comumente esquecida nos mares do inconsciente. Ao final das canções veio o silêncio. Ensurdecedor para alguns, suave para outros, o silêncio ecoa palavras que apenas uma consciência serena é capaz de escutar. Canção Estrelada orientou que cada um aproveitasse o momento para encontrar o que estava mal compreendido em si mesmo. Uma maravilhosa oportunidade de se reconstruir através da reelaboração de experiências cujos resultados ainda eram dolorosos devido à mágoa, à culpa ou ao medo. Ao reprocessar as equações existenciais com diferentes elementos, a verdade negada ou ignorada se manifesta. Então, a consciência se expande remodelando a realidade. A lucidez lhe concede esse poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O xamã orientou: “As mágoas se dissolvem nas virtudes da compaixão – ao não exigirmos do mundo a perfeição que não temos para oferecer – e da humildade – a honesta consciência sobre a própria pequenez diante da grandeza cósmica e de toda verdade ainda desconhecida. Embora jamais devamos nos maltratar, não podemos fugir das responsabilidades que nos cabem. Pedir desculpas e corrigir o erro restaura a dignidade. As culpas desaparecem quando envolvidas pelo autoperdão – fruto dileto da compaixão e da humildade –, não sem a companhia indispensável da vontade sincera em erradicar definitivamente aquele erro específico do rol das escolhas futuras. Assim, evoluímos”. Fez uma breve pausa antes de continuar: “O medo se desfaz com o entendimento de que nada de essencial jamais faltará a quem caminha pelo lado ensolarado da estrada da vida. Isto se chama fé, a indescritível conexão dos movimentos do viajante com a luz. Claro que sempre haverá desafios e dificuldades à frente, pois, a busca pela superação é um eficiente método pedagógico em favor da evolução. De recompensa, a certeza inabalável de que nada nem ninguém o deterá. Não é pouco”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passado um tempo que não sei precisar, o xamã voltou a rufar o tambor de duas faces em músicas de agradecimento aos bons espíritos que iluminaram e protegeram o cerimonial. Agradeceu a presença de todos os presentes pela colaboração na manutenção da linda e fantástica egrégora ancorada no local por diversas gerações. De diferentes maneiras, a depender das permissões individuais, todos que conseguiram emergir com a alma à tona do consciente tinham se beneficiado com o ritual daquela noite. Aos poucos, em pequenos grupos, as pessoas se despediram e foram embora. Ao final, restou junto a mim e a Canção Estrelada, apenas Halona e Aiyana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A artista se confessou arrependida. Embora o ritual a ajudasse a entender quais movimentos internos eram fundamentais antes dos indispensáveis deslocamentos que a aguardavam pelo mundo e pela vida, a dor ainda era enorme. A avó a abraçou com carinho e sussurrou que o processo era exatamente assim. Nada havia de errado. A função de um cerimonial, assim como da meditação ou da oração, não é a de fornecer a cura. Mas de apontar o remédio. Compreender os movimentos intrínsecos que necessita realizar para conseguir se deslocar pelo mundo daqui por diante, significa a exata trajetória de superação e libertação. Por ser fonte de equilíbrio e força de vontade, a compreensão subjetiva serve de alicerce às atitudes objetivas, sem as quais o entendimento restará desperdiçado. Aiyana afirmou estar disposta a pagar o preço da verdade, embora, agora, fosse bem mais alto. Era a única responsável por tudo que lhe acontecera nas últimas semanas. Portanto, sair de onde estava para se colocar em um lugar melhor, fosse no mundo, ou dentro de si mesma, cabia somente a ela. Canção Estrelada ofereceu um lindo sorriso e disse: “Seja bem-vinda de volta à luz. Tudo que nos acontece é para nosso bem. Inexoravelmente. Esse é o preço e a lição da verdade. Compreender a recompensa adequada à busca realizada é aceitar a Lei de Causa e Efeito como poder ordenador, da harmonia, da justiça e da evolução cósmica. Quando não é júbilo, é correção de rota. Entender que cada pessoa tem plena responsabilidade sobre a própria a vida faz germinar a maturidade da alma”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Emocionada, Aiyana garantiu que aceitaria com resignação o veredito do processo criminal por fraude. Prometeu procurar os herdeiros do colecionador. Pediria desculpas e os reembolsaria. Estava disposta não apenas a devolver a quantia que havia recebido na época, mas a pagar o valor que receberiam caso tivessem vendido a coleção para algum museu. Sabia que isso a deixaria sem dinheiro nenhum. Sem importar quão alto fosse o preço, o que ela buscava agora eram as recompensas da verdade: a dignidade, a liberdade e a paz. Amanhecia. A Aiyana que desceu a montanha levava consigo uma Aiyana que até então a própria Aiyana desconhecia. Não era pouco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltei a Sedona algum tempo depois. Soube que Aiyana deixara a penitenciária havia algumas semanas. O bom comportamento e o acordo financeiro com os herdeiros serviram para a redução da pena. Perguntei ao Canção Estrelada como ela se sentia ao retornar à liberdade. O xamã me corrigiu o raciocínio: “O término da execução judicial da pena restitui-lhe apenas o ir e vir do corpo físico. A genuína liberdade foi conquistada no dia que Aiyana se reconciliou com a verdade. O desvencilhamento dos erros e enganos aos quais sempre se acreditou, concede uma beleza e uma grandeza inimagináveis àqueles que nunca experimentaram a genuína liberdade do espírito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argumentei que a teoria nem sempre encontra aplicação prática. Ele sugeriu que eu avaliasse com os meus próprios olhos. Contudo, me alertou: “É preciso aprender a ver”. Partimos para Jerome na surrada picape de Canção Estrelada. Fomos recebidos com alegria por Halona e Aiyana. A designer ainda montava o ateliê na casa da avó. A oficina funcionava na sala. A varanda serviria de loja. Trabalhara incansavelmente nos últimos dias para a confecção das peças da sua nova coleção, toda desenhada na penitenciária. Animada, contou que apesar das restrições e dificuldades, tinha sido um período muito criativo e fértil, tanto no aspecto existencial como no artístico. Se a verdade é a última fronteira alcançada pela consciência, quando aquela se expande, esta se redimensiona. Então, tudo se modifica. Essa diferente realidade se manifestava como arte através da lucidez do olhar da artista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Admiti que era possível notar algo de diferente, tanto na designer como nas suas novas peças. No entanto, me declarei incapaz de identificar a essência da mudança. Aiyana explicou estar na simplicidade. Lembrei que o encarte da sua última exposição abordava esse mesmo aspecto. Perguntei se seria mais do mesmo ou se, de fato, algo havia mudado. <em>Eu mudei</em>, ela respondeu. Em seguida, abriu a gaveta e pegou um derradeiro exemplar que guardara, não como nostalgia, mas como aprendizado. O texto do encarte dizia que a coleção era formada por <em>objetos de vieses incomuns aos aspectos vulgares do cotidiano. Isenta de qualquer sofisticação, a simplicidade transcende ao uso e para além da utilização. A simplicidade serve como condutor à verdade oculta por trás da aparente banalidade das situações do dia a dia, cuja importância se despreza e desperdiça. A simplicidade é a elegância levada ao expoente máximo</em>. A artista comentou que só agora alcançava o exato significado dessas palavras. Na época, foram escritas mais por intuição do que por compreensão. Intuição é a voz da alma nem sempre compreendida pelo ego. Depois de elaborar a recente experiência vivida, ela não apenas entendia, porém, estava disposta a viver o esplendor daquela ideia. A sua arte retratava esse novo estilo de vida. A simplicidade é a virtude de afastar os enganos, ilusões e devaneios que servem de cortina de fumaça para esconder a verdade. Ninguém conhece a verdade antes de conhecer a si mesmo. Logo, é no processo de conquista da verdade que o indivíduo e a realidade se transformam. Um poder arrebatador. Não existe verdade à margem do amor. Tampouco, evolução. Querer o melhor para si, ela sempre quis. Descobrir o que era melhor para si só foi possível quando compreendeu que o amor, assim como a vida, exige que se pague o preço da verdade para, somente então, florescer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Havia uma luz indescritível nos olhos da artista. A beleza de Aiyana não era igual a da linda jovem de vinte anos de idade, quando a conheci. Era uma beleza diferente. Assim como a atual elegância da designer era bem mais interessante do que na época do glamour da fama, apesar de não mais vestir roupas caras nem de se valer dos inúmeros recursos estéticos de outrora. A artista transparecia o encanto oriundo de quem tinha encontrado um lugar chamado verdade para morar em si mesmo. Não existe porto mais seguro nem pilar mais firme. Ela trazia consigo a alegria da viajante que aprendeu a trilhar o bom caminho dentro do próprio coração. Havia a alegria do renascimento de quem, ao pagar o preço da verdade, encontrou o amor que desconhecia por si mesma. Aiyana estava linda como nunca estivera.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois, me mostrou os vários desenhos que esboçou no período de reclusão. Aos poucos, cada um deles ganhava vida no forno do ateliê, onde até poucos dias atrás funcionava a lareira da casa. Para o público em geral, se comparada à época que expunha nas galerias famosas, era uma artista em decadência. Para quem possuía um olhar diferenciado, uma designer extraordinária vivida por uma mulher que se descobrira extraordinária. Ela tinha conseguido chegar a um lugar que poucos conhecem. Aiyana havia ido além de si mesma. Não é pouco. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>O querer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Jul 2025 18:15:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[“Sejam orgulhosos ou humildes, vaidosos ou despojados, egoístas ou solidários, todos querem o melhor para si. E nada há de errado nisto. O acesso a bens de modo que os dias se tornem mais agradáveis, não constitui por si só em um desvio da jornada espiritual. A questão reside no...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“Sejam orgulhosos ou humildes, vaidosos ou despojados, egoístas ou solidários, todos querem o melhor para si. E nada há de errado nisto. O acesso a bens de modo que os dias se tornem mais agradáveis, não constitui por si só em um desvio da jornada espiritual. A questão reside no conteúdo e na motivação do querer, assim como no modo utilizado para o alcançar. Seja uma casa, um emprego, um enlace romântico ou a busca pela paz. Nem toda conquista é uma vitória, nem todo bem nos faz bem. Como já dizia o alquimista do Recôncavo, o dinheiro ergue e destrói coisas belas. Tanto prédios quanto almas. Com o querer não é diferente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela fez uma breve pausa antes de continuar: “Querer o melhor para si trata de um desejo válido e legítimo. O ponto angular reside em saber o que é melhor para si. Não raro, a beleza da vida escorre pelos vãos da escalada até o bem desejado. Seja material ou invisível. O avarento acredita ser precavido, o soberbo crê defender a honra, os covardes desdenham os desafios que se negam a enfrentar, os violentos alegam se defender das agruras do mundo, os egoístas apenas retêm aquilo que consideram essencial à própria felicidade. Os enganos são tantos quantos os motivos que nos fazem querer. Impulsionados por raciocínios tortuosos, muitos dão vazão às próprias sombras sob pretextos aparentemente justificáveis. Atrapalham-se entre o bem e o mal por não os distinguir com clareza. Discernir o certo do errado nunca foi uma leitura fácil. Do contrário, ninguém erraria”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhou-me com compaixão e sugeriu: “Aceitar o melhor caminho, diferente daquele até então percorrido, é gesto de correição árdua, disponível apenas para quem está disposto a se reconstruir sob novos fundamentos. Faz-se necessário descortinar as camadas de enganos, aceitos como verdades inevitáveis por nunca haver cogitado a possibilidade de se permitir uma escolha diferente, fora do padrão ao qual foi condicionado desde sempre. Comportamentos arraigados, transmitidos por gerações desde tempos imemoriais, cujo intuito é de proteger do errado, do mal e do pior, por não sabermos escolher, terminam por nos envolver com o errado, o mal e o pior. Propagamos conflitos dentro e fora da gente. Sofremos. Pelas mãos da própria incompreensão, acabamos por encontrar aquilo que evitamos. Mantemos uma jornada existencial em conluio com o imobilismo, o atraso e a dor. Mover-se pelos dias na mera repetição de comportamentos que já se mostraram ineficientes, é aceitar o errado, o mal e o pior como realidades perenes. Acreditamos estar em paz quando, em verdade, apenas fugimos dos desafios evolutivos oferecidos pela vida. Instauramos a tensão interna nas vezes que nos negamos a enfrentar as dificuldades externas. Desperdiçamos o certo, o bem e o melhor da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se fizesse uma viagem, singrou com o olhar pelo azul do mar até o azul do céu no horizonte distante, antes de prosseguir: “Identificar o jeito de ser que restringe as possibilidades do viver é fase primordial ao autodescobrimento, sem o qual não haverá nenhuma transformação pessoal. Romper com esse comportamento secular e ineficiente, contrário à liberdade – por nos manter cativos às próprias sombras – e à dignidade – enquanto nos impedir de oferecer o tratamento que gostaríamos de receber – é o desejo sincero de muitas pessoas. Contudo, poucos conseguem. O motivo é simples. Não basta querer, é preciso aprender a querer. Por vezes, demoramos demais a nos dar conta de que escolhas até então impensadas, não são apenas possíveis, porém, nos oferecem ainda mais: são elas que abrem as passagens entre as muralhas existenciais que até então acreditávamos intransponíveis”, ponderou Cléo, a bruxa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava no topo da Pedra Bonita, um enorme maciço de granito debruçado centenas de metros acima e à beira do Atlântico, no Rio de Janeiro. Como de costume, subo essa montanha para meditar quando me encontro diante de algum dilema existencial. Muitas vezes, apesar de acreditar saber qual é a melhor escolha, algo em mim resta desestruturado. A paz desaparece, a minha alma grita em forma de agonia. Algo em mim precisa ser corrigido sem demora. Um sinal de que, quando desconectado da minha essência, termino por me desviar do bom caminho. Embora tão próxima, nem sempre é fácil ouvir a voz da alma, apenas manifestada no encontro permitido pelo silêncio e pela quietude. Por vezes, nem sempre consigo, pois, de tão intensa, a tensão interna não me permite. É quando preciso de ajuda. Então, busco a ventura de encontrar a Cléo no alto da montanha. Ela nem sempre aparece, mas quando isso acontece, me traduz a luz da minha alma. A linda bruxa morena, de corpo longilíneo e cabelos pretos lançados ao vento, bailando em compasso com os seus vestidos esvoaçantes de tecido fino estampados em cores quentes, sempre se aproxima e vai embora rodopiando entre gaivotas, como coadjuvantes de um fantástico balé encantado. Cléo é considerada uma lenda urbana. Embora todos já tenham ouvido ao menos um história sobre as manifestações da bruxa carioca, poucos a viram. Muitos não acreditam na sua existência. Dizem que é delírio ou imaginação. Eu não me importo. Por mais de uma vez tive a bruxa sentada ao meu lado como uma valiosa intérprete da minha alma. Naquele dia, enquanto conversávamos, a cidade pulsava aos nossos pés.