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	<title>Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Os segredos do respeito e do silêncio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 15:06:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Os dias no mosteiro são dinâmicos. Aulas, palestras, conversas e reflexões refletem a tônica de cada período de estudos. Disponibilizar conteúdos diversos através de diferentes métodos tem por finalidade fomentar o autodescobrimento, degrau primordial para todas as transformações evolutivas. Enquanto você não se conhecer mais e melhor, não haverá como entender aquele que precisa deixar de existir para dar lugar a alguém que necessita surgir em si mesmo. É fascinante. Contudo, isso não acontece de uma única vez. Tampouco por toque de mágica. Ocorre aos poucos. Cada pequeno avanço é resultado de muito esforço. As descobertas motivam conquistas interiores. As conquistas exigem ainda mais dedicação, contudo, trazem consigo o poder de modificar a realidade. O mundo permanece o mesmo. Mudam o olhar e a postura com que lidamos conosco, com tudo e com todos. A vida se expande em gosto, leveza e possibilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu assistia ao curso de aprofundamento sobre a complexidade do processo obsessivo, das influências prejudiciais motivadas por ideias de conflitos e sentimentos densos movidos por vícios comportamentais. Este curso havia sido montado por mim, havia alguns anos, pelo qual fiquei responsável por um bom tempo. Depois, fui transferido para outras atividades. O Franz assumira o curso desde então. Como método de supervisão e acompanhamento, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, pedia que assistíssemos algumas aulas de cada um dos cursos em andamento. Ainda que nunca tivesse ocorrido nenhuma briga ou discussão, havia um indisfarçável distanciamento entre mim e o Franz. Embora houvesse uma convivência polida e educada, a amizade não se aprofundara. Por vezes, acontece e nada há de errado nisto. Sem que tivesse nenhum motivo aparente, eu tinha a sensação de existir uma rivalidade não declarada por parte dele. Muito dedicado, era inegável o seu talento para lecionar e transmitir ideias. Era considerado um dos melhores professores da Ordem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo parecia bem, até que em determinado momento da aula, Franz fez uma sutil menção a um aspecto da palestra que eu havia ministrado no dia anterior, sugerindo haver um grave erro conceitual nas minhas palavras. Ocorre que ele tinha descontextualizado a frase, a inserindo em um cenário estranho ao qual eu usara originalmente. De modo indireto, insinuou que a palestra teria sido perda de tempo para quem a assistira. Como se não bastasse, elogiado por um jovem monge sobre o conteúdo das aulas, Franz se declarou autor do curso, cuja elaboração o tinha custado incontáveis dias de pesquisa. Uma afirmação inverídica, uma vez que o curso estava exatamente igual ao confeccionado por mim há quase uma década.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A irritação me envenenou as entranhas. Em outros tempos, eu interromperia a aula para corrigir o erro, exigir respeito e reparar a ofensa. Haveria uma discussão. Um conflito seria instalado. No entanto, uma reação destemperada em nada serviria para atenuar a minha raiva. Atitudes com base no ódio ou na mágoa quase sempre são manifestações vingativas, ainda que inconscientes. Saímos da luz para caminhar nas sombras. Ficamos mal. De nada serve o argumento de que fomos provocados. Assim como eu e você, as pessoas vivem do jeito que sabem ou conseguem. A insistência em mudar os outros ou para que admitam os seus erros é exercício típico dos tolos. Ninguém se modifica para agradar ninguém, tampouco confessam os equívocos quando não são capazes de os reconhecer. Mudamos quando algo em nós deixa de caber em quem queremos nos tornar. Enquanto não acontecer, tudo continuará como está.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mais, ninguém coloca ódio, inveja ou ciúme em ninguém. O sentimento, seja qual for, sempre esteve dentro da gente. A provocação o traz à tona. No caso, sendo meus os sentimentos, negar a responsabilidade que me cabe nos estragos que vierem a causar é ato de imaturidade. O comportamento de outra pessoa terá ou não o poder de manifestar reações desvairadas em mim, a depender se domino as minhas emoções ou se elas me dominam. Por isto as reações, muito mais do que as ações, demonstram em que ponto estamos no processo evolutivo. Servem para fortalecer o equilíbrio emocional ou motivar desatinos e fúria. Por esse e outros motivos, o autoconhecimento é fator preponderante à evolução espiritual. Esta não caminha sem aquele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos tentam fundamentar os próprios desequilíbrios sob a pretensa alegação da necessidade de <em>exigir respeito</em>. Sem dúvida, o respeito é um inestimável aspecto da autoestima. É um dos pilares da dignidade. Contudo, o que poucos se dão conta é que o respeito é atitude interna, de preservação de valores e princípios. Mesmo ofendido, a pessoa pode se manter em atitude de respeito, sem revides nem conflito. Não raro, uma pessoa que se altera por suposta falta de respeito e reage agressivamente, o faz movida por orgulho e vaidade. Nada haverá de respeitoso em uma reação desse quilate.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não apenas as críticas e as ofensas, mas os elogios também podem gerar reações de desrespeito, quando tendenciosos, obscuros ou interesseiros, servindo à manipulação de vontade ou da verdade. Respeito é agir e reagir de modo a se manter no próprio eixo de luz. Assim, em nada importa o que outras pessoas fazem ou deixam de fazer. Respeito, acima de tudo, é ato interno de coerência com a verdade alcançada e com as virtudes adquiridas. Simplicidade e moderação é autorrespeito, arrogância e soberba é vício desrespeitoso por si mesmo. Exigir respeito é outra prática comum aos tolos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não há como impedir a chegada das emoções indesejáveis. Entretanto, há como evitar que elas nos azedem, dominem e manipulem. Ninguém se sente melhor depois de agir como quem tropeça no próprio coração. As consequências são desagradáveis. A responsabilidade por quem sou e como transito pelos dias é apenas minha. De mais ninguém. Não me cabe lamento nem reclamação. Aceitar esta verdade não apenas é ato de maturidade, mas também me devolve o poder sobre quem eu sou e sobre a minha vida. Aceitar, acolher e nomear adequadamente as emoções é fase importante na jornada do autoconhecimento, afinal, elas trazem mensagens valiosas sobre quem ainda não somos, mostram aspectos que carecem de reconstrução interior. Quando afasto a consciência para entregar o comando às emoções, fico à mercê de situações do mundo, circunstâncias da vida e atitudes de outras pessoas. Sinto-me frágil e desequilibrado. Isto me distancia da paz. Quem me define o comportamento e as escolhas também determinará o meu caráter e o destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele episódio, preferi o silêncio. Até porque em outra ocasião, tive uma reação tempestuosa diante de uma provocação do Franz. Na época, fiquei com a sensação de que ele tinha sentido prazer com o meu descontrole. Embora de valor inestimável, o silêncio nem sempre é a melhor resposta. Por vezes, existe a necessidade de se expressar. Há mil boas maneiras de se fazer isso, nunca abdicando da serenidade, da clareza e da concisão. Serenidade para que haja escuta, clareza para que a ideia seja compreendida e concisão para que o excesso de palavras não esgarce o poder dos argumentos. Uma frase curta, quando bem colocada, e de preferência em forma de questionamento, pode servir de espelho ao interlocutor intempestivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrando que a ironia e o sarcasmo são manifestações disfarçadas de violência, ora de ataque, ora de defesa e, assim, devem ser evitados. Outro ponto fundamental ao respeito é sobre os argumentos. Estes devem ficar tão e somente na esfera das ideias. Apontar defeitos e vícios de comportamento em alguém demonstra a incapacidade de raciocinar e argumentar em bom nível. Aqueles que respeitam a si mesmo debatem ideias, jamais o caráter de uma pessoa. A agressividade e a vingança arrancam do eixo de luz quem as utilizam na ilusão de manter a honra ou impor respeito. Não fazer aos outros aquilo que não queremos que nos façam é o pilar central da dignidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, fiquei muito chateado. A irritação se recusava a ir embora. A cena do ocorrido me dominava a mente. Não conseguia a afastar do pensamento. Dormi mal naquela noite. Ainda era madrugada quando decidi me levantar. Dirigi-me à cozinha em busca de uma caneca de café. Manter a mente ocupada com os afazeres talvez me ajudasse a esquecer o ocorrido. Sentei-me próximo às janelas para apreciar as estrelas. Fui surpreendido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Ao entrar na cantina, ele pegou uma caneca de café e se sentou à mesa comigo. Sem nada inquirir, como se soubesse o que se passava comigo, pontuou: “O autoconhecimento o trouxe até aqui, mas o que sabe sobre si mesmo não o levará adiante. Será preciso descobrir mais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei do que o bom monge falava. O Velho não fez rodeio: “Há inegável mérito em não explodir de raiva. No entanto, ao se deixar implodir por causa da provocação, ficou demonstrado o quanto ainda precisa caminhar. As emoções são ardilosas. Ao se proteger de uma reação indesejada, a emoção o demoliu de outra maneira. Não desperdice a mensagem que ela traz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era verdade. Questionei se eu havia errado em ter me silenciado. O Velho retrucou: “Eu não falei isso, mas também não disse diferente disso. O silêncio é ferramenta para quem sabe usar. Ajuda a erguer obras maravilhosas. As conquistas mais importantes são envolvidas e movidas em silêncio. No entanto, quando mal compreendido, a longo prazo e aos poucos, pode se tornar um nefasto instrumento de anulação da própria personalidade. Pode caracterizar uma fuga, medo ou ausência de autoestima em gesto de desrespeito por si mesmo. Há que se ter cuidado”. O bom monge prosseguiu: “Para servir como instrumento de movimento o silêncio exige postura, firmeza e entendimento. Trata-se de uma atitude de coragem e autodomínio, jamais gesto de submissão ou encolhimento diante de algo ou alguém. Embora a mecânica externa seja semelhante, a construção interna é bem diferente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Franziu as sobrancelhas e acrescentou: “O silêncio é perfeito quando se entende a desnecessidade de uma resposta com palavras. Há tanto desatino e incoerência na acusação que nenhuma palavra poderá alterar o desequilíbrio no acusador. Então, cabem aos olhos rebater o absurdo dos argumentos, uma vez que o interlocutor não está em condições de ouvir nenhuma ponderação. Em muitas situações, o silêncio tem o poder de desmontar a arena por demonstrar a insensatez do duelo. A espada desembainhada com agressividade envergonha o gladiador ao se deparar com um monge em paz consigo mesmo. O silêncio mostrará ao contendor a verdade desagradável de um comportamento degradante”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aleguei que, embora entendesse que o silêncio tivesse sido a melhor resposta diante da provocação do Franz, eu não sabia o motivo de ter ficado tão mal. O Velho explicou: “Existem diversos aspectos que precisam ser considerados. É natural que ao sermos atacados, sejamos tomados por algum tipo de irritação. Afinal, uma fronteira interna foi invadida. Alguém foi aonde não estava autorizado a ir dentro da gente. Compreendamos essa emoção, não como um alerta de revide, mas para que o invasor não nos coloque onde ele quer que fiquemos. Em geral, por não se tratar de um bom lugar, sentimentos sombrios instalarão um império. Contudo, embora esse sentimento seja um valioso mensageiro, não serve para orientar nenhuma reação ou a rearrumação interna que precisamos fazer logo após à invasão. Seria catastrófico”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole de café e continuou: “Ao não permitir que a raiva comandasse a reação, você demonstrou possuir um bom poder sobre si mesmo. Sem dúvida, um importante passo. Entretanto, deixou que raiva norteasse o seu realinhamento emocional. O ódio é um péssimo conselheiro. Daí o desastre incompreendido. Evitou a explosão, mas sem se dar contar, permitiu a implosão. É neste ponto da estrada que muitos se perdem. Sentem-se mal, irritadiços ou desanimados, os pensamentos ficam lentos, o coração se torna rancoroso”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pedi para que explicasse melhor. O Velho foi didático: “<em>Cada um só dá o que tem</em>, muitos repetem esta surrada frase como se fosse um mantra de cura. Sem dúvida, há inegável verdade nesse conceito. Entretanto, para que esse entendimento sirva de elixir, se faz indispensável trazer à tona a virtude que lhe concede a eficiência curativa e libertadora. Do contrário, não passarão de palavras sábias pronunciadas por mentes esvaziadas de motivações genuínas. Um carro sem motor não vai a lugar nenhum. Apenas quando impulsionado pelo sentimento correto, o bom conhecimento adquire o poder transformador da sabedoria”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei sobre qual virtude ele se referia. O Velho respondeu de pronto: “A compaixão”. Pousou a caneca sobre a mesa e elucidou: “Age com compaixão quem possui uma compreensão profunda sobre as fragilidades humanas. Não se trata de um sentimento de superioridade. Isto daria asas ao orgulho e a vaidade. Assim, seria uma sombra. Quando me refiro à compaixão, falo de uma compreensão profunda, a qual exige percepção apurada e sensibilidade refinada. A autêntica compaixão nasce da humildade. Antes de reconhecer as próprias fraquezas ninguém estará apto a se valer da compaixão para sentir no próprio coração as dificuldades alheias. Somente desse modo a compaixão se torna uma virtude. Do contrário, o indivíduo citará o conhecimento sem a menor capacidade de o usar como ferramenta evolutiva. Apenas a compaixão tem o poder de desmanchar sentimentos como o ódio, a mágoa e outros afins. Para tanto, terá de os compreender como manifestações de uma alma ainda imatura. Apenas possível se a sua própria alma lhe servir de laboratório e exemplo. A compaixão é pressuposto indispensável ao perdão. Sem aquela, este jamais será alcançado. Sem perdoar ninguém será livre, tampouco conhecerá a paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como modo de ressaltar as palavras, bateu com o dedo indicador na mesa e acrescentou sobre a compaixão: “Trata-se de uma virtude de defesa e de limpeza interna. Para tanto, precisará aceitar que o comportamento alheio somente o arrancou do eixo de luz porque ainda lhe faltam os fundamentos para o devido amadurecimento dos seus pilares de sustentação. Quando ainda verdes, verdades e virtudes carecem de consistência para sustentar a consciência diante dos inevitáveis ventos contrários da existência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indaguei sobre as pessoas que ofendem, agridem e provocam. O Velho deu de ombros e comentou: “Não se preocupe com elas. O mal, ainda que eventualmente prejudique outras pessoas, é patrimônio e responsabilidade de quem ergueu a obra. A cada um caberá se abrigar na morada que construiu para a própria consciência. A noite dos tempos é igual para todos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, lembrou: “Dentro da gente transitam todos os sentimentos. Os bons e os maus. Sem exceção. A compaixão não conseguirá impedir a presença da raiva logo após uma ofensa ou uma provocação. Contudo, terá força para não permitir que a emoção densa se alastre, perdure e, mais importante, o domine. Aos poucos, à medida que se conhecer mais, aprenderá a lidar melhor com as suas emoções. Assim, conseguirá reduzir o tempo de permanência da sensação ruim até que dure apenas um átimo de segundo. Então, nenhum veneno restará derramado no seu coração”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei o motivo de termos tanta dificuldade com a compaixão, sendo que quase sempre somos vencidos pelo ódio e pela mágoa. O Velho resumiu em uma única palavra: “Abnegação”. Ao perceber o meu olhar inquisitivo, esclareceu: “Trata-se de uma simples, porém poderosa virtude, apenas acessível a quem já consegue priorizar as conquistas espirituais em detrimento das materiais. É simples, mas não é pouco. Além de permitir um rol de posturas e escolhas de nível elevado, os abnegados têm clara compreensão de onde se situa o verdadeiro campo de batalha”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apontou para o coração e concluiu: “O bom combate se traduz na vitória sobre si mesmo, jamais sobre qualquer outra pessoa. Derrotar os vícios comportamentais, as más inclinações, resistir aos atalhos e às tentações, afastar os pensamentos obscuros, rejeitar os desejos de superioridade, sedimentar o equilíbrio emocional e fazer o bem sem importar a quem são alguns exemplos de vitórias e conquistas de extremo valor. Extrair luz das próprias sombras define as verdadeiras maravilhas da vida. Quem as buscar no mundo, nunca restará saciado. Aquele que as encontrar em si mesmo, jamais tornará a sentir sede. Não há poder maior”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei o motivo de relutarmos tanto em priorizar essas riquezas. Ele piscou um olho e sussurrou como quem conta um segredo: “As conquistas mais importantes são realizadas no silêncio do coração, dos lábios e dos atos. Só os abnegados e humildes estão aptos a usar o silêncio e a discrição para se deslocar pelo mundo e pela vida. Não fazem questão de serem vistos, lembrados ou admirados. Valem as construções internas, silenciosas e invisíveis a olhares afoitos. As obras devem ter a marca do anonimato. Eles se empenham pela melhor ação, no aperfeiçoamento do processo espiritual em total desapego aos resultados externos. Somente alguns já têm a capacidade de ver o que as multidões ainda não conseguem enxergar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esvaziou a caneca de café e lembrou: “O engodo e a ilusão trazem barulho, ansiedade e confusão, nada parece bom. A verdade é silenciosa, serena e acolhedora, traz lucidez, equilíbrio e força de movimento”. Em seguida, finalizou: “O silêncio é para quem se importa mais com a luz do que com o brilho. O verdadeiro respeito reluz em um lugar onde muitos nunca estiveram. Por isto não compreendem o valor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indaguei se não seria conveniente esclarecer sobre a autoria do curso ou sobre o verdadeiro teor da palestra. O Velho ponderou: “Nunca se preocupe nem se desgaste tentando convencer ninguém sobre a verdade. Se vierem perguntar, seja honesto e se esforce para não melindrar ninguém. Se ninguém perguntar, não se preocupe em procurar um palanque para esclarecer ou contar a sua versão sobre o fato. Importa que você conhece a verdade. Apenas viva a verdade em silêncio. Caminhar com a verdade traz em si um grande poder. &nbsp;Não apenas o liberta dos sentimentos densos e das emoções mesquinhas, mas também das opiniões alheias e das validações do mundo. Viver a verdade através de uma alegria sincera e silenciosa traduz o respeito e a dignidade por si mesmo. Não há paz mais profunda. Acredite, isso basta e não é pouco”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dia amanhecia. Alguns monges começaram a entrar na cantina. Calamo-nos. Nada mais precisava ser dito. O Velho sorriu, se levantou e foi embora. Deixou comigo uma valiosa lição e um importante dever. Peguei um pequeno caderno de anotações que sempre carregava comigo e, com um lápis, rabisquei o primeiro parágrafo deste texto. Ali continha o que me caberia realizar até o último dia do dia sem fim. Enquanto alocava as ideias em suas devidas prateleiras, observei os passos do bom monge se afastando. Eram lentos, porém, seguros.</p>
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		<title>Circunstância e destino</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Aug 2026 14:13:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Tirei aquela terça-feira para arrumar a casa. Não a física, mas a psíquica. Se em melhor análise, cada um mora dentro de si mesmo, convivendo diariamente com os seus pensamentos e sentimentos, a limpeza exige atenção e manutenção constante. Ninguém pega o lixo da rua e o leva para guardar...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Tirei aquela terça-feira para arrumar a casa. Não a física, mas a psíquica. Se em melhor análise, cada um mora dentro de si mesmo, convivendo diariamente com os seus pensamentos e sentimentos, a limpeza exige atenção e manutenção constante. Ninguém pega o lixo da rua e o leva para guardar na casa de tijolo e concreto. A pergunta é porque mantemos o hábito de acumular o que não presta dentro da gente. Eu precisava avaliar ideias e emoções que pernoitavam em mim. Colocar as boas para gerar frutos, assim como descartar aquelas que não mais serviam, prejudicavam e me impediam de seguir em frente. Faxinar a mente e o coração é tarefa primordial para manter a sanidade mental e emocional. Do contrário, conflitos se avolumam, caminhos se fecham, a alegria desaparece. Culpamos os outros, a sorte, o mundo e o destino quando, em verdade, se trata tão e somente de negligência com a casa interior, a qual não fomos educados a manter limpa e arejada. Não raro, um erro caro. Ninguém pode fazer isso por ninguém, salvo cada um por si mesmo. Eu preciso ser um bom lugar para viver. Se possível, todos os dias. Enquanto a paz não morar comigo, jamais a conhecerei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Organizei a agenda; transferi afazeres e compromissos para os dias seguintes. Isto sempre é possível quando priorizamos a prioridade do momento. Priorizar a prioridade não é pleonasmo, é hipérbole funcional. Naquele instante, cuidar de mim era a coisa certa a fazer. Tudo mais poderia esperar. Não se trata de egoísmo, mas de autorrespeito e amor-próprio. Quando não estamos bem, nada nos será bom o suficiente. A vida perde o sabor. Somos o sal da vida. Se não soubermos a temperar e a preservar, desperdiçaremos uma inestimável riqueza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta riqueza desperdiçada era a agonia e a tristeza do Beto. Depois de décadas sem nos ver, o acaso criou um encontro na subida da Pedra Bonita, um enorme maciço de granito algumas centenas de metros acima do nível do mar, de frente para a icônica Pedra da Gávea e aos pés do majestoso Atlântico. Do topo, se avista vários bairros do Rio de Janeiro, sendo permitido sentir o pulsar dessa cidade linda, enigmática e repleta de contradições.