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	<title>MANUSCRITOS VII &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS VII &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Fé</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 21:33:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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					<description><![CDATA[“Não faz sentido”, retrucou Valentina com a espontaneidade que lhe era própria. Isso foi há muito tempo, logo que a monja iniciou na Ordem. Estávamos assistindo a uma aula do Velho, o monge mais antigo do mosteiro. A Ordem Esotérica dos Monges da Montanha é uma irmandade filosófica cujo objetivo...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“Não faz sentido”, retrucou Valentina com a espontaneidade que lhe era própria. Isso foi há muito tempo, logo que a monja iniciou na Ordem. Estávamos assistindo a uma aula do Velho, o monge mais antigo do mosteiro. A Ordem Esotérica dos Monges da Montanha é uma irmandade filosófica cujo objetivo é estudar os textos sagrados de modo a instrumentalizar o bem viver. Considera-se sagrado tudo aquilo que nos faz pessoas melhores. Os Evangelhos, tanto os canônicos como os apócrifos; dos poemas do Tao Te Ching aos de Rumi; da poesia épica do Bhagavad-Gita à Codificação Kardequeana; dos diálogos de Platão à filosofia dos estoicos; da Ética de Espinosa à leitura psicanalítica contemporânea, entre muitos mais, existe um material sem fim a servir de ferramenta ao indispensável autodescobrimento e às consequentes transformações pessoais, engrenagem basilar da evolução. O Sermão da Montanha, valioso texto contido no Livro de Mateus, síntese dos ensinamentos Crísticos, é o eixo ordenador das atividades acadêmicas no mosteiro. Um roteiro para a jornada espiritual. Um autêntico manual transmutador. Neste mesmo caderno, algumas páginas adiante, há um trecho onde o autor reproduz uma fala de Jesus: <em>Não pensem que eu vim trazer paz ao mundo. Não vim trazer a paz, mas a espada. Eu vim para pôr os filhos contra os pais&#8230; Os piores inimigos de uma pessoa estarão dentro da própria casa</em>. Essas palavras deixaram Valentina inconformada: “É incoerente que Jesus tenha proferido tais palavras. A paz é uma das inegáveis conquistas da evolução. Não faz sentido acreditar que o legado desse grande mestre seja a guerra”. Eu me alinhei à monja. Não poderia um texto sagrado insuflar ao conflito e desestimular à paz. Assim como ela, eu dava os primeiros passos na Ordem. Em alvoroço, alguns colegas sugeriram que talvez houvesse erro de tradução ou o texto original tivesse sofrido alguma alteração indevida. Eram as únicas hipóteses, concordou a turma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como de costume, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, aguardou pacientemente que todos manifestassem suas opiniões. Depois, arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Nada há de errado com o texto. Jesus se valia de parábolas e figuras de linguagem para expandir o alcance das mensagens aos mais diversos níveis de consciências. As muitas camadas de interpretação são características naturais aos livros sagrados. O entendimento se modifica conforme a evolução do leitor. As mesmas palavras adquirem amplitudes e profundidades diversas à medida que avançamos na estrada da evolução. Aguçam-se a percepção e a sensibilidade. A compreensão de ontem nunca será igual a de hoje, que, por sua vez, será diferente amanhã. A ausência de mudanças pode significar uma triste estagnação. A vida exige movimento”. Esperou que a turma absorvesse o preâmbulo e seguiu com o raciocínio: “Entre várias interpretações permitidas pelo texto em questão, todas válidas, há três que considero brilhantes. A primeira delas, trata da hipótese de o mestre estar se referindo à escola reencarnatória, na qual desafetos ancestrais retornam à experiência planetária em uma mesma família, para que a convivência e as necessidades em comum permitam o saneamento das dívidas conscienciais de outrora. Não é fácil. Sem dúvida, haverá muito desentendimento e aspereza até que surjam interesse e vontade em compreender a razão das diferenças, em mudar o olhar e os sentimentos, combater os ataques das sombras pessoais com as armas da luz. Esgotados por tanto esforço e nenhum resultado, talvez entendam o dano e a desnecessidade do ódio e da mágoa. Então, o amor passa a ter uma chance. Das ruínas e da tragédia se inicia a reconstrução da trajetória de duas ou mais almas, agora regidas pelo amor. Ninguém consegue tamanha vitória sem grandes transformações internas. Onde reinava o ódio, o amor construirá um império. Pode acontecer de nem todos os envolvidos entenderem a beleza da transformação oferecida por experiências desse naipe, e apenas um entre os seus integrantes esteja disposto a seguir rumo à luz. Nada o impedirá. Tampouco seria justo. O reino do amor erguer-se-á naquele que tiver lucidez para vencer a batalha em si mesmo. Aos demais, caberá as consequências das suas escolhas. O texto explica a função das famílias disfuncionais como oficinas evolutivas. Uma inegável oportunidade de aperfeiçoamento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma breve pausa antes de abordar a segunda interpretação que também admirava. O bom monge perguntou: “Quando vocês meditam, o que estão buscando?”