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	<title>Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Alegria triste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 14:34:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Tinha sido um dia difícil de trabalho. Entre vários problemas comuns ao cotidiano de uma empresa, eu lidava com as exigências crescentes da Fátima, uma talentosa ilustradora de uma série de livros infantis escritos por vários autores brasileiros, ainda inéditos. Cabia a ela criar as imagens que povoavam as narrativas...]]></description>
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<p>Tinha sido um dia difícil de trabalho. Entre vários problemas comuns ao cotidiano de uma empresa, eu lidava com as exigências crescentes da Fátima, uma talentosa ilustradora de uma série de livros infantis escritos por vários autores brasileiros, ainda inéditos. Cabia a ela criar as imagens que povoavam as narrativas dos diversos universos oníricos. A ilustradora as realizava com rara habilidade. Ela era detentora de vários prêmios pelos excelentes trabalhos já realizados. Os primeiros títulos publicados fizeram um grande sucesso. Muitas histórias ainda aguardavam na esteira das edições. Textos que precisavam de lapidação, desenhos à espera da criação. Da ideia original até a obra final há uma longa e trabalhosa jornada. Ocorre que, a cada dia, a talentosa ilustradora se mostrava mais exigente, interferindo no funcionamento da editora em setores que não eram ligados à sua área de atuação. Argumentava que tudo na editora estava interligado e, sendo assim, afetava o modo como o seu trabalho era visto pelo público. Logo, no seu entendimento, apenas exercia um direito que lhe era legítimo. Cobrava mudanças de métodos e posturas, sempre com a ameaça de se desligar do projeto já em andamento, caso suas orientações não fossem atendidas. Impunha alterações nos textos, na fonte das letras usadas na diagramação, no tipo de papel usado para impressão e muito mais. Eram atribuições que não lhe cabia decidir. Embora todos os setores da empresa estivessem conectados, nem todas as decisões lhe eram pertinentes. Outros profissionais respondiam por suas respectivas áreas, de acordo com as suas habilidades específicas. Como ela tinha muito prestígio e era requisitada no mercado por várias editoras, com medo de a perder, embora considerasse descabidas as exigências, eu sempre cedia. Na rotina dos funcionários e colaboradores, ficou inconsciente o zelo de sempre a agradar, ainda que fosse do desagrado de todos. Apesar do sucesso, eu não estava bem.</p>



<p>Eu pensava nisso enquanto andava pelas ruas transversais e arborizadas da Gávea, rumo à cafeteria da Bárbara, a barista que havia abdicado da clínica de psicologia sem, no entanto, abandonar os mistérios da psique. Localizada num casarão antigo e bem-conservado, servia espressos, cappuccinos e frapês de sabores únicos. Embora não houvesse qualquer placa ou letreiro na porta, o lugar estava sempre com as mesas ocupadas em seus diversos ambientes, decorados com estantes de livros e harmonizados ao som do jazz, do soul e da bossa-nova, em tom audível, porém baixo, para que ninguém precisasse aumentar o volume da voz para se fazer ouvir. O jardim interno, com sofás e poltronas sombreados por uma frondosa mangueira, era o cenário perfeito às tardes de leitura. Duas vezes por semana, no início da noite, sem nenhum academicismo, mas com a profundidade simples e necessária para estar ao alcance de todos, Bárbara realizava breves palestras sobre as dores e os prazeres da alma. Por vezes, a qualquer hora do dia, ao perceber uma aflição à beira da erupção, se sentava à mesa para oferecer palavras capazes de despertar lampejos de claridade e doses de serenidade. Por mais complicada que possa parecer o problema, onde há lucidez e equilíbrio, existirá um bom caminho. Contudo, não era possível solicitar uma consulta. Era a barista quem escolhia o interlocutor. Ela desconversava dizendo que ali não era um consultório, mas uma cafeteria. Em verdade, era bem mais.</p>



<p>Não havia mesa vaga. Dirigi-me ao balcão para aguardar. Para minha surpresa, encontrei com a Maria Clara, amiga de escola de uma das minhas filhas. Ela sorriu ao me ver. Havia alguns anos que eu não a encontrava. A jovem contou que estava casada com Gabriel, um médico que conhecera quando ambos ainda eram alunos da faculdade de Medicina. Tinham três filhos pequenos. Embora também tivesse se formado – havia se especializado em cirurgia-geral, após um difícil aprendizado na emergência de um concorrido hospital público –, deixara a carreira para se dedicar à família. Assim, o marido podia se dedicar à profissão mais intensamente. Além de ser um homem inteligente e charmoso, ele se tornara um requisitado cirurgião oftalmológico. Tinham adquirido um belo apartamento no Leblon, um dos bairros mais nobres da cidade. Os filhos estudavam em um excelente colégio e todos os anos viajavam para o exterior. Tinha uma vida de princesa, afirmou.</p>



<p>“Princesas costumam ter uma alegria triste”, ouvimos de uma voz por atrás do balcão. Era Bárbara. A barista nos serviu dois espressos como cortesia pela espera e, antes que eu fizesse qualquer menção à evidente contradição na expressão <em>alegria triste</em>, ela explicou: “Refiro-me à alegria de viver o mundo sonhado, em contraponto com a decepção de não encontrar em si os sentimentos aguardados na chegada ao destino desejado. Então, surge uma dor incompreendida”. Maria Clara disse não ter entendido. A barista esclareceu: “Por fora, tudo perfeito. Por dentro, nada satisfeito”. A jovem mãe admitiu que, de fato, havia nela uma tristeza sem sentido. Sofria de depressão, mas estava medicada. Embora soubesse não existir farmacológico capaz de curar as dores da alma, alegou não haver motivo para se sentir triste. Logo ficaria bem. Tinha uma vida perfeita. Bárbara deu de ombros e ponderou: “Talvez falte você a si mesma. Então, tudo será pouco”.</p>



<p>O garçom nos interrompeu para avisar que vagara uma mesa. Perguntou se nos sentaríamos juntos. Assentimos. Aquela conversa precisava continuar. Bárbara nos acompanhou. Depois de acomodados, a barista foi direto ao ponto: “Princesas escolhem suas roupas, sapatos, joias, a marca do carro e o restaurante onde almoçará com as amigas. Em alguns casos, até mesmo aonde a família irá no fim de semana. Enfim, têm um enorme poder para decidir sobre as bagatelas existenciais”. Maria Clara pediu para que explicasse melhor. A barista esclareceu: “A questão reside no poder de decidir sobre o próprio destino. Não me refiro ao destino das férias de verão. Falo em viver de acordo com as próprias percepções e escolhas no concernente ao rumo para onde deseja ir além das aparências e das escolhas rasas. Na pessoa que planeja se tornar e as revoluções internas que precisa realizar. Falo sobre equilíbrio emocional, clareza mental e autonomia material. A maturidade da alma exige a ruptura de todos os tipos de dependência. Enquanto não acontecer, o molde será o modelo dos outros, nunca a escolha por um jeito próprio. O medo de perder algo ou alguém que consideramos fundamentais ao nosso bem-estar, inibe o crescimento de quem originalmente somos. Terminamos por ceder além dos limites da identidade pessoal. Tornamo-nos outro que não nós. A insistência por um estilo de vida sem identificação com a essência que a anima e traduz, embora, muitas vezes, dentro de um padrão social desejado e considerado ideal, também é causa de depressão”.</p>



<p>Bebeu um gole de café e comentou: “<em>Se eu tenho uma vida maravilhosa, por que me sinto triste?</em> Príncipes e princesas perguntam todos os dias a si mesmos. Sentimentos que aparentam não ter sentido, são mensageiros de desconhecidas verdades. Aquilo que tão bem completa uma pessoa pode não caber em outra. Não se trata de número e tamanho, mas de tempero e sabor”.</p>



<p>Maria Clara se mostrou desconfortável. Disse que a barista estava flertando com a grosseria. Bárbara pediu para que as suas palavras, apesar de duras e fortes, não fossem recebidas com nenhum resquício de agressividade. Não tinha essa intenção: “Apenas proponho raciocínios que, ao se opor a ideias, conceitos e padrões até então aceitos sem grandes questionamentos, rasgam o tecido colorido de uma realidade de feições agradáveis. Contudo, por trás, esconde sentimentos contraditórios, incapazes de sustentar momentos mais profundos de felicidade. Enquanto a origem da dor restar incompreendida, apesar de uma vida de contornos perfeitos, persistirá essa alegria triste como lembrança da essência esquecida”.</p>



<p>A jovem mãe balançou a cabeça em negação. Amava e admirava o marido. Amava os filhos e vivia o sonho de uma vida perfeita e confortável. Não lhe faltava nada, garantiu. Bárbara se calou por alguns instantes. Lembrou do ensinamento de um antigo alquimista de almas que dizia que<em> enquanto você não tiver a si mesma, nada será suficiente.</em> No entanto, aquilo já fora dito de outra maneira naquela conversa. &nbsp;Bebeu sem pressa um gole longo de café, como se avaliasse o poder das próximas palavras e, enfim, decidiu pelo golpe necessário: “Você atravessou noites insones de estudos para as provas da faculdade, estagiou nos umbrais do desespero nas salas de emergência dos hospitais públicos para, ao final, somente encontrar um marido e se tornar mãe&#8230;”, fez uma pausa propositalmente dramática antes de concluir a pergunta: “&#8230; ou há algo igualmente valioso que foi deixado para trás?”. Houve um silêncio semelhante a uma confissão. Sem esperar pela resposta reprimida, a barista a lembrou: “É preciso resgatar o que foi abandonado em si mesma. Ninguém abandona um dom em vão. Todos temos um dom. O seu é o de curar. Todo dom revela o amor sagrado de uma alma pela vida e melhor instrumentaliza o indivíduo a escalar as montanhas da existência”. Em seguida, se referindo ao conflito aparente entre a família e a profissão, arrematou: “Será que uma escolha anula a outra ou, em muitos casos, cabe uma convivência harmônica entre interesses de valores tão importantes?”.</p>



<p>Como se tivesse com a alma desnuda, Maria Clara a olhava desconcertada. A barista prosseguiu: “Cada indivíduo precisa traçar o mapa do seu desenvolvimento espiritual. Não é fácil, pois o sagrado precisa se manifestar nas situações corriqueiras do cotidiano, e não apenas dentro de igrejas e templos como muitos imaginam. A pessoa evolui pelo que faz, nunca pelo que pensa ou sente, por mais nobres que sejam os seus pensamentos e sentimentos. O grau de dificuldade aumenta quando nos damos conta de que não há dois mapas iguais. Se percepções e sensibilidades são diferentes, e sempre são, as rotas também hão de ser. Daí, nenhuma comparação é sensata”. A jovem esposa pediu para que falasse um pouco mais sobre esse tal mapa. Bárbara explicou: “O mapa do desenvolvimento espiritual é um projeto original de autoconstrução. Nada contra com quem passa as manhãs à beira-mar, entre aulas de pilates, conversas com outras mães na porta da escola dos filhos e a leitura de bons romances ou deliciosos chás no meio da tarde. Podem acompanhar mais de perto o desenvolvimento dos filhos e estão sempre bem-dispostas à noite. Não sem razão, muitos desejam a rotina desses dias tranquilos. Não por falta de bons motivos, considerariam loucura abrir mão desse maravilhoso sossego em troca do estresse e da angústia diária de tentar salvar vidas banhadas em sangue, corpos atravessados por tiros ou quebrados em acidentes. Contudo, o que é o inferno para muitos, é a autêntica porta do céu para poucos”. Olhou com seriedade para Maria Clara e concluiu: “Há almas forjadas para levar luz a quem está perdido no breu de dores profundas. Não conhecerão a autêntica alegria enquanto se mantiverem distantes do seu propósito original”.</p>



<p>O café de Maria Clara havia esfriado. Fiz menção em pedir para trocar. Ela olhou para o relógio e recusou a oferta. Alegou precisar pegar os filhos na escola. Um tanto sem jeito, agradeceu a conversa, se despediu e foi embora.</p>



<p>Bárbara me olhou como quem diz <em>essa reação é comum à descoberta do destino à espera</em>. Pediu ao garçom que trouxesse mais dois espressos. Duplos, acrescentei. Eu precisava pensar. De alguma maneira que eu ainda não conseguia entender, aquela conversa mexera comigo. A barista sorriu e provocou: “Que tal falar um pouco da alegria triste que transborda dos seus olhos?”. Estranhei. Disse não saber ao que ela se referia. Bárbara explicou: “Quando alijamos escolhas por recear consequências ou perdas, deixamos germinar uma erva daninha chamada dependência, capaz de sufocar a alma, provocar tristeza e, com o tempo, dar margem à depressão. Fruto do medo e da equivocada crença quanto à própria capacidade de superar as inevitáveis dificuldades, pois são inerentes à existência, a dependência traz a reboque outra enfermidade da alma: a estagnação, que faz apodrecer o ânimo, a vida e os sonhos. Uma grave perda. Ainda que, aparentemente, tudo ao redor esteja perfeito, o coração não está satisfeito. É preciso reagir. Toda dependência nos torna menos quando poderíamos ser mais”. Não foi difícil associar aquelas palavras às crescentes exigências e absurdas interferências realizadas pela ilustradora da coleção de livros infantis da editora. Embora considerasse abusivo o comportamento da Fátima, eu tinha medo de, ao contrariar as vontades dela, não mais contar com o seu talento nas publicações da editora. Uma relação nada saudável que, por consequência natural, me deixava mal, apesar dos excelentes ganhos financeiros.</p>



<p>Comentei que qualquer relação interpessoal terá de lidar com o fator <em>outro</em>. Sempre haverá diante de mim uma pessoa diferente em vários aspectos daquele que sou. Olhares e intenções, percepções e sensibilidades, escolhas e desejos. Bárbara não discordou, mas ponderou: “As diferenças podem ser elementos de interação altamente positivos, desde que sirvam para ensinar e indicar impensáveis possibilidades de crescimento. Cada um é de um jeito. Logo, toda relação tratará de dois universos distintos que coexistem em busca de uma convivência saudável. A intercessão entre esses universos nunca será integral, acontecerá sempre em parte, com maior ou menor interação, a depender da sintonia e das afinidades que possuem. Entretanto, isso não é um problema. Ao contrário, quando bem trabalhado, impulsionará improváveis soluções e aprendizados mútuos. Para tanto, ninguém deve se acomodar à sombra de ninguém. Faz-se necessário que cada pessoa aprenda a caminhar com a clareza gerada pela própria luz”.</p>



<p>Falei que não conseguia encaixar aquelas palavras na situação vivida com a ilustradora da editora. A barista explicou: “Refiro-me ao dilema entre coerência e conveniência”. Bebeu um gole de café e continuou: “Coerência é a ação exata e alinhada ao entendimento da consciência. Fazer o certo sem medo das consequências materiais. A coerência é base da abnegação, a virtude que prioriza os valores espirituais em detrimento às vantagens mundanas. Por sua vez, a conveniência dialoga com o medo e a acomodação, aceita a dependência e se deixa corroer pela estagnação. Quando sobra conveniência, falta coerência. Onde há privilégios, inexiste justiça. A coerência exige riscos e sacrifícios, enquanto a conveniência acena com comodismo e a ilusão de segurança. A genuína alegria nunca está no prazeres do mundo, mas na dignidade do espírito que anima, identifica e traduz cada indivíduo”. Esvaziou o café da xícara e concluiu: “A coerência é um dos pilares da ética, a arte da nobreza nas virtudes aplicadas a todas as situações do dia a dia. No outro lado da moeda está a conveniência oportunista, mentirosa e covarde. Oferece atalhos que nos fazem retornar ao ponto de partida, numa triste repetição de ciclos viciosos. A coerência é a porta estreita da lapidação evolutiva, da dignidade em fazer os movimentos certos, da liberdade em viver sem medo e da paz interior conquistada em uma viagem realizada nos trilhos da consciência. Sem coerência o amor é raso e a felicidade permanecerá como uma figura de mera ficção”.</p>



<p>Fomos interrompidos pela chegada repentina e abrupta de Maria Clara. Com os olhos inchados e avermelhados por lágrimas sinceras e irrefreáveis, deu um beijo delicado no rosto da barista, abriu a bolsa, mostrou um estetoscópio como quem revela um segredo e uma decisão. Sussurrou <em>muito obrigado</em> e foi embora. Uma revolução intrínseca dera início naquela tarde. Sorrimos.</p>



<p>Em seguida, Bárbara se levantou para retornar ao trabalho. Sem precisar dizer palavra, me deixou com um inusitado conteúdo, repleto de instigantes elementos para eu refletir e decidir entre a coerência e a conveniência dos meus atos recentes. Ocorre que, depois de compreendermos o significado e o alcance de alguns comportamentos, as escolhas se resumem entre libertar a alma ou a manter aprisionada no medo e na dependência. A decisão se define entre a alegria ou a tristeza dos dias. Quando a escolha amadurece, se torna simples e inevitável.</p>



<p>Na manhã seguinte, algumas mudanças ocorreram na editora. Tive uma conversa franca com a ilustradora. Queríamos continuar trabalhando com ela, porém deveria se ater à sua área de atuação profissional. Compreender limites é fundamental para se viver com respeito. Sob as mesmas e inconsistentes alegações, Fátima se recusou a aceitar as novas condições. Demitiu-se. Tivemos de buscar no mercado um novo ilustrador. Como demorou mais tempo que o previsto, o projeto atrasou e amargamos um prejuízo considerável. Nada que afetasse o bem-estar de viver em harmonia com os princípios e valores que moviam a minha consciência. Com coerência, sem ceder às tentações das conveniências. Apesar das perdas e das incertezas que me aguardavam por causa dos necessários ajustes de rota, que sempre nos levam a lugares desconhecidos, eu estava em paz. Sentia uma alegria que pareceria estranha se não me fosse dado saber a sua verdadeira origem.</p>



<p>Assim como ninguém é igual a ninguém, o traço de dois artistas também é diferentes. Quando contratamos o Jonas, o novo ilustrador, a solução encontrada foi dividir as coleções. A nova coleção trazia textos inéditos, agora ilustrados por outro desenhista. Um título diferente foi necessário para registrar a diferença de estilos. Como o hábito e o gosto podem se tornar um vício paralisador – vale salientar a absurda mania de comparar as diferenças: o que é único cabe em si, com os próprios dissabores e belezas, sendo incabível usar uma mesma régua para medir algo extraordinário por não haver outro igual, como eu e você –, no início, o público estranhou e rejeitou as linhas que desconheciam. Com o tempo, e aos poucos, o talento, a qualidade e o trabalho dedicado terminam por florescer. Até que certa manhã, depois de alguns meses, ao entrar na editora, fui surpreendido com a notícia de que a nova coleção havia se igualado à anterior na preferência dos leitores. As vendas refletiam isso. De certo, a lucidez de que a vida nunca abandona quem vai ao encontro dos seus autênticos significados. De certo também, que a cafeteria da Gávea oferece bem mais do que deliciosos espressos, cappuccinos e frapês. &nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>Perdidos e achados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 20:02:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Não, não é verdade. Isso não pode estar acontecendo! Esse grito rasgou a madrugada silenciosa do mosteiro. Acordei assustado, ainda sem saber se aquele desespero era decorrente de um sonho ruim ou vinha da voz de algum monge em um quarto próximo. Aquietei-me para ouvir melhor. Após alguns instantes, apesar...]]></description>
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<p><em>Não, não é verdade. Isso não pode estar acontecendo!</em> Esse grito rasgou a madrugada silenciosa do mosteiro. Acordei assustado, ainda sem saber se aquele desespero era decorrente de um sonho ruim ou vinha da voz de algum monge em um quarto próximo. Aquietei-me para ouvir melhor. Após alguns instantes, apesar das paredes de pedra, foi possível escutar um choro que mais se assemelhava a um pranto. Fui para o corredor na tentativa de descobrir quem necessitava de acolhimento. Sem precisar andar muito, percebi que os lamentos vinham do quarto ao lado. Quem o ocupava era o Hermes, um monge grego, residente em Atenas, com quase setenta anos de idade. Um homem sensato, gentil e simpático, muito admirado por todos no mosteiro, integrante da Ordem há mais de três décadas. Formado em Economia, era professor da principal universidade pública do país. Hermes representava os valores ancestrais de ética, estética e mística preconizados por Platão, um conterrâneo milenar. Valia-se de um precioso código pessoal de conduta, confeccionado ao longo da existência, sempre se questionando se as suas ações e escolhas primavam pelo bem e pelo justo. Entregava na exata medida do merecimento de cada pessoa, independentemente do sentimento que nutria por ela. Embora praticasse atividades físicas e mantivesse uma saudável dieta mediterrânea, não se descuidando nem do corpo nem da aparência – jamais como vaidade, mas como exercício de autoestima –, a sua preocupação final versava sobre a estética da alma, ideal maior de beleza. A mística, na acepção original da palavra, o incentivava a buscar a verdade além dos últimos limites alcançados pela ciência. Sempre equilibrado e atencioso, era muito procurado pelos monges mais jovens, quando em busca de orientações e conselhos.</p>



<p>Sabíamos do falecimento recente da sua esposa. Diferentemente dos outros períodos de estudos, desta vez, chegara abatido. Apesar da delicadeza e polidez de costume, Hermes se mostrara um tanto quanto arredio. Nas horas vagas, se isolava na varanda ou realizava longos passeios pela montanha. Todos compreendiam a mudança de comportamento face o impacto do fato. Tratava-se de uma situação pontual. As constantes reflexões eram necessárias para rearrumar a vida dentro de si, a partir de agora, sem ter ao lado alguém com quem brindou os bons momentos e dividiu as angústias no avesso dos melhores desejos. Por definição, luto é a dor oriunda de uma perda. Qualquer que seja. Há diferentes tipos de perdas. Algumas são mais significativas e difíceis de lidar. Quanto maior o apego àquilo que se perdeu, mais enredado ficará o indivíduo nas teias do sofrimento. Quando a perda representa o único pilar de sustentação, a pessoa desaba.</p>



<p>Curar-se do luto exige uma restruturação do olhar e, muitas vezes, uma reconstrução no jeito de ser e viver. &nbsp;A depender da perda, não raro, será necessária uma completa reinvenção de si mesmo. Como nem sempre estamos prontos e abertos às indispensáveis transformações, sem saber, autorizamos o sofrimento a deitar raízes. Algumas permanecem por tanto tempo que o sujeito passa a considerar o sofrimento como parte inerente da sua personalidade. Não é. A intensidade e o tempo da dor variam segundo o nível de consciência, conforme a capacidade de elaborar a experiência com exatidão, extraindo do resultado imensuráveis doses de amor e sabedoria. Então, o sofrimento se desfaz para sempre. Enquanto não acontecer, a dor se alargará pelas entranhas e deixará um sabor amago no coração. De acordo com esse raciocínio, e por conhecermos a enorme capacidade de resolução e superação do monge grego, acreditávamos que ele logo ficaria bem.</p>



<p>Por isso a estranheza do pranto e do grito vindos do seu quarto. Quando ele abriu a porta, tomei um susto. Diante de mim, encontrei um homem destroçado. O caos nos arranca tudo que não está agregado à essência. Leva embora o que é adorno e aparência. Quem não ergue os fundamentos que o manterá firme e seguro em si mesmo, restará destruído após cada ventania. Não o reconheci. Apenas o abracei por longos minutos. Não era hora de falar. Aquele homem de cabelos brancos chorou como um menino perdido.</p>