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tínhamos estudado juntos no Ensino Médio. Diferente de mim, ele optou por cursar Direito. Tinha o sonho de se tornar um grande criminalista. Estudou bastante e fez bons estágios. Preparou-se adequadamente para o início da carreira. Após os primeiros anos, muito promissores, foi apanhado por um plano econômico equivocado e extremista, que arrestou quase a totalidade dos valores contidos nas contas bancárias da população. Os clientes não podiam honrar com os honorários, tampouco Beto podia utilizar a poupança confiscada pelo governo para pagar os seus compromissos. Enfrentou meses de enormes dificuldades financeiras. Os boletos se acumulavam na razão direta que o sono desaparecia. Seu pai era proprietário de uma empresa de ônibus, um dos poucos setores empresariais a superar sem maiores problemas aquele período de tantas complicações. Todos os dias recebia valores significativos referentes à venda de passagens. As multidões precisavam se deslocar para trabalhar. Assim, o fluxo de caixa se manteve estável e satisfatório. Foi quando o pai, na melhor das intenções, o convidou para trabalhar na empresa. Receberia um ótimo salário e seria preparado para o suceder no tempo oportuno. Contudo, havia uma condição inegociável: teria de abdicar da advocacia para se dedicar integralmente ao negócio. Embora houvesse alívio da pressão financeira que o espremia, como quem lança ao mar uma carga preciosa para salvar da tempestade o barco à deriva, ele teve que se desfazer de quase dez anos de estudos. Para dirigir uma empresa de viação urbana, os conhecimentos na área do Direito Penal em muito pouco ou em nada serviriam. Com uma nítida a tristeza em seus olhos, me disse Beto à época: “A necessidade falou mais alto do que o sonho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais de trinta anos depois, eu o reencontrei ao estacionar o carro próximo à rampa de saltos para voos em asa-delta, alguns metros abaixo do topo da montanha. Ele me contou estar casado com uma mulher incrível, com quem tivera três filhos maravilhosos. Após a partida do pai para as Terras Altas, assumira o controle da empresa. Tinha uma vida confortável, sem maiores problemas. Todavia, ainda trazia o desconforto de uma escolha realizada quando nem sequer tinha completado trinta anos de idade. Por vezes, acordava sobressaltado no meio da noite, assombrado pelo verso de um poema do Manuel Bandeira: <em>uma vida que poderia ter sido, mas não foi</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Beto contou que costumava se sentar na rampa para assistir homens e mulheres voarem como se a asa-delta fosse extensão natural de seus corpos. Havia um inegável fascínio em singrar os mares do céu, ver o mundo de cima e apreciar o silêncio que existe nas grandes alturas. Até que aderiu à aventura de voar, de se lançar no abismo e se deixar sustentar somente pelo ar. Havia uma indizível sensação de leveza, impossível de explicar para quem nunca tinha voado. Com a administração da empresa devidamente azeitada, cada vez mais delegava funções. Assim, passou a se dedicar todos os dias ao esporte antes de trabalhar. Para ele, voar equivalia à meditação em um templo inexpugnável. Sentia-se bem assim, explicou. Perguntei se a agonia do sonho abandonado desaparecia nesses momentos. Beto se limitou a dizer não com a cabeça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ato seguinte, me convidou a realizar um voo. Garantiu que seria uma experiência sem igual. Declinei da oferta. Expliquei os motivos pelos quais estava ali. Eu precisava arrumar a casa. Falei que seguiria rumo ao topo da montanha. Em tom de brincadeira, Beto comentou sobre a Cléo, a bruxa, a quem todos comentavam na cidade, sendo considerada, pela grande maioria, mera personagem de uma famosa lenda urbana. Algumas pessoas juravam a ter encontrado na Pedra Bonita. No mesmo tom de descontração, por saber que certas histórias são difíceis de acreditar, contei que tinha encontrado com ela por diversas vezes. Embora não tivesse obtido sucesso nas últimas tentativas, confessei. O encontro sempre dependeu dela, nunca de mim. Beto me observou por alguns instantes como quem percebe a seriedade das palavras por trás de uma fala aparentemente descompromissada. O seu olhar sério me fez uma pergunta silenciosa. Maneei a cabeça para responder que sim. Ponderei que, talvez mais do que eu, ele também precisasse arrumar a casa. Havia um cômodo fechado há décadas que necessitava de uma boa faxina. Se ele tivesse a ventura de encontrar com a Cléo – algo que eu não podia garantir –, viveria uma experiência sem igual. Beto sorriu sem certeza se acreditava naquilo que eu falava, mas aceitou o risco da aventura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diz o poeta que os outonos do Rio se equivalem as primaveras de Paris: céus incrivelmente azuis com temperaturas deliciosamente amenas. Vencemos sem maiores dificuldades uma trilha de cerca de vinte minutos até o platô soberano da montanha. Tínhamos uma vista encantadora acompanhada de uma quietude inspiradora. Sentei-me de frente ao mar, fechei os olhos e me deixei conduzir por alguém que sou, mas nem sempre permito que participe do meu cotidiano. Algo que aos poucos me esforço para corrigir. Beto se sentou ao meu lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passado um tempo que não sei precisar, tive a atenção despertada pelo grasnar das gaivotas. Ao virar para o lado, me deparei com o olhar assustado do Beto. Envolta pelos pássaros, rodopiando à beira do penhasco, Cléo se aproximava. O vestido esvoaçante, para olhos afoitos, se assemelhava a asas coloridas. As gaivotas se foram, a boa bruxa ficou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acomodou-se ao lado de Beto e, com o timbre de voz doce e delicado, o perguntou-lhe: “O que veio fazer aqui?”. Um tanto desconcertado, embora conhecido como uma pessoa articulada, inteligente e de raciocínio veloz, ele teve dificuldade em responder. De modo a se esquivar do questionamento, brincou dizendo que eu o convidara a arrumar a casa. Apesar de estar com a vassoura e o balde na mão, sequer tinha noção de por onde começar. Gentil e séria a um só tempo, Cléo o orientou: “Comece por onde incomoda. Alguns cômodos, mesmo que considerados pequenos ou insignificantes, de tão bagunçados, têm o poder de atrapalhar o funcionamento e o bem-estar da casa inteira. Não se consegue esquecer nenhuma das feridas da alma, mas sempre é possível curá-las. Algumas precisam apenas de um melhor entendimento, outras, contudo, carecem de posturas e atitudes para que parem de sangrar. Toda cura se inicia através de um olhar mais aperfeiçoado em relação à experiência vivida. Quando a equação resulta em sofrimento, significa que erramos o cálculo da vida. Faz-se indispensável a refazer quantos vezes for necessário até que o resultado seja a libertação e a paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Beto parecia nem respirar. Cléo o convidava para um voo diferente do qual se acostumara a fazer com a asa-delta. Não teria o ar para se sustentar. A coerência com a verdade era o que o manteria em pleno voo. Do contrário, despencaria em si mesmo, como todos os dias, há tanto tempo, acontecia. Não havia outro jeito. A bruxa acrescentou: “Distante da coragem a verdade não consegue sair do solo para alçar voos mais altos. Você continuará a se perder em adiamentos, maquiagens e fugas. Aos poucos, restará bem pouco, quase nada de si mesmo. Quem faz isto conosco não são as circunstâncias da vida, mas as escolhas que realizamos diante delas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O empresário deixou que a frustração do sonho abandonado saísse do quarto escuro das memórias desagradáveis e reprimidas. Contou em detalhes como tudo acontecera. Das necessidades que enfrentara à época, das tentações que não conseguira resistir. Tinha optado pelo caminho mais fácil, todavia, uma via sem coração. Por não ter tido forças para lidar com as difíceis circunstâncias que o pressionaram, negou o próprio destino. Tinha uma vida confortável e tranquila, porém, convivia com um vazio que não conseguia esquecer nem se desvencilhar. <em>Se é vazio, por que dói?</em> Questionava-se. Emocionado, suas mãos tremiam. Uma lágrima expôs a dor de um sentimento reprimido há mais de trinta anos. Encerrou com uma pergunta que entendia não caber resposta: <em>para onde vão os sonhos abandonados?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cléo o olhou com compaixão e explicou: “Os sonhos jamais restam esquecidos. Os sonhos não vão a lugar nenhum. Eles ficam sangrando dentro da gente. Negamos, mentimos ou reprimimos, justificamos o abandono com argumentos sagazes. Desculpas até podem trazer algum consolo, mas jamais aperfeiçoam ou melhoram a vida de ninguém”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa antes de acrescentar: “Abandonar um sonho pode significar uma séria desistência quanto a si mesmo. Equivale a deixar um pedaço de quem poderíamos nos tornar à beira da estrada. No lugar do que foi suprimido, surge o vazio”. Em seguida concluiu: “O que dói não é o vazio. É o pedaço arrancado, pois não se trata de uma parte ruim ou enfermiça. Trata-se da parte que faria a diferença, mas foi jogada fora. O que dói é a verdade compreendida pela consciência, porém, reprimida pela mente que se nega a enfrentar o erro e corrigir a rota”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Beto sacudiu a cabeça. Alegou ter sido pressionado pelas circunstâncias históricas. Tinha acumulado muitas dívidas. Na época, muitas incertezas sobre o futuro assolavam a população. Aceitar o convite e as condições impostas pelo pai foi uma necessidade premente. Não teve escolha, afirmou. Cléo o corrigiu: “Sempre temos escolhas. Você realizou aquela que entendeu adequada ao momento. Nada há de errado nisso”. Em seguida, ponderou: “Algumas pessoas lidam bem por se deixarem conduzir pelas forças das circunstâncias, como barqueiros que se entregam à força das correntezas. Nunca sabem para onde vão. A vontade mais íntima não lhes serve de leme. Navegam ao gosto das marés. Para estes, qualquer porto vale como destino. Vivem como coadjuvantes de histórias sem enredo. Contudo, há aqueles que não admitem ser menos quando poderiam se tornar mais. Precisam ser os autores da própria história. Para estes, o sonho faz a diferença. Não falo de brilho ou fortuna, me refiro à luz que recusa a se apagar em seus corações. Ainda que ninguém perceba, aprove ou acompanhe, eles sabem a importância do caminho e do destino que querem para si”. O olhou com seriedade e indagou: “Que tipo de barqueiro você é?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O empresário comentou que, apesar de gozar de boa saúde, já havia passado dos sessenta anos de idade. Algumas semanas atrás, fora convidado para uma solenidade na Universidade em comemoração aos quarenta anos de formatura da sua turma. Havia colegas advogados, juízes, procuradores e até mesmo alguns desembargadores. Eles falavam em aposentadoria. Não fazia sentido recomeçar agora. O trem passara. Aquele percurso não existia mais. O destino estava inacessível. Perdera para si mesmo ou para as forças das circunstâncias. Não importava saber. Admitia-se resignado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cléo argumentou: “Toda comparação é insana e absurda. Ninguém é igual a ninguém. Logo, nunca haverá dois caminhos ou duas histórias iguais. De certo, não são as circunstâncias que impedem o destino. Dificuldades, problemas e obstáculos são inerentes à vida de todas as pessoas, assim como tempestades rasgam velas, rochedos obrigam a reajustes de rota e rachaduras no casco levam o barco ao estaleiro, em diferentes períodos, para os devidos reparos. Intempéries e imprevistos são ocorrências comuns às travessias. Alguns os tratam como impedimentos, outros, porém, os usam para importantes aperfeiçoamentos. Isto define como cada barqueiro singra pela vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Beto tornou a repetir, como se a bruxa não tivesse entendido ou, talvez, para ressaltar um fato que não poderia ser desconsiderado: a sua formatura acontecera há quarenta anos. Era muito tempo. Cléo sorriu, deu de ombros e o lembrou: “Moisés conduziu os hebreus por quarenta anos através do deserto. Poderia ter feito a travessia em poucos meses. Porém, entendeu que ainda não estavam prontos para iniciar um novo e valioso ciclo. Ele não desperdiçou tempo, tampouco se perdeu naquela jornada. Fez uma longa e indispensável pausa para preparar aquele povo, evitando assim que um dos capítulos mais importantes da História não restasse mal escrito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhou para o Beto com carinho e ponderou: “Você estava pronto para ser o advogado que gostaria de ter se tornado naquela época?”. Beto confessou que foi um jovem adulto bastante imaturo e inconsequente, com pouca clareza mental e nenhum equilíbrio emocional. Era imprudente, impulsivo e afoito. Embora tivesse estudado bastante e adquirido muito conhecimento, admitia que não estava pronto. Advogar na esfera penal exige uma postura ética irrepreensível para que a linha tênue que separa o criminalista do crime jamais seja ultrapassada. Isto talvez tivesse comprometido bastante a sua carreira, caso tivesse prosseguido. Contudo, agora, considerava estar próximo da maturidade existencial. Muita coisa havia mudado. As diversas experiências vividas ao longo de tantas décadas haviam contribuído em muito para essa compreensão. A bruxa arqueou os lábios em lindo sorriso e pontuou: “Bem-aventurados aqueles que entendem a razão pela qual atravessam um deserto. Não o amaldiçoe nem o lamente. Os desertos não são circunstâncias intransponíveis, tampouco roubam sonhos. Existem para forjar os mais belos destinos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O empresário admitiu estar receoso se faria sentido retomar a carreira no momento em que todos aqueles que se graduaram com ele estavam se aposentando. Parecia incongruente caminhar na contramão do <em>sentido natural da vida</em>, conforme denominou. Cléo franziu as sobrancelhas e o questionou em sequência: “Por que seria insensato? O que o proíbe de começar no momento que os outros estão parando? O seu referencial é a sua verdade ou a vida alheia? Se você não assumir a autoria da sua história, quem a escreverá para você?”. Em seguida pontuou: “O sentido natural da vida é a evolução, a qual cada um faz ao próprio tempo e maneira, pois, as necessidades são distintas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa antes do questionamento final: “Entende que não são as circunstâncias ou as dificuldades externas que o impedem de alcançar o destino planejado? Cada qual tem o próprio deserto para atravessar. Alguns são mais extensos e demorados do que outros. Nada há de errado nisto. O erro consiste em pensar que o deserto é atravessado somente mundo afora, esquecendo dos trechos que precisam caminhar universo adentro”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que Beto pudesse dizer palavra, as gaivotas se aproximaram. Ladeada pelos pássaros, como em um majestoso e orquestrado balé, a bruxa rodopiou à beira do penhasco até desaparecer ao longe. Ficamos sentados em silêncio por um bom tempo. Não havia pressa. Cada um tinha uma casa para arrumar. Por vezes, abria os olhos e percebia o Beto observando o voo dos homens-pássaro. Pensei, sem nada dizer, que quem tem coragem de se lançar no abismo, tendo apenas as próprias asas para se manter no ar, nada mais deveria temer. Era uma imagem portadora de um poderoso simbolismo. Quem teve a coragem de deixar para trás algo tão valioso, há de ter a ousadia de buscar o que sempre lhe pertenceu. Nada é mais importante do que zelar pelo próprio destino. Era fim de tarde quando descemos a montanha. Sem nada revelar, Beto me deu um forte abraço e agradeceu por aquele dia. Disse ter sido angular. Assim nos despedimos e não mais nos vimos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passados quase três anos, liguei para o contador que prestava serviço à editora. Um colega, também empresário, havia sido denunciado por suposto crime fiscal. Perguntei se ele conhecia um bom advogado para indicar. O contador me falou sobre um profissional que, embora tivesse reingressado na carreira recentemente, realizava um excelente trabalho nessa especialidade do Direito. Deu-me o nome e o telefone do Beto. Foi quando soube que ele passara a direção da empresa para um dos filhos, se dedicara ao estudo das novas legislações para, somente então, voltar à atividade. Contudo, não era um retorno qualquer. Para se movimentar com ética, clareza e equilíbrio através das leis e dos tribunais, o advogado teve de aguardar pela maturidade do homem que o imbuía. Alguns desertos são mais extensos, as travessias necessitam de mais tempo. Sem dúvida, a vida é pedagógica: circunstâncias aprimoram viajantes, jamais impedem destinos.</p>
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		<title>O resgate</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 13:09:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Como de costume, era madrugada quando entrei na pequena oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, na pequena cidade de ruas estreitas e sinuosas localizada no sopé da montanha. Os inusitados horários de funcionamento faziam do ateliê não apenas um porto seguro até que houvesse condução, no início da manhã, para eu seguir rumo ao mosteiro, mas serviam de plataforma de embarque para uma viagem a lugares até então desconhecidos dentro de mim. Fui recebido com um caloroso abraço. Estava frio e garoava lá fora. Sem demora, o sapateiro coou um bule de café e o colocou junto a duas canecas sobre o pesado balcão de madeira. Estávamos prontos para prosseguir com a nossa conversa sem fim. Sim, essa era uma sensação real. Embora os encontros tivessem sido muitos e os assuntos variados, as conversas se entrelaçavam como a trama de um mesmo tecido. O tecido da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse exato momento, fomos surpreendidos com a chegada de Betina. A fisionomia evidenciava o transtorno da sua alma. A jovem, com cerca de trinta anos de idade, era filha de Renê, o livreiro da cidade, amigo desde sempre de Loureiro. Ela tinha tido mais um desentendimento com Carlo, seu marido. As brigas eram a tônica e uma constante naquele casamento conturbado. Apesar de nunca ter ocorrido qualquer agressão física, o tom áspero e alto da voz, assim como a indelicadeza das palavras proferidas, revelavam um evidente desrespeito moral. Ocasiões em que Carlo passava alguns dias na casa da mãe, em uma cidade próxima, para retornar aos braços da <em>mulher da sua vida</em> sob juras de amor eterno. A jovem acreditou que o matrimônio mudaria o temperamento irascível e impulsivo do marido. Um engano comum e vulgar. A intimidade tem o poder de revelar fantasmas e monstros guardados nas gavetas ocultas da consciência, quase nunca de os educar. Ela se confessou esgotada com aquela relação. Contudo, amava Carlo e sabia que ele também a amava. As suas promessas de amor, garantindo que aquele destempero não mais aconteceria, a impedia de o recusar de volta. De novo e quantas outras vezes fosse preciso. Eles não desistiam um do outro. Isso era a prova do inegável amor que unia o casal, segundo a jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elegante, como de hábito, Loureiro a acolheu com carinho. Depois de um abraço demorado, a acomodou sentada ao meu lado e lhe serviu uma caneca com café. Após narrar o ocorrido, Betina questionou a razão de o amor, um sentimento tão bom e nobre, ser causa de tanto sofrimento. De modo sereno, com a sua voz doce e rouca, o sapateiro a corrigiu: “Ao contrário das crenças populares e do que cantam os poetas, o amor nunca foi causa de nenhum sofrimento. A falta de compreensão sobre os significados do amor, assim como do seu alcance, isso sim, provoca muitas dores. O desconhecimento sobre o amor faz com que o confundamos com outros sentimentos de matizes mais pobres e rasas”. Bebeu um gole de café e pontuou: “Como ensinou um antigo alquimista, para viver o amor não basta amar. O amor exige aprendizado, como tudo mais na vida. O fato de amar e de se sentir amado, por si só, não livra ninguém das armadilhas de sentimentos com pouca ou nenhuma nobreza que nos fazem acreditar se tratar do amor, mas representam o avesso do amor. Há de se compreender as nuances, camadas, amplitudes e profundidades do amor, pois, do contrário, jamais conhecerá o poder libertador e pacificador oferecido por este maravilhoso sentimento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A jovem indagou se Loureiro insinuava não haver amor entre ela e o marido. O sapateiro meneou a cabeça e argumentou: “Eu não falei isso”, e fez uma pausa antes de concluir a frase: “Mas também não afirmei diferente disso. Cabe a cada um identificar o sentimento que expande ou estreita a sua capacidade de pensar, ser e viver. Sentimentos influenciam raciocínios, comportamentos e escolhas. Isso nos conduz por estradas ou faz despencar em abismos”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “Quando falo sobre a importância de compreender o sentimento, me refiro à necessidade de o nomear sem enganos ou preconceitos. Todo sentimento tem um nome. O tratar pelo nome correto é imprescindível para entender a melhor maneira de o usar em favor do próprio aprimoramento. Há sentimentos que, por serem bons e sutis, clamam por estímulos contínuos de florescimento, enquanto outros, por serem densos e deletérios, carecem de metamorfose. Em ambos, existem importantes aspectos evolutivos. Contudo, se não os reconhecer pelo nome correto, continuará a confundir um pelo outro. O mau uso do elixir faz surgir o veneno. Eis a origem das dores que atribuem, por mero erro de identificação, a hipotéticos amores”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu mais um gole de café e concluiu: “Quaisquer sentimentos, por mais indesejáveis que sejam, jamais devem ser tratados como inimigos. Em verdade, são valiosos mensageiros, pois mostram um coração mal compreendido, carente de transformação. Um coração mal compreendido por si mesmo, pois cada um é responsável pelos próprios sentimentos. Atribuir ao mundo o desconforto pelo que sentimos demonstra imaturidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A jovem perguntou como deveria lidar com os sentimentos amargos. Loureiro explicou: “Não os expulse, até porque ninguém tem este poder. Os sentimentos ecoam a essência de quem somos. Esse eco evidencia a existência de uma voz íntima e verdadeira, oriunda das entranhas do coração. Pode-se até esconder ou disfarçar os sentimentos por algum tempo, mas não há como retirar <em>o eu de si mesmo</em>”. Pousou a caneca sobre o balcão e prosseguiu: “Negar os sentimentos ácidos é ainda pior. Equivale autorizar um agente caótico a agir sem qualquer vigilância. Escolhas e comportamentos serão constrangidos e manipulados. Ninguém consegue se proteger daquilo que acredita não existir. Nada prejudica mais do que insistir nessa prática corrosiva. A tarefa consiste em aceitar e identificar o sentimento amargo como caminho sincero e seguro de autodescobrimento. Depois, acolher e o educar, como um bom pai faria com o filho imaturo e rebelde, no intuito de realizar uma transição eficaz e saudável da infância da alma à maturidade da vida. Todas as sombras trazem em si inequívocas sementes de luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Betina pediu para o sapateiro explicar melhor. Loureiro sintetizou: “Se há dor não é amor”. A jovem alegou que, por conclusão óbvia, segundo essa teoria, ela não amava o marido. O sapateiro tornou a corrigi-la: “Eu não disse isso. Afirmo que o amor não está na raiz de nenhum sofrimento. Talvez haja amor entre vocês, talvez não. Porém, entenda qual o sentimento a faz sofrer e, ainda mais importante, se esse sentimento desconhecido é o motivo que os mantém juntos ou não”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Betina se mostrou atônita. Nunca havia cogitado essa hipótese, ao menos, de maneira séria. Quis saber quais seriam as possibilidades. O sapateiro elencou as principais: “Dependências emocionais sinalizam a crença quanto à própria incapacidade de gerir a vida, de ser feliz e aceitar a plena responsabilidade por si mesmo. Acreditam que o outro tem o poder de impedir que se reparta em mil cacos um coração que, em verdade, sempre esteve despedaçado. Como não se considera capaz, ou não assume a responsabilidade nem está disposto ao esforço da própria reconstrução, desiste de administrar a si mesmo para viver à beira do guarda-chuva emocional de alguém. Trata-se de uma triste espécie de autoabandono. Para não admitir o pavor de lidar com as próprias fragilidades, diz que não se separa por amar demais o marido ou a esposa. Uma vã tentativa de enganar o espelho da verdade”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Franziu as sobrancelhas e escalou o tom de seriedade na voz: “Dependências financeiras falam do medo de enfrentar as adversidades da vida, da recusa em ir além de quem é e de onde está em si mesmo, de se tornar responsável pela própria sobrevivência ou, ainda mais grave, da negativa em abdicar de luxos e prazeres materiais proporcionados por outra pessoa. Sinalizam a afeição por ideias incapacitantes e gosto pelo comodismo, uma escolha absurda pela estagnação ao invés do movimento. Recusar a aventura da vida, com todos os seus inerentes desafios evolutivos, demonstra um olhar de curto alcance em uma visão vazia de virtudes. Sem importar o tipo nem o nível de dependência, qualquer uma delas revela a aceitação do medo como carcereiro. Mostra a decisão consciente pelo cativeiro dourado em detrimento da liberdade de todas as cores. Cada um vive onde decide ficar ou ir em si mesmo. Não cabe reclamação”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bateu com o dedo indicador no balcão de madeira, como maneira de ressaltar as próximas palavras, e ponderou: “Embora haja várias possibilidades de sentimentos enganadores que se fazem passar pelo amor, alguns dos mais comuns são o orgulho e a vaidade. Não raro, queremos insanamente ficar ao lado de pessoas que não conseguimos dominar ou que não nos desejam. Na primeira hipótese, existe um desvio de finalidade. Ao invés de admirar quem possui autenticidade e vontade própria, há quem inicie uma delirante batalha para subjugar essa pessoa aos seus caprichos, no inconsciente e selvagem desejo de controlar o desejo alheio e, assim, lhe demolir a autonomia. Querem que o outro se molde ao seu gosto e capricho. Comportam-se como se estivessem em uma arena. Sentem-se vitoriosos ao destruir as resistências de independência, autenticidade e identidade do suposto inimigo, como se o relacionamento afetivo não fosse um agradável encontro de aprendizados mútuos, mas uma guerra na qual haverá vencedor e vencido. O orgulho os faz ignorar que a única conquista de valor consiste em derrotar as más inclinações e iluminar as próprias sombras. Encantar-se por ser senhor de si sem desejar ser dono de mais ninguém são fundamentos essenciais ao amor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez um gesto com a mão, como se fosse falar o óbvio, e observou: “Daí, não é difícil concluir que o ciúme é o filho dileto do orgulho. O ciúme nasce do medo de ser substituído por outro alguém no coração de quem se quer ao lado. Um sentimento de posse e domínio, contrário à liberdade. Esse sentimento faz nascer o comportamento controlador sob os falsos argumentos pedagógicos. Ninguém