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	<title>TAO TE CHING &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>TAO TE CHING &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>TAO TE CHING (O encerramento &#8211; O reverso da mandala)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jan 2025 12:52:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu estava de volta à sala de meditação na casa de Li Tzu. Sentado e sem me mexer, demorei alguns minutos até me situar em mim mesmo. A consciência precisava acoplar ao corpo físico. O mestre taoísta me observava sem dizer palavra. Ainda sob os efeitos iniciais de encantamento e arrebatamento, comuns às experiências sensoriais que nos permitem vislumbrar um universo de possibilidades até então desconhecido, questionei se experimentos com plantas e substâncias alucinógenas nos permitiriam igual percepção. Ele foi taxativo: “Não existem atalhos no Caminho. Tais alterações químicas cerebrais não conduzem a nenhum avanço. Restringem-se a deformações da realidade, devaneios cognitivos e desequilíbrios emocionais sem qualquer serventia evolutiva. Apenas o conhecimento aliado à meditação e oração profundas, podem fazer emergir a essência sagrada que aguarda embrionária nas zonas abissais da consciência, aguçando a percepção e a sensibilidade em processo luminoso de autodescobrimento. Não existe outro jeito”. Fez uma pausa antes de acrescentar: “Ainda assim, não basta. A aquisição de bússola e mapa não garante o destino ao viajante. É preciso realizar a viagem. Significa que terá de colocar em prática o conhecimento adquirido. Precisará de constantes ajustes na rota para conseguir se manter no rumo desejado. Não será fácil. Haverá momentos que pensará em desistir, que se sentirá cansado, desorientado, incapaz ou impotente. É justamente nestes instantes que necessitará do conhecimento adquirido, se apoiará na meditação e receberá auxilio através da oração. Quanto maior for a dificuldade superada, mais significativo será o trecho percorrido. O Tao ensina que o Caminho ajuda a quem não admite a ideia de abandonar a viagem. <em>Busque e acharás; bata e a porta se abrirá</em>. Não é isto que também foi prescrito no Sermão da Montanha?”. A pergunta era de simples retórica. Ele apenas mostrava a fina sincronia entre os textos sagrados com a verdade. Tudo que conduz à luz é verdade. Fora disto, quaisquer conclusões não passam de enganos disfarçados à serviço dos interesses de conveniência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que eu aprendera muito nessa estranha jornada de aprendizado do Tao Te Ching pelo inconsciente coletivo. Um dos aspectos que mais me chamou atenção foi sobre a necessidade de desmanchar os sofrimentos. Do contrário, não haveria paz nem felicidade. Li Tzu balançou a cabeça em anuência e esclareceu: “Graduar-se na escola reencarnatória exige a capacidade de viver as experiências planetárias, através dos mil relacionamentos e acontecimentos oferecidos, com as delícias e problemas inerentes a cada um deles, sem que nenhum se torne fonte de sofrimento, porém, sejam mananciais de aprendizado. Somente assim encerraremos a travessia através da estrada do tempo”. Pedi para que falasse mais sobre o assunto. O mestre taoísta disse para eu me levantar com calma e o encontrasse na cozinha. Continuaríamos lá a conversa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao entrar na cozinha, Li Tzu colocava ervas em infusão para o chá. O perfume dos jardim de bonsais invadia o ambiente tornando acolhedora a atmosfera da casa. Meia-noite, o gato preto que morava na casa, deitado em cima da geladeira, ronronava. Sentei-me à mesa e aguardei sem dizer palavra. Quando o chá ficou pronto, o mestre taoísta encheu as xícaras e se acomodou à minha frente, de modo que nossos olhos se encontrassem enquanto falávamos. Em seguida, questionei o motivo de termos tanta dificuldade para descontruir os nossos sofrimentos. Li Tzu explicou: “Primordialmente, porque não compreendemos o seu funcionamento. É impossível parar algo que não sabemos como nem porque se move. É preciso ir à origem da dor para entender o seu mecanismo. Do contrário, não conseguiremos desmanchar nenhum sofrimento”. Bebericou o chá e prosseguiu: “Por que tal situação me causa raiva ou me deixa triste? Qual a razão desse relacionamento me causar tanto desconforto? Por que esse sentimento ou ideia desagradável insiste em me acompanhar? Existe motivo para eu ter dificuldade em passar alguns dias sozinho?”. Fez uma pausa breve para que as perguntas servissem para impulsionar o meu raciocínio e acrescentou: “São questionamentos simples que quase todos já se fizeram. No entanto, muito poucos tiveram a coragem ou estavam prontos para lidar com as verdadeiras respostas. Pois, falam das nossas próprias dificuldades e fragilidades. O sofrimento de cada pessoa é de responsabilidade exclusiva dela, sendo incabível a transferência para terceiros, como nos é confortável acreditar e fazer. Há de haver simplicidade para afastar os enganos de conveniência e lidar com a verdade, quase nunca agradável ao orgulho e à vaidade. Não importa o que os outros fazem. O valor está em como reagimos. Elaborar adequadamente as experiências é parte fundamental à arte da evolução. O mal pertence a quem o praticou, cabendo ao executor as inevitáveis consequências. O Caminho é justo. Não deixar que o mal crie raízes no coração é de responsabilidade de quem cuida do próprio coração. Virtudes como a humildade, a compaixão, a assertividade e o perdão estarão sempre disponíveis à autodefesa, na manutenção do respeito por si e sem qualquer necessidade de contra-atacar. O Caminho é pedagógico”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber como acontece ao evitarmos a verdade como elemento fundamental à solução das dores emocionais. Li Tzu pontuou: “Negar ou entorpecer a verdade somente posterga a cura e esgarça ainda mais o sofrimento. Enquanto subjugada por um ego primitivo e selvagem, a alma se manterá como quem vive dentro de uma caixa de dimensões menores ao seu tamanho. Com o potencial esmagado e olhar cerceado, o indivíduo se moverá através de contradições e enganos, enxergando a si, o mundo e a vida com lentes turvas ou de curto alcance. Entenderá o imediato como se fosse indispensável, confundirá aparência com essência. Ater-se-á às sensações primárias, valores rasos e interesses secundários. Será direcionado a escolhas que estimulam e produzem o desequilíbrio. Avolumará o sofrimento ao invés de encontrar a cura”. Fez uma pausa antes de concluir: “Os textos sagrados ensinam sobre a necessidade de tirar a alma da caixa que a esmaga e impede que assuma o controle das ações. Só o ego, quando dotado de humildade e autocompaixão e, assim, capaz de reconhecer a origem e a razão das fragilidades causadoras do sofrimento, poderá fazer o correto movimento de redenção. A libertação ocorrerá através da própria reconstrução, tendo alma e ego alinhados sob um mesmo propósito, movidos pelos trilhos revolucionários da verdade e das virtudes. Todos querem a paz e a felicidade. Trata-se de um desejo sincero das multidões. Contudo, procuram onde nunca encontrarão, erguem prédios desprovidos de alicerces, colidem por andar na contramão da verdade e, porquanto, do amor. Pegam quando era preciso entregar, confundem dignidade com orgulho, ficam no lugar de seguir, aprisionam por temer a liberdade. Escrevem as cartas que não gostariam de ler”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada mais foi dito. Nem precisava. Bebi o chá sem dizer palavra. Eu entendi o que o Tao Te Ching me oferecia: um elixir de cura; um mapa para viajar com leveza e suavidade pela estrada do tempo; mecanismos de equilíbrio e força aos movimentos; o poder sobre a minha própria vida, sem mais ficar à deriva das escolhas alheias, da imprevisibilidade dos acontecimentos ou das interferências indevidas. Não era pouco. Como se adivinhasse os meus pensamentos, o mestre taoísta lembrou: “Agora é contigo. Cada mandala ofereceu um portal com os respectivos aprendizados. Toda face tem uma contraface, toda conquista traz uma responsabilidade. O reverso da mandala exige a indispensável ação correspondente”. Era hora de voltar para casa. Uma angular transformação me aguardava. Quem retornava era um homem com um olhar diferente daquele que ali chegara. Agradeci a oportunidade e embarquei no ônibus da tarde. Mas eu precisaria voltar muitas vezes. Teoria e prática necessitam de constantes ajustes. O aprendizado sobre os textos sagrados não tem fim.</p>
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		<title>TAO TE CHING (Octogésimo primeiro limiar &#8211; Os enganos do Caminho)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jan 2025 17:52:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Início do Século XX. Eu flanava pelas ruas da cidade quando tive a atenção voltada para um cartaz que anunciava a apresentação de um famoso ilusionista no New York Hippodrome, o maior teatro da época. Havia a promessa de fazer desaparecer no palco um elefante pesando mais de quatro toneladas. Não dei muita importância. Mais adiante, em uma praça, notei que as pessoas só falavam sobre essa apresentação. O mágico se notabilizara como um grande escapista, conseguindo se livrar de algemas, correntes e camisas de força, mesmo estando submerso em um tanque de vidro diante do olhar de uma plateia atenta e tensa ao risco iminente de morte do artista. Nada parecia deter a habilidade daquele homem, disposto a surpreender o público incessantemente. Corria a lenda de que teria poderes sobrenaturais. O espetáculo começaria em menos de uma hora. Dirigi-me para lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O teatro estava lotado. Os ingressos, esgotados. Resignei-me por não conseguir assistir à apresentação. Observava tanto as pessoas que, animadas, aguardavam na fila para entrar, como aquelas que, decepcionadas, lamentavam a impossibilidade de assistir ao show. Eu já tinha decidido sair dali quando fui abordado por um homem com cerca de setenta anos de idade, um farto bigode grisalho e modos elegantes, tanto no vestir quanto no trato pessoal. Muito simpático, me perguntou se eu queria assistir ao evento. Respondi que sim com a cabeça. Ele me mostrou dois ingressos e disse para o acompanhar. Feliz, obedeci. As nossas poltronas eram centrais e próximas ao palco, de modo a ter uma excelente visão do espetáculo. Já acomodados, agradeci a gentileza. A sua resposta foi interessante: “Multiplicamos ao dividir”. Em seguida, a sirene tocou pela terceira vez e as cortinas se abriram. Além de diversos outros truques, o mágico cumpriu a promessa de fazer desaparecer o enorme elefante a alguns poucos metros dos meus olhos. O público irrompeu em aplausos e delírio. Ao meu lado, com um delicioso sorriso no rosto e batendo palmas com vontade, o homem comentou: “O palco e a vida têm aspectos semelhantes. A representação da realidade, por vezes, tem o poder de se tornar a própria realidade. A depender da maneira como interpretamos as pessoas e as situações, da nossa capacidade de elaborar as experiências vividas e a importância que damos as coisas, faz com que a ilusão se espraie a ponto de ofuscar a verdade e ocupar o seu lugar. Embora espremida, esquecida ou abandonada, a verdade nunca deixará de existir e cobrará um alto preço pelo seu distanciamento”. Indaguei que preço seria esse. Ele respondeu de pronto: “Ficaremos incapazes de realizar a perfeita leitura entre o bem e o mal. Por consequência, de discernir o certo do errado. Longe da verdade, distante da luz”. Fez uma pausa antes de concluir: “Nada mais catastrófico do que aceitar um engano como se fosse verdade. Os prejuízos são imensuráveis. Trata-se, em diferentes níveis, de uma prática comum à vida de todas as pessoas. Quanto mais obscurecido for o entendimento da verdade, mais constantes serão os desencontros, confusões e fraturas existenciais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O artista agradeceu à plateia e as cortinas se cerraram. Saímos do teatro sem trocar palavra. Já na rua, ao fazer menção de que se despediria, interrompi o seu gesto para lhe fazer um pedido. Eu queria conversar um pouco sobre enganos e verdades. O assunto me interessava. O homem sugeriu que fôssemos a uma cafeteria recém-inaugurada, próxima ao teatro, famosa por importar os grãos do Brasil. Seguimos pela Sexta Avenida até a Rua 34, onde se localizava o Repúblic. Era um lugar agradável e bem decorado. Ao fundo, uma jovem extraía do piano uma melodia ainda pouco conhecida à época, o jazz. As poltronas eram confortáveis e o café de excelente qualidade. Para iniciar a conversa, perguntei a razão daquele comentário no teatro. Ele explicou: “Escrevi romances que alcançaram um impensado sucesso. Sou cronista em um jornal de grande circulação. Isto fez muitas pessoas se aproximarem de mim. Fez também com que outras tantas se incomodassem comigo. Já escutei de tudo um pouco. Aprendi que, se nem toda crítica é justa, nem todo elogio é merecido. Entendi o valor de filtrar as palavras para retirar delas os menores resquícios de todos os enganos e decodificar as intenções por trás de cada frase. As <strong>palavras boas não são</strong> as <strong>bonitas</strong>, porém, as verdadeiras. Estas nos mostram os erros e abrem as vias do aprimoramento pessoal. As <strong>palavras bonitas não</strong> <strong>são</strong> necessariamente <strong>boas</strong>. Discursos agradáveis costumam têm o poder de avantajar o orgulho. De outra face, palavras boas doem quando tocam nas feridas abertas da alma. Nem sempre estamos dispostos, ou prontos, a enfrentar o desafio da cura. Mudanças exigem coragem e abnegação. Não são fáceis, mas é o que traz colorido à vida. Gostamos das palavras bonitas que tanto lustram a vaidade. Sentimo-nos maiores e melhores do que somos. E é neste ponto que reside a maior fraqueza. Somos tão poderosos quanto a menor das nossas fragilidades”. Em seguida fez uma ressalva: “No entanto, há que se ter cuidado. Para serem boas, as palavras verdadeiras jamais podem servir como instrumento de agressão. Palavras boas movidas pela verdade servem à desconstrução dos enganos, abrindo espaço para posterior construção sob diferentes fundamentos, jamais sendo veículo de destruição e ruínas. A diferença está na maldade ou na generosidade de quem as profere. A boa palavra oferece e agrega, nunca retira ou subtrai. Anima, desvenda e transforma sem nunca ofender nem acuar. Se a palavra não for boa nos lábios significa que a verdade ainda está imatura no coração”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indaguei como ele se sentia quando as pessoas eram ásperas ou as situações se mostravam desagradáveis. O escritor explicou: “Pessoas e situações não precisam ser do jeito que eu as quero. Em verdade, nunca serão. No entanto, eu preciso ser do jeito que eu preciso e quero. E isto depende apenas de mim”. Perguntei que jeito era esse. Ele esclareceu: “De modo que eu consiga fazer todo o bem possível sem permitir que nada nem ninguém me deixe triste ou irritado. <em>Isso não é meu</em>, <em>o mal é de quem o pratica</em>, digo a mim mesmo todas as vezes que alguém faz algo que considero injusto ou deselegante. Pontuo que não gostei em fala delicada e firme a um só tempo, expondo os meus argumentos de maneira objetiva, serena e clara. Um modo simples de não permitir que o mal alheio se hospede em mim. O erro ou engano de outra pessoa só se tornará meu se eu deixar que faça morada no meu coração. Há que se ter sabedoria no manejo da porta. Existe tanto amor em abrir para o bem entrar quanto em fechar para deixar o mal do lado de fora. Depois, sigo em frente, ainda que incompreendido. Aprendi que <strong>o sábio não discute</strong> nem tenta convencer ninguém da verdade como a compreende. Ninguém consegue enxergar com olhos que ainda não possui. <strong>A virtude não é insistente</strong>, tampouco se impõe pela teimosia. Se assim fosse, não seria virtude, cuja força é mansa e pacífica. A verdade prospera pelo livre-pensar, sempre estimulado por sentimentos generosos. A rudeza do coração é a causa primordial à estagnação da consciência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, prosseguiu: “Gosto das pessoas simples, cuja principal virtude é se despir dos personagens inventados para admiração pública. Estes são pernósticos, cabotinos e empolados. Falam das viagens que fizeram, do patrimônio que amealharam, dos livros que leram. Tolices. Um carpinteiro pode conhecer mais sobre a verdade do que um sultão, general ou catedrático. A maior riqueza é o amor, a conquista fundamental é sobre si mesmo e a leitura mais importante é a que dispensa palavra para compreensão. O olhar aguçado sobre a realidade não se adquire nas bibliotecas, mas na capacidade de elaborar as experiências vividas. <strong>O sábio não é um erudito</strong>, mas aquele que consegue aplicar no cotidiano cada aprendizado que adquire. Ninguém é o que sabe, porém, aquilo que faz. De nada adianta acumular conhecimento sem lhe destinar boa aplicação”. Ponderei que a leitura dava acessos a conhecimentos importantes, capazes de mostrar caminhos e possibilidades até então impensados. O escritor pontuou: “Sem dúvida, os livros ajudam a descortinar os enganos que nos impedem de ir além de quem somos. As experiências processadas pelos autores podem clarear ou obscurecer a compreensão sobre situações ainda mal resolvidas dentro da gente. Podem nos indicar caminhos para a verdade ou a precipícios de enganos, a depender dos livros que lemos ou da interpretação alcançada. <strong>O erudito não</strong> é necessariamente um <strong>sábio</strong>. Há que se ter um filtro apurado sobre todas as coisas e letras. Aquilo que acreditamos são as vias do céu ou do inferno que vivemos”. Fez uma pausa para eu concatenar o raciocínio e prosseguiu: “Sabedoria e ignorância, esta é a semente daquela. Ambas residem na consciência que, por definição, é a percepção e a sensibilidade de compreender a si mesmo e ao mundo em redor. Por sua vez, a verdade é a última fronteira alcançada pela consciência. O que nos leva a entender que a realidade é a leitura do mundo, e das suas infinitas possibilidades, através das lentes da verdade. Se consciência se expande ou se contrai na medida dos movimentos internos e deslocamentos externos de cada pessoa, diferente não será com a compreensão da verdade e com os limites da realidade. Todas tratam de conquistas estritamente pessoais. O poder de amar mais e melhor, se sentir em paz, ser livre, digno e feliz aguarda como um embrião na consciência. Fazer com que floresça equivale à obra da vida. A grande arte. Seja você um engenheiro ou um operário”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, me desconcertou: “A inveja ilustra com perfeição os argumentos acima. É comum acreditar que a inveja esteja ligada à capacidade financeira. Aos olhos do mundo, aquele que possui menos inveja quem tem mais. Sem dúvida, não é raro que tal situação ocorra face a prioridade materialista ainda reinante nas multidões. No entanto, aceitar este raciocínio, sem admitir outras hipóteses, seria considerar os ricos a salvo dessa triste anomalia em suas personalidades. Um grave equívoco de percepção. Existe um tipo de inveja mais profunda e substancial. Não a inveja pelo que a pessoa tem, mas por quem ela é. Embora não seja muito comentado, e quase nunca admitido, é comum um indivíduo milionário, mas com graves distúrbios emocionais ou conscienciais face seus erros, trapaças e egoísmo invejar um sujeito simples, humilde, sincero e generoso, porém digno e em paz consigo mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O escritor esperou que o garçom servisse o café e continuou: “É preciso distinguir a verdade da ilusão, para em seguida priorizar o essencial em detrimento ao secundário. Sem entender o sentido da vida a expansão da consciência restará prejudicada”. Pedi para explicar melhor, se possível, com exemplos. Era um homem generoso: “Nada há de errado com o dinheiro. O cerne da questão reside quanto ao seu uso. De nada adianta amealhar patrimônio apenas para o deleite pessoal. Há de haver serventia. A riqueza deve estar à serviço da prosperidade”. Perguntei se as palavras não tinham o mesmo significado. Ele disse não com a cabeça e explicou: “A riqueza se caracteriza pela grande quantidade de bens materiais acumulados. A prosperidade tem como atributo a qualidade dos bens espirituais compartilhados enquanto nos movemos pelos dias. A riqueza encontra o autêntico sentido quando aplicada para melhorar a vida de todos ao redor, servir de instrumento à luz e, somente assim, engrandecer quem compreendeu a verdadeira finalidade a qual ela se destina. O livro contábil da vida não registra dinheiro. Apenas luz”. Bebeu um gole do café e me sugeriu fazer o mesmo. Estava delicioso. Perguntei se a principal função do dinheiro seria a caridade. Ele ponderou: “Caridade é amor em movimento. Existe tanta caridade em alimentar quem tem fome como em gerar empregos e, porquanto, dignidade e bem-estar, com a montagem e manutenção de um negócio”, ampliou a compreensão do conceito. Depois, ponderou: “Diz o dito popular que quem não abre a mão mantém o coração fechado. Por isso <strong>o sábio não acumula</strong>. Seja dinheiro, conhecimento ou amor. Abrir a mão não significa apenas doar bens materiais. Precisamos abrir a mão para abraçar, cuidar, construir, levantar aqueles que caíram, enxugar lágrimas ou servir ao mundo de alguma maneira. É impossível viver o amor de mãos fechadas. Amor não é só sentimento, mas principalmente ação e compromisso. Tudo que não servir de ferramenta para semear o amor, em qualquer das suas mil modalidades, é descabida ilusão de poder e riqueza.