. Uníssona, a turma respondeu se tratar de um exercício utilizado para encontrar a paz interior. O Velho nos surpreendeu: “Vocês ainda não entenderam a meditação”. Os alunos ficaram em polvorosa. Ele explicou: “Meditamos para conhecer o caos que nos arranca do eixo de luz. Tal e qual a um espelho, a meditação serve para mostrar as imperfeições, os erros, o que está quebrado e mal construído dentro da gente. Um importante exercício capaz de nos levar a origem das dores emocionais, onde se formam os sentimentos amargos que apequenam a vida ao impedir a profusão do pensar. Quando o olhar encurta as incompreensões se agigantam. O sofrimento se alastra. A verdadeira meditação nos convida à guerra intrínseca provocada pelos nós existenciais produzidos por experiências mal elaboradas. Desatar os nós exige vontade, coragem e autoestima de enfrentar a si mesmo e reelaborar as situações vividas através de novos elementos. Como numa equação matemática, ao trocar os sinais de subtração pelos de adição modificamos o resultado. Acredite, rever personagens e cenários desagradáveis do passado que nos prejudicaram, não para os absolver, mas para os perdoar, é uma guerra dificílima travada no próprio âmago. Assim como compreender e aceitar que muitas vezes nos sentimos prejudicados sem nenhuma razão sensata; apenas não sabíamos lidar com as contrariedades típicas da imaturidade. Há batalhas de muitos tipos, cada qual tem as suas, porém, todos temos guerras a travar. O silêncio da meditação no conduz a elas. São valiosíssimas pela libertação e paz que proporcionam. Contudo, ninguém encontrará a paz antes de enfrentar todas as confusões e conflitos internos para que possa reinterpretar e reconstruir a si mesmo. A paz é uma construção, jamais um lugar de fuga. <em>A espada</em> a que se refere o texto sagrado é o bom combate citado por Paulo de Tarso em uma das suas cartas igualmente sagradas: a luta interna, ininterrupta e atroz para transformar as próprias sombras em luz. A batalha do bem contra o mal, em verdade, é travada dentro de cada um de nós. Um luta diária e intensa. Não é nada fácil. Uma batalha de aperfeiçoamento intrínseco, onde aquele que queremos nos tornar terá de matar quem somos. Não existe outra vitória nem outro jeito de conquistar a paz”. Tornou a fazer uma pausa para observar se todos acompanhavam o arco filosófico proposto: “As mensagens de mestre Jesus convidam a esse indispensável combate interior”. Em seguida, concluiu: “<em>Os piores inimigos de uma pessoa estão dentro da própria casa</em>, explica o texto sagrado. Ora, sem importar a cidade ou com quem sem mora, em essência, cada um vive em si mesmo. Mora e convive com os seus sentimentos e ideias, alegrias e tristezas, frustrações e conquistas. Em mim, assim como em vocês, existe um universo personalíssimo em evolução. Os inimigos que atrapalham, prejudicam e o impedem de prosperar são as incompreensões do próprio indivíduo. Ninguém mais. A incapacidade de interpretar as situações, elaborar as experiências, de reagir aos acontecimentos e fazer escolhas diferentes furtam as maravilhas da vida. Não é nada contra ninguém. É cada um consigo mesmo. Sempre será. Qualquer outra guerra será desvio de propósito a negar a verdadeira batalha. Este é o sentido do texto quando fala em pôr <em>os pais</em> – como metáfora aos velhos vícios comportamentais – <em>contra os filhos</em> – uma alegoria à inovação e à regeneração pessoal. Nos ensinamentos do grande mestre não há uma única palavra sobre a necessidade em derrotar os outros, de que o mel da vida ou o Reino de Deus dependa daquilo que nos fazem ou permitam fazer. Em síntese, a vitória não consiste em vencer ninguém, salvo a si mesmo. A consagração da conquista reside na transformação interior. Os efeitos deste aperfeiçoamento reverberarão no jeito de ser e viver do viajante através da estrada do tempo. Um método seguro de superação e avanço, autonomia mental e emocional, leveza e suavidade, equilíbrio e força de movimento. Não existe outro campo de batalha para quem viaja rumo à luz. Tampouco, vitória maior”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, concluiu com a terceira interpretação da mensagem sagrada: “No