muda para se moldar ao gosto de ninguém. Nem deve cometer tamanho desatino. Mudamos quando entendemos que algo em nós é danoso e, por isto, necessita de transformação. Nunca fará diferente disto. O sofrimento surge na teimosia de viver ao lado de quem não nos tem afeto de qualidade ou não se alinha ao nosso jeito de olhar o mundo e viver os dias. No cais da vida sempre há um saveiro disponível para quem está disposto a navegar. Quando for o caso, basta partir sem levar nenhum rancor a bordo. Um gesto nobre de respeito e autoestima”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu mais um gole de café antes de comentar outro engano corriqueiro: “No mesmo diapasão, deixando o amor em plano secundário, há quem se dedique à luta insensata de viver ao lado de alguém muito admirado, seja pela beleza física, seja em razão de algum destaque social. Assim, se acreditam maiores do que são, na ilusão de que conviver ao lado de uma pessoa desejada por muitos os faz especiais. Sentem-se os escolhidos. Quem lhe sopra essa insanidade ao ouvido é a própria vaidade. O sofrimento será inevitável e o amor nada tem a ver com isso”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Betina segurou a caneca com as duas mãos. Com os olhos cerrados, bebeu o café absorta em reflexões. Para a deixar à vontade com os próprios pensamentos, Loureiro me levou para a frente da oficina sob o pretexto de mostrar um novo modelo de mochila que havia confeccionado. Feita em couro macio, com os mais diversos compartimentos para guardar todas as coisas necessárias ao dia a dia, se assemelhava a uma obra de arte adaptada ao uso e à utilidade. Com um designer inovador, possuía extrema beleza e funcionalidade. Comentei que havia uma seção para esse tipo de objeto no Museu de Arte Moderna, o MoMa, em Nova Iorque. Como uso mochila para trabalhar, eu a quis para mim. Fizemos um bom negócio. Foi quando a jovem nos chamou de volta. Ela queria conversar um pouco mais com Loureiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Betina confessou que a sua casa se assemelhava a um campo de batalha. As reclamações ocuparam o lugar dos diálogos. Um lugar de desencontros crescentes e de encontros cada vez mais raros. Só agora se dava conta disto. Havia uma preocupação maior em apontar defeitos do que em sugerir soluções. Carlo não era do jeito que ela queria, tampouco a jovem se comportava como o marido desejava. No entanto, ninguém desistia de moldar o outro ao seu desejo. Não se importavam com a singularidade e a autenticidade de quem caminhava ao lado. Pensavam apenas em seus interesses e gostos imediatos. Não havia uma construção compartilhada, comportamento comum às relações saudáveis, porém, um interrupto processo de destruição mútua. Uma guerra sem fim, admitiu a jovem. “E sem vencedores”, pontuou o sapateiro. Por isso brigamos, separamos e reatamos, como hospedeiros nocivos e simbióticos, um do outro, aprisionados a um círculo vicioso do qual não conseguimos nos libertar, concluiu Betina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A jovem indagou a Loureiro se, diante desse cenário, era possível existir amor no seu casamento. O sapateiro deu de ombros e foi sincero: “Não sei. De certo, no momento, o orgulho se mostra como o amálgama da relação. Se existe amor, está soterrado debaixo dos escombros do tempo e da insensatez. Será preciso o resgatar o quanto antes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela quis saber de que maneira reconheceria a presença do amor. Loureiro se silenciou por alguns instantes, como se fosse retirar dos seus registros mais íntimos algo valioso e delicado. Quando falou, o fez com os olhos fechados, como se precisasse estar diante do próprio coração: “O amor quer o melhor da outra pessoa, mas se recusa a decidir por ela; é gentil e firme a um só tempo; não se cansa de ajudar, mas jamais acoberta erros e teimosias. Tem paciência, perdoa e compartilha; possui um estoque infinito de abraços, sorrisos e carinhos. Conversa sem discutir, orienta sem impor; ajuda sem aprisionar. Fica feliz por sentir saudade. Sabe que para estar junto, ninguém precisa ser igual a ninguém, contudo, se faz indispensável alegrar-se com as singularidades e aprender com as diferenças. Colabora na construção do outro enquanto ergue a si mesmo. Contenta-se com o muito que existe no pouco; entende o que não foi dito, sabe ouvir o não ou o sim contidos no sim e no não; compreende o que as palavras calam, mas as atitudes mostram. Encontra-se na luz dos olhos de quem ama. Caminha lado a lado no perigo das noites escuras e convida para dançar na alegria de cada manhã”. Com os olhos marejados, finalizou: “O amor é isso e muito mais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Betina esvaziou a caneca e a colocou sobre o balcão. Em seguida, comentou que chamaria Carlo para uma conversa honesta. Entendia o sentimento que mantinha o casamento. Não era amor. Por isto ambos estavam infelizes. Restava saber se havia amor. Nem toda relação se inicia amalgamada pelo amor. No entanto, algumas, pelo comportamento e compreensão dos envolvidos, faz com que o amor germine. Boas e sinceras atitudes criam o terreno adequado para que esse maravilhoso sentimento floresça. Muitos relacionamentos insistem em se manter através de vínculos pesados, razão de se mostrarem insustentáveis sob o prisma da virtude e da verdade. Ela precisava compreender onde estava em si mesma. Havia a possibilidade de resgatar o amor soterrado, caso este sentimento existisse, ou partir em busca do amor-próprio esquecido e, por consequência, do amor desconhecido. Em qualquer das situações, seria ato de resgate por si mesma. Todo o processo de cura da alma, não apenas encerra com a dor, mas concede ingresso no trem da liberdade rumo à cidade da paz. Doce ou amargo, todo sentimento é um lugar que existe dentro da gente. Cabe a cada um escolher onde vai morar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A claridade da manhã já se evidenciava. A jovem agradeceu a conversa, deu um beijo na bochecha de Loureiro e foi embora. A mulher que saiu era bem diferente daquela que entrara na oficina naquela madrugada. A fisionomia havia mudado, existia um brilho de esperança nos olhos; seus pés não se arrastavam, mas tocavam o chão com leveza. Comentei isso com Loureiro. O sapateiro explicou: “A eficácia das soluções passa pela compreensão universo adentro para reverberar mundo afora. O fim do sofrimento exige esta viagem de descobertas e conquistas intrínsecas. Tudo mais é maquiagem, engano ou adiamento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei sobre o que aconteceria no casamento de Betina. Loureiro tornou a dar de ombros e comentou: “Não faço a menor ideia”. Em seguida, acrescentou: “Seja partir ou ficar, desde que ela faça as pazes com os próprios sentimentos, iniciará um sério romance com a felicidade”. Eu precisava ir, do contrário, perderia a carona até o mosteiro. Prometi voltar. O sapateiro sorriu como para dizer que me aguardaria. Ainda havia muito tecido à espera da trama.</p>
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		<title>Inusitadas sementes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Jun 2026 14:08:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Cheguei em Sedona na manhã de um sábado. Como de costume neste dia da semana, Canção Estrelada estava sentado debaixo de um frondoso carvalho que havia no quintal da sua casa. Na grama ao redor, várias pessoas se acomodavam sobre mantas coloridas. Tinham vindo de todos os cantos para ouvir...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Cheguei em Sedona na manhã de um sábado. Como de costume neste dia da semana, Canção Estrelada estava sentado debaixo de um frondoso carvalho que havia no quintal da sua casa. Na grama ao redor, várias pessoas se acomodavam sobre mantas coloridas. Tinham vindo de todos os cantos para ouvir as histórias e as músicas que falavam sobre a sabedoria ancestral dos povos originais do Arizona. Era um cerimonial sagrado propício ao autodescobrimento, degrau fundamental ao movimento seguinte, capaz de transformar a realidade através do refinamento da percepção e da sensibilidade, atributos da consciência, quando aliados a uma ação coerente e eficaz. Para mudar a vida não se deve esperar pelas mudanças do mundo. A realidade se expande ou se contrai no limite extremo da verdade alcançada. <a>Para alguns, a realidade se assemelha a uma muralha intransponível; todavia, quem a observa por insólitos vieses, encontrará estradas inimagináveis. Transpomos a realidade ou nela ficamos retidos na exata medida das virtudes agregadas e aplicadas ao estilo de vida. Ninguém consegue se deslocar por caminhos que não enxerga, não sabe como atravessar ou acredita não existir.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu havia passado por algumas situações complicadas, sofrido alguns reveses. Aos poucos, tudo voltara ao normal. Salvo uma inexplicável sensação de vazio interior. Não fazia ideia de como tinha se instalado, nem o que fazer para o preencher ou o desmanchar. De pé, próximo ao portão, pude ouvir as palavras de encerramento proferidas pelo xamã: “Nunca seremos autênticos enquanto distantes da coragem”. Como uma daquelas verdades que seduz ou toma de assalto sem que consigamos oferecer resistência, a frase me impactou sobremaneira. Havia nela algo que indicava uma lição disponível à espera de aprendizado, sem que, naquele momento, eu a conseguisse decodificar para extrair o conteúdo instrumental e transformador. Restou a sensação agradável de uma janela que se abre por um átimo de segundo, mostrando algo até então nunca visto, para em seguida se fechar. Havia um universo de possibilidades desconhecidas do outro lado da janela que se abria para dentro, não para fora de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim se iniciam algumas das mudanças genuinamente radicais em nossas vidas. Etimologicamente, o termo radical tem origem na palavra raiz. Mudanças que não se estruturam na essência do indivíduo, ainda que pesem as boas e sinceras intenções, são incapazes de se sustentar diante de provas existenciais mais rigorosas, terminando por desabar na tempestade de um dia qualquer. Compreender as intempéries emocionais, assim como aprender a lidar com as dificuldades inerentes à vida, sempre foi fundamental àqueles que buscam a genuína paz. Eu me recordava de uma lição oferecida por Canção Estrelada tempos atrás: “A paz não é a ausência do caos. Ela se caracteriza pela calma e pelo pleno controle sobre si mesmo durante o caos. Nem a imensidão nem a fúria do oceano são capazes de levar a pique um pequeno barco, desde que bem construído e conduzido com mestria”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esperei na varanda até que todos fossem embora. No portão, o xamã se despedia das pessoas, agradecendo por participarem com o coração repleto de bons sentimentos. A emanação das vibrações sutis era encantadora. Os lindos sorrisos espelhavam essa realidade. Ao terminar, ele veio ao meu encontro. Comentei que aquelas pessoas pareciam felizes e em paz. Canção Estrelada ponderou: “Alguns lugares possuem uma ambiência natural de paz. Alguns indivíduos conseguem transmitir esse sentimento por já o terem conquistado em seu âmago. Conviver em lugares ou com pessoas que refletem tal plenitude, permite essa maravilhosa sensação de poder, como um pássaro que aprendeu a voar para além do alcance dos estilingues. No entanto, cada um tem a sua história, dons e caminho. Relações de dependência são insalubres. Em algum momento teremos ou seremos obrigados a nos afastar dessas pessoas. Então, a paz desaparecerá como água que se tenta reter na peneira. A vida exige independência e autonomia no concernente à esfera íntima, para que as escolhas sejam livres e sirvam ao desenvolvimento pessoal. Não há como viver eternamente em uma paz emprestada ou de aluguel. Para viver a paz, independentemente do que aconteça, de onde ou ao lado de quem estiver, se faz indispensável a conquistar dentro do próprio coração. De nada adianta apenas mudar as relações ou de cidade. Cada um carrega a si mesmo por onde anda”. Perguntei como fazer isso. O xamã me olhou como se estivesse diante de uma criança e explicou: “A paz está em semente no coração de todos. Fazer com que germine exige coragem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrei da frase de encerramento do ritual daquela manhã no quintal da casa: <em>nunca seremos autênticos enquanto distantes da coragem</em>. Mais uma vez ele ressaltava a coragem. Comentei isso. Canção Estrelada sorriu e esclareceu: “A autenticidade é o arcabouço oculto da paz. A coragem é o guindaste dessa construção. Sustentada por uma vontade firme e sincera, a coragem moverá todas as demais virtudes necessárias à estruturação da paz, uma conquista indelével e imaterial, como são as verdadeiras riquezas”. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele estava disposto a me explicar, eu queria aprender. O xamã se sentou na cadeira de balanço enquanto eu me acomodava no sofá à sua frente. Ele prosseguiu: “Ninguém é igual a ninguém; o caminho de uma pessoa não serve à outra. Toda cópia é vulgar, toda imitação se destina ao fracasso. Somos originais e singulares. Na autenticidade reside o genuíno poder de um indivíduo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ocorre que tememos as peculiaridades e as diferenças que trazemos na essência, como se fôssemos crianças pequenas assustadas com histórias de assombração. O medo nos convence de que não somos capazes, que as dificuldades irão no devorar. Optamos por adotar modelos e padrões pré-estabelecidos como maneira de evitar riscos. Como um barco que nega o mar por temer o desconhecido, esquecemos que sem riscos não há conquistas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando autênticos, somos mais criativos. A criatividade é um instrumento poderoso para encontrar soluções fora do lugar-comum e, por isto, valiosa para desmontar problemas. As dificuldades se agigantam ou se amiúdam na medida de cada olhar. A criatividade tem o poder de expandir a realidade ao buscar vieses, nuances e estratos até então impensados. Nesse exercício inusitado, nos tornamos maior do que o maior dos nossos medos, então, dos problemas brotam as oportunidades. Essas características únicas nos movem de modo insólito por traduzir e identificar quem verdadeiramente somos. Do contrário, seremos uma massa insossa, inerte, apagada e homogênea incapaz de gerar luz e modificar a própria realidade. Faltará lucidez, equilíbrio e força de movimento. Viveremos como vagões atrelados a locomotivas desconhecidas que trilham por trilhos difusos, iludidos de que escolhemos onde queríamos chegar. Ao abandonar a autenticidade, anulamos a identidade. Sem entender quem somos, perdemos a condição de decidir quem seremos. Permitimos que o mundo nos molde ao seu gosto, sabor e interesse. Daí o vazio existencial que muitos sentem sem compreender a origem nem a razão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que os problemas já tinham sido resolvidos, no entanto, o vazio persistia. Canção Estrelada pontuou: “Resolver um problema é diferente de superar uma dificuldade. Não raro, a resolução surge de situações ocasionais, de contornos externos, sem gerar nenhuma transformação. Na superação existe uma conquista interna, derivada de um olhar que adquiriu clareza e destreza. Na resolução, o indivíduo continua inerte. Na superação, ele avança”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez um gesto com a mão, como se falasse o óbvio, e acrescentou: “As tempestades chegam para varrer tudo aquilo que atrapalha a evolução. Quando moramos na vida de alguém por conveniência, em algum momento, ficaremos desabrigados. Inexoravelmente. A vida exige movimentos, transformações e avanços constantes. Cada um mora em si mesmo. Para viver bem, se faz necessário construir esse lugar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois prosseguiu: “Sem defesa e desestruturados, nos sentimos vítimas de uma catástrofe sem explicação aparente. Um sentimento enganador e, pior, estagnante. O caos se anuncia ao longe todas as vezes que nos recusamos a sair do lugar. Por condicionamento ou comodismo, negamos a realidade que se move e se modifica para impulsionar os avanços necessários. Preferimos repetir obsoletos padrões de comportamento e de escolhas na vã tentativa de alcançar resultados diferentes. Jamais acontecerá. A vida exige que cada viajante perfaça uma viagem inusitada para germinar a essência indispensável à transposição da realidade. Por medo ou incredulidade, fingimos não ver. Então, sucumbimos como presas frágeis e fáceis engolidas pelo contrafluxo natural da vida. Não cabe reclamação”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto falava, retirou da gaveta de uma mesinha, ao lado da cadeira de balanço, o indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, a caixa com tabaco e esclareceu: “Nascemos para viver em grupos. Famílias, tribos, cidades e sociedades. A convivência é sagrada e pedagógica. Salvo para momentos de meditação e reflexão, o isolamento como estilo de vida é fuga, desequilíbrio e estagnação. A convivência é caminho, escola de harmonia e oficina de evolução. A vida em grupo, seja em círculos mais estreitos, seja de alcances mais amplos, ainda apresenta distopias, conflitos e comparações que, embora insensatas, servem de espelho ao aperfeiçoamento pessoal. Todas essas dificuldades existem para forçar o rompimento da casca da semente da autenticidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O problema surge quando decidimos viajar sobre trilhos alheios, anulando escolhas e possibilidades, apagando a originalidade que nos traduz e identifica. Dependentes por validação, pertencimento e aplausos, relegamos dons e talentos inatos, esquecendo que são atributos primordiais à transcendência, servindo também como ferramentas profissionais com inestimável valor na luta legítima pela sobrevivência. Atravessamos a existência como rascunhos abandonados no fundo de uma das muitas gavetas da consciência, fingindo que a história que nos espera, e pertence por direito natural, é impossível ou não a merecemos. Amiudamos por crença, escolha e medo. Romper a casca da semente da originalidade exige coragem para recusar modelos e moldes, e, assim, trazer à tona a verdadeira identidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preencheu o fornilho com tabaco e, antes que eu perguntasse, ele respondeu: “Não faltarão dificuldades. E serão muitas. Contudo, não há outro jeito de conhecer a beleza que o aguarda e que guarda em si a vida, a verdade e as virtudes que modificarão as fronteiras da realidade. Aprenderá um jeito peculiar de se mover através dos dias, com maior eficiência, leveza e suavidade. Mudam o olhar e os sentimentos, o ritmo e a intensidade, o sentido e a direção. Apura-se o sabor por si mesmo. O gosto pela vida somente resta refinado quando a jornada existencial se torna insólita e autoral”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esperei que acendesse o cachimbo e baforasse algumas vezes. Depois, perguntei se a coragem seria o bastante. O xamã negou com a cabeça e acrescentou: “Como falei, a coragem é o guindaste da construção. <a>O caos jamais conseguirá derrubar quem somos. O caos destrói somente aquele que não somos</a>. Para tanto, é preciso substituir o personagem pela verdadeira identidade, sem desculpas, encenações nem interesses escusos. Assim nascem as genuínas fundações que sustentam a obra de si mesmo. Quanto mais profundo e robusto forem os alicerces, mais firme e segura será a construção”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Divertiu-se por instantes com a fumaça que bailava diante dos olhos antes de prosseguir com a explicação: “Um triângulo de pilares, cada qual com uma tríade de virtudes, compõem os fundamentos de uma construção inabalável à impermanência dos dias. As tempestades existenciais chegam para arrancar tudo que é desnecessário, excede e está mal construído. Contudo, são incapazes de carregar o que está firme, equilibrado e bem construído dentro do indivíduo. Refiro-me às verdades compreendidas em conjunto com as virtudes já agregadas e aplicadas ao cotidiano. Eis os alicerces que o manterão de pé durante e após a passagem do caos, apesar da devastação ao redor. Essa é a maior das riquezas e o verdadeiro poder”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei sobre as virtudes formadoras de tais fundações. Ele as elencou e explicou: “O primeiro triângulo de pilares é formado pela humildade, pela simplicidade e pela compaixão. A humildade, ao contrário do que muitos acreditam, não se assemelha à humilhação, ignorância, pobreza de qualquer espécie ou sentimento de inferioridade. A humildade tem o poder de afastar a absurda sensação de orgulho e de falsa superioridade, que tanto fragilizam, desequilibram e impedem os movimentos essenciais. A humildade é o húmus da consciência, indispensável à fertilização do solo para a germinação da semente latente da evolução. Essa virtude proporciona o perfeito estado de transcendência, necessário para azeitar os mecanismos do aprendizado e da transformação”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa antes de continuar: “A simplicidade é a virtude do despojamento, da retirada do desnecessário, daquilo que sobra e sobrecarrega, tanto na mente como no coração. De tudo que pesa e atrapalha a caminhada. Imprescindível para desfazer a vaidade, evidenciar as prioridades e conduzir ao essencial”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Por sua vez, a compaixão é o atributo que nos faz capazes de compreender a fragilidade humana, numa percepção isenta de julgamento e movida pela mais fina sensibilidade. Compaixão sem humildade é orgulho. Sem simplicidade é vaidade disfarçada em virtude. É demonstração rasa de etiqueta, mera aplicação de verniz sobre madeira podre. Sem conhecer as próprias fragilidades, ninguém está apto a lidar de modo amoroso e sincero com as fraquezas de ninguém. O perdão exige como pressuposto a compaixão. Não existe paz sem perdão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Baforou algumas vezes e continuou: “A segunda tríade é formada pelo respeito, pela disciplina e pela coerência. O respeito é a virtude da dignidade. Consiste em não fazer aos outros o que não queremos que nos façam e, no mesmo diapasão, jamais autorizar atos aviltados ou comportamentos abusivos em nossa direção. O respeito que possuo nada tem a ver com o que os outros pensam, falam ou fazem. Tem uma relação direta com a dignidade com que caminho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esperou alguns instantes para prosseguir: “Por sua vez, a disciplina é o atributo conectado ao propósito e à fé. Reside em saber qual o movimento correto a realizar, o repetir apesar do cansaço ou da demora dos resultados, sem nunca desistir nem desanimar. Cada plantio tem um tempo próprio de semeadura e de amadurecimento. Todas as comparações são insensatas. Não há dois jardineiros nem dois campos iguais. Ainda que o estio seja longo, no tempo certo a colheita não falhará”. Arqueou as sobrancelhas e lembrou: “Muitos gênios já se perderam por falta de disciplina”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois, acrescentou: “A coerência é uma virtude menosprezada. Isto faz com que muitos desabem durante as tempestades. Quando o caos nos alcança fora do lugar, ficamos destroçados. Deslocamentos externos precisam estar alicerçados em movimentos internos. Essa é a base da coerência”. Olhou-me com seriedade, como quem manda um recado, e disse com a sua voz serena e rouca: “Saber não significa ser. A coerência exige que todo o conhecimento apreendido seja aplicado à prática, pois, do contrário, será mera erudição apavonada em discursos eloquentes carentes de sabedoria. Isto faz com que o caos surpreenda ao chegar. Acontece quando estamos fora de quem somos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa antes de prosseguir: “A coerência é isso e muito mais. Por mais poderoso que seja um trem, não conseguirá se mover no ar, no asfalto ou na água. Trens precisam de trilhos. A coerência é o trilho que conduz as prioridades e oferece o discernimento para a manutenção da rota correta diante das incontáveis bifurcações do caminho. Muitos conhecem as suas prioridades, mas as deixam de lado movidos por interesses menores e, algumas vezes, obscuros. Os convites dourados e cintilantes de muito brilho e pouca luz, do sucesso sem esforço e da fortuna inconsequente apagam os faróis do discernimento, desviando o trem da rota das prioridades. A coerência é um maquinista por excelência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esperou que eu concatenasse aquelas ideias e citou a tríade de virtudes formadoras do terceiro vértice do triângulo de pilares: “A mansidão, a sensatez e a pureza. Ao contrário do que muitos acreditam, mansidão não significa fraqueza. Mansidão é conhecimento e respeito pelas forças da luz e pelo caminho da paz. A autêntica coragem é, acima de tudo, mansa. Combater o mal com as armas do bem não é para fracos; abdicar da agressividade na resolução de conflitos não é para covardes. Há de haver muita coragem. O manso é forte, equilibrado e firme. Não cede à maldade nem negocia com a escuridão. O monge é o exponencial mais elevado do guerreiro”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A sensatez tem relações ancestrais e simbióticas com a paciência e a justiça. Trata da capacidade de avaliar as diferenças, encontrar a justa medida, separar o bem do mal, o certo do errado, encontrar atributos e valor nas pessoas, coisas e situações. Decidir sem pressa nem medo. Fazer a coisa certa sem esperar pela permissão ou validação de ninguém. Não fazer ilações nem elucubrações sobre o comportamento dos outros. A sensatez ensina que cada um é responsável por si mesmo, como consequência das escolhas realizadas. A melhor decisão pode demandar amadurecimento. Isto requer paciência. A sensatez sabe que esperar não é ficar parado. Falo do tempo dedicado aos processos mentais e emocionais que, apesar de invisíveis aos olhares afoitos, impulsionam incessantes movimentos internos. Refiro-me ao período de casulo, sem o qual a lagarta jamais conhecerá a borboleta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Por fim, a pureza, a mais simples de explicar, mas nem por isto a mais fácil de praticar. A pureza não fala de ingenuidade, porém, dialoga com o amor e a sabedoria. É preciso conhecer o mal para não se deixar envolver nem enganar pelo mal. Faz-se indispensável ser puro para, mesmo tendo o mal à disposição como instrumento de conquistas, satisfação de interesses ou desejos, abdicar por absoluto dessa possibilidade. É recusar o poder de dominar e subjugar os outros, de impor a própria vontade ao preço de calar a escolha alheia, não colocar o cargo ou a posição acima da ética nem do amor. É se negar a fazer escolhas quando envolvido por sentimentos densos. Há de existir coragem para vencer as más inclinações e as funestas influências que sempre o arrancaram de si mesmo. A pureza tem como pressuposto a abnegação, a virtude que prioriza as riquezas espirituais em detrimento dos interesses materiais. A pureza faz eclodir a semente da liberdade. Não é para qualquer um”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deu de ombros, como quem fala o óbvio, e comentou: “A jornada de agregar virtudes à medida que a verdade se expande e refina a consciência, faz surgir a necessidade de deixar para trás obsoletos critérios e ultrapassados formatos de se deslocar pela vida. Ao se deparar com toda a beleza que há em si, encontrará um universo desconhecido de oportunidades. Não haverá mais como recuar. A genuína identidade emerge das profundezas do âmago para forjar a autêntica personalidade, até então sufocada e suprimida. Assim nos tornamos quem verdadeiramente somos. Tudo mais é encenação ou modelação, agonia e distopia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavra. Canção Estrelada queria que eu alocasse aquelas ideias nas prateleiras da mente e do coração para que se tornassem de uso diário. Esforcei-me para metabolizar o aprendizado. Isso poderia levar alguns dias. Talvez semanas. Rompi o silêncio para perguntar pelo vazio que ainda insistia em mim. Uma mistura de ansiedade e tristeza, que eu não sabia como preencher ou desmanchar. O xamã apagou o cachimbo, como sinal de que a conversa estava encerrada. Ele havia dito tudo o que eu precisava entender. Em seguida, concluiu: “O caos varreu as incompletudes e inconsistências nas quais você se sustentava. Levou o que não mais servia. O caos nunca chega para prejudicar, mas para regenerar. Restou o vazio, um espaço disponível a uma nova construção a ser erguida com os fundamentos que conversamos. Quem os firma em si, nada tem a temer”. Arqueou os lábios em lindo sorriso e finalizou: “O vazio ressalta a presença de uma inusitada semente. Agradeça e a faça florescer. É a paz pedindo para nascer”.</p>