<strong> Quanto mais compartilharmos</strong> o próprio coração em prol da prosperidade em comum, <strong>mais rico nos tornaremos</strong>. Não pela contabilidade do mundo, mas pelas realizações que agregam valor a bagagem, o conteúdo imaterial que levamos conosco pela estrada do tempo e além dela. Este é o genuíno poder e a verdadeira riqueza.”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei onde a estrada do tempo se encerra. O escritor arqueou os lábios em sorriso e disse: “Numa cidade chamada verdade. Um lugar no qual medos, conflitos e sofrimentos deixam de ter razão para existir”. Indaguei onde fica esse lugar. Ele respondeu de pronto: “Encontre-a dentro de você. Do contrário, ela se manterá perdida. Não há outro meio de chegar nessa cidade que não seja através do aperfeiçoamento pessoal. Os relacionamentos são mananciais de experiências fundamentais à lapidação da personalidade e ao afloramento da identidade. Agradeça a tudo e todos. Eles são fundamentais por nos ensinar sobre o amor que ainda não sabemos amar”. Eu quis saber o que a estrada do tempo exige de cada viajante. Ele foi incisivo: “Nada”. Em seguida, acrescentou: “A estrada do tempo se entrelaça com o caminho da verdade e das virtudes quando os alinhamos em uma mesma viagem. Ego e alma se unificam em um só desejo. As rotas se ajustam a um destino em comum. Contudo, isso não significa que a partir daí haverá apenas facilidades. O Caminho é como uma espada justa de corte rente. Todo mal é produzido pelos próprios viajantes que duelam na ilusão de grandezas vazias e sangram em desejos rasos de ambições desmedidas. <strong>Embora seja afiado, o Caminho não prejudica ninguém</strong>. Não pune, ensina. Jamais extingue, sempre regenera. Nunca se vinga, porém, corrige e equilibra. Entrega a cada um segundo os seus feitos. Todo indivíduo recebe as ferramentas conforme a necessidade da obra que ergue; vive as exatas lições adequadas à própria evolução; encontra as delícias e os dissabores na medida do seu merecimento. Nem mais nem menos. Sem privilégios nem distinções. Não há dificuldade que não possa se traduzir em aprendizado. Não existe sofrimento que não oculte em si o elixir da cura. Mesmo assim, vale lembrar, o percurso de um, por mais inconsequente que seja, não prejudica a viagem dos demais viajantes. Por isto <strong>o sábio realiza sem disputar.</strong> Não reclama, briga ou deseja chegar na frente de ninguém. Tampouco, se esforça para convencer as pessoas sobre o seu valor. As genuínas conquistas são mansas e silenciosas, estruturadas na consciência para se revelar em movimentos repletos de leveza e suavidade. O sábio está distante dos palcos ilusionistas do mundo, porém, próximo à verdade da vida. Ao praticar o bem movido apenas pela alegria dos corações envolvidos, colhe os frutos no ato da semeadura. Ação e resultado unificados em um mesmo gesto de prosperidade sem a espera dos aplausos da plateia. A grande magia não está em fazer desaparecer um enorme elefante em espetáculos com pompa e luxo, mas em trazer à tona pequenos gestos de amor nas situações corriqueiras do cotidiano, invisíveis aos olhos do respeitável público”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O escritor tirou um relógio do bolso do colete. Comentou que tinha outros afazeres. Antes que ele se levantasse, comentei que quando iniciei a viagem pelo inconsciente coletivo para aprender sobre o Tao Te Ching, eu fora aconselhado a buscar por uma cidade chamada verdade. Eu agora sabia onde ficava e como fazer para chegar lá. A realidade tem as cores e formatos nos exatos tons e medidas da capacidade de compreensão de cada viajante, afirmei. O homem anuiu, mas não permitiu que a empolgação me furtasse a razão: “Essa viagem termina aqui. Outra jornada, ainda mais importante, se inicia a partir deste ponto, na qual precisará usar o saber adquirido para aperfeiçoar o olhar e as escolhas. Do contrário, todo esforço restará desperdiçado”. Fez uma pausa antes de avisar: “É momento de retornar”. Perguntei se ele se referia a voltar à casa do mestre taoísta onde eu havia começado esse inusitado estudo. O escritor respondeu sim com a cabeça e alertou: “Possuir uma caixa de ferramentas não faz de ninguém um construtor. É hora de cuidar da obra”. Agradeci a derradeira lição e prometi a ele que faria bom uso daquele conhecimento. Ele franziu as sobrancelhas e alertou: “O compromisso há de ser consigo mesmo. Sincero e resoluto. Do contrário, de nada servirá”. Tudo estava dito. Era momento de partir. Os meus olhos indagaram aos deles por onde eu seguiria. Ele me apontou a estreita porta de madeira da cafeteria. Ao me aproximar, notei que a parte interna era artisticamente entalhada no formato de uma mandala. Sorri e atravessei. Passo seguinte, eu não estava na calçada da Rua 34, próximo à Sexta Avenida, mas sentado na sala de meditação na casa de Li Tzu, em uma pequena vila chinesa no sopé do Himalaia. A plataforma de chegada era a mesma da partida. Eu não. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Oitenta e Um</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Palavras boas não são bonitas,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Palavras bonitas não são boas.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sábio não discute,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A virtude não é insistente.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sábio não é erudito,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O erudito não é sábio.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sábio não acumula;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quanto mais compartilha, mais rico se torna.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Embora a estrada do Tao seja afiada,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>não prejudica ninguém.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sábio realiza sem disputar.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Octogésimo limiar &#8211; O labirinto do Caminho)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Dec 2024 18:18:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Atenas, Grécia Antiga. Século III AC. Eu perambulava pelas ruas cidade a procura de algo que nem sabia o que era. Uma suave brisa marinha atenuava o calor da manhã. Uma sociedade vibrante se movimentava em busca dos seus afazeres e ideais. Passei em frente a mercados, termas, oficinas e estalagens até ter a atenção voltada para uma bela construção, adornada com afrescos nas enormes pilastras postadas na entrada do prédio. Ilustravam, entre outros fatos históricos, a vitória de Teseu sobre as amazonas, a Batalha de Enoé e a queda de Tróia. A construção formava um pórtico colorido, semelhante a uma enorme varanda, onde um homem, com cerca de quarenta anos de idade, pele bronzeada, desgastada pelo sol e sal do mar, estatura baixa, corpo franzino e com alguma deformidade física, dava aulas de filosofia. De modo que quem passasse na rua ouviria as suas palavras e, se quisesse, poderia se juntar ao grupo. Ele falava sobre o valor da ética e das virtudes para a conquista da felicidade. Aquelas palavras me despertaram interesse. Contou ter nascido na Fenícia. Tornara-se mercador ainda bem jovem. Juntou dinheiro e adquiriu o próprio navio. Creta era o principal porto onde negociava os seus produtos. Com os lucros auferidos, investia em novas mercadorias. Sem demora, foi abençoado pela fortuna. Acreditava ter alcançado a felicidade. Até que uma tempestade traiçoeira levou o barco à pique. Sobreviveu ao naufrágio, mas perdeu tudo que tinha. “O que é um mercador sem as suas mercadorias para mercadejar? Se a felicidade tem o signo da fortuna, o que resta a uma pessoa afastada da riqueza?”. Eram perguntas de retórica, que serviam para aguçar o raciocínio dos alunos e iniciar o arco filosófico a que se propunha. Ele prosseguiu: “A minha vontade inicial foi recomeçar do zero. Não faltavam conhecimento e disposição para isto. Nada haveria de errado em dar prosseguimento a essa ideia. No entanto, caso uma experiência não gere aprendizado, significa que a desperdiçamos. Foi quando me dei conta que a felicidade, antes de aportar nas praias da riqueza, precisa viajar pelo oceano do amor e da sabedoria. Naquele momento compreendi que, enquanto o meu bem-estar dependesse de circunstâncias externas, sempre alheias a minha vontade, o medo de perder o que havia ganhado me faria viver tormentas em céu sem tempestade. Não há como escapar da impermanência inerentes ao mundo e à vida. Onde existe medo não há paz nem felicidade. Eu seguiria à deriva nos mares do acaso e, sem que pudesse evitar, navegaria amedrontado por novos e imprevisíveis naufrágios. Aspectos existenciais de tamanha fragilidade não se coadunam com conquistas tão excelsas como a paz e a felicidade. O mero risco de perder aquilo que considero fundamental ao meu bem-estar, sem que eu possa evitar, traz agonia aos dias. Logo, não é difícil entender o absurdo contrassenso da crença de conectar os bens materiais, não falo apenas de dinheiro, mas também de cargos, fama ou quaisquer outros poderes mundanos, às plenitudes, as autênticas riqueza da alma. A saber: além da paz e da felicidade, são o amor, a liberdade e a dignidade. Entendi que de nada me valeria ser um homem rico de alma pobre. Apesar do luxo, teria uma vida miserável. Uma alma enriquecida torna o indivíduo forte e equilibrado para enfrentar os reveses das existência e fluir por entre problemas complicados e relações difíceis com leveza e suavidade, extraindo alegria e aprendizado de todas as coisas, pessoas e situações, ao invés de acrescentar mágoas, se amedrontar diante dos problemas e encontrar conflitos em cada obstáculo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma pausa por instantes para que a turma concatenasse o raciocínio e prosseguiu: “Era preciso construir um modo de ser e viver capaz de me oferecer o melhor da vida por intermédio das minhas compreensões e atitudes, cuja vontade e controle cabiam somente a mim. Apenas assim eu teria nas mãos o poder até então desconhecido sobre quem eu sou, viveria os valores mais importantes da vida e reencontraria a doçura perdida dos dias. Eu queria navegar nos mares da paz e da felicidade sem medo de que outras tempestades fossem capazes de me alcançar. A solução foi transferir para mim o poder que eu sempre concedera ao mundo. Tive de reelaborar olhares, conceitos e trazer o poder da vida para o centro da consciência, onde a verdade floresce e gera as virtudes que, em síntese, são as ações pautadas no amor e na sabedoria, na ética e no exercício do bem. Estes critérios, pressupostos na formação de um novo padrão de identidade e personalidade, precisavam apenas do compromisso que eu assumiria comigo mesmo. Nada mais. Esse é o eixo da luz por onde transitam as plenitudes. Ao compreender que a felicidade reside na melhor ação – sempre sob o meu controle –, nunca no resultado desejado – pois, este dependerá de variáveis externas, fora do meu domínio –, alcancei o entendimento adequado para a conquista de um tesouro inestimável. Um poder que depende apenas dos movimentos internos atrelados às minhas percepções, sensibilidades, decisões e atitudes. Sem necessitar da aprovação, permissão ou validação de ninguém. Uma construção absolutamente interna, de valor imensurável e impossível de alguém me tomar. Um poder pouco conhecido, mas à disposição de todas as pessoas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com um dedo apontou para a mente e com outro sinalizou o próprio coração e disse: “Fazer destes territórios selvagens um reino civilizado onde a liberdade, o amor, a dignidade e a paz sejam tão constantes quanto naturais, sem as quais a felicidade não será possível, precisa se tornar um ideal e um prazer. Nunca um sacrifício. Viver não é fácil, mas a dificuldade não precisa furtar a alegria dos dias. A felicidade não brota do solo. É uma construção personalíssima. Ou seja, ninguém pode ceder ou transferir para ninguém. Cada indivíduo é responsável pela própria obra”. Ofereceu um sorriso amável para as pessoas que paravam para o ouvir da rua e continuou: “Existem algumas premissas básicas. A primeira delas é compreender que as plenitudes são uma riqueza imaterial, tangível apenas à mente e ao coração”. Um aluno questionou se a fortuna era avessa à felicidade. O professor foi enfático: “De jeito nenhum. O mercador não anula o filósofo, tampouco a recíproca se aplica. Em verdade, ambos podem conviver, se ajudar e se completar em um mesmo indivíduo. Quanto à fortuna, todo o conforto será bem-vindo, e eu a receberei de braços abertos. Porém, me pauto em saber que apenas o necessário à sobrevivência é fundamental ao bem-estar e ao mel da vida. Cada pessoa é um reino povoado por pensamentos, sentimentos, necessidades, conquistas, frustações, alegrias, tristezas, entre outros mil habitantes. <strong>Há muita beleza </strong>e riqueza<strong> em</strong> se tornar o soberano de <strong>um reino simples</strong>, sem excessos, escassez, enganos e mentiras. Contudo, o essencial ao corpo e à alma são distintos. O básico basta ao corpo; já a alma necessita de constantes aprendizados e transformações”. Ele falava de amor e sabedoria, percepção e sensibilidade, virtudes e verdades. Do modo como conviveria consigo e se relacionaria com o mundo. Outro aluno perguntou qual seriam os parâmetros para se definir o básico à sobrevivência e o que excedia para se tornar supérfluo. O filósofo sorriu, como se esperasse por esse questionamento, e pontuou: “As fronteiras serão sempre individuais, determinadas pela consciência. O que me cabe afirmar, sem receio de errar, é que de quanto menos eu precisar mais livre serei. O nível de necessidade estabelece o grau de dependência. Como não tenho domínio sobre acontecimentos e circunstâncias externas, a felicidade se afasta das minhas mãos na exata de medida daquilo que acredito precisar e esteja fora do meu domínio. O único controle legítimo que possuo é sobre quem eu sou. Qualquer influência que porventura eu exerça sobre alguém pode significar uma indevida usurpação. A recíproca também se aplica. Assim resgato no mundo um poder que sempre me pertenceu, mas que havia se perdido na noite dos tempos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A turma estava agitada com aquelas ideias revolucionárias sob o ponto de vista individual, sem a necessidade de nenhuma insurreição coletiva. A felicidade não carece de guerras, nem que alguém faça algo para nos agradar ou privilegiar. Bastam movimentos internos lúcidos atrelados à deslocamentos externos suaves. Ainda que ninguém queira nos acompanhar. Um aluno indagou qual seria o poder da verdade e das virtudes nesse processo de transformação pessoal. O professor fez uma ressalva: “A verdade se apresenta conforme avançamos na estrada do autodescobrimento. À medida que nos conhecemos, a verdade se expande. Entendemos e planejamos ações cada vez melhores. A verdade é a última fronteira conquistada pela consciência. Isto a torna dinâmica e mutante por se alterar ao ritmo das mudanças evolutivas, que ocorrem com o aguçamento constante da percepção e da sensibilidade após cada experiência bem elaborada. As virtudes permitem a aplicabilidade da verdade ao cotidiano. Numa relação simbiótica aquelas se aperfeiçoam conforme o avanço desta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um aluno questionou como era possível viver sem medo se a morte é traiçoeira, vive à espreita e nos alcança sem aviso. O filósofo esclareceu: “<strong>Faz-se necessário valorizar a morte</strong>. Todo sofrimento tem como causa equivocado julgamento de valores. A morte não é o fim. Trata-se de uma transição de continuidade. A morte é a barca que leva até o outro lado do rio da vida. O nascimento é o trajeto de volta. Nascemos e morremos mil vezes para vivermos todas as experiências evolutivas indispensáveis a nos conduzir em definitivo a outras esferas existenciais”. &nbsp;O mesmo aluno interrompeu para pedir ao professor que explicasse melhor quando falava da necessidade de valorizar a morte. O filósofo era um homem gentil: “Não me refiro a desejar a morte, o que seria um ato de desprezo às oportunidades proporcionadas por essa incrível escola planetária. Viemos aprender para evoluir. Nada mais. A morte nos conduz ao renascimento para que retornemos em condições renovadas. Do contrário, ficaria muito mais difícil alcançar a graduação. Daí se conclui que a morte não é avessa à vida, mas um ato de amor a cada um dos viajantes. Valorizar a morte é aproveitar as experiências oferecidas pela estrada do tempo. Faremos esse vai e vem até o dia em que não seja mais preciso renascer. Valorizar a morte é vencer a morte. É evoluir até que ela se mostre desnecessária. Esta compreensão elimina o medo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aluno argumentou que as pessoas eram agraciadas de maneira desigual. As condições eram diversas. Pobres e ricos, robustos e franzinos, bonitos e feios, altos e baixos, nobres e escravos. Uns nasciam em Atenas, outros em Esparta. A vida não tratava a todos de uma mesma maneira. Logo, não lhe parecia justa. O filósofo ponderou: “O método pedagógico do Caminho também é personalíssimo. Como não existem duas pessoas iguais, o ensino será adequado às características e necessidades únicas. A cada renascimento nos é atribuído diferentes aspectos físicos e sociais. São como as ferramentas adequadas para aquela fase da obra. As condições mudam conforme a vontade ou recusa em avançar na viagem. Se observarmos apenas um pequeno trecho da estrada do tempo, será impossível compreender como a vida é justa e amorosa. Somente ao conseguir uma visão panorâmica de toda a jornada, entendemos a grandeza e as maravilhas ocultas no Caminho. Por ora, faça o seu melhor com as condições que possui. Não raro, vantagens e privilégios escondem desafios extremos. Quanto melhor for as condições oferecidas, maior será a responsabilidade de realização”. O aluno pediu que exemplificasse. O professor o atendeu: “<strong>Tendo </strong>à disposição<strong> um exército, não faça uso dele</strong> como exercício de orgulho, soberba e ganância. Em verdade, as tropas não são suas, nunca foram. Estão sob o seu comando para testar a sua humildade, sensatez, misericórdia e mansuetude. Uma prova dificílima, na qual a maioria sucumbe e poucos são aprovados”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da calçada, uma mulher comentou que tinha vontade de viajar ao Egito. Sonhava em conhecer as famosas pirâmides. Porém, era desprovida de recursos. Sem esconder o sarcasmo, disse que adoraria enfrentar a prova de ser proprietária de ao menos uma carroça ou barco. O filósofo não se deixou alterar pela ironia. Sem perder a serenidade, ponderou: “Sem dúvida, os bens materiais trazem conforto ao corpo, mas são incapazes de suavizar a aspereza da alma. Nada há de errado em conhecer lugares agradáveis ou exóticos como os jardins suspensos da Babilônia ou o templo de Artêmis em Éfeso. Contudo, <strong>ainda que tenha </strong>muitas<strong> carroças e barcos</strong>, um sábio <strong>evitará viajar para longe </strong>enquanto não iniciar a jornada primordial.Não existe viagem mais fascinante do que aquela que o leva a descobrir, encontrar e conquistar a si mesmo.De nada adianta ir a lugares distantes para visitar paisagens paradisíacas enquanto vive perdido nas próprias ruínas existenciais. Ninguém consegue fugir da verdade que incomoda ou se recusa a enfrentar. Seria inútil. Todos carregam as suas dificuldades e incompreensões na bagagem. Não há viagem mais bela e proveitosa do que aquela que nos faz conhecer quem somos. Fora da verdade não existe libertação”. A mulher questionou de qual libertação ele se referia. O professor respondeu de pronto: “Dos medos e sofrimentos. Não há cárceres mais longos e severos do que as próprias incompreensões”. Os olhares eram de perplexidade e encanto. Ele prosseguiu: “Esta é a genuína jornada da vida. Fora das virtudes as relações se tornam amargas e vazias. Fora da verdade restam enganos, conflitos e agonia. Visitar outras cidades oferece entretenimento; encontrar consigo mesmo concede poder.”