<p>Depois de deixar transbordar as emoções que o sufocavam, o convidei para irmos à cantina do mosteiro. Hermes precisava falar e eu estava disposto a ouvir. Ele aquiesceu. Preparei um bule com café fresco e o coloquei sobre a mesa. Quando fui pegar as canecas, ouvi uma voz atrás de mim: “São três, por favor”. Era o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele se acomodou à mesa conosco, olhou para o Hermes, arqueou os lábios em um singelo, porém sincero e belo sorriso, para dizer, sem a necessidade de expressar palavra, que estava disposto a usar o próprio coração na tentativa de o resgatar dos mares revoltos do sofrimento. Quem já se afogou nas águas das incompreensões ou se viu retido pelas correntezas do luto, sabe o valor e a importância desses salvamentos. São incomensuráveis.</p>



<p>Ao expor as entranhas da sua dor, fui surpreendido. A partida de Helena, sua esposa, para as Terras Altas, não era razão primordial do desespero como eu imaginava. Embora a amasse profundamente e sentisse a sua falta todos os dias, tinha aprendido a não tratar a morte como uma perda, mas como uma plataforma de embarque, o ponto de partida para um novo trecho de aprendizados e realizações, se valendo de novas e impensáveis ferramentas e circunstâncias, em prol da própria evolução. Helena merecia prosseguir e avançar. A morte lhe ofereceria renovação e regeneração sob condições mais adequadas aos progressos conscienciais que alcançara. A morte jamais significaria um fim ou uma perda. Tratava-se de uma necessária e importante transformação. Nunca uma punição, porém um ato de amor da vida pela vida. Como a fruta que, consumida ou apodrecida, renasce revigorada através da própria semente.</p>



<p>Sem dúvida, a saudade que sentia de Helena era enorme. Ao contrário do entendimento comum, a saudade não era motivo de tristeza. Era fonte de alegrias. Afinal, só sentimos saudade dos momentos bons. Não a saudade como nostalgia, do desejo absurdo de retroceder no tempo, mas de reconhecer que somente há saudade onde existe amor. A ausência de saudade pode indicar o vazio de um existência. De outra face, a sua presença narra os melhores capítulos das nossas vidas. O amor vivido traz alegria, esperança e dinamismo aos movimentos que ainda nos restam fazer. Além de lembrar ao amor que sempre haverá muitos motivos para seguir amando mais e melhor.</p>



<p>O Velho tornou a sorrir. Desta vez em aprovação à plena compreensão de Hermes quanto a esse complicado, porém, delicado e bonito fenômeno, inevitável e natural, denominado morte, ainda tão mal compreendido. O problema, comentou o monge grego, foi que na esteira da partida de Helena, chegaram outros acontecimentos difíceis de lidar. Nos últimos meses, alguns amigos também tinham partido para as Terras Altas, enquanto outros foram acometidos por enfermidades que lhes furtaram a autonomia motora ou a de manifestação de vontade. Isto o entristecera sobremaneira. Havia também os amigos que se mudaram para longe, no intuito de morar mais perto dos filhos e dos netos. Helena e ele tinham um filho, Andreas, que também se graduara em Economia, mas residia na América, onde trabalhava no mercado financeiro. Para Hermes, Nova Iorque era uma cidade maravilhosa para se visitar, frenética demais para morar. Embora estivesse intacta a autonomia de movimentos físicos e cognição mental, a saúde mostrava sinais de declínio. Não apenas a perda de força muscular e reflexo, comuns a idade. No seu caso, a artrite e a artrose, heranças genéticas, o obrigavam a sessões frequentes de fisioterapia, além dos medicamentos de uso permanente. Era como se tivesse acendido um alerta sobre o prazo de validade do seu corpo.</p>



<p>Como se não bastasse, algumas horas atrás, sem sono, decidiu olhar a caixa de e-mails. O Congresso da Grécia tinha promulgado uma lei que estabelecia aposentadoria compulsória aos professores a partir dos sessenta e cinco anos. Como já ultrapassara essa idade, a universidade comunicou o afastamento do cargo e das funções exercidas por décadas e que ainda lhe proporcionavam alegria e prazer. Ele adorava lecionar e conviver com os jovens, repletos de ideais, sonhos e uma enorme vontade de viver. Sentia-se bem no frescor do ambiente acadêmico, do qual, de uma hora para outra, fora alijado. Com a aposentadoria, teria um corte drástico em seus vencimentos. O tratamento de Helena drenara a poupança amealhada ao longo dos anos – não se lamentava quanto a isto. Ela merecera os melhores médicos e cuidados. Ocorre que, naquela noite, com a redução dos ganhos, as perdas pareciam ter atingido o ápice, num estágio que não imaginara nem nos piores cenários. Dentre outras perdas, acabara de perder, não apenas o status social e profissional, mas também o acesso a bens de consumo e de conforto. Nada disso fazia parte dos seus planos. Como se a vida tivesse virado inimiga, e portando uma navalha de sonhos com corte afiado, rente e insaciável, retirava tudo, não somente o que possuía, mas também o homem que havia sido. Naquele instante, parecia ocorrer uma ruptura interna, entre quem foi e quem passaria a ser. Esta fragmentação inesperada causava um sofrimento inominável. Teria que se contentar com menos em todos os aspectos da vida.&nbsp; Precisaria se reinventar, encontrar novos motivos para viver. Duvidava se conseguiria. As perdas pareciam irreparáveis.</p>



<p>Neste momento de inimagináveis mudanças, vivia uma enorme contradição interior. Ainda que pesasse o conhecimento que possuía sobre os arcanos da vida, sentia falta da Helena, na contramão das verdades que conhecia. Uma mulher forte e amorosa. Ao lado dela nunca sentira medo ou insegurança. Juntos se mostravam maior do que o maior dos problemas. Moldavam o futuro conforme as realizações do presente. Esta fé também se perdera, pois, mesmo que evitasse pensar nos acontecimentos como perdas, percebia a vida se desmoronando. Os fatos se mostravam mais convincentes que as ideias. Considerou a possibilidade de estar errada a crença de que as perdas eram ilusórias. Talvez fossem reais. Naquela noite teve a horrível sensação de que, pelo ritmo avassalador dos últimos dias, cada vez mais corrosivos e ásperos, em breve perderia o que tinha, as referência que possuía, aquele quem tinha sido e tudo mais que o aprazia. Restariam apenas as ruínas de si mesmo. Não sabia como lidar com isso, confessou.</p>



<p>O Velho o ouviu sem qualquer aparte. Bebeu um gole longo de café, como quem procura a exatas palavras, e argumentou: “Toda perda pode ser real ou ilusória, a depender de como o indivíduo lida com os acontecimentos. Quando se recusa a aceitar os inevitáveis movimentos da vida, fica atado à inútil tentativa de reter algo que não tem mais como possuir ou estar ao lado de alguém que já se foi. Então, a perda se mostra real e dolorosa. Não por culpa da vida, mas como resultado da incapacidade de encontrar a riqueza escondida por trás de cada partida. Por não compreender que a vida nos toma o que não mais cabe ficar, desperdiçamos o solo fértil da criatividade e do imponderável. Faça o melhor por si, ofereça o melhor de si e deixe a vida o surpreender. Sejam pessoas e momentos, sejam aprendizados e crescimentos. A vida é farta e generosa, embora nem sempre a percebamos dessa maneira, mormente durante o caos. Os imaturos julgam o caos pelo grau de destruição, os sábios o aproveitam pelas oportunidades de renovação. Os tolos tratam o caos como maldição, os indivíduos maduros o percorrem como uma estrada de regeneração. Regenerar-se é se reconstruir a partir do próprio âmago. Ninguém consegue isso sem se conhecer mais e melhor. Não há riqueza maior. Para estes, o caos é sagrado”. Antes que o monge grego interviesse, o Velho se adiantou ao raciocínio: “Não há idade para isso”.</p>



<p>Desde que ingressara na Ordem, Hermes alegou haver aprendido a enfrentar os reveses da existência, pois bem sabia que, além de inevitáveis, são movimento renovadores e construtivos. Tinha se preparado para todas aquelas situações. Se os monges mais jovens o procurassem para conversar, seria capaz de dar uma aula sobre o assunto. No entanto, mostrava uma enorme dificuldade de aplicar a teoria à prática. Talvez pelas muitas mudanças involuntárias em um curto espaço de tempo. A elaboração em conjunto de todas aquelas experiências dificultava a melhor resolução, considerou. O Velho disse sim com a cabeça e esclareceu: “A vida tem uma lógica e um modo de operar que quase nunca é de fácil compreensão. Como ninguém é igual a ninguém, a aplicação do método pedagógico também difere de uma pessoa para outra. Por isto, as comparações são incabíveis”.</p>



<p>Pousou a caneca na mesa e pontuou: “Embora a sequência rápida de acontecimentos desagradáveis tenha afetado momentaneamente o seu equilíbrio e a sua lucidez para enfrentar a torrente de mudanças, emperrando as engrenagens da força de movimento, não há nada que o impeça de, a qualquer instante, retomar o poder sobre si mesmo para seguir em frente. Ainda que entenda que as perdas são ilusórias, elas se tornam reais quando não se compreende o exato luto que o envolve. Então, aos poucos, a dor se espraia e instala um império. O indivíduo fica perdido em si mesmo. Todo sentimento tem um nome. Enquanto não identificar a verdadeira razão do luto, não conseguirá se reconquistar. Continuará dominado por um sofrimento que, enquanto a sua origem se mantiver oculta, tornará a cura impossível. Não existe remédio para uma dor desconhecida”.</p>



<p>Hermes perguntou do que ele falava. O Velho explicou: “Você vive o luto da velhice”. O grego o olhou assustado com a utilização da palavra <em>velhice</em>, como se fosse proibida ou de mau gosto, principalmente por ter sido pronunciada por alguém sempre tão meigo e gentil. O bom monge o alertou: “Não tenha medo das palavras. Usar palavras bonitas não diminui o problema. Ao contrário, muitas vezes o mascara, passando uma sensação equivocada por minorar ou disfarçar a sua gravidade. Ninguém modifica a realidade com belos discursos, apenas com boas e acertadas ações. Tudo mais é engano e maquiagem. Usar a palavra exata para descrever a exata situação é de muito valor para a compreensão e o enfrentamento da verdade”.</p>



<p>O monge grego concordou com a cabeça. O Velho prosseguiu: “A Humanidade, ainda perdida em seus anseios imaturos, não está preparada para lidar com a estrada do tempo. Trata-se de um desconhecimento por negação. Ao evitar a verdade, as multidões se lançam no abismo do isolamento, do abandono ou do desespero à medida que a viagem se aproxima do último trecho. Olhamos para o envelhecimento como quem escuta o apito de aproximação do trem da morte. Um erro crasso. Faz-se necessário lidar com a velhice como a oportunidade de deixar para trás os apetrechos que se valeram necessários, mas que daqui em diante, teremos de aprender a seguir sem eles. Isto fala sobre autonomia e ensina muito sobre liberdade, dignidade e paz. Serve para tudo que gostamos e para todos que amamos. Perdemos as coisas, mas ficamos com as boas experiências que elas nos proporcionaram. As pessoas se dispersam pelo caminho – afinal, cada qual tem o próprio rumo e necessidades de aprendizado e evolução –, mas deixam conosco o amor e as histórias que dão sentido, cor e mel à vida”.</p>



<p>Em seguida, fez uma pergunta de simples retórica: “Já se atentou que nunca fomos treinados e educados, quando jovens, a projetar a vida durante a velhice?”. Sem aguardar a resposta conhecida, continuou: “Mesmo quem se presta ao exercício, o realiza com idealizações irreais, abrandadas por doces cenas de mera ficção. Ninguém quer olhar para as inevitáveis limitações, cerceamentos e mudanças impostas pelo envelhecimento. <em>Comigo será diferente</em>, mentem para si mesmos. Por estarmos despreparados para a fase derradeira do ciclo, terminamos por enfrentar a velhice como se fosse um acúmulo de perdas, desperdiçando as fantásticas oportunidades que o ocaso da existência oferece. Se faz luto – mantendo-se dolorosas perdas – num lugar dentro da gente onde cabem maravilhosos achados”.</p>



<p>Os olhos do monge grego indagavam que achados seriam esses. O Velho os elencou: “A vida é sabia. As crescentes limitações do corpo físico, abrem espaço ao florescimento da alma. Trata-se do último chamado para o reposicionamento das peças no tabuleiro das prioridades. Entregamos as peças pesadas para valorizar o uso das que oferecem leveza. Se houver atenção e desprendimento, o jogo se tornará favorável. O que verdadeiramente tem valor não cabe em nenhuma caixa, não precisa de assinatura nem serve como moeda de troca”. Arqueou os lábios em um lindo sorriso e elencou: “Perdoe a todos, confie em si e siga em frente. Para ser livre, ame sem reter. Para viver em paz, oriente sem tentar convencer. Para ser feliz, faça sem possuir.&nbsp; Para ser digno, basta a verdade. Para o amor germinar, servem as virtudes aplicadas ao cotidiano. Todas essas conquistas dependem apenas de percepção e sensibilidade. Nada mais. Não existe riqueza maior. Sei que sabemos disto, mas nem sempre lembramos disso. Então, no esplendor da sua sabedoria, a vida nos oferece a velhice do corpo como um elixir sagrado para o rejuvenescimento da alma. Sagrado é tudo aquilo que nos torna pessoas melhores. A arte de envelhecer fala sobre ser mais com menos”.</p>



<p>Olhou por instantes pela janela. O céu começava adquirir os tons rosa e amarelo típicos das manhãs. Esvaziou a caneca e pontuou: “A velhice nos toma muitas coisas. Algumas, de muita importância. No entanto, nos oferece outras ainda mais valiosas. Não se trata de uma troca, mas de imperdíveis chances de transformação. Troca tem preço, transformação tem valor. O entardecer da existência pode proporcionar tesouros como equilíbrio emocional, desprendimento material, melhor aceitação quanto às vontades e verdades alheias, uma percepção mais cristalina da realidade e profunda da vida, maior lucidez e liberdade consciencial. Não há época mais adequada à plenitude”. Pousou a caneca na mesa e finalizou: “São dias perfeitos para rever conceitos, costumes, ideias, sentimentos, atitudes e hábitos. Uma última oportunidade de reconstrução, desta vez, tendo somente a própria essência como matéria-prima. Mais do que um achado, o derradeiro trecho da viagem pode proporcionar as conquistas mais importantes de uma existência”. &nbsp;</p>



<p>Ninguém mais disse palavra. Hermes precisava se reposicionar perante a si mesmo e diante da vida. Podia se acovardar, se esconder e lamentar. Podia também agradecer, se reerguer e bailar com a vida. Sempre há escolhas. O sorriso franco de gratidão do monge grego encerrou a conversa. Os olhos marejados diziam que a lição restara aprendida. Uma decisão silenciosa havia sido tomada.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns dias se passaram. Percebi em Hermes uma agitação juvenil. Não me refiro à imaturidade, mas quanto à vitalidade e ao frescor típicos da juventude, cujo melhor significado se revela na irrefreável vontade de crescer e realizar. Quando não estava assistindo às aulas, se mantinha concentrado em anotações e troca de mensagens. Achei estranho e comentei com o Velho. O bom monge me tranquilizou: “Não há motivo para preocupação. Hermes decidiu aproveitar todos os anos de estudo em Economia e o enorme tempo disponível, graças a tudo aquilo que considerava como perda, para iniciar um antigo projeto. Junto com um amigo empresário, que passou a direção da empresa para os filhos, darão início a uma escola de negócios, no intuito de formar novos empreendedores. Cursar Economia e Administração é apenas parte do que se precisa para enfrentar as muitas dificuldades, comuns ao complicado e competitivo mundo dos negócios. Este desconhecimento faz com que muitas pequenas empresas não consigam resistir aos obstáculos iniciais, gerando frustrações ao abortar voos que poderiam ser prósperos e de longo alcance. Ele está animadíssimo para reverter o cenário”.</p>



<p>Perguntei ao Velho se, na sua opinião, o projeto da escola daria certo. Ele me lembrou: “Manter-se jovem é continuar a ter sonhos, metas e propósitos, independentemente da idade que se tenha. É não desistir nem se acomodar. É seguir lapidando as próprias ações, mantendo-as boas, justas e saudáveis. Não se assuste se houver dias de recaídas e desânimo. Os resultados, ora não serão os esperados, ora demorarão mais que o previsto. É assim mesmo. Isto não traduz derrotas, mas convida para exercícios de versatilidade, lucidez, disciplina e fé. A vitória reside na luz das melhores ações, nem sempre no brilho dos resultados desejados”.</p>



<p>Presenteou-me com um lindo sorriso e finalizou a conversa: “Nos últimos dias, Hermes rejuvenesceu e encerrou as perdas. Entendeu e aceitou o desafio da evolução. O processo de aprimoramento precisa continuar, agora, com diferentes ferramentas e sob novas condições. Ele está prestes a viver algumas das experiências mais encantadoras da sua vida. Sem importar o que acontecerá, haverá muitos achados. O verdadeiro sucesso consiste nas vitórias sobre si mesmo. Ele está no caminho certo. Basta prosseguir”. Em seguida, disse que precisava podar as roseiras do jardim interno do mosteiro. Observei-o se afastar com o seu passo lento, porém, seguro.&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>As paixões</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 18:26:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p>Sou um amante das manhãs de sol, mas confesso que um céu estrelado ou uma noite de lua crescente me trazem uma indizível inspiração de transcendência. Naquela madrugada, enquanto caminhava da estação de trem até a oficina do Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, pelas ruas tortas e estreitas da pequena e charmosa cidade, próximo à montanha que abrigava o mosteiro, tive como companheira uma lindíssima lua cheia, que me recitava poesias impossíveis de traduzir. Eram dias de empolgação, preocupação e ansiedade. Momentos assim, mais embotam do que clareiam a mente. Eu passara recentemente por uma transição angular. Depois de décadas como publicitário, havia deixado para trás um importante capítulo profissional para iniciar uma carreira como editor. Os negócios seguiam com as dificuldades comuns aos empreendimentos jovens, que, como qualquer ente imaturo, necessitava das experiências oferecidas pelas noites escuras, não apenas para amadurecer, mas também fazer com que a mais pura originalidade pudesse florescer.</p>



<p><em>Sou como o aço forjado no fogo</em>, bradam os guerreiros. <em>Sou como o barro moldado nas mãos do oleiro</em>, sussurram os monges. Aqueles se valem da força para superar os obstáculos, enquanto estes escolhem a suavidade como meio para os atravessar. Os guerreiros lutam bravamente para sobreviver às noites escuras. Os monges simplesmente as navegam. Para aqueles, as noites são inimigas; para estes, valiosas professoras. Não existem para impedir, mas para ensinar. Eu era um guerreiro. Movia-me por paixão. Os dias eram de lutas e, por isto, se mantinham impróprios à navegação.</p>



<p>O dia ainda estava longe de amanhecer quando entrei na oficina do Loureiro. O encontrei confeccionando uma linda bolsa de couro grená, com a mesma mestria com que costurava ideias. Fui recebido com um sorriso sincero e um abraço apertado. O elegante sapateiro vestia uma camisa de linho azul claro, com as mangas dobradas até os cotovelos para não atrapalharem o serviço, e uma calça caqui de fina alfaiataria. Os sapatos de couro eram de fabricação própria. A barba branca era curta e bem aparada, ao avesso dos cabelos fartos que, embora também brancos, estavam rebeldes e despenteados. Sem demora, ele preparou um bule de café fresco e colocou duas canecas sobre o pesado balcão de madeira. A conversa fluiu com a naturalidade habitual de dois amigos que emendam assuntos como se fossem trechos de estradas sem fim.</p>



<p>Apesar das dificuldades inerentes aos novos negócios, o desempenho da editora superava as melhores expectativas. Graças, sobretudo, ao excepcional trabalho de um casal. Ele, escritor; ela, desenhista. Tinham vertido para o universo dos quadrinhos romanceados o livro <em>A voz do silêncio</em>, um clássico da Teosofia de Helena Blavatsky. Ao mudarem o formato da obra, a tornaram acessível a um maior número de leitores. Os vários ensinamentos extraídos do Budismo pela escritora, restaram mais facilmente compreendidos. A linguagem poética, e um tanto quanto hermética utilizada no texto original, foi substituída por imagens de ação. Embora o texto tenha ficado mais cru, expôs de maneira simples algumas práticas fundamentais à iluminação, até então incompreendidas por boa parte do público ocidental. O sucesso foi enorme e imediato. Eu havia adquirido os direitos internacionais de publicação. A experiência em alguns países da América Latina tinha sido bem-sucedida. Era hora do grande passo: o hemisfério norte.</p>



<p>Eu estava animadíssimo. Além de um tanto quanto preocupado. Ocorre que, na esteira do sucesso, os autores receberam uma fabulosa proposta de uma poderosa multinacional para que trocassem de editora. Essa empresa era, na verdade, um enorme conglomerado de editoras, presente em quase todos os cantos do planeta. O casal, claro, adorou a ideia e a oferta. A multinacional tinha um inegável poder de publicação e penetração, algo impensável à minha pequena editora. Contudo, era a minha chance de crescer. Eu era apaixonado tanto pelo meu negócio quanto pelo universo literário. Sequer cogitei a ideia de rescindir o contrato. Ainda que tivessem me oferecido uma boa indenização, a longo prazo, os meus lucros ultrapassariam, em muito, a oferta do conglomerado. No mais, eu queria fazer do meu jeito a edição de uma obra que fora descoberta e ganhara corpo dentro da minha pequena editora. Isto me encantava e me deixara apaixonado por todo o processo, da idealização à realização.</p>



<p>Com o conglomerado, o casal ganharia rapidamente muito dinheiro. Assim como eu, eles tinham sonhos. O que nos afastava era a questão do tempo. Eles tinham pressa. Era-me impossível acompanhar o novo ritmo que lhes fora proposto. Como resultado desse impasse, eu havia me tornado réu em uma ação judicial cuja finalidade era forçar a rescisão contratual. Contratei um renomado escritório de advocacia para que os meus direitos fossem respeitados. A lei estava do meu lado, me garantiram. Embora me afiançassem as enormes chances de sucesso nessa batalha jurídica, um veredito favorável não era uma garantia absoluta. Preocupações e incertezas me rondavam os dias. Dali a dois meses, haveria uma primeira audiência. As noites estavam maldormidas. Por enquanto, eu ainda conseguia resistir aos ansiolíticos. Não sabia até quando.</p>



<p>Narrei esses fatos ao sapateiro antes mesmo do primeiro gole de café. A ansiedade transbordava na fala rápida e nos gestos de impaciência, como se o tempo fosse um inimigo por demorar a me fazer as vontades. Loureiro me ouviu com atenção e sem qualquer interrupção. Ao final, comentou: “A reunião de todas as suas preocupações, inseguranças e medos é incapaz de lhe modificar o destino. Não se atenha a elas. De nada servem. Somente as suas ações têm tamanho poder. Caso não aprenda a lidar com as contrariedades inerentes à existência, compreendendo os aspectos educativos que oferecem, e como reagir da melhor maneira possível, terminará esmagado pela avalanche dos acontecimentos que desabam na contramão dos seus desejos e verdades”. Argumentei que eu enfrentava uma difícil batalha que poderia, sim, definir o futuro da editora. Eu era apaixonado pelo que fazia e estava determinado a fazer com que a empresa prosperasse. Disse, ainda, que as paixões eram poderosas alavancas para o progresso e para a luta. Afirmei que sairia triunfante daquele combate. O sapateiro deu ombros e pontuou: “Você jamais vencerá enquanto não entender os mecanismos de ação do inimigo”.</p>