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		<title>Rupturas e destruições</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 15:23:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Em uma rua arborizada e tranquila da Gávea, sem qualquer placa ou letreiro na fachada, funciona a cafeteria da Bárbara. Não é um lugar de encontros, porém, de descobertas. Em uma casa antiga, com as paredes repletas de livros, embalada ao som suave de um blues, jazz ou bossa-nova, é possível experimentar os melhores frapês, capuccinos e espressos da cidade. A barista é uma mulher de personalidade encantadora e singular. Há alguns anos decidiu moldar um caminho original: fechou a clínica de psicanálise para montar a cafeteria. No entanto, jamais abandonou os mistérios da psique. Dois dias na semana, sem aviso prévio, ao fim da tarde, Bárbara sobe em um pequeno púlpito para discorrer sobre as dores e as alegrias da alma, sem nenhum academicismo, mas com a profundidade necessária para que o assunto abordado se torne uma ferramenta do bem viver. A casa transborda de gente. Por vezes, a qualquer hora do dia, a sua aguçada sensibilidade a faz pedir licença para se sentar à mesa com alguém que precise ir aonde nunca ousou estar em si mesma. Não adianta pedir conselhos nem solicitar consultas. “Aqui não é um consultório. Trata-se de uma cafeteria”, avisa a jovem barista. Em verdade, é bem mais que isto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele dia, como de costume, não havia nenhuma mesa disponível. Aproveitei para me acomodar no agradável jardim interno da casa, em uma das poltronas defronte a um confortável sofá, debaixo de uma frondosa mangueira secular. Perfeito para mim, que havia planejado encerrar a tarde mergulhado no universo fantástico permitido pelos romances literários. Pedi um espresso duplo, tirei o livro da mochila e voltei às páginas que narravam a aventura de uma mulher que abria mão de uma estrutura social sólida, repleta de estabilidade e segurança, porém vazia de qualquer propósito evolutivo, para viver experiências que lhe ofereciam sentido existencial. Movida por uma paixão sem garantias e destruidora, mas que a fazia se sentir viva, experimentava dias que se alternavam entre alegrias e agonias extremas e intensas. Um sentimento arrebatador e contraditório; de muitas ambiguidades, nuances e estratos, sendo, por isto, de difícil compreensão. Seria ela uma mulher forte, afeita à intensidade do risco, disposta a manejar o leme da própria vida ao invés de ficar à mercê dos gostos e sabores alheios, ou se tratava de uma alma perdida e atormentada em busca de algo que nem ela saberia definir? Uma leitura fascinante. Eu reiniciava a viagem de onde havia parado, através dos cenários e estradas propostos pelo autor, quando fui interrompido por uma mulher com feições tão belas como as das descritas na ficção. Distraído como de hábito, não a tinha percebido. Ela estava sentada na poltrona ao lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora não fosse jovem como a protagonista do romance, mantinha o frescor da juventude apesar de terem se passado tantas décadas. A beleza não era oriunda da pele, já vincada e marcada pelo tempo. Vinha do olhar típico daqueles que rejeitam vidas vazias. Tinha a mesma sede de viver que a personagem do livro. Transpirava a vontade de aprofundar experiências e emoções, impossíveis a quem se recusa a assumir riscos. <em>Não existe conquistas sem riscos</em>, a frase que repetia não era uma ideia furtiva, mas um mantra pessoal. Liz era assim desde que a conheci na faculdade. Havia se passado quarenta anos. Tínhamos mudado bastante. Corpos e almas já não eram mais os mesmos. Muita coisa havia se modificado. O que não havia mudado era a luz do seu olhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Face à sua personalidade arrebatadora, na época, dizíamos que Liz era como uma locomotiva, capaz de carregar muitas pessoas com ela. E assim ela fazia. Convicto de que teria muitas histórias para me contar, retornei com o livro para a mochila e mudei os planos para aquela tarde. Eu queria ouvir aquela mulher fascinante. Liz me contou de viagens e namoros, encontros e despedidas, aventuras e desventuras. Lugares exóticos e pessoas interessantes, situações absurdas e divertidas. Emoções fortes depositadas em relacionamentos frágeis; relações estáveis em vidas sem sentimentos. Falou de ganhos e perdas, prisões e fugas. Sorrisos e decepções, abraços e abandonos. À medida que contava fatos e casos vividos, sem se dar conta, a narrativa a conduzia para dentro do próprio coração. Aos poucos, a luz do olhar se apagou para dar lugar a uma lágrima sentida. Confessou viver um momento de profunda tristeza. Uma tristeza tão grande que acreditava existir apenas nos romances de ficção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi nesse instante que a barista se aproximou e perguntou se podia participar da conversa. Por não a conhecer, Liz me inquiriu com os olhos. Eu disse sim com a cabeça. Assim, Bárbara colocou uma cadeira para se sentar, triangulando com as poltronas onde estávamos acomodados. Em seguida, tocou delicadamente no braço da mulher de olhos luminosos, ora tristes, pedindo para que ela prosseguisse do ponto que havia parado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Liz me fez lembrar dos tempos da faculdade. Desde aquela época, ainda muito jovens, ela dizia que nunca se casaria. Os pais haviam falecido em uma acidente um pouco antes de o curso começar. Inácio, o único irmão, dez anos mais velho que ela, um jovem adulto, maduro e trabalhador, assumira a empresa da família e liberara a moça para viver a vida como se o amanhã fosse apenas um detalhe sem maiores preocupações. Referindo-se ao irmão, ela dizia que já nascera com o homem da sua vida ao seu lado. Não precisava de outro. Logo, nunca se casaria. Inácio era o seu esteio e amparo. E assim foi por quatro décadas. Deu muitas voltas ao mundo, namorou com a mesma intensidade e volúpia. Amou homens e mulheres, fez amizades como quem sabe que sempre haverá outras poças d`água para brincar depois da chuva. Durante esse período, passava na sede da empresa apenas para assinar documentos que nem sequer lia. A confiança no irmão era absoluta. Jamais teve motivo para desconfiar. Na sua conta bancária sempre havia mais dinheiro do que seria capaz de gastar. Não obstante, o gastava sem culpa nem preocupação. Sentia-se livre e feliz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todavia, a vida é de viés. Tudo muda, quase nunca tendo a delicadeza de pedir licença para impor o avesso azedo da vida à doce realidade até então permitida. Cansado e doente, o irmão decidiu se aposentar, passando o comando da empresa para o filho. A transição teve o aval da Liz. Um processo que parecia natural e não exigia maiores preocupações. Era madrinha do Igor. O sobrinho que carregara nos braços quando pequenino, agora se sentava na cadeira de Inácio. Novos documentos foram assinados, diferentes poderes foram concedidos. Passado alguns meses, se assustou quando o gerente do banco a procurou. Os seus rendimentos mensais despencaram para um pouco mais de um quinto do valor costumeiramente depositado. O saldo da sua conta estava negativo. Algo que jamais ocorrera. Ao procurar Igor para entender o que estava acontecendo, foi recebida com desdém. O sobrinho fez pilhéria da vida irresponsável que a tia levara desde sempre. Era hora de ela tomar juízo. Ao contrário do pai, não trabalharia para bancar os desvarios da tia. Os novos investimentos de que a empresa necessitava, antes de se buscar empréstimos bancários, seriam extraídos dos dividendos dos sócios, com maior incidência sobre aqueles que nunca trabalharam. No caso, a Liz. Dirigiu-se ao irmão na vã esperança de que Inácio conseguisse demover do filho a ideia que modificaria a sua rotina de modo bruto e atroz. O irmão explicou que Igor, agora como presidente, tinha plena autonomia para conduzir os rumos da empresa, principalmente diante de um mercado cada vez mais competitivo. Nada podia fazer. Tampouco, sentia vontade. Havia preparado o filho por muito tempo para esse momento. Igor tinha a sua total confiança. A decisão estava tomada, documentada e era irreversível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses fatos aconteceram havia quase dois anos. Liz não queria ser vista como uma mulher deslumbrada. Sem dúvida, gastara muito dinheiro por décadas. Mas era o seu dinheiro. Embora estivesse longe de passar por necessidades materiais, foi obrigada a modificar o seu padrão e estilo de vida de modo drástico. Teve de lidar com cálculos, aprender sobre comedimento e a selecionar os gastos com cuidado. Isso não seria um problema para Liz se a mesma contenção financeira se aplicasse ao Inácio e ao filho. Tanto o salário do Igor como os dividendos distribuídos ao pai, pelas novas diretrizes, não seriam alterados. Um por ficar quarenta anos à frente da empresa, o outro pela responsabilidade de a conduzir dali por diante. Entendia a dose de justiça que havia na medida, mas se sentia triste e decepcionada por não ter sido avisada antes, quando poderia fazer uma escolha diferente. Acreditou que estaria amparada e protegida pela família. Enganou-se. Faltou consideração, carinho e respeito. Negaram-lhe o direito de escolha. Sentia-se enganada e traída por quem mais amou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com delicadeza, Bárbara passou o dedo para secar a lágrima estacionada no rosto da Liz. Depois, perguntou: “O que você pretende fazer por si mesma diante desses fatos? Se não reagir rápido e adequadamente, irá adoecer”. A bela mulher afirmou que precisava perdoar. Queria se libertar do sentimento corrosivo que a todo momento a fazia se recordar da situação. Desejava viver com a mesma intensidade de outrora. Pontuou que a intensidade não era uma questão de dinheiro, mas de gosto. A barista apoiou a resolução com um sorriso de aprovação. Apesar de Liz entender a necessidade desse movimento primordial, comentou que por mais que quisesse perdoar, não conseguia. Tinha dias que até acreditava que havia avançado, quando, no momento seguinte, surgia um acontecimento qualquer ou do nada vinha um pensamento que tornava a envenenar o seu coração. Não sabia se de ódio ou mágoa. Bárbara explicou que se tratava do mesmo sentimento: “O ódio é a repulsa, a aversão ou raiva em estado vaporoso. A mágoa é o ódio solidificado por envelhecimento, depois de muito tempo guardado dentro da gente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Liz queria entender por qual motivo tinha tanta dificuldade para perdoar. A barista ponderou: “Fatos impactantes, provocadores de profundas decepções não costumam permitir o perdão de imediato ou em um curto espaço de tempo. Trata-se de um processo, uma sequência de movimentos internos, capazes de desatar os nós da rigidez do pensar e do sentir, que tantas incompreensões provocam. O perdão tem muitas nuances e camadas. Embora o ato tenha sido praticado por outra pessoa, avançamos na exata medida que conseguimos entender mais e melhor sobre quem somos e, assim, compreender como o fato nos atingiu tão profundamente, a ponto de nos deixar emocionalmente em ruínas. Essa compreensão é fundamental, pois, somente então estaremos prontos para iniciar uma reconstrução existencial baseada em diferentes e melhores fundamentos. Ninguém consegue perdoar sem sair do lugar. O perdão nada tem a ver com o outro. É uma viagem suave e silenciosa, de muitas idas e vindas, na rota sagrada entre a mente e o coração, capaz de conduzir à verdade, um lugar desconhecido das multidões, uma cidade que os sábios chamam de paz. Não há riqueza nem poder maior”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Liz pediu para que explicasse melhor. A barista esclareceu: “Cada caso tem as suas particularidades. Você estruturou a sua vida tendo o Inácio e a família como os seus pilares e fortaleza. Quando eles faltaram ou lhe viraram as costas, o seu mundo desmoronou. Isso acontece todas as vezes que os alicerces existenciais estão fora e não dentro da gente. É o que chamam de caos. Passada a tempestade, o que mantém um indivíduo de pé são as suas construções internas erguidas graças às dificuldades dos dias: as virtudes agregadas e as verdades alcançadas; a clareza mental, o equilíbrio emocional e a firmeza das atitudes. O caos serve para varrer tudo que é maquiagem, encenação e miragem. Se os fundamentos não forem sólidos e profundos, não sobrará nada”. Liz quis saber mais sobre esses tais fundamentos. Bárbara pontuou: “Fundamento é a bagagem do viajante. Não é o que ele tem, mas tudo aquilo que o ergue e o faz seguir em frente. É o núcleo que sustenta, fortalece, harmoniza, legitima, oferece sentido e direção. A maneira de lidar com o mundo é apenas reflexo da trajetória interior já percorrida e vencida pelo indivíduo. Ainda que mais ninguém o entenda ou aprove”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A bela mulher retornou ao questionamento que a agonizava. Por mais que tentasse, não conseguia perdoar. Uma vez que o perdão é um processo, precisava entender como funcionava. Bárbara explicou: “O movimento inicial é a decisão firme e sincera de perdoar”. Liz interrompeu para ponderar que essa decisão já tinha sido tomada. Afirmou que estava sendo honesta. A barista a acalmou: “Eu não tenho a menor dúvida disso. Ocorre que, pelo fato de o perdão nascer da vontade, a sua construção é mental e não emocional como muitos acreditam. Por isso não conseguem. As pessoas ficam à espera de um sentimento bom para destronar o império da mágoa. Esse sentimento não surgirá do nada. O amor e a compaixão que ocuparão o lugar do ressentimento ou da raiva são consequências de um movimento que nasce na mente para, somente depois, encontrar morada no coração. A vontade é a semente fundamental e sagrada; em seguida, se faz necessário um arco filosófico de entendimentos e compreensões para criar o solo fértil e, somente então, o perdão encontrará as condições adequadas para florescer no coração”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A barista acrescentou: “O perdão não virá como benesse gratuita do tempo, de um toque mágico ou depois de um banho de mar. É uma construção consciencial”. A bela mulher argumentou que, se já havia feito a escolha de perdoar, estaria no segundo estágio da viagem: o arco filosófico de entendimentos e compreensões. Bárbara disse sim com a cabeça e se adiantou à próxima pergunta da Liz: “Esse arco é uma estrada mental que a levará à verdade, onde encontrará lucidez, equilíbrio e força para deslocamentos cada vez mais firmes e, não por isto, desprovidos de leveza e suavidade. Nunca esqueça que a verdade é mansa e corajosa a um só tempo. A verdade é o fomento de todas as transformações”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A bela mulher disse não entender essa estrada mental que deveria percorrer. Indagou se estaria trilhando a estrada errada. Bárbara a observou por alguns segundo, como quem sabe que chegou o momento de mostrar a porta estreita e indesejável, mas de travessia indispensável para prosseguir a viagem. Chamou o garçom, pediu que trouxesse xícaras e um bule com café, e fez a pergunta crucial: “O que você espera por parte do Inácio ou do Igor?”. Surpreendida pelo questionamento, Liz respondeu que nada esperava deles. Uma resposta ainda movida pelo orgulho e pela raiva. Não pela verdade. A barista identificou a contradição, esperou alguns segundos para que a bela mulher pudesse arrumar as emoções fugidias e repetiu a mesma pergunta, acrescentando ao final: “Antes de responder, pergunte ao seu coração. Censurar os próprios sentimentos equivale a fugir de si mesmo. Isto a manterá distante do perdão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os olhos de Liz tornaram a brilhar. Desta vez, por causa das lágrimas. A bela mulher respirou fundo, juntou as mãos em prece e as tocou nos lábios, foi ao centro de si mesma. Ao retornar, como quem confessa um desejo proibido, admitiu: “Anseio pelo dia em que, arrependidos, o Inácio e o Igor me procurem para pedir perdão. Imagino esse momento todas as vezes que me recordo do que fizeram comigo. E isto acontece quase todos os dias”. Bárbara mostrou a porta que Liz se negava a ver: “Percebe que, ao condicionar o perdão à ação de outras pessoas, as quais você não tem nenhum controle, você está transferindo o centro de poder da sua própria vida para elas? Essa sensação de impotência, face a desejos e raciocínios inadequados a deixa atolada em sofrimentos. Pior, talvez esse gesto esperado nunca aconteça. A insensatez dessa espera é o que a mantém cativa no ódio e a rasga em dores silenciosas, porém, devoradoras. A maneira como lida com a própria rigidez de pensar e sentir é o que a mantém distante do perdão. Perdoar não depende de qualquer gesto alheio. Trata-se de um ato personalíssimo, ou seja, é um poder restrito ao âmbito da própria pessoa. Seria um contrassenso acreditar que a cura e a libertação de um indivíduo fiquem à mercê do capricho de outro”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A bela mulher argumentou que o arrependimento do irmão e do sobrinho era ingrediente indispensável ao perdão. Seria um ato de justiça. A barista retrucou: “Seja justa consigo mesma. Busque a própria cura sem esperar pela permissão de ninguém. Liberte-se dos sofrimentos que a esmagam e amargam os seus dias”. Liz enxugou as lágrimas e se disse perdida em um labirinto existencial. Não sabia que estrada percorrer para alcançar o perdão. Bárbara explicou: “As portas dos labirintos existenciais nunca abrem para o lado de fora. A saída sempre nos conduz a desconhecidos universos adentro. O que você busca não está no mundo. A aguarda na própria consciência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A barista foi incisiva: “Você se recusa a queimar pontes”. A bela mulher disse que não estava entendendo. A barista explicou: “Fomos educados a construir pontes e lutar para as manter erguidas em nossas relações. Sem dúvida, é uma importante regra evolutiva. Contudo, mesmo as melhores regras permitem valiosas exceções. Não há uma única boa razão em se manter pontes que apenas servem para trazer sofrimentos, ilusões e maus tratos. Em verdade, comportamentos assim apenas servem para arrefecer a luz. A escuridão e a dor predominam e dominam o coração. Sem respeito, o amor não sobrevive”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, concluiu: “Por vezes, temos de destruir pontes para que algumas travessias não sejam mais permitidas e nem sequer cogitadas. Nem sempre é fácil queimar pontes que atravessamos por longo tempo, encerrar com conexões que estruturaram uma parte de quem somos. Contudo, quem somos nos trouxe até aqui; para seguir em frente é necessário se tornar outro. Ninguém consegue fazer isso sem algumas demolições, sem as quais não haverá nenhuma reconstrução. As rupturas são indispensáveis ao encerramento dos ciclos existenciais. Faz-se necessário terminar uma história para iniciar outra. Quem vive duas histórias simultâneas acaba por se perder em ambas. Ninguém consegue realizar uma nova viagem enquanto estiver retido na viagem anterior”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esperou o garçom colocar o bule e as xícaras sobre uma pequena mesa entre as poltronas e concluiu: “Esperar pela travessia de quem deixou de ter apreço e respeito, não apenas fomenta a mágoa, mas deixa a vida se esvair pelos ralos da subjugação emocional e da rigidez mental. Embora deseje se mover, fica incapacitado pela incompreensão que lhe acomete. Assim, por vezes, as rupturas são essenciais ao perdão. Destruir as pontes que nos levam a lugares ruins é ato inadiável de amor-próprio. Um movimento em prol da luz que conduz ao perdão, a cidade da paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bárbara serviu o café em nossas xícaras. Depois, pediu licença e se levantou. Precisava voltar ao balcão. Gentil, piscou um olho e avisou: “Hoje, o café é por conta da casa”. Saiu antes mesmo que Liz conseguisse pedir para que ficasse um pouco mais. A sós, bebemos o café sem pressa e sem dizer palavra. A quietude era necessária para alocar ideias e sentimentos. A bela mulher rompeu o silêncio para me surpreender. Murmurou que, ao contrário do que sempre acreditou, nunca vivera uma aventura de verdade. No entanto, todos os dias eram perfeitos para ir ao encontro da vida. Não havia aventura maior nem melhor. Liz se referia à vida esquecida em si mesma. Depois, sussurrou como quem conta um segredo:<em> Ninguém é livre enquanto se mantiver erguido em pilares alheios.</em> <em>O caos é do bem. As rupturas e destruições, por vezes, também.</em> Reinventar-se é a única aventura capaz de transformar a realidade. Ela estava disposta a aprender a contar consigo própria como pilar, esteio e fortaleza diante dos inerentes avessos da vida dali por diante. Não seria fácil, tampouco impossível. A vida nunca nega as exatas ferramentas para as obras essenciais. Basta entender onde estão guardadas. Havia uma luz sem igual em seus olhos. Deu-me um beijo carinhoso no rosto, agradeceu a conversa e foi embora. Ela estava alegre por partir. Era uma viagem insólita. A Liz que ela conhecia iria em busca da Liz que ela ainda desconhecia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrei-me do romance que lia, no qual a protagonista abandonava uma estrutura familiar sólida de experiências rasas para se lançar em águas existenciais revoltas, porém, profundas. Liz tinha vivido muitas aventuras ao longo da existência. Ao contrário da ficção, as suas foram de pouca profundidade. Nada esperava delas, senão, diversão. Inácio era o porto seguro, no qual podia atracar com o casco avariado e as velas rasgadas sempre que necessitasse. O reparo era garantido. Não havia riscos, apenas inconsequências protegidas. A bela mulher fizera muitas viagens sem nunca ter ido a lugar nenhum. Então, veio a tempestade. Não para a destruir, mas para arrancar tudo aquilo que não mais servia e adiava a verdadeira aventura. O caos, como sempre acontece, chegou como um convite para uma viagem a lugares inexplorados, de descobertas e conquistas interiores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para se aventurar ao centro de si mesma, se faria necessário retornar ao mundo, com todos os riscos que lhe são inerentes, um exercício fundamental ao conhecimento e à lapidação da alma. Sem essas constantes idas e vindas, o movimento seria mero escapismo. Todo entendimento é inócuo se não for testado e aprimorado através da ação. Liz aprenderia a se tornar o próprio porto seguro, onde se refugiaria nas noites escuras para se lançar ao mar nas manhãs seguintes. Desta vez, viajaria movida por novos interesses e diferentes prioridades. Ela era o seu próprio destino. Assim é com todos. Olhei ao redor e sorri. A cafeteria da Gávea não era uma cafeteria, tampouco um consultório. Ali existia um cais”.</p>