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um homem que também assistia a aula da rua, contestou. Poder tinha Filipe da Macedônia, o único rei com força bélica capaz de punir o Império Persa pelos abusos cometidos, argumentou. O professor manteve a tranquilidade e ponderou: “Sem dúvida, Filipe pode matar, oprimir, dominar e escravizar. Pode se impor pela brutalidade e medo. Levar dor e morte por onde marchar. No entanto, é incapaz de curar e amar. Conhece a glória dos homens, mas desconhece a alegria da alma. Confunde ordem pública com paz. Domina reinos por recear que algum deles o domine. Sente medo quem não conhece a coragem. Agressividade não é sinônimo de coragem. A coragem existe para não nos deixar fugir das dificuldades. A verdadeira coragem é mansa e pacífica. Há maneiras bem mais sábias de lidar com os obstáculos sem que seja preciso os destruir. Os mais valiosos obstáculos não estão no mundo, mas residem em nossas próprias incompreensões, sendo, portanto, inesgotáveis fontes de aprendizado. O autêntico corajoso, <strong>apesar das armas e armaduras</strong> que possui, <strong>não as exibe</strong>. Seja por ser gesto contrário à virtude – apenas os covardes acuam, amedrontam e fazem demonstrações rasas de poder –, seja porque poucos a enxergariam – ninguém consegue ver aquilo que não entende –, seja porque a virtude não alardeia – é serena e silenciosa. Por compreender a fragilidade oriunda da incompreensão de quem o ofende, uma pessoa verdadeiramente poderosa se vale da compaixão como escudo. Tem como espada a generosidade sincera e a firmeza delicada para atingir o coração do oponente. Nunca para ferir, mas na tentativa de curar. Não admite causar nenhum mal a quem quer que seja. O amor existe apenas para os corajosos, capazes de construir a si mesmos sem precisar deixar ninguém em ruínas”. Em seguida, arrematou: “É sobre esse poder que falo. O poder da luz”. O homem rebateu dizendo que Filipe, se quisesse, ao seu bel prazer, poderia determinar quem apodreceria em uma masmorra. O filósofo explicou: “Pode aprisionar o corpo, jamais a consciência de um indivíduo que já a conquistou. O corpo apodrece, a consciência prossegue. Nascemos e morremos mil vezes. A cada trecho, o Caminho entrega ao viajante conforme o valor das conquistas realizadas e as necessidades de aprendizado. Não cabe reclamação. A compreensão do significado maior da vida fundamenta a genuína coragem. &nbsp;O poder de Filipe é risível aos olhos de um corajoso”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos se calaram. O professor narrou uma breve história: “Conheci um marujo chinês em uma das minhas viagens a Creta. Ele usava na cintura uma cinta de corda repletas de nós. Não dei importância. Certa manhã, à beira do cais, notei que acrescentava mais um nó à corda. Fiquei curioso. Ele me explicou: <em>Cada nó representa uma transformação. Ao identificar algo em mim que precisa de aperfeiçoamento, inicio uma batalha interna por superação. Ao derrotar quem eu era, aquele que me tornei registra mais uma vitória acrescentando outro nó na corda</em>. O marujo arqueou os lábios em sorriso, me mostrou a corda e comentou: <em>Ainda cabem muitos nós. Todavia, muitos outros me lembram das importantes conquistas que me fizeram chegar até aqui: as transformações que aos poucos me tornaram uma pessoa diferente e melhor. Todos os dias a corda me recorda que não me faltam motivos para ser feliz</em>”. Em seguida, acrescentou: “O processo evolutivo é a mais segura e honesta fonte de felicidade. Tem independência e autonomia. Ter consciência da caminhada realizada demonstra o quanto a viagem, embora difícil, é bonita e vale a pena. <strong>O povo precisa</strong> começar a <strong>contar os nós da corda</strong>. De nada adianta procurar no mundo o que apenas encontraremos dentro da gente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um aluno lembrou que vivemos no mundo. Todos têm questões materiais a serem resolvidas. Não é possível viver apenas de ideias. A existência é também uma experiência física, não apenas sensorial. O professor concordou com um gesto de cabeça e pontuou: “Sim, a evolução se inicia com a compreensão, mas se completa na ação. Não basta pensar e sentir a situação, se faz necessário se mover através dela. A maneira como elaboramos as experiências fornece importantes informações sobre quem somos e, principalmente, quem ainda não somos. Nos relacionamentos residem algumas das principais experiências evolutivas. Temos relações de diversos tipos, das intrapessoais às interpessoais, das afetivas às comerciais. Todas são igualmente importantes pelas consequências que produzem. Desconfortos, desequilíbrios, fragilidades e níveis de dependência nos múltiplos aspectos existenciais sinalizam incompreensões ainda à espera de elaborações mais aprimoradas. Não basta um olhar mais aguçado quanto às questões intrínsecas. A ótica pela qual interpretamos as nossas necessidades materiais precisam de constantes ajustes como um perfeito alinhamento às precisões existenciais”. Em seguida, teceu algumas analogias: “<strong>A comida frugal pode ser saborosa</strong> quando bem temperada. Do mesmo modo, uma vida simples, mas bem aproveitada, pode contemplar muita riqueza. <strong>Roupas bonitas não carecem de adornos</strong>. Pessoas interessantes também não. A elegância está na essência que transcende e encanta. <strong>Uma casa segura não precisa de requintes</strong> arquitetônicos. Bastam pilares profundos e paredes sólidas. Os alicerces ficam situados no subsolo, um lugar invisível para aqueles que só se interessam pelas aparências. Esquecem da importância dos valores ocultos à superfície, os genuínos fundamentos de uma construção capaz de suportar as inevitáveis intempéries do tempo. Uma vida equilibrada, madura e fantástica precisa de movimentos alicerçados em verdade e virtudes. Tão e somente. Algo imperceptível a quem vive no raso da existência”. Fez uma pausa antes de concluir o raciocínio: “Não raro, menos é mais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mesmo aluno, comentou que o grande problema do mundo eram as pessoas. Se as elas fossem mais compreensíveis, gentis e sensatas, o mundo seria um lugar mais aprazível. Cogitava a possibilidade de morar afastado da cidades, numa ilha deserta do Egeu, sem contato com ninguém. Tinha o sonho de se tornar um sábio. Não mais viveria dissabores e desavenças. Encontraria a paz desejada. Um burburinho de aprovação tanto na turma como na calçada destoou do entendimento do filósofo: “Os conflitos externos apenas ilustram as incompreensões internas. Um sujeito em paz consigo tem a leveza e a suavidade de transitar entre multidões, oferecendo o que em si há de melhor sem colidir com quem quer que seja. Por já ter realizado boa parte da jornada do autodescobrimento, conhece tanto as fragilidades como os desatinos que, em diferentes níveis, são comuns a todas as pessoas. Sem exceção. Vale-se da compaixão, para não resvalar no erro dos julgamentos fáceis, vazios e baratos, tão comuns quanto insensatos. Assim como faz uso da firmeza em se pautar pela verdade, do modo como a alcança, e se mover através das virtudes para estabelecer limites indispensáveis aos relacionamentos, sem os quais os abusos se manterão incorrigíveis como outro vício qualquer”. Observou a mudança na fisionomia dos alunos e prosseguiu: “Sem dificuldades não há evolução”. Em seguida perguntou: “Qual o nosso principal desafio?”. Aprender a lidar com as pessoas com quem nos relacionamos, responderam em uma única voz. Ele arqueou os lábios em sorriso e os desconcertou: “Errado. Cada um tem a si próprio como o grande desafio da vida. O mundo serve para gerar experiências pelas quais podemos compreender o que ainda desconhecemos em nós. Tudo que está mal construído em um reino causa incômodo e desconforto aos seus habitantes. Assim somos nós com um universo incalculável de ideias e emoções que transitam entre a mente e o coração. Pacífica ou beligerante. Atitudes, escolhas e posturas, sejam boas ou ruins, apenas refletem essa sociedade interna. Nada mais. <strong>Que os reinos vizinhos estejam à vista</strong>, que possamos os visitar, <strong>sem que haja a necessidade de morar neles</strong>. Quem não vive em paz consigo mesmo jamais conseguirá conviver bem com ninguém. A felicidade e a paz são construções individuais com colaboração coletiva. A cada experiência podemos aperfeiçoar aspectos da identidade e características da personalidade ainda mal elaboradas. São necessárias um sem-número de situações para que a essência possa emergir, ser lapidada e se tornar a verdadeira aparência. Não conseguiremos alcançar tamanho patamar de amor e sabedoria sem as pessoas ao redor. Os relacionamentos provocam os desafios evolutivos. As dificuldades que atormentam não são as dos outros, porém, as nossas. Se o problema são os outros, não esqueçam que somos o outro das outras pessoas. Um eremita jamais será um sábio. É apenas um triste fugitivo de si mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um homem na rua, ao meu lado, que ouvia com interesse e atenção, indagou como saberia se estava na rota que o levaria às plenitudes da vida. O professor explicou: “A rota das plenitudes tem como destino a construção de uma pessoa sem fragmentos emocionais, resíduos de sofrimentos e resquícios de medo. Será preciso priorizar as conquistas internas em detrimento do reconhecimento e das homenagens do mundo. Há de haver prazer pela obra, assim como alegria pelas coisas simples do cotidiano. <strong>Que não faltem sorrisos ao se ouvir </strong>o cantar d<strong>os galos</strong> <strong>e</strong> o latido d<strong>os cachorros</strong>. Que a primavera faça dançar, o verão leve para passear, o outono seja tempo de aprender e o inverno perfeito para se recriar. Que nunca falte motivo para amar e <strong>que a morte nos encontre em paz</strong>. Algo possível apenas àqueles que conseguiram ir além de quem eram e de onde começaram no último trecho da estrada do tempo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O derradeiro grão de areia se esvaiu de um recipiente para completar outro. A ampulheta sinalizava o término da aula. Os alunos agradeceram e se foram comentando os ensinamentos oferecidos. As pessoas que assistiam da rua também se dispersaram, levando ideias que precisavam de maturação para germinar. Fiquei. Depois que todos saíram, me aproximei do professor. Confessei estar encantado. Perguntei se desenvolvia uma nova corrente filosófica. Ele disse sim com a cabeça, apontou para o prédio, e pontuou: “Como as aulas são ministradas debaixo deste pórtico (<em>stoá</em> em grego), os próprios alunos se autodenominam estoicos. Gosto da nomenclatura. Que as ideias aqui compartilhadas sirvam para abrir muitos dos inúmeros portais que nos aguardam dentro e fora da gente. Somente assim teremos acesso às maravilhas da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, me avisou que tinha outros compromissos. Ele precisava ir. Eu também tinha que partir. Agradeci as lições, mas admiti não saber por onde seguir. O filósofo apontou o afresco que retratava Teseu. Pediu para, depois de fixar a pintura na mente, fechar os olhos e acompanhar o mítico herói grego por onde ele fosse. Obedeci. Demorei um tempo que não sei precisar nesse exercício lúdico. Quando me dei conta, estava em Creta, dentro do famoso Labirinto para enfrentar o Minotauro. À medida que avançava pelos corredores ardilosos, eu encontrava com as minhas frustrações, inseguranças e mágoas. Juntas, formavam a autêntica e sombria entidade mitológica que ameaçava me devorar. Para voltar à luz, Teseu precisava aceitar o desafio de enfrentar o adversário. Do contrário, ficaria aprisionado para sempre. Os mitos dialogam com o inconsciente. Falam sobre o que não queremos ver ou ainda somos incapazes de compreender. A nobreza de sentimentos precisa derrotar os condicionamentos e instintos primitivos. Somos Teseu, mas somos também o Minotauro reunidos a só tempo em um mesmo indivíduo. Entendi o que filósofo queria me mostrar. Ninguém derrota ninguém. Cada um vence a si mesmo ou não conhecerá nenhuma vitória. Neste instante a porta do Labirinto se apresentou no formato de uma estranha mandala. Segui rumo ao último portal da viagem. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Oitenta</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Há muita beleza em um reino simples.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Faz-se necessário valorizar a morte.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Tendo um exército, não faz uso dele.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ainda que tenha carroças e barcos,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Evite viajar para longe.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Apesar das armas e armaduras,</strong> <strong>não as exibe.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O povo precisa contar os nós da corda.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A comida frugal pode ser saborosa.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Roupas bonitas não carecem adornos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma casa segura não precisa de requintes.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que os reinos vizinhos estejam à vista,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sem que haja necessidade de morar neles.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que não faltem sorrisos ao se ouvir galos e cachorros,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que a morte nos encontre em paz.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo nono limiar &#8211; Camadas profundas)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 13:58:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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					<description><![CDATA[Eram dezenas de milhares acampados no deserto. Cheguei num momento complicado. Havia ocorrido um violento conflito entre algumas daquelas pessoas. Um homem, notadamente quem as liderava naquela jornada, expressava palavras sensatas e pacificadoras, não sem a devida dose de firmeza para que restasse a necessária reflexão pelo mal que causavam...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eram dezenas de milhares acampados no deserto. Cheguei num momento complicado. Havia ocorrido um violento conflito entre algumas daquelas pessoas. Um homem, notadamente quem as liderava naquela jornada, expressava palavras sensatas e pacificadoras, não sem a devida dose de firmeza para que restasse a necessária reflexão pelo mal que causavam a si próprios. Conflitos nos afastam, consomem e esgotam. Com cerca de cinquenta anos de idade, tinha os cabelos precocemente esbranquiçados como emblema da responsabilidade assumida perante aquela multidão que havia confiado as suas existências à promessa que ele lhes fizera. A pele estava enrugada pelo sol e pelas imponderáveis lutas incessantes. “As mais difíceis são travadas dentro de cada um de nós. Modificar padrões de comportamento significa deixar de ser quem somos para nos tornar indivíduos diferentes e melhores. Sem perder ou deformar a essência, mas fazendo germinar uma identidade cada vez mais aperfeiçoada, com equilíbrio e força necessários para lapidar um novo comportamento, capaz de trazer leveza e suavidade aos dias. Enquanto não abandonarmos velhos vícios de pensar e sentir, o destino desejado permanecerá distante”, lembrou a todos. Em seguida, se afastou. A multidão se dispersou. Fui à procura dele. Após algum tempo, o encontrei sentado em sua tenda. Recuperava-se do desgaste emocional provocado pelo episódio. Nossos olhos se encontraram. Ele sorriu e fez um gesto para eu me aproximar. Sentei-me no tapete que servia como piso da barraca. Ofereceu-me água e tâmaras. Era tudo que possuía naquele momento. Aceitei de bom grado. Perguntei para onde conduzia aquelas pessoas. O homem me disse: “Vou para a terra do renascimento, um lugar no qual se possa respirar liberdade, amor, dignidade, paz e felicidade. No entanto, o mais belo dos jardins desaparecerá num instante se ocupado por hordas de lagartas. É preciso que já sejam borboletas quando lá chegarem. O deserto é o casulo indispensável à metamorfose existencial”. Indaguei quando partiriam. O homem deu de ombros e respondeu com honestidade: “Não sei”. Eu quis saber quanto tempo estavam acampados naquele local. “Quase dez anos”, ele me surpreendeu. Antes que fosse questionado, fez questão de esclarecer: “Um único povo dividido em doze tribos que disputam e duelam entre si ao invés de se ajudarem. Esquecem do propósito em comum que as faz caminhar juntas. Não raro, crescer causa dor. Insuportável para muitos. Talvez seja preciso substituir uma geração por outra, nascida e educada sem os ranços do ódio, da mesquinharia, dos conflitos e da subjugação. Então, a viagem que levaria algumas poucas semanas poderá se estender por quarenta anos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que eu havia assistido à intervenção que ele fizera. O conflito restara pacificado. A mensagem tinha sido clara e compreendida por todos. A ordem se restabelecera, ressaltei. O homem me fez rever o meu olhar: “<strong>Após a moderação do conflito, </strong>é comum que<strong> algum ressentimento permaneça</strong>. Voltar a conviver com pessoas com as quais nos desentendemos nem sempre significa o fim do problema, ainda que pese o sincero desejo de encerrar a questão. A mágoa se esconde por trás de diversas camadas de desculpas e raciocínios tortuosos. Quando guardada nas camadas mais profundas, a percepção mais apurada resta dificultada. Apesar de sentirmos, somos incapazes de identificar qual sentimento pauta nossas atitudes e escolhas. É como se existisse alguém dentro de casa sem que o consigamos enxergar. Aos poucos, a bagunça, a desordem e o mal-estar se alastram a ponto de nos tornamos estranhos a nós mesmos. Vivemos como hóspedes desconfortáveis dentro da nossa própria casa. Sem darmos conta, passamos a caminhar pelo lado sombrio da estrada. Todo e qualquer o sentimentos que ignoramos termina por nos devorar. Enquanto não for desmanchado na raiz, seremos reféns dos sentimentos desconhecidos. Em algum momento emergirá das zonas abissais do coração para manifestar a dor sentida, porém, negada. O conflito seguinte terá proporções imprevisíveis. Todo sofrimento reprimido se avoluma em tamanho, intensidade e descontrole. Ao transbordar, se manifestará em dimensão e formato difíceis de administrar. Seja em explosões de fúria, seja em implosões de tristeza, a casa ficará em ruínas”. Franziu as sobrancelhas e alertou: “Lembre-se, cada um mora em si mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei como seria possível desmanchar definitivamente um ressentimento. Ele explicou: “De pouco servem os corretos argumentos para se libertar do resíduo amargo e poder destruidor da mágoa. Nenhuma ideia, por melhor que seja, caberá no lugar de um sentimento. Somente um bom sentimento poderá ocupar o lugar de um sentimento ruim. A mente orienta o coração, mas não o controla. Todo sentimento tem autonomia e independência. Não basta conhecer teorias e teoremas, é indispensável aprender a sentir diferente e melhor caso queira avançar. Conquistar a clareza mental para discernir o certo do errado é de extrema importância. Todavia, somente ao sentir no coração os exatos reflexos de cada movimento, conquistaremos a nitidez necessária para distinguir as nuances indispensáveis para nunca mais confundir o bem com o mal”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Franziu as sobrancelhas e alertou: “Não se sirva das minhas palavras para imaginar que o sentimento seja mais importante do que a razão. Equivalem-se aos dois pratos de uma mesma balança que, quando em equilíbrio, permitem o perfeito alinhamento entre percepção e sensibilidade, as bases da consciência, cujos olhos, a depender do grau de simplicidade e pureza, encontrarão luz ou sombras no mundo e na vida. Distante da razão o sentimento perde a direção e se frustra em colisões constantes e desnecessárias, desperdiçando o amor em frustrações e decepções. Assim, oferece aparentes motivos para que o seu poder e eficácia transformadores continue questionado por multidões imaturas e indivíduos desequilibrados”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Admiti que o ódio e a mágoa eram prisões cruéis por nos impedir de ir além de quem somos. Ao se inserirem de modo preponderante em nosso pensar e sentir, ocupam a mente e o coração na maior parte do tempo, limitando atos e passos, deformando escolhas e destinos, roubando a paz e a felicidade. Eu entendia que esses sentimentos cerceavam a autêntica liberdade por negar muitas das possibilidades existentes. Reagimos com o não enquanto o sim disponibilizava incríveis oportunidades. Perdemos para nós mesmos. A vida se amiúda. Todavia, eu não compreendia como fazer, na prática, para desmanchar esses sentimentos densos ao invés de apenas os esconder nas gavetas esquecidas da alma, como habitualmente acontecia. Embora soubesse que desse modo fomentava os meus próprios sofrimentos, confessei não saber como me libertar dessa rotina de autodestruição. O homem bebeu um gole d`água e explicou: “O primeiro passo é identificar corretamente o sentimento que o aprisiona. Ninguém gosta de admitir ter um coração dominado pelo ódio, inveja ou egoísmo, apenas para ficar em alguns poucos exemplos. Não há como lutar contra algo que acreditamos não existir. Movimento seguinte, abdique de justificar os seus maus sentimentos à atitude de alguém. A ação alheia somente despertou o que estava adormecido. Ainda que você tenha sido alvo de algum mal, o sentimento que lhe habita o coração, percorre as entranhas e estreita a mente é seu. Sempre foi. Assim como o mal pertence a quem o pratica, o sentimento é daquele que o sente. Não espere que ninguém o retire ou se aproprie dele. O que fazer com esse sentimento é de sua inteira responsabilidade. Aceitar