<p>Perguntei se ele sabia algo sobre o casal que não fosse do meu conhecimento. Loureiro balançou a cabeça e esclareceu: “Não me refiro ao casal. Falo sobre as paixões”. Pedi para que explicasse melhor. O sapateiro ponderou: “Um genial alquimista francês escreveu que as paixões são como os cavalos. Se domados, são úteis e valiosos. Quando selvagens, derrubam os cavaleiros. Caso não domine as suas paixões, se tornará escravo delas até que nada mais reste de autêntico na sua vida. Nem suas vontades, nem os seus desejos. Nenhuma rota ou rumo. Nada lhe pertencerá. A paixão se tornará a sua dona, fazendo de você uma mera montaria”.</p>



<p>Ele bebeu um gole longo de café antes de prosseguir: “As paixões são parte da natureza humana. Logo, são neutras, não sendo a princípio boas nem ruins. A maneira de as vivenciar estabelecerá o polo positivo ou negativo. Quando dominadas, são bem usadas e servem para impulsionar as mais belas realizações. Se mal compreendidas, dominam o indivíduo e o esmagam em um triste processo de autodestruição”. Fez uma breve pausa e acrescentou: “O problema com as paixões reside nos excessos ligados aos desejos, ao querer sem medida, às vontades desenfreadas ou às necessidades extravagantes”.</p>



<p>Pousou a caneca sobre o balcão de madeira e prosseguiu: “É neste ponto que atropelamos os direitos alheios com a mesma insensibilidade com que passamos a tratar a nossa própria dignidade. Agimos com as pessoas de modo que não gostaríamos que fizessem conosco, caso os papéis estivessem invertidos”. Interrompi para saber como é possível identificar o domínio das paixões sobre a nossa consciência. &nbsp;O sapateiro esclareceu: “Perceba se a mente está criando raciocínios tortuosos para justificar a ausência das virtudes ou para alterar a verdade, com a finalidade de que as escolhas se adequem às paixões descarrilhadas. Um dos sinais evidentes da supremacia das paixões sobre a verdade interior ocorre quando queremos nos tornar donos das situações para que, a qualquer custo, nossas vontades e necessidades se sobreponham às das demais pessoas envolvidas. As paixões fora dos trilhos da sensatez e do senso de justiça, fomentam o egoísmo, o ciúme, a ganância, o fanatismo, a manipulação, a coação, a chantagem, a mentira, entre outros vícios comportamentais. Ódios, mágoas e rancores são os sentimentos subsequentes às paixões descontroladas. Perdemos o que há de melhor em nós. Damos margem às sombras em detrimento à luz”. Em seguida, concluiu o raciocínio: “Indivíduos verdadeiramente livres se empenham em apenas ser senhores de si mesmos. As escolhas no concernente às suas próprias vidas lhe bastam. Para tanto, têm as paixões sob controle. Acredite, não é pouco. Os acontecimentos, assim como as verdades e as vontades dos outros, são apenas marés, ora favoráveis, ora contrárias, nas quais navegam com amor e sabedoria, sem qualquer contrariedade”.</p>



<p>Argumentei que aquele discurso não se aplicava ao meu caso. Havia um contrato que me garantia os direitos internacionais de publicação. Quando decidi apostar naquela obra, o trabalho deles já tinha sido recusado por diversas editoras. Poderia ter dado errado e eu teria perdido o investimento realizado, fato corriqueiro no mercado literário. Eu não os tinha obrigado a nada. Ao contrário, talvez eu tivesse sido a última chance do casal. Era possível até que desistissem do livro, caso eu não reconhecesse o valor da obra quando ninguém mais se importou com eles. Não era justo que os deixasse sair naquele momento tão promissor e angular aos negócios. Loureiro me enredou nas tramas do arco filosófico com uma pergunta: “Por que mantê-los amarrados a você?”.</p>



<p>Fiquei irritado. Indaguei se ele não percebia a ingratidão e a injustiça do casal em querer romper o contrato após eu os colocar em evidência. Jamais teriam recebido qualquer oferta milionária se eu não tivesse editado o livro de maneira tão caprichosa. &nbsp;O sapateiro bateu com o dedo indicador no balcão de madeira para ressaltar as palavras e pontuou: “Não me refiro a dinheiro. Falo de liberdade, dignidade e paz. Não se preocupe com os erros ou acertos de ninguém. Concentre-se apenas nos seus. As atitudes dos outros não cabe a você dar direção. Cuide de fazer diferente e melhor, de um jeito nunca tentado. Se souber pensar, entenderá que não são as escolhas alheias que definem as alegrias ou as amarguras dos seus dias. A vida entrega a cada um conforme as suas ações. Nem um grama a mais nem a menos”.</p>



<p>Comentei que os acordos não podiam mudar só porque a realidade se modificara. Loureiro me desconcertou: “Por que não?”. Como titubei para responder, ele argumentou: “Sem dúvida, a manutenção da palavra dada é muito importante para a segurança das relações. Quando não se manifesta como orgulho e vaidade, é exercício de dignidade, liberdade e paz. Entretanto, as relações também necessitam de outras qualidades para se manterem saudáveis. É natural que a vontade mude quando o olhar se modifica. Então, por que manter um modelo de relação que não serve mais e, tampouco, apraz?”. Mais uma vez, fiquei sem responder. O sapateiro ponderou: “Nunca haverá uma boa razão para forçar a ficar quem deseja partir. Querer ir embora, evidencia o olhar de alguém sobre uma situação; não se opor à partida revela uma manifestação sublime de respeito por parte da outra pessoa. Se houve ingratidão ou injustiça, o problema não é seu, porém, deles. O mal que mais nos atinge não vem dos outros, é aquele que praticamos. Não obrigar a ficar quem tem vontade de ir, independentemente das promessas que foram feitas, também é exercício de dignidade, liberdade e paz”.</p>



<p>Questionei se ele considerava errado eu lutar pela manutenção do contrato. Afinal, era o combinado desde o início. Loureiro ponderou: “Você estará certo como muitos. Porém, se fizer diferente, estará certo como poucos”. Falei que não tinha entendido. O sapateiro explicou: “Não há nada de errado caso decidida lutar para manter o contrato. Assim determinam as leis, os contratos e os negócios. Será muito bom financeiramente para a editora. Contudo, os obrigará caminhar ao seu lado contra a vontade deles. Algo que não faz bem a ninguém. Se, de outra face, os deixar partir, encerrará a relação carcereiro-prisioneiro que se instalou a partir do momento que os olhares e os desejos se modificaram. Em contrapartida, você perderá uma quantia considerável”. Deu de ombros e concluiu: “O preço da paixão dominada nunca será fácil de pagar”. Franziu as sobrancelhas e aumentou o tom da seriedade: “Cabe a você decidir o que quer ganhar e perder”.</p>



<p>Eu quis saber a razão de tamanha dificuldade para se dominar as paixões. Loureiro respondeu de pronto: “O domínio das paixões exige abnegação, uma virtude rara”. O meu olhar pedia para que ele falasse mais sobre o assunto. O sapateiro entendeu: “A abnegação é a virtude que modifica a medida das prioridades existenciais. Ao invés de usar a régua das conquistas materiais para medir o sucesso de uma vida, passa a utilizar as conquistas espirituais como parâmetro de êxito e vitória”. Esvaziou a caneca e finalizou: “O certo e o errado, assim como o bem e o mal, têm muitas camadas de compreensão. Muito poucos estão prontos para ir às suas camadas mais profundas para, então, emergir com a luz de uma intensidade quase desconhecida e, por isto, pouco reconhecida. Apenas aos abnegados é permitido tamanho mergulho em si mesmos”.</p>



<p>O dia amanhecia. Os raios de sol invadiam a porta de vidro da oficina sem pedir licença nem desculpa. A minha carona – a caminhonete que todos os dias levava pão fresco para o mosteiro – não tardaria a sair. Havia muitas novas ideias a serem metabolizadas. Algumas estavam quase prontas, outras precisariam de mais algum tempo para o devido amadurecimento. Eu precisava pensar. Existia um dilema, mas também uma oportunidade. Eu precisava me preparar, caso quisesse ir a lugares desconhecidos dentro de mim. Somente assim, seria possível transitar pelos dias de um jeito que eu não conhecia.</p>
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		<title>O bom cozinheiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 Jan 2026 17:07:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Eu andava estranhamente cansado naqueles dias. Mesmo pela manhã, logo após o café, antes dos meus afazeres no mosteiro, eu já me sentia esgotado, com vontade de me deitar. Havia um desânimo que os médicos não conseguiam identificar. Os exames clínicos nada apontavam de errado com a minha saúde. Eu...]]></description>
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<p>Eu andava estranhamente cansado naqueles dias. Mesmo pela manhã, logo após o café, antes dos meus afazeres no mosteiro, eu já me sentia esgotado, com vontade de me deitar. Havia um desânimo que os médicos não conseguiam identificar. Os exames clínicos nada apontavam de errado com a minha saúde. Eu amava os períodos de estudos no mosteiro por todo o bem que me proporcionavam. Durante todo o ano, esperava por aquelas semanas de aprendizado e renovação. Transformações angulares na minha vida tiveram suas origens naquele lugar. Contudo, daquela vez, tudo estava diferente. Em mim, parecia não existir alegria nem prazer.</p>



<p>Cheguei a cogitar o fim do meu ciclo na OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha –, irmandade na qual estava associado havia muitos anos. A ideia perdia o sentido quando eu reconhecia a grandeza dos propósitos das atividades ali realizadas. Naquela manhã, pedi para que o Heitor, o monge argentino, me substituísse nas aulas sobre O Sermão da Montanha, texto contido no Livro de Mateus, curso obrigatório ministrado aos monges iniciantes, eixo primordial de todos os demais estudos no mosteiro. Embora eu adorasse esse texto sagrado por tanta clareza revelada, naquele momento, me faltava ânimo para ministrar as aulas. A minha mente parecia turvada. As minhas forças, exauridas. O raciocínio estava embotado, sem as mínimas condições para as indispensáveis progressões e expansões conscienciais. Sentei-me na cantina para tentar entender o que acontecia comigo. Quase que ao mesmo tempo, entrou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele pegou duas canecas com café, sem pedir licença, as colocou sobre a mesa e se sentou à minha frente. Como se soubesse como eu me sentia, afirmou com a voz mansa e pausada de costume: “Você não sabe pensar. Isto termina por drenar a sua energia vital. Quando acontece, os dias ficam descoloridos. É necessário aprender a pensar com urgência. Do contrário, será esmagado pelos próprios pensamentos”.</p>



<p>Sorri com certa dose de ironia. Todos pensam. Pensamos desde sempre. Pensamos o tempo todo. Pensamos até quando não queremos pensar. Se existia algo que eu não precisava aprender, era pensar. O bom monge me corrigiu: “Não me refiro ao fluxo ininterrupto dos pensamentos, algo comum em todas as pessoas, mas a maneira como lidamos com cada um deles. Isto define as enfermidades ou a saúde da alma”. De imediato, o meu sarcasmo desapareceu. Dei-me conta da importância daquela conversa. Ao notar o meu interesse, ele prosseguiu: “Todos os dias somos invadidos por torrentes de ideias das mais diversas origens. Acontecimentos recentes e remotos, lembranças boas e ruins, conquistas e frustrações, expectativas e suposições, ideias elaboradas ou pré-fabricadas”. Calou-se por instantes, como se buscasse por uma metáfora que me auxiliasse o raciocínio, e disse: “Pensamentos não são pratos prontos. São ingredientes. Quando usados e misturados sem critério nem controle na cozinha da mente, criam o caos pelos restaurantes do mundo, onde realizamos as nossas ceias existenciais, seja cada um consigo mesmo, seja nas relações interpessoais. Sem um bom cozinheiro para selecionar, preparar e harmonizar os ingredientes, os pratos terão sabores bem desagradáveis. Por vezes, podem envenenar”.</p>



<p>Pedi para que explicasse melhor. O Velho foi generoso: “Os ingredientes não podem ser utilizados sem o devido cuidado. Há que se limpar o peixe, tirar a casca do abacaxi e dosar o sal. Alguns precisam hidratar; outros, esperar pelo amadurecimento. Assim são com os pensamentos que têm, entre outras origens, os resultados das experiências oriundas das relações e dos acontecimentos. Todas geram conclusões, que servem de base para a formação das crenças. Não estreite o conceito de crença à religião. Entenda como crença tudo aquilo que acreditamos como verdadeiro. Por vezes, estamos certos e temos um ingrediente de qualidade para preparar bons pratos. Fartamo-nos com as delícias da vida. Noutras, estamos errados e fazemos uso de ingredientes podres. O resultado é desastroso. Os dias azedam”.</p>



<p>O bom monge acrescentou: “As crenças, em alguns casos, se originam das experiências vividas, no limite extremo da percepção e da sensibilidade de cada indivíduo. Uma elaboração interna pode ser boa ou ruim, trazer clareza ou nebulosidade, a depender da capacidade de cada indivíduo. É comum que uma mesmíssima situação seja compreendida de várias maneiras por diferentes pessoas”. Bebeu um gole de café e continuou: “Em outras situações, a crença surge de uma ideia externa, que nos chega pronta e a aceitamos como verdadeira; seja por lógica, servindo para escalar tons de compreensão, seja por comodismo, como maneira de nos deixar confortáveis no lugar de onde não desejamos sair. Do mesmo modo, pensamentos desconfortáveis são recebidos como convites à transformação por alguns, enquanto por outros, são rechaçados de imediato por aparentarem má-formação. Assim escolhemos os ingredientes que usamos em nossas refeições espirituais. Somos o exato reflexo das verdades que acreditamos. Elas nos moldam o comportamento e as escolhas. Forjam o caráter e o destino. Progresso ou decadência, movimento ou estagnação, alegrias ou tristezas, conquistas ou frustrações, encontros ou fugas, cada pessoa vive a realidade possível na última fronteira alcançada pela verdade que construiu em si e para si”.</p>



<p>Então, concluiu: “Enfim, tudo começa e termina por aprender a pensar. Pensamentos mal selecionados ou mal construídos conduzem a escolhas equivocadas. O inverso também se aplica: bons pensamentos e ideias bem elaboradas servem ao bem-estar e à evolução. Isto define a doçura ou a amargura da vida e, por consequência, a disposição ou o desânimo da caminhada. Todo poder e equilíbrio reside na mente”.</p>



<p>Os meus olhos pediam para que ele aprofundasse o raciocínio. O Velho compreendeu as palavras não pronunciadas e ponderou: “A partir daí, fica fácil entender que as tempestades existenciais são diretamente proporcionais aos equívocos das verdades que acreditamos e aos erros cometidos nas conclusões das situações que nos envolvem. O contrário também se aplica às pessoas que já conseguem trazer um sol radiante no coração. Faz-se necessário criar boas condições na mente para que os bons pensamentos encontrem motivos para ficar. Por hábito – alimentado por um tipo de prazer que, enquanto se manter inconfessável, não conseguiremos domar –, somos atraídos pelas tragédias. Isto explica a razão dos veículos de comunicação focarem nesse tipo de notícia. As tragédias, por sua vez, criam condições propícias para os maus pensamentos direcionarem escolhas e comportamentos desastrosos. Contudo, os hábitos não traduzem a essência de ninguém. A nossa essência é luz. Os hábitos surgem das influências e condicionamentos socioculturais, moldados por heranças ancestrais erguidas em conflitos, disputas, medos, culpas, rancores e outros vícios comportamentais ligados aos sentimentos de inferioridade – como o orgulho, a vaidade, a ganância, a inveja e o ciúme – que, em maior ou menor grau, ainda nos integram, compõem e fazem parte da nossa personalidade. De outra face, hábitos também se modificam, sendo remodelados a partir de uma nova postura com a qual o sujeito decide se relacionar consigo e com o mundo”.</p>



<p>Perguntei o quanto de um indivíduo é passível de transformação. O Velho respondeu: “O tanto de cascas, disfarces, enganos e arestas que ocultam a essência necessitam de descarte e reconstrução. Ninguém nasce pronto. Sim, todos têm hábitos, comportamentos, personalidades e temperamentos. Contudo, ao contrário do que muitos imaginam, essas características não são estáticas ou imutáveis. Em verdade, foram adquiridas ao longo da estrada do tempo. Logo, são transitórias e dinâmicas. É fundamental que seja assim, pois, do contrário, em nada serviriam à evolução que, por princípio, exige infinitas mudanças. Na sequência de contínuas transformações, aos poucos, a consciência amadurece e adquire condições para expressar a sua originalidade, raiz da beleza individual, que faz revelar os aspectos do ser e do viver que nos tornam únicos, gerando sentimentos autênticos de paz, dignidade e alegria, mesmo durante os momentos difíceis e conturbados dos dias. A origem dessa genuína revolução existencial está de acordo com a capacidade de selecionar ideias e elaborar as experiências para as usar em prol da própria evolução. Tudo e todos ao redor se beneficiam. Aprender a pensar é fundamental para conseguirmos amar mais e melhor”.</p>



<p>O Velho ponderou: “Quando não se aprende a pensar, os pensamentos ruins se sobrepõem aos bons, corroem a mente, esmagam o indivíduo e azedam a realidade. Instalam um império sombrio de amargura e sofrimento. Os melhores pensamentos são degredados para a consciência reprimida. Ficam exilados no inconsciente. Erros, desencontros, conflitos, abandonos, mágoas, cobranças e confusões se tornam crescentes e comuns ao cotidiano. Aos poucos, perdemos o melhor que nos habita, ficamos descrentes e irritadiços, cansados e desanimados. O amor, a alegria, a esperança e a fé restam desabrigados. A casa fica vazia de bons moradores. Lembre que cada um mora em si mesmo com os pensamentos que escolheu como companhia. Os pensamentos erguem e destroem universos interiores”.</p>



<p>O bom monge retornou à metáfora da cozinha para dirimir o meu questionamento: “Faz-se necessário retirar as cascas da superficialidade para encontrar o significado profundo dos acontecimentos: nele reside o doce do amor manifestado ou o azedo do amor sufocado. Por trás da verdade das palavras proferidas, existe a verdade inconfessável por ainda restar incompreendida. Esta revela muito mais do que aquela. Há mais sobre quem somos no que negamos e calamos do que naquilo que falamos. Assim é com todos. Mas não se preocupe em as descobrir nos outros. Antes, cuide de as encontrar em si mesmo. Essa será a sua riqueza e poder”. &nbsp;</p>



<p>Usei a mesma analogia para saber se existia uma receita para que os bons pensamentos voltassem a preparar bons pratos para serem servidos em minhas refeições existenciais. Ele disse sim com a cabeça e a detalhou: “É preciso limpar das palavras alheias os sentidos que nelas não cabem, que tanto aporrinham, iludem, enganam, furtam energia e, por isto, conseguem nos arrancar do eixo de luz. Muito pouco do que é dito tem a ver conosco. Do mesmo modo, quase nada do que falamos tem a ver com os outros. Quando alguém fala, expressa um olhar ou um sentimento, não necessariamente a verdade. Mostra a realidade como a compreende, os abismos que vê e as pontes que atravessou. Alguns abismos apontados mundo afora, muitas vezes, não passam de vazios interiores. Assim como, embora sirvam para muitos, nem todas as pontes suportarão a travessia de todos, pois levam para onde muitos não querem ir. Quando alguém cala, deixa um vazio que não se preenche com suposições. Apenas paciência e respeito, indispensáveis ao amadurecimento da verdade. Lembre que o cozimento em fogo lento é essencial para refinar o sabor das mais finas iguarias. O fogo alto das paixões não serve à textura delicada do amor e da sabedoria”.</p>



<p>Bebeu um gole de café e concluiu a receita: “Dosar em quantidades mínimas as expectativas e as preocupações, para que nunca falte à vida o mel dos sonhos, uma sobremesa que precisa constar em todos os cardápios. Em contrapartida, abuse da sensatez, como jeito seguro para jamais resvalar nos excessos típicos aos devaneios ou, tampouco, na escassez provocada pelos medos, culpas e mágoas, sempre tão insossos, azedos e desnecessários. Do mesmo modo, não se deve confundir os mecanismos equilibradores e fortalecedores da dignidade com as coerções típicas do moralismo que, em melhor análise, sempre escondem imoralidades marinadas em sentimentos rasteiros. No mais, bons pensamentos sustentam boas atitudes, ainda que ninguém entenda, concorde ou queira nos acompanhar. Nunca esqueça: a sua consciência basta para validar e autorizar os seus movimentos. Contudo, tenha maturidade para lidar com as inevitáveis consequências. Sejam quais forem”. Deu de ombros e concluiu: “Uma cozinha comandada por um chef sempre oferecerá um cardápio repleto de pratos maravilhosos. Sem um bom cozinheiro, será uma catástrofe anunciada”.</p>



<p>Perguntei quem seria o chef na cozinha da mente. O bom monge respondeu de pronto: “A consciência”. Indaguei como saber ou fazer para que a consciência esteja sempre no comando. O Velho esclareceu: “Não podemos nos confundir com os nossos pensamentos. Este é um erro comum e vulgar. Ideias das mais diversas estirpes atravessam a mente todos os dias. Todos temos bons e maus pensamentos, não há como os evitar. Contudo, temos o poder de decidir aqueles que usaremos como ingredientes para as refeições. Portanto, ainda que assolados por catástrofes, decepções, traições, frustrações ou notícias sobre os esgotos do mundo, temos a escolha de descartar as ideias que apenas servem ao azedume dos pratos”. Franziu as sobrancelhas e pontuou: “Quem desconhece ou não reconhece esse poder, ainda é um fantoche das circunstâncias. O proprietário que não entende o que acontece na cozinha, está longe de se tornar o verdadeiro senhor do próprio restaurante. Nenhuma reclamação será cabível se os frequentadores forem de péssima índole ou se as refeições restarem contaminadas”.</p>



<p>Ele prosseguiu: “Recuse os pensamentos que não servem à tarefa do bem e da boa transformação pessoal. Porém, antes, identifique as origens e os motivos. Ou seja, de onde vieram e por qual razão. Somente assim será possível, aos poucos, diminuir as suas presenças, até se tornarem insignificantes ou, antes disto, que consiga os descartar cada vez mais rapidamente”. Bebericou mais um gole de café e sugeriu: “Deixe ficar os que sustentam as virtudes e ampliam a verdade, pois, são indispensáveis ao equilíbrio emocional, à clareza mental e, portanto, indispensáveis ao aprimoramento das escolhas e ao bem-estar. Mesmo que o mundo, aos gritos, exija a adoção de uma ideia, acolha a consciência se, num sussurro, ela lhe sugerir uma postura diferente. Só se cria um cardápio original se valendo de receitas únicas”.</p>