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Unesco abrira um edital em busca de um livro que, através da ficção, alertasse as crianças da aproximação indevida de adultos mal-intencionados. Um assunto atual, sério e necessário. Tínhamos recém-publicado uma obra maravilhosa de uma jovem pedagoga com esse exato conteúdo, exposto de modo criativo e lúdico ao universo infantil. O livro selecionado seria comprado em quantidades colossais para distribuição mundo afora em uma infinidade de idiomas. Era muito dinheiro. A editora atravessava uma séria dificuldade financeira. Seria não apenas uma solução econômica, mas também editorial. Poderíamos pagar as contas atrasadas, assim como publicar mil outros autores cujos trabalhos mereciam ser conhecidos e reconhecidos. Havia originais maravilhosos à espera para ganhar vida. Escalaríamos um patamar empresarial. Muitas coisas boas aconteceriam. Após uma pré-seleção, quando editoras de todos os cantos do planeta enviaram obras para avaliação, apenas dez livros restaram selecionados para a fase final do processo. O nosso estava entre eles. Como em situações anteriores semelhantes a essa, quando havia grandes interesses envolvidos, a ética não costumava moldar o comportamento dos editores. Defender o próprio livro não bastava. Apontar incongruências e incompletudes nas obras concorrentes era uma postura costumeira na disputa. Soube disto ao contratar um experiente consultor para preparar a exposição do nosso livro perante os jurados. Fui avisado que um desagradável trabalho de bastidores me aguardava. Eu teria de procurar cada um dos jurados, os convidar para um café ou almoço, quando, de maneira sutil e aparentemente desproposital, tentaria destruir os concorrentes. Não se tratava de um concurso, mas de uma guerra sem pólvora nem pudor. Caso me recusasse a fazer, fui alertado que não teria a menor chance. Todos os outros editores fariam isso com o nosso livro. Eram as regras do jogo. Não as aceitar seria ingenuidade. Ninguém é desonesto ao faltar com a honestidade no trato com desonestos, orientou o consultor. Concordei em fazer o trabalho desagradável. Eu precisava ganhar. Significava a sobrevivência da editora. Os fins justificam os meios: seria um mal menor diante de um bem maior, justifiquei para mim mesmo. O pesadelo da falência rondava as esquinas das minhas noites insones. Eu não tinha escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A bruxa retrucou: “Todos têm escolhas. Qualquer situação, por mais complicada que pareça, permite um caminho diferente daquele pelo qual o fluxo dos condicionamentos ancestrais costuma convencer as multidões a permanecerem no mesmo lugar. A vida exige movimento. Sempre será possível uma escolha diversa e arrojada, ainda que não seja a dos sonhos dourados. Aliás, quase nunca a melhor decisão se coaduna com facilidades e privilégios. Acreditar que a vida está fadada à fatalidade, como se as ocorrências do cotidiano de uma pessoa a colocasse a bordo de uma nau sem leme, à mercê das marés e das correntes desconhecidas, sujeita a inevitáveis naufrágios, é não compreender o direito inalienável ao livre-arbítrio, no qual reside o poder do direcionamento pessoal rumo ao destino compatível às escolhas realizadas”. Cléo deu de ombros e arrematou: “Por vezes, a melhor opção não é fugir da tempestade, mas consiste em abraçar a dificuldade”. Atônito, questionei como eu poderia acolher algo que poderia me destruir. Ela sorriu e comentou: “Acreditar que algo ou alguém tem o poder de nos destruir é uma ideia contrária às forças da Luz que ordenam e equilibram o Universo. Apenas cada um pode fazer isso consigo mesmo. Ninguém mais. Por isso digo que precisamos aprender a querer”. Falei que somente desejava salvar a editora da falência. Era uma questão de sobrevivência. Uma vontade justa e natural, aleguei. Cléo foi rigorosa: “Os fins, por mais nobres que sejam, jamais justificam os meios torpes usados para os conquistar. Nenhum mal, por menor que seja, serve para alicerçar o bem. Argumentos contrários não passam de falácias usadas na tentativa de evitar o esforço indispensável ao progresso espiritual”. Contrariado, sibilei que o preço cobrado pelo bem era muito caro. Foi quando ela me desconcertou: “O bem tem um preço. O mal também. Escolha qual dos dois quer pagar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Envergonhado, mas não disposto a aceitar os argumentos da bruxa, ponderei que deixar a editora falir não seria uma escolha sensata. Equivalia ao suicídio empresarial. Lembrei dos funcionários que perderiam seus empregos. Muitos eram arrimos de família. Confessei que eu não conseguia vislumbrar outro caminho que não fosse aceitar as regras do jogo. Todos os outros editores se valeriam delas. Não fui eu quem as impôs, tampouco teria como as evitar caso quisesse salvar a editora da bancarrota. Foi quando a Cléo tornou a me surpreender: “Você conhece o Sermão da Montanha?”. Achei graça da pergunta. Claro que eu conhecia. Era o eixo principal dos meus estudos na OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha –, lugar que eu frequentava havia anos. O Sermão é um autêntico manual para quem deseja direcionar os passos rumo à luz, respondi. A bruxa citou um pequeno trecho do texto sagrado: “<em>Passai pela porta estreita, porque larga é a estrada da perdição. Numerosos são os que por ela trafegam. Difíceis são os caminhos da vida. Raros são os que conseguem atravessar</em>”. Ela prosseguiu: “Qual o significado da porta estreita?”. Calei-me. A bruxa expressou o meu pensamento: “Valer-se das virtudes e da verdade como orientadoras de todas as escolhas. Atrelar o querer à ética. Uma ideia muito simples, porém, de dificílima execução. Alguns dos nossos desejos mais aguardados se mostram ao nosso alcance de modo inadequado”. Olhou para o mar antes de comentar: “Ah! As tentações&#8230; as da alma costumam causar mais danos do que as do corpo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, se virou para mim e prosseguiu: “Todos querem o bem, mas poucos estão prontos para utilizar o bem como roda em prol do próprio movimento. Para tamanho intento se faz necessário trazer consigo um atributo indispensável ao amor e à sabedoria: a abnegação. Uma virtude escassa de encontrar porque prioriza as riquezas da alma em detrimento dos tesouros do mundo, um entendimento fundamental para quem compreende a importância de iluminar os próprios passos através do Caminho. Muitos a entendem como loucura, covardia ou desistência, quando, na verdade, a abnegação exige os mais altos níveis de sinceridade, coragem e comprometimento com a verdade. Trata-se da renúncia às ambições movidas por fama e fortuna, pelas quais multidões guerreiam todos os dias, para as substituir em favor das manifestações pacíficas, silenciosas e honradas de uma alma forjada no fogo de uma existência, na qual a dor trouxe à tona da vida um amor raro, improvável e pouco conhecido. Quem ainda não entendeu quais são as prioridades da vida nada aprendeu sobre o bom querer. Primeiro compreenda as prioridades. Depois, as use para orientar as suas escolhas. Cada querer traz consigo o poder de manter a rota rumo à luz ou conduzir a um desvio que desemboca nos becos escuros da incompreensão. Priorizar as prioridades não é pleonasmo nem redundância, mas ressalta a importância do querer como um definidor de destinos”. Insisti que todos os outros concorrentes se valeriam de um mesmo recurso escuso. Eu ficaria em franca desvantagem. Não me restaria a menor chance. Seria o fim. Cléo me corrigiu o raciocínio: “Os erros alheios jamais servirão de desculpa para justificar os nossos. Seja pelas trilhas sombrias, seja pelas veredas ensolaradas, cada indivíduo decide por qual lado da estrada viajará”. Deu de ombros e acrescentou: “O que os tolos acreditam ser o fim, os sábios enxergam como uma maravilhosa oportunidade de transformação”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fazendo alusão a outro trecho do mesmo texto sagrado, em total consonância com a nossa conversa, argumentou: “Muitos não têm consciência ou não dão a devida importância ao valor incomensurável da própria luz. Não se importam de ganhar o mundo ao preço de perder a alma. Têm enorme dificuldade em resistir às tentações do luxo e do brilho por todas as facilidades e privilégios que permitem. Conquistas rasas que pesarão na bagagem para adiante e além da estrada do tempo. A sua alma estará amanhã onde hoje estiver o seu querer”. Questionei se não havia uma enorme dose de ingenuidade em pensar assim. Ela discordou: “O que você entende como ingenuidade, eu vejo como sabedoria. A abnegação é uma virtude desprezada por muitos. Poucos compreendem a enorme força de movimento que essa ferramenta evolutiva possui. Abdicar de um bem material em favor de um valor espiritual é um querer ainda desconsiderado pelas multidões. Um ato de amor à vida. Um autêntico compromisso com a luz. Os abnegados são genuinamente fortes e sábios, embora a maioria os veja como fracos e tolos. Nada há de errado em querer o ouro, desde que jamais entregue a sua alma na barganha de troca. Nem tudo que reluz é luz. Fora da abnegação não há como atravessar a porta estreita”. Ela me olhou com seriedade e perguntou se nas suas palavras havia algo que eu desconhecesse. Respondi que não com a cabeça. Cléo arrematou a conversa: “Ideias sem ação não movem os moinhos da evolução”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observei-a se afastar rodopiando por entre as gaivotas até sumir do meu olhar. Desci atordoado da montanha. Aproximar-se da verdade causa medo. A razão é simples: a verdade transforma. Mas traz uma incerteza: será que conseguirei lidar com a nova realidade com que passarei a conviver? Uma dúvida natural. Quando mudamos o padrão de pensar e sentir, de posturas e escolhas, a realidade – formada pelos limites da verdade alcançada – também se altera. Haverá um lugar dentro de mim ainda em construção. E será nele que passarei a viver. Terei à disposição novas ferramentas que ainda terei de aprender a usar até a perfeição. As antigas reações e mecanismos de sobrevivência, úteis até aqui, não servirão mais por serem ineficientes para me conduzir adiante. O aprendizado constante será a tônica da nova realidade. Descobertas, encontros e conquistas contínuas exigem a ousadia e a coragem de querer diferente. Evoluir é uma jornada rumo ao desconhecido. A verdade, de início, parece assustadora. Não é fácil acreditar naquilo que você percebe, mas não vê. Enquanto tiver medo de se sustentar no ar invisível, a lagarta jamais conhecerá as asas ocultas em si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender a verdade não basta. É preciso que se torne elemento indissociável de quem somos. Precisei de alguns dias para assentar ideias e sentimentos. Convoquei os funcionários da editora para uma reunião. Contei sobre as mudanças de planos. Dispensaríamos os serviços do experiente consultor. Abdicaríamos do usual encontro com os jurados no intuito de difamar a concorrência. Expliquei os fundamentos da decisão, assim como os riscos assumidos. Falei que entenderia quem preferisse sair da empresa naquele instante, enquanto ainda tínhamos dinheiro para pagar a rescisão contratual. Se viesse a falência, talvez nem isto fosse possível. Pelos mais diversos motivos, quase todos preferiram se desligar da empresa. Eu esperava que isso acontecesse com alguns, não com tantos. Afastei a tristeza inicial e respeitei a decisão sem contestar. Era parte inerente das dificuldades à porta da estreita. Agradeci o tempo que estivemos juntos e os encaminhei ao contador. Vida que segue. E precisa seguir. Sem lamento, mas com movimento. Com trabalho e nenhum ressentimento. Tínhamos uma apresentação na Unesco para preparar. Montei uma equipe de criação com os funcionários que restaram. Por suas atitudes em um momento tão significativo, uma linda família cósmica se formou pelos laços de luz que passou a nos unir. Da Teresa, a premiada ilustradora, ao Jonas, o rapaz responsável pela limpeza e pelo cafezinho, foi montada uma frente de combate, superação e sobrevivência com aqueles que ficaram. Numa brincadeira séria, nos autodenominamos <em>Os trezentos de Esparta</em>. Não passávamos de meia dúzia. Apenas fazíamos alusão ao fato histórico de quando poucos tiveram a determinação e a coragem para enfrentar muitos. Todas as ideias foram analisadas com carinho. Todas as opiniões foram avaliadas com atenção. Apesar do enorme perigo que se avizinhava, os dias foram moldados com alegria e esperança. Ao final, tínhamos preparado uma linda exposição para apresentarmos na Unesco. Sem nenhuma modéstia ou cabotinagem, entre os trabalhos apresentados pelas editoras concorrentes, considerei o nosso trabalho o mais bonito e completo de todos. Talvez por conter o melhor de cada um nós nos mínimos detalhes da sua criação. Foram momentos inesquecíveis de uma riqueza incomensurável. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perdemos o concurso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Avisei os funcionários através de uma ligação e desliguei o telefone em seguida. Eu não queria falar com ninguém. A minha mente girava entre pedir um empréstimo bancário para quitar as despesas do fechamento da editora até as palavras que eu usaria em agradecimento àqueles que não me abandonaram num momento tão difícil, bonito e delicado. Tinham escolhido atravessar a porta estreita ao meu lado. Foram maiores do que eu. Mereciam todo o meu amor e respeito. Apesar da tristeza relativa à perda da empresa – e ao consequente desligamento daqueles guerreiros pacíficos que caminharam comigo até o fim –, havia uma estranha sensação de paz, talvez até mesmo uma alegria serena, por eu ter me permitido buscar o meu querer da melhor maneira, sem me valer de subterfúgios, das sombras nem do mal. Onde muitos enxergariam uma derrota acachapante, existia uma vitória singela, porém, grandiosa a um só tempo. Algo em mim tinha sido conquistado. E isto me fazia muito bem. Não me faltavam equilíbrio emocional nem força mental para seguir adiante, apesar dos pesares. Havia firmeza e lucidez. Eu sempre compreendi o poder da luz, mas nunca o havia sentido com tamanha magnitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei ainda dois dias em Paris, onde se localiza a sede da Unesco. Mantive o telefone desligado pelo restante da viagem. Tentei vender o catálogo da editora para editores franceses. Seria uma maneira de ao menos pagar a rescisão contratual daquelas pessoas incríveis que acreditaram em mim. Não tive sucesso. Desembarquei no Galeão nas primeiras horas de uma linda manhã de sol. Sem passar em casa, fui direto à editora em São Cristóvão, um bairro repleto de pequenas vilas habitadas por operários. Com o deslocamento de algumas fábricas para outros bairros, havia alguns anos, aproveitamos uma dessas vilas desocupadas para montar a sede da editora. Um local simples, porém, muito aconchegante. Fizemos uma grande reforma projetada pela minha mulher, a Denise. Inspirada no Caminito, a famosa rua de Buenos Aires, cidade onde ela morou, as casas foram coloridas com tintas alegres e vibrantes. Flores foram plantadas nos beirais e nas janelas. Ficou lindo. Eu me sentia bem ali. Eu sentiria falta daquele lugar. Pensei nisto quando tentei destrancar a porta que, para minha surpresa, estava aberta. Era muito cedo. O expediente ainda não tinha começado. No mais, ninguém tinha mais nada a fazer numa editora falida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao entrar, uma surpresa. Os funcionários tinham preparado um farto café da manhã para me recepcionar. Fui recebido com muitos abraços e sorrisos. Percebi que eles se divertiam por eu estranhar aquele movimento. Agradeci o carinho, mas ressaltei que não havia motivo para comemorações. Então, outra surpresa.