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		<title>A melhor vingança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 13:37:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Madureira é um dos bairros mais icônicos do Rio de Janeiro. Lugar de gente tenaz e trabalhadora, possui características, culturas e tradições próprias. E alguns recantos encantados. Num deles, localizado em uma rua arborizada e tranquila, transversal à estação de trem, mora a tia Francisca, a benzedeira. Uma mulher preta e magra; simples, humilde e amorosa; detentora de invulgar sabedoria e linguajar refinado. De idade indefinida – eu a conheço desde criança, levado pelas mãos aflitas do meu pai em busca de soluções improváveis para um garoto avoado e disruptivo –, acolhe a todos que a procuram em busca de alívio às incompreensões que tanto sofrimento provocam. A reza serve, entre outros encantos, para desfazer quebrantos, termo popular utilizado como referência à energia densa que envolve uma pessoa e a prejudica, quando mental ou emocionalmente vulnerável e desprevenida, em relacionamento conflituoso eivado em maus sentimentos. O ódio, assim como a tristeza – que, em verdade é uma espécie de ódio disfarçado de abandono – podem caracterizar alguns dos efeitos típicos do quebranto. A benzedeira alerta a todos que a procuram: “Afastar as energias lentas e corrosivas não nos livra delas em definitivo. É preciso um constante e eficaz movimento interno de aperfeiçoamento. Bons pensamentos e bons sentimentos são essenciais na construção da obra de si mesmo. Ninguém atrai o que deseja; atraímos na exata medida das nossas afinidades. Somos afins ao que somos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maura aprendera a costurar com a avó. Ao encerrar o Ensino Médio, foi trabalhar na confecção de uma famosa estilista dedicada à alta-costura, cujas roupas feitas sob medida e com exclusividade, atendiam a uma seleta camada de mulheres que podiam pagar caro por recortes de tecido cortados e montados com mestria. Além de ser um exímia costureira, a moça possuía um talento nato. Tinha o dom de desenhar estampas e criar modelos de rara beleza. Joana, a estilista e dona da marca, ao identificar o dom da funcionária, a incentivou a estudar modelagem e a cursar uma faculdade de Moda. Ao acrescentar a técnica ao talento, as suas habilidades foram ampliadas para além das fronteiras imaginadas. Embora as criações continuassem a levar a assinatura da proprietária, a funcionária se tornou a principal designer da marca. No atendimento às clientes, para saber dos gostos, intenções e preferências, Joana se mantinha à frente, apresentando a jovem como sua assistente. Embora a proprietária tentasse esconder, cada vez mais, os vestidos tinham o toque autoral da funcionária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa convivência se mostrou próspera por quase uma década, até que Maura, incentivada pelo marido, Hugo, um promissor advogado, decidiu criar também um caminho próprio e, assim, montou a sua marca. A ruptura aconteceu sem traumas aparentes. Joana se mostrou compreensível com a escolha da antiga funcionária e entendeu o desfecho da relação de trabalho como algo natural e inevitável. Desejou-lhe sorte e sucesso, conforme as palavras ditas no dia da despedida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maura alugou uma casa no Jardim Botânico, um dos bairros nobres da cidade. Com pouco dinheiro, mas muita dedicação e criatividade, fez uma linda reforma. O espaço ficou claro e arejado, adequado para receber as clientes na espaçosa sala do térreo. No andar de cima funcionaria a oficina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes mesmo da reforma ficar pronta, foi procurada por duas costureiras que trabalhavam há muitos anos com a Joana. Queriam trocar de emprego. Gostavam do jeito leve e jovial com que Maura tratava a todos, sem mostrar distinção de classe social, etnia e qualquer outra condição inerente à pessoa ou por direito de escolha. Maura explicou que, por questões éticas, não poderia as contratar sem antes conversar com a Joana. Assim o fez, sem que a antiga patroa apresentasse qualquer empecilho. Aos poucos foi montando e ampliando a equipe, à medida que a empresa crescia. Algumas clientes da Joana passaram a frequentar o ateliê de Maura, insatisfeitas com os desenhos e modelos que não mais possuíam os traços da jovem designer. Não foi difícil para elas deduzir quem estava por trás das linhas graciosas dos seus vestidos nos últimos anos. A fama de Maura ultrapassava os muros das festas e invadia a intimidade dos chás da tarde. A marca cresceu a ponto de rivalizar com a da antiga patroa. Todo o dinheiro ganho era reinvestido no próprio negócio. Quando o sonho parecia tangível e real, tudo começou a desmoronar. Muitos pedidos foram cancelados sem qualquer justificativa. As clientes, como que diante de uma enfermidade contagiosa, despareceram. Não mais atendiam aos telefonemas nem respondiam às mensagens. Maura, atordoada pela sucessão de acontecimentos sem motivo ou explicação, vagou do desespero à depressão. Não tinha mais como pagar salários e aluguel. Estava atolada em dívidas. Se algo não mudasse rapidamente, teria de fechar o ateliê. Sentia-se derrotada. Ainda pior, não conseguia identificar em que ponto falhara ou errara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das costureiras, empática ao sofrimento da designer, propôs a levar na casa da tia Francisca. Maura ponderou, sem nada dizer, que uma reza, se em nada ajudasse, nenhum mal faria. Combinaram de a visitar no dia seguinte pela manhã. Ocorre que, na noite anterior, ao chegar do trabalho, Hugo trouxera uma revelação surpreendente. Havia um maldoso movimento de difamação em curso. Em uma audiência que realizara naquela tarde no fórum, encontrara com uma das clientes da Maura, também advogada. Em um comentário ferino, a mulher falou de um dinheiro desviado da confecção da antiga patroa, que teria sido usado para financiar a abertura do ateliê da jovem designer. Como se não bastasse, aconselhou Hugo a <em>abrir os olhos</em>, pois, a esposa teria um relacionamento amoroso com o marido da antiga patroa. A prova, sibilou, era o fato de a Joana ter se divorciado recentemente. Maura seria o motivo da desavença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele dia, eu chegara cedo à casa da tia Francisca. Não fui por nenhum motivo específico. Deu-me uma forte e repentina vontade de a visitar. Quando entrei, ela parecia me esperar sentada em sua surrada poltrona azul, “da cor do manto de Nossa Senhora”, conforme gostava de falar. Ofereceu-me um belo sorriso e confirmou a minha percepção: “Estava à sua espera”, comentou como quem trata o extraordinário como fato corriqueiro. Atônito, não entendi. Tia Francisca tornou a sorrir, apontou para o altar simples com as imagens de Mestre Jesus, Mãe Maria e São Jorge, que ficava na sala quase desprovida de móveis, salvo por alguns banquinhos brancos de madeira, nos quais as pessoas se sentavam para conversar com a benzedeira, e pediu: “Acomode-se em um dos banquinhos, feche os olhos e se mantenha em oração”. Entendendo menos ainda, antes que eu pedisse uma explicação, ela serenou o meu coração: “Logo você compreenderá”. Foi assim que me tornei um intruso no desfortúnio de Maura. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>É tudo mentira</em>, a jovem designer afiançou no único momento que conseguiu falar sem chorar. Não tive dúvida da sua sinceridade. O olhar da tia Francisca confirmava essa verdade. Ocorre que a antiga patroa narrava uma história tão bem engendrada e farta em detalhes, que era difícil não acreditar na versão cruel e absurda de fatos que nunca aconteceram. Algumas pessoas têm um poder tão grande de manipular mentiras que, por vezes, temos a sensação de que ninguém nunca acreditará na verdade. Maura tinha passado semanas com medo, desesperada e triste, mas agora sentia raiva. Muita raiva. O ateliê estava preste a fechar as portas. Perderia tudo. O que construíra com muito esforço se ruíra de um momento para outro, sem aviso nem juízo. Estava disposta a se vingar. Com uma jura feita entre os dentes, prometeu que seria implacável. De pronto, a benzedeira a corrigiu: “Se fizer isso, somente então perderá tudo. Quem a tomará de você será a sua própria vingança”. Em seguida, acrescentou: “Quem tem a si mesmo não perdeu nada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Insatisfeita, Maura questionou em tom de ironia se deveria oferecer a outra face. Sem se abalar, tia Francisca disse sim com a cabeça e ratificou: “Essa é a coisa certa a se fazer”. A jovem afirmou que não se permitiria se tornar um saco de pancadas. A benzedeira a retificou: “Eu não disse isso”. Franziu as sobrancelhas e disse com firmeza: “Oferecer a outra a face é apresentar a luz a quem só conhece a escuridão”. Fez uma pausa antes de concluir: “Quem devolve o mal como pagamento ao mal entrega o próprio coração como moeda de troca. A melhor vingança é o perdão. É preciso se libertar do ódio para voltar a ser feliz. Ser feliz é a melhor vingança. Ninguém consegue isso sem antes perdoar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maura alegou que as clientes nem sequer queriam escutar o que ela tinha a dizer. Havia pressa. Os boletos se acumulavam, o sonho estava à beira de avinagrar. Precisava gritar ao mundo. Tinha uma verdade para falar e precisava se fazer ouvir. Tia Francisca explicou: “Não há necessidade de contar a ninguém a verdade. Repetir a verdade para todos é uma necessidade inventada. Viva a verdade em cada gesto, passo e olhar. As ações sempre terão alcance maior do que as palavras. A verdade não é discurso, porém, atitude. É pilar da consciência, vive em quem respira em paz. Seja a verdade através do seu jeito de viver. Faça da verdade uma característica silenciosa da sua identidade. A verdade não precisa de alarde. O medo e o ódio são escandalosos, covardes, agressivos e ansiosos. A verdade é corajosa, tranquila, quieta e sabe esperar. A mentira tem complicados enredos. Para a verdade basta um simples sim ou não”. Como quem revela o óbvio, deu de ombros, sorriu e concluiu: “A verdade é assim porque sabe que é verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A designer confessou que a bancarrota se avizinhava. Se as clientes não voltassem a procurar o ateliê, seria impossível escapar da falência. Não conseguia encontrar outra saída que não fosse as procurar&#8230; “Para as convencer a mudar de ideia”, a benzedeira interrompeu para arrematar o raciocínio de Maura, como quem evidencia uma incoerência. Sem entender, a designer arregalou os olhos como quem pergunta <em>o que mais posso fazer?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tia Francisca segurou nas mãos da jovem com carinho e a lembrou: “Só os tolos desperdiçam a própria vida em função da opinião de alguém”. Depois, ponderou: “A vida é repleta de momentos angulares e, por isso, transformadores. São situações delicadas pelos riscos envolvidos. De um lado, podemos deixar que os outros decidam se iremos ficar ou partir; se mereceremos o quinhão das suas dádivas, benesses e crenças ou não. De outro, podemos construir quem somos e onde queremos chegar. Qualquer movimento existencial, em se tratando de um direito, não carece da permissão de ninguém. Essas encruzilhadas definem o grau de maturidade, integridade moral e coragem pessoal. Define quem será o autor da própria história ou quem se contentará como mero personagem da trama alheia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maura engoliu os argumentos que usaria para rebater. Eram rasos demais diante da responsabilidade que naquele instante despertava sobre si mesma. Admitiu que se aceitasse a dependência de duas dezenas de clientes para definir a própria vida, estaria entregando aos outros o controle sobre o próprio destino. Seria conduzida por uma vontade que não a sua. Não queria viver assim. Disse que não merecia isso. Ninguém merecia, acrescentou. A benzedeira a lembrou: “Cada um está onde se coloca ou se deixa colocar. Você pode ser senhora de si ou viver como um trem que viaja sobre trilhos aleatórios”. A jovem indagou como poderia construir uma trajetória autoral dentro da situação existente. Foi quando tia Francisca me chamou para saber se eu poderia ajudar de alguma maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora me esforçasse para me manter em oração de frente para o altar, eu tinha ouvido a conversa. Não consegui evitar. A benzedeira sabia disto. Não foi para rezar que ela me colocara ali. Maura não podia depender que as clientes reconsiderassem suas opiniões para definir a própria vida. Isto a faria prisioneira dos caprichos do mundo. Ela precisava forjar um novo caminho baseado no seu talento e esforço, sem ficar a mercê do humor ou da maldade de ninguém. Tinha experiência em modelagem, desenho e costura. Bastava traçar uma trajetória profissional diferente, no qual o alvo se deslocaria de um centro específico e reduzido para alcançar as margens, sempre largas, ora esquecidas, ora desprezadas. Sempre é possível. Ocorreu-me uma solução: apostar no <em>prêt-à-porter</em>. O termo significa <em>pronto para vestir</em>. São roupas de ótima qualidade confeccionadas por designers criativos, produzidas em escala fabril com a finalidade de socializar o uso, em contraponto com a exclusividade das roupas caras feitas sob medida na alta-costura. A proposta é vestir bem, com elegância e originalidade a baixo custo. Ao oferecer acesso a muitos, não ficaria aprisionada nas mãos de alguns.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por um átimo, os olhos de Maura brilharam com a ideia para se apagarem no segundo seguinte. O aluguel da casa do Jardim Botânico era caro. Naquele momento não tinha como arcar com o custo. No mais, por estar situada em um bairro residencial, era proibido montar uma fábrica, ainda que pequena, no local. A bem dizer, não tinha condições de pagar aluguel em lugar nenhum naquele momento. Os olhos da tia Francisca buscavam os meus. Havia um pedido velado na luz daquele olhar. Não foi difícil de entender nem de atender. Eu era proprietário de um galpão vazio a poucos quarteirões dali, onde funcionara a gráfica da agência de propaganda da qual fui sócio por muitos anos. Na dissolução da sociedade, o imóvel coubera a mim. Havia tempos que eu tentava, sem sucesso, alugar ou vender o galpão. Desde então, só tinha despesas de impostos e taxas de manutenção. Sorri para benzedeira e propus à jovem estilista que fizéssemos um contrato de locação por cinco anos. Haveria carência no pagamento de aluguel nos primeiros vinte quatro meses. Depois ela me pagaria o valor de mercado. Seria bom para mim e para ela. Maura agradeceu a oferta. De fato, era excelente, mas argumentou que estava sem caixa para montar a fábrica, contratar funcionários e adquirir as máquinas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se Maura costurava roupas, tia Francisca costurava vidas. A benzedeira sorria matreira para mim. Sinalizei não com a cabeça, ela retrucou com um sim no olhar. Respirei fundo como quem não acredita que dará o passo a seguir e, com a voz compassada de quem raciocina enquanto entende o que fala, propus sociedade à Maura. Ela entraria com a parte de designer e costura, eu investiria na compra das máquinas e na montagem da fábrica. Usaria, ainda, a minha experiência como publicitário para a criação de uma marca <em>prêt-à-porter</em>. Poucas vezes vi um sorriso tão bonito como aquele que estampava o rosto da jovem. Ela estava de volta ao jogo. De um jeito impensável, eu também retornava à criação, uma antiga paixão. Foi quando entendi o motivo pelo qual eu tinha ido a Madureira naquele dia. Os sonhos não envelhecem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trocamos telefone para nos falar nos próximos dias. Tínhamos muito a conversar. Maura pediu que tia Francisca a benzesse. A senhorinha explicou que a prece já tinha sido feita e atendida: “A melhor vingança é viver bem. Quando você entendeu isso, o quebranto se desfez. O seu sorriso é a prova da vitória sobre as imposições do mundo, apenas possível quando venceu as más inclinações que a consumiam”. A designer se sentia bem e renovada. Quis pagar pela reza. Tia Francisca sorriu e finalizou o atendimento: “Vá ao altar e agradeça ao Nosso Senhor Jesus Cristo. A Ele, toda honra e glória. A mim, nada é devido”. Em seguida, pediu para que o próximo da fila entrasse.</p>
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		<title>A encruzilhada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 14:33:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu estava com saudade de Sedona, a pequena cidade localizada nas montanhas do Arizona, onde morava Canção Estrelada, o xamã que possuía o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através das letras das músicas que cantava ou das histórias que narrava com rara mestria. Eu trazia comigo um desconforto interno, como se fosse uma espécie de agonia branda, sem qualquer explicação aparente. O trecho da estrada a partir de Flagstaff, riscando a floresta de pinheiros e carvalhos à beira de penhascos de beleza sem igual, sempre me trouxe uma sensação agradável, como se o coração antecipasse que algo de bom estava preste a acontecer. Contudo, o que é genuinamente bom quase nunca chega sem esforço ou a necessidade de enfrentar um desafio íntimo. Desta vez, não foi diferente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fui recebido com a alegria serena e o abraço forte típicos do Canção Estrelada. Após deixar a mochila e a mala no quarto de hóspedes, nos sentamos na varanda refrescada pela brisa suave das tardes de outono. Conversávamos amenidades, quando fomos surpreendidos por Kenai, um jovem com cerca de 20 anos de idade, cujos pais eram amigos do xamã desde sempre. O rapaz precisava conversar. Ele estava muito chateado. Kenai trabalhava em um dos luxuosos resorts da região para ajudar no sustento da família. Além das despesas básicas da casa, ele contribuía para que os pais conseguissem pagar a universidade da sua irmã, alguns poucos anos mais velha do que ele. Depois de formada, seria a vez de ela retribuir para que Kenai cursasse uma faculdade, caso assim ele quisesse. Embora pertencesse a uma família com parcos recursos financeiros, os bons sentimentos, valores e princípios nobres serviam como amálgama a manter esse pequeno núcleo unido como em um só coração. Uma riqueza inestimável. Apesar de morar numa casa na qual a dificuldade para suprir o básico das necessidades materiais fosse comum ao cotidiano, Kenai residia em um lar onde o amor transbordava e a dignidade estava misturada ao ar que respirava. Era um jovem gentil, tranquilo e alegre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kenai contou que Peter, gerente e filho do proprietário do resort, de um momento para outro, sem motivo aparente, passou a o tratar com rudeza. Eles tinham quase a mesma idade. No início, o patrão atribuiu ao funcionário as funções mais desagradáveis, como o trato com o lixo e a limpeza dos banheiros das áreas comuns. Onde antes havia um rodízio para não sobrecarregar ninguém, passou à responsabilidade exclusiva de Kenai que, embora notasse a mudança inexplicável na distribuição das tarefas, as executava sem qualquer reclamação. Interrompi a narrativa para argumentar que em algumas empresas, práticas semelhantes são adotadas para avaliar o nível de comprometimento do funcionário. Casos em que são testados somente aqueles que apresentam maior potencial de crescimento profissional. O jovem explicou que por algum tempo até considerou essa hipótese. Ocorre que as atitudes do gerente escalavam tons de aspereza. As críticas eram desmedidas e insensatas. Algumas beiravam à grosseria. Nas reuniões sempre fazia algum comentário sarcástico ou debochado tendo, invariavelmente, Kenai como alvo – o sarcasmo é uma forma disfarçada de agressividade na qual o humor serve para disfarçar a intenção de ferir; o deboche demonstra menosprezo, a vontade vil de humilhar através do escárnio. Embora tivesse aprendido que o destino final do mal reside no remetente, e jamais no destinatário, se sentia desconfortável pelo modo recorrente como estava sendo tratado. Kenai salientou que cada um está onde se coloca ou permite que os outros o coloquem. Se não está agradável, sem demora, se faz necessário ir embora, caso não seja possível modificar os moldes do relacionamento. Relações sem limites se tornam necessariamente abusivas e nocivas. Limites são ferramentas indispensáveis ao respeito. Ao autorrespeito. Um gesto fundamental à dignidade e, portanto, indispensável ao amor-próprio. Canção Estrelada balançou a cabeça em aprovação ao raciocínio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O jovem confessou não compreender o comportamento do Peter. Já havia tentado conversar com ele, sem obter sucesso. Foi tratado com irritação e desdém. Por mais que se aplicasse na execução das tarefas, o serviço realizado nunca estava bom o suficiente aos olhos do herdeiro do hotel. Não entendia o motivo de ainda não ter sido demitido. De outra face, nos últimos dias vinha avaliando a possibilidade de pedir demissão. Uma decisão delicada uma vez que poderia prejudicar os estudos da irmã que tanto amava, caso demorasse a conseguir outro emprego. Tinha ido em busca dos conselhos de Canção Estrelada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto ouvia com atenção as aflições e as incertezas de Kenai, o xamã preencheu com fumo o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha. Ao final da narrativa, o acendeu, baforou algumas vezes para que o tabaco incendiasse, olhou com profundo respeito para o jovem e ponderou: “A dúvida é um nevoeiro; toda decisão define um caminho. Ninguém escolhe uma boa rota antes de enxergar com clareza as razões dos próprios movimentos, assim como, aonde pretende chegar”. Observou por instantes a fumaça bailar diante dos seus olhos e prosseguiu: “Acalme o coração para que consiga ver o que precisa enxergar. A pressa, a irritação e a ansiedade fecham a janela da lucidez. A consciência se retrai. A emoções aviltadas ofuscam as melhores soluções. Se o viajante está perdido na encruzilhada é porque a estrada ainda não se apresentou para ele. Nem tudo no caminho é apenas caminhar. Em toda viagem há o tempo de aquietar, observar e entender. É quando o caminho se apresenta ao viajante. Então, estará pronto para prosseguir”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira estrela surgia ao longe se destacando no manto escuro da noite. Kenai olhou preocupado para o relógio. Toda sexta-feira, à frente de uma banda country, ele cantava em um galpão que, nos fins de semana, entre as enormes obras de arte inacabadas de uma artista plástica, se transformava num delicioso bar e em palco improvisado. Um agradável lugar para manifestações de talentos e encontros. Ele queria continuar aquela conversa, ainda longe de terminar. Porém, tinha um compromisso. Canção Estrelada perguntou se poderíamos assistir ao show. O jovem nos disse sim com um lindo e alegre sorriso de satisfação e alegria. Ao passar pelo portão da casa, montou em sua motocicleta – apelidada de Frankestein pelos moradores da cidade, por ter sido construída com peças velhas de diferentes marcas, dispensadas ao lixo, e renascidas pelas mãos de Kenai – e partiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que o jovem, embora não tivesse uma beleza considerada padrão, possuía um incrível magnetismo e inegável carisma. Pela sua postura e ideias, não era difícil reconhecer o seu talento para lidar com as dificuldades, sempre de maneira doce e serena. Pareceu-me capaz de se valer de enormes doses de criatividade e ousadia para encontrar impensáveis soluções. A motocicleta era um ótimo exemplo prático. Os traços ancestrais da etnia navajo, juntamente com seu jeito próprio de se vestir, falar e agir, conferiam-lhe um charme sem igual. No mais, tinha à disposição algo precioso: um bom coração a lhe guiar os passos. O xamã assentiu com a cabeça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confessei que muitas vezes presenciara cenas de perseguição semelhante, em situações diversas, sem nunca entender o motivo daquele tipo de comportamento. Perguntei se Canção Estrelada sabia a razão de o milionário Peter perseguir o humilde Kenai. O xamã tornou a dizer sim com a cabeça sem acrescentar palavra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Demoramos a chegar ao local do show. Ficamos um bom tempo conversando sobre outros assuntos. Um pouco antes de sairmos, comentei que um dos meus ex-sócios na época que dirigíamos uma agência de publicidade, depois do rompimento da sociedade, havia alavancado a empresa ao ponto de se tornar uma das maiores da América Latina. Acumulara vários prêmios internacionais e amealhara uma grande fortuna. Canção Estrelada me olhou com profundidade e preparou o arco: “Por que essa informação é importante para a nossa conversa?”