<p>Por fim, o Velho abordou a questão dos sentimentos, os temperos que realçam ou estragam o sabor dos pratos: “A relação entre pensamentos e sentimentos é simbiótica. Há uma poderosa, porém, saudável e perigosa ligação que os retroalimenta. As emoções densas têm o poder de estragar as boas ideias. Os sentimentos sutis têm a força de desmanchar os maus pensamentos. Assim como o sal realça o sabor, o bem sentir apura o bom pensar. Para compreender os processos da mente se faz necessário entender os movimentos do coração. Enquanto não acontecer, viveremos atabalhoadamente tentando administrar as consequências das incessantes decisões equivocadas, sem admitir que fomos nós que as provocamos. Seguiremos no longo e penoso círculo vicioso de transferir responsabilidades, amaldiçoar a falta de sorte e lamentar as injustiças do mundo num comportamento que nos retém na imaturidade e nos drena a vontade de viver”. Deu de ombros, me lembrou do cansaço e do desânimo que me abatiam sem aparente explicação, e finalizou a conversa: “Ingredientes estragados contaminam os pratos; os comensais adoecem. Bons alimentos revigoram a saúde. Isto serve tanto ao corpo como à alma”.</p>



<p>O Velho alegou precisar se preparar para a palestra daquela tarde e se levantou. Receita dada, conversa encerrada. Para ele, não para mim. Era preciso arrumar aquelas ideias nas prateleiras da mente. Somente assim eu poderia fazer uso do poder que, embora sempre me pertencera, eu insistia em desperdiçar. Um movimento interno que, não apenas me devolveria a autoria dos meus rumos, como me permitiria recuperar a alegria e o ânimo perdidos nos becos escuros das minhas incompreensões. Com os seus passos lentos e seguros, o observei caminhar até onde os meus olhos não mais o enxergaram. Em silêncio, agradeci por mais aquela receita. Transformá-la nas mais finas ceias espirituais era a tarefa que me cabia. Caso, é claro, eu quisesse me tornar um bom cozinheiro.</p>
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		<title>Abrir caminhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jan 2026 21:17:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p>Essa história aconteceu tem quase um par de décadas. Fausto, de quem eu era padrinho, filho de um dos meus melhores amigos, tinha se graduado em Engenharia Civil havia pouco tempo. Ao contrário das suas expectativas, o progresso profissional se mostrara lento, bem diferente de como ele imaginara, conforme me relatou quando me procurou. Os empregos oferecidos estavam bem aquém da sua capacidade. Eram cargos e funções nos quais jamais teria condições de expor o talento que possuía. Os seus caminhos estavam fechados. Intransponíveis. Todas as tentativas se mostraram infrutíferas, sem nenhuma boa razão aparente. Algo de anormal estava acontecendo. Fausto se lembrou das histórias que eu contava sobre a tia Francisca, a benzedeira de Madureira. Pediu para que eu o levasse até ela. Tinha certeza de que a boa senhora poderia lhe ajudar. Hesitei por alguns instantes, sem a convicção se era disso que ele mais precisava naquele momento. No entanto, como as orações só podem fazer bem, atendi ao pedido.</p>



<p>O Rio de Janeiro é repleto de personagens fantásticos que parecem transitar entre a realidade e a ficção em razão de suas incríveis características pessoais. Tia Francisca era uma dessas pessoas. Moradora de Madureira, um dos bairros mais icônicos da cidade, berço de artistas geniais e trabalhadores tenazes, a benzedeira morava na mesma casa simples que a conheci ainda garoto, levado pelas mãos do meu pai, preocupado com aquele menino que parecia habitar diversos mundos distintos a um só tempo. Apesar dos hábitos e condições humildes, possuía um modo culto e refinado de se expressar, fazendo a prosa se enamorar com a poesia. Sempre com as portas abertas, ela recebia almas aflitas que não compreendiam as aparentes incoerências da vida. Assisti muitas pessoas saírem de lá com uma luz no olhar que não existia ao chegarem ali. Quando queriam pagar pela reza, ela oferecia um sorriso doce, apontava com o queixo para o altar e falava, quase em sussurro, com sinceridade: “Agradeça ao Nosso Senhor Jesus Cristo, a Ele toda honra e glória. A mim, nada é devido”.</p>



<p>Como de costume, a encontrei sentada na surrada poltrona azul, <em>da cor do manto de Nossa Senhora</em>. Apresentei o meu afilhado a ela. Com um gesto gentil, sugeriu que Fausto se acomodasse em um pequeno banco de madeira à sua frente. A pedido da anciã, me sentei ao lado deles. Sem que fosse preciso perguntar, o jovem engenheiro, agoniado, explicou das improváveis dificuldades que o impediam de escalar os merecidos degraus profissionais. Pediu para que ela intercedesse junto aos bons Espíritos. Os seus caminhos estavam fechados. Não lhe parecia natural tantos entraves e obstáculos. Em seguida, elencou vários deles. A benzedeira o ouviu com infinita paciência, sem qualquer aparte ou interrupção. Ao final, sorriu com meiguice e pontuou: “Em primeiro lugar, jamais esqueça que Deus, independentemente de como você o compreenda, não privilegia as súplicas de um filho com mais atenção ou interesse do que a de outro. Não há distinção. Cuide apenas para que o seu pedido esteja de acordo com as suas necessidades, nunca dos seus desejos. Preste atenção também para que esteja eivado em justiça e amor. Nestas condições, todos são atendidos. Nunca nos moldes da imaginação mundana, sempre em prol do aprendizado e da evolução espiritual”. Fez uma breve pausa antes de esclarecer outro aspecto de extrema importância: “Nenhum lugar ou pessoa séria prometerá o que está fora da sua esfera de realização. Ninguém tem o poder de abrir os caminhos de outra pessoa”.</p>



<p>Fausto retrucou. Existiam igrejas e templos, assim como gurus e líderes religiosos, que garantiam tal proeza. Tia Francisca o corrigiu: “Você deve ter entendido errado ou eles faltaram com a verdade. Há vários lugares e pessoas que têm condições de oferecer as ferramentas indispensáveis a esse objetivo. No entanto, a obra é pessoal e intransferível”. O olhou com compaixão e continuou: “Embora, na medida do possível e da sensatez, todos devam ajudar a todos, a pavimentação do caminho e o consequente avanço são tarefas individuais. E tem que ser assim mesmo, ou retiraríamos da vida a função pedagógica de fomentar as transformações indispensáveis para que possamos nos tornar pessoas diferentes e melhores”. Ele voltou a contestar. Argumentou que viajava por um caminho intransitável. Era esforçado e inteligente. Havia estudado muito. Não fazia mal a ninguém. Era preciso que lhe fosse concedida outra estrada existencial, na qual houvesse meios para alcançar o que lhe deveria pertencer por merecimento. A benzedeira disse não com a cabeça e explicou: “Entenda você ou não, tudo está do jeito como deveria estar. A cada um cabe as exatas dores e delícias dos dias que atravessa”. Em seguida, vaticinou: “Se a estrada está ruim, não se lamente nem reclame. Apenas mude o seu jeito de caminhar. Do contrário, o caminho permanecerá igual. Ninguém poderá lhe ajudar”.</p>



<p>O jovem engenheiro respirou fundo para conter a impaciência, como se dissesse que não tinha ido a Madureira para ouvir aquelas palavras. Antes que se manifestasse, tia Francisca propôs uma reza para acalmar o seu coração: “Desequilíbrios emocionais turvam a clareza mental. Por isto, orações e meditações, assim como boas leituras têm grande valor. Quando a realidade vai na contramão da imagem irreal que temos sobre quem somos, restamos destruídos. Conhecer-se mais e melhor é a base da verdade e das virtudes. São os alicerces da reconstrução pessoal. O avesso disto nos conduz à descompensação, à estagnação e ao sofrimento, sem que tenhamos condições de entender que demos causa aos efeitos que nos envolvem e, por consequência, terminamos por fincar bandeira em um destino indesejado”. Ele se calou para que ela o benzesse. Passados alguns poucos minutos, nada havia mudado, salvo uma pequena, porém nítida, sensação de serenidade nas feições de Fausto. Um sinal de que a sua escuta estava um pouco menos obstruída.</p>



<p>Mais por gentileza do que por convicção, Fausto perguntou como a benzedeira poderia o ajudar a mudar o seu jeito de caminhar para que, enfim, os caminhos se abrissem. Com a generosidade e a paciência que lhe eram típicas, a benzedeira explicou: “Aquele que você é hoje, o trouxe até o presente momento existencial, mas não tem poder de o levar adiante. Quem você é está com a capacidade de movimento esgotada. Para seguir em frente, terá que se descontruir para que uma nova construção interna, diferente e melhor do que a atual, possa se erguer. Ninguém muda a maneira de se deslocar pelo mundo e pela vida sem modificar o próprio comportamento. Entenda como comportamento o modo de agir, reagir e realizar escolhas. Hábitos não definem a essência de ninguém, apenas demonstram o nível atual de consciência, que sempre poderá se elevar, caso o indivíduo tenha a firme determinação de modificar o seu jeito de olhar e lidar consigo mesmo. Todos os hábitos, por mais antigos e arraigados, são passíveis de transformação, caso o indivíduo compreenda que esses comportamentos usuais impedem o florescimento do melhor que há em si. A vida sempre responde no exato compasso ou descompasso dos nossos passos”.</p>



<p>Os olhos do engenheiro demonstravam interesse. Tia Francisca prosseguiu: “Para mudar o comportamento e, porquanto, a própria história, é preciso transformar a maneira de pensar. Pensamentos definem rotas que, por sua vez, determinam destinos. A mente é a janela pela qual a alma observa, entende e se manifesta. Pensamentos sutis ou densos têm o poder de abrir ou fechar janelas, de deixar a mente clara ou turva, de permitir que a consciência se expanda ou se retraia. Logo, os pensamentos têm o poder de ampliar ou estreitar a realidade – a percepção dinâmica que cada pessoa tem do mundo e da vida –, o lugar onde os caminhos se apresentam ou se escondem. Preste atenção ao tipo de ideias que ocupam a sua mente na maior parte do tempo. Não há como impedir que pensamentos corrosivos nos invadam, mas temos condições de os deixar passar, sem permitir que criem raízes. Quase todas as tormentas os têm como sementes”.</p>



<p>O rapaz argumentou que, de tempos em tempos, assumia compromissos de mudanças consigo mesmo. Ele disse saber da importância das constantes transformações. Ela o olhou com enorme compaixão e indagou: “O que acontece depois desse diálogo interno?”. Fausto admitiu que nada mudava. Confessou desconhecer o porquê. A benzedeira explicou: “Compromissos sem projetos viáveis e acompanhado de incansáveis ações direcionadas ao objetivo final, traduzem os sonhos que nunca se realizam. A rotina é fundamental ao sucesso. A rotina é a própria estrutura do caminho. Não existe rotina que sobreviva à falta de disciplina e determinação. Nela devem estar contidos, necessariamente, todos os elementos essenciais às modificações intrínsecas para que sirvam de sustentação às realizações extrínsecas. Haverá bifurcações, onde as escolhas se mostrarão determinantes como manifestação da verdade e da vontade mais íntima. Não faltarão tempestades para mostrar o quão firme estão construídos os pilares da consciência na moldagem de um novo jeito de ser e viver. As tormentas servem para carregar o que em nós nada mais acrescenta nem impulsiona. Então, abrem espaço para novo. O olhar fica mais claro; o coração aprende a se manter sereno e alegre a um só tempo. Os pensamentos ganham altitude, não pelos saltos dos devaneios, mas pelas asas do amor. As paixões restam dominadas, sem mais nos dominar. Passam a servir de impulso, não mais de desvario nem de descontrole. Assim, impensados caminhos nos dizem sim”. Deu de ombros e concluiu: “Eles sempre estiveram lá, a gente é que não os enxergava”.</p>



<p>Fausto comentou que aquelas palavras, repletas de poesia, tinham pouca praticidade. A mudança, ao menos a que pretendia, não dependia dele. Afirmou estar aprisionado às circunstâncias externas. Improváveis obstáculos impediam o prosseguimento natural da sua jornada. Repetiu os argumentos dos empregos inconsistentes e das remunerações insuficientes. Dos cargos e funções aquém da sua capacidade. Contou que o mercado de trabalho operava de maneira injusta e cruel. Empreender exigia um dinheiro que não tinha, além de envolver riscos bastante altos. Uma ansiedade atroz, acompanhada por uma agonia crescente, se instalavam como sentimentos inevitáveis. O que fazer quando nada é possível fazer, perguntou. Tia Francisca ponderou: “Ninguém está preso às circunstâncias do mundo, mas às crenças que tem sobre si mesmo. Orgulho, vaidade e ganância são frutos de sentimentos de inferioridade imperceptíveis ou inconfessáveis”.</p>



<p>O jovem engenheiro discordou com veemência. Não existia nele qualquer sentimento de inferioridade. Ao contrário, se sentia mais preparado e capaz do que a maioria da pessoas. A benzedeira balançou a cabeça e o indagou: “Entende agora a origem do orgulho, da vaidade e da ganância?”. Sem compreender o que ela queria explicar com aquele questionamento, ele não respondeu. A anciã esclareceu: “O orgulho, a vaidade e a ganância são sentimentos originados das fraquezas que recusamos a admitir. Por isto as chamamos de sombras, pois, ainda habitam nos becos escuros da mente. Temos dificuldade em perceber e admitir as suas manifestações. Sempre prejudiciais, nos valemos de raciocínios tortuosos e adjetivos falaciosos para as justificar. &nbsp;Embora possam aparentar força e poder, não passam de armaduras rígidas usadas para disfarçar uma mente fragilizada e um coração despedaçado. Acreditar-se melhor do que alguém é um ato de traição da mente para com a consciência, na vã tentativa de evitar o esforço da reconstrução interna que cedo ou tarde terá de acontecer. Todo sofrimento é proporcional à negação ou ao desconhecimento que cada pessoa possui sobre si mesma”.</p>



<p>Bebeu um gole de café contido em uma caneca que ficava no chão, ao lado da poltrona, e ponderou: “O caminho se manterá instransponível ao viajante que se nega a desmontar as próprias armadilhas mentais. Não há engodo maior do que acreditar que merecemos a vitória antes mesmo de lutar e a alcançar por direito”. Pousou a caneca no chão e pontuou: “Transferir para o mundo a responsabilidade pelas nossas insatisfações e insucessos, em nada ajudará. A revolução é interior. A vitória também. O início de toda transformação começa com a coragem de reconhecer as próprias fraquezas. Assim nascem os fortes. Assim se estruturam as verdadeiras conquistas. Essa também é a fonte do genuíno amor pela própria evolução espiritual, a essência da vida. Um poderoso sentimento proveniente de uma consciência que não teme nem cede às dificuldades”.</p>



<p>Por fim, concluiu: “Nenhum trabalho é indigno. Aceite e faça o que estiver ao seu alcance. Trate a todos como gostaria que lhe tratassem na inversão de papéis. Agradeça as oportunidades com respeito e atitude. Toda dedicação será recompensada. Viva no limite da sua capacidade, sem esquecer de descansar e se divertir. Todos os dias, em qualquer situação, ofereça sempre o melhor que há em si. Retribua o mal com o bem, pois, este é o único meio para se livrar de toda a maldade. Por mais difícil que sejam as atribulações e dissabores, não esqueça que o mundo é perfeito à lapidação e ao aperfeiçoamento pessoal. Viva em paz e com alegria. A paz não consiste na ausência de tormentas. Isto se chama calmaria. A paz está em manter a clareza mental, o equilíbrio emocional e a força de movimento durante as tempestades. Do mesmo modo, a alegria não reside apenas nos acontecimentos agradáveis. Isto são bênçãos. O segredo da alegria está na capacidade de encontrar as maravilhas da vida durante o enfrentamento e a superação das dificuldades. É quando conseguimos trazer à tona a beleza oculta da alma. Não existe vitória maior”.</p>



<p>“No mais, como ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo, <em>reze e vigie</em> o tempo todo. Não os outros, mas a si mesmo. O maior poder da prece é pedir a ajuda dos bons Espíritos para nos inspirar na luta contra os maus pensamentos. O resultado deste bom combate determinará a abertura ou o fechamento dos caminhos. Tudo começa ou termina com os pensamentos. Este poder é seu. Sempre esteve nas suas mãos. Aprenda a usar”.</p>



<p>A conversa estava encerrada. Fausto agradeceu, mais por educação do que por satisfação. Contudo, notei algo de diferente em seu olhar. Ainda sem entender o motivo, ele estava desconcertado. Uma semente havia sido lançada. Se encontrasse solo fértil, floresceria. Despedi-me da tia Francisca e partimos. No trajeto de volta para casa, Fausto não disse palavra.</p>



<p>Nunca mais tocamos no assunto. Os diversos compromissos e projetos pessoais me afastaram do meu afilhado. Quando nos encontrávamos em alguma festividade, não tínhamos o que conversar mais a fundo. Até que, num certo domingo, pela manhã, fui surpreendido por um telefonema. Ele queria agradecer a tia Francisca. Disse que me pegaria em casa. Conversaríamos no carro, prometeu. Fausto estava diferente. Não pela barba que antes não havia, mas pela luz no olhar que antes não existia. Ele estava feliz. Contou que, alguns dias depois daquele encontro, um tanto quanto contrariado, aceitou o emprego de apontador no almoxarifado de uma obra, em uma construtora de grande porte. Uma função subalterna ao de engenheiro, a qual tinha se graduado. Nos momentos de insatisfação, afastava os pensamentos de contrariedade e se lembrava das palavras da benzedeira. Com o passar dos meses, começou a entender que aquele cargo lhe oferecia a oportunidade de conhecer aspectos subliminares de uma construção, que jamais conseguiria caso tivesse iniciado na empresa já como engenheiro, conforme a suas pretensões iniciais. Como apontador, teve a oportunidade de conversar com pedreiros e fornecedores, ouvir suas queixas e sugestões mais amiúde. Tinha acesso aos bastidores da construção. Era o primeiro e chegar e o último a sair da obra. Adquiriu um olhar diferenciado pela capacidade de entender a construção por um viés inusitado, impossível aos engenheiros e diretores da empresa. Um conhecimento que o fortalecia como profissional. Fausto impressionava pelas opiniões seguras e assertivas. Aos poucos ganhou a confiança da diretoria.</p>



<p>Na primeira oportunidade, Fausto ascendeu ao cargo de engenheiro de uma das obras. Logo aquela construção teve um desenvolvimento diferenciado. Os funcionários não apenas o obedeciam; eles o respeitavam, tanto pela postura digna como pelo saber minucioso. Naquela semana recebera outra promoção. Seria o engenheiro-chefe, responsável por todos os engenheiros da construtora nas demais obras. Os diretores o admiravam e confiavam nele. Perguntei se acreditava que, algum dia, seria convidado a fazer parte da diretoria. Fausto respondeu que não se envolveria com essa ideia. Manteria a concentração no trabalho, o realizando da melhor maneira possível. Tão e somente. &nbsp;Afinal, os caminhos se abriram quando ele, no convívio diário com os seus pensamentos, deixara passar, como se fosse uma brisa da tarde, as ideias de orgulho, vaidade e ganância, enquanto encontrava um bom motivo e lugar para a humildade fincar as raízes. Aprendera que nada havia de bom em se deixar conduzir pelos maus pensamentos. Fausto rezava e vigiava os próprios pensamentos o tempo todo. Não queria tornar a perder o poder sobre si mesmo. O seu pacto era com as boas ideias, com o trabalho e com a luz. Ao contrário de todos os Faustos da literatura e dos séculos, ele não queria mais encontrar fechados os portões do seu destino.</p>
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		<title>O ignorante</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 13:42:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p>Era o fim de tarde de uma quarta-feira qualquer no Rio de Janeiro. Eu estava extenuado depois de um dificílimo dia de trabalho. Problemas de todos os tipos se avolumavam, exigindo soluções nervosas e urgentes. Tive a desagradável sensação de estar aprisionado em um círculo vicioso. Em síntese, os movimentos que tinham me ajudado a chegar até aquele momento existencial, o jeito de ser e viver que havia me tornado quem eu era, não mais me serviam. O meu estilo de vida se tornara obsoleto. Não me refiro a roupas, profissão ou entretenimento. O modo como eu me compreendia não cabia mais em mim. Para crescer, eu teria de romper a casca dos padrões de comportamento que me deixavam estacionados, dentro e fora de mim. Quem eu era tinha me levado até ali, mas para prosseguir seria necessária uma reconstrução. Ou uma reinvenção. Vivemos mundo afora a realidade construída universo adentro. Nem mais nem menos. Isto define o nosso rol de possibilidades, assim como nossas alegrias e tristezas. A realidade se expande ou se contrai no limite da percepção e da sensibilidade alcançadas. O que é impossível para alguns, é uma realidade para outros. Não falo de condições financeiras, mas dos movimentos possíveis à extensão da verdade compreendida e das virtudes agregadas à bagagem pessoal. Isto estabelece as fronteiras do viver. Os problemas que tenho sinalizam as transformações que me aguardam.</p>



<p>Conhecer o teorema não garante a solução. É preciso elaborar a equação. Ninguém é o que sabe, mas o que faz. Quando a vida está ruim é preciso mudar. Mudanças internas viram o comportamento pelo avesso. Tornamo-nos uma outra pessoa. Ocorre que eu não sabia o que estava errado nem o que mudar. Decidi ir para casa. Era preciso pensar. Encerrei o expediente e chamei um táxi. No rádio do carro tocava Norah Jones. A música me transportou para as mesas de uma agradável cafeteria na Gávea, escondida em uma rua transversal, tranquila e arborizada. Pedi ao motorista que mudasse a rota. Sem nenhuma placa ou letreiro na porta, a antiga casa, erguida em meados dos anos 1950, parecia encantada – no sentido mais transcendental da palavra. Repartida em diversos ambientes, era possível ouvir jazz, blues ou bossa-nova sem precisar aumentar o volume da voz nas conversas embaladas por espressos, frappuccinos e mochas quentes ou gelados. Havia um jardim central sombreado por uma secular e frondosa mangueira, onde confortáveis sofás e poltronas tornavam o ambiente perfeito para passar as tardes na companhia de livros entremeados a capuccinos.</p>



<p>Bárbara, a barista, e dona do estabelecimento, preparava o melhor café da cidade. Formada em Psicologia, e amante da Psicanálise, abdicara da clínica havia algum tempo. Entretanto, jamais abandonou os mistérios da psique. Para tanto, duas vezes por semana, sempre no final da tarde, subia num pequeno púlpito montado em dos cantos do salão principal para falar de algum assunto relacionado aos prazeres e as dores da alma. Mesmo sem nenhuma divulgação, a casa transbordava de gente. Com os braços estampados por um sem-número de tatuagens sobre a pela clara, variava as cores do cabelo conforme o seu estado de espírito, transitando do ruivo ao lilás, das asas negras da graúna ao dourado dos raios de sol. Por vezes, Bárbara pedia licença para se sentar à mesa com alguém. Isto acontecia quando a sua aguçada sensibilidade indicava um viajante desorientado diante de uma encruzilhada à espera de uma orientação. Então, oferecia um olhar traduzido em palavras concisas e precisas, capazes de mostrar passagens por entre as muralhas dos acontecimentos incompreendidos. De nada adiantava solicitar uma consulta. Era a guia quem escolhia o viajante. “Aqui não é um consultório, é uma cafeteria”, insistia em repetir. Contudo, era bem mais do que isto.</p>