&nbsp; Foi quando me contaram que um dos editores que eu havia procurado em Paris após o resultado do concurso, que como os demais tinha recusado a oferta para adquirir o nosso catálogo, entrara em contato com editora. Como ele tinha assistido e gostado da nossa exposição na Unesco, se permitiu analisar o material com mais calma. Acabou encontrando muitos pontos em comum entre a nossa editora e a dele, uma das maiores da França. Viu nisso uma oportunidade para ambas. Como sempre teve vontade de oferecer os seus livros no mercado brasileiro, tentou entrar em contato comigo no mesmo dia. Como o meu celular estava desligado, não conseguiu. Entusiasmado, enviou um e-mail com uma proposta para comprar metade das cotas societárias da editora. Os catálogos se fundiriam, permitindo que nossos livros também chegassem ao leitor europeu. Não somente quitaríamos as dívidas, mas ganharíamos fôlego e fomento para emergir à tona e voltar a crescer. Uma oferta generosa em todos os aspectos. Sem ter como me consultar, mas sem deixar a oportunidade escapar, os funcionários reunidos decidiram, em meu nome, dizer sim a proposta. <em>Os trezentos de Esparta</em> tinham virado a História ao avesso e vencido uma guerra considerada perdida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O contrato estava em cima da minha mesa de trabalho, na casa ao lado onde funcionava o meu escritório. A sós na sala, li o documento quase sem acreditar naquelas palavras. Em seguida, liguei para o editor francês para agradecer o interesse e comunicar que o negócio estava fechado. Ao assinar a cessão de cotas, ouvi a voz da Cléo atrás de mim: “Não existe derrota para quem se mantém na luz”. Virei-me, mas não havia ninguém. Eu conhecia aquela voz. Em silêncio, agradeci à bruxa por ter me ensinado que saber querer é fator primordial para atravessar a porta estreita. Haverá outras portas à medida que a viagem avançar. Agora sei que todas elas estarão relacionadas ao meu querer.</p>
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		<title>A forja original</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Jun 2025 18:15:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[“Quando o gosto dos outros nos serve de molde, perdemos aquele que poderíamos nos tornar”, foi a frase que ouvi ao entrar na oficina de Loureiro, o sapateiro que costurava o couro e as ideias com igual mestria. Chovia muito na pequena e charmosa cidade de ruas estreitas e sinuosas...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“Quando o gosto dos outros nos serve de molde, perdemos aquele que poderíamos nos tornar”, foi a frase que ouvi ao entrar na oficina de Loureiro, o sapateiro que costurava o couro e as ideias com igual mestria. Chovia muito na pequena e charmosa cidade de ruas estreitas e sinuosas calçadas com pedras seculares. O guarda-chuva não deu conta de me manter a salvo da água. Pendurei o casaco molhado e troquei um abraço com o Loureiro. Em sua elegância habitual, com os fartos cabelos brancos penteados para trás, ele trajava uma camisa rosa-claro, com as mangas enroladas na altura dos cotovelos para oferecer maior mobilidade no trabalho, arrumadas por dentro da calça azul-marinho de fina alfaiataria. Os sapatos pretos eram de confecção própria. Cumprimentei Francis, filho caçula do Renê, o livreiro da cidade. Pelo tom da frase que ouvi ao chegar, não foi difícil perceber a seriedade da conversa. Sem muita convicção, falei que os deixaria a sós caso preferissem. Eles riram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lá fora a tempestade era inclemente. Como de costume, o trem me deixara de madrugada na estação. O inusitado horário de funcionamento da oficina, que abria à noite para cerrar as portas na hora do almoço, fazia do ateliê não apenas um abrigo seguro e agradável até a hora da saída do transporte para o mosteiro, mas também palco dos memoráveis ensinamentos oferecidos pelo sapateiro. A cidade ainda dormia. Naquele instante eu não tinha para onde ir. Enquanto Loureiro enchia três canecas com café fresco, o filho do livreiro sugeriu que eu me sentasse ao seu lado diante do pesado balcão de madeira. Simpático e acolhedor, Francis me convidou a participar da conversa. A minha opinião seria bem-vinda, um contraponto importante diante das ideias do sapateiro, sempre por demais desconcertantes e difíceis de assimilar, Francis fingiu o provocar. Entrando na brincadeira, concordei com ele. Loureiro sorriu e pousou as canecas fumegantes sobre o balcão. Apesar do bom-humor, o assunto era sério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francis era um rapaz simpático e querido por todos. Prestativo, estava sempre disposto a ajudar. Como costuma acontecer em casos semelhantes, a sua enorme facilidade em ceder era inversamente proporcional à sua dificuldade em negar. Embora fosse um homem generoso, a sua inegável bondade ocultava um inconfessável medo de desagradar as pessoas, caso manifestasse a sua verdadeira opinião ou vontade. Era assim desde menino. Tornara-se advogado, profissão do avô materno, por influência da mãe. Casara-se com a Cris, a primeira namorada, por desejo dela, das famílias e dos amigos próximos. Todos adoravam o jeito dinâmico e divertido da moça. Francis também. Embora ela fosse uma pessoa interessante e agradável, faltava o amor do tipo que alinha a história de duas almas numa mesma narrativa evolutiva. Aderira ao veganismo, não por gosto ou ponto de vista, mas para não desagradar à esposa, adepta fervorosa aos movimentos e modismos socioculturais contemporâneos. Nas conversas, evitava divergir com receio de gerar contrariedades e mal-estar. Acostumara-se a falar o que cada pessoa ou grupo gostava de ouvir. Sempre disponível às necessidades de todos, esquecera-se das próprias necessidades. Deixara para trás os sabores que apreciava e os caminhos que gostaria de trilhar. Tornara-se um pessoa bem diferente daquela que poderia se tornar. Não vivera as experiências que precisava, fundamentais ao seu aprendizado e formação existencial. Embora vivesse cercado de pessoas, sentia uma estranha e inexplicável solidão, confessou. Potencialidades e possibilidades restaram abandonadas em razão das expectativas alheias. O Francis era alguém que ele mesmo não reconhecia. Um tenor sem voz em uma ópera confusa. O protagonista apagado de uma trama difusa ditada por uma plateia movida por interesses próprios. Uma história sem história por total ausência de conteúdo autoral. Evitava pensar nisso. Dentro dele havia um imenso vazio que o devorava. Todos os dias, um pouco mais, se tornava um pouco menos. Precisava de medicamentos para dormir. A alegria, oriunda do encantamento por si mesmo e pela vida, fora substituída pela euforia dos prazeres ligeiros de valores rasos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na roda de amigos alimentava assuntos que não lhe interessavam à alma. Sem negar a importância da profissão, vivia uma rotina entre petições e audiências que causavam tédio, estranheza e desconforto por falta de afinidade e vocação. O senso de responsabilidade fizera dele um advogado sério e competente, com uma boa carteira de clientes face à retidão com que cuidava das ações judiciais, boa parte decorrente de uma vida social próxima àqueles que detinham o capital produtivo, capazes de arcar com os honorários proporcionais aos altos valores das demandas envolvidas. Era elogiado e respeitado tanto no fórum como nos salões da sociedade. Vivia um casamento de boa aparência e pouca intimidade. De mãos dadas e sorrisos protocolares, frequentavam festas, eventos e solenidades. Viajavam muito para uma importante metrópole distante a apenas duas horas de carro, onde o sogro, um prestigiado industrial, administrava um famoso parque têxtil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em casa, havia alguns anos, sob o pretexto que à noite ele gostava de ler enquanto ela adorava assistir TV, dormiam em quartos separados. O convívio com a esposa era educado e respeitoso, porém, sem o carinho e a empatia indispensáveis aos relacionamentos saudáveis e significativos. Conversavam amenidades. Falavam sobre as ocorrências sociais, modernidades, exposições pontuais, algum espetáculo que planejavam assistir, questões domésticas corriqueiras, como reparos e reformas na casa. Havia anos, não conversavam sobre os seus sentimentos, necessidades ou ideias que fugissem das estreitas margens que os restringiam de ir além de quem eram. Melhor, de quem Francis era. Cris adorava o seu estilo de vida. A programação do casal, assim como a rotina da casa, era de responsabilidade da esposa. Desde o que comeriam no jantar até a programação do fim de semana. Sem discussão nem divergência. O casal tinha três filhos, um número considerado ideal não só pela esposa, mas também pela mãe e pela sogra. Francis amava os filhos com intensidade e acreditava que seriam os elos a sustentar o casamento. Ocorre que, jovens adultos, os dois mais velhos cursavam diferentes cursos em universidades no exterior. O caçula partiria ao término do verão. Apesar das condições materiais que muitos consideravam ideal a uma vida feliz, para Francis não fazia mais sentido manter o matrimônio com a Cris. Não conseguia se imaginar naquela casa sem os filhos, convivendo somente com a esposa. Estava disposto a renunciar à advocacia e ao casamento. Precisava de uma pequena mala e um bilhete curto. Nada mais. Tinha amealhado uma boa poupança, suficiente para recomeçar a nova vida sem qualquer aperto financeiro. Pensava em morar distante dali. Talvez do outro lado do oceano, considerou. Queria ser ele mesmo, ansiava por liberdade, revelou. Em seguida, com a alma esmagada pelas próprias incompreensões, fez a pergunta cabal: <em>Eu não brigo com ninguém. Não tenho problemas econômicos e gozo de boa saúde. Vivo cercado de pessoas que me querem bem, recebo constantes elogios&#8230;, mas não conheço a paz. Como isso é possível?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro bebeu um gole de café e ponderou: “Ninguém muda de vida apenas por mudar de cidade, profissão ou se divorciar. Caso faça, seguirá repetindo antigos padrões de comportamento em diferentes cenários. Será mais do mesmo. Para haver sentido, qualquer mudança precisa estar alicerçada em firmes e profundas transformações internas. São estas que apontam um novo sentido para a vida e o sustentam diante das dificuldades inerentes aos dias. Para se manter eivado em força e equilíbrio, o movimento precisar vir de dentro para fora, nunca na direção contrária, quando somente revela insatisfações ainda não compreendidas. O indivíduo se mostra rebelde ao sofrimento sem entender os motivos que lhe deram causa. Mudar o personagem não extingue a dor. Trazer à luz quem até agora ficou esquecido e renegado nos becos escuros de si mesmo é um dos verdadeiros significados da palavra renascer. Nada há de errado em mudar o corte de cabelo, o estilo das roupas, a casa, o emprego ou a profissão. Contudo, para haver uma genuína mudança será necessário entender e modificar o jeito de se olhar e respeitar. Há de haver a indispensável coerência entre aquilo que quer para si e as escolhas que realiza. O ator que troca a maquiagem para viver outro personagem de um texto que não escreveu segue apenas sendo um ator que atua em histórias outras, nunca a sua. Quem vive a história que escreve se torna o autor da própria vida. Apesar dos inevitáveis erros, dissabores e decepções inerentes às experiências e aprendizados, conhecerá as alegrias, delícias e conquistas de construir uma narrativa original. Um poder inestimável, fonte da beleza e do encanto existentes, e muitas vezes esquecidos, em todas as pessoas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francis disse que precisava sair de casa, se afastar da esposa e dos sogros, e até mesmo dos pais. Assim como da rotina enfadonha do escritório e dos amigos sem afinidade. Desejava uma vida nova. Dentro de algumas semanas todos os filhos estariam estudando no exterior. Partiria em seguida. Queria voltar a dormir sem remédios. Ansiava por liberdade. Precisava encontrar a paz. Jamais conseguiria se não se afastasse de tudo e de todos. Sentia-se sufocado com tantas cobranças. O sapateiro o questionou: “Não existem cobranças. As pessoas pedem, você faz. Exigem, você obedece. Elas apenas se acostumaram a ser atendidas no momento que precisam. O poder que possuem foi você que lhes concedeu. A incapacidade de expressar o <em>não</em> vulgarizou o <em>sim</em>. O seu querer deixou de ter importância e valor. Não tem dono. É de todos e, por isto, não pertence a ninguém. Nem mesmo a você. Não há como responsabilizar o mundo pela caixa apertada que você escolheu viver”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francis argumentou que tinha sido colocado nesse lugar desconfortável desde garoto. Tudo mais foram desdobramentos dos condicionamentos da infância. Loureiro balançou a cabeça como quem admite a hipótese e ponderou: “Ainda que tenha sido assim, continuar dentro da caixa não é uma fatalidade. É uma escolha. Viver fora da caixa é outra escolha também disponível. Contudo, não basta sair da caixa. É preciso aprender a desmontar as paredes. Do contrário, correrá o sério de risco de entrar em outras caixas. Sucessivamente. Ainda que de cores e formatos diversos, continuam sendo caixas. Um círculo vicioso bastante comum, mas nem sempre perceptível. As paredes das caixas não são de concreto, dinheiro ou obrigações. Elas se erguem através de condicionamentos e emoções, medos e culpas. Do mesmo modo que se levantam, também se desmancham. Bastam novas ideias e sentimentos, atitudes e posturas. É justo e louvável que sinta a necessidade de encontrar um bom lugar para viver, onde possa desenvolver potencialidades e criar diferentes possibilidades de transitar pela vida. É um direito natural. Entretanto, saiba que este local não existe no mundo. Se não o encontrar dentro de você, jamais o encontrará em lugar nenhum”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro bateu com o dedo indicador no balcão de madeira para ressaltar o raciocínio: “Não existe evolução sem transformação. As mudanças são vitais à vida. Contudo, precisam ser essenciais. Senão, serão apenas devaneio e fuga, jamais uma estrada para a liberdade e a paz. Alterar a fachada de uma construção cujas estruturas estão em ruínas, ainda que o novo design seja admirado pelos belos adornos e contornos, em nada mudará a fragilidade do prédio. O risco de desabamento permanecerá iminente. Mudar de vida não significa trocar de mulher, casa, empregos ou amigos. Não que isso não possa acontecer. Porém, deve vir como consequência, nunca como solução. Enquanto incompreendido, o comportamento permanecerá errático”. Bebeu mais um gole de café e sugeriu: “Mude a maneira como se relaciona consigo. Como se olha e se trata. Preste atenção aos seus sofrimentos e emoções. Identificá-los ajuda no processo de autodescobrimento e indica caminhos rumo à transformação. Entenda as suas prioridades. Decida o que quer para si e faça. Respeite-se”. Arqueou os lábios em