. Desconversei, dizendo se tratar de mera curiosidade. Então, o bom guerreiro disparou a flecha: “Tive a sensação de ouvir um tom de amargura e lamento na sua voz”. Um tanto desconfortável, garanti que ele estava equivocado. Nada mais foi dito. Nem precisava. A flecha restara cravada na minha consciência.&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando chegamos ao galpão, a rua estava lotada de carros estacionados. Deixamos a surrada picape do xamã em uma vaga distante. Como ensinava um sábio alquimista de almas, o acaso não existe. Próximo dali, vimos estacionar uma linda Mercedes conversível. Um rapaz muito bonito, alto, com o corpo bem delineado, vestido com requinte, desceu do carro acompanhado de duas mulheres que pareciam ter saído de um catálogo de modelos fotográficos. Como quem carrega troféus em forma de pessoas, ele seguiu acompanhado por uma beldade de cada lado. De outro carro, saíram dois homens corpulentos que os seguiam a uma distância segura, capaz de intervir em caso de necessidade. Eram seguranças. Como se aquela cena fosse importante para a compreensão correta do enredo, o xamã disse que aquele belo rapaz era o Peter, filho do proprietário do resort, com quem Kenai enfrentava problemas recorrentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O lugar era fantástico. Minimalista e elegante a um só tempo. Ao entrarmos, uma linda moça cantava uma agradável canção que exigia um timbre raro de voz. Ela a executava com incrível perfeição. Muito aplaudida, ao descer do palco foi abraçada por Kenai, com quem trocou um beijo apaixonado. Em seguida, foi a vez do jovem navajo comandar o palco, acompanhado por uma banda cujos integrantes eram seus amigos de infância. Cantou meia dúzia de canções alegres, fazendo com que as pessoas dançassem com alegria. Ao final, foi aplaudido com entusiasmo pelo público. Elogiei a qualidade das músicas. Canção Estrelada revelou que eram da autoria do rapaz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Notei que tanto a mesa de Peter como a de Kenai estavam repletas de pessoas. No entanto, tive a nítida sensação de que estavam ali reunidas por motivos diferentes. Semblantes e comportamentos serviam como indicativos. Enquanto ao redor de Kenai havia brincadeiras, amizade e confraternização, no entorno de Peter imperava a formalidade, os negócios e uma inegável dose de tensão. Uma mesa era movida por virtudes e admiração mútua; na outra, existiam interesses e uma encenada descontração. Notei também que Peter, embora tentasse disfarçar, observava Kenai com estranha atenção, como se envolvido por uma espécie de fascínio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao saber o que eu havia percebido, o xamã me fez uma indagação sutil, suscinta e certeira: “Entendeu?”. Admiti que não. Nada naquele contexto me parecia lógico para explicar a perseguição implacável sobre Kenai. Embora os dois jovens frequentassem um mesmo bar, habitavam universos distintos. Cada um com os seus gostos e sabores, suas delícias e dificuldades. Nada havia de errado nisso, argumentei. Canção Estrelada me olhou com firmeza e revelou o motivo do comportamento do Peter com uma única palavra: “Inveja”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Discordei com veemência. Ainda que Kenai fosse um rapaz extremamente virtuoso, era pobre e tinha uma vida muito simples, sem qualquer regalia material. De outro lado, Peter nascera em uma família milionária, tendo acesso aos bens de consumo mais sofisticados que se podia imaginar. Bastava querer para ter. Kenai era um funcionário de baixo escalão do Peter. Não fazia o menor sentido de a inveja ser a motivadora daquela perseguição. Haveria de existir outra razão. Canção Estrelada maneou a cabeça em desaprovação e explicou: “Incomodar-se com o que o outro tem é o tipo mais conhecido de inveja. No entanto, há outra inveja mais profunda, e por isto quase nunca percebida: a amargura por não ser quem o outro é. E isto nada diz sobre dinheiro, fama ou poder social. Fala sobre virtudes e talentos; dignidade no trato pessoal e paz no coração. Dialoga com a enorme capacidade de perdoar, amar, ter amigos, ser feliz e seguir adiante. Evidenciam aqueles que já entendem e vivem a genuína liberdade. Para conseguir ser muito não se faz indispensável ter muito. Faz-se necessário entender sobre as prioridades da vida. E as viver de verdade. Exige lucidez, equilíbrio emocional e força de movimento. Raros estão prontos. Uma riqueza desejada por muitos, um tesouro que o dinheiro não consegue comprar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como uma pessoa que podia ter quase tudo sentia inveja de quem não tinha quase nada? Era difícil de entender. Não era assim que eu havia aprendido sobre a inveja. Canção Estrelada se levantou e pediu que eu o acompanhasse. Passamos pelo balcão e entramos na cozinha. Um senhorinha de cabelos brancos, cortados rentes à nuca, o recebeu com alegria. Era a Doris, uma amiga de longa data, ajudante de limpeza do estabelecimento. Imediatamente, ela avisou à equipe que faria um intervalo de alguns minutos. Retirou o avental, pegou três cervejas no freezer, entregou uma para cada um, e a seguimos para o lado de fora do galpão. A pedido do xamã, em poucos minutos de conversa, ela me contou que havia trabalhado por muito tempo na mansão dos pais de Peter, quando ele ainda era criança. O pai, como sócio de um dos cassinos de Las Vegas, quase não aparecia em casa. A mãe estava sempre ausente, deslumbrada pelas frivolidades do luxo. O garoto cresceu desorientado pelo poder de compra do dinheiro. Coisas caras e caprichos nunca negados serviam para compensar a falta de acolhimento emocional naquela família. Uma rotina de sentimentos rasos o fez atropelar princípios e pessoas. Virtudes importantes como humildade, simplicidade, delicadeza, compaixão, abnegação, moderação, entre outras, por não terem sido ensinadas, para ele não passavam de teorias hilárias pregadas por filósofos fracassados e religiosos obtusos. Peter nunca construíra nada. Sem nenhum esforço, sempre comprara ou ganhara tudo o que quis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, Canção Estrelada concluiu: “Sem se dar conta, isso gerou um vazio interior sem aparente explicação, além de uma triste inversão de valores a guiar condutas e escolhas. Ainda que sem compreender a exata dimensão da própria percepção, ele identifica algo em Kenai que é mais precioso do que tudo que tem. Sente, mas não entende a origem do sentimento. Peter é uma construção com caros adornos, belos contornos e nenhum alicerce. Por isto, sob o prisma emocional e existencial, é de extrema fragilidade e desequilíbrio diante das contrariedades da vida. Kenai é simples, mas possui pilares sólidos. Isto lhe concede tenacidade e consistência para lidar com as inerentes dificuldades do dia a dia. Pilares se erguem conforme as virtudes agregadas à personalidade. São as belezas da alma. Isso não está à venda. Faz-se necessário conquistar<strong>.</strong> Peter quer esse tesouro, mas não o pode ganhar ou comprar. O jovem milionário não aprendeu o significado do verbo conquistar. Então, por instinto e impulso, decide destruir o que não sabe como possuir. A perseguição é inconsciente, movida por um sentimento que ele desconhece e, por isto, é incapaz de dominar. A inveja o dirige, do mesmo modo como as correntezas e as marés fazem com as naus sem leme nem bússola”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse instante, fomos surpreendidos com a chegada de Kenai. Tinha sentido a nossa falta e, preocupado, nos procurou para saber se estava tudo bem conosco. Porém, não era somente isso. Contou sobre um princípio de confusão ocorrido no bar, alguns minutos atrás. O pai de Peter chegara em busca do filho. Tiveram uma conversa ríspida. Pessoas que estavam próximas, ouviram que eles tinham discutido por causa de uma enorme dívida de jogo que o jovem milionário acumulara nos cassinos de Las Vegas. O pai estava sendo pressionado pelos sócios a quitar o débito que até então ignorara. Estava irritadíssimo pela contradição de, como banqueiro de jogos de azar, ver o filho agindo igual aos jogadores irrefreáveis que tanto desprezava, a quem chamava de perdedores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem precisar falar, o xamã teve uma troca significativa de olhares com Kenai, como quem pergunta se ele havia entendido. O jovem disse sim com a cabeça. Peter tentava com movimentos erráticos e impulsivos preencher o vazio existencial que sentia, mas era incapaz de compreender por desconhecer a origem dos sentimentos que o dirigiam. Apesar de ter quase todas as coisas que o dinheiro podia comprar, faltava algo em si que o desorientava, desequilibrava e fragilizava. Sentia, mas não compreendia. Tornou a olhar para Canção Estrelada e perguntou se a questão era porque Peter enxergava existir nele, Kenai, os pilares existenciais que lhe faltavam. Uma percepção sem entendimento nos faz agir através de impulsos e instintos. São movimentos dirigidos pelo medo, que nos levam na contramão da luz. O silêncio do xamã confirmou o raciocínio do rapaz. Kenai havia compreendido o sentimento que movia o comportamento persecutório de Peter.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kenai se mostrou compassivo, afirmando que Peter era vítima do desconhecimento que possuía sobre si mesmo. Canção Estrelada anuiu: “Sem dúvida. Essa compreensão é de enorme serventia para que você não alimente nenhum ressentimento em relação a ele. Pelo aprisionamento que provoca, quando alimentamos mágoas, permanecemos como coadjuvantes da existência alheia. Pela libertação que oferece, o perdão nos traz de volta ao protagonismo da vida”. Fez uma pausa e ressaltou: “Contudo, se faz necessário se defender do mal. O comportamento dele vem escalando patamares de desequilíbrio e agressividade. Ele não o demite porque se alimenta do achincalhe e do menosprezo, sensações vazias de falsa superioridade. Ele ainda está distante de entender o mal que o acomete. Nesse momento é recomendado que se afaste do Peter e, portanto, do seu atual emprego”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kenai admitiu que vinha considerando essa decisão havia alguns dias. As palavras do xamã corroboravam o que a intuição lhe soprava à mente. Tinha vontade de montar uma banda com a sua namorada e alguns amigos. O sucesso que faziam em Sedona podia reverberar pelo mundo. No entanto, era uma jornada difícil que, na maioria das vezes, mesmo dando certo, costuma ter um amadurecimento demorado. Por ora, precisava de algo imediato para se manter e ajudar a família até que a música indicasse se viria a se tornar uma carreira ou seria apenas, mas não menos importante, parte da arte essencial à sua vida. Paralelamente, montaria uma oficina de motocicletas na garagem da sua casa. Tinha uma boa experiência no assunto. Aproveitaria para, entre um conserto e outro, construir outras Frankensteins para vender. Confessou que a simples ideia de mudança já fazia o seu coração transbordar de alegria e entusiasmo. Depois de algum tempo de quietude e reflexão na encruzilhada da existência, o caminho se apresentava a Kenai. Não o destino, mas a direção a seguir. Assim, era possível ajustar a rota e o rumo da sua história pessoal. Um movimento sempre necessário. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso de aprovação. O rapaz agradeceu a conversa e retornou ao galpão. Queria compartilhar a decisão sobre a oficina e convidar a namorada e os amigos para a aventura que se anunciava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resiliência é a virtude de, apesar das rigorosas circunstâncias e pressões que, por vezes, a vida nos impõe, não permite que sejamos deformados por elas. Ao contrário, graças às dificuldades, nos reinventamos, reconstruímos e aperfeiçoamos. Então, alcançamos lugares inimagináveis, dentro e fora da gente. Referindo-me ao Kenai, no trajeto de volta à casa, comentei que o jovem havia entendido a lição proposta pela vida. Assim, conseguiria ir além de si mesmo. Sem desviar a atenção da estrada, Canção Estrelada retornou a pergunta: “E você, entendeu?”. Respondi que havia aprendido muito sobre as armadilhas falaciosas dos sentimentos densos, como a inveja. Seria mais fácil de a identificar quando acontecesse comigo e, assim, a dominar, antes que ela dominasse o meu coração e as minhas escolhas. O xamã estacionou a picape no acostamento, olhou para mim com seriedade e redarguiu: “Entendeu mesmo?”. Passados os instantes iniciais de estranhamento, a minha consciência me trouxe à mente o comentário que eu fizera mais cedo sobre o sucesso do ex-sócio que permanecera como dono da agência de publicidade após a ruptura da sociedade. Comentei que, de fato, o comportamento mesquinho e egoísta que ele tivera, motivo da dissolução empresarial, fazia com que eu não nutrisse um bom sentimento em relação a ele. Confessei que o sucesso dele me incomodava. Porém, não se tratava de inveja. O sentimento existia por eu ter sido traído e prejudicado na ocasião.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada esclareceu: “Naquele momento, você fez uma escolha. Certa ou errada, assuma a responsabilidade pela sua decisão e siga em frente. Jamais fique atrelado ao arrependimento por uma escolha equivocada ou pelo comportamento de outras pessoas. As experiências são escolas ou prisões, a depender de como lidamos com elas. Os sentimentos também”. Franziu as sobrancelhas como quem diz que não falaria mais sobre isso e ponderou: “O que nos falta não é o que ficou para trás, mas o que ainda não realizamos. Compreender essa verdade faz germinar a raiz da maturidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa antes de continuar: “Sem esse entendimento, nenhum indivíduo conseguirá sair da encruzilhada na qual se encontra. Se afogará em sentimentos que, por serem considerados de baixo padrão, negará suas presenças e influências. A inveja é um dos sentimentos mais difíceis de se admitir por ser tratada como uma marca de inferioridade pessoal. Entretanto, todos os sentimentos nos percorrem as entranhas. Os melhores e os piores. Sem exceção. Ocorre que, com a negação, a inveja transita do coração à mente pelos becos escuros e escondidos das incompreensões como se fosse uma <em>sombra </em>na noite escura da consciência<em>.</em> Ninguém se defende do que acredita não existir. Sentimentos ignorados adquirem poder para deformar raciocínios e comportamentos. Sem a humildade indispensável para admitir a sua presença e influência, será impossível de a transmutar por outro melhor. Não menos grave, o indivíduo se manterá cativo na vida de outra pessoa, a quem se aprisionou por conexão corrosiva. Isso o faz ficar à margem da própria vida. Um típico comportamento estacionário e de autodestruição, causa de muitas dores, mais comum do que muitos acreditam”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que o tempo me ajudaria a processar o meu sentimento. Somente assim eu estaria apto a reprocessar aquela situação para obter uma compreensão diferente e melhor daquela situação. O xamã me corrigiu: “O tempo não muda nem conserta nada. Pode até distanciar a dor, mas não a extingue. Os sentimentos não se modificam como se fossem estações do ano. Não raro, muitas pessoas atravessam toda uma existência sem conseguir desfazer os males que provocam a si mesmas. Mostram-se incapazes de dissolver os dissabores de experiências mal elaboradas, se acostumando aos sofrimentos como se não houvesse cura ou ficam à espera por um dia mágico que nunca acontecerá”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma breve pausa antes de continuar: “Como ensinavam os povos ancestrais, <em>onde há vontade, existe um caminho</em>. Tudo mais são desculpas e fugas. Não existe a substituição de um sentimento por outro sem que antes ocorra uma eficaz movimentação interior. O que dissolve um sentimento denso é a decisão firme e consciente de não mais o ter em si. A vontade é a força primordial que o arranca do atoleiro dos dias parados e dolorosos. É o que o faz buscar uma melhor compreensão sobre os acontecimentos desagradáveis, a olhar por um viés até então inusitado e impensado, porém, revelador e redentor. Então, a partir de um melhor entendimento – e somente assim –, o sentimento se transmuta em outro, desmanchando amarguras e oferecendo lucidez. O coração encontra uma nova direção para seguir com equilíbrio, firmeza e alegria serena. Do contrário, ainda que recite refinadas teorias para justificar raciocínios tortos e comportamentos erráticos, permanecerá como um viajante perdido diante das encruzilhadas dos sentimentos incompreendidos”. Em seguida, finalizou a conversa com a desconfortável pergunta: “Entendeu?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu disse sim com a cabeça. Todavia, enxergar uma porta não significa já estar pronto para a atravessar. Como antecipado no início deste texto, o que é genuinamente bom quase nunca chega sem esforço ou a necessidade de enfrentar um desafio íntimo. Ninguém volta de Sedona do mesmo jeito que chegou. Desta vez, não foi diferente.</p>
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		<title>Alegria triste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 14:34:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Tinha sido um dia difícil de trabalho. Entre vários problemas comuns ao cotidiano de uma empresa, eu lidava com as exigências crescentes da Fátima, uma talentosa ilustradora de uma série de livros infantis escritos por vários autores brasileiros, ainda inéditos. Cabia a ela criar as imagens que povoavam as narrativas...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Tinha sido um dia difícil de trabalho. Entre vários problemas comuns ao cotidiano de uma empresa, eu lidava com as exigências crescentes da Fátima, uma talentosa ilustradora de uma série de livros infantis escritos por vários autores brasileiros, ainda inéditos. Cabia a ela criar as imagens que povoavam as narrativas dos diversos universos oníricos. A ilustradora as realizava com rara habilidade. Ela era detentora de vários prêmios pelos excelentes trabalhos já realizados. Os primeiros títulos publicados fizeram um grande sucesso. Muitas histórias ainda aguardavam na esteira das edições. Textos que precisavam de lapidação, desenhos à espera da criação. Da ideia original até a obra final há uma longa e trabalhosa jornada. Ocorre que, a cada dia, a talentosa ilustradora se mostrava mais exigente, interferindo no funcionamento da editora em setores que não eram ligados à sua área de atuação. Argumentava que tudo na editora estava interligado e, sendo assim, afetava o modo como o seu trabalho era visto pelo público. Logo, no seu entendimento, apenas exercia um direito que lhe era legítimo. Cobrava mudanças de métodos e posturas, sempre com a ameaça de se desligar do projeto já em andamento, caso suas orientações não fossem atendidas. Impunha alterações nos textos, na fonte das letras usadas na diagramação, no tipo de papel usado para impressão e muito mais. Eram atribuições que não lhe cabia decidir. Embora todos os setores da empresa estivessem conectados, nem todas as decisões lhe eram pertinentes. Outros profissionais respondiam por suas respectivas áreas, de acordo com as suas habilidades específicas. Como ela tinha muito prestígio e era requisitada no mercado por várias editoras, com medo de a perder, embora considerasse descabidas as exigências, eu sempre cedia. Na rotina dos funcionários e colaboradores, ficou inconsciente o zelo de sempre a agradar, ainda que fosse do desagrado de todos. Apesar do sucesso, eu não estava bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu pensava nisso enquanto andava pelas ruas transversais e arborizadas da Gávea, rumo à cafeteria da Bárbara, a barista que havia abdicado da clínica de psicologia sem, no entanto, abandonar os mistérios da psique. Localizada num casarão antigo e bem-conservado, servia espressos, cappuccinos e frapês de sabores únicos. Embora não houvesse qualquer placa ou letreiro na porta, o lugar estava sempre com as mesas ocupadas em seus diversos ambientes, decorados com estantes de livros e harmonizados ao som do jazz, do soul e da bossa-nova, em tom audível, porém baixo, para que ninguém precisasse aumentar o volume da voz para se fazer ouvir. O jardim interno, com sofás e poltronas sombreados por uma frondosa mangueira, era o cenário perfeito às tardes de leitura. Duas vezes por semana, no início da noite, sem nenhum academicismo, mas com a profundidade simples e necessária para estar ao alcance de todos, Bárbara realizava breves palestras sobre as dores e os prazeres da alma. Por vezes, a qualquer hora do dia, ao perceber uma aflição à beira da erupção, se sentava à mesa para oferecer palavras capazes de despertar lampejos de claridade e doses de serenidade. Por mais complicada que possa parecer o problema, onde há lucidez e equilíbrio, existirá um bom caminho. Contudo, não era possível solicitar uma consulta. Era a barista quem escolhia o interlocutor. Ela desconversava dizendo que ali não era um consultório, mas uma cafeteria. Em verdade, era bem mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não havia mesa vaga. Dirigi-me ao balcão para aguardar. Para minha surpresa, encontrei com a Maria Clara, amiga de escola de uma das minhas filhas. Ela sorriu ao me ver. Havia alguns anos que eu não a encontrava. A jovem contou que estava casada com Gabriel, um médico que conhecera quando ambos ainda eram alunos da faculdade de Medicina. Tinham três filhos pequenos. Embora também tivesse se formado – havia se especializado em cirurgia-geral, após um difícil aprendizado na emergência de um concorrido hospital público –, deixara a carreira para se dedicar à família. Assim, o marido podia se dedicar à profissão mais intensamente. Além de ser um homem inteligente e charmoso, ele se tornara um requisitado cirurgião oftalmológico. Tinham adquirido um belo apartamento no Leblon, um dos bairros mais nobres da cidade. Os filhos estudavam em um excelente colégio e todos os anos viajavam para o exterior. Tinha uma vida de princesa, afirmou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Princesas costumam ter uma alegria triste”, ouvimos de uma voz por atrás do balcão. Era Bárbara. A barista nos serviu dois espressos como cortesia pela espera e, antes que eu fizesse qualquer menção à evidente contradição na expressão <em>alegria triste</em>, ela explicou: “Refiro-me à alegria de viver o mundo sonhado, em contraponto com a decepção de não encontrar em si os sentimentos aguardados na chegada ao destino desejado. Então, surge uma dor incompreendida”. Maria Clara disse não ter entendido. A barista esclareceu: “Por fora, tudo perfeito. Por dentro, nada satisfeito”. A jovem mãe admitiu que, de fato, havia nela uma tristeza sem sentido. Sofria de depressão, mas estava medicada. Embora soubesse não existir farmacológico capaz de curar as dores da alma, alegou não haver motivo para se sentir triste. Logo ficaria bem. Tinha uma vida perfeita. Bárbara deu de ombros e ponderou: “Talvez falte você a si mesma. Então, tudo será pouco”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O garçom nos interrompeu para avisar que vagara uma mesa. Perguntou se nos sentaríamos juntos. Assentimos. Aquela conversa precisava continuar. Bárbara nos acompanhou. Depois de acomodados, a barista foi direto ao ponto: “Princesas escolhem suas roupas, sapatos, joias, a marca do carro e o restaurante onde almoçará com as amigas. Em alguns casos, até mesmo aonde a família irá no fim de semana. Enfim, têm um enorme poder para decidir sobre as bagatelas existenciais”. Maria Clara pediu para que explicasse melhor. A barista esclareceu: “A questão reside no poder de decidir sobre o próprio destino. Não me refiro ao destino das férias de verão. Falo em viver de acordo com as próprias percepções e escolhas no concernente ao rumo para onde deseja ir além das aparências e das escolhas rasas. Na pessoa que planeja se tornar e as revoluções internas que precisa realizar. Falo sobre equilíbrio emocional, clareza mental e autonomia material. A maturidade da alma exige a ruptura de todos os tipos de dependência. Enquanto não acontecer, o molde será o modelo dos outros, nunca a escolha por um jeito próprio. O medo de perder algo ou alguém que consideramos fundamentais ao nosso bem-estar, inibe o crescimento de quem originalmente somos. Terminamos por ceder além dos limites da identidade pessoal. Tornamo-nos outro que não nós. A insistência por um estilo de vida sem identificação com a essência que a anima e traduz, embora, muitas vezes, dentro de um padrão social desejado e considerado ideal, também é causa de depressão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole de café e comentou: “<em>Se eu tenho uma vida maravilhosa, por que me sinto triste?