<p>Naquele dia, o cabelo de Bárbara estava azul. Eu não sabia o que aquela cor significava, tampouco perguntei. A cumprimentei com um sorriso. Ela me observou por breve e expressivo instante. Em seguida, sugeriu que eu me acomodasse junto ao balcão. Falei que gostaria de ficar no jardim. Eu queria ficar sozinho, beber um café e pensar. Eu precisava de quietude para me encontrar comigo mesmo. A barista pontuou: “Sem dúvida, você precisa desse momento. Todos precisamos. No entanto, desconfio que talvez fosse interessante que hoje, quando for ao jardim, leve consigo algumas ideias diferentes, capazes de conduzir os seus pensamentos a locais onde eles nunca estiveram”.</p>



<p>Aceitei a oferta. Ela me trouxe o espresso duplo de sempre e perguntou: “O que o atormenta? Nunca o vi assim”. Expliquei que estava enredado num emaranhado de problemas intermináveis. Tinha a sensação de que nunca terminariam. Falei que me considerava um Sísifo contemporâneo. Fiz alusão ao personagem mitológico condenado a carregar uma pesada pedra até o alto de uma montanha. Ocorre que, dia após dia, ao se aproximar do topo, a pedra lhe escapava dos braços e rolava montanha abaixo, o obrigando a recomeçar infinitamente a exaustiva tarefa. Bárbara sorriu e indagou: “Como você compreende esse mito?”. Fugi da resposta dizendo que havia mil interpretações, todas válidas. A barista disse sim com a cabeça e esclareceu: “Sísifo foi castigado por enganar a morte, cujo nome é Tânatos no texto grego. Das muitas interpretações possíveis, gosto daquela de que trata a morte, não como o falecimento do corpo, mas como simbolismo ao encerramento dos ciclos evolutivos. Podemos nascer e morrer muitas vezes em uma única existência – e isto é ótimo –, desde que entendamos o fim de um ciclo e estejamos dispostos a iniciar uma nova e desconhecida jornada existencial. Não é fácil abdicar de traços da personalidade que, apesar dos prejuízos causados por cercearem importantes movimentos intrínsecos, não raro, são motivos de orgulho e prazer. Ou aceitar as imperfeições dos raciocínios tortuosos, erguidos para servir ao conforto rasteiro de uma consciência que se recusa a ir mais longe. Em alguns casos, uma reforma basta. Noutros, será necessário demolir o prédio para construir outro, com novos e diferentes fundamentos”.</p>



<p>Deu um sorriso maroto e explicou: “É mais fácil ludibriar Tânatos e negar a necessidade da renovação contínua dos ciclos evolutivos. Então, a vida se repete indefinidamente sem nada acrescentar. Não há castigo maior do que viver uma vida vazia em conteúdo e utilidade. Ainda que por um breve período, será um desperdício. Sísifo nunca consegue levar a pedra – o <em>peso morto</em> de si mesmo – até o alto da montanha por se recusar a se libertar de quem não mais lhe serve em si mesmo. A reconciliação com Tânatos equivale à aceitação do desafio existencial para iniciar uma nova jornada de aprendizados e transformações”. Deu de ombros e concluiu: “O problema não são os problemas. Estes são apenas os mensageiros das mudanças necessárias. Não culpe o mensageiro por não gostar, ou não compreender, o significado da mensagem”.</p>



<p>Perguntei se ela queria me dizer que os problemas que eu vivia tinham causa no meu padrão de comportamento e, por isto, eram da minha responsabilidade. Bárbara tornou a dizer sim com a cabeça e acrescentou: “Se os problemas são seus, a responsabilidade também será”. Argumentei que eu tinha problemas de diferentes tipos. E eram muitos. Seja com livreiros, gráficos, autores, ilustradores, diagramadores ou funcionários. A barista ponderou: “São questões que você rotula como comerciais ou empresariais, mas que, em essência, são dificuldades de relacionamento”. Ela fez uma pausa antes de me desconcertar: “Dificuldades suas, não deles. Por isto vive com tantos problemas com tanta gente”.</p>



<p>Com a irritação controlada, expliquei que eu me deparava com pedidos, exigências ou condições insensatas. As pessoas pareciam ter perdido o senso e o juízo. Bárbara se calou por alguns instantes, como se avaliasse a necessidade de ir mais fundo, e argumentou: “As pessoas são do jeito que são, com os seus olhares, gostos e interesses. Elas têm tanto direito a isso como a gente. Quando não entendemos esse processo, damos margem ao surgimento de problemas. Isto se chama conflito”. Eu estava à beira de não conseguir conter a irritação diante daqueles argumentos. Eu sabia o que era um conflito. Não precisava que ninguém me explicasse. Para mim, o problema estava na impossibilidade de concordar com a insensatez alheia. A barista me corrigiu de imediato: “Não falei em concordar, porém, respeitar. São comportamentos distintos. Confundir um com o outro é causa de muitos problemas”.</p>



<p>Reclamei que o mundo estava cada vez mais estranho. Ela voltou a me corrigir: “O mundo muda conforme mudam as necessidades e os anseios das pessoas. Sempre foi assim e nada há de errado nisso. Isto afeta as relações quando nos negamos a entender as rotações e translações sociais”. Bateu com o dedo indicador no balcão, como maneira de ressaltar as palavras, e voltou a lembrar: “Respeitar os elementos de formação do ponto de vista alheio, mesmo sem concordar, é ato de dignidade típico daqueles que já conhecem as raízes da liberdade e da paz”. Pedi para que explicasse melhor. Ela foi generosa: “Devemos nos manter leais às convicções que nos servem de direção quando o posicionamento de outra pessoa nos trouxer prejuízo de qualquer ordem. É momento de agradecer e partir. A partida deve acontecer sem sofrimento, rancor ou mágoa. Adquire-se assim equilíbrio emocional e força de movimento. Como em qualquer ciclo, parcerias e amizades também chegam ao fim. É natural. Contudo, por vezes, haverá situações em que nos será oferecida uma verdade desconhecida. É hora de mudar algo dentro da gente, agradecer e ficar. Ganha-se clareza no olhar. A realidade se expande”.</p>



<p>Em seguida, pontuou: “Sempre temos a escolha de nos encantar com o olhar alheio ou de seguir em frente com as nossas próprias percepções. O importante é jamais esquecer que ninguém tem a obrigação de concordar ou de acompanhar ninguém. Onde para muitos existe um problema, para outros é apenas exercício de autonomia e liberdade”. Esperou eu beber um gole de café e concluiu: “Uma mente flexível e dinâmica será sempre mais forte do que uma mente endurecida e estática. Mentalidades rígidas são embaçadas e lentas, nunca disponíveis ao novo e à evolução”.</p>



<p>Argumentei que eu não era inflexível. No entanto, me mantinha leal à verdade no limite que eu a compreendia. A barista explicou: “Nada há de errado na lealdade às suas percepções e convicções. Ao contrário, há muita virtude em as preservar quando elas mantêm um diálogo harmonioso com a consciência. Contudo, há um limite tênue entre a lealdade e a teimosia. Há cantões incompreendidos dentro da gente. Por trás dos excessos e da rigidez existe muita incompreensão e rejeição por quem somos. O moralismo esconde atos ou desejos de imoralidade; ares de superioridade ocultam sentimentos inconfessáveis de inferioridade; o saudosismo revela a dificuldade em aceitar as mudanças. A teimosia, por tratar de um apego exagerado às próprias ideias e, por consequência, de repúdio ao novo e às diferenças, enrijece e dificulta os movimentos de renovação e regeneração, essenciais ao processo evolutivo e ao bem viver”.</p>



<p>Bárbara prosseguiu: “O segredo dos problemas consiste em não lidar com eles como se fossem tragédias. Nem mesmo os tratar como algo desagradável ou ruim. Viva-os como experiências pedagógicas, disponíveis a ensinar algo que você ainda não sabe. Não somente sobre as coisas, mas, e principalmente, sobre si mesmo. Enquanto o problema perdurar, ou se repetir, significa que a experiência está em andamento. É preciso a elaborar de outra maneira, com outros elementos de ponderação, aperfeiçoadas verdades e melhores virtudes”. Perguntei quando eu saberia que determinada experiência estava finalizada. Ela respondeu de pronto: “Quando aquele tipo de situação não mais for um problema. O sentido primordial das experiências não é aprender a solucionar problemas, mas o descobrimento das riquezas interiores. Somente estas são capazes de dissolver aqueles. Tudo mais são meros adiamentos”.</p>



<p>Calei-me. Bebi o restante do espresso sem pressa enquanto a Bárbara preparava outros pedidos de cafés. Eu já tinha passado dos sessenta anos de idade havia algum tempo. Acreditava que estaria ensinando e não aprendendo com os mais jovens. Comentei isto quando ela retornou. A barista sorriu e disse: “Aprendemos e ensinamos o tempo todo. Todos com todos. A dinâmica da vida nos faz aluno e professor em tempo integral”. Olhou-me com compaixão e me provocou: “Você ainda é um ignorante, meu amigo”. Achei agressiva a colocação. Ela esclareceu: “Não me refiro ao sentido pejorativo da palavra, tampouco à escolaridade, diplomas e títulos. Não se apegue ao preconceito comum. Falo da acepção filosófica do termo ignorante: aquele que não tem plena consciência de si mesmo e das suas infinitas possibilidades. Sob este aspecto, não tenha dúvida, somos todos ignorantes”.</p>



<p>Ela tinha razão. Confessei que eu teria de me passar a limpo. O rascunho ainda estava distante da arte final. Havia muita coisa em mim à espera de mudanças. Apesar da idade avançada, um novo jeito de ser e viver se fazia indispensável. Bárbara foi didática: “O nosso estilo de vida é o resultado das experiências vividas. Isto cria um padrão de comportamento para lidar com os problemas e as dificuldades inerentes aos dias. Uma espécie de modelo de defesa ou de sobrevivência emocional que, enquanto gerar problemas, sinalizará a necessidade de aperfeiçoamento. Para modificar o padrão, se faz indispensável buscar por novas experiências, só que, a partir de agora, vividas e apreciadas com olhares mais ousados e até então nunca testados. Os problemas revelam as incompreensões pulsantes da alma”. Passou a mão nos cabelos azuis e ponderou: “Quando os negócios não vão bem, muitas vezes, nada há de errado com os negócios. Quando estamos diante de pessoas complicadas, por vezes, nada há de complicado nelas. Não raro, a questão reside nas nossas próprias incompreensões e teimosias”.</p>



<p>Em seguida, esclareceu: “Ao melhorar a relação que temos conosco, melhoramos as relações que mantemos com o mundo. As novas experiências, desde que elaboradas com diferentes elementos de compreensão, serão de enorme valia para o reprocessamento das antigas. Por conexão e consequência, da mágoa surgirá o aprendizado, do medo nascerá a coragem, a culpa desaparecerá para dar vez à responsabilidade e ao compromisso de fazer cada vez melhor dali por diante. Até que das amarguras encontremos o mel, das tragédias surjam as maravilhas ocultas. É cura, amor e liberdade a um só tempo. Uma incomensurável conquista traduzida em alegria, paz e dignidade”.&nbsp;</p>



<p>Sem que eu pedisse, ela colocou sobre o balcão uma caneca grande com café coado, piscou um olho e disse gaiata: “Para o meu adorável ignorante, esse é por conta da casa”. Rimos. Em seguida, apontou com o queixo uma poltrona vazia no jardim. Eu tinha muito o que pensar. Contudo, naquele dia, levava comigo algumas ideias diferentes, importantes para me ajudar a descobrir algo que ainda desconhecia em mim. Seria uma jornada interessante e muita valiosa. Sísifo estava disposto a jogar fora a pedra. Para tanto, era preciso se reconciliar com Tânatos: tornar maduras as mudanças que não mais podiam esperar. Depois viriam outras e mais outras. Agradeci e fui para o jardim com uma única certeza: a cafeteria da Gávea era mesmo encantada. Um incrível portal para uma fantástica dimensão interior.&nbsp;</p>
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		<title>O sucesso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Dec 2025 12:30:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Espremido entre o mar e as montanhas, o Rio de Janeiro é uma cidade fragmentada em várias regiões com características e culturas próprias. Raiz de algumas das mais tradicionais escolas de samba, celeiro de artistas geniais, fábrica de trabalhadores tenazes, cenário de um famoso e democrático baile realizado debaixo de...]]></description>
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<p>Espremido entre o mar e as montanhas, o Rio de Janeiro é uma cidade fragmentada em várias regiões com características e culturas próprias. Raiz de algumas das mais tradicionais escolas de samba, celeiro de artistas geniais, fábrica de trabalhadores tenazes, cenário de um famoso e democrático baile realizado debaixo de um viaduto, cuja marca registrada são as irresistíveis coreografias sincronizadas com a pulsante música charme, Madureira, lugar de gente simples e honrada, abriga algumas das pessoas mais incríveis que já conheci: tia Francisca, a benzedeira. Uma mulher preta, de baixa estatura, muito magra, com os cabelos totalmente brancos, da mesma cor dos seus vestidos, também conhecida por sua prosa elegante, quase poética. Desde que a conheço, ela mora em uma casa muito humilde e arrumada. Na sala perfumada pelas ervas do defumador – alecrim, beijoim e alfazema são as suas preferidas –, há um altar com as imagens de mestre Jesus, mãe Maria e São Jorge, o santo guerreiro. Ela recebe a todos sentada em uma desbotada poltrona azul, “da cor do manto de Nossa Senhora”. Com gestos naturalmente meigos, vive à disposição de quem necessita de uma reza forte para aliviar as aflições da alma. Valendo-se de galhos de arruda, que desliza pelo corpo dos suplicantes, com os olhos fechados, profere palavras oriundas do fundo do coração. Sem importar a dimensão do sofrimento, nunca vi ninguém sair daquela casa sem uma nesga de esperança nos lábios ou uma luz que antes inexistia no olhar. Aos que querem pagar pelo serviço, a velha senhora apenas sorri e diz: “Ajoelhe-se diante do altar e agradeça ao Nosso Senhor Jesus Cristo. A ele, toda honra e glória. A mim, nada é devido”.</p>



<p>A sua idade é um mistério. A sua aparência sempre foi a mesma desde que a conheci, ainda criança, levado pelas mãos do meu pai, preocupado com aquele garoto distraído que se encantava por horas com coisas sem importância. Eu gostava tanto da tia Francisca quanto da sua casa. Era como se entrássemos em um templo apartado do tempo e do mundo. O silêncio e a quietude daquele lugar inundavam de paz o meu coração. A reza me fazia bem, mas a breve conversa que tínhamos, logo após, era ainda melhor. Seguidas por um abraço acolhedor, as suas palavras mansas, doces e sábias, revelavam o lado bom das piores situações. Não apenas me serenavam o coração, mas também clareavam o meu olhar. A benzedeira sempre demonstrou uma sincera afeição por mim. Sem importar quanto tempo eu ficasse sem aparecer, quando a visitava, perguntava pelas péssimas notas de Matemática, matéria que eu detestava, e as boas notas de História, assunto que me fascinava. Depois, dava uma risada matreira e sussurrava para o meu pai não ouvir: “Não devemos gostar de algo só porque alguém gosta ou acredita que todos deveriam gostar. Não há duas pessoas iguais. Cada um é de um jeitinho, com a sua beleza, encanto e poder. Fugir disto é negar a magia que nos foi concedida”.</p>



<p>Adulto, continuei a frequentar a casa da boa anciã. No entanto, havia muitos anos que eu não a visitava. Por distração e descuido, retiramos da rotina afazeres fundamentais ao exercício da felicidade. Nada pior para nos afastar de quem somos e daquele que podemos nos tornar. Então, a felicidade míngua. Somente através da rotina é possível perfazer a rota rumo à Luz. Acreditava, pelo tempo transcorrido, que ela tivesse partido para as Terras Altas. Como a tia Francisca era avessa a telefones, redes sociais e outras modernidades, para saber, só havia uma maneira: era preciso ir a Madureira.</p>



<p>Para a minha alegria, tudo estava exatamente igual como da última vez. Tanto a tia Francisca como a sua casa. Não ousei me aprofundar nos mistérios do tempo. Trazia comigo outras preocupações mais urgentes. Por causa de sérias dificuldades financeiras que a editora atravessara, eu havia vendido metade das cotas da empresa. A lua de mel com o novo sócio foi breve. Ele logo implementou uma série de mudanças que entendia serem necessárias para reverter o fluxo de caixa negativo. Concordei com algumas. Não apenas concordei, mas também aplaudi. Não eram somente indispensáveis, porém, inteligentes e criativas. Contudo, de outras, não gostei. Uma delas, em verdade, me incomodou bastante. Começariam a publicar obras rasas, escritas por autores de ocasião, como celebridades instantâneas, guinchadas à fama em razão de escândalos, crimes midiáticos ou lançadas à estratosfera da popularidade pelas redes sociais, sem que tivessem praticado qualquer ação de valor justificável. Apesar do inegável apelo comercial, eram vazias de conteúdo artístico, pedagógico ou filosófico. Em poucos meses, restaria desfigurada a face da empresa que eu demorara anos para esculpir. Não se tratava de crítica ou preconceito com quem explorava esse filão, apenas não o queria para a <em>minha</em> editora. Fui acusado de intransigência, purismo e ingenuidade.</p>



<p>Depois de me ouvir sem nada dizer, tia Francisca me rezou. Em seguida, me abraçou por intermináveis minutos, como se conseguisse ouvir as palavras sensíveis do coração, impronunciáveis por lábios afoitos e aflitos. Ofereceu-me um pouco de água retirada de uma jarra que descansava no altar: “Está fluidificada, serve para trazer calma à alma”. Esperou que eu esvaziasse o copo e perguntou: “Como você entende o sucesso?”. Embora não tivesse alcançado o motivo do questionamento, respondi que o sucesso acontece quando o indivíduo alcança os objetivos desejados ou supera as próprias expectativas. &nbsp;A boa anciã continuou: “O que acontece se aquilo que foi conquistado for perdido por qualquer motivo?”. Ainda sem entender para onde ela me levaria com aquelas perguntas, disse que, nesses casos, do sucesso advém o fracasso. Ela prosseguiu: “Como podemos constatar o sucesso de uma pessoa?”. Expliquei que os critérios mais comuns eram a fortuna, a fama ou o poder político e social. A tia Francisca arqueou os lábios em leve sorriso e indagou: “O que acontece quando, por algum motivo, contrário ao nosso desejo, o dinheiro desaparece, a fama se esgarça ou o poder é usurpado?”. Respondi que do êxito advém a queda. E a queda é o mais cruel dos fracassos. É preferível não chegar ao topo a despencar dele. A benzedeira franziu as sobrancelhas e comentou: “O sucesso é assustador. Dá-me medo. Não o quero para mim”.</p>



<p>Tentei corrigir o raciocínio. Esclareci que fama, fortuna e poder eram os parâmetros comuns, não necessariamente os meus. Para mim, sucesso era ser feliz, digno e livre; amar demais e viver em paz. A boa anciã me olhou com compaixão e ponderou: “As verdades universais são indiscutíveis, e impressionam pela beleza da ideia. Entretanto, quase ninguém as transformam em ação. Exige esforço, abnegação e coragem para as aplicar ao cotidiano. Muitos poucos estão dispostos à mudança. Mudar dói. É preciso admitir erros, desconstruir falsas verdades e aceitar o esforço da reconstrução pessoal. Deixar para trás vícios de ser e viver que, de tão íntimos, acreditávamos imutáveis à personalidade, não é fácil”. Pedi para que explicasse melhor. Ela exemplificou: “Todos declaram desejar a paz no mundo. Acredito que sejam sinceros. No entanto, não a conseguem manter nem no próprio lar. Exigem que os outros ajam ao seu gosto, não toleram as diferenças, brigam quando são contrariados e amaldiçoam as verdades desconfortáveis. Consideram esses comportamentos como parte inevitável de quem são. Ninguém chega ao destino certo percorrendo a estrada errada”.</p>



<p>Bebericou um gole de café contido em uma pequena caneca de ferro esmaltado, que ficava pousada no chão, ao lado da desbotada poltrona azul, e comentou: “Tudo aquilo que pode ser tomado, perdido ou desparecer pela ação do tempo ou de alguém, está comigo, mas não é meu. É um empréstimo ou uma concessão. Em qualquer das hipóteses, se trata de uma experiência transitória cuja finalidade maior é a minha evolução. O que é meu, nada nem ninguém pode furtar, porque não envelhece nem enferruja. Não depende das leis, de sistemas políticos ou políticas econômicas. Não cabe contabilidade nem moldura, tampouco pode ser guardado em cofres ou serve como moeda no mercado. A origem da maior parte dos sofrimentos surge nas aflições das conquistas que se desmancham conforme às variações dos dias e do mundo, sem que possamos impedir. Essas, não cabem na bagagem rumo às Terras Altas. Sabemos disto, mas continuamos as atribuir como fundamentais ao sucesso”. Olhou-me com doçura e sussurrou como se contasse um segredo: “A uma pessoa, pertencem as virtudes que agregou à alma. Nem mais nem menos. Uma construção interna emanada em serenidade, equilíbrio e força de movimento”.</p>



<p>Franziu as sobrancelhas e alertou: “Falências, demissões, enfermidades, traições, calúnias, separações indesejadas por divórcio ou falecimento de entes queridos, são apenas alguns exemplos de situações que fazem o mundo ruir para muitas pessoas. O sucesso são os alicerces que nos mantêm de pé quando tudo ao redor desaba”. Deu de ombros e concluiu: “Caso não tenhamos erguido esses pilares interiores, ainda desconhecemos o sucesso. Se já os temos robustos, estamos livres para seguir em frente sem depender de quaisquer circunstâncias externas como fortuna, fama, privilégios, favorecimentos ou cargos de qualquer natureza. Nada nem ninguém poderá nos impedir de fluir por entre as adversidades dos dias. O sucesso intrínseco estabiliza, protege, ilumina, impulsiona e conduz. Os extrínsecos, embora tenham muito brilho, muitas vezes, carecem de luz”.</p>



<p>Perguntei como fazer para alcançar esse tipo de sucesso. A benzedeira me explicou: “Ao contrário da crença comum, não se trata do protagonismo em eventos extraordinários, palcos repletos de holofotes, contas bancárias polpudas, felicidade fabricadas através de fotografias perfeitas, viagens para lugares paradisíacos, posições de autoridade ou a presença em solenidades luxuosas que determinam uma existência repleta de êxitos. O sucesso é uma construção interna que nos faz viver com alegria, serenidade e clareza, equilíbrio e força de movimento, sem importar os acontecimentos ao redor”. Comentei que, a notar pelas palavras da anciã, se tratava de um poder muito valoroso e ao alcance de todos, pois dependia apenas da vontade de cada um. Questionei o porquê de estarmos tão distantes dessa importante conquista. Tia Francisca sorriu e lembrou: “Para encontrar e usufruir de algo, se faz necessário entender a busca e o propósito. Seja qual for. Quanto ao sucesso de profundidade, o que o impede são as pequenas permissões indevidas que fazemos no dia a dia, movidas pelo ímpeto dos desejos desvairados e interesses insensatos. Isso nos faz optar pelo brilho em detrimento da luz, na contramão da verdade e das virtudes. Sem perceber, todos os dias nos afastamos um pouquinho mais de quem poderíamos nos tornar”.</p>