sorriso e concluiu: “Do contrário, mudam as pessoas, porém, os relacionamentos permanecem iguais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atônito, o advogado ouvia com atenção. Loureiro seguiu com o raciocínio: “O mundo o trata como você se trata. Impor-se não carece de aspereza ou rispidez. Tampouco de esperar por situações favoráveis a minimizar esforços e dispensar a coragem. É ato de amor e coerência. Uma simples escolha. Simples por afastar os enganos e os subterfúgios; simples por depender unicamente da própria vontade. Trata-se de um compromisso consigo mesmo. Nada mais. Então, a lucidez se instala como uma inevitável e maravilhosa consequência”. Com os olhos marejados, Francis confessou que muitas vezes tentou modificar a sua postura em relação às expectativas dos outros. Por vezes conseguiu pequenos avanços para em seguida se arrepender e voltar atrás. Depois se arrependia por ter se arrependido. Não conseguia desagradar as pessoas. Queria mudar, mas algo dentro dele parecia o impedir. Assistia nos filmes os protagonistas realizando grandes transformações pessoais após um fato determinado e angular. Desejava uma cena assim na sua vida. O sapateiro esclareceu: “Filmes e livros são muito valiosos por mostrarem possíveis projeções da realidade, não como as coisas realmente acontecem. Sem lhes negar a enorme importância, precisam se adequar à quantidade de páginas ou à razoabilidade do tempo do espectador dentro da sala. A história é espremida para oferecer um olhar repleto de possibilidades, sempre à margem do tempo de preparação e efetivação às genuínas transformações individuais. Na vida é diferente, o ritmo é outro. O resultado e as dificuldades também. São reais. Assim como as vitórias e as conquistas”. Francis disse não ter entendido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro explicou: “Desde tempos imemoriais, a aprovação alheia tem valor social. Pode representar privilégios, aplausos e, em alguns casos, até mesmo se tratar de uma questão de sobrevivência. Na busca por vantagens, o indivíduo oferece a sua autenticidade num mercado atávico à procura de interesses de superfície. Em troca ele deixa de lado as conquistas de profundidade. O preço é o desligamento da essência que o torna único. A anunciada batalha milenar do tesouro visível versus a bagagem invisível permanece atual. Não que sejam antagônicas, mas se faz indispensável entender qual será a prioridade caso estejam em conflito ou desalinhadas. De nada vale ganhar o mundo ao custo de esquecer a alma. A forja da conveniência molda o indivíduo ao gosto do mundo. O vazio se espraia à medida que a presença da alma arrefece”. Franziu as sobrancelhas e acrescentou: “Condicionamentos ancestrais não se desconstroem de uma hora para outra. O certo e o errado, o melhor e o pior, assim como o bem e o mal, muitas vezes permitem uma leitura evidente e escolhas fáceis. Noutras, nem tanto. Faz-se necessário descortinar camadas de enganos que repetidamente nos conduzem a indesejados destinos tristes. O cérebro precisa de tempo para reprogramar um novo olhar capaz de decidir de uma maneira diferente. Responder aos estímulos com lucidez ao invés de continuar a reagir por impulso necessita de reeducação diária e contínua. As verdadeiras transformações são lentas e graduais. Misturadas aos avanços, algumas recaídas também são naturais. Mudar um jeito de ser e viver é uma jornada de aperfeiçoamento que envolve um enorme e constante trabalho de desconstrução e reconstrução simultâneas em si mesmo. Não é fácil nem rápido”. Observou por instantes a chuva através da porta de vidro do ateliê e prosseguiu: “O que o sufoca não são as pessoas ou a rotina profissional, porém, a desconexão consigo mesmo. Existe um Francis ainda em semente à espera de florescer. Há muito pouco, ou mesmo nada, de você nos seus dias atuais. A verdade acovardada faz a vida se mover pela rota do medo, da culpa, da melancolia ou da mágoa. Desse modo, destinos tristes se tornam inevitáveis. Sonhos e dons restam suprimidos. O vazio instalado provoca a tensão interna que impede a paz. A cura consiste em trazer à luz a essência abandonada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francis questionou como isso acontecia. O sapateiro foi suscinto: “A autenticidade é o sal da vida”. O advogado disse não ter entendido. Loureiro explicou: “O sal serve para dar gosto e preservar. A autenticidade está relacionada à capacidade de se manter alinhado aos próprios valores, olhares e virtudes; verdades, princípios e sabores, sem se deixar deformar pelas exigências e expectativas sociais. Abdicar de um molde considerado padrão na construção de si mesmo em favor de uma forja original capaz de temperar as características que o diferenciam e preservam a identidade no pleno exercício dos direitos naturais concedidos pela vida, sem pedir permissão nem esperar por aprovação, é fundamental à plenitude de qualquer pessoa. O seu antigo centro de poder, antes frágil e suscetível por depender da opinião alheia, encontrará o necessário ponto de equilíbrio, assim como a força vital ao movimento seguinte, ao passar a funcionar no eixo da própria consciência, onde o domínio é inteiramente seu”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O advogado nada mais disse. Como se precisasse de quietude e tempo para metabolizar as palavras do sapateiro, tinha o olhar distante para além da chuva que parecia observar sem ver. Numa retrospectiva silenciosa, repassava fatos e atitudes, procurando entender como qualquer situação sempre oferece escolhas inusitadas, diferentes daquelas com as quais nos habituamos a conviver. Em seguida, questionou como transportar a teoria à prática. Pediu para o sapateiro elencar situações simples em que a autenticidade é exercida. Loureiro o alertou: “Simples não significa fácil, porém, acessível a qualquer pessoa com ousadia, sensatez e amor-próprio”. Em seguida, enumerou algumas possibilidades: “Diga sim ou não conforme a própria consciência; pequenas concessões podem significar grandes retrocessos; lembre-se de que se trata da sua verdade, um artigo inegociável. &nbsp;Estabeleça limites bem definidos em todas as suas relações; respeito não se pede nem se exige, mas se impõe através de atitudes firmes, serenas e claras, sem necessidade de qualquer aspereza; pessoas fortes e equilibradas são mansas, éticas e corajosas. Nunca esqueça que toda situação é perfeita para aplicar ao menos uma virtude, servindo também para, aos poucos, enfraquecer as próprias sombras. Não fuja dos desafios oferecidos pela vida nem abandone os seus sonhos e dons, pois, são vitais à evolução e à autenticidade. Contudo, tenha cuidado para não confundir sonhos – que são projetos reais – com devaneios – meros delírios movidos pela irresponsabilidade. Refaça a rota da existência quantas vezes for preciso para que se mantenha no rumo escolhido; se a vida e o mundo mudam, também precisamos modificar o jeito de viajar para conseguir seguir em frente”. Esvaziou a xícara de café e concluiu: “Para valer a pena, a vida precisa de amor, direção, movimento e sabor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francis aquiesceu com a cabeça. Os seus olhos reverberavam a luz da descoberta e do encontro. As conquistas dependeriam dos movimentos seguintes. Ele perguntou se o sapateiro tinha alguma sugestão, bem objetiva, para que iniciasse essa jornada de transformação. Loureiro não regateou: “No começo da conversa você disse que precisava apenas de uma mala pequena e um bilhete curto para partir. Quanto a mala pequena, sem problema. Mas qual a razão de um bilhete curto ao invés de uma conversa franca com a Cris? Qual a dificuldade de expressar o seu olhar e falar sobre as suas preferências e necessidades? Por que se recusa a ouvir algo que possa não gostar? Ela também tem uma verdade. Sair dessa maneira, sem uma conversa franca, revela deselegância, incoerência e covardia. Enquanto não conseguir lidar com as diferenças e as contrariedades, continuará sendo mais do mesmo. Se manterá distante das mudanças que tanto anseia. Não existe liberdade na fuga. O medo envenena a paz. Um comportamento avesso a quem deseja atravessar a vida movido por ideias claras e bons sentimentos”. Em seguida, finalizou: “Entende que a autenticidade jamais será forjada pelo desrespeito à essência, verdade e virtudes? Somente a genuína autenticidade traz à tona toda a beleza da alma desconhecida. Tudo o mais são encenações espetaculosas de quem não sabe o que quer nem para onde vai”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As últimas palavras do sapateiro tinham sido duras, porém, eram necessárias. Francis precisava entender que o melhor movimento exige não apenas compreensão, mas também preparação. O advogado fechou os olhos e respirou fundo. Confessou ter muito para pensar antes de tomar qualquer decisão. Fazer uma escolha é sempre um movimento significativo; a execução dela, não raro, ainda mais. De certo, apenas que mudanças angulares se faziam indispensáveis. Nesse instante, os raios de sol da manhã rasgaram as nuvens para trazer o estio como um sinal de mudança. Nada tinha ficado por dizer. Francis agradeceu, deu um forte abraço no sapateiro e foi embora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sós com o Loureiro, comentei que as suas palavras eram como as paredes rígidas do casulo que a borboleta não conseguirá romper enquanto não amadurecer as asas. Enfrentar a esposa era uma questão importante, porém, consequência de outra: enfrentar as próprias dificuldades consistia no autêntico desafio à sua espera. Somente ao vencer a si mesmo estaria pronto para voar. O artesão das ideias e do couro deu de ombros e disse: “Os voos mais bonitos não são os mais altos nem os mais longínquos, mas os que nos levam às profundezas abissais, onde conheceremos a forja original, a única capaz de moldar quem verdadeiramente poderemos nos tornar”. Ele se referia à nossa consciência.</p>
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		<title>Mensageiros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 May 2025 14:39:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">“Nenhum acontecimento tem o poder de nos furtar a paz. A maneira como lidamos com as nossas emoções é que define os tormentos ou a calmaria da alma”, ponderou Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a antiga filosofia do seu povo às novas gerações. Ele acrescentou um pouco mais de tabaco no fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo, esperou que a chama do isqueiro incendiasse o fumo, baforou algumas vezes e, por instantes, se distraiu com a fumaça que bailava ao sabor da brisa leve de uma tarde fria de outono em Sedona, nas montanhas do Arizona. Sentado na cadeira de balanço da varanda da casa, conversava comigo e com Doba, uma jovem professora da escola local que, assim como o xamã, pertencia à etnia Navajo. Alegre e simpática, gostava de trajar vestidos com estamparias que faziam alusão à rica cultura dos seus ancestrais. Naquele dia, ela não estava bem. O motivo de ter ido conversar com Canção Estrelada era Tayen. Os pais do rapaz, instrutores de alpinismo, partiram às Terras Altas em um trágico acidente quando ele ainda era garoto. Na ausência de parentes próximos, foi acolhido pela Casa das Anciãs, uma linda comunidade formada por avós que cuidavam de crianças em situações de desamparo. Duas décadas depois, ele se tornara um homem conhecido por sua maturidade, caráter e generosidade. Era querido e respeitado por todos na cidade. Havia alguns anos, fora aprovado para a Academia Naval dos Estados Unidos, em Annapolis, próximo de Washington, na Costa Leste. Faltava apenas um semestre para se formar nessa conceituada instituição de acesso restrito, seja por causa da escassa quantidade de vagas, seja pelos rigorosos critérios de seleção. Voltara à Sedona no último verão para rever os amigos e agradecer a todos aqueles que o ajudaram no período mais difícil da sua existência. Foi quando reencontrou Doba. A amizade deles remontava à infância. A avó dela era uma das fundadoras da Casa das Anciãs. Naquelas férias, entre conversas e encontros, se apaixonaram. Tayen a pedira em casamento. A moça tinha certeza de que ele era a pessoa com quem gostaria de construir um novo núcleo familiar. Possuíam uma afinidade anímica. Amava-o muito. Admirava o seu caráter nobre manifestado em gestos simples. Encantara-se com os modos gentis e amorosos com que ele a tratava. Ocorre que, com o casamento, a rotina militar do rapaz a levaria de Sedona para sempre. A cada dois anos se mudariam para uma base naval diferente em diversos pontos do país e do mundo. Até então, Doba nunca cogitara morar em outro lugar. Adorava a cidade onde sempre viveu. Visitar as montanhas do Arizona só seria possível quando as circunstâncias do trabalho de Tayen permitissem, algo nem sempre possível. No mais, as frequentes mudanças dificultariam que conseguisse emprego em uma escola. Doba amava o professorado. Temia o vazio que poderia sentir e o quanto isso afetaria o casamento. Como se não bastasse, se afastaria dos pais e dos avós numa idade que em breve eles começariam a necessitar dela. Embora fosse uma mulher bonita e saudável, tinha sido uma criança frágil e adoentada, exigindo muita dedicação da parte deles. Questionava-se se era justo se afastar no momento em que mais poderia retribuir o amor recebido. De outra face, se não aceitasse o pedido de Tayen, temia jamais encontrar outra pessoa que amasse com tanta afinidade e admiração. O pedido de casamento envolvia questões que a faziam oscilar entre o medo e a culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ponderei se Tayen estava disposto a colaborar para encontrarem juntos uma solução intermediária, satisfatória a ambos. Doba disse ter conversado sobre isto com o namorado. Explicou que a rotina militar não permitia negociação, ao menos quanto a se fixar em uma única cidade ou residir próximo de Sedona. No mais, ele flexibilizaria e a apoiaria no que a ela precisasse. Tayen havia estudado muito. Foram anos de muita dedicação e esforço. Abrir mão da carreira na Marinha seria destruir um sonho prestes a se tornar real. A moça não considerava justo pedir ou exigir isso do rapaz. Tayen amava Doba, a profissão e a vida que escolhera para si. Queria todos os seus amores. A moça amava o namorado, a família, a carreira de professora e a cidade onde sempre morara. Os amores eram inconciliáveis, afirmou em tom de tristeza. Fazer parte do sonho dele era uma escolha que cabia a ela. Se aceitasse, teria de lidar com sérias perdas em sua vida, entre elas, abrir mão dos próprios sonhos. Caso recusasse, as perdas seriam outras, não menos importantes. Qualquer das escolhas que fizesse acarretaria prejuízos irreparáveis. Sentia raiva por se encontrar dentro de um labirinto existencial onde não acreditava existir uma porta para a felicidade. A situação provocava sentimentos hostis e desequilibradores como medo, culpa, raiva e tristeza, a depender da decisão considerada. Sentia-se incapaz e perdida diante do dilema que a vida lhe apresentava. Sofria por não saber qual decisão tomar, confessou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não tome nenhuma decisão”, sugeriu Canção Estrelada, para em seguida complementar: “Ao menos, por ora”. Baforou o cachimbo e explicou: “Não há decisões difíceis. Existem decisões imaturas. Após amadurecidas, as escolhas se tornam de uma simplicidade estonteante”. Fez uma analogia: “Quando verdes, as frutas são ácidas e difíceis de arrancar do galho. Já maduras, ficam adocicadas sem exigir nenhum esforço para se desprenderem da árvore. Pousam suavemente em nossas mãos como uma dádiva da vida”. Doba discordou. Qualquer que fosse a sua escolha as perdas seriam amargas e dolorosas. Na situação dela, não havia decisão fácil ou simples. Isto a fazia sofrer uma dor que sabia não ter fim. Melhor seria se acostumar a viver com o sofrimento. Com o tempo, talvez até lhe servisse de companhia para afastar a solidão. Tornariam-se íntimos, considerou a moça, não sem algumas doses de dramaticidade e fatalidade. O xamã ponderou: “O que a faz sofrer não é a situação em si, mas a maneira como interpreta os acontecimentos e lida com a realidade. A manifestação de um sofrimento, tais como a sua intensidade e a duração, apenas refletem o modo como alguém elabora as experiências vividas. Um dos fatores essenciais ao processo é a maneira como compreende as emoções decorrentes dos fatos. <a>Os sentimentos afetam sobremaneira o livre-pensar, expandindo ou retraindo a sua capacidade de entendimento sobre todas as coisas, pessoas e situações. Daí podemos concluir que a realidade não é um texto destinado à leitura literal. Ela é interpretativa. A compreensão muda de acordo com a percepção e a sensibilidade do leitor. Há diversas cores e amplitudes, além de muitas camadas de profundidade, a depender dos olhos de quem a lê”. Franziu as sobrancelhas e sussurrou: “A porta de saída do labirinto da dor não está no mundo, mas na alma”.