</em> Príncipes e princesas perguntam todos os dias a si mesmos. Sentimentos que aparentam não ter sentido, são mensageiros de desconhecidas verdades. Aquilo que tão bem completa uma pessoa pode não caber em outra. Não se trata de número e tamanho, mas de tempero e sabor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Clara se mostrou desconfortável. Disse que a barista estava flertando com a grosseria. Bárbara pediu para que as suas palavras, apesar de duras e fortes, não fossem recebidas com nenhum resquício de agressividade. Não tinha essa intenção: “Apenas proponho raciocínios que, ao se opor a ideias, conceitos e padrões até então aceitos sem grandes questionamentos, rasgam o tecido colorido de uma realidade de feições agradáveis. Contudo, por trás, esconde sentimentos contraditórios, incapazes de sustentar momentos mais profundos de felicidade. Enquanto a origem da dor restar incompreendida, apesar de uma vida de contornos perfeitos, persistirá essa alegria triste como lembrança da essência esquecida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A jovem mãe balançou a cabeça em negação. Amava e admirava o marido. Amava os filhos e vivia o sonho de uma vida perfeita e confortável. Não lhe faltava nada, garantiu. Bárbara se calou por alguns instantes. Lembrou do ensinamento de um antigo alquimista de almas que dizia que<em> enquanto você não tiver a si mesma, nada será suficiente.</em> No entanto, aquilo já fora dito de outra maneira naquela conversa. &nbsp;Bebeu sem pressa um gole longo de café, como se avaliasse o poder das próximas palavras e, enfim, decidiu pelo golpe necessário: “Você atravessou noites insones de estudos para as provas da faculdade, estagiou nos umbrais do desespero nas salas de emergência dos hospitais públicos para, ao final, somente encontrar um marido e se tornar mãe&#8230;”, fez uma pausa propositalmente dramática antes de concluir a pergunta: “&#8230; ou há algo igualmente valioso que foi deixado para trás?”. Houve um silêncio semelhante a uma confissão. Sem esperar pela resposta reprimida, a barista a lembrou: “É preciso resgatar o que foi abandonado em si mesma. Ninguém abandona um dom em vão. Todos temos um dom. O seu é o de curar. Todo dom revela o amor sagrado de uma alma pela vida e melhor instrumentaliza o indivíduo a escalar as montanhas da existência”. Em seguida, se referindo ao conflito aparente entre a família e a profissão, arrematou: “Será que uma escolha anula a outra ou, em muitos casos, cabe uma convivência harmônica entre interesses de valores tão importantes?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se tivesse com a alma desnuda, Maria Clara a olhava desconcertada. A barista prosseguiu: “Cada indivíduo precisa traçar o mapa do seu desenvolvimento espiritual. Não é fácil, pois o sagrado precisa se manifestar nas situações corriqueiras do cotidiano, e não apenas dentro de igrejas e templos como muitos imaginam. A pessoa evolui pelo que faz, nunca pelo que pensa ou sente, por mais nobres que sejam os seus pensamentos e sentimentos. O grau de dificuldade aumenta quando nos damos conta de que não há dois mapas iguais. Se percepções e sensibilidades são diferentes, e sempre são, as rotas também hão de ser. Daí, nenhuma comparação é sensata”. A jovem esposa pediu para que falasse um pouco mais sobre esse tal mapa. Bárbara explicou: “O mapa do desenvolvimento espiritual é um projeto original de autoconstrução. Nada contra com quem passa as manhãs à beira-mar, entre aulas de pilates, conversas com outras mães na porta da escola dos filhos e a leitura de bons romances ou deliciosos chás no meio da tarde. Podem acompanhar mais de perto o desenvolvimento dos filhos e estão sempre bem-dispostas à noite. Não sem razão, muitos desejam a rotina desses dias tranquilos. Não por falta de bons motivos, considerariam loucura abrir mão desse maravilhoso sossego em troca do estresse e da angústia diária de tentar salvar vidas banhadas em sangue, corpos atravessados por tiros ou quebrados em acidentes. Contudo, o que é o inferno para muitos, é a autêntica porta do céu para poucos”. Olhou com seriedade para Maria Clara e concluiu: “Há almas forjadas para levar luz a quem está perdido no breu de dores profundas. Não conhecerão a autêntica alegria enquanto se mantiverem distantes do seu propósito original”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O café de Maria Clara havia esfriado. Fiz menção em pedir para trocar. Ela olhou para o relógio e recusou a oferta. Alegou precisar pegar os filhos na escola. Um tanto sem jeito, agradeceu a conversa, se despediu e foi embora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bárbara me olhou como quem diz <em>essa reação é comum à descoberta do destino à espera</em>. Pediu ao garçom que trouxesse mais dois espressos. Duplos, acrescentei. Eu precisava pensar. De alguma maneira que eu ainda não conseguia entender, aquela conversa mexera comigo. A barista sorriu e provocou: “Que tal falar um pouco da alegria triste que transborda dos seus olhos?”. Estranhei. Disse não saber ao que ela se referia. Bárbara explicou: “Quando alijamos escolhas por recear consequências ou perdas, deixamos germinar uma erva daninha chamada dependência, capaz de sufocar a alma, provocar tristeza e, com o tempo, dar margem à depressão. Fruto do medo e da equivocada crença quanto à própria capacidade de superar as inevitáveis dificuldades, pois são inerentes à existência, a dependência traz a reboque outra enfermidade da alma: a estagnação, que faz apodrecer o ânimo, a vida e os sonhos. Uma grave perda. Ainda que, aparentemente, tudo ao redor esteja perfeito, o coração não está satisfeito. É preciso reagir. Toda dependência nos torna menos quando poderíamos ser mais”. Não foi difícil associar aquelas palavras às crescentes exigências e absurdas interferências realizadas pela ilustradora da coleção de livros infantis da editora. Embora considerasse abusivo o comportamento da Fátima, eu tinha medo de, ao contrariar as vontades dela, não mais contar com o seu talento nas publicações da editora. Uma relação nada saudável que, por consequência natural, me deixava mal, apesar dos excelentes ganhos financeiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que qualquer relação interpessoal terá de lidar com o fator <em>outro</em>. Sempre haverá diante de mim uma pessoa diferente em vários aspectos daquele que sou. Olhares e intenções, percepções e sensibilidades, escolhas e desejos. Bárbara não discordou, mas ponderou: “As diferenças podem ser elementos de interação altamente positivos, desde que sirvam para ensinar e indicar impensáveis possibilidades de crescimento. Cada um é de um jeito. Logo, toda relação tratará de dois universos distintos que coexistem em busca de uma convivência saudável. A intercessão entre esses universos nunca será integral, acontecerá sempre em parte, com maior ou menor interação, a depender da sintonia e das afinidades que possuem. Entretanto, isso não é um problema. Ao contrário, quando bem trabalhado, impulsionará improváveis soluções e aprendizados mútuos. Para tanto, ninguém deve se acomodar à sombra de ninguém. Faz-se necessário que cada pessoa aprenda a caminhar com a clareza gerada pela própria luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falei que não conseguia encaixar aquelas palavras na situação vivida com a ilustradora da editora. A barista explicou: “Refiro-me ao dilema entre coerência e conveniência”. Bebeu um gole de café e continuou: “Coerência é a ação exata e alinhada ao entendimento da consciência. Fazer o certo sem medo das consequências materiais. A coerência é base da abnegação, a virtude que prioriza os valores espirituais em detrimento às vantagens mundanas. Por sua vez, a conveniência dialoga com o medo e a acomodação, aceita a dependência e se deixa corroer pela estagnação. Quando sobra conveniência, falta coerência. Onde há privilégios, inexiste justiça. A coerência exige riscos e sacrifícios, enquanto a conveniência acena com comodismo e a ilusão de segurança. A genuína alegria nunca está no prazeres do mundo, mas na dignidade do espírito que anima, identifica e traduz cada indivíduo”. Esvaziou o café da xícara e concluiu: “A coerência é um dos pilares da ética, a arte da nobreza nas virtudes aplicadas a todas as situações do dia a dia. No outro lado da moeda está a conveniência oportunista, mentirosa e covarde. Oferece atalhos que nos fazem retornar ao ponto de partida, numa triste repetição de ciclos viciosos. A coerência é a porta estreita da lapidação evolutiva, da dignidade em fazer os movimentos certos, da liberdade em viver sem medo e da paz interior conquistada em uma viagem realizada nos trilhos da consciência. Sem coerência o amor é raso e a felicidade permanecerá como uma figura de mera ficção”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fomos interrompidos pela chegada repentina e abrupta de Maria Clara. Com os olhos inchados e avermelhados por lágrimas sinceras e irrefreáveis, deu um beijo delicado no rosto da barista, abriu a bolsa, mostrou um estetoscópio como quem revela um segredo e uma decisão. Sussurrou <em>muito obrigado</em> e foi embora. Uma revolução intrínseca dera início naquela tarde. Sorrimos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, Bárbara se levantou para retornar ao trabalho. Sem precisar dizer palavra, me deixou com um inusitado conteúdo, repleto de instigantes elementos para eu refletir e decidir entre a coerência e a conveniência dos meus atos recentes. Ocorre que, depois de compreendermos o significado e o alcance de alguns comportamentos, as escolhas se resumem entre libertar a alma ou a manter aprisionada no medo e na dependência. A decisão se define entre a alegria ou a tristeza dos dias. Quando a escolha amadurece, se torna simples e inevitável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na manhã seguinte, algumas mudanças ocorreram na editora. Tive uma conversa franca com a ilustradora. Queríamos continuar trabalhando com ela, porém deveria se ater à sua área de atuação profissional. Compreender limites é fundamental para se viver com respeito. Sob as mesmas e inconsistentes alegações, Fátima se recusou a aceitar as novas condições. Demitiu-se. Tivemos de buscar no mercado um novo ilustrador. Como demorou mais tempo que o previsto, o projeto atrasou e amargamos um prejuízo considerável. Nada que afetasse o bem-estar de viver em harmonia com os princípios e valores que moviam a minha consciência. Com coerência, sem ceder às tentações das conveniências. Apesar das perdas e das incertezas que me aguardavam por causa dos necessários ajustes de rota, que sempre nos levam a lugares desconhecidos, eu estava em paz. Sentia uma alegria que pareceria estranha se não me fosse dado saber a sua verdadeira origem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como ninguém é igual a ninguém, o traço de dois artistas também é diferentes. Quando contratamos o Jonas, o novo ilustrador, a solução encontrada foi dividir as coleções. A nova coleção trazia textos inéditos, agora ilustrados por outro desenhista. Um título diferente foi necessário para registrar a diferença de estilos. Como o hábito e o gosto podem se tornar um vício paralisador – vale salientar a absurda mania de comparar as diferenças: o que é único cabe em si, com os próprios dissabores e belezas, sendo incabível usar uma mesma régua para medir algo extraordinário por não haver outro igual, como eu e você –, no início, o público estranhou e rejeitou as linhas que desconheciam. Com o tempo, e aos poucos, o talento, a qualidade e o trabalho dedicado terminam por florescer. Até que certa manhã, depois de alguns meses, ao entrar na editora, fui surpreendido com a notícia de que a nova coleção havia se igualado à anterior na preferência dos leitores. As vendas refletiam isso. De certo, a lucidez de que a vida nunca abandona quem vai ao encontro dos seus autênticos significados. De certo também, que a cafeteria da Gávea oferece bem mais do que deliciosos espressos, cappuccinos e frapês. &nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>Perdidos e achados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 20:02:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Não, não é verdade. Isso não pode estar acontecendo! Esse grito rasgou a madrugada silenciosa do mosteiro. Acordei assustado, ainda sem saber se aquele desespero era decorrente de um sonho ruim ou vinha da voz de algum monge em um quarto próximo. Aquietei-me para ouvir melhor. Após alguns instantes, apesar...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph"><em>Não, não é verdade. Isso não pode estar acontecendo!</em> Esse grito rasgou a madrugada silenciosa do mosteiro. Acordei assustado, ainda sem saber se aquele desespero era decorrente de um sonho ruim ou vinha da voz de algum monge em um quarto próximo. Aquietei-me para ouvir melhor. Após alguns instantes, apesar das paredes de pedra, foi possível escutar um choro que mais se assemelhava a um pranto. Fui para o corredor na tentativa de descobrir quem necessitava de acolhimento. Sem precisar andar muito, percebi que os lamentos vinham do quarto ao lado. Quem o ocupava era o Hermes, um monge grego, residente em Atenas, com quase setenta anos de idade. Um homem sensato, gentil e simpático, muito admirado por todos no mosteiro, integrante da Ordem há mais de três décadas. Formado em Economia, era professor da principal universidade pública do país. Hermes representava os valores ancestrais de ética, estética e mística preconizados por Platão, um conterrâneo milenar. Valia-se de um precioso código pessoal de conduta, confeccionado ao longo da existência, sempre se questionando se as suas ações e escolhas primavam pelo bem e pelo justo. Entregava na exata medida do merecimento de cada pessoa, independentemente do sentimento que nutria por ela. Embora praticasse atividades físicas e mantivesse uma saudável dieta mediterrânea, não se descuidando nem do corpo nem da aparência – jamais como vaidade, mas como exercício de autoestima –, a sua preocupação final versava sobre a estética da alma, ideal maior de beleza. A mística, na acepção original da palavra, o incentivava a buscar a verdade além dos últimos limites alcançados pela ciência. Sempre equilibrado e atencioso, era muito procurado pelos monges mais jovens, quando em busca de orientações e conselhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabíamos do falecimento recente da sua esposa. Diferentemente dos outros períodos de estudos, desta vez, chegara abatido. Apesar da delicadeza e polidez de costume, Hermes se mostrara um tanto quanto arredio. Nas horas vagas, se isolava na varanda ou realizava longos passeios pela montanha. Todos compreendiam a mudança de comportamento face o impacto do fato. Tratava-se de uma situação pontual. As constantes reflexões eram necessárias para rearrumar a vida dentro de si, a partir de agora, sem ter ao lado alguém com quem brindou os bons momentos e dividiu as angústias no avesso dos melhores desejos. Por definição, luto é a dor oriunda de uma perda. Qualquer que seja. Há diferentes tipos de perdas. Algumas são mais significativas e difíceis de lidar. Quanto maior o apego àquilo que se perdeu, mais enredado ficará o indivíduo nas teias do sofrimento. Quando a perda representa o único pilar de sustentação, a pessoa desaba.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curar-se do luto exige uma restruturação do olhar e, muitas vezes, uma reconstrução no jeito de ser e viver. &nbsp;A depender da perda, não raro, será necessária uma completa reinvenção de si mesmo. Como nem sempre estamos prontos e abertos às indispensáveis transformações, sem saber, autorizamos o sofrimento a deitar raízes. Algumas permanecem por tanto tempo que o sujeito passa a considerar o sofrimento como parte inerente da sua personalidade. Não é. A intensidade e o tempo da dor variam segundo o nível de consciência, conforme a capacidade de elaborar a experiência com exatidão, extraindo do resultado imensuráveis doses de amor e sabedoria. Então, o sofrimento se desfaz para sempre. Enquanto não acontecer, a dor se alargará pelas entranhas e deixará um sabor amago no coração. De acordo com esse raciocínio, e por conhecermos a enorme capacidade de resolução e superação do monge grego, acreditávamos que ele logo ficaria bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso a estranheza do pranto e do grito vindos do seu quarto. Quando ele abriu a porta, tomei um susto. Diante de mim, encontrei um homem destroçado. O caos nos arranca tudo que não está agregado à essência. Leva embora o que é adorno e aparência. Quem não ergue os fundamentos que o manterá firme e seguro em si mesmo, restará destruído após cada ventania. Não o reconheci. Apenas o abracei por longos minutos. Não era hora de falar. Aquele homem de cabelos brancos chorou como um menino perdido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de deixar transbordar as emoções que o sufocavam, o convidei para irmos à cantina do mosteiro. Hermes precisava falar e eu estava disposto a ouvir. Ele aquiesceu. Preparei um bule com café fresco e o coloquei sobre a mesa. Quando fui pegar as canecas, ouvi uma voz atrás de mim: “São três, por favor”. Era o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele se acomodou à mesa conosco, olhou para o Hermes, arqueou os lábios em um singelo, porém sincero e belo sorriso, para dizer, sem a necessidade de expressar palavra, que estava disposto a usar o próprio coração na tentativa de o resgatar dos mares revoltos do sofrimento. Quem já se afogou nas águas das incompreensões ou se viu retido pelas correntezas do luto, sabe o valor e a importância desses salvamentos. São incomensuráveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao expor as entranhas da sua dor, fui surpreendido. A partida de Helena, sua esposa, para as Terras Altas, não era razão primordial do desespero como eu imaginava. Embora a amasse profundamente e sentisse a sua falta todos os dias, tinha aprendido a não tratar a morte como uma perda, mas como uma plataforma de embarque, o ponto de partida para um novo trecho de aprendizados e realizações, se valendo de novas e impensáveis ferramentas e circunstâncias, em prol da própria evolução. Helena merecia prosseguir e avançar. A morte lhe ofereceria renovação e regeneração sob condições mais adequadas aos progressos conscienciais que alcançara. A morte jamais significaria um fim ou uma perda. Tratava-se de uma necessária e importante transformação. Nunca uma punição, porém um ato de amor da vida pela vida. Como a fruta que, consumida ou apodrecida, renasce revigorada através da própria semente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem dúvida, a saudade que sentia de Helena era enorme. Ao contrário do entendimento comum, a saudade não era motivo de tristeza. Era fonte de alegrias. Afinal, só sentimos saudade dos momentos bons. Não a saudade como nostalgia, do desejo absurdo de retroceder no tempo, mas de reconhecer que somente há saudade onde existe amor. A ausência de saudade pode indicar o vazio de um existência. De outra face, a sua presença narra os melhores capítulos das nossas vidas. O amor vivido traz alegria, esperança e dinamismo aos movimentos que ainda nos restam fazer. Além de lembrar ao amor que sempre haverá muitos motivos para seguir amando mais e melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Velho tornou a sorrir. Desta vez em aprovação à plena compreensão de Hermes quanto a esse complicado, porém, delicado e bonito fenômeno, inevitável e natural, denominado morte, ainda tão mal compreendido. O problema, comentou o monge grego, foi que na esteira da partida de Helena, chegaram outros acontecimentos difíceis de lidar. Nos últimos meses, alguns amigos também tinham partido para as Terras Altas, enquanto outros foram acometidos por enfermidades que lhes furtaram a autonomia motora ou a de manifestação de vontade. Isto o entristecera sobremaneira. Havia também os amigos que se mudaram para longe, no intuito de morar mais perto dos filhos e dos netos. Helena e ele tinham um filho, Andreas, que também se graduara em Economia, mas residia na América, onde trabalhava no mercado financeiro. Para Hermes, Nova Iorque era uma cidade maravilhosa para se visitar, frenética demais para morar. Embora estivesse intacta a autonomia de movimentos físicos e cognição mental, a saúde mostrava sinais de declínio. Não apenas a perda de força muscular e reflexo, comuns a idade. No seu caso, a artrite e a artrose, heranças genéticas, o obrigavam a sessões frequentes de fisioterapia, além dos medicamentos de uso permanente. Era como se tivesse acendido um alerta sobre o prazo de validade do seu corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se não bastasse, algumas horas atrás, sem sono, decidiu olhar a caixa de e-mails. O Congresso da Grécia tinha promulgado uma lei que estabelecia aposentadoria compulsória aos professores a partir dos sessenta e cinco anos. Como já ultrapassara essa idade, a universidade comunicou o afastamento do cargo e das funções exercidas por décadas e que ainda lhe proporcionavam alegria e prazer. Ele adorava lecionar e conviver com os jovens, repletos de ideais, sonhos e uma enorme vontade de viver. Sentia-se bem no frescor do ambiente acadêmico, do qual, de uma hora para outra, fora alijado. Com a aposentadoria, teria um corte drástico em seus vencimentos. O tratamento de Helena drenara a poupança amealhada ao longo dos anos – não se lamentava quanto a isto. Ela merecera os melhores médicos e cuidados. Ocorre que, naquela noite, com a redução dos ganhos, as perdas pareciam ter atingido o ápice, num estágio que não imaginara nem nos piores cenários. Dentre outras perdas, acabara de perder, não apenas o status social e profissional, mas também o acesso a bens de consumo e de conforto. Nada disso fazia parte dos seus planos. Como se a vida tivesse virado inimiga, e portando uma navalha de sonhos com corte afiado, rente e insaciável, retirava tudo, não somente o que possuía, mas também o homem que havia sido. Naquele instante, parecia ocorrer uma ruptura interna, entre quem foi e quem passaria a ser. Esta fragmentação inesperada causava um sofrimento inominável. Teria que se contentar com menos em todos os aspectos da vida.