<p>Franziu as sobrancelhas ao aumentar o tom da seriedade e comentou: “Esqueça a ideia de que estamos em um mal lugar por causa de alguém ou da má sorte. Cada um está onde se colocou. A queda não advém das más influências de alguns amigos ou da vizinhança. Damos ouvidos às palavras que nos afagam as afinidades. Cada um é responsável por si mesmo e pelas consequências a que deu causa. Ninguém tem o destino amaldiçoado. Somos o exato produto da nossa fábrica incessante de escolhas”.</p>



<p>Bebeu mais um gole de café antes de concluir: “Tampouco será justo atribuir o fracasso às grandes e repentinas catástrofes. Ninguém tropeça em montanhas, filho. A vida desaba mundo afora somente depois de ruir universo adentro. Isso leva tempo. O desperdício de uma existência acontece pouco a pouco, nas pequenas concessões diárias que autorizamos por interesses escusos, comodismo ou falta de coragem. Faz-se necessário reverter a rotina do relacionamento que cada um mantém consigo mesmo. Não há outro caminho para o sucesso”.</p>



<p>Fez uma breve pausa para eu concatenar o raciocínio e sugeriu: “A todo instante, traga à tona da consciência os sentimentos ocultos que movem as suas escolhas, pois, falam das genuínas intenções por trás de cada decisão. Nem sempre decidimos pelos motivos que gostamos de justificar e acreditar”. Em seguida, fez uma pergunta de simples retórica: “Entende quem nos afasta do verdadeiro sucesso?”.</p>



<p>Pela desnecessidade de resposta, acrescentou: “A análise sincera dos sentimentos que impulsionam ou restringem a razão é parte imprescindível à boa rotina. Reconheça, aceite e os transmute quando necessários. Assim definimos escolhas e destinos. As escolhas servem para confececionar as rotas que, por sua vez, nos aproximam ou afastam do genuíno sucesso. Os sentimentos revelam os comportamentos viciosos que nos levam a andar em círculos. Todos os sentimentos têm nome. Enquanto não os decodificar com exatidão, seguiremos sem entender as engrenagens da razão. Continuaremos sem compreender os autênticos fundamentos das nossas próprias decisões e o motivo de não conseguirmos sair do lugar, mesmo após tanto esforço. Ninguém entende para onde está indo antes de se conhecer mais e melhor. O sucesso de profundidade estará sempre ao largo de quem se recusa a fazer o movimento em direção ao próprio âmago. Encontrar a essência é compreender os genuínos sentimentos que movem os pensamentos, pois são essenciais no processo de expansão ou contração dos avanços existenciais. O sucesso ocorre como consequência natural desse entendimento, assim como das transformações indispensáveis ao refinamento dos alicerces interiores, indispensáveis ao enfrentamento das adversidades inerentes à vida”.</p>



<p>Olhou-me com seriedade e concluiu: “Sem entender o Caminho, na procura desenfreada por posições e privilégios de êxito aparente, não conheceremos a magia pessoal”. Indaguei no que consistia essa magia. Ela exemplificou para explicar: “A paz não é a ausência de tempestades. A paz está em se sentir sereno, equilibrado e forte durante as tempestades. Isto é sucesso. Não há magia mais poderosa”. &nbsp;</p>



<p>Tia Francisca estava certa. A genuína vitória jamais tratará de permissões e autorizações. Qualquer conquista cuja manutenção não careça do mérito, mas dependa das variações do mundo, pode se tornar um prêmio às avessas. Em verdade, o sucesso seria como uma nau, embora pequena – ou até mesmo invisível à crença de muitos –, foi muito bem-construída, se mostrando capaz de singrar com segurança e autonomia os mares incertos e traiçoeiros da existência. Envolve um conjunto de conquistas da alma. A ideia de movimentos internos dignos, livres e firmes o suficiente para sustentar os deslocamentos externos de acordo com o próprio olhar, gosto e vontade, possuí argumentos e encantos irresistíveis.</p>



<p>Contudo, ainda não tinha entendido como aquela conversa se aplicava ao problema que me atormentava na editora. Tia Francisca explicou: “O modelo de sucesso aparente se manifesta de diversas maneiras. Nem sempre está no desejo desenfreado por fama, dinheiro ou cargos de destaque investidos em poder. O exercício de controle e domínio entre familiares, amigos ou no ambiente de trabalho revela nuances desse poder de superfície. Nada há de errado em querer as coisas do nosso jeito. Errado é entrar em conflito quando contrariado. Temos o direito e a responsabilidade de conduzir as nossas vidas ao nosso jeito, movidas pelos interesses e sabores que nos são afins. Para isto, se faz necessário entender o limite da ação. Tanto o querer quanto a liberdade possuem fronteiras intransponíveis. Ninguém tem a obrigação de concordar ou acompanhar ninguém. Esta regra serve tanto para nós como aos outros. Se o assunto aborda questões íntimas, temos o direito de ficar ou partir, dizer sim ou não, fazer ou desfazer. Quando intercambia com o direito alheio, o diálogo e a sensatez se fazem necessários, sabendo que os outros têm interesses e desejos nem sempre iguais aos nossos. Podemos concordar ou discordar, porém, aceitar a escolha que pertence ao outro por direito, é ato de respeito. Acolher as diferenças de opiniões e paladares sem mágoa ou rancor é ato ainda mais nobre, seja pela dignidade contida, seja pela liberdade autoconcedida”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Bebericou mais um pouquinho do café e argumentou: “O conflito de ideias exige diálogo para uma solução saudável. A diferença de olhares não trata de quem está certo ou errado. Uma comunicação clara, mansa e sincera serve para encontrar um ponto de luz na relação, onde os envolvidos podem ceder e conviver sem trair a própria essência. Sem vaidade e orgulho, com humildade e honestidade. Em relações assim, movidas pela boa vontade, jamais pode haver um perdedor ou um vitorioso. Ganhamos ou perdemos juntos. Estas são as regras básicas para vencer um jogo chamado sucesso”.</p>



<p>Argumentei que esse ponto de comunhão nem sempre é possível nas relações. Concessões precisam de limites para não se tornarem abusivas. Algumas pessoas não entendem isto. A boa anciã ponderou: “Quando um dos envolvidos prioriza o sucesso de superfície em detrimento ao de profundidade, movido por sentimentos que não consegue entender ou não deseja modificar, agirá movido por intenções ilegítimas ou impulsos desprovidos de qualquer virtude. Por desconhecer o inestimável valor da riqueza desamoedada e da verdade desapegada de obrigatoriedade, qualquer que seja o resultado, fará de si um perdedor, sem que ninguém o tenha empurrado para a derrota”. Olhou para a imagem do santo guerreiro no altar, como se buscasse inspiração, e comentou: “Pode-se partir para o mau conflito ou escolher o bom combate. Vencer o outro ou a si mesmo. O genuíno amor ao mundo exige desapego às coisas do mundo. A cada escolha definimos o tipo de sucesso que procuramos e, por consequência, o destino que nos aguarda”.</p>



<p>Mais uma vez, a boa anciã tinha razão. A <em>minha</em> editora não era só minha. O novo sócio era um bom homem, repleto de virtudes e tinha encontrado excelentes soluções para problemas sérios. Apenas tinha um olhar diferente do meu em alguns aspectos empresariais. Algo natural e não necessariamente ruim. Eu necessitava dialogar comigo mesmo para entender a fronteira entre o inadmissível e a implicância, entre a intolerância e o respeito, entre o orgulho e a humildade. Precisava entender se o problema estava em mim, nele ou em ambos. Depois, o convidaria para uma conversa franca, porém, gentil. Algo em mim me dizia que encontraríamos o ponto de luz: um lugar no coração onde poderíamos conviver bem e em paz, apesar das inevitáveis diferenças. Apenas pensei, sem nada dizer à tia Francisca.</p>



<p>A benzedeira sorriu e, como se adivinhasse os meus pensamentos, me pediu um abraço. Ela queria ouvir o meu coração apenas para confirmar o que já sabia. Em seguida, disse: “A vaidade concede a ilusão do sucesso. Por isto é tão difícil vencê-la. Entre outras características, a vaidade se manifesta no desejo exacerbado de ter razão sobre todas as coisas e assuntos. Uma tentativa inútil de preencher um vazio existencial que continuará a distorcer comportamentos e escolhas enquanto não for compreendido. Seguirá acreditando que os aplausos, a subserviência e as reverências suprirão a falta de algo que, por mais que procure, jamais encontrará no mundo. O que preenche o vazio interior é o entendimento cada vez mais apurado sobre si mesmo envolvido em bons sentimentos. Nada mais servirá”.</p>



<p>Segurou nas minhas mãos com ternura e finalizou a conversa: “O genuíno poder está na riqueza dos elementos construtores da consciência. Quando os descobrir e os trouxer à tona da vida em forma de virtudes no trato consigo mesmo e com toda gente, terá acesso à magia pessoal. Um jeito de atravessar os dias com autenticidade e originalidade, mas também com leveza e suavidade. Em outras palavras, sem abdicar dos seus valores e direções, conseguirá se mover sem conflitos, mágoas, culpas ou medo. Ainda que menosprezados ou incompreendidos, apenas esses conhecerão o sucesso”.</p>



<p>A reza terminara. Agradeci o benzimento com um beijo estalado na bochecha da tia Francisca e fui embora. Como as demais, aquela visita me fizera muito bem. Eu saí dali levando comigo o encanto de encontrar alegria e beleza onde antes só havia agonia e tristeza. Além de duas certezas. Uma, é que quando o conflito é iminente, significa que quase sempre há uma rota disponível ainda não percebida. É o caminho para o sucesso, ou, se preferirem, a rota da luz. Se sucesso e luz não estiverem alinhados, a estrada está errada. A outra certeza, é que eu precisava voltar mais amiúde a Madureira. &nbsp;</p>
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		<title>Desatar nós</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Nov 2025 14:16:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p>O ônibus me deixou em frente à estalagem da pequena vila chinesa na subida para o Himalaia. A dona do estabelecimento me entregou a chave do quarto com a indiferença de sempre. Deixei a mochila e parti em direção à residência de Li Tzu, o mestre taoísta. Ainda faltava um par de horas para o anoitecer. Como de costume, o portão da casa estava aberto. Atravessei o lindo jardim de bonsais sob o perfume do incenso de jasmim que emanava do interior da residência. Notei pendurada no umbral da cozinha, de modo que todos a vissem, uma corda com vários nós atados. Não me lembrava de tê-la visto antes. Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, me olhou entediado de cima da geladeira, virou a cabeça para o lado e tornou a dormir. Fui recebido por Li Tzu com um sorriso afável e uma xícara de chá quente. Sentados à mesa, perguntei sobre o significado daquela corda repleta de nós. O mestre taoísta explicou: “Trata-se de uma simples ilustração para lembrar a todos que os ensinamentos do Tao Te Ching terão pouca serventia caso o indivíduo não consiga enxergar, entender e desmanchar os nós existenciais acumulados ao longo da existência que o prendem e limitam. Um importante exercício evolutivo. O verdadeiro campo de batalha está no âmago de cada pessoa. O jeito como atravessamos o mundo é apenas o seu reflexo”. Indaguei se ele conseguia ajudar aos alunos. Li Tzu manteve a sinceridade habitual: “Muito pouco. Entrego somente um mapa e uma bússola na plataforma de embarque. Nada mais do que isto. Essa viagem não permite acompanhantes. Aos guias, apenas é possível orientar à distância”. Deu de ombros e ressaltou: “Por se tratar de um movimento interno profundo, ninguém jamais conseguirá desamarrar os nós de outra pessoa. Cada uma precisa fazer isso por si mesma. É um ato íntimo, luminoso e solitário. Exige determinação, coragem e amor-próprio. Como gesto de genuína libertação, desatar os nós é parte da arte aprendida pelos viajantes a caminho da luz”.</p>



<p>Perguntei como se desata um nó. O mestre taoísta se levantou, retirou a corda pendurada no umbral e me entregou. Disse para que eu o fizesse. Fui ao miolo de um dos nós, aliviei a pressão da corda e desfiz a amarração. Ele me questionou: “Por que não o desatou pelas pontas da corda?”. Respondi que não seria possível. Somente é possível desatar um nó a partir do ponto central. Li Tzu sorriu satisfeito e comentou: “Assim também acontece com os nós existenciais”.</p>



<p>Eu quis saber no que consistia os referidos nós. Ele esclareceu: “Há muitos tipos. Os mais comuns são as mágoas e as culpas. Ficamos magoados ou nos sentimos culpados por diversos motivos. Ao longo da existência, lidamos com abusos, ofensas e traições de diferentes nuances e matrizes. São produtos amargos resultantes de experiências mal-elaboradas e ainda incompletas. O sentimento ácido que emerge nas vezes que a lembrança vem à tona não é o único problema. Embora seja o mais perceptível, não é o mais danoso. Esses sofrimentos, enquanto não curados, encurtam as possibilidades de movimento e amiúdam a realidade. O mundo e a vida se estreitam quando verdades, bons sentimentos e diferentes escolhas restam reprimidas ou negadas. Tudo que acreditamos impossível se manterá invisível, como se não existisse, enquanto não nos permitirmos uma melhor compreensão. Assim como todos os outros nós, as mágoas e as culpas nos dominam, anulam e esgotam. Ficamos impedidos de ir além de quem somos ou de onde estamos, dentro e fora da gente”.</p>



<p>Neste instante, fomos surpreendidos com a entrada de Maria de Guadalupe. Eu a conhecera em outro período de estudos. Mexicana, com cerca de quarenta anos de idade, tinha estatura mediana, pele morena, cabelos negros encaracolados, na mesma tonalidade dos olhos. Usava enormes e lindos brincos coloridos. Com uma conversa inteligente e agradável, a simpatia lhe era uma marca registrada. Uma mulher de iniciativa e atitude, que demonstrava saber quem era, o que queria e para onde ia. Recordei ter ouvido duas jovens comentarem que gostariam de ser como Maria de Guadalupe, <em>uma mulher que preenche todos os espaços do ambiente onde está</em>. Ainda que pese a sua impactante presença, havia uma disfarçada tristeza em seu olhar. Como se as ondas agitadas da praia desviassem a atenção dos segredos escondidos nas águas profundas do mar.</p>



<p>Maria assistira as aulas da manhã, quando Li Tzu explicara as razões de ter pendurado no umbral da cozinha a corda com os nós. Aquilo a impressionara sobremaneira. Disse que precisava conversar. O mestre taoísta a convidou para se sentar à mesa conosco. Em seguida, lhe serviu uma xícara com chá. Nada perguntamos, e nem foi preciso. Com os olhos marejados, antes mesmo de provar o chá, Guadalupe confessou estar cansada. Muito cansada. Então, nos contou a sua história. Ou uma parte dela.</p>



<p>Filha única de pais muito exigentes, teve uma educação rigorosa, repleta de atribuições severas. Cresceu com obrigações para além da sua idade. Acostumara-se a resolver os problemas da família. Aceitara o fardo sem questionar ou reclamar. Para esquecer a dor de abdicar das próprias escolhas, gostos e interesses, inventou a personagem da heroína sempre disposta a ajudar as pessoas a solucionar os seus problemas. Sentia-se obrigada realizar tarefas que não eram suas. Com o passar do tempo, ela e os outros achavam isso natural. Considerava-se uma mulher generosa, bem-resolvida e resolutiva. Condicionara-se a assumir responsabilidades que não eram suas. Sem saber como reagir, preferiu acreditar que o abuso era virtude e prazer.</p>



<p>Ainda bem jovem, se casou com Moacir, um charmoso aspirante a músico com muito entusiasmo e pouco talento. Por vício comportamental, Guadalupe repetiu o padrão: recaiu sobre ela as obrigações que deveriam ser compartilhadas pelo casal, uma vez que o marido se recusava a procurar outro trabalho. Insistia em viver da música que nada lhe rendia, salvo a boemia em bares mal-afamados. Logo se tornou mãe, aumentando os próprios níveis de compromissos e exigências. Desde a adolescência, trabalhava em uma fábrica de papel durante o dia e estudava à noite, sem se descuidar dos serviços da casa. Com o passar do tempo, após a graduação universitária, galgou vários degraus dentro da empresa. Tinha um bom salário, compatível com o cargo que alcançara.</p>



<p>Pacato, porém, indolente, Moacir em nada colaborava com as despesas do lar. Embora não fosse um bom marido, era um pai atencioso e amigo do filho, já um jovem adulto. Este, apesar de ter se tornado uma rapaz amoroso, não gostava de estudar e, como se não bastasse, tinha apreço pela vida descompromissada do pai, a quem considerava <em>um homem livre</em>. Apesar do carinho que possuía pelo marido, não o amava mais. Sentia-se desconfortável em casa. Achava injusto o modelo de relação familiar. Contudo, afastava a ideia de separação. Era uma mulher digna. Assumira compromissos e responsabilidades. Sabia que eles passariam por enormes dificuldades se decidisse ir embora. Viveram desde sempre em absoluta dependência do trabalho dela. Não levaria dor àqueles que queria bem. Como em um dilema sem solução, não gostava do que lhe prendia, mas também não sabia como desfazer o nó que lhe atava. Estava onde não queria mais estar, mas era melhor ficar. Confessou que se sentiria culpada caso algum dia partisse, ainda que ficar significasse aceitar a infelicidade como o único e definitivo sentimento que lhe cabia. Talvez fosse o seu carma, ponderou. No entanto, estava resignada, admitiu.</p>



<p>Li Tzu a ouviu sem interrupções. Depois, com candura nos olhos e voz serena, comentou: “Os nós precisam ser desatados o quanto antes, sob o risco de termos a alegria estrangulada e a existência desperdiçada. Conseguimos desamarrar os nós quando revisitamos acontecimentos para refazer o entendimento, seja sobre o sentimento provocado por determinada experiência, seja pelo comportamento que insistimos em manter apesar dos resultados dolorosos. Todo nó surge na crença de inexistir um jeito diferente de lidar com determinadas situações. Com o passar do tempo o nó aperta. Por vezes, sufoca. O sofrimento parece inevitável e sem fim. Acreditamos que o tempo se encarregará de tudo. Ledo engano. O tempo nada cura. Apenas lança camadas de areia sobre a dor, como se fosse possível a esconder. Em conluio com o tempo, mentimos para nós mesmos dizendo que estamos bem. Não existe mentira maior. Ninguém fica bem quando a vida se apequena enquanto há muito mais à espera”. Li Tzu argumentou: “Todo sofrimento é resultado dos elementos errados que usamos para elaborar as experiências vividas. Algumas experiências ainda não terminaram. Alguns movimentos precisam ser reprocessados com elementos nunca utilizados. Quando o resultado muda, o nó se desfaz”.</p>



<p>Guadalupe quis saber como fazer isso na prática. O mestre taoísta bebericou o chá e explicou: “Vamos realizar o trajeto da sua fala de trás para diante. Ao relatar as suas dores, você termina por dizer que não tem escolha. Está aprisionada à condição de cuidar do marido e do filho, adultos saudáveis, porém, indolentes. Acredita que esse seja o seu carma. E que está resignada quanto a isso. Vive envolvida em sentimentos amargos porque elabora a experiência com esses elementos de convicção”. Ela balançou a cabeça como dizendo de que era isso mesmo. Li Tzu mostrou a bússola para uma nova orientação: “Carma não é prisão, é aprendizado. Ficaremos amarrados a sentimentos densos e corrosivos enquanto não encontrarmos um jeito diferente de lidar com a situação. Sempre há escolhas”. Guadalupe explicou que estava cansada de conversar com Moacir e com filho. Eles se mostravam insensíveis a qualquer mudança. O mestre taoísta ponderou: “A insistência para mudar os outros é o exercício dos tolos. Para haver mudanças é preciso um novo nível de compreensão. A firme vontade de deixar para trás quem sempre foi para se tornar outro. Equivale a um renascimento. Isto também serve para você. Cada um é responsável pelo modo como vive, assim como pelas dificuldades que enfrenta. Aceitar esse compromisso se denomina maturidade”.</p>



<p>Fez uma pausa antes de prosseguir: “Resignação é a aceitação do inevitável. Há muita sabedoria em entender o fato consumado. Uma determinada situação pode estar finalizada, como uma demissão, separação ou falecimento, por exemplo. Contudo, o sofrimento dela decorrente não é um sentimento definitivo. Haverá dor enquanto não houver uma mudança no olhar. Somente assim se inicia uma transformação. A resignação não serve como fuga nem significa desistência. O fato pode estar consumado, mas se existe dor, a experiência ainda está em andamento. Em algumas, os movimentos internos bastam para a cura. Noutras, há a necessidade de deslocamentos pelo mundo. De um jeito ou de outro, ninguém pode ficar resignado diante do sofrimento de uma experiência que ainda não terminou”.</p>



<p>Maria disse que se sentiria culpada se os abandonasse. Eles enfrentariam sérias necessidades. Li Tzu esclareceu: “Não se deve abdicar da caridade nem da solidariedade. São autênticas potências evolutivas. No entanto, se faz necessário entender que as dificuldades são ferramentas de desenvolvimento existencial, moldam o caráter e aperfeiçoam as capacidades pessoais. Ajude sempre que possível, mas tenha o cuidado de jamais trazer para si a responsabilidade que não lhe cabe”. Ela perguntou qual era o limite entre a caridade que salva e o auxílio que prejudica. O mestre taoísta explicou: “O progresso é a fronteira almejada. Todo ato que retarda a evolução é prejudicial. É contrário à luz. Aja sempre de modo a fortalecer os envolvidos, mesmo que isso lhes contrarie o desejo e o costume. A ajuda indevida sobrecarrega uns para enfraquecer os demais. Todos perdem. Auxilie quem precisa se levantar, mas não carregue ninguém nas costas. Interferir na viagem daqueles que precisam aprender a caminhar com os próprios pés é o avesso do amor. Por vezes, diante do abismo, a genuína caridade não consiste em oferecer asas; está em deixar que construam as pontes”.</p>



<p>Ela indagou se o mestre taoísta se referia ao marido e ao filho, que eram adultos saudáveis. Liz Tzu pontuou: “Falo de todos que abusam da generosidade alheia por recusar o esforço ao trabalho ou à transformação pessoal. A culpa é uma invenção maléfica. São como rédeas invisíveis colocadas no coração. Somos conduzidos por mãos que não as nossas. Temos as emoções manipuladas. A liberdade e a felicidade restam suprimidas. Um processo de dominação dissimulado e atroz. O limite da caridade está na responsabilidade de cada indivíduo em buscar e desenvolver as próprias capacidades. De progredir moral, emocional, mental, profissional e espiritualmente. A generosidade é sagrada pelo poder de cura que oferece ao mundo. Entretanto, o abuso desta virtude gera sofrimento porque fomenta o vício do domínio e da estagnação. Criam-se dependências desnecessárias. Por fim, todos se atrapalham”.</p>



<p>Guadalupe se calou por alguns instantes, como se mergulhasse fundo em si mesma para trazer algo há muito escondido. Depois, se confessou magoada com todos aqueles que abusaram da sua generosidade. Li Tzu lhe corrigiu o raciocínio: “Ainda que tenha sido educada a servir aos outros indevidamente, você continua a permitir os maus-tratos quando se recusa a reagir de outra maneira. Segue magoando a si mesma por negligência, comodismo e falta de coragem. Nega-se à mudança. Nega-se a conhecer o verdadeiro amor. Acredite, o que mais a magoa não é como os outros a tratam, mas a maneira como continua se maltratando”.</p>