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">A jovem disse não fazer sentido. Se fosse simples assim, ninguém sofreria. Afirmou que o medo, a raiva, a culpa e a tristeza, as quatro agonias básicas, são determinantes e inevitáveis às situações desagradáveis, jamais a escolha equivocada por um olhar que observa sem compreender todas as possibilidades oferecidas pelos acontecimentos. Canção Estrelada franziu as sobrancelhas e argumentou: “Embora o mundo seja o mesmo para todos, há mil maneiras de transitar nele. O sofrimento aprisiona mais do que grades de ferro e paredes de concreto. Se entendo como verdadeiro que a realidade se altera a depender dos olhos do observador, com o aguçamento da visão, transformo ideias estreitas em pensamentos expansivos e emoções densas em sentimentos sutis. Passo a enxergar a realidade de maneira diferente. Da dor se faz a cura. As grades se derretem, as paredes desaparecem. Muros caem, passagens aparecem. O mundo permanece o mesmo, mas a vida muda. Emoções aviltadas e sentimentos hostis não impedem apenas a paz e a felicidade. Em verdade, são também cruciais impedimentos à liberdade. A clareza do olhar define os elementos de luz ou sombras com os quais o indivíduo elabora as experiências. Contudo, o modo como atravessará os dias não dependerá apenas da capacidade em processar a experiência, mas também da coragem em fazer uso do resultado da equação que por ora conseguiu alcançar. Algo nem sempre fácil. Há uma distância abissal entre saber e fazer. A verdade nunca é gentil com os orgulhosos, vaidosos e covardes, mas generosa com os humildes, simples e corajosos”. Deu de ombros e afirmou: “Logo, o sofrimento é decorrente da escolha dos filtros usados para depurar as emoções e das lentes com as quais observará a realidade. Assim como da disposição em lidar com a verdade encontrada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doba estava à beira da irritação. Se o sofrimento fosse uma escolha, todos seriam felizes e viveriam em paz consigo e com os outros. Ninguém escolheria os contínuos tormentos da alma. Situações desagradáveis são uma constante na vida de todas as pessoas, dando origem aos sentimentos de medo, raiva, culpa e tristeza, ou algumas das suas variantes como ansiedade, depressão, mágoa, sensação de impotência, entre outras mais. A moça afirmou saber do que estava falando. Reconhecia esses sentimentos deitando raízes em seu coração naquele exato instante. Não os queria pelo mal-estar que provocavam, mas não conseguia os arrancar ou se libertar deles. Teria de se acostumar com a dor. Os sofrimentos eram inerentes à vida. Melhor era aprender a conviver com eles. O xamã balançou a cabeça e disse: “Sim, há mais sabedoria em os reconhecer e aceitar do que em os negar ou ignorar, quando então campeiam soltos dentro da gente e terminam por nos dominar e destruir por total falta de controle. Ninguém se defende do que acredita não existir. Contudo, não se trata de aprender a conviver, porém, de conviver para aprender. A ordem dos verbos altera o resultado da experiência”. Deu um trago longo no cachimbo, como se procurasse as melhores palavras, e explicou: “Aprender a conviver nos leva a acomodar os sofrimentos como se fossem hóspedes inevitáveis do coração. Conveniência e conformismo significam comodidade e desistência. Um erro crasso àqueles que estancam a própria evolução, origem dos desânimos e dos esgotamentos emocionais que roubam a alegria e furtam a paz. São comportamentos distintos da resignação. <a>Resignar-se é aceitar o fato consumado. Nada há de errado nisto. Ao contrário, existe sabedoria em entender o que não pode ser mudado. O equívoco consiste em confundir a resignação com a paz. Todo fato consumado fecha portas, mas também indica novos caminhos. A interpretação do fato definirá a dimensão, a amplitude e a clareza da realidade na qual se viverá. Experenciando uma mesma situação, há quem não veja saída, todavia, existe quem sem encante com tantas possibilidades. A maneira como se interpreta a realidade estabelecerá o tormento ou a paz da alma. É neste ponto que a compreensão das emoções tem uma papel fundamental, funcionando como o personagem angular de uma trama capaz de alterar o desfecho da história”.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma breve pausa antes de prosseguir com o raciocínio: “Acolher as emoções amargas e indesejadas, ao invés de as repelir, mostra a inteligência e a disposição de conviver para aprender com elas, de usar em benefício próprio um conteúdo essencial ao autodescobrimento, a base de toda a evolução existencial. O resultado são realidades mais receptivas e prósperas ao desenvolvimento dos talentos e projetos pessoais”. Doba pediu para que explicasse melhor. O xamã foi pedagógico: “Estamos condicionados a sentir dor. Em diferentes níveis, sofremos diante de dificuldades, contrariedades e problemas. Inevitavelmente. Explodimos em reações destemperadas ou implodimos em decepções silenciosas. Todos os dias surge uma situação para nos deixar mal. Da irritação à fúria, do desânimo à melancolia. De um jeito ou de outro tentamos expulsar o sofrimento de dentro da gente. Uma luta exaustiva e inglória. Não funciona. O máximo que conseguimos, após infrutíferas tentativas, é o esconder no porão da casa onde moramos, o inconsciente. Em análise realista, cada um mora em si mesmo com todos os pensamentos e sentimentos que o habitam como resultado das experiências anteriores. Esconder um morador indesejado e desagradável não o faz desaparecer nem diminui o seu poder de interferência e destruição. Ao contrário, o intensifica pela falta de controle e incapacidade de lidar com as confusões provocadas por um hóspede que transita pelos corredores e cômodos na sombra da noite sem nenhuma regra ou vigilância. Reprimimos a lembrança dolorosa na tentativa de estancar a dor. Negamos, ignoramos, fingimos esquecer ou acreditamos que o tempo cuidará de tirar o sofrimento de dentro da gente. Uma falácia comum e vulgar. O tempo é apenas uma estrada que não leva a lugar nenhum enquanto o viajante se recusar a caminhar. Em verdade, o tempo desperdiçado somente aumenta o estrago. Em algum momento, a casa ficará em ruínas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O xamã fez uma nova pausa antes de prosseguir com o raciocínio: “Conviver para aprender inverte os elementos usados na equação. Trazer à luz o que antes se ocultava nas sombras é como adicionar no lugar de subtrair. O resultado será diametralmente oposto. Ao invés de negar, ignorar ou tentar expulsar o sentimento doloroso, ou mesmo de tentar encontrar uma razão qualquer para explicar o fato, experimente acolher e escutar a emoção que se manifestou. Ela é sua. Sempre foi. Pare de tratar o mensageiro como se fosse um inimigo”. Doba interrompeu para dizer não ter entendido essa última frase. O xamã esclareceu: “O medo, a culpa, a raiva e a tristeza manifestam algo ainda incompreendido e mal elaborado dentro da gente. São portadores de mensagens de cura. Eles não vieram do mundo, foi a alma quem os enviou. Embora os fatos sejam externos, os sentimentos pertencem a quem os sente. Eles são parte de quem somos. Falam do que há de mais íntimo em nós. Cuidar deles é cuidar da gente. São por demais preciosos. Eles trazem o código de quem podemos nos tornar. Para tanto, será necessário compreender as suas origens. As emoções amargas nascem nos cantos escuros, ainda avessos à luz, das lembranças amargas e experiências mal elaboradas. Mostram o que precisa ser compreendido e reconstruído. Acredite, há sementes ocultas de amor e luz por trás de cada amargura. Fazê-las germinar encerra com o sofrimento. Definitivamente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doba gostou do olhar oferecido pelo xamã, mas questionou como seria o diálogo com os sentimentos dolorosos para que os sofrimentos desaparecessem. Os olhos de Canção Estrelada sorriram como se ele esperasse por essa pergunta para completar o arcabouço filosófico e esclareceu: “Vamos nos ater às quatro agonias básicas: a raiva, o medo, a tristeza e a culpa. Lembre que o problema não está nessas emoções, mas no modo como as compreendemos e lidamos com elas. São sentimentos que falam sobre aspectos e características ignoradas, menosprezadas, negadas, escondidas ou incompreendidas que, enquanto não os trouxermos à luz da consciência para serem entendidos e reeducados, funcionarão como travas existenciais a nos impedir de ir além de quem somos. São códigos para a liberdade e a paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada baforou o cachimbo e ponderou: “O diálogo se inicia ao substituirmos a reação, sempre imediata e repleta das sombras manifestadas pelo inconsciente – o porão escuro de onde cada um mora em si –, pela resposta raciocinada ao estímulo gerador da emoção, apenas possível após uma conversa amorosa com os habitantes dos cantões escuros no ambiente claro de uma mente lúcida movida por um coração sereno”. A moça voltou a interromper para questionar como poderia pensar com um coração tranquilo quando envolvida por raiva ou medo. Canção Estrelada esclareceu: “Deixe de tratar as emoções densas como indesejadas ou inimigas; trate-as como mensageiras da sua evolução. Mudar a sintonia da mente altera a frequência do coração”. Depois, concluiu: “As conversas com esses moradores representam os encontros mais importantes que terá na vida: a Doba que você conhece com a Doba que ainda desconhece em si mesma”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, começou a analisar, em teoria, alguns dos significados das mensagens trazidas por esses sentimentos: “A raiva pode indicar que um valor importante foi violado. Uma fronteira intrínseca foi invadida. Não raro, porque concedemos uma permissão indevida. Algo interno precisa de melhor compreensão e uma urgente reconstrução. Limites mais cuidadosos se fazem necessários. De outra face, e igualmente importante, quando a raiva insiste em permanecer, pode demonstrar uma enorme dificuldade em perdoar. O medo sinaliza potencialidades pessoais abandonadas ou depreciadas, equivocadas leituras da realidade, aborda possibilidades de movimento desprezadas ou indevidamente avaliadas. A tristeza mostra a incapacidade de lidar com perdas, de abdicar dos vícios de pensar e sentir, em responder às mudanças exigidas pela vida, fala sobre a dificuldade de soltar o que precisa ir e abdicar do que precisa ficar. A culpa mostra a incapacidade de enfrentar os erros, admitir a própria falibilidade, aprender com os equívocos, superar os arrependimentos, desmanchar o orgulho e, principalmente, se perdoar. Pode nos falar sobre os limites das cargas que devemos ou não suportar, os encargos que nos cabem e os que não são de nossa obrigação, no exato equilíbrio oferecido pelos binômios responsabilidade-possibilidade e generosidade-sensatez”. Doba ouvia com atenção e comentou que as emoções desvairadas, em verdade, eram professoras maravilhosas. Canção Estrelada confirmou com a cabeça e prosseguiu: “Reagimos ao estímulo por automatismo como se o comportamento fosse imutável e o sofrimento inevitável. Os resultados das muitas experiências vividas ao longo dos anos formam os filtros e as lentes que vamos utilizar para depurar as situações e ler a realidade. Como as experiências anteriores resultaram em sofrimento, continuamos a reagir mal por usar filtros poluídos e lentes embaçadas. Por consequência, o sofrimento parece sem fim. Viveremos em uma espiral crescente de dor e esgotamento. Enquanto essa prática não for interrompida e revertida para gerar um comportamento diferente, eficaz e saudável, a felicidade, a paz e a liberdade serão imagens de ficção”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira estrela da noite despontava no horizonte. Da varanda, Doba tinha um olhar distante como se visse uma porta pela qual precisava atravessar. Canção Estrelada pegou o tambor de duas faces e nos convidou para nos sentarmos debaixo do frondoso carvalho que havia no quintal. Pediu para que a jovem fechasse os olhos e entoou uma suave cantiga ancestral. Deixou que a música desafrouxasse as amarras dos condicionamentos mentais e emocionais para, logo depois, pedir para ela imaginar um encontro consigo mesma. Como se fossem duas pessoas conversando sobre os dilemas que as afligias. Enquanto uma falava sobre os problemas e as dúvidas, evocando as emoções de medo, culpa, raiva e tristeza, a outra apontava possibilidades a partir das mensagens trazidas por esses sentimentos. Passado um tempo que não sei precisar, Doba sussurrou que apesar das emoções não terem desaparecido por completo, já não se sentia oprimida ou sufocada por elas. Já conseguia as ver como aliadas dispostas a mostrar aspectos importantes e desconhecidos sobre si mesma. O xamã pediu para que prosseguisse no diálogo intrínseco. Embora mais tênue, o sofrimento permanecia porque ainda não estava absolutamente segura das escolhas orientadas pela alma. Muitas outras horas foram necessárias. A manhã rasgava a madrugada quando a moça abriu os olhos e nos ofereceu um lindo sorriso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doba disse que tinha a solução para as suas agonias. Não tinha dúvida que ao colocá-las em prática, os últimos resquícios daquele sofrimento restariam sanados. Sem nenhum rastro de insegurança ou desequilíbrio, a moça expôs a sua decisão: <em>Vou me casar com o Tayen. É um amor sem igual. O bem que faço a mim irá suprir o que deixarei para trás. Se algo não partir, nada de diferente chegará. Substituirei o magistério pela literatura. A professora dará lugar à autora. Escrever romances sempre foi o meu sonho maior jamais confessado por falta de ousadia e de coragem. Meus pais e avós ainda não precisam dos meus cuidados e, se esse dia chegar, serão acolhidos com todo carinho na minha casa, onde quer que eu esteja. Jamais serão abandonados. Explicarei a eles os meus planos, sonhos, sentimentos e razões. Não posso deixar de viver a minha própria história por manter estática uma realidade que, em verdade, é dinâmica. O olhar do amor e da dignidade é o que liberta, nunca o que aprisiona. Se os amores forem inconciliáveis é porque não são amores. Quanto a Sedona, estará sempre aqui. Será uma linda cidade a habitar as minhas memórias e histórias, tanto as vividas como as que irei criar. Todas as vezes que for possível, e o coração pedir, virei encontrá-la. </em>Fez uma pausa antes de concluir<em>: Eu sofria porque me negava a ouvir as mensagens vindas da alma. Para crescer, eu precisava fechar um ciclo. Uma nova história em minha história precisa começar. Para tanto, ousadia e coragem são fundamentais. A semente precisa morrer para nascer árvore, flor e fruto.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Virou-se para Canção Estrelada e perguntou por que as escolhas que pareciam difíceis e complicadas no dia anterior, agora se mostravam simples e fáceis. O xamã arqueou os lábios em sorriso e finalizou o cerimonial: “Ao ouvir as mensagens trazidas pelas emoções rejeitadas e consideradas ruins, você conseguiu escutar a voz da alma, as suas necessidades e anseios evolutivos. Com o amadurecimento das escolhas foi possível encontrar a saída do labirinto que a mantinha perdida em si mesma”. Com os olhos brilhando, Doba agradeceu ao xamã e se foi. Tinha uma vida à espera. A observei atravessar o portão da casa. Como se possuísse asas, foi impossível não notar uma indescritível leveza até então inexistente no seu andar.</p>