isto é fundamental à maturidade. Por isso, <strong>o sábio assume a metade esquerda da disputa, </strong>trazendo para si o compromisso de desmanchar os sentimentos densos que transbordam do seu coração<strong>, sem nada exigir </strong>nem atribuir <strong>a ninguém</strong>. Enquanto não agir assim, ficará sem acesso à genuína liberdade. Por serem inadmitidos, os cárceres emocionais são os mais comuns, longos e cruéis. Terminamos por nos autocondenar ao sofrimento sem nada saber sobre as razões e fundamentos da sentença”. Pedi para que aprofundasse o raciocínio. Ele foi didático: “Todo conflito surge e se encerra dentro da gente. Ao considerar como inimigo todos aqueles que se opõem a nossa trajetória, a batalha restará perdida desde antes de iniciar. Se os tratarmos como fator de transformação e evolução pessoal, a vitória será certa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passou a mão nos longos cabelos esbranquiçados antes de continuar com a explicação: “A mágoa é o ódio guardado por tempo demais nas gavetas do coração. A injustiça sentida se tornará ressentimento caso não seja desmanchada em curto lapso de tempo. Somos os sentimentos que nos movem. Tanto os bons como os ruins. Eles esculpem e modelam o raciocínio, determinando escolhas e atitudes. Porquanto, quem somos e nosso destino. A depender do sentimento, iremos além ou ficaremos aquém. Envolver a demanda com amor consiste, em prioridade, se banhar em amor-próprio, como primeiro passo rumo à plenitude. Gostar de si é se respeitar, entender o que é melhor para a sua trajetória, sentir prazer com a própria construção. É buscar a cura. Curar-se é tirar o mal que um dia, por descuido, aceitamos hospedar em nossa casa. Conserte a janela sem nada cobrar de quem a quebrou, mas pedra que estilhaçou a vidraça não pode ficar guardada na gaveta de um armário qualquer. Essa distinção é de extrema importância. Embora o sentimento seja seu, o mal pertence àquele que o praticou. Para tanto, na maioria das vezes, um movimento simples se mostra suficiente. Diga ao interlocutor, <em>não gostei ou não foi justo o que você fez</em>. Entregue a pedra. Se desfaça do que não é seu. Caso seja uma convivência nociva, tenha a sensatez e a firmeza de encerrar o ciclo. Todos têm esse direito. Serve para todo e qualquer tipo de relação. Quanto maior a demora, mais graves serão os danos emocionais. Diga, <em>não quero mais</em>. Sem descontrole, violência nem agressividade. Sem gestos de revolta, vingança ou revanchismo. Mas com a calma, clareza e objetividade de quem, pouco a pouco, resgata a dignidade e se torna senhor da própria paz. Pode não parecer, mas é um poder imensurável e libertador à disposição de todos. Não tenha medo de usar. Em seguida, siga em frente sem debates nem discussões. Jamais espere por arrependimento ou pedido de desculpas. Dificilmente o outro compreenderá ou concordará de imediato. Não importa. A consciência dele, a camada mais profunda do eu, guardará a mensagem para em algum momento fazer o devido acerto de contas. Não há juiz mais justo. Apenas cuide de tirar o mal de dentro de você. Somente assim o seu coração ficará pronto para fazer florescer um sentimento regenerador onde antes imperava um sentimento destrutivo. Movimentos virtuosos repletos de pureza e mansidão – por se negar a revidar o mal com o mal, tampouco guardar a maldade dentro de si –; autorrespeito, coragem e honestidade – pelo gesto de amor-próprio em estabelecer limites, cessar abusos e ir ao encontro do que é melhor para si – nos aproximam da verdade e agregam virtudes ao morador da casa. Lembre-se do que falei há pouco, cada um mora em si mesmo, acompanhado das suas ideias, olhares, sentimentos e escolhas. Isto estabelece tanto a robustez e a beleza como a fragilidade e as confusões de uma casa, a depender dos hóspedes que escolhemos para morar conosco. <strong>Quem é virtuoso, honra o compromisso</strong> que assumiu com a própria luz, se liberta dos cárceres da mágoa e conquista a paz interior, o único lugar onde genuinamente poderemos encontrá-la”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei como ocorre com quem não se move por intermédio das virtudes. Ele respondeu de imediato: “<strong>Aqueles que não as têm</strong>, vivem na sombria limitação entre o orgulho e o egoísmo, sangram em retaliações mútuas e se aprazem nas vinganças disfarçadas sob o falso argumento do respeito e da justiça. Tornam-se menos quando poderiam ser mais. Confundem soberba com dignidade. O amor se afasta, a luz se apaga. Bradam por seus direitos, nem sempre alinhados à Lei Maior, <strong>vivem dos impostos</strong> que cobram. Não falo necessariamente de dinheiro, mas de tributos emocionais e sociais que, por insensatez ou má-fé, se arvoram detentores. Acreditam-se privilegiados pelos títulos, fortunas e cargos que possuem. Portam-se como credores da humanidade por se imaginarem acima do mundo. Nada sabem sobre o amor. Desconhecem o poder da luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indaguei sobre as consequências arcadas por uns e outros. Ele esclareceu: “O egoísmo se caracteriza na insensibilidade daquele que cuida apenas dos próprios interesses e necessidades. O orgulho surge da fragilidade inconfessável que resvala na enfermidade de criar e acreditar em um personagem cuja característica principal é a absurda ideia de uma superioridade inexistente. A arrogância, a soberba e a empáfia são as armas utilizadas para afastar todas as pessoas que colocam em risco a fraqueza escondida e inadmitida. &nbsp;Agridem diante da menor ameaça de terem as suas verdades reveladas”. Arqueou os lábios em lindo sorriso e comentou: “De outra face, nas virtudes, o olhar e o acolhimento, seja sobre si, seja perante o outro, de diferentes maneiras, constroem um jeito próprio de se tornar luminoso e iluminar tudo e todos ao redor. O honesto acolhe com a verdade; o gentil acolhe mostrando às pessoas a importância que elas têm; o generoso acolhe oferecendo o melhor que possui; o puro acolhe através do bem; o simples acolhe através da transparência; o compassivo acolhe com entendimento; o manso acolhe com a paz; o humilde acolhe ao mostrar a beleza e a grandeza de quem ainda não é, mas pode se tornar se estiver disposto a realizar a difícil, porém, fantástica, viagem da evolução. Quem é sincero e amoroso acolhe a si mesmo com respeito e dignidade, jamais impondo a ninguém o que não gostaria de enfrentar”. Perguntei se o Caminho privilegiava alguns viajantes em detrimento de outros. O homem me ofereceu uma tâmara, mastigou outra. Tornou a sorrir ao sentir o gosto doce da fruta e ponderou: “O sol se levanta para todos. <strong>O Caminho é imparcial</strong>, acolhe tanto os bons como os maus, sem privilégios nem exceções. No entanto, por ser justo e pedagógico, amoroso e sábio, alimenta o jardineiro com os frutos das árvores que plantou, abriga o construtor nos prédios que ergueu. <strong>Devolve a cada pessoa a entrega </strong>por ela<strong> realizada</strong>. Sempre sob o prisma da evolução espiritual, uma vez que as condições materiais servem apenas como ferramentas para os jardins e as obras. Quanto maior o poder, maior a responsabilidade de plantio e construção. Seremos medidos e pesados com a régua e a balança que usarmos para medir e pesar o mundo. Seremos avaliados de acordo com o aproveitamento dos dons, capacidades, talentos e oportunidades oferecidos durante a travessia pela estrada do tempo. Não cabe reclamação nem lamento. Ao viajante pertence a luz conquistada através da verdade alcançada, das virtudes agregadas e do bem realizado. Nada mais. Creia, não é pouco”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entardecia. Estava na hora de uma reunião com os doze chefes das tribos que constituíam aquele povo. Era preciso os chamar a razão e os lembrar da responsabilidade e compromisso que tinham. Todos sabiam, mas era necessário não os deixar esquecer. Velhos hábitos, enquanto não forem totalmente substituídos na mente e no coração por uma nova maneira de pensar e sentir, continuariam como um entrave à jornada rumo à terra do renascimento e das plenitudes. Comentei que, milênios depois, muitos ainda seguiriam nessa travessia sem chegar ao destino. O homem balançou a cabeça em resignação e disse: “O Caminho é solitário e solidário a um só tempo. Que cada viajante entenda a responsabilidade quanto aos próprios passos e o compromisso com a própria luz”. Eu precisava partir, mas não sabia como fazer. Ele me entregou um papiro com dez leis cósmicas. Eu conhecia aquele código sagrado. Porém, nunca me despertara qualquer interesse. Era muito simples, com não mais do que uma ou duas frases para cada um dos decretos. O homem me alertou que a simplicidade é poderosa por possuir diversas camadas de entendimento. Da superfície ao âmago. Acrescentou que compreensão mais profunda daquelas leis permitiam acessar portais dimensionais de tempo e espaço conscienciais. Ele fez um gesto de despedida e se foi. Permaneci na tenda. Li e reli um sem-número de vezes sem que nada acontecesse. Estava perto de desistir. Foi quando me dei conta que a leitura literal me deixaria raso em compreensão. Ao buscar pelas camadas mais profundas de interpretação, fui tomado por um novo encanto diante de um antigo texto até então considerado desinteressante. Assim acontece com todos os textos sagrados. Aos poucos, aprofundei muitas camadas. Na essência daquelas palavras, encontrei o portal. Não diante de mim, mas em mim. Segui a viagem. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Nove</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Após a moderação do conflito,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Algum ressentimento permanece.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sábio assume a metade esquerda da tábua,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sem nada exigir de ninguém.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quem é virtuoso, honra o compromisso.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aqueles que não as têm, vivem dos impostos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Tao é imparcial,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Devolve a cada homem conforme a entrega realizada.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo oitavo limiar &#8211; A verdade reside no avesso da realidade)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Nov 2024 16:04:12 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">Grand Canyon. Eu caminhava pelas margens do Rio Colorado. Homens e mulheres Sioux preparavam um cerimonial mágico. Magia é transformação. As internas são as mais significativas. Esta é a principal razão dos genuínos rituais. Fui recebido amavelmente. Perguntei se precisavam de ajuda. Pediram para eu acender uma pequena fogueira cujo calor serviria para esticar o couro dos tambores. Todos trabalhavam com alegria. Estavam felizes por estarem ali. Passado algum tempo, notei um ancião sentado sobre uma pedra não muito distante. Ele observava o rio como quem, sem pressa, conversa com um velho amigo. Ao reparar o meu interesse naquele homem, uma mulher que consertava a alça de uma cesta, disse que ele era o xamã que conduziria o cerimonial daquela noite. Com o queixo apontou o tambor do ancião no meio de outros tambores próximos ao fogo. Tinha a bela imagem de um alce negro desenhada no couro. O alce simboliza a resiliência, a abnegação e a dignidade na mitologia dos animais de poder. Fala de quem, embora nem sempre seja o primeiro a chegar ao destino, o alcança com a sua integridade preservada, explicou. Acrescentou, ainda, que aquele homem conseguia unificar em si várias correntes religiosas em uma única. Convertera-se ao Cristianismo sem perder as conexões e raízes ancestrais com o Grande Espírito. Apesar de serem apresentadas com roupagens distintas, possuíam a mesmíssima essência. Segundo a mulher, aquele homem, muito respeitado e querido por todos, alinhava com rara sabedoria filosofias díspares sob o eixo sagrado do amor. Perguntei se eu poderia conversar um pouco com ele. Ela disse sim com a cabeça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aproximei-me. O ancião me recebeu com um sorriso doce. Os seus olhos expressavam uma tranquilidade incomum e acolhedora. Falei isto. Ele pontuou: “<strong>Nada mais tranquilo e acolhedor do que</strong> observar <strong>as águas de um rio</strong>. Nos trazem a serena convicção de que alcançarão o destino a que se propõem. Com trajetórias e dificuldades ímpares, nos devidos tempos, as águas de todos os rios se encontrarão com o mar”. Comentei também que eu tinha a nítida sensação de que ele e o rio eram grandes amigos. Ele me corrigiu: “Na verdade, o rio tem sido um mestre. Aprendo muito com a nossas conversas”. Ao perceber que havia um ponto de interrogação na minha fisionomia, esclareceu: “Repare as águas de um rio. Quando impetuosas, se chocam às pedras e arrastam para dentro do rio o que deveria permanecer nas margens. Sujam-se. Colocam em risco a vida ribeirinha. Fazem movimentos desarmoniosos, contrários à vida. Levam consigo o que deveria ficar. De outra face, quando serenas, as águas fluem por entre os obstáculos com leveza e suavidade. Lavam as pedras com delicadeza ao invés de se conflitar com elas. Alimentam a vida ao redor. Jamais carregam consigo o que cabe ficar à margem. Alcançam o destino com plena integridade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Admiti que aquele olhar fazia do rio um mestre. Todavia, na vida temos de lidar com problemas difíceis, dificuldades intransponíveis e oponentes rigorosos. Não há lugar para os fracos. Como se esperasse por esse comentário, o xamã sorriu e ponderou: “A mansidão não é atributo dos covardes, mas dos fortes e corajosos. A impetuosidade é característica comum aos medrosos, desequilibrados e incapazes. Atacam porque têm medo, tomam porque não sabem construir. A opção em se movimentar através da humildade e da gentileza ao invés de se deslocar por intermédio da soberba e da brutalidade exige força mental e equilíbrio emocional. Requer vontade firme, conhecimento sobre o sentido da vida e extrema confiança no método oferecido pelo Caminho. Isto se chama fé. Quando o maior dos mestres que já pisou neste planeta disse que <em>a fé remove montanhas</em>, falava tanto da confiança intrínseca oferecida pela verdade quanto das virtudes como instrumentos legítimos para a superação de todos os momentos difíceis. As montanhas são usadas como metáfora às grandes dificuldades existenciais. A fé não é somente crença; trata-se, também e principalmente, de uma construção interna. A fé exige movimento para manter a conexão sagrada. Águas paradas não chegam ao mar. Contudo, o movimento errado rompe a conexão. Enquanto lutarem com as pedras como maneira de as ultrapassar, demorarão a conhecer o oceano. Assim como as águas, a fé precisa ser tranquila. Quando exaltada, resvala para o fanatismo. A origem de todas as dificuldades reside nas nossas próprias incompreensões. Desequilíbrios emocionais furtam a clareza do olhar, reduzindo as possibilidades de escolhas. Os movimentos ficam bruscos, os atritos se tornam uma constante. Perdemos a conexão com a essência e com o sagrado; com a alma e com o Alto. Desperdiçamos oportunidades pelo simples fato de não as enxergar”. Perguntei como reverter o processo. Ele explicou: “<strong>Nada melhor que a mansidão para desmanchar a rispidez</strong> da intolerância, a aspereza da arrogância, o labirinto do egoísmo, a fúria da ganância, os abismos da vaidade, entre outras sombras pessoais, as enormes montanhas que nos impedem de ver com clareza as maravilhas da vida que existem dentro e fora da gente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pedi para o xamã me explicar o que era a mansidão. Eu precisava entender tamanho poder. Ele era um homem gentil: “De maneira equivocada, muitos confundem mansidão com passividade, covardia ou anulação da vontade e dos objetivos. Não é nada disso. Trata-se de um estilo de ser e viver apenas possível a uma consciência capaz de adotar um método aprimorado de deslocamento por entre dificuldades e problemas. Adota um critério no qual abdica de toda e qualquer forma de violência ou maldade como via de acesso às conquistas pessoais. Para tanto, requer o uso constante de virtudes de extremo valor como a resiliência e a abnegação. A resiliência é a capacidade de se adaptar às situações as quais não se pode modificar. Não me refiro a distorcer a identidade, porém, a refinar. Falo de trazer à tona virtudes desconhecidas, lapidar verdades para adquirir maior clareza no olhar, ir além de onde sempre esteve dentro e fora de si mesmo. Aprimorar a inteligência, despertar a vontade de crescer e usar a criatividade para se reinventar e, então, encontrar inusitadas soluções. A vida exige movimento. A resiliência oferece os remos perfeitos para navegar nesse grande rio, do qual nenhum controle temos sobre as suas águas. A resiliência não luta contra as águas, mas ensina a fluir através delas. Para tanto, requer humildade e simplicidade para que haja gosto e espaço para as necessárias transformações internas”. Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “Por sua vez, a abnegação é o escambo dos sábios. Trata-se da troca improvável e incompreendida pelas multidões. Para atravessar de barco o rio da vida, tendo que se valer de apenas de um bem, o tolo escolhe carregar um baú de pedras preciosas, enquanto o sábio se dará por satisfeito por levar consigo um remo de madeira simples e barato. O valor não está no preço, no título nem na raridade, mas na utilidade”. Em seguida, concluiu o raciocínio: “Quando em conflito, a renúncia às riquezas do mundo em favor dos valores do espírito concede equilíbrio e força ao barqueiro para uma navegação fluída e serena”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argumentei que nem sempre o rio da vida nos proporciona águas tranquilas para navegar. O xamã franziu as sobrancelhas e ponderou: “Todos os conflitos têm como origem as incompreensões internas e o descompasso quanto ao autêntico significado da vida. Não é a gravidade do problema que determina o tamanho do sofrimento. Até porque gravidade e sofrimentos são elementos subjetivos a depender da percepção e sensibilidade individuais. A leitura que fazemos da situação e a escolha de como reagiremos determinará o desespero e a agonia típicos às incompreensões ou o equilíbrio e a força de movimento necessários à superação. Embora muitos se neguem a aceitar, vitórias ou derrotas, avanços ou estagnações, são decorrentes do modo como elaboramos cada experiência vivida. Para alguns, águas tranquilas levam ao comodismo; para outros, águas turbulentas permitem trajetórias incríveis e impensadas. Portanto, não se assuste ou lamente as condições do rio, cuide de aperfeiçoar a sua navegação”. Deu um lindo sorriso e disse: “O problema não é o problema em si, mas a incompreensão quanto a melhor maneira de reagir ao problema”. Perguntei qual seria a melhor reação. O ancião respondeu de imediato: “<strong>Em todo lugar, o manso vence o bruto</strong>”. Discordei. Falei que nem sempre acontecia assim. Por diversas vezes, eu vira indivíduos agressivos subjugarem pessoas pacíficas, pilantras tirarem vantagem indevida de sujeitos corretos. Ele me corrigiu: “Fizeram valer os seus interesses sombrios de orgulho e ganância, mas não os venceram. Não se deixe enganar pelas aparências. A conquista maior e definitiva será sempre de cunho espiritual e evolutivo. Não existe riqueza fora da luz. Ainda que restem prejuízos materiais, há valores mais altos presente em todas as situações. As genuínas vitórias se caracterizam em conquistas imateriais como dignidade, amor, liberdade, paz e felicidade. A prática do mal nunca concederá nenhuma delas”. Arqueou os lábios em sorriso e murmurou uma passagem de um texto sagrado: “<em>Bem-aventurados os mansos, eles herdarão a Terra</em>”. Olhou por instantes para a outra margem do Rio Colorado e comentou: “Assim como o manso vence o bruto, <strong>o frágil supera o forte</strong>”. Indaguei como seria possível. Ele explicou: “Ao entendimento do mundo, pureza é sinônimo de fragilidade. Tratam pessoas puras como se fossem frágeis e inábeis às truculências, espertezas e maldades comuns aos relacionamentos. A impetuosidade é tida como sinal de força, capacidade e aptidão. Ledo engano. Confundem também pureza com ingenuidade que é o desconhecimento do mal. Outro engano comum. Em verdade, a pureza registra o alto nível consciencial daqueles que se recusam a utilizar o mal como meio de alcançar os objetivos desejados, mesmo o tendo à disposição. Algo impossível aos fracos e covardes, que, em busca de facilidades ou diante das contrariedades, recorrem à truques sujos ou à rispidez selvagem. Para ser manso e puro há que se ter coragem, firmeza e amor-próprio. Um ato de profundo respeito com a própria luz. <strong>Muitos sabem</strong> sobre poder e força, <strong>poucos conhecem</strong> os seus verdadeiros significados, itinerários e alcances. A pureza é um alicerce indissociável à mansidão. A pureza estrutura, dá equilíbrio e concede força de movimento à mansidão”. Tornou a sorrir e citou outro trecho do mesmo texto sagrado: “<em>Bem-aventurados os puros, eles conhecerão a face de Deus</em>”. Depois, continuou: “Mover-se com pureza e mansidão demonstra a destreza do barqueiro na travessia segura até a outra margem do rio da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber como fazer para possuir tal destreza. O ancião foi enigmático: “<strong>Um antigo sábio ensinou que quem se nega a caminhar sobre a lama do reino não está preparado para governar</strong>”. Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “Falo de responsabilidade. Cada pessoa tem a si mesmo para governar. Não é pouco. Contudo, muitos acreditam que sim. Não se importam de ganhar o mundo ao preço de perder a alma. Alguns extrapolam ao controlar a vontade alheia. Outros se comprazem com a falsa sensação de superioridade, dando vazão ao orgulho e a vaidade, com o usufruto da soberba e da prepotência. Têm a ganância e o egoísmo como roteiro, comemoram a vingança e o fracasso dos adversários como se fossem vitórias pessoais. Mentem e traem. Amam apenas quem os ama. Tratam a solidariedade como mercadoria de troca. A compaixão e o perdão são atributos dos fracos. Se valem de eventuais relações de poder para dominar e humilhar. Justificam os erros e negam a responsabilidade. Ora se lamentam abandonados, ora se acreditam privilegiados pelo Criador, sem compreender que qualquer dificuldade ou facilidade não passa de escola e oficina. Servem para aprimorar o espírito no fogo das paixões, sem se deixar queimar pelos excessos nem arder pelas faltas. Todo problema registra uma experiência existencial e evolutiva. Nada mais. Nem todos entendem, poucos aproveitam. São como rios que se perderam do mar”. Deixou os olhos vagarem sobre as águas e prosseguiu com o ensinamento do antigo sábio: “Somente <strong>quem toma para si os malfeitos do império,</strong> com a firme determinação de os corrigir,<strong> se torna rei</strong>. Ele falava da maturidade indispensável à reconstrução de quem somos. Nada nos atrapalha tanto quanto a verdade que negamos aceitar. Escondemos erros e dificuldades nas armadilhas dos raciocínios tortuosos. Um guerreiro é tão forte quanto o conhecimento que possui sobre as suas próprias fraquezas. O tamanho da nossa fragilidade é proporcional às incompreensões que temos sobre quem somos. O poder dos obstáculos se agiganta com a nossa insistência em os destruir. Mude a maneira como observa e reage a eles. Trate-os como mestres que vieram ensinar o que você ainda desconhece em si mesmo. Problemas existem para expandir possibilidades. Para abrir portas, jamais fechar. Não fuja, enfrente. Mas flua ao invés de conflitar. Não rejeite nada mal construído em si, mas aceite o desafio de se reconstruir sob fundamentos diferentes e melhores. Não há poder maior”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indaguei se a verdade estava no avesso da realidade. O ancião sorriu satisfeito, disse sim com a cabeça e finalizou a lição: “Os conceitos e entendimentos gerais pelos quais o mundo se orienta costumam estar na contramão do fluxo do rio da vida. Nunca se deixe levar pela aparência, a verdade reside na essência. Nos frágeis encontramos os fortes, entre os inábeis se escondem os sábios, os mansos possuem a coragem, os pequenos são os grandes. <strong>A verdade se apresenta nos paradoxos</strong>. Menos é mais. Menos brilho, mais luz”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma majestosa lua crescente surgiu por trás dos desfiladeiros do Grand Canyon. Uma mulher com olhos cor de mel e modos delicados veio avisar que o cerimonial não tardaria. Fiquei com vontade de participar, mas o xamã disse que eu precisava partir. Outros portais seriam abertos durante o ritual, não havendo nenhum que me servisse naquele momento. Eu precisava terminar o que havia começado. Falou que a minha viagem pelo inconsciente coletivo para conhecer o Tao Te Ching estava próxima de terminar. Eu deveria honrar a oportunidade que me fora oferecida. Perguntei por onde eu partiria. O ancião me mostrou uma canoa na beira do rio. Agradeci a conversa e embarquei. Remei até o céu ficar revestido por um fantástico manto de estrelas, enormes e luminosas como eu nunca tinha visto. Quando me dei conta, percebi que formavam uma incrível mandala celeste. O rio parecia seguir em direção ao céu. Logo adiante, a canoa atravessou o portal.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Oito</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nada mais tranquilo e acolhedor do que as águas de um rio.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nada melhor que a mansidão para desmanchar a rispidez. &nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Debaixo do céu, o manso vence o bruto.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O frágil supera o forte.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Todos sabem, poucos conhecem.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um antigo sábio ensinou:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Quem se nega a caminhar sobre a lama do reino</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Não está preparado para governar.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quem toma para si os malfeitos do império,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Se torna rei”.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A verdade se apresenta nos paradoxos.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo sétimo limiar &#8211; O arqueiro)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Oct 2024 14:26:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Japão. Século XII. Ando a esmo pela floresta. Os pássaros não cantam nem voam. O vento parece adormecido. Silêncio. Escuto apenas o barulho dos meus pés sobre galhos e folhas secas. Raios de sol atravessam as árvores alternando luz e sombras em sequências desordenadas. A tensão do perigo iminente paira no ar. Sinto-me a presa espreitada pelo predador. Paro e observo. Nada. Antecedida por um silvo agudo, uma flecha passa rente à minha cabeça e se crava na árvore à frente. Olho na direção de onde ela veio, não vejo ninguém. Ao retornar a cabeça, outra flecha repousa ao lado da primeira. Volto a olhar para trás, então, um susto. Um samurai empunha um arco com a flecha na minha direção. Os seus olhos se mantêm atentos na intenção de antecipar os meus movimentos. Mostro as mãos vazias e afirmo estar em paz. O arqueiro sorri, como se estivesse diante de uma criança, descansa o arco e pontua: “Não desejar a guerra não significa estar em paz”. Fez uma pausa antes de acrescentar: “O oposto da paz não é a guerra, mas o medo, o sofrimento, a ignorância, a crença na própria incapacidade de se reconstruir, ultrapassar obstáculos e seguir em frente”. Sentou-se em um enorme tronco caído, fez um gesto amistoso para que eu fizesse o mesmo, e disse: “A paz é um estado de harmonia interna que nem mesmo a guerra pode destruir”. Fez uma pausa antes de acrescentar: “Um arqueiro sem paz é incapaz de acertar o alvo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava evidente que o samurai não me tinha como inimigo. Considerei que talvez soubesse que eu viajava pelo inconsciente coletivo para aprender sobre o Tao Te Ching e me aguardasse. Sem que eu precisasse perguntar, ele anuiu com a cabeça e explicou: “<strong>O Tao é a arte do arqueiro</strong>. Vim explicar como funciona”. Falei que eu me negava a caçar ou a usar armas. O samurai tornou a sorrir e disse: “Jamais me prestaria a ensinar alguém a caçar ou o estimularia ao uso de armas. Não vim aqui para isto. Refiro-me ao arco e flecha como metáfora para melhor compreensão dos movimentos do viajante pela estrada do Tao. O entendimento da verdade e a aplicação das virtudes como mecanismos indispensáveis à evolução. Do contrário, não sairá do lugar”. Falei que os samurais eram assassinos históricos a serviço de senhores feudais. Sem se alterar, ele manteve o tom sereno da voz e explicou: “Assim como o sol brilha para os bons e os maus, o conhecimento é disponibilizado indiscriminadamente. Nem todos fazem bom uso das ferramentas que aprendem a manejar. Inteligência e habilidade sem amor são sementes de amargas maldades e tristes erros. Confiar na própria capacidade de renascer infinitas vezes em si mesmo serve não apenas para solucionar problemas, superar dificuldades e redefinir a realidade, mas concede poder para jamais temer, ceder ou negociar com o mal. Um genuíno samurai sabe que ao abdicar da dignidade negará a liberdade e a paz. Então, perderá o alvo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pedi para que explicasse melhor. O arqueiro foi gentil: “Ao contrário do que muitos acreditam, o alvo não é um objetivo físico, material ou financeiro. O alvo se apresenta no perfeito movimento de empunhar o arco e disparar a seta”. Eu continuava sem entender. Ele esclareceu: “O alvo é o caminho. O destino é consequência”. Franziu as sobrancelhas e disse: “O caminho consiste no despertar ou na reconstrução da consciência, onde a luz habita, se intensifica e a autêntica identidade se desenvolve. Em suma, não me refiro apenas a bagagem, mas a essência do viajante. Fora da consciência toda conquista é efêmera, toda vitória é vã. Aprimorar a percepção e aguçar a sensibilidade para o uso da luz à serviço do bem comum registra o alto nível de habilidade do arqueiro”. Eu o ouvia com atenção. O samurai prosseguiu: “A consciência é o arco. Como expressão da última fronteira de entendimento alcançada pela consciência a cada momento, a verdade do arqueiro se revela na escolha do próximo alvo. As virtudes são fundamentais ao ajuste do arco, à mira precisa e na exata tensão da corda para determinar o alcance do tiro. A flecha disparada é a ação; o bem ou o mal praticados”. Em seguida, indagou: “Entendeu por qual motivo a paz é parte fundamental à arte do arqueiro?”. Respondi que não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O samurai explicou: “Distante da paz, o arqueiro ficará com a percepção e a sensibilidade limitadas. Sentimentos aviltados estreitam as compreensões; pensamentos estreitos agitam as emoções. O arqueiro se enganará quanto às suas intenções e prioridades. Faltará serenidade e clareza para uma melhor interpretação dos fatos e das possibilidades. Não entenderá o alvo. As virtudes restarão prejudicadas ou inibidas, impedindo o perfeito ajuste do arco. Há a hora do sim e existe o momento do não. Isto não significa que o sim e o não se excluam mutuamente, mas que devam ser usados com harmonia para aprimorar os mecanismos do arco. Ao contrário do que muitos acreditam, alegria e seriedade, generosidade e respeito, gentileza e firmeza não são virtudes antagônicas, porém, complementares. A compreensão das verdadeiras intenções e sentimentos que movem as nossas ações é fundamental para o entendimento da utilização e dos limites de cada uma das virtudes. O arco mal ajustado colocará a flecha fora do alvo”. Pedi para que exemplificasse. Ele me atendeu: “A sinceridade não pode servir de desculpa para ocultar o desejo de ferir outra pessoa. A humildade é atributo essencial ao crescimento, jamais sendo causa para anular a própria personalidade, dons, talentos e capacidades. A cautela não dialoga com a usura nem com o egoísmo. A sensatez não se aconselha com o medo. A coragem não se alia à violência. A compaixão não pode virar drama, tampouco contribuir para qualquer sofrimento. A delicadeza, a misericórdia e a simplicidade não podem dar margem à falta de limites às relações. A caridade não pode estar a serviço do orgulho ou da vaidade. Sem o devido equilíbrio emocional a clareza e a sensatez restam prejudicadas. A paz desaparece, levando consigo a nitidez necessária à compreensão do alvo. Não há como fazer o correto ajuste do arco”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um rouxinol pousou numa árvore, fazendo sorrir os olhos do samurai. Ele continuou a explicação sobre o funcionamento das virtudes: “Todo amor é bom, mas nem sempre sabemos amar bem. Devemos ajudar àquele que queira se levantar, entretanto, se insistirmos em o carregar nas costas, estimularemos nele a fraqueza, a preguiça, a comodidade e a incapacidade de caminhar com os próprios pés. Embora movido pelos mais puros sentimentos, inexistirá ajuda se não soubermos o exato limite de cada virtude. A vontade de ajudar não pode superar a vontade do ajudado em resgatar a própria autonomia. Quando não compreende o alvo, o arqueiro perde a capacidade de ajustar o alcance e a mira do arco”. Analisou-me por instantes para saber se eu conseguia acompanhar o raciocínio e continuou: “Para desenvolver a sua arte, precisará trazer à tona virtudes desprezadas pelos senhores do mundo, como a humildade, a simplicidade e a compaixão. Em movimento complementar ao anterior, terá que se despir de atributos por eles valorizados, como o orgulho, a vaidade e o egoísmo. <strong>Para atirar para cima,</strong> o arqueiro <strong>suspende a parte de baixo </strong>do arco<strong>.</strong> Do mesmo modo, <strong>para mirar para baixo, </strong>ele <strong>desce a parte de cima </strong>do arco”. Fez os referidos movimentos com o arco para que eu pudesse visualizar as suas palavras, facilitando o meu entendimento. Depois, prosseguiu: “Faz-se necessário inverter valores e prioridades ao entender que o alvo nunca esteve onde sempre acreditamos. É indispensável deixar de ser para se tornar. Não se trata apenas de agregar virtudes, mas fazer com que elas surjam da transformação dos vícios comportamentais que não mais queiramos em nosso jeito de ser e viver. A luz precisa nascer das sombras para as extinguir definitivamente”. Fez uma pausa antes de ressaltar: “Entenda o alvo. Se apenas olhar para fora não compreenderá o poder interior. Se apenas viver o que existe dentro, nada aprenderá com as experiências cotidianas, autênticos mananciais de amor e sabedoria. A arte permanecerá incompleta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pedi para que falasse mais sobre a arte do arqueiro. O samurai tornou a sorrir com os olhos, satisfeito pelo meu interesse em suas palavras, e disse: “Nem toda calmaria significa paz, nem todo sorriso é de alegria, nem todo abraço é acolhimento, nem toda mão estendida é ajuda, nem todo elogio é sincero, nem toda crítica é justa, nem toda palavra serve para iluminar, nem todo elixir cura, nem todo beijo é de amor. Esse entendimento é fundamental ao ajuste do arco. Contudo, como ajustar o arco se não entendo o alvo? Onde está? A qual distância? Com qual intensidade devo atirar a flecha? Não pense que esses questionamentos estimulam a descrença ou o demérito às virtudes e aos bons sentimentos. Eles existem e são essenciais à vida. No entanto, sem conhecer a verdade nos tornamos presas fáceis aos maus arqueiros. Não raro, somos estes”. Tornou a fazer uma pausa, desta vez para ressaltar as palavras seguintes: “Ao mirar no alvo a seta sempre retorna ao arqueiro. Inevitavelmente. Eis a verdade irretocável”. Depois, esclareceu: “Ajustamos o arco à medida que compreendemos o alvo. Para tanto, precisamos fazer as perguntas certas: eu poderia ter feito diferente e melhor? O que em mim está descuidado e mal-amado? O que me sobrecarrega, aprisiona e quebra? Faz-se necessário <strong>apertar o que está solto, afrouxar o que está apertado</strong>. Para ajustar o arco é preciso coragem, sinceridade, disposição e amor-próprio. Aceitar as repostas e assumir o compromisso perante a si mesmo de as usar no próprio aperfeiçoamento, quase nunca é fácil. Nem sempre ouvimos palavras que agradam ao orgulho e à vaidade, cujos traços, em maior ou menor grau, todos ainda trazem consigo. Quando não entendemos o poder dos compromissos, o alvo nos escapa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O samurai franziu as sobrancelhas e pontuou: “Compromissos são escolhas. Um erro comum, tolo e vulgar é acreditar que a liberdade e o amor se tornam mais fáceis com a ausência de compromisso. Podemos amar a todos sem comprometimento nem preocupação com ninguém. Viveremos amores de superfície, desprovidos de substância. Todos têm direito a isso. No entanto, é justamente o compromisso e a dedicação aos outros que concede camadas de amplitude – amar mais – e profundidade – amar melhor – ao amor. Sem comprometimento apenas conheceremos o vazio do amor vadio. Cabe a cada um escolher o tipo de amor que deseja para si”. Deixou o olhar vagar por instantes pela floresta e prosseguiu: “Diferente não é com a liberdade. Quanto menor forem os compromissos assumidos, mais livre serei para me dedicar somente aos meus interesses. Nada mais ingênuo do que raciocinar assim. Liberdade não é vagar despreocupadamente pelo mundo. Porém, viajar pelos dias, aproveitar as maravilhas da vida sem se descuidar de ajustar o arco e entender o alvo. Impossível conseguir tamanho intento sem amar mais e melhor. Não há como pensar em liberdade sem trazer para si o cuidado consigo e a preocupação com os outros. Não há como ser livre sem perdoar; não existe perdão sem amor. Liberdade é viver no extremo limite da verdade alcançada pela consciência. Se a verdade se expande ao passo da percepção e da sensibilidade, os pilares conscienciais, apenas através do amor você conseguirá ultrapassar as fronteiras de si mesmo para conhecer a genuína liberdade. Tudo mais são prazeres estanques e desejos sem saída. <strong>No Tao nada falta nem excede</strong>. O amor que falta registra o amor que o próprio coração se nega a aceitar ou oferecer. Ninguém pode entregar a ninguém o que cabe a cada um conquistar. O amor que sufoca ilustra a ausência de responsabilidade por si mesmo. O amor que aprisiona, saiba, não é amor. A liberdade que falta é a ausência de dedicação e comprometimento no ajuste do arco. A liberdade que extrapola na irresponsabilidade e na subjugação traduz a incapacidade de enxergar o alvo”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei quais eram as maiores dificuldades ao aperfeiçoamento do arqueiro. O samurai respondeu: “<strong>Na estrada do mundo, a prática é outra</strong>, os conceitos e valores são diferentes<strong>. </strong>A crença de que o poder consiste em tomar, possuir e dominar ao invés de oferecer, compartilhar e amar faz perder o alvo. Nada o deixará mais distante da verdade. <strong>Exigimos muito, oferecemos pouco</strong>. Retemos ao invés de soltar, guardamos até quando não precisamos. Falo de dinheiro, orgulho, mágoas e vaidade. <strong>Afrouxamos até perder, apertamos até quebrar. </strong>Falo de paz, dignidade, amor e liberdade”. Fechou os olhos como se recordasse de um tempo longínquo e ponderou: “Muitos acreditam que os seus vícios e enganos são estruturais na composição das próprias identidades. Se abdicassem da arrogância, usura, empáfia prazeres rasos e interesses mesquinhos não mais se reconheceriam. Dizem que querem mudar, mas se negam a deixar de ser quem são, alterar valores e modificar prioridades. Na estrada do tempo os avanços não se medem por dias e séculos, mas por ciclos evolutivos completados. Não se calcula a verdadeira fortuna pelos bens materiais amealhados, mas por todo amor disponibilizado. Poucos entendem o alvo”. Perguntei se os principais alvos eram imateriais. O samurai devolveu a pergunta: “Quais cabem na bagagem do viajante?”. Não precisei responder. Ele arqueou os lábios em sorriso e disse: “Somente assim começamos a entender os alvos. Não há como compreender a jornada do Tao sem dimensionar a paz, a dignidade e a liberdade contida na abnegação. Esta poderosa virtude fala sobre, quando em conflito, deixar ir os bens do mundo para resguardar a luz da consciência. Não fala de medo, covardia ou fuga, mas de coragem, sensatez e caminho. Não é sobre perdas, fracassos ou derrotas, porém, sobre ganhos, conquistas e vitórias. São valores difíceis de aceitar para quem confunde riqueza com prosperidade, acúmulo de bens com bens para além-túmulo. <strong>Por isso, o sábio age sem se apossar</strong>. Ele sabe que vale o amor envolvido, o bem praticado e a luz que manteve acesa. Tudo mais é menos. <strong>Oferece </strong>o que há de melhor em si <strong>sem exigir</strong> nada em troca. O amor não é balcão de negócios, mas jardins semeados em desertos distantes aos olhos do mundo. Ele <strong>ajuda sem dominar</strong>, pois, a luz trabalha sempre em favor da liberdade, nunca para erguer cárceres. O verdadeiro bem é ação silenciosa, sem estardalhaço nem imposições. Alegra-se quando outros viajantes se alimentam com as frutas da árvore que plantou. Sem se importar com os pedestais do reconhecimento e da fama, apenas <strong>faz e segue em frente</strong>. Todo sábio é um bom arqueiro. Conhece o alvo e já tem o arco bem ajustado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficamos alguns minutos sem dizer palavra. Eu precisava alocar aquelas ideias na mente e no coração. Seriam importantes para reelaborar antigas experiências assim como para compreender as que eu ainda viveria. O samurai avisou que era momento de partir. Falei que não sabia como sair da floresta. Ele tirou uma flecha da aljava que carregava a tiracolo, armou o arco e disparou por uma nesga da mata em direção ao sol que, ao ser atingido pela seta se desfez em mil fragmentos como uma mandala de fogo. Uma imagem mística do amor e da luz que se dividem para multiplicar. Agradeci a conversa e atravessei o portal.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Sete</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Tao é como um arqueiro.