<p>Maria bebeu alguns goles de chá sem nenhuma pressa. Ela precisava de tempo para alocar aquelas ideias, como um viajante que pela primeira vez se depara com um mapa desconhecido, se dando conta de que há outros caminhos diferentes daquele que sempre percorreu. Ao esvaziar a xícara, perguntou ao mestre taoísta se, ao falar <em>não</em> quando sempre disse <em>sim</em>, o nó desataria. Li Tzu ponderou: “Sim e não”. Em seguida, explicou: “A resposta é sim, porque, ao processar a experiência com novos elementos, você alcançará diferentes resultados. O <em>não</em> é libertador quando substitui o <em>sim</em> que nos maltrata e desagrada. A depender das circunstâncias, existe amor tanto em dar quanto em negar. Entretanto, para não haver recaídas nem tropeços emocionais, a mudança de postura precisa estar respaldada na clareza e na firmeza de um novo olhar”. E complementou o raciocínio: “A resposta é não, enquanto restar o menor traço de mágoa. Seria como afrouxar o nó sem o desatar definitivamente. Não pode faltar o perdão, seja aos outros, seja para si mesma. O passado precisa servir de escola, jamais se tornar uma prisão. Sem essa compreensão, a trajetória restará incompleta”.</p>



<p>Guadalupe lamentou que os seus relacionamentos a tivessem prejudicado tanto. O mestre taoísta tornou a corrigir o raciocínio: “Ao contrário do que muitos acreditam, os relacionamentos difíceis e complicados, apesar de não serem desejados por motivos óbvios, são os melhores laboratórios ao autodescobrimento e aperfeiçoamento pessoal que existem. São esses <em>cientistas existenciais</em> quem mais costumam progredir em suas transformações e reconstruções. Desde, é claro, que saibam aproveitar as oportunidades com amor e sabedoria, sem se perder em crenças infundadas, desânimos e lamentações inúteis. A vida se descortina na mudança do olhar, e se transforma quando aperfeiçoamos os movimentos internos para que sirvam de sustentação segura aos deslocamentos pelo mundo”.&nbsp;</p>



<p>Guadalupe perguntou como deveria, na prática, agir com a família. Li Tzu deu de ombros e manteve a habitual sinceridade: “Não faço a menor ideia. Foi-lhe oferecido a bússola e o mapa. A viagem é sua. Aprender a tomar as próprias decisões é exercício evolutivo de percepção, sensibilidade, aprimoramento de virtudes e conhecimento da verdade. Lembre-se de que as consequências das suas escolhas recairão sobre você. Enquanto não aceitar desafio e a responsabilidade pela reconstrução de si mesma, assim como a definição da rota pela qual atravessará a vida, continuará sendo aquela que os outros querem que você seja, sem nunca chegar a lugar nenhum”.</p>



<p>Encerramos aquele período de estudos sobre o Tao Te Ching sem mais tocar no assunto. Encontrei com a Maria dois anos depois em um congresso para editores latinos em Buenos Aires. Como representante de uma multinacional fabricante de papel, ela era responsável por oferecer aos editores um tipo de papel pólen, de alta qualidade, produzido de modo menos agressivo ao meio-ambiente. Convidou-me para um café. Disse que queria me contar algumas coisas. Fomos a uma agradável cafeteria na Recoleta.</p>



<p>Após retornar ao México, Maria conversou com o marido e o filho. Tinha decidido se separar de Moacir e estava disposta a incentivar o filho a desenvolver as próprias potencialidades. O rapaz disse que, pela afinidade que havia, ficaria morando com pai. Ela deixou a casa para eles e depositou uma boa quantia na conta de cada um. O suficiente para se manterem por mais de um ano, caso tivessem as despesas regradas e sob controle. Tempo suficiente para conseguirem um emprego. Poderiam também usar o dinheiro para montar um pequeno negócio. Ambos ficaram satisfeitos. Assim, Guadalupe partiu. Foi morar em um apartamento em outro bairro da cidade. Passados alguns poucos meses, a procuraram. Não tinham emprego nem negócio. O dinheiro acabara. Precisavam de mais. Foi quando Maria entendeu que aquele era um momento angular: se mostraria capaz de desatar o nó das emoções manipuladas ou prosseguiria guiada pelas rédeas da culpa.</p>



<p>Alicerçada na própria consciência, afirmou que não daria nem mais um tostão. Estavam aptos a trabalhar e ganhar o próprio sustento. Não havia ajuda melhor. Revoltados por não serem atendidos como de costume, gritaram ofensas e maldições. Apesar das acusações de insensibilidade e impiedade, Guadalupe não se abalou. Manteve-se firme, serena e irredutível. Embora uma leitura superficial pudesse indicar uma atitude de abandono ou egoísmo, em verdade, era ato de crescimento e redenção. O bem-estar proporcionado pelos bons tratos de como passou a se tratar, fez a mágoa se dissolver. Foi envolvida por uma paz até então desconhecida. Aprendera mais sobre o amor ao reelaborar aquela experiência familiar do que em mais de quatro décadas de existência. Vivia sentimentos que até então acreditava impossíveis. O seu olhar e sorriso afiançavam as suas palavras.</p>



<p>Comentei que ela havia vencido o mundo. Maria negou. Disse que vencera a si mesma. E isto bastava para se sentir digna e livre. Retirou da bolsa o pequeno livro do Tao Te Ching e me mostrou a estrofe inicial do poema trinta e três:</p>



<p>“<em>Vencer os outros é destruição,</em></p>



<p><em>Vencer a si mesmo é iluminação</em>”.</p>



<p>Ela tinha razão. Do coração de uma mulher nascera a mesma mulher. Embora fosse a mesma, era outra. Os nós existenciais finalmente estavam desatados. Brindamos à transformação com duas xícaras de espresso duplo.</p>
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		<title>Recomeçar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Sep 2025 15:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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					<description><![CDATA[Era uma tarde modorrenta de uma segunda-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Eu tinha trabalhado desde cedo. Decidi encerrar o expediente. Antes de voltar para casa, caminhei pelas ruas transversais, tranquilas e arborizadas da Gávea até uma cafeteria escondida dos burburinhos da cidade. Funcionava no térreo de um antigo casarão...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Era uma tarde modorrenta de uma segunda-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Eu tinha trabalhado desde cedo. Decidi encerrar o expediente. Antes de voltar para casa, caminhei pelas ruas transversais, tranquilas e arborizadas da Gávea até uma cafeteria escondida dos burburinhos da cidade. Funcionava no térreo de um antigo casarão do bairro. Não havia placa ou letreiro na fachada. O portão aberto e as luzes acesas indicavam que estava disponível ao público. Apesar da completa ausência de divulgação, as mesas estavam quase sempre ocupadas. Quando não chovia, era possível se sentar em uma das mesas disponíveis no agradável jardim ao fundo. Entre canteiros de flores, era possível se acomodar debaixo de uma frondosa e secular mangueira. Eu gostava de ficar no salão interno. Com as paredes repletas de estantes com livros publicados por editoras independentes, alguns quase impossíveis de serem encontrados nas livrarias tradicionais, tinha o ambiente sublimado pelos clássicos do jazz, do blues ou da bossa-nova, em volume suave, servindo de inspiração às reflexões e sem a necessidade de elevar o tom da voz para entabular um boa conversa. Ao menos uma vez por semana eu passava por lá. Já conhecia de vista alguns frequentadores habituais e travara amizade com a Bárbara, a barista, responsável pelo estabelecimento que, sem dúvida, servia o melhor café da cidade.</p>



<p>De estatura mediana, tinha os braços completamente ilustrados por belos desenhos eternizados por tatuagens sobre a pele clara. Os cabelos se mantinham cortados rentes à nuca, estampando cores sazonais que se alternavam do azul ao ruivo, da intensidade negra do ébano às diversas tonalidades de loiro, a depender do estado de espírito do dia. As finas argolas de ouro nas orelhas, somadas ao surrado avental de couro usado pelo seu pai durante muitos anos, enquanto foi operário de uma famosa, porém, extinta fábrica em Vila Isabel, proporcionavam à Bárbara uma aparência bonita, exótica e singular. Eu brincava com a moça, dizendo que ela era uma personagem escapada de algum mangá nunca publicado. Ela se divertia. Dizia que para conhecer as suas histórias era preciso entender aquela cafeteria encantada. O que fascinava na barista, mais do que a personagem ou o cenário, era a sua personalidade, dom e sensibilidade. Graduada em psicologia e amante da psicanálise, em certo momento da carreira profissional, abdicou da clínica e dos pacientes sem jamais abandonar o estudo e a paixão pelos mistérios da psique. Ao contrário, as dores e os prazeres da alma a fascinavam mais e mais a cada dia. Assim como Sócrates ensinava em praça pública, duas vezes por semana, ao final da tarde, a barista subia em um pequeno púlpito, discretamente instalado num dos cantos do salão, para abordar de maneira concisa, clara e profunda, mas sem qualquer academicismo, algum tema que servisse ao interesse de todos. As palestras eram gratuitas e de livre acesso. Mesmo sem nenhuma divulgação, a casa transbordava de tanta gente. &nbsp;Aqueles que conseguiam se valer das ideias, a transformavam em ferramentas do bem-viver, transitando pelo mundo e pela vida com leveza e suavidade crescentes.</p>



<p>Entretanto, o maior encantamento se manifestava de outra maneira. Não raro, a sua apurada percepção a fazia interromper o serviço, pedir licença para se sentar à mesa ocupada por alguma pessoa que ela sentisse precisar de algumas palavras, assim como um viajante perdido e assustado necessita entender que sempre haverá caminhos ensolarados à sua disposição, difíceis de visualizar nos momentos tormentosos e incertos da viagem. A sensibilidade e o conhecimento sintetizados em palavras certeiras atingiam o alvo da consciência em poucos minutos. Então, Bárbara se levantava e retornava à confecção dos cafés. Deixava o indivíduo consigo mesmo para metabolizar as ideias oferecidas em prol da resolução das suas próprias dificuldades existenciais. “Podemos oferecer as sandálias, jamais caminhar pelos outros”, explicava os fundamentos do método utilizado. Por vezes, nenhum resultado satisfatório era alcançado, noutras, o mecanismo se mostrava fantástico e revelador. Um detalhe importante: era a barista quem escolhia o viajante. Era inútil requisitar uma orientação. “Aqui não é um consultório, é uma cafeteria”, repetia Bárbara. Contudo, era bem mais que isso. Creio não haver no planeta outra igual a essa da Gávea. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Naquele dia, me sentei à mesa próxima à estante repleta dos livros sobre Morserus, o fantástico universo habitado por seres antropomórficos criado pelo genial escritor MM Schweitzer. Com cabelos ruivos, Bárbara se aproximou, me ofereceu um sorriso acolhedor e perguntou se podia trazer um espresso duplo acompanhado de um generoso pedaço de bolo de milho com coco. Era o meu pedido de sempre. Retribui o sorriso e disse sim com a cabeça. Foi quando vi Elisa entrar. Quase não a reconheci. Havia alguns anos, como arquiteta de um estiloso escritório, fora a responsável pelo projeto de reforma da vila residencial, localizada em um bairro operário no subúrbio do Rio, transformada em sede da editora onde eu trabalhava. Sob o seu comando, as casas foram modernizadas e conectadas internamente, sem alterar os aspectos históricos da antiga construção, salvo nas cores alegres e vibrantes utilizadas nas fachadas. Alguns telhados receberam claraboias para aproveitar a iluminação natural. O paisagismo também ficou sob a sua responsabilidade. O resultado foi fantástico. Eu adorava trabalhar lá. Soube que o projeto lhe rendera não apenas muitos elogios, mas também vários outros contratos de maior porte. Depois, nunca mais a encontrara.</p>



<p>Eu a tinha na memória como uma mulher bonita, elegante e, o que mais me chamava a atenção, dona de si. Mostrava convicção nas suas decisões, expressadas de maneira firme e tranquila, sem se deixar abalar pelas opiniões contrárias. Cheguei a duvidar se era a mesma pessoa. Cabelos desgrenhados, pele sem viço, olhos sem brilho. Vestia-se de modo desleixado. Não se trata de elogiar a vaidade, mas de entender a importância da autoestima. Elisa parecia apenas uma sombra daquela mulher luminosa que alguns anos antes irradiava alegria e entusiasmo. Como as mesas estavam todas ocupadas, a convidei para sentar-se comigo. Elisa hesitou por uma fração de segundo, mas aceitou. Notei que por trás do balcão, a barista a observava. Indagada pelo garçom, disse que me acompanharia no espresso e no bolo. Antes que eu falasse algo, fomos surpreendidos pela Bárbara, que nos olhou com doçura e pediu para se sentar conosco. Deixei que Elisa decidisse. A arquiteta tornou a hesitar e, mais uma vez, consentiu. Iniciei a conversa perguntando se ela continuava a desenhar os lindos projetos que tanto refletiam o seu talento. Expliquei à barista que Elisa tinha a capacidade de sintetizar em poucos traços, ideias de extrema criatividade. Lembrei que a logomarca da editora, uma máquina de escrever desenhada com apenas algumas linhas, nos havia sido presentada por ela na ocasião. Um dom raro e precioso. A arquiteta se calou por alguns instantes. Com o olhar distante, como quem assiste a uma cena longínqua, avaliou se abriria ou não o seu coração naquela mesa. O olhar bondoso e delicado da barista lhe quebrou a última resistência.</p>



<p>Contou que logo após a obra da editora, quando a vida parecia melhorar, tudo começou a ruir. Nos projetos seguintes sofrera severas críticas. Ninguém se mostrara satisfeito com os seus traços e ideias. Um cliente sibilou ter vontade de colocar abaixo o prédio recém-construído. Outro, cancelou o contrato assim que o projeto foi apresentado. Horroroso foi o adjetivo usado no encerramento da reunião. A partir daí todas as suas ideias e desenhos passaram por constantes questionamentos no ambiente de trabalho. Tornou-se medrosa e insegura. Tinha a sensação de que o mundo passara a observá-la com lentes rachadas e embaçadas, sem condições de encontrar nela o menor resquício de talento. O mesmo talento que até pouco antes, sobrava. A demissão não tardou. Passaram-se os dias. Nenhum outro escritório teve interesse em a contratar. Sentia-se como se não prestasse mais para viver. Estava cansada, desanimada e infeliz. Pior, não via perspectiva de mudança à vista.</p>



<p>Calou-se quando o garçom se aproximou trazendo o nosso pedido. Ele colocou os cafés e os bolos sobre a mesa. Ao invés de dois, eram três xícaras e pratos. A barista perguntou à arquiteta: “Por que tanto abandono?”. Elisa disse não saber a razão de as pessoas se afastarem dela. Bárbara a corrigiu: “A questão não é essa. Qual a razão para você ter se afastado do seu próprio centro de força e equilíbrio?”. A arquiteta alegou ser impossível obrigar o mundo a aceitar. A barista anuiu com a cabeça e acrescentou: “Só os tolos se lançam nessa luta insana. No entanto, repito, a questão não é essa”. Elisa confessou que a rejeição sofrida a desequilibrava e fragilizava. Bárbara a alertou: “Ninguém precisa da aceitação alheia. Para cada um, basta a aceitação de si mesmo”. A arquiteta deu de ombros e alegou que lhe restava aceitar que tinha sido banida do mercado por ser quem era. A barista contextualizou o enredo: “A questão é outra. Em verdade, quando você vai aceitar que as coisas podem dar errado? O ideal de infalibilidade é uma grave enfermidade da alma”. Bebeu um gole de café e arrematou: “Não reconhecer os próprios erros é o que movimenta a engrenagem da exclusão. A autoexclusão. Orgulho e vaidade escondem sentimentos de inferioridade. Daí a sensação de abandono. A genuína solidão não é proveniente do distanciamento das pessoas, porém, de quando nos afastamos do nosso eixo de luz. Então, passamos a viver numa noite escura que parece não ter fim”.</p>



<p>Elisa disse não ter entendido aonde Bárbara queria chegar. A barista explicou: “Após um excelente trabalho, me pergunto se não houve erros nos projetos seguintes. Digo isso porque as críticas chegaram de todos os lados. Inclusive de quem a admirava. Se aconteceu, resta saber como você reagiu a elas”. A arquiteta olhou para a barista com a fúria de quem tem a intimidade da alma invadida. Bárbara sustentou o olhar com serenidade, como se oferecesse o remédio amargo indispensável à cura. Foram breves instantes que pareceram demorar uma eternidade. Aos poucos, a fúria se transmutou num arrependimento que se mantinha inconfessável. Uma lágrima escapou para mostrar o sofrimento reprimido na alma pelo orgulho e pela vaidade de não aceitar ou não saber lidar com os próprios erros. Elisa balançou a cabeça, respirou fundo e admitiu: “Após os aplausos e os elogios, passei a me comportar como se tudo que eu fizesse tivesse a marca da genialidade. Fiz os projetos ao meu gosto, sem me importar com os clientes que tinham os seus próprios gostos e interesses. Sem dúvida, motivei uma quebra de confiança com aqueles para quem eu prestava serviço. Quando vieram as reações contrárias, as repudiei com a arrogância daqueles que acreditam que o mundo tem que se ajoelhar aos seus pés”. Mais calma, saboreou um pedaço de bolo, arqueou as sobrancelhas como aprovando o sabor, bebeu um gole de café e questionou: “Essa é a manifestação do sentimento de inferioridade a que se referiu há pouco?”.</p>



<p>A barista disse sim com a cabeça e esclareceu: “Desde a tenra idade, seja através da educação recebida ou dos condicionamentos culturais que nos modulam, reprimimos ou negamos a diversidade de sentimentos e emoções do nosso universo interior. Mormente aqueles considerados ruins ou errados. Isto não os elimina nem os faz desaparecer. Ao contrário, permitimos que campeiem soltos e sem controle, influenciando de modo desordenado as nossas construções mentais e, por consequência, nosso comportamento. Criamos crenças equivocadas, quando não, desvairadas, que terminam por nos furtar o banquete da vida. Faz com que as experiências, em sua maioria, tenham um terrível sabor amargo. Sem saber lidar com nossas emoções e sentimentos, perdemos o controle da existência e as rédeas do destino. Ainda que negada ou irrefletida, a sensação de navegarmos numa nau sem rumo no oceano dos acontecimentos incontroláveis, traz a sensação de inferioridade diante do poderio de um inimigo imponderável e invencível”. A arquiteta pontuou sobre a insensatez de tentar controlar o incontrolável. A barista a corrigiu: “Se quiser dominar os acontecimentos da vida, perderá. Caso se dedique a descobrir e conquistar a si mesma, nada nem ninguém a derrotará”.</p>



<p>Elisa quis saber mais. Bárbara esclareceu: “Refiro-me a necessidade de conhecer e aprender a lidar com todas as emoções e sentimentos, sem esconder nem repudiar aquelas consideradas feias ou ruins. Elas são inerentes a quem somos. O problema não são os estímulos amargos dos dias, mas a incapacidade de reagir de maneira saudável a eles. Apesar da sua imensidão e poder, não é o tamanho do oceano que faz um barco naufragar, porém, a falta de habilidade para navegar em águas revoltas. Somos todos timoneiros nos mares das emoções agitadas e dos sentimentos tormentosos”. Bateu com o dedo na mesa para ressaltar as palavras seguintes e concluiu: “Para ocultar essa sensação de inferioridade provocada pelo medo, face o desconhecimento de quem somos e de como funcionamos, acreditamos possível nos esconder das tempestades por trás dos nevoeiros do orgulho e da vaidade. Por ignorância, nos tornamos ainda mais vulneráveis. Daí o desequilíbrio e a fragilidade que nos abandona nas noites escuras do medo”.</p>



<p>Elisa disse que aquela conversa era tardia. A viagem fora interrompida. O naufrágio já acontecera. Bárbara a alertou: “Educamos os nossos sentimentos ou eles nos dominam. Isto serve para o medo que a envolveu. Após um projeto bem-sucedido, os seguintes tiveram respostas negativas. Ao invés de pedir desculpas, assumir e corrigir os erros, preferiu se comprometer com os equívocos como se a teimosia tivesse o poder de os transformar em acertos. As reações contrárias ao seu comportamento se tornaram crescentes. Num determinado momento, você não mais suportou a pressão e sucumbiu. Ninguém a destruiu. Foi um processo de autodestruição. Insistir no erro, usando o orgulho e a vaidade como alicerces, equivale a construir uma casa de areia na ventania”. Bebeu mais um gole e de café e prosseguiu: “Ao notar que não mais se sustentaria com esse comportamento, ao invés de refazer a rota, deixou-se duvidar da própria capacidade. Um triste tipo de medo que nos traz cansaço, desânimo e desesperança. Perdemos o gosto pela vida”. Fez uma pausa antes prosseguir: “O medo nos convence que não vamos conseguir superar as dificuldades, que seremos devorados pelas adversidades, nos restando apenas a fuga. O medo não explica que, em melhor análise, não fugiremos dos problemas, mas de quem somos, abrindo mão do melhor que há em nós. Abandonar-se equivale a fugir da verdade e, porquanto, da realidade. Um ato de imaturidade por negar a responsabilidade pelas inevitáveis consequências a que deu causa”. A arquiteta ouvia atenta, como se aquelas palavras ecoassem no seu âmago.</p>



<p>A barista sorriu e continuou: “O medo é como uma lanterna encontrada num quarto escuro que aponta para uma única direção, como se nada mais existisse ao redor. O olhar fixo num pequeno camundongo, em pouco tempo, o torna um enorme leão faminto prestes a nos devorar se ousarmos sair de onde ele quer que fiquemos. O erro superdimensiona o abismo e nos convence que somos incapazes de erguer pontes para o atravessar. Assim, nos afastamos da nossa essência e das maravilhas da vida até nada mais restar de quem somos”. Olhou nos olhos de Elisa com candura e sussurrou: “Assim como qualquer outra pessoa, você é maior do que o maior dos seus medos. Reaja!”. A arquiteta perguntou como poderia sair do lugar escuro que se escondera em si mesma. A barista foi categórica: “Confie em si mesma. Não há poder maior”.</p>



<p>Bárbara fez menção em se levantar. Precisava retornar ao trabalho. Concisa e objetiva, havia falado o que precisava ser dito. Tudo mais seriam comentários sobre o mesmo tema, avaliei sem dizer palavra. Elisa segurou na mão da barista, pedindo para que ficasse mais alguns instantes. Admitiu que aquelas ideias iluminavam aspectos fundamentais de si mesma, que até então mantinha na escuridão porque não os queria ver. No entanto, ao lhe serem mostrados, não mais era possível negar as evidências. Estava disposta a enfrentar tanto o medo como o equívoco das próprias incompreensões. Contudo, confessou não saber como fazer. A barista pontuou: “Recomeçar é reconstruir-se sobre melhores e diferentes pilares. É nascer de novo. Todos precisam passar por isso algumas vezes em uma mesma existência”. Elisa se calou por alguns instantes, como se precisasse arrancar um segredo guardado no fundo da alma. Depois, disse não ter vontade de retornar à arquitetura. Não queria retomar à rotina de antes. Não havia ânimo ao se imaginar fazendo as mesmas coisas, independentemente das críticas ou elogios que viesse a receber. O ciclo se encerrara. Bárbara a provocou: “Para quem sempre trabalhou com criação, qual dificuldade em criar para si uma nova realidade?”. A arquiteta pediu para que fosse mais clara. A barista esclareceu: “Falo de inventar uma vida diferente, na qual caiba uma nova rotina e profissão. Algo no qual você se identifique e lhe dê prazer, sem cair nas armadilhas dos devaneios ou da ilusão. A cabeça pode e deve viajar até as estrelas, mas os pés precisam aprofundar as raízes no solo da sensatez. Esse é o equilíbrio indispensável”.</p>