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		<title>Las sandalias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 22:59:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Hace bastantes años me hice miembro de la OEMM -Orden Esotérica de los Monjes de la Montaña-, una hermandad filosófica cuyo eje central son las enseñanzas del breve pero significativo texto llamado El Sermón de la Montaña, contenido en el Evangelio de Mateo. Se dice que Mahatma Gandhi afirmó que este valioso contenido resume todos los pasos que la humanidad debe dar para alcanzar la iluminación. Sin embargo, como todos los escritos sagrados, la guía que contiene tiene varias capas de interpretación. Es uno de esos textos cuya comprensión ampliamos y profundizamos cada vez que lo leemos. Muchos otros libros, al aportar elementos para que ampliemos nuestra percepción y sensibilidad a través de las experiencias vividas y mejoremos así nuestra forma de elaborarlas, cambian la manera en que recorremos nuestros días.&nbsp; En el monasterio estudiamos todas las líneas filosóficas, de Oriente a Occidente, cuyo camino es el amor. No hay luz fuera del amor. Por definición, la sabiduría es cualquier conocimiento aplicado a la práctica; por lo tanto, todo razonamiento se convierte en maldad cuando no está implicado en el amor y es impulsado por él.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde mi ingreso, el monasterio había estado dirigido por el Viejo, como llamábamos cariñosamente al monje más anciano de la Orden. Como traía consigo innumerables virtudes, atributos que unen amor y sabiduría en una misma herramienta de acción, era un caso raro de unanimidad debido a su inconmensurable poder agregador. Gracias a él, el monasterio se había convertido en una unidad común. Todos avanzaban hacia el mismo objetivo: abolir su propia ignorancia, semilla de la incomprensión, raíz del miedo y del sufrimiento. En aquel momento, el buen monje había viajado para realizar algunos exámenes médicos. Aprovecharía para visitar a Li Tzu, el maestro taoísta, en la pequeña aldea china de camino al Himalaya, con quien le unía una amistad desde sus tiempos universitarios en Inglaterra. La fecha de su regreso al monasterio era incierta. Se rumoreaba que no volvería; habría preferido retirarse de la escena sin aspavientos ni despedidas. Al principio no compartía esta idea; contrariamente a lo que parecía, había en el una espectacularización de la humildad y la sencillez que no convenía al Viejo. Era como hacer una fiesta con lo contrario de una fiesta. El ritual de la despedida, cuando se hace bien, muestra la importancia de la gratitud y el deseo de mantener los lazos afectivos que son indestructibles con el paso del tiempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">La persona que se hizo cargo de la administración del monasterio fue Giovanni, un monje italiano que había ingresado en la Orden al mismo tiempo que yo. Cortés, persuasivo y estudioso, mantenía una relación razonable con la mayoría de los miembros de la cofradía. Había tenido algunos pequeños desacuerdos porque intentaba interferir en las actividades de otros monjes. A pesar de sus buenas intenciones, no siempre tenía una idea correcta del límite entre sugerencia e interferencia. La sugerencia es sólo una idea que se intercambia con la persona encargada del trabajo; la interferencia se produce al intentar influir en las personas que te rodean para que se produzca el cambio sugerido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Los periodos de estudio anuales duran aproximadamente un mes. Son días de intensa alegría y entusiasmo, ya sea por aprender cosas nuevas o por socializar con gente que nos gusta y admiramos. Aquella vez, al cabo de una semana, me sentí incómodo en el monasterio; algo que nunca me había ocurrido. Incluso me planteé dimitir. Después de tantos años, me sentía fuera de lugar; era como si el monasterio ya no me acogiera. La vida se compone de innumerables ciclos más pequeños de aprendizaje para formar un gran círculo de evolución. Sospechaba que mi ciclo en la Orden había llegado a su fin. Es esencial comprender cuándo termina una historia para no quedar atrapado en ella después del último capítulo. Tal vez había llegado el momento de vivir experiencias de aprendizaje diferentes en otros lugares, algo que no tenía nada de extraordinario. Esencial para la evolución, las transformaciones cambian los gustos y las perspectivas. Entonces llega el momento de partir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hablé de esto con Hector, el monje argentino, psicoanalista y autor de decenas de libros maravillosos. Era un gran amigo y confidente. Le confesé mi malestar y admití que me estaba planteando dejar la Orden. Pensaba que el monasterio se había convertido en un lugar en el que ya no encajaba. La alegría y el espíritu habían desaparecido. Ya no era el mismo; había llegado el momento de marcharme. Con el oído aguzado por la formación profesional, Hector escuchó las preguntas y, al final, argumentó: &#8220;Sin duda, el conocimiento es uno de los pilares fundamentales de los cambios intrínsecos que expresamos en el mundo. Aunque pueden producirse, el cambio no siempre es un factor para sentirse incómodo con lugares o personas. Vivo en Buenos Aires desde que era niño. La ciudad ha cambiado muchas veces desde entonces. A veces por sus propias transformaciones; otras, ha cambiado mi forma de verlo todo, y así la ciudad se ha convertido en otra cosa para mí. Nunca he pensado en marcharme, aunque ya no seamos los mismos. Las instituciones, las empresas y los lugares son entidades vivas que, como tales, o cambian continuamente o se pudren por estancamiento. Sin embargo, no todo cambio es evolutivo. Lo mismo ocurre con las personas. Cuando los movimientos personales se desincronizan con los cambios externos, se produce la desvinculación&#8221;. Guiñó un ojo como quien cuenta un secreto y dijo: “El desenganche es la música de las trompetas evolutivas o el ruido de los más terribles malentendidos, según cómo decodifiquemos el mensaje”. Le pedí que me lo explicara mejor. Hector dijo que no con la cabeza y reflexionó: &#8220;Nadie encuentra la respuesta correcta sin hacerse antes la pregunta correcta. El momento es saber si tú, el monasterio o ambos habéis cambiado, y cuáles de esos cambios han sido beneficiosos. No todas las transformaciones son para mejor; no todos los movimientos conducen al progreso&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sostuve que los ciclos llegan a su fin; es esencial comprender el momento de partida. Prolongar una narración hasta después del final deshilacha la historia. El monje argentino coincidió con reservas: “Conocer el significado de cada partida supone la diferencia entre avanzar o huir”. Le pedí que me explicara la diferencia. Hector sonrió y dijo: &#8220;Las respuestas prefabricadas no ayudan a nadie a crecer. Aprende sobre las preguntas y luego busca las respuestas. Tus respuestas. De lo contrario, estarás viajando en vagones ajenos, sin derecho a elegir tu propio destino&#8221;.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">insistí. El monje argentino dijo que la conversación había llegado hasta donde debía. Para continuar, sería necesario que yo aportara nuevos elementos a la ecuación. De lo contrario, no sabría nada de la solución. Tenía razón; no se pueden dar saltos en el Camino. Los pasos tienen que ser lentos para que sean seguros. Le di las gracias y fui en busca de las incógnitas para tener acceso a las respuestas que necesitaba; de lo contrario, no podría tomar la mejor decisión. Observé y observé un poco más. Me esforcé por eliminar de mis conclusiones cualquier factor emocional o sesgado que pudiera servir de excusa o utilizarse para menospreciar los cambios que se habían producido. Ese mismo día, cuando llegué al comedor para comer, me dijeron que el horario se dividiría a partir de entonces. Ya no comeríamos todos juntos; una antigua y agradable tradición del monasterio había llegado a su fin. Ahora, Giovanni y los coordinadores almorzarían primero; la idea era que aprovecharan el momento para hablar de asuntos relativos a la administración. Luego se servirían los demás monjes. El malestar fue en aumento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">La víspera, Giovanni había reunido a todos los monjes en el auditorio. Muy amable y simpático, habló de la reestructuración de la Orden. Se crearían nuevos puestos para la mejora administrativa, lo que se traduciría en mayores ingresos en concepto de estudios; se ofrecerían nuevos cursos; más conocimientos significarían más herramientas para el bienestar de todos. Se crearon varias oficinas de coordinación. Me fijé en que todas ellas estaban ocupadas por monjes cercanos a Giovanni. Una de ellas me llamó la atención, la recién creada Coordinación de Prácticas, que en el nuevo organigrama estaba por encima de la Coordinación de Estudios y sólo por debajo de la Dirección General, bajo la responsabilidad del propio Giovanni. El argumento era que el conocimiento debe aplicarse a las situaciones cotidianas para que sea útil y se convierta en sabiduría. Sin embargo, me di cuenta de que, a pesar de que la explicación partía de una premisa correcta, el propósito era inaplicable al caso. La filosofía no depende de ninguna terapia para encontrar aplicabilidad a las situaciones cotidianas. De hecho, Giovanni estaba introduciendo por fin las terapias holísticas en el monasterio, un tema muy controvertido en la Orden. No es que nadie denunciara las terapias; al contrario, se veían con buenos ojos. Yo utilizaba el Reiki para armonizar los chakras y los pases magnéticos en otras situaciones. Sin embargo, no eran el objetivo principal de la Orden, cuyo fin era el conocimiento filosófico como forma de instrumentalizar el proceso espiritual, mental y emocional de sus miembros. Propietario de una escuela holística en Roma, Giovanni había intentado introducir el estudio de las terapias en la Orden. La idea no prosperó, y en aquel momento era uno de los principales opositores. Algunos monjes fueron a estudiar con él a Italia; ahora eran los coordinadores que remodelarían el monasterio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por si fuera poco, la carga de trabajo de los estudios filosóficos se redujo drásticamente para que hubiera más tiempo para los cursos terapéuticos. Mi papel se volvió cada vez más irrelevante. Fui a hablar con Geovanni, que me recibió muy bien y, con modales amables y educados, me explicó la importante transformación que iba a sufrir la Orden. Me dijo que los cambios eran irreversibles y me aseguró el valioso legado que aportaría a los monjes. Todos crecerían, me aseguró, siempre que no se resistieran a la evolución.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Éstos eran los hechos que generaban el malestar que yo sentía. La vida exige movimiento. La Orden había ido en contra de mis pasos. Los nuevos coordinadores tenían conocimientos que a mí no me había interesado obtener en su momento. Me había quedado atrás dejando escapar una oportunidad de crecimiento. Después de tantos años de estudio y dedicación al monasterio, tendría que volver a empezar de cero. El orgullo y la vanidad me gritaban, generándome un enorme malestar intrínseco. Dependía de mí darme cuenta de la oportunidad perdida y tener la humildad de volver sobre mis pasos. Dependía de mí darme cuenta de lo que había perdido y tener la humildad de volver sobre mis pasos. No estaba bien seguir sintiéndome incómodo donde siempre me había sentido bien. Era el momento de decidir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Después de cenar, me serví una taza de té y salí al balcón. Me gusta mirar las estrellas cuando estoy en crisis. La grandeza del universo me redimensiona, comprendo mi tamaño y encuentro el punto de partida perfecto para construir una nueva idea que me libere de emociones y razonamientos destructivos. La paz se restablece; estoy en condiciones de tomar la mejor decisión. Cuando llegué, encontré a Hector sumido en sus pensamientos. Sonrió y me indicó que me sentara en el sillón que había a su lado. Le comenté mis observaciones, mis conclusiones y el callejón sin salida en el que me encontraba. Si reiniciar mi carrera dedicándome a cursos sobre las diversas terapias holísticas o abandonar la Orden porque ya no podía encajar en un lugar donde me había encantado estar hasta hacía poco. Sin apartar los ojos de las estrellas, el monje argentino me preguntó: &#8220;Por lo que has dicho, no creo que sea una decisión difícil. ¿Qué te impide volver a empezar dentro de las normas propuestas por Giovanni?&#8221;. Le dije que luchaba por arrojar luz sobre mis sombras personales. El orgullo y la vanidad seguían impidiéndome tomar una decisión serena. Una tormenta interior impedía la claridad necesaria para traer la calma a mi alma. Aquellos días sirvieron para mostrarme lo inmaduro que era mi ego. Hector se volvió hacia mí y me dijo: &#8220;No se puede entender la vida a través de una única ecuación. Incluso el amor tiene matices y capas. No todas las insatisfacciones se deben a la inmadurez de un ego envuelto en sombras; algunas surgen del alejamiento de la verdad. Son situaciones diferentes. Una surge de la incapacidad de ser; la otra, de la incapacidad de ver&#8221;. Hizo una pausa antes de preguntar: “¿Cuántas veces has tenido que volver a empezar un viaje?”. Dije que muchas, tantas como veces he caído. Momentos en los que fui llevado a recuperar mi unidad a través de la humildad, la sencillez y la compasión. Hector continuó: “¿Se han acabado los errores?”. Le respondí que en absoluto. Había aprendido la importancia de los errores para la reconstrucción personal sobre bases diferentes y mejores. El psicoanalista preguntó: “En esos momentos, ¿las virtudes iluminaron las sombras del orgullo y de la vanidad?”. Respondí que sí, que fueron experiencias valiosas porque me ayudaron a ir más allá de lo que yo era. El monje argentino me interrogó: &#8220;Aunque siguen presentes, el orgullo y la vanidad nunca te han impedido volver a empezar. ¿Por qué no puedes hacerlo esta vez?&#8221;. No supe responder, pero me di cuenta de que estaba atrapado en una incomprensión cuyas razones desconocía.