&nbsp; Precisaria se reinventar, encontrar novos motivos para viver. Duvidava se conseguiria. As perdas pareciam irreparáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento de inimagináveis mudanças, vivia uma enorme contradição interior. Ainda que pesasse o conhecimento que possuía sobre os arcanos da vida, sentia falta da Helena, na contramão das verdades que conhecia. Uma mulher forte e amorosa. Ao lado dela nunca sentira medo ou insegurança. Juntos se mostravam maior do que o maior dos problemas. Moldavam o futuro conforme as realizações do presente. Esta fé também se perdera, pois, mesmo que evitasse pensar nos acontecimentos como perdas, percebia a vida se desmoronando. Os fatos se mostravam mais convincentes que as ideias. Considerou a possibilidade de estar errada a crença de que as perdas eram ilusórias. Talvez fossem reais. Naquela noite teve a horrível sensação de que, pelo ritmo avassalador dos últimos dias, cada vez mais corrosivos e ásperos, em breve perderia o que tinha, as referência que possuía, aquele quem tinha sido e tudo mais que o aprazia. Restariam apenas as ruínas de si mesmo. Não sabia como lidar com isso, confessou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Velho o ouviu sem qualquer aparte. Bebeu um gole longo de café, como quem procura a exatas palavras, e argumentou: “Toda perda pode ser real ou ilusória, a depender de como o indivíduo lida com os acontecimentos. Quando se recusa a aceitar os inevitáveis movimentos da vida, fica atado à inútil tentativa de reter algo que não tem mais como possuir ou estar ao lado de alguém que já se foi. Então, a perda se mostra real e dolorosa. Não por culpa da vida, mas como resultado da incapacidade de encontrar a riqueza escondida por trás de cada partida. Por não compreender que a vida nos toma o que não mais cabe ficar, desperdiçamos o solo fértil da criatividade e do imponderável. Faça o melhor por si, ofereça o melhor de si e deixe a vida o surpreender. Sejam pessoas e momentos, sejam aprendizados e crescimentos. A vida é farta e generosa, embora nem sempre a percebamos dessa maneira, mormente durante o caos. Os imaturos julgam o caos pelo grau de destruição, os sábios o aproveitam pelas oportunidades de renovação. Os tolos tratam o caos como maldição, os indivíduos maduros o percorrem como uma estrada de regeneração. Regenerar-se é se reconstruir a partir do próprio âmago. Ninguém consegue isso sem se conhecer mais e melhor. Não há riqueza maior. Para estes, o caos é sagrado”. Antes que o monge grego interviesse, o Velho se adiantou ao raciocínio: “Não há idade para isso”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde que ingressara na Ordem, Hermes alegou haver aprendido a enfrentar os reveses da existência, pois bem sabia que, além de inevitáveis, são movimento renovadores e construtivos. Tinha se preparado para todas aquelas situações. Se os monges mais jovens o procurassem para conversar, seria capaz de dar uma aula sobre o assunto. No entanto, mostrava uma enorme dificuldade de aplicar a teoria à prática. Talvez pelas muitas mudanças involuntárias em um curto espaço de tempo. A elaboração em conjunto de todas aquelas experiências dificultava a melhor resolução, considerou. O Velho disse sim com a cabeça e esclareceu: “A vida tem uma lógica e um modo de operar que quase nunca é de fácil compreensão. Como ninguém é igual a ninguém, a aplicação do método pedagógico também difere de uma pessoa para outra. Por isto, as comparações são incabíveis”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pousou a caneca na mesa e pontuou: “Embora a sequência rápida de acontecimentos desagradáveis tenha afetado momentaneamente o seu equilíbrio e a sua lucidez para enfrentar a torrente de mudanças, emperrando as engrenagens da força de movimento, não há nada que o impeça de, a qualquer instante, retomar o poder sobre si mesmo para seguir em frente. Ainda que entenda que as perdas são ilusórias, elas se tornam reais quando não se compreende o exato luto que o envolve. Então, aos poucos, a dor se espraia e instala um império. O indivíduo fica perdido em si mesmo. Todo sentimento tem um nome. Enquanto não identificar a verdadeira razão do luto, não conseguirá se reconquistar. Continuará dominado por um sofrimento que, enquanto a sua origem se mantiver oculta, tornará a cura impossível. Não existe remédio para uma dor desconhecida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hermes perguntou do que ele falava. O Velho explicou: “Você vive o luto da velhice”. O grego o olhou assustado com a utilização da palavra <em>velhice</em>, como se fosse proibida ou de mau gosto, principalmente por ter sido pronunciada por alguém sempre tão meigo e gentil. O bom monge o alertou: “Não tenha medo das palavras. Usar palavras bonitas não diminui o problema. Ao contrário, muitas vezes o mascara, passando uma sensação equivocada por minorar ou disfarçar a sua gravidade. Ninguém modifica a realidade com belos discursos, apenas com boas e acertadas ações. Tudo mais é engano e maquiagem. Usar a palavra exata para descrever a exata situação é de muito valor para a compreensão e o enfrentamento da verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O monge grego concordou com a cabeça. O Velho prosseguiu: “A Humanidade, ainda perdida em seus anseios imaturos, não está preparada para lidar com a estrada do tempo. Trata-se de um desconhecimento por negação. Ao evitar a verdade, as multidões se lançam no abismo do isolamento, do abandono ou do desespero à medida que a viagem se aproxima do último trecho. Olhamos para o envelhecimento como quem escuta o apito de aproximação do trem da morte. Um erro crasso. Faz-se necessário lidar com a velhice como a oportunidade de deixar para trás os apetrechos que se valeram necessários, mas que daqui em diante, teremos de aprender a seguir sem eles. Isto fala sobre autonomia e ensina muito sobre liberdade, dignidade e paz. Serve para tudo que gostamos e para todos que amamos. Perdemos as coisas, mas ficamos com as boas experiências que elas nos proporcionaram. As pessoas se dispersam pelo caminho – afinal, cada qual tem o próprio rumo e necessidades de aprendizado e evolução –, mas deixam conosco o amor e as histórias que dão sentido, cor e mel à vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, fez uma pergunta de simples retórica: “Já se atentou que nunca fomos treinados e educados, quando jovens, a projetar a vida durante a velhice?”. Sem aguardar a resposta conhecida, continuou: “Mesmo quem se presta ao exercício, o realiza com idealizações irreais, abrandadas por doces cenas de mera ficção. Ninguém quer olhar para as inevitáveis limitações, cerceamentos e mudanças impostas pelo envelhecimento. <em>Comigo será diferente</em>, mentem para si mesmos. Por estarmos despreparados para a fase derradeira do ciclo, terminamos por enfrentar a velhice como se fosse um acúmulo de perdas, desperdiçando as fantásticas oportunidades que o ocaso da existência oferece. Se faz luto – mantendo-se dolorosas perdas – num lugar dentro da gente onde cabem maravilhosos achados”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os olhos do monge grego indagavam que achados seriam esses. O Velho os elencou: “A vida é sabia. As crescentes limitações do corpo físico, abrem espaço ao florescimento da alma. Trata-se do último chamado para o reposicionamento das peças no tabuleiro das prioridades. Entregamos as peças pesadas para valorizar o uso das que oferecem leveza. Se houver atenção e desprendimento, o jogo se tornará favorável. O que verdadeiramente tem valor não cabe em nenhuma caixa, não precisa de assinatura nem serve como moeda de troca”. Arqueou os lábios em um lindo sorriso e elencou: “Perdoe a todos, confie em si e siga em frente. Para ser livre, ame sem reter. Para viver em paz, oriente sem tentar convencer. Para ser feliz, faça sem possuir.&nbsp; Para ser digno, basta a verdade. Para o amor germinar, servem as virtudes aplicadas ao cotidiano. Todas essas conquistas dependem apenas de percepção e sensibilidade. Nada mais. Não existe riqueza maior. Sei que sabemos disto, mas nem sempre lembramos disso. Então, no esplendor da sua sabedoria, a vida nos oferece a velhice do corpo como um elixir sagrado para o rejuvenescimento da alma. Sagrado é tudo aquilo que nos torna pessoas melhores. A arte de envelhecer fala sobre ser mais com menos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhou por instantes pela janela. O céu começava adquirir os tons rosa e amarelo típicos das manhãs. Esvaziou a caneca e pontuou: “A velhice nos toma muitas coisas. Algumas, de muita importância. No entanto, nos oferece outras ainda mais valiosas. Não se trata de uma troca, mas de imperdíveis chances de transformação. Troca tem preço, transformação tem valor. O entardecer da existência pode proporcionar tesouros como equilíbrio emocional, desprendimento material, melhor aceitação quanto às vontades e verdades alheias, uma percepção mais cristalina da realidade e profunda da vida, maior lucidez e liberdade consciencial. Não há época mais adequada à plenitude”. Pousou a caneca na mesa e finalizou: “São dias perfeitos para rever conceitos, costumes, ideias, sentimentos, atitudes e hábitos. Uma última oportunidade de reconstrução, desta vez, tendo somente a própria essência como matéria-prima. Mais do que um achado, o derradeiro trecho da viagem pode proporcionar as conquistas mais importantes de uma existência”. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ninguém mais disse palavra. Hermes precisava se reposicionar perante a si mesmo e diante da vida. Podia se acovardar, se esconder e lamentar. Podia também agradecer, se reerguer e bailar com a vida. Sempre há escolhas. O sorriso franco de gratidão do monge grego encerrou a conversa. Os olhos marejados diziam que a lição restara aprendida. Uma decisão silenciosa havia sido tomada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns dias se passaram. Percebi em Hermes uma agitação juvenil. Não me refiro à imaturidade, mas quanto à vitalidade e ao frescor típicos da juventude, cujo melhor significado se revela na irrefreável vontade de crescer e realizar. Quando não estava assistindo às aulas, se mantinha concentrado em anotações e troca de mensagens. Achei estranho e comentei com o Velho. O bom monge me tranquilizou: “Não há motivo para preocupação. Hermes decidiu aproveitar todos os anos de estudo em Economia e o enorme tempo disponível, graças a tudo aquilo que considerava como perda, para iniciar um antigo projeto. Junto com um amigo empresário, que passou a direção da empresa para os filhos, darão início a uma escola de negócios, no intuito de formar novos empreendedores. Cursar Economia e Administração é apenas parte do que se precisa para enfrentar as muitas dificuldades, comuns ao complicado e competitivo mundo dos negócios. Este desconhecimento faz com que muitas pequenas empresas não consigam resistir aos obstáculos iniciais, gerando frustrações ao abortar voos que poderiam ser prósperos e de longo alcance. Ele está animadíssimo para reverter o cenário”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei ao Velho se, na sua opinião, o projeto da escola daria certo. Ele me lembrou: “Manter-se jovem é continuar a ter sonhos, metas e propósitos, independentemente da idade que se tenha. É não desistir nem se acomodar. É seguir lapidando as próprias ações, mantendo-as boas, justas e saudáveis. Não se assuste se houver dias de recaídas e desânimo. Os resultados, ora não serão os esperados, ora demorarão mais que o previsto. É assim mesmo. Isto não traduz derrotas, mas convida para exercícios de versatilidade, lucidez, disciplina e fé. A vitória reside na luz das melhores ações, nem sempre no brilho dos resultados desejados”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Presenteou-me com um lindo sorriso e finalizou a conversa: “Nos últimos dias, Hermes rejuvenesceu e encerrou as perdas. Entendeu e aceitou o desafio da evolução. O processo de aprimoramento precisa continuar, agora, com diferentes ferramentas e sob novas condições. Ele está prestes a viver algumas das experiências mais encantadoras da sua vida. Sem importar o que acontecerá, haverá muitos achados. O verdadeiro sucesso consiste nas vitórias sobre si mesmo. Ele está no caminho certo. Basta prosseguir”. Em seguida, disse que precisava podar as roseiras do jardim interno do mosteiro. Observei-o se afastar com o seu passo lento, porém, seguro.&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>As paixões</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 18:26:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Sou um amante das manhãs de sol, mas confesso que um céu estrelado ou uma noite de lua crescente me trazem uma indizível inspiração de transcendência. Naquela madrugada, enquanto caminhava da estação de trem até a oficina do Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, pelas ruas tortas e estreitas da pequena e charmosa cidade, próximo à montanha que abrigava o mosteiro, tive como companheira uma lindíssima lua cheia, que me recitava poesias impossíveis de traduzir. Eram dias de empolgação, preocupação e ansiedade. Momentos assim, mais embotam do que clareiam a mente. Eu passara recentemente por uma transição angular. Depois de décadas como publicitário, havia deixado para trás um importante capítulo profissional para iniciar uma carreira como editor. Os negócios seguiam com as dificuldades comuns aos empreendimentos jovens, que, como qualquer ente imaturo, necessitava das experiências oferecidas pelas noites escuras, não apenas para amadurecer, mas também fazer com que a mais pura originalidade pudesse florescer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sou como o aço forjado no fogo</em>, bradam os guerreiros. <em>Sou como o barro moldado nas mãos do oleiro</em>, sussurram os monges. Aqueles se valem da força para superar os obstáculos, enquanto estes escolhem a suavidade como meio para os atravessar. Os guerreiros lutam bravamente para sobreviver às noites escuras. Os monges simplesmente as navegam. Para aqueles, as noites são inimigas; para estes, valiosas professoras. Não existem para impedir, mas para ensinar. Eu era um guerreiro. Movia-me por paixão. Os dias eram de lutas e, por isto, se mantinham impróprios à navegação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dia ainda estava longe de amanhecer quando entrei na oficina do Loureiro. O encontrei confeccionando uma linda bolsa de couro grená, com a mesma mestria com que costurava ideias. Fui recebido com um sorriso sincero e um abraço apertado. O elegante sapateiro vestia uma camisa de linho azul claro, com as mangas dobradas até os cotovelos para não atrapalharem o serviço, e uma calça caqui de fina alfaiataria. Os sapatos de couro eram de fabricação própria. A barba branca era curta e bem aparada, ao avesso dos cabelos fartos que, embora também brancos, estavam rebeldes e despenteados. Sem demora, ele preparou um bule de café fresco e colocou duas canecas sobre o pesado balcão de madeira. A conversa fluiu com a naturalidade habitual de dois amigos que emendam assuntos como se fossem trechos de estradas sem fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar das dificuldades inerentes aos novos negócios, o desempenho da editora superava as melhores expectativas. Graças, sobretudo, ao excepcional trabalho de um casal. Ele, escritor; ela, desenhista. Tinham vertido para o universo dos quadrinhos romanceados o livro <em>A voz do silêncio</em>, um clássico da Teosofia de Helena Blavatsky. Ao mudarem o formato da obra, a tornaram acessível a um maior número de leitores. Os vários ensinamentos extraídos do Budismo pela escritora, restaram mais facilmente compreendidos. A linguagem poética, e um tanto quanto hermética utilizada no texto original, foi substituída por imagens de ação. Embora o texto tenha ficado mais cru, expôs de maneira simples algumas práticas fundamentais à iluminação, até então incompreendidas por boa parte do público ocidental. O sucesso foi enorme e imediato. Eu havia adquirido os direitos internacionais de publicação. A experiência em alguns países da América Latina tinha sido bem-sucedida. Era hora do grande passo: o hemisfério norte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava animadíssimo. Além de um tanto quanto preocupado. Ocorre que, na esteira do sucesso, os autores receberam uma fabulosa proposta de uma poderosa multinacional para que trocassem de editora. Essa empresa era, na verdade, um enorme conglomerado de editoras, presente em quase todos os cantos do planeta. O casal, claro, adorou a ideia e a oferta. A multinacional tinha um inegável poder de publicação e penetração, algo impensável à minha pequena editora. Contudo, era a minha chance de crescer. Eu era apaixonado tanto pelo meu negócio quanto pelo universo literário. Sequer cogitei a ideia de rescindir o contrato. Ainda que tivessem me oferecido uma boa indenização, a longo prazo, os meus lucros ultrapassariam, em muito, a oferta do conglomerado. No mais, eu queria fazer do meu jeito a edição de uma obra que fora descoberta e ganhara corpo dentro da minha pequena editora. Isto me encantava e me deixara apaixonado por todo o processo, da idealização à realização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o conglomerado, o casal ganharia rapidamente muito dinheiro. Assim como eu, eles tinham sonhos. O que nos afastava era a questão do tempo. Eles tinham pressa. Era-me impossível acompanhar o novo ritmo que lhes fora proposto. Como resultado desse impasse, eu havia me tornado réu em uma ação judicial cuja finalidade era forçar a rescisão contratual. Contratei um renomado escritório de advocacia para que os meus direitos fossem respeitados. A lei estava do meu lado, me garantiram. Embora me afiançassem as enormes chances de sucesso nessa batalha jurídica, um veredito favorável não era uma garantia absoluta. Preocupações e incertezas me rondavam os dias. Dali a dois meses, haveria uma primeira audiência. As noites estavam maldormidas. Por enquanto, eu ainda conseguia resistir aos ansiolíticos. Não sabia até quando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Narrei esses fatos ao sapateiro antes mesmo do primeiro gole de café. A ansiedade transbordava na fala rápida e nos gestos de impaciência, como se o tempo fosse um inimigo por demorar a me fazer as vontades. Loureiro me ouviu com atenção e sem qualquer interrupção. Ao final, comentou: “A reunião de todas as suas preocupações, inseguranças e medos é incapaz de lhe modificar o destino. Não se atenha a elas. De nada servem. Somente as suas ações têm tamanho poder. Caso não aprenda a lidar com as contrariedades inerentes à existência, compreendendo os aspectos educativos que oferecem, e como reagir da melhor maneira possível, terminará esmagado pela avalanche dos acontecimentos que desabam na contramão dos seus desejos e verdades”. Argumentei que eu enfrentava uma difícil batalha que poderia, sim, definir o futuro da editora. Eu era apaixonado pelo que fazia e estava determinado a fazer com que a empresa prosperasse. Disse, ainda, que as paixões eram poderosas alavancas para o progresso e para a luta. Afirmei que sairia triunfante daquele combate. O sapateiro deu ombros e pontuou: “Você jamais vencerá enquanto não entender os mecanismos de ação do inimigo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei se ele sabia algo sobre o casal que não fosse do meu conhecimento. Loureiro balançou a cabeça e esclareceu: “Não me refiro ao casal. Falo sobre as paixões”. Pedi para que explicasse melhor. O sapateiro ponderou: “Um genial alquimista francês escreveu que as paixões são como os cavalos. Se domados, são úteis e valiosos. Quando selvagens, derrubam os cavaleiros. Caso não domine as suas paixões, se tornará escravo delas até que nada mais reste de autêntico na sua vida. Nem suas vontades, nem os seus desejos. Nenhuma rota ou rumo. Nada lhe pertencerá. A paixão se tornará a sua dona, fazendo de você uma mera montaria”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele bebeu um gole longo de café antes de prosseguir: “As paixões são parte da natureza humana. Logo, são neutras, não sendo a princípio boas nem ruins. A maneira de as vivenciar estabelecerá o polo positivo ou negativo. Quando dominadas, são bem usadas e servem para impulsionar as mais belas realizações. Se mal compreendidas, dominam o indivíduo e o esmagam em um triste processo de autodestruição”. Fez uma breve pausa e acrescentou: “O problema com as paixões reside nos excessos ligados aos desejos, ao querer sem medida, às vontades desenfreadas ou às necessidades extravagantes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pousou a caneca sobre o balcão de madeira e prosseguiu: “É neste ponto que atropelamos os direitos alheios com a mesma insensibilidade com que passamos a tratar a nossa própria dignidade. Agimos com as pessoas de modo que não gostaríamos que fizessem conosco, caso os papéis estivessem invertidos”. Interrompi para saber como é possível identificar o domínio das paixões sobre a nossa consciência. &nbsp;O sapateiro esclareceu: “Perceba se a mente está criando raciocínios tortuosos para justificar a ausência das virtudes ou para alterar a verdade, com a finalidade de que as escolhas se adequem às paixões descarrilhadas. Um dos sinais evidentes da supremacia das paixões sobre a verdade interior ocorre quando queremos nos tornar donos das situações para que, a qualquer custo, nossas vontades e necessidades se sobreponham às das demais pessoas envolvidas. As paixões fora dos trilhos da sensatez e do senso de justiça, fomentam o egoísmo, o ciúme, a ganância, o fanatismo, a manipulação, a coação, a chantagem, a mentira, entre outros vícios comportamentais. Ódios, mágoas e rancores são os sentimentos subsequentes às paixões descontroladas. Perdemos o que há de melhor em nós. Damos margem às sombras em detrimento à luz”. Em seguida, concluiu o raciocínio: “Indivíduos verdadeiramente livres se empenham em apenas ser senhores de si mesmos. As escolhas no concernente às suas próprias vidas lhe bastam. Para tanto, têm as paixões sob controle. Acredite, não é pouco. Os acontecimentos, assim como as verdades e as vontades dos outros, são apenas marés, ora favoráveis, ora contrárias, nas quais navegam com amor e sabedoria, sem qualquer contrariedade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argumentei que aquele discurso não se aplicava ao meu caso. Havia um contrato que me garantia os direitos internacionais de publicação. Quando decidi apostar naquela obra, o trabalho deles já tinha sido recusado por diversas editoras. Poderia ter dado errado e eu teria perdido o investimento realizado, fato corriqueiro no mercado literário. Eu não os tinha obrigado a nada. Ao contrário, talvez eu tivesse sido a última chance do casal. Era possível até que desistissem do livro, caso eu não reconhecesse o valor da obra quando ninguém mais se importou com eles. Não era justo que os deixasse sair naquele momento tão promissor e angular aos negócios. Loureiro me enredou nas tramas do arco filosófico com uma pergunta: “Por que mantê-los amarrados a você?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei irritado. Indaguei se ele não percebia a ingratidão e a injustiça do casal em querer romper o contrato após eu os colocar em evidência. Jamais teriam recebido qualquer oferta milionária se eu não tivesse editado o livro de maneira tão caprichosa. &nbsp;O sapateiro bateu com o dedo indicador no balcão de madeira para ressaltar as palavras e pontuou: “Não me refiro a dinheiro. Falo de liberdade, dignidade e paz. Não se preocupe com os erros ou acertos de ninguém. Concentre-se apenas nos seus. As atitudes dos outros não cabe a você dar direção. Cuide de fazer diferente e melhor, de um jeito nunca tentado. Se souber pensar, entenderá que não são as escolhas alheias que definem as alegrias ou as amarguras dos seus dias. A vida entrega a cada um conforme as suas ações. Nem um grama a mais nem a menos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que os acordos não podiam mudar só porque a realidade se modificara. Loureiro me desconcertou: “Por que não?”. Como titubei para responder, ele argumentou: “Sem dúvida, a manutenção da palavra dada é muito importante para a segurança das relações. Quando não se manifesta como orgulho e vaidade, é exercício de dignidade, liberdade e paz. Entretanto, as relações também necessitam de outras qualidades para se manterem saudáveis. É natural que a vontade mude quando o olhar se modifica. Então, por que manter um modelo de relação que não serve mais e, tampouco, apraz?”. Mais uma vez, fiquei sem responder. O sapateiro ponderou: “Nunca haverá uma boa razão para forçar a ficar quem deseja partir. Querer ir embora, evidencia o olhar de alguém sobre uma situação; não se opor à partida revela uma manifestação sublime de respeito por parte da outra pessoa. Se houve ingratidão ou injustiça, o problema não é seu, porém, deles. O mal que mais nos atinge não vem dos outros, é aquele que praticamos. Não obrigar a ficar quem tem vontade de ir, independentemente das promessas que foram feitas, também é exercício de dignidade, liberdade e paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei se ele considerava errado eu lutar pela manutenção do contrato. Afinal, era o combinado desde o início. Loureiro ponderou: “Você estará certo como muitos. Porém, se fizer diferente, estará certo como poucos”. Falei que não tinha entendido. O sapateiro explicou: “Não há nada de errado caso decidida lutar para manter o contrato. Assim determinam as leis, os contratos e os negócios. Será muito bom financeiramente para a editora. Contudo, os obrigará caminhar ao seu lado contra a vontade deles. Algo que não faz bem a ninguém. Se, de outra face, os deixar partir, encerrará a relação carcereiro-prisioneiro que se instalou a partir do momento que os olhares e os desejos se modificaram. Em contrapartida, você perderá uma quantia considerável”. Deu de ombros e concluiu: “O preço da paixão dominada nunca será fácil de pagar”. Franziu as sobrancelhas e aumentou o tom da seriedade: “Cabe a você decidir o que quer ganhar e perder”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber a razão de tamanha dificuldade para se dominar as paixões. Loureiro respondeu de pronto: “O domínio das paixões exige abnegação, uma virtude rara”. O meu olhar pedia para que ele falasse mais sobre o assunto. O sapateiro entendeu: “A abnegação é a virtude que modifica a medida das prioridades existenciais. Ao invés de usar a régua das conquistas materiais para medir o sucesso de uma vida, passa a utilizar as conquistas espirituais como parâmetro de êxito e vitória”. Esvaziou a caneca e finalizou: “O certo e o errado, assim como o bem e o mal, têm muitas camadas de compreensão. Muito poucos estão prontos para ir às suas camadas mais profundas para, então, emergir com a luz de uma intensidade quase desconhecida e, por isto, pouco reconhecida. Apenas aos abnegados é permitido tamanho mergulho em si mesmos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dia amanhecia. Os raios de sol invadiam a porta de vidro da oficina sem pedir licença nem desculpa. A minha carona – a caminhonete que todos os dias levava pão fresco para o mosteiro – não tardaria a sair. Havia muitas novas ideias a serem metabolizadas. Algumas estavam quase prontas, outras precisariam de mais algum tempo para o devido amadurecimento. Eu precisava pensar. Existia um dilema, mas também uma oportunidade. Eu precisava me preparar, caso quisesse ir a lugares desconhecidos dentro de mim. Somente assim, seria possível transitar pelos dias de um jeito que eu não conhecia.</p>
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