<p>Bárbara a alertou: “Não espere por solenidades, plateia ou aprovação alheia. Não haverá. Recomeçar é um ato íntimo e solitário, exclusivo de uma consciência que retomou as rédeas da existência e traçou uma nova rota e destino. Trata-se de um gesto íntimo de amor-próprio e autovalidação, ao viver a verdade no limite que a percebe, assumindo os seus gostos e escolhas, crenças e sentimentos, sem depender da aprovação do mundo. Uma alegria serena e silenciosa. Um ato de humildade e fé em si mesmo. Etimologicamente, a palavra humildade é derivada de humus, terra fértil, apta a germinar sementes ainda não cultivadas. Refiro-me às novas ideias, descobertas e conquistas capazes de elevar o padrão de equilíbrio emocional e clareza mental, fundamentais à viagem evolutiva. Fé é a força que nos movimenta ao encontro do sagrado que nos habita e envolve. Confiar na própria capacidade de realizar e progredir é um ato de fé”. Elisa a olhou como quem diz que a teoria era ótima, mas lhe faltava a aplicação prática. Bárbara identificou o anseio, sorriu e sugeriu: “Um jeito eficaz e seguro é ir em busca do dom, um talento pessoal com o qual nos identificamos e que nos nutre de alegria e prazer”.</p>



<p>A barista a provocou: “Há tempos a observo. Vejo-a se sentar debaixo na mangueira no jardim e desenhar por horas. Impressiona-me o brilho dos seus olhos nesses momentos”. A arquiteta abriu a bolsa e colocou sobre a mesa um calhamaço de papel repleto de desenhos feitos à mão. Os olhos de Bárbara pediram para que eu os examinasse. Sem pressa, passei as folhas uma a uma. Na medida em que avançava na leitura, o meu encanto aumentava. Eram tiras de quadrinhos, com histórias curtas, de no máximo quatro imagens cada uma. Nelas, uma mesma personagem, representada por uma menina, lidava com questões comuns ao cotidiano, sempre reagindo com um sarcasmo demolidor e divertido quanto às obsoletas formas de responder à realidade. Com um humor singular e discreto, a menina se mostrava capaz de reinterpretar as situações sem as amarras dos condicionamentos socioculturais. Com graça, encontrava a beleza inusitada por trás das incoerências a que nos habituamos no dia a dia. Sem que se desse conta, a personagem trazia consigo a coragem que faltava para trazer à tona a verdade oculta e reprimida de Elisa. Mostrei à barista. Depois de ler, ela arqueou os lábios em um lindo sorriso e murmurou: “Quem é essa menina? O mundo precisa a conhecer”. Elisa sorriu sem jeito. Bárbara complementou: “É a voz silenciosa e profunda da consciência batendo à porta da existência para realizar a transformação que não mais pode esperar. Um autêntico convite ao recomeço”. Elisa quis saber se lhe era sugerido fazer do passatempo uma profissão. Bárbara esclareceu: “Não se trata de um mero passatempo, porém, de uma genuína terapia. A personagem traz a face oculta da Elisa, que até então era desconhecida ou reprimida. Através dela, você se descobre. Conhece a sua autêntica personalidade. Apresenta-se, provoca e faz repensar conceitos e comportamentos que se acreditavam definitivos. Não com discursos longos e enfadonhos, mas com agilidade e bom humor. O <em>biscoito fino</em> da arte. Esse material, que considera sem valor, encontrará voz em um sem-número de pessoas que atravessam processos semelhantes, mas ainda não conseguiram trazer das profundezas da alma as suas verdades transformadoras”. Em seguida, segurou nas mãos de Elisa com carinho, lhe deu um beijo no rosto e se levantou para voltar ao trabalho.</p>



<p>A sós com a arquiteta, ela quis saber se, como editor, eu poderia a ajudar. Disse que faria por gosto e prazer. O material era de excelente qualidade. Publicamos uma edição experimental com uma tiragem bastante reduzida. O lançamento foi realizado na cafeteria da Gávea, numa tarde de segunda-feira, sem qualquer solenidade especial. Elisa não convidou ninguém. Em ato simbólico, a cartunista assinou dois exemplares, um para mim, outro para Bárbara, entre espressos e pedaços de bolo de milho com coco. Era um momento exclusivo de Elisa. De reencontro, regeneração e recomeço. Desconfio que, universo adentro, a alma festejava repleta de júbilo. Nada mais importante e significativo. Os poucos exemplares demoraram a esgotar. Por algum desses mistérios da vida, um dos livros chegou às mãos de um influente editor chileno com grande penetração na América Latina, Europa e América do Norte, que adquiriu os direitos de publicação. A partir daí, ganhou o mundo.</p>



<p>Passado algum tempo, comentei com a Bárbara sobre a cartunista. Elisa voltara a ser aquela linda e elegante mulher; forte, equilibrada e dona de si. Contudo, não era a mesma mulher. A barista ponderou: “As mais lindas histórias de recomeço têm início quando tudo parece dar errado. Na verdade, é a vida nos corrigindo a rota para que tudo possa dar certo. Quase sempre de um jeito inesperado. Basta não desistir. Por vezes, desde que com novos e melhores fundamentos, é preciso persistir quando os projetos permanecem válidos e reais. Noutras, se faz necessário se reinventar. Em todas, é preciso recomeçar”.</p>
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		<title>A traição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Sep 2025 17:32:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VIII]]></category>
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<p>“De todas as brutalidades que nos atingem, a que mais nos afeta é a tentativa absurda de viver um modelo de comportamento incompatível com os nossos gostos, olhares e verdades. A beleza latente, existente no âmago de todos, sempre à espera de movimentos singulares para que possa florescer, termina por minguar quando não encontra o solo fértil necessário ao seu desenvolvimento. Fingimos nos satisfazer com a beleza de aluguel de um personagem encaixado numa pretensiosa e preestabelecida fórmula de sucesso fácil e felicidade aparente. Então, perdemos quem poderíamos nos tornar. Ao abdicar da originalidade, sem darmos conta, sucumbimos em atos contínuos de traição. De autotraição”, disse Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, enquanto colocava um bule com café fresco sobre o pesado balcão de madeira da oficina.</p>



<p>Leila era filha de Jean, amigo de infância do sapateiro, que regressara havia pouco tempo para as Terras Altas. Ela precisava desabafar com alguém que confiasse. Desembarcou do mesmo trem que eu chegara. Sem nos conhecermos, caminhamos da estação à oficina pelas estreitas e sinuosas ruas da pequena cidade, iluminadas parcamente pelos antigos lampiões de ferro fundido. A madrugada ainda não encerrara a noite. Como se intuísse que nos dirigíamos para o mesmo lugar, ela se virou para mim e sorriu quando viu a bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente ao ateliê. De modo velado, sem palavra, esse trajeto feito lado a lado a deixou à vontade para me permitir ouvir as suas angústias e mágoas. Desde jovens, Jean construíra uma amizade diferenciada com Loureiro. Como confidentes, conversavam sobre os seus sentimentos, ideias e sonhos mais íntimos. A pedido do pai, Loureiro batizara Leila antes de a menina completar um ano de idade. Acompanhara de perto o crescimento da moça.</p>



<p>Jean tinha um talento nato para o comércio. Desde cedo, comprava e vendia os mais diversos produtos como quem nascera para este propósito. Logo após a adolescência, montou um pequeno mercadinho que, duas décadas depois, se tornara uma grande rede de supermercados em uma metrópole próxima, a cerca de uma hora de trem dali. Com os lucros, reinvestira na abertura de novas filiais na região. A fortuna não lhe furtou a simplicidade nem o jeito carinhoso de tratar as pessoas. Um homem encantador, com uma incrível capacidade de agregar pessoas ao seu redor. Leila crescera numa ambiência de negócios, ao lado dos irmãos gêmeos, Rafael e Gabriel, apenas um ano mais novos do que ela. Apaixonados pelo pai, os filhos se empenhavam em o agradar, se dedicando com afinco à administração da rede de lojas, numa competição velada em busca dos seus elogios. Embora nada exigisse dos filhos, Jean se mostrara satisfeito em os ver trabalhando ao seu lado, compartilhando de um mesmo projeto de vida.</p>



<p>Quando se aproximou dos trinta anos de idade, Leila se casou com Maurice, um economista pós-graduado na Sorbonne, prestigiosa universidade de Paris. Jean o havia contratado para cuidar dos investimentos financeiros da rede, que se sofisticavam à medida que o mundo mudava. O casamento agradou ao pai. Os gêmeos tinham entre si uma ligação mais visceral. Não raro, à título de supostos esquecimentos, sonegavam à irmã algumas informações importantes, num movimento sub-reptício para aos poucos a alijar da administração dos negócios. Jean acreditou que o matrimônio equilibraria as forças na direção da empresa quando ele não mais estivesse no comando.</p>



<p>Até que aconteceu. Apesar da tristeza pela partida do pai, além da falta que a sua presença física faria, Leila acreditava que quase nada mudaria, tanto na empresa quanto na sua vida. Passado menos de um mês, Maurice comunicou o seu desligamento da firma. Estava de partida para Londres, onde atuaria no mercado financeiro. Este fora o seu plano desde que entrara na faculdade, admitiu. Numa conversa franca e desagradável, confessou que o casamento era apenas parte indissociável ao emprego, indispensável ao seu projeto profissional a longo prazo. Não havia amor. Nunca houvera. Emprego e matrimônio representavam a ponte necessária para atravessar o abismo das dificuldades até que adquirisse condições de se tornar sócio de uma corretora de valores mobiliários. Tinha fascínio pelo universo do mercado de ações. E, agora, sem a forte presença de Jean, chegara o momento de levar adiante o antigo plano, no qual, claro, a esposa não cabia. Assim, Maurice se foi sem outras explicações. Tampouco precisava.</p>



<p>Como se não bastasse, ao retomar a rotina na empresa, já sem a presença de Maurice, a convivência com os irmãos transcorrera de mal a pior. Tinham chegado ao ponto de trocar meros cumprimentos formais, sem qualquer resquício de afeição e respeito. Os gêmeos já não mais ocultavam a intenção de que a participação da irmã se tornasse figurativa. Juntos, na ausência do pai, se tornaram majoritários na sociedade. Planejavam para ela um cargo na diretoria com muita pompa e nenhum poder. Algo que Leila jamais admitiria. Reunira-se com um importante escritório de advocacia sobre o comportamento segregacionista dos irmãos. Restava-lhe uma batalha judicial longa e cara pelo controle da rede de supermercados.</p>



<p>Declarou-se cruelmente traída pelo marido e pelos irmãos, justamente aqueles que lhe eram mais próximos. A sua família ruíra. A vida que escolhera para si, desmoronara. Considerava-se uma guerreira. Construiria outra, ainda melhor. Não fugiria da guerra nem se daria por vencida. Estava disposta a encontrar um amor verdadeiro, assim como lutar incessantemente até assumir o comando definitivo e absoluto da empresa. Jamais desistiria. Não descansaria um único dia até que a justiça lhe fosse feita. Uma decisão irrevogável, afirmou antes de bebericar o café.</p>



<p>Loureiro a ouviu com muita atenção e nenhuma interrupção. Quando ela finalizou, a questionou: “Tem certeza de que essa é a batalha que deseja lutar?”. Leila disse não ter escolhas. O sapateiro ponderou: “Sempre temos escolhas. Contudo, muitas vezes, acreditamos restar somente as escolhas que esperam da gente. Noutras, nos falta lucidez para desmontar as escolhas condizentes com o personagem que inventamos para viver”. A executiva disse não ter entendido. O sapateiro explicou: “Quando você se define como uma guerreira, e não há nada de errado nisso, fica pendente saber qual tipo de guerreiro a define. Gengis Khan e Mahatma Gandhi foram dois guerreiros de perfis, métodos, eficiência e luminosidade diametralmente opostos. Enquanto o imperador dominou a Ásia ao preço de um colossal tapete de sangue, o monge derrotou o poderoso Império Britânico sem disparar um único tiro. Nada os aproxima, no entanto, ambos eram guerreiros”. As feições da mulher pediam para ele prosseguir. Loureiro pontuou: “A primeira escolha é decidir se a prioridade é derrotar os seus irmãos ou vencer a si mesma. Isto estabelecerá os seus objetivos, limites e métodos de atuação. Se caminhará na luz ou nas sombras. Atitudes de autorrespeito e amor-próprio são fundamentais ao equilíbrio emocional e à força necessária aos movimentos em prol da sua plenitude. Tudo mais são vitórias vazias”.</p>



<p>Leila questionou se o padrinho a aconselhava a entregar o controle da empresa aos irmãos. Loureiro refutou o raciocínio: “Eu não disse isso. A questão reside na imagem que criamos para transitar pela vida. Esta imagem nos compele a determinadas escolhas, reduzindo muitas das possibilidades à disposição. Então, ao contrário do que imaginamos, nos tornamos menos quando poderíamos ser mais. Por exemplo, se me considero fraco ou manso, fujo ou evito a luta. Assim, possibilidades se abrem e se perdem. De outro modo, se me vejo como um guerreiro, não posso desistir da batalha. Tenho que enfrentar os meus inimigos. Contudo, não basta. Importantes perguntas ficam pendentes: qual será o verdadeiro combate que me aguarda? Quem são os meus maiores adversários? Onde eles estão, no mundo ou em mim?”. Olhou a afilhada com doçura e ponderou: “Faz-se necessário responder essas perguntas antes de iniciar qualquer movimento, sob risco de sucumbir sem entender a guerra perdida antes mesmo de a iniciar. Não importa o resultado. Não há como vencer a batalha errada”.</p>



<p>O sapateiro bebeu um gole de café e comentou: “Noutras vezes, escolhemos em função dos outros, do personagem que queremos manter vivo aos olhos das pessoas que nos admiram, desconsiderando por completo aquilo que, no fundo da alma, tínhamos vontade de fazer”. Leila afirmou não haver ninguém que quisesse agradar. Loureiro a corrigiu: “Existe você. Ou deveria haver”. Ela disse não ter entendido. Ele perguntou: “Quem decide os rumos da sua vida? A executiva decidida e eficiente, que sempre se esforçou para agradar ao pai, a jovem que cresceu em busca da admiração das pessoas ao redor, ou a empresária capaz de superar todas as crises com uma determinação inabalável?”. Fez uma pausa proposital para enfatizar a conclusão do raciocínio e voltou a indagar: “O que aconteceria se, pela primeira vez, ouvisse a mulher sensível e delicada, genuína e autoral, que pode ser igualmente forte e poderosa, só que de um jeito diferente, que nunca sequer ousou conhecer?”. Aturdida, Leila se calou. Loureiro arqueou os lábios em doce sorriso e arriscou: “Uma mulher até então desconhecida por ter sido abandonada, mas que ainda a aguarda em semente”.</p>



<p>A empresária pediu para que Loureiro explicasse melhor. O sapateiro pontuou: “Quando uma batalha se anuncia, alguns fogem, outros a negam. Há os que se levantam para a enfrentar. Vencem somente aqueles que descobrem que batalhas não são guerras, porém, portais de transformação”. Bateu com o dedo no balcão para prestarmos atenção ao raciocínio e disse: “Quando alguém se opõe ao nosso caminho, interesse ou vontade, nos deparamos com um antagonista. Etimologicamente, de origem grega, a palavra significa <em>aquele que nos impede de ganhar o prêmio</em>. Na literatura ou na vida, quando temos um adversário, temos um conflito à espera. Derroto o adversário para vencer a guerra. Simples assim, certo?”. Leila respondeu que sim com a cabeça. Loureiro a corrigiu: “Nem sempre. Tombar o inimigo não é garantia de vitória. A verdadeira função dos antagonistas, muitas vezes, não é a de impedir o acesso ao prêmio, mas nos levar a descobrir que o melhor prêmio não era aquele que imaginávamos quando a batalha se apresentou. Se desconsiderarmos as questões de fundo do combate, desperdiçaremos as melhores oportunidades oferecidas pelos conflitos: as transformações existenciais”.</p>



<p>Leila questionou qual seria a questão de fundo a que se referia. O sapateiro explicou: “Todo conflito externo sinaliza uma potencial descoberta interna. Este é o ponto crucial das genuínas conquistas, quase sempre desconsiderado nos combates. Como guerreiros contemporâneos, nos armamos de advogados, contadores, peritos, laudos, entre outros apetrechos bélicos, movidos de acordo com o nível de poder econômico, político ou social dos contendores envolvidos. Embora não se use mais as espadas, lanças e catapultas da Antiguidade, a ideia ainda é aniquilar o inimigo, no sentido de o tornar impotente à nossa vontade ou interesse. Este ainda é o significado de vitória que move as multidões”. Antes que a afilhada perguntasse, Loureiro explicou: “Sem dúvida, há situações que o enfrentamento se faz necessário. Embora precise de melhor entendimento, não se despreza o senso natural de justiça nem se negocia com a verdade. Contudo, na grande maioria das vezes, o adversário serve apenas para apontar algo mal construído dentro da gente ou sinalizar por uma decisão angular, capaz de mudar para melhor a rota e o rumo das nossas vidas, seja mundo afora, seja universo adentro”. Fez uma breve pausa antes de concluir: “Embora não seja a sua intenção, quando o seu papel em nossas vidas é compreendido, o antagonista nos faz entender, aceitar e manifestar a mudança interna até então reprimida. Jamais pelo medo de se colocar diante de ninguém, mas pela coragem de renascer perante a si mesmo sob novos fundamentos existenciais”.&nbsp;</p>



<p>A empresária se calou. Por longos minutos, ninguém disse palavra. Até que Leila indagou se os argumentos do sapateiro seriam para demonstrar o despropósito de uma guerra entre irmãos. Se fosse, queria avisar que não estava disposta a abrir mão dos seus direitos e do seu patrimônio. Loureiro recolocou o raciocínio dela no prumo: “Eu não disse isso”. Em seguida, a questionou: “Você sempre se mostrou muito firme nas suas escolhas e na condução da própria vida. Se essa batalha judicial é mesmo necessária, o que a trouxe aqui? Veio na tentativa de ouvir palavras que pudessem abafar as vozes que transbordam do seu coração? Se foi, não vai acontecer”. Leila perguntou o que ele acreditava que ela se negava a ouvir. O sapateiro foi categórico: “Só você saberá responder”. A afilhada o olhou com doçura como quem diz <em>não faça isso</em>. Ele franziu as sobrancelhas e pontuou: “Não há outro jeito. Apenas a plena responsabilidade pelas consequências de cada escolha cria as condições indispensáveis à maturidade. Somente então, a beleza da vida floresce”.</p>



<p>Leila tornou a se calar por alguns instantes. Tentava alocar novas ideias à velha maneira de pensar. Depois, questionou Loureiro apenas com o olhar: <em>Será?</em> O sapateiro sorriu satisfeito e deu de ombros como quem responde <em>não sei</em>. Emocionada, ela sorriu de volta, não sem deixar escapar uma lágrima rebelde. Neste breve diálogo sem palavra, eles se referiam a um hobby de Leila. No seu tempo livre, Leila gostava de estudar e ler sobre moda. Tinha fascínio pelo assunto. Por paixão e prazer, montara uma alfaiataria artesanal para desenhar e fabricar as roupas que usava. Um estilo de vestir como reflexo da sua maneira de pensar e sentir a vida. Com o tempo, passou a presentear as amigas que se afinavam ao seu gosto. Gostava mais de cuidar da alfaiataria do que administrar o supermercado. No entanto, apesar dos elogios recebidos, nunca considerara fazer da confecção uma grife. Do hobby, uma atividade profissional. “Por quê?”, indagou Loureiro. Leila ensaiou algumas respostas, mas não conseguiu oferecer nenhuma com argumentos consistentes.</p>



<p>Neste instante, enquanto ouvia a fragilidade dos próprios argumentos, Leila se deu conta da traição que cometia contra si mesma. Era o ponto de mutação consciencial. As suas escolhas não podiam mais servir para sustentar as expectativas que criara para manter viva uma personagem que não mais lhe servia. Por motivos justificáveis de acolhimento, pertencimento e validação, principalmente do pai que tanto amava e admirava, a narrativa escolhida servira de condução até aquele momento. Dali em diante, se quisesse seguir em frente, precisaria <em>matar</em> a personagem. Do contrário, a verdadeira autora nunca assumiria o controle da história.</p>



<p>Falando à medida que os pensamentos borbulhavam na mente, Leila considerou a hipótese de, ao invés de brigar indefinidamente pelo controle da empresa, deixar a administração por conta dos gêmeos. Embora fosse receber uma parcela menor dos lucros, teria todo tempo necessário para fazer o que sempre desejou, mas nunca teve a lucidez de aceitar nem a coragem de realizar. Ela sorriu diante do cenário imaginado. Num breve instante de deslize, comum às transições evolutivas, lamentou ter de jogar fora os vinte anos dedicados à rede de supermercados. Loureiro a lembrou: “Foram vinte anos de convivência intensa ao lado do seu pai. Isto tem um valor afetivo impagável. No mais, a experiência acumulada na direção de um grande negócio será útil e indispensável à nova empreitada. Nada se perderá”.</p>



<p>Notei que as suas mãos tremiam. Perguntei se era medo do futuro. Ela respondeu que não. Leila estava emocionada por se perceber na plataforma de embarque da viagem mais importante da sua vida. Uma viagem sem volta por levar ao encontro da outra face da mulher que ainda desconhecia em si mesma. Essa possibilidade a encantava. Deu um beijo na bochecha do padrinho, agradeceu a conversa e foi embora. Muito a esperava. Sem saber, eu assistira o espocar do embrião de uma grife de enorme sucesso alguns anos depois.</p>



<p>A sós, Loureiro se levantou para preparar mais um pouco de café. Enquanto isso, elogiei a têmpera da Leila. Não era uma decisão fácil. Foi quando o sapateiro se valeu dos argumentos citados na abertura desta história: “De todas as brutalidades que nos atingem, a que mais nos afeta é a tentativa absurda de viver um modelo de comportamento incompatível com os nossos gostos, olhares e verdades. A beleza latente, existente no âmago de todos, sempre à espera de movimentos singulares para que possa florescer, termina por minguar quando não encontra o solo fértil necessário ao seu desenvolvimento. Fingimos nos satisfazer com a beleza de aluguel de um personagem encaixado numa pretensiosa e preestabelecida fórmula de sucesso fácil e felicidade aparente. Então, perdemos quem poderíamos nos tornar. Ao abdicar da originalidade, sem darmos conta, sucumbimos em atos contínuos de traição. De autotraição”, disse Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, enquanto colocava um bule com café fresco sobre o pesado balcão de madeira da oficina. Em seguida, finalizou: “Ao compreender esse processo, a dificuldade se desmancha. O complicado se torna simples”.</p>
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