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Le pedí que me ayudara. Hector era un hermano cósmico: &#8220;Nadie necesita someterse a una situación que no le gusta. Esto no significa humildad. Es esencial comprender la diferencia entre el lado luminoso y el lado oscuro de la resignación. Cuando es inevitable, como la transición de un ser querido, un despido, un divorcio, una enfermedad irreversible o incluso una onda planetaria transformadora, la adaptabilidad es un movimiento evolutivo porque nos lleva a comprensiones más sutiles y elevadas. Son casos en los que nos movemos intrínsecamente para adaptarnos a la vida. Sin embargo, hay situaciones que nos exigen movernos externamente para permanecer libres, dignos, felices y en paz, cuando, por ejemplo, pongo límites en una relación para que deje de ser abusiva, cuando cambio de trabajo o profesión para autorrealizarme, decido dedicarme a lo que priorizo y suelto los subterfugios y engaños que me alejan de mi esencia, entre mil situaciones más, así como comprender las razones para quedarme o la necesidad de irme. Sin comprender el momento, no podremos tomar la mejor decisión. Hizo una breve pausa para que pudiera ordenar mis pensamientos y luego continuó: &#8220;Tenemos que tener cuidado con el orgullo y la vanidad para que no se les culpe de errores en los que nunca tuvieron parte. Todo lo que nos incomode por no reverenciarnos o exaltarnos será atribuido a estas sombras. Sin embargo, no todas las incomodidades tienen que ver con el orgullo y la vanidad. A veces revelan diferencias en nuestra mirada. Frunció el ceño y me preguntó: “¿Cómo se camina al lado de alguien que quiere ir en dirección contraria a la que tú quieres tomar?”. Le respondí que nadie viviría bien si se sometiera a tal condición. Esta vez Hector me tuvo en jaque mate: &#8220;Tanto tú como yo admiramos y hacemos uso de algunas terapias holísticas, así que no tenemos nada en contra de ellas. Sin embargo, la cuestión es diferente. Aunque volvieras a empezar de cero en el monasterio y siguieras uno a uno los cursos terapéuticos, ¿sería ésa la Orden a la que querrías asistir? ¿Estaría este movimiento en consonancia con tus propósitos?&#8221;. La respuesta fue negativa. En ese momento me di cuenta de la diferencia entre escapar y avanzar. Escapar es cuando ponemos excusas para evitar la incomodidad de la confrontación intrínseca. Avance es cualquier movimiento, libre de cualquier engaño, que nos mantiene en el camino del cambio evolutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">El monje argentino me hizo otra pregunta: “¿Te sentirías cómodo permaneciendo en el monasterio bajo Giovanni?”. Le dije que no estaba de acuerdo con él, pero que teníamos que vivir con nuestras diferencias. Hector siguió con la siguiente pregunta: &#8220;Sí, hay que respetar las diferencias, siempre que no se vean afectados nuestros derechos. Sin embargo, toda convivencia requiere límites para que haya respeto; en la medida en que sea sensato, ninguna relación debe ser desagradable para ninguna de las partes. Por eso, a pesar de respetar las diferencias, es necesario comprender la distancia exacta a la que debe mantenerse cada relación. Algunas deben ser más cercanas, otras mantenerse alejadas. Esto habla del respeto que los individuos se tienen a sí mismos. El respeto es un matiz fundamental del amor. Sin duda, manteniendo una rutina ajena a mis propósitos en el monasterio, no habría posibilidad de sentirme feliz, libre, digno y en paz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Le comenté que me había acercado a Giovanni para charlar. Aunque se había opuesto a mis argumentos, había sido delicado en su trato conmigo. Hector discrepó: &#8220;Yo también acudí a él. Su actitud fue la misma. Sin embargo, en ningún momento hubo cortesía, una virtud común a quienes se esfuerzan por no causar daño a nadie. El actual director se limitó a ser cortés. La cortesía es la virtud de los buenos modales sociales, pero no contiene necesariamente ningún contenido virtuoso. Giovanni fue cortés, nunca fue educado. De forma educada, ignoraba los objetivos de la Orden y el propósito que ha unido a tantos monjes durante décadas. De una forma educada, fue egoísta al dirigir el monasterio hacia sus propios intereses, ya fueran profesionales o personales, que de hecho están impregnados de orgullo, vanidad y quizás codicia de poder o dinero. En resumen, la cortesía tiene amor en su contenido; la cortesía es un barniz para mostrar una apariencia que no siempre se corresponde con la esencia&#8221;. Hector me ofreció una elaboración diferente de las experiencias que estaba viviendo en aquel momento, permitiéndome profundizar en mis conclusiones y ampliar mis opciones. Entonces me preguntó: “Aunque hicieras todos los cursos terapéuticos que propone, aunque te dieran un puesto de coordinador, ¿te sentirías cómodo viajando en ese vagón?”.&nbsp; La respuesta era obvia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me invadió una agradable sensación de ligereza y suavidad. La ligereza es la capacidad de no dejar que las penas y las irritaciones se estacionen en el alma; la suavidad es el poder de seguir adelante sin enzarzarse en conflictos, que siempre son innecesarios. No tenía por qué enfadarme con Giovanni, aunque no estuviera de acuerdo con su actitud; los errores eran suyos. Si la dirección que imponía al monasterio era inevitable, me bastaba con tomar otro camino para seguir mi senda. Sin resentimientos ni rencillas. Hector sonrió en señal de acuerdo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Le dije que sería una decisión difícil para mí, pero que por la mañana pediría abandonar la Orden. Tenía un rumbo claro; de mí dependía mantenerme en él. El monje argentino volvió a estar de acuerdo, pero esta vez sólo en parte: &#8220;La capacidad de autodeterminación te da el poder de vivir según tus propias reglas. Sin embargo, ninguna dificultad debe caber en una decisión; las elecciones sólo son difíciles cuando aún están inmaduras en la conciencia; cuando maduran, las mismas decisiones se vuelven fáciles. La fruta inmadura necesita ser arrancada de la rama, mientras que la fruta madura cae en tus manos sin necesidad de ningún impulso&#8221;. Y concluyó la conversación de aquella tarde: &#8220;Este es un momento para la quietud y el silencio; los comentarios sólo servirán para agravar el malestar que domina el monasterio. Muchos monjes están descontentos con la dirección actual. Observad y esperad un poco más antes de decidir; el tiempo ayuda a desarrollar la experiencia aportando nuevos elementos y permitiendo que se purifique adecuadamente.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Con el paso de los días, observé con asombro cómo la Orden se jerarquizaba. Se crearon numerosos cargos, dando la impresión de que había diferentes clases o categorías de monjes. No es que hubiera que desdeñar el orden, la disciplina y el respeto; ninguna organización prospera sin estos atributos fundamentales. Sin embargo, era imposible no recordar cómo la pureza del cristianismo primitivo se había perdido en los siglos venideros con la creación de religiones y sectas que hacían a unos individuos supuestamente más importantes que otros para acceder a lo sagrado. El amor impulsado por la más legítima fraternidad se había olvidado en algún rincón del mundo. El mismo proceso estaba teniendo lugar en aquel momento en el monasterio. Era hora de salir de allí para seguir siendo coherente con mi propósito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amanecía cuando terminé de escribir la carta en la que pedía marcharme. Justo cuando iba a firmarla, llamaron a la puerta de mi habitación. Era Hector, que para mi sorpresa venía acompañado del Viejo. Entraron y se sentaron. Todo el tiempo habían estado en contacto a través de mensajes. Confirmé las palabras del monje argentino. El monasterio, al menos el que yo amaba, estaba al borde de la destrucción, dije. El anciano sonrió y dijo: &#8220;Nada que no podamos reconstruir. Me alegro de que tú, como la inmensa mayoría de los monjes, no te hayas rendido. Será más fácil rehacer los daños con la cooperación de todos. O de casi todos. Giovanni desperdició una gran oportunidad. Llevará tiempo darse cuenta de su caída&#8221;. Al amanecer, el Viejo fue restituido a la cabeza de la Orden. En un solo acto, deshizo todas las medidas tomadas durante su ausencia. Descontentos e incómodos, Giovanni y sus seguidores abandonaron la Orden. En pocas horas, la alegría había vuelto a los muros de aquella casa de luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pasaron dos semanas. Me levanté temprano como de costumbre y fui a la cantina. Encontré al anciano sentado a la mesa junto a la ventana que daba a las montañas. Llené una taza de café y me senté a su lado. Comenté cómo las conversaciones con Hector habían sido fundamentales para mantenerme en mi eje de luz mientras las ideas densas y las emociones me carcomían. Admití lo difícil que es lidiar con esto cada vez que sucede. El Viejo dijo: &#8220;Si algo me molesta, me envuelve un mal presentimiento. Significa que un pensamiento imperfecto o incompleto me está guiando, como un navegante que se guía por una brújula imprecisa o rota. Necesito cambiar esas ideas y emociones, que tanto daño me hacen, por otras que me devuelvan la alegría de vivir. Aunque no es fácil, siempre es posible. Me enseñó las sandalias de cuero que llevaba puestas y me explicó: “Me las quito con las manos; no hay ninguna dificultad en ello”. En cuanto a los pensamientos amargos y los sentimientos agrios, ¿cómo me deshago de ellos para no sucumbir al veneno de la tristeza o la revuelta?&#8221;. Respondí que, por muy hábil que fuera con las manos, no me servirían de nada. El buen monje prosiguió: &#8220;Sólo una mirada clara nos permite ver lo que la niebla de la incomprensión no nos deja ver. Con razón el Sermón de la Montaña nos enseña que cuando nuestros ojos son buenos, todo el universo es luz. Las ideas y emociones agrias se desvanecen para dejar paso a pensamientos y sentimientos endulzados con virtudes, las mil maneras de amar con sabiduría.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argumenté que había buscado las virtudes para iluminar un momento de extrema oscuridad, pero que en aquel momento me servían de poco. El anciano aclaró: &#8220;Las virtudes se aplican a la verdad, que en aquel momento estaba estrechada por las limitaciones de una culpa desenfrenada. Como casi todos tus errores en el pasado fueron causados por el orgullo y la vanidad, cuando te sentiste incómodo, pensaste que se trataba de una situación similar. Esta vez era diferente; te resultaba difícil comprender la verdad. Así que las virtudes no se aprovecharon al máximo. La complejidad de una decisión reside en la ausencia de virtudes o en el alejamiento de la verdad. De ahí la importancia de Hector para ayudarte a mantenerte en tu eje de luz mientras estabas lejos de la verdad&#8221;. Hizo una pausa para recordarme: &#8220;En tu país hay una hermosa canción que dice que hagas como el viejo marinero que lleva el barco lentamente a través de la niebla. Evita cualquier ímpetu durante las tormentas del alma, cuando el ojo claro no está disponible. Espera y observa; el silencio y la quietud son los mejores elixires&#8221;. Tomó un sorbo de café y añadió: &#8220;La humildad no consiste en someterse necesariamente a los cambios impuestos por las situaciones externas, sino en tener la paciencia y la pureza de conducirse en armonía consigo mismo hasta encontrar el pasaje que le permita seguir adelante. Llevar el barco despacio entre la niebla es también un gesto de humildad. Hay que entender el viento antes de dirigir las velas y el timón&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luego volvió a señalar sus sandalias de cuero y concluyó: &#8220;Me quito las sandalias para entrar en un templo sagrado. Pisar descalzo simboliza la humildad, virtud del aprendiz sincero, y la pureza, virtud de quien ha renunciado a utilizar el mal aunque lo tenga a su disposición. Hay un templo sagrado dentro de mí donde me regenero, renazco y reconstruyo; es el hogar de la verdad que me guía y sirve de lastre a la nave que soy en este viaje por el océano del tiempo hacia las orillas de la luz. Me muevo a través de las virtudes, pero de nada sirve navegar sin saber adónde quiero ir&#8221;. Y concluyó: &#8220;En las noches oscuras, quítate las sandalias para pisar descalzo el suelo sagrado del alma. Aceptando tu propia ignorancia comienza el viaje hacia la verdad. Con cada expansión de la verdad, se presenta una nueva puerta; las virtudes nos mueven a través de ellas. Habrá innumerables momentos como éste. No te alarmes; al contrario, agradécelo. Es entonces cuando tenemos la oportunidad de hacer girar la rueda de la evolución. Su movimiento es silencioso; los que hacen ruido no lo perciben ni lo escuchan&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amanecía. Los monjes empezaron a llegar para desayunar. Hector vino a sentarse con nosotros. Comenté que la alegría de todos era contagiosa. El monje argentino recordó: “La alegría de recuperar lo que parecía perdido, y de lo que a menudo olvidamos su importancia, no es menor que la alegría de las nuevas conquistas”. El anciano sonrió de acuerdo, pidió que lo disculparan y se levantó. Iba a prepararse para la conferencia de esa mañana. Le vimos alejarse con sus pasos lentos pero seguros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gentilmente traducido por Leandro Pena.</p>