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para atirar para cima,</strong> <strong>suspende a parte de baixo;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para mirar para baixo, desce a parte de cima.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aperta o que está solto,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Afrouxa o que está apertado.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No Tao, nada falta nem excede.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Na estrada do mundo, a prática é outra.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Exigimos muito, oferecemos pouco.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Afrouxamos até perder; apertamos até quebrar.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Por isso, o sábio age sem se apossar,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Oferece sem exigir, ajuda sem dominar,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Faz e segue em frente.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo sexto limiar &#8211; O antídoto do caos)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Sep 2024 18:17:39 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Hipona, África romana. Anos 400. Alguns homens e mulheres trabalhavam na manutenção de uma agradável residência nos arredores da cidade. Envolvidas em heras, cuidadosamente podadas, as paredes verdes davam um encantador frescor à casa. Árvores frondosas e frutíferas espalhadas no entorno tornavam o local bastante acolhedor. Um dos operários me informou se tratar do refúgio episcopal, onde o bispo gostava de se recolher para pensar e escrever, longe do burburinho e das intrigas da cidade. Era uma pessoa culta e gentil, educado em boas escolas pelos melhores professores de Roma e Cartago. Tivera uma vida de prazeres e agitações típica das classes abastadas. Tinha tudo, mas nada lhe bastava. Até se decidir pela estrada da fé para alcançar a alegria serena da paz e da dignidade que tanto desejava. Então, se desfez de todo o patrimônio e se converteu. Perguntei se havia alcançado o objetivo. O trabalhador respondeu que o bispo parecia um homem tranquilo, justo e feliz. Contentava-se com pouco, nada lhe faltava. Era querido e respeitado por todos com quem convivia. Falei que gostaria de o conhecer e conversar com ele. “Podemos fazer isso agora”, fui surpreendido por uma voz alegre atrás de mim. O bispo retornava de um passeio solitário por entre o arvoredo. Ofereceu-me um sincero sorriso de boas-vindas e me convidou a acompanhá-lo. Sentamo-nos na aprazível varanda da residência. Uma bandeja com uma jarra de refresco e copos foi colocada sobre a mesa. Iniciei a conversa ao comentar o fascínio que havia em mim por histórias de transformações angulares de homens e mulheres que mudaram o rumo de suas vidas ao realizar escolhas que poucas pessoas se mostravam capazes. O bispo franziu as sobrancelhas e explicou: “A redenção é parte essencial à jornada evolutiva. Um processo difícil, por todas as rupturas necessárias, porém, belíssimo pelas conquistas advindas. A redenção é o processo de libertação através da regeneração, o renascimento ou a reconstrução em si mesmo, por intermédio de novos fundamentos. Ao remodelar o pensar e o sentir, o indivíduo se permite um diferente jeito de ser e viver. Quando aquele que somos já não mais responde, entrega ou conduz a nenhuma resposta, alegria ou lugar, evidencia que o modelo comportamental utilizado não mais funciona. É momento de se reinventar. Assim acontece com todos. Muitos não se dão conta das prisões que habitam. Viverão cativos enquanto se negarem a romper com os padrões ineficazes pelos quais interpretam a vida e tentam se mover pelo mundo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole do refresco. Esperou que eu também bebesse. Estava delicioso. Perguntei se a liberdade oferecida pela redenção exigia medidas tão extremas como as praticadas por ele. O bispo respondeu que não com a cabeça e ratificou: “De jeito nenhum. Desapego não fala sobre o que deixamos ir, mas sobre as prioridades que precisamos manter. Cada história é única, cada caminho é singular. Não há dois iguais. Contudo, como em qualquer transformação, uma vida de práticas e hábitos precisará ficar para trás. Quase nunca é fácil. Embora haja o sincero desejo pela mudança, temos enorme dificuldade para mudar quem somos. Passamos muito tempo à espera de que o mundo se adeque ou atenda aos nossos desejos, até o dia que adquirimos a consciência sobre onde gira o eixo que movimenta a felicidade e a paz. A vida não se modifica para agradar o paladar de ninguém. Cabe a cada um encontrar a genuína doçura da vida. É impossível caminhar sem transformar a si mesmo infinitas vezes. Um contínuo despir para que a essência possa aos poucos emergir. O mundo permanece o mesmo. No entanto, passamos a nos mover pela vida através de um diferente viés. A resiliência é a mola-mestre dessa engrenagem evolutiva”. Interrompi para dizer que eu não tinha entendido. Ele explicou: “Quando não conseguimos mudar uma situação, resta o desafio de mudar a nós mesmos. Isto não significa se deixar corromper ou deformar, porém, vislumbrar e se moldar a uma nova realidade a partir de um olhar mais aperfeiçoado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei o motivo de a resiliência ser a virtude preponderante às transformações pessoais. O bispo observou: “A resiliência não o capacita apenas às mudanças internas, mas o aperfeiçoa para a vida e permite o prosseguimento da viagem em condições ainda melhores. Imagine um viajante cuja estrada o deixa à beira de um penhasco. Ele pode se sentar e chorar, lamentando a falta de sorte ou se considerar abandonado por Deus. Passará o resto da existência amaldiçoando o precipício, culpando-o por sua infelicidade. Pode, também, aprender a escalar, construir pontes ou buscar outro caminho. Não é fácil, porém, sempre possível. Ao fazer, seguirá em frente. O mais interessante é que levará consigo, dali por diante, o poder de não mais temer nem se assustar com os abismos, pois, aprendeu a lidar com a situação e a confiar na sua capacidade de superar as adversidades. Se levar essa ideia como equação para todos os seus problemas, entenderá o metódo pedagógico da vida de utilizar as dificuldades em prol do aprimoramento individual. A superação do obstáculo fornece equilíbrio e força ao movimento seguinte. Assim, passo a passo, adquirimos serenidade e determinação em nossos deslocamentos. A paz não se instala na ausência de problemas, mas na capacidade de manter a tranquilidade para encontrar caminhos diante dos abismos existenciais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu mais um pouco do refresco antes de fazer uma interessante interpretação: “No Livro de Lucas, Jesus ensina: <em>todo aquele que não receber o reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele</em>. Muitos interpretam essas palavras como se as crianças servissem de analogia à pureza. Ocorre, que esses pequenos, em verdade, não são puros, porém, ingênuos, pois na tenra idade desconhecem os meandros diferenciadores entre o bem e o mal. A pureza é uma virtude de alto grau consciencial, apenas possível aos indivíduos que já conhecem as exatas dicotomias entre luz e sombras. Estes, tendo o mal à disposição para alcançar os seus intentos, dele abdicam para somente usar o bem como instrumento das suas conquistas”. Fez uma pausa e continuou: “Por esta razão, entendo que o mestre falava sobre a resiliência. <strong>As pessoas, assim como as plantas, nascem delicadas e flexíveis</strong>, predispostas a crescer e se adequar à vida. Nunca é a vida que se adapta aos seres. Quando um jeito de ser e viver, pensar e sentir, não mais oferece respostas e soluções, demonstra a ineficácia para o levar adiante. Embora o tenha trazido até aqui, suas engrenagens ficaram endurecidas e enferrujadas. Não funcionam mais. Na exigência pela evolução, a vida nos oferece a regeneração. Renascer em si mesmo se traduz na capacidade de se recriar, reinterpretando a realidade sob novas verdades e remodelando os movimentos através de diferentes fundamentos. Ninguém consegue tamanha adaptação sem a devida fluidez para se adequar a um diferente olhar. Objetos sólidos não cabem em muitos lugares; os fluídos têm a capacidade de se moldar a qualquer recipiente. No caso, o recipiente é a nova realidade redesenhada por um olhar mais claro e aguçado. Ali viverá as próximas experiências até que uma diferente verdade se apresente. Sem resiliência, o indivíduo desistirá de viver outra realidade. Ele não caberá nela”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bateu com o dedo na mesa para ressaltar as próximas palavras e pontuou: “Somente movimentos internos ousados, e nunca tentados, darão sustentação a deslocamentos criativos e inusitados através dos dias. Assim nos reinventamos. Não se trata de perder a própria essência, mas de a valorizar. Para isto servem os problemas e as dificuldades. Negar-se à transformação é abdicar da evolução. A inflexibilidade equivale à recusa ao desafio da mudança e ao aprimoramento pessoal. Eis a autêntica cronologia do envelhecimento. Antes mesmo de falecer, pessoas de todas as idades <strong>morrem rígidas e secas</strong> dentro de seus labirintos existenciais por se recusarem à mudança. Negam-se a ir além de quem são. <strong>A resiliência e a determinação são amigas da vida. O rigor e o enrijecimento são aliados da morte</strong>”. Interrompi para questionar se determinação e rigor não se confundem. Ele foi enfático: “Não. A determinação dialoga com o novo e com as diferenças. O rigor se encerra na intolerância e na estagnação. A determinação é dinâmica. O rigor é estático”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O bispo abordou outro aspecto interessante da resiliência: “Trata-se de uma virtude afinada ao amor e ao perdão. Todos somos falíveis, imperfeitos e cometemos erros. Sem exceção. Como iremos amar e perdoar, virtudes fundamentais à liberdade, a paz e felicidade, se formos inflexíveis diante dos equívocos alheios? Com qual legitimidade podemos desejar o amor e o perdão das pessoas enquanto o rigor ditar o padrão do nosso comportamento? Exigir de alguém o que não temos para oferecer é a origem de quase todos os conflitos. Arvoramo-nos em credores de bens que jamais tivemos, tampouco entregamos. Assim germinam as ervas daninhas do orgulho, da vaidade, da ganância e do egoísmo no coração das pessoas, os deixando refratários ao amor e ao perdão. Acreditam que soberba é honra, arrogância é força e rigor é justiça. As armas dos tolos. Um exército inflado em ilusões. <strong>O poder das armas conduz à derrota</strong>. Alvos agigantados são mais fáceis de acertar. Sentem-se poderosos por seus tamanhos aparentes. Esquecem que as <strong>árvores grandes são as preferidas dos lenhadores</strong>. Apesar de robustas, ficam frágeis frente ao aço afiado do machado da vida. Os inflexíveis são agressivos; os resilientes, pacíficos. Os rigorosos são enormes; os flexíveis, quase imperceptíveis. Os enrijecidos são barulhentos, afobados e imutáveis; os maleáveis são silenciosos, serenos e mutantes. Os inflexíveis lamentam e ficam; os resilientes se transformam e seguem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que ninguém se modifica enquanto não entender que o seu estilo de vida, ao invés de o impulsionar à evolução, o aprisiona em escolhas e comportamentos avessos a qualquer transformação. Existe dificuldade em aceitar os próprios enganos e erros. O bispo concordou com a cabeça e acrescentou: “A humildade é elemento indispensável à resiliência. Não se faz necessário esperar para mudar. Mesmo o que está bom sempre pode melhorar. No entanto, enquanto o indivíduo se acreditar grande, poderoso e detentor da verdade se manterá insubmisso às mudanças. Por se negarem à regeneração contínua, impérios poderosos de outrora terminaram em ruínas. Apegaram-se ao que sabiam e ao que eram. Acreditavam que bastava. <strong>Tudo </strong>muda. O<strong> que é </strong>inflexível,<strong> pesado e áspero, perece</strong>. Assim também acontece conosco. O ciclo da vida se define em criação, desenvolvimento e regeneração. Os novos ciclos trazem consigo aspectos mais aperfeiçoados do que o anterior. Sempre. Esses ciclos regenerativos e redentores acontecem dentro da gente, tantas vezes estejamos dispostos a nos reinventar para evoluir em uma mesma existência. E depois em outras. A marcha do progresso espiritual exige o constante trabalho de reconstrução sob diferentes e melhores fundamentos. Quando nos negamos à regeneração, ciclo se perfaz em criação, desenvolvimento e destruição. Então, iremos desabar em amarguras, angústias, tristezas e revoltas demolidoras, nossos invasores bárbaros, como ocorreu com os sumérios, babilônios e hititas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei se esse processo sem fim de desconstrução e reconstrução não seria doloroso demais. O bispo pontuou: “Manter-se cativo das próprias teimosias e incompreensões é muito mais penoso. O sofrimento está diretamente relacionado à resistência oposta à mudança. Quanto maior o orgulho e a vaidade, mais dolorosa é a transformação. Descortinar mentiras que nos fizeram viver personagens com poderes fictícios e belezas efêmeras costuma nos envergonhar pelo ridículo e arrependimento de muitas situações vividas. Também por isto a humildade é fundamental a resiliência. O impacto da verdade não pode causar deformação, porém, conduzir à evolução. Sem nenhum remorso, deixe ir aquele que você não é mais; alegre-se com quem irá se tornar”. Arqueou os lábios em sorriso e fez uma doce provocação: “Quem chegará é bem mais interessante do que aquele que partiu”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei como eu poderia melhor conduzir as minhas transformações. Ele explicou: “Para não se tornar pesado e enrijecido, jamais ocupe os compartimentos da bagagem com mágoas e ressentimentos. Perdoe a todos e a si mesmo. Confie nos seus dons, virtudes e verdade; são as perfeitas ferramentas da viagem. Siga suas intuições e inspirações, a voz da alma e a voz do Alto. Escute, mas tenha cuidado com as outras vozes. Conviva com muitas pessoas, os relacionamentos são mananciais de aperfeiçoamento, mas não fique muito tempo afastado do silêncio e da quietude, pois, são fundamentais para elaborar as experiências vividas. Se recuse a ser hoje quem você foi ontem; evolua um pouco todos os dias. Não brigue nem obrigue ninguém a o acompanhar. Ame do melhor jeito que conseguir e siga em frente. <strong>O que é leve e suave, prospera</strong>. Admita a ignorância caso queira aprender. Quem não se aceita pequeno e imperfeito jamais conseguirá crescer e se aprimorar”. Fez uma pausa antes de concluir: “Sempre é possível evitar o caos. Acreditar-se grande, poderoso e perfeito é causa impeditiva à evolução. Estes, cedo ou tarde, serão varridos pelas tempestades que provocaram em si mesmo. Então, serão obrigados a fazer a reconstrução a que antes se recusaram por aversão à mudança. A vida exige movimento. O caos não chega para punir, mas para ensinar a caminhar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fomos interrompidos por um dos funcionários da casa. O bispo precisava retornar a Hipona. Tinha assuntos a tratar com o governador da cidade. Falei que eu também precisava partir, mas não sabia como. Perguntei se ele poderia me ajudar. Ele respondeu que sim com a cabeça, pediu que eu fechasse os olhos, e disse: “Todas as noites, antes de dormir, faço a retrospectiva daquele dia. Repasso todas as minhas atitudes, diálogos e escolhas, como se um mestre avaliasse um aprendiz. Coloco-me no lugar dos interlocutores das minhas ações e analiso se, caso estivesse no lugar deles, como eu gostaria de ter sido tratado. Compreendo os pontos em que eu poderia ter feito diferente. Não me sinto mal ou culpado por isso, mas assumo perante a mim mesmo o firme compromisso de fazer melhor da próxima vez. A vida sempre oferece a oportunidade de acertar mais adiante. Cabe-nos não desperdiçar”. Fechei os olhos e segui as orientações do bispo. Não foi difícil encontrar vários movimentos incompletos ou erráticos em minhas atitudes recentes. Procurei entender por qual motivo tinha agido desta ou daquela maneira. O erro se conserta na origem para que não haja reincidência. O exercício me mostrou mil possibilidades de transformação. Bastava haver resiliência para eu conseguir morar no meu novo olhar. Ao ficar maravilhado com as oportunidades, me deparei com uma linda mandala ilustrada com sois dourados e rosas vermelhas. Sorri em agradecimento e atravessei o portal.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Seis</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>As pessoas, assim como as plantas,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nascem delicadas e flexíveis,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Morrem rígidas e secas.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A resiliência e a determinação são amigas da vida,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O rigor e o enrijecimento são aliados da morte.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O poder das armas conduz à derrota,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Árvores grandes são as preferidas dos lenhadores.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Tudo que é pesado e áspero, perece.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que é leve e suave prospera.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo quinto limiar &#8211; A inusitada virtude e uma diferente realidade)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Sep 2024 19:48:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Século XV. Eu estava em frente a igreja de Belém, em Praga. Decidi entrar. Na missa, para minha surpresa, o padre não falava em latim, como era obrigatório na época. Usava o idioma local. Como se não bastasse, defendia a ideia da livre interpretação dos textos sagrados em oposição a primazia da Igreja Romana: “Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a conversar com Deus sem a necessidade de qualquer intermediário ou preposto. Aquele que desejar se apossar dessa conexão é ladrão ou impostor”. Depois, opinou contrariamente às indulgências vendidas pelo papa. “O perdão é a conquista de um coração sincero, arrependido dos seus erros, os reparando quando possível, e com o firme propósito de nunca mais os praticar. O perdão também ocorre através da purificação dos sentimentos, ao esvaziar o último resíduo de ressentimento provocado pela maldade alheia. O perdão é o amor em sua forma mais sublime. Dinheiro não compra a verdade nem as virtudes; tampouco, a evolução espiritual. Quem não encontrar o Reino do Céu dentro de si, não o achará em lugar nenhum”, explicou. Embora as pessoas aprovassem as suas palavras, havia um receio generalizado que aquele padre sofresse sérias sanções. A Inquisição grassava solta pela Europa, como uma fera desnorteada e faminta. Ao final da missa, alguns homens e mulheres o conduziram à sacristia. Acompanhei-os. Eles estavam preocupados. Uma comitiva papal havia sido designada para o interrogar por práticas heréticas. Chegaria em poucos dias. A fogueira era a sentença implacável àqueles que ousassem a difundir ideias contrárias à supremacia do poder político e religioso da Igreja Romana. O rei também estava insatisfeito com ele. Em seus sermões dominicais, o padre havia falado sobre a necessidade de algumas reformas sociais, além da diminuição de impostos. A população estava inquieta. O grupo de amigos sugeriu que se retirasse para uma fazenda distante dali. Seria bom deixar o fogo arrefecer. O padre se mostrou relutante. Uma das mulheres lembrou que teria tempo e sossego para escrever o livro que tanto desejava. Seria uma maneira de propagar as suas ideias para terras distantes. Muitas outras pessoas também teriam acesso a novas possibilidades de relacionamento com o sagrado. A fé deixaria de ser de domínio institucional para se tornar um poder pessoal, como ensinado no Cristianismo primitivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cerco se fechava. O tempo escasso clamava por uma decisão urgente. O padre refletiu por alguns instantes e disse: “<strong>O povo sente fome quando há muitos impostos</strong>”. Um dos homens disse que o momento não era oportuno para falar de política. O clérigo explicou: “Para ouvidos desatentos, pode meramente parecer um discurso político. Embora a interpretação seja pertinente e aplicável, não é a minha intenção. Eu gostaria de oferecer um olhar sobre a maneira como costumamos nos relacionar conosco – cada um consigo mesmo – e como esse entendimento pode se tornar uma preciosa chave a permitir a abertura de muitas portas; quiçá, todas elas. Do contrário, os dias serão perdidos no emaranhado das incompreensões internas”. As pessoas não sabiam do que o clérigo falava. Ele explicou: “Vivemos de acordo com o sistema político que conhecemos. O poder de elaborar e derrogar as lei está concentrado na realeza e na Igreja. Um pequeno grupo concede e retira os direitos do povo. Em suma, o que podemos e o que não podemos fazer. Não sem razão, as pessoas sentem um forte impulso para se opor ao atual sistema. É natural que <strong>entrem em conflito quando a repressão é grande</strong> e ultrapassa o limite suportável. Os governantes administram as cidades testando os limites da população. Nem a cidade nem a população evolui. Assim acontece conosco”. Um dos homens questionou se deveriam se organizar para lutar contra o poder estabelecido. O padre disse não com a cabeça. Os seus olhos navegavam em ideias distantes. Ele explicou: “O sistema político serve de vitrine à realidade, mas não a representa. Ao contrário do que muitos acreditam, a realidade não se estabelece pelo código de leis ou poder financeiro. Isto é ordem pública e potencial de consumo. Duas pessoas em condições materiais similares podem viver realidades distintas. A realidade é pessoal, pois se expressa na clareza do olhar. Na maneira como compreendemos todas as situações, coisas e pessoas instante a instante, dia após dia. É o limite extremo da verdade alcançada por cada pessoa. Embora para alguns uma porta fechada signifique a impossibilidade de seguir adiante, para outros serve de impulso para o descobrimento da chave que a abrirá ou a reação pela buscar por outra passagem, até então desconhecida por jamais ter sido pensada. No entanto, há quem acredite que só sairá do lugar se a porta se abrir por mãos que não as suas. São os eternos permissionários; vivem a espera de autorização para pensar e sentir, ser e viver. Não falo para estimular conflitos ou rebeldias, mas lembrar do poder incomensurável contido nas soluções criativas. Abismos não significam o fim da estrada. Ninguém pensaria em pontes se não fossem os precipícios. O poder de criar ou destruir realidades reside na consciência, jamais pertence as autoridades”. Virou-se para as pessoas e perguntou: “Entenderam?”