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		<title>La cura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 22:56:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Cada vez que camino por las estrechas y sinuosas calles del pequeño pueblo al pie de la montaña que alberga el monasterio, tengo la clara sensación de encontrarme con alguien a quien no conozco. El tren me deja en la estación al amanecer. Según la época del año, el cielo está salpicado de estrellas o tiene tonos rosáceos que anuncian la llegada de la mañana. El pavimento irregular de piedras centenarias permite que el rocío nocturno forme charcos de agua que reflejan las lámparas de hierro. Un ambiente inspirador para el momento siguiente. Lorenzo, el zapatero amante de los libros de filosofía y de los vinos tintos, es un interlocutor precioso que me enseña a dialogar conmigo mismo. Estas conversaciones no siempre son agradables, ya que aportan verdades delicadas e incluso incómodas para mostrarme quién aún no soy.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Al acercarme, me di cuenta de que la bicicleta clásica del artesano no estaba apoyada en el poste frente al taller, como de costumbre. Me sorprendió. Creía que estaba cerrado. Los inusuales e imprecisos horarios de apertura eran famosos en la región. Para mi alegría, estaba abierto. Lorenzo me recibió con una sonrisa sincera y un fuerte abrazo. Mientras preparaba un café recién hecho, me senté junto al pesado mostrador de madera. Le pregunté por la bicicleta. El zapatero comentó: “Alguien se la llevó sin mi permiso”. Le dije que debía de estar muy disgustado, pues la había tenido desde joven. Cuando volvió con dos tazas de café humeantes, sonrió y dijo: “Alguien la necesitaba más que yo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Le dije que su razonamiento no era justo ni correcto. Le sugerí que registrara el caso en una comisaría y pidiera que investigaran; no por el valor material, sino por la pérdida emocional. Era una ciudad pequeña, no sería difícil. Yo en su lugar no sería complaciente. Dijo que este movimiento no le interesaba y reflexionó: “Mientras sea infeliz, mantendré conmigo el dolor de la pérdida. La curación siempre será la prioridad”. Argumenté que el dolor cesaría si se encontraba la bicicleta. El zapatero explicó: “Sí, sigue siendo un tratamiento. Sin embargo, dependería de acontecimientos que escapan a mi control. Cuando vivo a la espera de acontecimientos que escapan a mi control, aplasto el sufrimiento prolongando el dolor indefinidamente”. Tomó un sorbo de café y dijo: “Prefiero la terapia de autocuración, en la que no hay dependencia de movimientos externos. Me quito de encima las emociones dolorosas mediante ideas luminosas. Un sentimiento nuevo y sano se instala para curar la herida”. Hizo una pausa antes de concluir: “Sanar significa sacar de dentro todo lo que ya no sirve para nada. Para ello, no hay ninguna buena razón para esperar a algo o a alguien”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No podía aceptar esa forma de pensar. Apropiarse de algo que no te pertenece es una grave desviación del comportamiento, dije. Lorenzo estuvo de acuerdo: “Absolutamente. Eso no significa que esté de acuerdo o apoye ese tipo de comportamiento. Sólo significa que yo elijo quién me hace compañía. Vaya donde vaya, los pensamientos y los sentimientos me acompañan en todo momento; cuando son densos, me aprisionan en la tristeza, la indignación y la revuelta; la vida se empequeñece cuando me revuelco en el sufrimiento. Es como si viviera dentro de una caja que me limita y estrecha. No quiero eso para mí. Hizo una breve pausa antes de continuar: “Al expandir el pensamiento, la libertad despliega sus alas; la paz sienta sus cimientos en un corazón sereno. Al brotar el amor y la sabiduría en las ideas y las emociones ante un revés, me reequilibro y me fortalezco. El mal queda atrás; la persona que lo hizo es la que tiene que afrontarlo y vivir con él, no yo. Este es el movimiento exacto de la curación. Hacer de mí un lugar agradable para vivir forma parte del arte de la vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Le dije que era absurdo que dejara impune al ladrón. El artesano explicó: “Las pérdidas que sufrirá serán mucho más graves que las mías. Yo perdí mi bicicleta, él apagó su propia luz. Hay que tener compasión por alguien que ha perdido su mayor riqueza y, además, vive sin darse cuenta, creyendo que le ha ido bien”. Aunque comprendía la grandeza de la idea, no estaba de acuerdo en que sirviera de consuelo. Hacía casi medio siglo, aquella bicicleta había sido el medio de transporte utilizado para ir de casa al trabajo. Si aún estaba en perfecto estado de uso, se debía al cuidado que ponía en mantenerla. Insistí en que no era justo; tenía que luchar por sus derechos. Una vez más, el zapatero no me permitió abusar de una buena idea: “Sí, no renunciar a nuestros derechos habla de la lucha por construir lo que somos, el arte de vivir. Comprender la diferencia entre búsquedas y conflictos nos permite darnos cuenta de lo indispensable o inútil de cada batalla. Algunas son fundamentales; otras, innecesarias. De lo contrario, agotaremos nuestros días en innumerables pequeñas guerras cuyas ganancias no añaden nada a nuestro bagaje. Aunque gane, perderé; si gano, seré derrotado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pregunté cómo saber si la batalla era fundamental o innecesaria. Lorenzo explicó: “Las que ayudan a construir lo que somos son indispensables. Hablan de la dignidad que no puede faltar, de la paz que ha disipado el miedo, de la felicidad de ser cada día una persona diferente y mejor, de la libertad de seguir adelante y del amor que da sentido a la vida. Todo lo demás hay que evaluarlo bien para saber si merece la pena. Comenté que en esa última frase, la palabra “lástima” podía tener la connotación de castigo. El zapatero aclaró: “Sí, eso es exactamente. No todas las luchas son liberadoras. Al contrario, la mayoría de ellas, en las que estamos presos de vicios ancestrales, se convierten en autocastigo. La duración del conflicto determina la magnitud del dolor. La efímera alegría de una eventual victoria no compensará el tamaño de la herida agravada ni los días perdidos a la espera de decisiones que escapan a nuestro control. Nunca tendremos autonomía sobre nuestras propias vidas hasta que comprendamos el poder de la autodeterminación. La mejor terapia curativa siempre será la que dependa sólo de uno mismo”. Tomó un sorbo de café y dijo: “Créeme, nunca te faltará una. Si no la encuentras, limpia las lentes empañadas por formas anticuadas de pensar, limpia los filtros de formas anticuadas de sentir. Lo descubrirás por vías insólitas, nunca antes permitidas, aunque los sabios llevan hablando de ellas desde tiempos inmemoriales. Perdidos en conceptos y emociones de supremacía, dominio e imposición sobre los demás, e ignorantes del verdadero significado de la victoria, permitimos que la felicidad sólo exista en la imaginación de los poetas y en las letras de los libros sagrados. Mientras crea que sólo seré feliz cuando recupere mi bicicleta, permito que el sufrimiento establezca un imperio que no sé cuándo acabará. Al aceptar que la bicicleta no es una prioridad en mi vida porque no cabrá en mi equipaje cuando haga mi transición dimensional, recupero la paz y la felicidad. Comprendo la legítima regla del valor de todas las cosas. Me libero del sufrimiento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Y añadió: “Tomemos, por ejemplo, los procesos judiciales que se prolongan durante años en un intento de obtener reparación por un dolor o una pérdida. Aunque, según el caso, una sentencia pueda aportar algún consuelo económico o castigo al malhechor, será ineficaz para recuperar el tiempo perdido, como los días malgastados en sufrimiento. Es una terapia agotadora, larga y, lo que es más grave, inútil. Quienes afirman sentirse curados por estos métodos incurren en un gran engaño. Hablan de justicia cuando, en realidad, quieren venganza o les mueven meros intereses económicos ocultos tras argumentos falaces de bellos contornos, pero carentes de amor y sabiduría. Se mienten a sí mismos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Y añadió: “No es diferente en el caso de la ofensa, que puede manifestarse de innumerables maneras, desde la mera crítica cuyo verdadero objetivo es menospreciar a quienes no encajan en los gustos y sabores que los críticos han determinado que son los adecuados para disfrutar, hasta formas más veladas de agresión, como el desprecio, una oscura manifestación de orgullo y altanería por la supuesta superioridad que se presenta. Hay formas aún más agresivas por ser colectivas, como la llamada cancelación, una terrible y contemporánea forma de segregar a las personas que se niegan a compartir una misma idea a través de las redes sociales, coaccionando las singularidades y el libre pensamiento. Se trata de horribles máquinas de represión ampliamente utilizadas en la actualidad y, lo que es peor, apreciadas por multitudes todavía adictas a alimentarse del mal bajo el falso pretexto de que defienden el bien. En cualquier caso, quieren aprisionar a todo el mundo dentro de los estrechos confines de sus malentendidos, como si una persona dependiera del permiso de otra para ser quien es”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tomó un sorbo de café y explicó: “Sentirse ofendido interrumpe tu vuelo, como un pájaro al que se le niega el cielo por la amenaza de las hondas. No puedo detener las piedras, pero puedo evitar que me golpeen”. Quería saber cómo. Lorenzo me explicó: “Vuela alto. Las piedras nunca te alcanzarán”. Agitó la mano como si quisiera decir lo obvio y aclaró: “Sufriré ofensas mientras crea que pueden robarme mi dignidad como si fuera una bicicleta. No, nada ni nadie puede robarme mi dignidad; basta con que me mantenga en línea con la verdad y las virtudes. En casos así, mientras esté desprovisto de orgullo y vanidad, no es difícil comprender que el agresor no está hablando de mí; sólo está derramando la turbación de su corazón. Me dignifico a través de lo mejor que hay en mí: actuando en la frontera extrema de la verdad alcanzada y en el exponente de las virtudes ya conquistadas. Me libero de la ofensa y avanzo en paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frunció el ceño y dijo: “Cometo una locura cuando dejo mi felicidad a merced de la incomprensión ajena; ¿cómo puedo entregar a los demás algo tan precioso, íntimo y esencial? Si conozco la verdad que me guía y las virtudes que me mueven, nunca cabrán en mi alma palabras ajenas llenas de contradicciones, descontrol y malentendidos. No importa lo que piensen de mí. Sólo los inmaduros necesitan la validación o la autorización de otra persona para ser felices o para creer que son quienes son”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luego advirtió: “Lo que no puede faltar es humildad, sencillez y compasión. Si hay algo de verdad en las palabras de la otra persona, quédate con lo bueno y desprecia lo malo; reconoce tus errores, discúlpate, repara el daño, comprométete contigo mismo a corregir el rumbo y sigue adelante”. Como siempre hemos dicho en este taller, siempre que se utilicen bien, los errores son los mejores zapatos”La inusual forma de pensar del zapatero me desconcertó. Decidí hablar de una situación que me preocupaba. Estaba muy disgustado con un amigo que le había prestado dinero para invertir en su empresa. Le expliqué que necesitaría que me devolviera el dinero en un plazo no superior a un año, ya que estaba preparando la creación de una imprenta dentro de la editorial que dirigía. Me había dado su garantía personal de que devolvería la cantidad original en el plazo acordado, incluso si el negocio no funcionaba como esperaba; si lo necesitaba, recurriría a los bancos o vendería su hermosa finca para cumplir su compromiso conmigo. Accedí a su petición. Al final del plazo previsto, no me pagó. Oí argumentos que no tenían en cuenta la responsabilidad que había asumido; ya fueran los elevados tipos de interés bancarios o la dificultad de deshacerse del lugar donde sus nietos pasaban las vacaciones. Finalmente, dijo que pagaría cuando pudiera, negándose a fijar una fecha. Le dije al zapatero que me sentía como un tonto por dejarme engañar por promesas vacías de compromisos serios. Lorenzo me mostró el error que me estaba atrapando en el dolor: “¿Por qué condenarte con palabras tan duras? ¿Por qué hacerte daño con mentiras? ¿Por qué castigarte por una situación en la que no cometiste ningún error?”. Guardó silencio unos instantes para que yo comprendiera lo equivocado de los pensamientos que creaban una herida sin motivo. El zapatero continuó: “Confiaste en un amigo; eso no tiene nada de malo. ¿Cuántas veces has ayudado a otros o has sido ayudado por algunos también?”. Le contesté que muchas veces. Siguió construyendo un razonamiento poco habitual: “¿Te hizo sentir bien que todos los implicados cumplieran su palabra?”. Asentí con la cabeza. “¿Sabes por qué la confianza y la credibilidad son algunas de las maravillas de la vida?”. Asentí que no. Lorenzo me enseñó: “Porque son pilares de la dignidad. Nadie es feliz ni vive en paz sin dignidad; los que lo intentan, aunque lo nieguen, serán eternamente perseguidos por los fantasmas del engaño y de sus propios errores hasta que arrojen luz sobre la oscuridad que han provocado.” Y formuló la pregunta definitiva: “Tú perdiste dinero; él perdió luz. ¿Quién es el verdadero tonto?”. La respuesta era obvia y no hacía falta verbalizarla. El zapatero concluyó: “Da gracias a la vida de que en esta relación estés donde estás y no al otro lado, en el papel del bufón que engaña al público montando un espectáculo oscuro y de mal gusto”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lorenzo aclara además: “Vive como si él no te debiera nada; si algún día decide cumplir el compromiso, acéptalo. Mientras tanto, véalo como una inversión de alto riesgo con un retorno improbable debido a la inconstancia moral del interlocutor, como en la bolsa cuando las pérdidas son causadas por noticias engañosas que ocultan las ruinas estructurales de una empresa. Repito, no se equivoca quien ha actuado de buena fe, sino quien ha faltado a la verdad incumpliendo el compromiso adquirido”. A continuación, ofreció otra dosis de ideas luminosas, poderosos elixires para reequilibrar las emociones y restañar así el dolor del alma: “El autocastigo por los errores, los excesos y las locuras de los demás son causas insensatas de las muchas heridas que nos infligimos a nosotros mismos. Sufrimos por los actos terribles y absurdos de los demás, cuando las consecuencias de todas las acciones recaen única y exclusivamente sobre la persona que las realizó. No hay ninguna buena razón para que me condene por el mal uso del bien que he ofrecido. Tenemos la costumbre de castigarnos por errores que no hemos cometido. En la inmadurez de nuestra conciencia, creemos que el engañado es un tonto, mientras que el engañador es muy listo. Pensando así, arrancamos las flores del hermoso jardín del alma, que surge de hacer el bien, para caminar sobre las afiladas piedras de la incomprensión; nuestros pies sangrarán innecesariamente. Nunca te hagas eso a ti mismo. Tomó otro sorbo de café y concluyó: “Soy dueño de mí mismo cuando, independientemente del movimiento del mundo, permanezco alineado con mi luz. Con ella, tengo todo lo que necesito para avanzar sin quedarme atascado en los pasos que no di”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apuré mi taza de café sin decir palabra. Necesitaba metabolizar aquella nueva mirada para sanar todas las heridas que sangraban en mí; y más aún, sin permitir que el dolor desenfrenado permaneciera en mi corazón. No es necesario ningún sufrimiento; todos desaparecen en el perfeccionamiento de la mirada”. Lorenzo concluyó: “Si cada persona vive dentro de sí misma, no hay ni una sola buena razón para permitir que el desorden ajeno abarrote nuestra casa. Con tus pensamientos y sentimientos como compañeros inseparables, nunca permitas que el sufrimiento se instale, ni siquiera por un solo día. Acostumbrarse a vivir con el mal conduce al estancamiento y al agotamiento; el alma se pudre de tanto dolor. Sanar significa sacar el mal de ti. Para ello, no tienes que esperar a nada ni a nadie. La curación consiste en cambiar de perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era hora de partir. Haría autostop con el camión que llevaba suministros al monasterio. Agradecí al zapatero la conversación. Me había devuelto la ligereza al acabar con los malentendidos, germen de todo sufrimiento. Me había hecho descubrir un poder oculto, siempre disponible, que yo desconocía. Justo entonces, nos sorprendió la entrada de René en el taller. Librero de don y profesión, René era un viejo y leal amigo de Lorenzo. Cuando se enteró del robo de la bicicleta, había salido en busca de una sustituta, y había encontrado una aún más rara. Era una Schwinn, una bicicleta fabricada en las primeras décadas del siglo pasado, en perfecto estado y en perfecto uso. Decidió regalársela a la persona que le había ayudado en varios momentos cruciales de su vida. La Schwinn era una de las pasiones secretas de Lorenzo. La ciudad amaneció con la sonrisa del zapatero. La vida nunca deja a pie a quien camina en la luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gentilmente traducido por Leandro Pena.</p>
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