. Todos disseram que não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu também não tinha entendido, mas cada vez mais gostava daquele padre. Ele tentava nos mostrar algo que não víamos, como se observasse a realidade com lentes que ainda não possuíamos. O clérigo explicou: “Ninguém muda nada através do conflito. Ao se opor a realidade de modo brusco, você não a modifica. Apenas estabelece impasses ou obrigações. Com o tempo, ambas viram estagnação. Não há avanço. Ficaremos limitados a movimentos repetitivos que, em qualquer análise, não levam a lugar nenhum. A síndrome da areia movediça”. As pessoas o ouviam com atenção. Ele continuou: “Para mudar algo se faz indispensável criar uma diferente realidade que torne obsoleta a realidade atual. Com tamanho aperfeiçoamento e melhorias que será impossível resistir à mudança”. Bateu com o dedo indicado na mesa, como para ressaltar as palavras seguintes, e disse: “Ninguém cria a realidade no mundo, mas dentro de si. Depois simplesmente a vive, quando a coloca em movimento através das suas relações e dos dias”. Uma das mulheres quis saber como seria se as pessoas não concordassem com esse novo modelo de ser e viver. O padre pontuou: “Ninguém precisa acompanhar ninguém. A realidade é pessoal e nem sempre transferível. Compartilhamos o que há de melhor em nós e seguimos em frente. Apenas os tolos se perdem no caminho por insistir que lhes sigam”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que os raciocínios mudassem de direção, ele nos manteve no rumo: “Repito. Não me refiro a política. Falo do relacionamento que cada indivíduo mantém consigo mesmo e com as pessoas, coisas e situações ao redor. Estes são reflexos daquele. Todos os conflitos, males e maldades têm como origem as incompreensões internas. Sem exceção. Tudo que nos incomoda, assusta ou sangra na alma faz sofrer e amedronta. Por consequência, gera aspereza e distúrbios nas relações interpessoais. Fazemos cobranças excessivas e descabidas, dos íntimos aos estranhos, como soberanos desvairados que estabelecem pesados e injustos tributos à população. Quando não conseguimos dominar as próprias paixões e quereres, tal como reis e papas, controlamos e manipulamos os interesses, verdades e desejos de outras pessoas. Somos mananciais de conflitos e celeiros de mágoas. Geramos conflitos, sofremos com as mágoas. Elegemos as guerras como estilo de vida porque elas transbordam de dentro para fora da gente. Quando nos damos conta, já estamos de arma em punho num campo de batalha qualquer”. Fez uma breve pausa antes de esclarecer: “Falo dos combates familiares, sociais e profissionais. Insignificantes aos olhos do mundo, mas com tamanho suficiente para nos fazer explodir ou implodir. De furtar a paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos homens questionou quando saberíamos da necessidade de transformar a realidade. O padre arqueou os lábios em singelo sorriso e disse: “Em verdade, sempre. A realidade criada o trouxe até aqui. Jamais o levará adiante. Faz-se necessário criar outra, diferente e melhor que a atual. Não falo de devaneios nem loucuras. Refiro-me ao aperfeiçoamento do olhar. Assim como eu e vocês, a vida e o mundo têm muitas camadas de interpretação. As experiências adquirem significados até então desconhecidos quando a elaboramos com um olhar mais aguçado. Verdades que não resolvem nem respondem deixam de ter serventia. Tenha a ousadia de as modificar. Criar outra realidade é transformar a si mesmo. Não há outro jeito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Silêncio. Todos precisavam alocar aquelas ideias para as metabolizar em ferramentas do bem viver. O padre se sentou. Disse que precisava pensar. Decisões angulares os aguardavam. Pediu para que voltassem no fim da tarde. Todos se foram. Eu fiquei. Ao levantar a cabeça e me ver em pé à sua frente, o clérigo sorriu. Apontou com o queixo para uma pintura de Adão e Eva sendo expulsos do Paraíso e brincou: “A jornada da vida começa com um ato de desobediência”. Rimos. Em seguida, acrescentou: “Criar a realidade é um ato de extrema ousadia. A ousadia não é a virtude do desrespeito nem dos criminosos. Se fosse, não seria virtude.&nbsp; Trata-se da firme disposição de ir além de si mesmo, em desobediência às falsas verdades, conceitos e crenças que insistem em o convencer a viver dentro de um limitado quintal, sob o argumento que o mundo é perigoso e a vida traiçoeira. Que somos incapazes e impotentes, sendo o sofrimento inevitável e o medo um eterno carcereiro. Em caso de desobediência, será devorado sem demora. Na dúvida, ficamos. Com a ousadia, na dúvida, pagamos para ver. A ousadia nos ensina que a vida tem mais a oferecer. Há infinitas maravilhas além dos muros do quintal. Aprendemos a reavaliar possibilidades e oportunidades, rever conceitos e valores. Repito, não falo de devaneios nem loucuras. Na acepção da palavra, realidade significa qualidade ou característica do que é real e verdadeiro. Refiro-me a criar uma realidade na qual seus dons, talentos e capacidades não restem limitados nem esmagados. Não é pouco. Não é muito. É essencial”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei qual seria a ousadia extrema capaz de criar uma realidade suprema, para além das garras da maldade e do medo. Os olhos do padre vagaram por terras e lembranças distantes, como se o colocasse diante da decisão que tomaria naquela tarde, e ponderou: “Há muitas ousadias valiosas. Todas preciosas. O leão que cede lugar para que o carneiro leve os filhotes sedentos para beber a água mais limpa do lago, em gesto de humildade e amor. O condenado que, mesmo inocente, perdoa o carrasco no momento da execução da sentença. Bem-aventurados sejam os ousados, eles entendem o genuíno significado da vida”. Comentei como era difícil a ousadia. Ele disse sim com a cabeça e esclareceu: “Quem se apega a vida, não a merece. <strong>A morte não assusta quem ama viver</strong>. Penso que a ousadia capaz de criar a realidade angular da vida seja a renúncia. Ao contrário do que os incautos imaginam, a renúncia não cabe aos fracos, inseguros e covardes. É um ato dos fortes que compreendem o autêntico significado da vida: um grande ciclo atemporal composto de diversos ciclos existenciais e temporais. <strong>Viver é bem mais do que apenas estar vivo</strong>. Entender a evolução espiritual como finalidade maior das experiências vividas o faz renunciar a vários aspectos da vida por amor à vida. A renúncia consiste em abdicar de bens valiosos à realidade do mundo em prol de outros de quilate imensurável à realidade da luz. Muitos acreditam que renúncia é desapego. É deixar ir. Ledo engano. Renunciar é cuidar para não perder. Um gesto de valorização dos bens infungíveis e luminosos em detrimento àqueles tangíveis e perecíveis. Uma diferente realidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bateram na porta. A comitiva inquisitorial se aproximava. Era hora de partir. Agradeci a conversa e as ferramentas oferecidas. Prometi as colocar em uso como melhor maneira de demonstrar a minha gratidão. O padre sorriu satisfeito. Perguntei por onde eu deveria sair. Ele me mostrou uma pintura na parede retratando Santo Agostinho. Em seguida, acrescentou: “Em suas Confissões, Agostinho lembra que as pessoas viajam para conhecer as belezas do mundo, mas passam a vida sem encontrar a própria beleza por desconhecer quem são”. Olhei a imagem por alguns instantes. Notei que por trás do santo havia nuvens pintadas como se fossem mandalas. Quis saber se o padre também viria. O perigo se avizinhava. Ele sorriu e explicou com a voz serena: “Vivo a realidade que criei. Minha viagem é outra”. Me despedi e parti.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Cinco</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O povo sente fome</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando há muitos impostos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Entra em conflito</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando a repressão é grande.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A morte não assusta quem ama viver.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Viver é bem mais do que apenas estar vivo.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo quarto limiar &#8211; Julgar e punir)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Sep 2024 10:57:05 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu estava em uma enfermaria próxima à linha de frente em um dos campos de batalha da Primeira Grande Guerra. Gritos de dor e pavor. Movidos por inestimável dedicação, médicos e enfermeiras transitavam entre um sem-número de macas e camas de campanha. Mostravam-se incansáveis. Observei o local por alguns instantes sem saber para onde ir. Tive a atenção voltada a um dos médico, especialmente preocupado com as consequências das infecções causadas pelos ferimentos. Visitava cada um dos soldados. Amputar braços e pernas era a única solução possível a evitar o óbito. Isso quando a ferida não estava localizada onde o expurgo era impossível. Havia um sincero sentimento de preocupação em seus olhos. Depois, se sentou em um banco de madeira, retirou um pequeno bloco do bolso e fez anotações a lápis. Aproximei-me. Ele me olhou por um átimo de segundo e retornou às observações que escrevia. Comentei que os horrores da guerra eram inimagináveis para quem não os vive. O médico se virou e disse: “Deliciar-se com os romances de guerra apenas é permitido para aqueles que nunca viveram a guerra. Imaginar não significa conhecer. A imaginação alcança valor e poder somente a partir do conhecimento para, então, o expandir. Antes disso é mero devaneio e irresponsabilidade típicas de almas imaturas”. Confessei-me encantado pelo compromisso e misericórdia de médicos e enfermeiras daquele acampamento. O homem sorriu resignado e pontuou: “A misericórdia consiste na virtude de aplicar o seu melhor sentimento no esforço de atenuar o sofrimento de alguém. A etimologia da palavra tem origem no latim, na junção de outras duas, <em>miseratio</em> e <em>cordis</em>, miséria e coração, respectivamente. Ainda me restam muitas léguas para a agregar na bagagem. Os parcos traços desse precioso atributo que por ventura já existam em mim, se revelam por intermédio do interesse científico a procura de um medicamento que possa estancar e reverter o processo destruidor da gangrena”. Murmurou como quem conta um segredo: “Tenho amor e paixão pela cura”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, prosseguiu: “Assim que regressar a Londres, retomarei as pesquisas sobre um tipo específico de fungo tóxico do qual acredito haver a possibilidade de extrair a substância curadora que procuro”. O me notar surpreso com as suas palavras, explicou: “Assim como a lótus, com sua inestimável beleza, nasce do lodo fétido, não raro, a origem do remédio reside no veneno”. Girou os olhos pela enfermaria para me mostrar a dor inquantificável e disse: “Para sermos capazes de ojerizar o ódio com todas as nossas forças, temos de conhecer na profundidade esse sentimento mesquinho e desequilibrado que, com em maior ou menor intensidade e controle, ainda permeia nossas emoções diante de cada contrariedade. Sem vivenciar todo o seu horror, faremos poesias e discursos sobre algo que imaginamos sem conhecer. Quem enaltece e insiste nas guerras não luta nas trincheiras, mas resguardados em palácios. Enquanto o ódio permear as nossas relações e reações significa que ainda não conseguimos extrair deste veneno o amor indispensável à cura”. Embora eu não tivesse vivenciado nenhuma guerra, ao menos na última existência, me declarei livre do ódio. Confessei que apenas possuía mágoas e ressentimentos de algumas poucas pessoas. O médico me olhou com compaixão e esclareceu: “Não se engane. O ódio, em suas muitas variantes, é o mal em estado gasoso, muito difícil de ser contido face sua volatilidade. Mágoas e ressentimentos nada mais são do que o ódio reprimido, acondicionado e petrificado pelo tempo dentro da gente. A mágoa e o ressentimento nada mais são do que o ódio em estado sólido. O mal é um ilusionista a nos enganar com diversos truques. Como resíduo do mal, a mágoa é a gangrena decorrente do ódio a nos consumir, esgotar e devorar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deu de ombros e exemplificou: “A neve das montanhas se desfaz em rios até desembocar no mar. O calor faz essa água se tornar nuvem. O vento a leva para se derramar como tempestade em lugares distantes, dificultando a identificação da sua origem. Assim o mal nos distrai sobre os sentimentos que nos movem e dominam; e o ódio se manifesta sem darmos conta da sua existência em nossas escolhas, comportamentos e construções erráticas. Enquanto não encontrarmos o amor escondido como sendo o remédio incompreendido capaz de erradicar o ódio, continuaremos a padecer da gangrena dos ferimentos que cada um termina por provocar em si mesmo. Nos valemos do mal no exercício de argumentos disfarçados em justiça, dignidade e supostos direitos, na vã tentativa de negar as evidências dos desejos de subjugação e controle que nos acostumamos a praticar diante de tudo que nos causa medo. Vingança não é justiça; orgulho nada tem a ver com dignidade; boa parte dos direitos não passa de manipulações de interesses. Ficamos assustados diante do desconhecido, das diferenças e do imponderável. Desde a tenra infância somos condicionados a viver de acordo com conceitos que, por estarem incutidos desde sempre em nós, fazem parte de como nos erguemos como indivíduos, dirimimos problemas e definimos cárceres e liberdade sem os questionar. São os dogmas pessoais. Todos os temos ainda”. Questionei sobre como saber se algum conceito mascarado em verdade nos conduzia à masmorra ou a voos de grande a altitudes. O médico respondeu de pronto: “Amor ou egoísmo. Amor ou ódio. Basta perceber o sentimento que o move para entender como as suas razões, raciocínios e decisões são construídas. Não se ergue um bom prédio em cima de fundamentos podres”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Franziu as sobrancelhas e explicou: “Ainda usamos o mal para deter o mal. Lamentamos este mal, não aquele. Reprovamos o mal em geral, mas o aprovamos quando utilizado na defesa de nossos interesses, vontades e caprichos. Sem entender a rota escolhida, espraiamos as escuridão dentro e em torno de nós. O medo e o sofrimento nos guiam até a última fronteira, quando para além do limite resta apenas o precipício da miséria existencial profunda”. Indaguei onde estava localizada esta fronteira. Ele esclareceu: “Em um antigo axioma está escrito que, <strong>se as pessoas não temem a morte, não há como as dominar com ameaças de morte</strong>. Julgar e punir são fontes de poder mundano por causa do mal que podemos provocar em outras pessoas em caso de ousarem a desobedecer. Erro e castigo. Não falo dos delitos previstos nos código legislativos. Refiro-me nas vezes que desaprovamos a atitude de alguém por se portar de modo contrário aos nossos ideais, conceitos ou interesses. Julgamos no alcance do entendimento permitido pela qualidade dos sentimentos e emoções que expandem ou contraem a consciência. Julgamos quando precisamos encontrar nos erros alheios os argumentos indispensáveis para manter a sensação de superioridade a nos enganar na crença que estamos onde nunca colocamos os pés. Não raro, passamos grande parte dos dias envolvidos em críticas sobre o comportamento e escolhas alheias. Não porque nos preocupamos com eles, mas para evitar o esforço ao indispensável aperfeiçoamento daquele podíamos nos tornar. Como um viciado qualquer, somos dependentes de uma atmosfera emocional desenhada nas tintas das ilusões, mentiras e incapacidades criadas a partir dos julgamentos e condenações que prolatamos o tempo todo. Julgamos meramente pelo prazer inconfessável de condenar. Condenamos para fugir da verdade. Quem somos não nos interessa saber. Compreensão, paciência, mansidão, tolerância e gentileza estabelecem os níveis de amor e sabedoria já alcançados. Servem de instrumentos à percepção e à sensibilidade, as bases da consciência individual. Nela reside a capacidade de destruir velhos olhares no compasso da construção de novas verdades a nos guiar e mover. A necessidade de regenerar e reinventar a si mesmo surge a partir do momento em que conceitos até então usados se mostram obsoletos, ineficazes para solucionar as questões existenciais inerentes ao cotidiano. Ocorre que, ainda que teimemos em não admitir, aos olhos do mundo, o poder é proporcional a quantificação do mal que o indivíduo pode praticar. Não falo apenas sobre assassinatos e lesões corporais, mas também na supressão de direitos e coações emocionais, sociais ou econômicas. Há muitas formas de punir e disseminar o ódio. Vivemos nas duas pontas, punimos e somos punidos em nossos relacionamentos. Como se percebe, por intermédio das próprias incompreensões, permanecemos estáticos frente a um inimigo de enorme dinamismo e mimetismo. Concedemos poder ao mal ao fazer uso de ameaças, explícitas ou implícitas, veículos pelos quais estabelecemos as relações de poder, sejam familiares, sociais ou profissionais. Deste modo, acreditamos ficar protegidos de tudo aquilo que nos amedronta”. Balançou a cabeça em negação e murmurou: “Na contramão do amor e da liberdade, empoderamos universo adentro exatamente aquilo que repudiamos mundo afora”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei se essa era última fronteira do mal dentro da gente. Ele disse não com a cabeça e explicou “<strong>Diante dos desobedientes</strong>, daqueles que se recusam a ceder ou negociar com o mal<strong>, será preciso executar a ameaça</strong>, sob pena de descrédito ou enfraquecimento da autoridade que o orgulho e a vaidade exigem para existir. É também o preço cobrado ao medo. Somos compelidos à prática do mal. Não por ninguém, mas movidos pelas nossas próprias sombras, incoerências e incompreensões. Antes, porém, num gesto de autodesculpa, nos convencemos não haver restado outro recurso, senão o mal como único instrumento capaz de restabelecer o equilíbrio, respeito e a justiça às relações. Lidamos com o mal como se fosse uma ferramenta indispensável à vida. Assim, por consequência inevitável, na maior de todas as contradições humanas, vivemos como se o mal fosse necessário à felicidade. Em verdade, apenas mostramos o quão distante estamos do amor, ilustrando o pouco que conhecemos da força transformadora e poder restaurador deste sentimento sagrado. O respeito e o equilíbrio são construções internas erguidas pelo viés do amor-próprio e da autoestima. O aspecto pedagógico é pressuposto fundamental a todos os atos de genuína justiça. Não se educa sem amor nem se caminha sem virtudes”. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O médico prosseguiu: “Os bons ainda se mostram tímidos, os maus sempre foram audaciosos. Para construir há poucos voluntários; para destruir a fila é enorme. Basta notar a quantidade e a qualidade das críticas feitas em comparação aos elogios que tecemos todos os dias quanto ao comportamento dos outros e as coisas do mundo. Falamos o que vemos. Cada um enxerga com os olhos que tem. Haverá graças ou desgraças, maravilhas ou catástrofes em um mesmo evento a depender do observador. Portanto, <strong>sempre haverá carrascos à postos para executar a sentença</strong>. Muitas vezes, somos nós a condenar e aplicar a pena em ato contínuo. Implacáveis na execução, desfalecemos na revolta e na tristeza do vitimismo insensato quando o jogo se inverte e temos de arcar com as consequências da punição que foi imposta à revelia de nossas boas intenções. Nos julgamentos das relações cotidianas, defesas são desprezadas e meras suposições têm valor de provas cabais. Quem se vale da espada da insensatez e da maldade para condenar não pode reclamar do pescoço exposto ao gosto da guilhotina alheia. Desde tempos imemoriais, usamos a paz como argumento para autorizar a guerra. A tirania valida a opressão como sendo o preço da liberdade. Carrascos somos todos quando usamos as pomadas das incoerências, permissividades e medos na tentativa de evitar a gangrena das feridas provocadas pelas próprias incompreensões”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confessei que, embora aquelas palavras me servissem de espelho, eu nunca tinha me visto pela ótica do carrasco. O médico se calou por alguns instantes, como quem reflete antes de falar para que não restasse nenhum mal-entendido, e ressaltou: “O mal precisa ser estancado no limite dos recursos necessários. Ultrapassá-los é também se valer do mal. Opor-se ao mal com a força do bem é um dever de quem está compromissado com a própria luz. Ceder ao medo ou a qualquer outro interesse para negociar com o mal, outro erro crasso. Estar atento aos sentimentos e ideias que o movem a cada instante é fundamental para não se deixar enganar pelo mal, se valendo dele a pretexto de fazer a coisa certa. Se não houver virtudes na ação, as corrija imediatamente. Algo em si está fora do prumo. Como ensinou o maior dos mestres há dois milênios nas colinas de Kurun Hattin, estamos mais preocupados em apontar o cisco nos olhos dos outros do que em retirar a pedra que existe nos nossos. Enquanto enxergarmos mal pela quantidade de entulhos que impede a perfeita visão, estaremos inaptos para julgar. Ninguém pode avaliar o que não enxerga nem entende. Não podemos condenar quem está em cima da árvore do nosso quintal se não conseguimos ver os animais selvagens que o espreitam. Muitas vezes, essas feras somos nós. Jamais podemos esquecer das emoções ainda indomáveis que continuam a nos arrancar do eixo de luz. Elas são comuns a todos. Seremos medidos com a régua que usarmos para medir os demais, ensina outro trecho daquele texto sagrado. <strong>Ocupar a função do carrasco é como usar a serra do marceneiro</strong> sem o conhecimento indispensável ao manejo. <strong>Impossível não cortar a mão</strong>. Incontáveis são as feridas gangrenadas na alma a espera de cura”. Fez uma pausa antes de concluir: “Viva em função da prática do bem. Abdique de qualquer mal em suas relações, conquistas e escolhas. Aperfeiçoe-se a cada obstáculo. Virtudes agregadas e verdades descortinadas são fundamentais ao aprimoramento pessoal. Aguce a percepção e a sensibilidade para que sempre encontre soluções criativas e inusitadas diante das dificuldades inerentes ao dias. Lembre-se, problemas ocultam grandes mestres. Encontre-os e terá acesso às maravilhas da vida e do mundo. Faça o melhor que puder e reserve a aplicação da justiça a quem de direito, atributo e competência. Somos partes de uma perfeita teia confeccionada em prol da evolução individual e coletiva. O amor e a sabedoria regem as leis cósmicas no equilíbrio e ajuste de tudo e todos nessa fantástica escola-oficina planetária. Inexoravelmente. Sejamos réus ou magistrados. Sem privilégios nem exceções”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fomos interrompidos por uma enfermeira. Um dos soldados feridos precisava de cuidados imediatos. Era hora de partir. Agradeci a conversa e perguntei por onde eu deveria seguir. O médico apontou com o queixo na direção de uma enorme fogueira próxima ao acampamento. Acreditei que fosse proveniente da explosão de um projétil. Diante do meu espanto, ele balançou a cabeça para que eu confiasse sem dar espaço ao medo. Não se tratava de fogo físico, porém, místico. Uma mandala. O fogo como elemental de transmutação. Atravessei o portal e segui a viagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Quatro</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Se as pessoas não temem a morte,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Não há como as dominar com ameaças de morte.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Diante dos desobedientes</strong> <strong>será preciso executar a ameaça.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sempre há carrascos à postos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para executar a sentença.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ocupar a função do carrasco</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É como usar a serra do marceneiro.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Impossível não cortar a mão.</strong></p>
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		<title>TAO TE CHING (Septuagésimo terceiro limiar &#8211; As entrelinhas do Caminho)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Aug 2024 14:37:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[TAO TE CHING]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Amsterdã, anos 1600. Eu flanava pelas ruas pulsantes da cidade quando tive a atenção voltada para uma pequena aglomeração na porta de uma sinagoga. Aproximei-me. Várias pessoas falavam ao mesmo tempo. Comentavam sobre o chérem aplicado a um homem pelas autoridades religiosas daquele templo. O chérem equivale à excomunhão no catolicismo. Na prática, um banimento. Diziam que ele sustentava a necessidade da interpretação subjetiva dos textos sagrados ao invés das leituras dogmáticas e literais. Argumentava que enquanto aquelas expandiam, estas restringiam. As suas ideias causavam interesse e comoção por toda parte. Falavam também que havia recusado o convite para lecionar na prestigiosa Universidade de Heidelberg, pois teria de acatar as normas ideológicas da instituição, o impossibilitando de prosseguir com sua obra de maneira independente. Sustentava-se com o parco salário de polidor de lentes óticas. Perguntei onde se localizava a oficina. Um rapaz me disse para atravessar o canal e dobrar na segunda rua à direita. Ficava ao lado de uma loja de flores. Não era distante dali.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao chegar ao ateliê, me deparei com um homem de baixa estatura, cabelos crespos e negros, sobrancelhas espessas e um olhar que misturava perspicácia e sinceridade. &nbsp;Ao notar a minha presença, repousou as ferramentas sobre a bancada e me ofereceu um sorriso amável. Fez um gesto para eu me sentar à sua frente. Tive a nítida sensação de que me aguardava. Após me acomodar, comentei sobre a sua coragem de manter as suas convicções diante das autoridades religiosas, se recusando a se retratar numa época perigosa à liberdade de pensamento. A nuvem sombria da Inquisição pairava sobre a Europa. Havia coragem também em recusar o cargo, salário e prestígio de professor em uma aclamada universidade. Abdicara de dias mais confortáveis e seguros para se manter leal a si mesmo. O filósofo sorriu e pontuou: “<strong>A coragem causa a pior morte</strong>. De outra face, <strong>a coragem oferece o melhor da vida</strong>”. Falei que havia uma contradição naquelas palavras. Ele contrapôs: “Assim como nos textos sagrados, não se permita interpretar literalmente a vida. Lembre que aqueles se dedicam ao entendimento desta”. Pedi para que explicasse melhor. O escritor ponderou: “A caridade movida pela generosidade é uma virtude; se praticada por vaidade ou interesses mesquinhos se mostrará como um triste vício. Uma opinião honesta pode ter a intenção de esclarecer, mas pode ocultar a vontade única de ferir. O gesto humilde pode conter um desejo sincero de aprendizado e crescimento, porém, pode esconder o sentimento de orgulho reprimido. A fé pode iluminar para nos libertar dos medos ou aprisionar nos porões do fanatismo. Negar um empréstimo a um amigo pode se tratar de medida sensata a incentivar o trabalho ou mera desculpa para disfarçar a avareza. Diferente não é com a coragem. Sem a devida prudência, a valentia é ato de suicídio inconsciente. Com equilíbrio e bom senso, sem a ingenuidade de ignorar os riscos inerentes à escolha, será uma indispensável estrada a nos levar para além de quem somos. A vida exige virtude. Contudo, <strong>na mesma virtude </strong>você<strong> se perderá entre benefícios e prejuízos</strong> se analisar o gesto apenas pelo viés da aparência, desprezando as exatas intenções que as movem. Luz e sombras se confundem em nós enquanto não tivermos a clareza necessária à perfeita distinção. Faz-se indispensável compreender não apenas as razões e sentimentos que nos movimentam, mas entender mais sobre percepção e sensibilidade, os pilares da consciência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Interrompi para questionar se razão e sentimento não são sinônimos de percepção e sensibilidade. O artesão disse não com a cabeça e esclareceu: “Trata-se de uma confusão comum que atrapalha bastante a jornada do autoconhecimento, base de toda a evolução. Pensamos e sentimos. Contudo, nem sempre compreendemos a exata origem de cada ideia ou emoção, por qual motivo nos habitam e direcionam. Um processo determinante ao entendimento de quem somos e de como entendemos a realidade e, porquanto, de como nos deslocaremos pelos dias. A razão costuma estar subjugada aos sentimentos. Mais do que percebemos. Quando dominamos as paixões, as utilizamos como força motivadora veiculada com entusiasmo, alegria e esperança. Se dominado por elas, temos as escolhas escravizadas pelo querer obsessivo ou aprisionadas por um medo devorador. No entanto, o indivíduo somente consegue compreender esse relacionamento entre razão e emoção através da percepção e da sensibilidade. A percepção é uma leitura extrassensorial realizada sobre si mesmo e tudo mais ao redor, apenas possível quando conseguimos nos distanciar com a devida isenção da arena de combate entre pensamentos e sentimentos. Para entender esse relacionamento, será preciso se colocar como observador e personagem de si mesmo a um só tempo. Somente então conseguirá discernir as virtudes dos vícios. Quanto mais aguçada for a sensibilidade, mais aperfeiçoada será a percepção. A sensibilidade amplia e aprofunda a percepção. Permite um entendimento para além das crenças e paixões que envolvem todas as questões. A origem de cada ideia, emoção e sentimento a nos moldar o raciocínio e argumentos. Haverá visibilidade sobre os elementos ocultos à superfície dos acontecimentos. Juntos, percepção e sensibilidade permitem a leitura dos textos não escritos pelos fatos, porém, determinantes à compreensão da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma breve pausa para eu me alinhar ao arco filosófico e prosseguiu: “A razão pode controlar o sentimento, porém, não é capaz de o transformar. Você consegue travar o ímpeto revanchista do ódio. Impedir que as suas reações sejam movidas pela ira. Sem dúvida, uma grande vitória. No entanto, a razão jamais o desmanchará. O ódio continuará fazendo morada no seu coração. Não se engane, a mágoa é o ódio controlado pela razão. Você até pode acreditar que o tempo se encarregará de resolver tudo. Ledo engano. O tempo é uma estrada que podemos percorrer ou ficar estacionados em suas margens. Tudo parecerá bem até que surja algo que faça o ódio emergir das entranhas para o dominar, atordoar e enlouquecer. Ou adoecer. Não se espante com que é seu e sempre esteve contigo”. Indaguei como fazer para me libertar deste sentimento corrosivo. O filósofo respondeu de pronto: “O amor. Somente um novo sentimento pode desmanchar um velho sentimento. Este poder não compete a razão. Apenas o amor será capaz de transmutar definitivamente o ódio em compaixão e perdão”. Indaguei como fazer para o amor germinar. Ele respondeu: “O amor é um jardim que floresce à medida que o semeamos. Todos os dias mude o dia de alguém. Ofereça um sorriso, abraço ou palavra. Doe o seu tempo, a sua escuta e as suas mãos. Seja delicado e esteja disponível para servir em qualquer lugar e a todo momento. Tudo mais é consequência. Diante do poder avassalador do amor, a mágoa se sentirá insensata e, envergonhada, desaparecerá para sempre do seu coração”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falei que era mais complicado do que eu imaginava. O artesão sorriu e disse: “<strong>Muitas são as nuances da Luz. Nem para o sábio o entendimento é fácil”</strong>. Fez um gesto com a mão e esclareceu: “Não é fácil porque não é simples. Há muitas camadas de enganos, condicionamentos, crenças e fugas que é difícil de descortinar. Ao levantar as mantas do orgulho e da vaidade, que confundimos com autoestima e instinto de preservação, descobrimos alguém que não somos. Nem todos estão prontos ou querem lidar com a verdade. Isto faz da humildade, da simplicidade e da coragem virtudes essenciais à travessia”. Bateu com o dedo indicador na bancada para ressaltar as próximas palavras e falou: “Os seus gostos e sabores têm mais influência para lhe dizer o que é bom do que a sua razão. Submetemo-nos a situações e pessoas na contabilidade dos nossos desejos e paixões, creditando a elas vícios e virtudes, estabelecendo padrões de medo ou esperança à realidade. Encontramos virtudes com menor grau de exigência naqueles que gostamos, relevamos os seus erros com maior facilidade. O inverso se aplica com aqueles que não nutrimos simpatia, nos quais os vícios ressaltam aos nossos olhos e os enganos, apesar de semelhantes, não merecem desculpas. A razão se encarregará dos devidos argumentos e raciocínios tortuosos a sustentar diferentes opiniões para interlocutores em igual situação. No mesmo diapasão, fatos condizentes às crenças que nos agradam fomentam a esperança. Do contrário, nos causam dissabor ou medo. Crenças costumar ter maiores conexões com os sentimentos do que com a razão. Somos propensos a acreditar naquilo que nos conforta o coração e exige menor esforço. O sentimento acalma ou apavora a razão; por sua vez, a razão é capaz de educar o sentimento. A simbiose entre razão e sentimento é absoluta, causa de rigorosos cárceres emocionais ou de valiosos degraus da liberdade, a depender do nível de percepção e sensibilidade do indivíduo. As filigranas da Caminho são sofisticadas porque exigem simplicidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pedi para que falasse mais sobre a nuances dessa viagem rumo à verdade e, porquanto, à luz. O artesão pontuou: “Existem alguns aspectos indissociáveis <strong>ao Caminho. Vencer sem lutar</strong> é um deles. Um dos maiores enganos consiste na crença de que estamos em guerra com outras pessoas. Vemos como inimigos aqueles que nos criam obstáculos ou atrapalham. Em verdade, ninguém derrota ninguém. Cada um vence a si mesmo ou não conhecerá nenhuma vitória. Superar os vícios comportamentais, os transformando em virtudes; iluminar as próprias sombras desmanchando medos, conflitos e sofrimentos. Nisto se resume a bagagem do viajante. Antagonistas não são como os adversários dos folhetins; eles estão em nossas vidas para nos transformar em pessoas diferentes e melhores, despertando poderes advindos do amor e da sabedoria ainda adormecidos na alma, para que possamos seguir em frente sem se deter ao comportamento de ninguém. Quanto maior a resistência oposta, maior será o poder revelado. Portanto, agradeça aos seus supostos inimigos”. Questionei que poderes eram estes. Ele respondeu: “Um estágio mais elevado de equilíbrio e força de movimento internos. Novas virtudes agregadas e um pouco mais da verdade alcançada. Maior suavidade e leveza nos deslocamentos pelos dias. A realidade se modifica a cada mudança de olhar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O limpador de lentes continuou: “Outra característica valiosa é quando conseguimos <strong>responder sem falar”</strong>. Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “Na filosofia oriental se usa o termo ensinar sem ensinar. Nas entrelinhas, os textos sagrados das mais diversas tradições falam sobre a importância da atitude pessoal como forja de transformação do mundo. Um exemplo vale por mil discursos. Não à toa, dos grandes mestres, cujas passagens foram angulares no ajuste de rota da humanidade, nenhum deles deixou uma única linha escrita. Suas vidas responderam por eles. Ensinar através da ação registra a presença dos melhores sábios”. Ao notar o meu interesse, ele prosseguiu: “Do mesmo modo, o Caminho <strong>convida sem chamar</strong>. Jamais espere por uma solenidade. O genuíno viajante não aguarda por mensageiros celestes, conjunção dos astros ou momento econômico propício. O interesse surge na necessidade de dialogar consigo mesmo, com clareza e entendimento para que possa descobrir, encontrar e conquistar a si próprio, desconstruindo todas as incompreensões internas, causa dos seus medos, angústias, conflitos e sofrimentos. Trata-se da denominada tomada de consciência, na qual compreende que o Caminho rumo à luz é uma jornada interior realizada por intermédio das experiências vividas no mundo. Nenhum acontecimento será ruim se for fator de aprendizado e crescimento. Este simples entendimento é o guardião sagrado da semente das plenitudes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei quanto tempo é necessário para completar a viagem. O escritor sorriu, como se tivesse de explicar o óbvio a uma criança, e disse: “O tempo é a estrada do viajante. Ocorre que no Caminho o tempo não se apresenta cronologicamente como o conhecemos. Não se mede por dias e séculos, mas por intermédio dos ciclos evolutivos concluídos. Entenda por evolução o aprendizado e a transformação de uma pessoa nela mesma, porém, diferente e melhor. Essa estrada termina onde o tempo se encerra por não mais se mostrar necessário. A cada trecho da caminhada, vivemos distintos personagens nas mais diversas situações para que nenhuma experiência nos seja negada, tampouco algum conhecimento reste suprimido. Assim fechamos os ciclos das múltiplas existências, ou a Roda do Samsara segundo os orientais, método planetário para a formação de mestres. Cada um alcançará a graduação ao seu tempo, à maneira como escolheu para percorrer a estrada e lidar com as adversidades que se apresentam. O Caminho <strong>desenha </strong>a perfeição<strong> sem pressa</strong>, respeitando, o ritmo, a vontade, interesse e capacidade do viajante, de acordo com a percepção e sensibilidade pessoal”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber se todos estavam obrigados ao Caminho. O homem esclareceu: “Ninguém é obrigado a fazer nada. No entanto, não há como se eximir das consequências sobre as suas ações e omissões. Cada pessoa é herdeira dos próprios atos. A responsabilidade é pressuposto indissociável à liberdade. Trata-se de uma lei de amor e sabedoria, equilíbrio e justiça da qual nenhum indivíduo poderá se desvincular. &nbsp;Sem exceção nem privilégio. Embora imperceptíveis a muitos, <strong>imensas são as redes do Caminho</strong>. No ritmo do tempo de cada pessoa, todos os equívocos serão ajustados, os erros corrigidos, os enganos revelados, as maldades sanadas. Das sombras rompem as virtudes. Não se iluda nem se preocupe, <strong>embora sejam largas as malhas</strong> da rede, a ponto de, por não a enxergarem, alguns caçoarem da sua existência, outros se sentirem abandonados, <strong>ninguém escapará</strong> ou será esquecido. A responsabilidade tem o tamanho da liberdade, o alcance da consciência, o peso do poder concedido a cada experiência e a régua pela qual o indivíduo mediu tudo e todos. Sendo assim, eventuais reclamações não terão cabimento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um cliente entrou na loja. Perguntou pelas lentes encomendadas. O artesão pediu que voltasse à tarde, quando já estariam prontas. Entendi que ele precisava retornar ao trabalho. Agradeci a conversa. Era hora de partir, mas eu não sabia por onde. Disse isto ao filósofo. Ele deixou que um raio de sol incidisse sobre uma das lentes. O facho de luz se desfez em múltiplas cores refletidas no formato de uma mandala na parede da oficina. Agradeci a conversa. O escritor se despediu com um sorriso alegre. Atravessei o portal para seguir a viagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poema Setenta e Três</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A coragem causa a pior morte;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A coragem oferece o melhor da vida.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Na mesma virtude se perderá entre benefícios e prejuízos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Muitas são as nuances do Céu;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nem para o sábio o entendimento é fácil.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Tao do Céu vence sem lutar,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Responde sem falar,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Convida sem chamar,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Desenha sem pressa.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Imensas são as redes do Céu.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Embora sejam largas as malhas,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nenhum peixe lhe escapa.</strong></p>
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