contexto desse texto, mestre Jesus alertava aos apóstolos sobre os problemas que encontrariam no convívio com outras pessoas. Vivemos em um planeta de desafios e superações. Fundamentais à evolução, os relacionamentos são fontes inesgotáveis àqueles que têm sede em se aperfeiçoar. Tornarem-se mensageiros da luz não os deixaria à salvo das dificuldades do mundo. Haveria controvérsias, provocações e agressividade. Contudo, que não se acovardassem: <em>Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma</em>. Explicava sobre o tamanho dos desafios, sempre equivalente ao valor das superações. Que não negociassem a verdade nem fossem ingênuos: <em>sejam espertos como as serpentes, porém, mansos como as pombas</em>, orientava em outro momento da mensagem. Em outras palavras, que ficassem atentos ao mal para não sucumbir as suas armadilhas, sem jamais o usar como instrumento de vida. O grande truque do mal é fazer com que a maldade do mundo sirva de justificativa as nossas más ações e reações, uma eficiente maneira de nos manter distantes da luz. Enfim, esclarecia que a paz não está no mundo. Trata-se de uma conquista da alma”. Perguntamos quais das interpretações preferia. Ele deu de ombros e pontuou: “Elas não se anulam ou se excluem, porém, se completam”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo passara. Sentados à mesa na cantina do mosteiro, Valentina e eu, rememorávamos aquela aula. Comentávamos sobre as conquistas alcançadas, assim como as dificuldades nas quais ainda sucumbíamos. Em alguns aspectos, não tínhamos conseguido sair do lugar. Saber aonde ir não basta para fazer chegar. Confusões e desconfortos do cotidiano ainda nos negavam a paz. O bom combate estava distante do fim. Tentávamos entender o que impedia essa importante conquista. “O desconhecimento sobre a fé”, murmurou o Velho. Como estávamos de costas para a porta, não o vimos entrar. Enquanto se municiava com uma caneca de café, ouviu parte da conversa. O suficiente para entender as nossas dúvidas e dificuldades. Sentou-se à mesa conosco e comentou: “As virtudes são valiosas armas na luta em prol da própria evolução. Dentre todas, a fé é uma espada bem diferente das demais. Se me permitem uma imagem de ficção, seria uma espécie de Excalibur na luta travada pela luz contra as sombras, sendo o âmago do próprio indivíduo o sagrado campo de batalha”. Discordei. Não que eu não concordasse com o poder da fé, mas sobre o alegado desconhecimento quanto ao seu significado. O conceito de fé era notório. E, em maior ou menor grau, a fé era inerente a todas as pessoas. Até os ateus, desde que possuíssem profunda confiança em suas capacidades de realização, também eram dotados de fé. Valentina disse pensar da mesma maneira. O Velho nos olhou com candura e ponderou: “A perda do real significado de um conceito enfraquece a sua força e alcance. O motivo é simples. Basta imaginar como um mecânico terá o trabalho limitado se não souber usar uma das mais importante ferramentas à sua disposição na oficina”. Depois, perguntou: “O que vocês entendem como fé?”. Falei que era a crença absoluta em um poder maior e incomensurável. A partir do momento que estávamos alinhados aos propósitos desse centro de força, tínhamos os movimentos impulsionados e auxiliados. A monja acrescentou que a fé servia à conexão com o sagrado, uma ponte de interação aos planos superiores de existência. O bom monge franziu as sobrancelhas e murmurou: “Não está errado, mas também não está de todo certo”. Bebeu um gole de café e pontuou: “Esse desconhecimento faz desperdiçar boa parte do esforço empregado no bom combate”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de tantos estudos, aulas e livros ele vem nos dizer que não sabemos o autêntico significado da fé? Que as multidões também ignoram o melhor conceito e, com isto, desperdiçam o poder incomensurável oferecido por essa incrível virtude? Inquietos, confessamos que tínhamos dificuldade em acreditar que algo tão comum e corriqueiro na vida de todas as pessoas restasse incompreendido. O Velho ponderou: “Quando alguém acredita ser capaz e se mostra disposto a fazer, o campo energético pessoal de modifica em prol da realização. Atingir o resultado desejado dependerá de imponderáveis fatores, nem sempre alinhados à vontade do indivíduo. Lembrem que no Universo outros movimentos são executados simultaneamente, nem sempre no mesmo sentido ou com igual propósito. Muitas vezes o ganho está no fracasso de um objetivo, pois, reside nas lições e no amadurecimento oferecidos. De certo é que conseguirá ir muito mais longe de quem nunca acreditou ou não se colocou por inteiro na tarefa. Embora de inegável valor, acreditar é apenas o degrau inicial da fé”. Bebeu um gole de café e salientou: “O erro crasso quanto a fé está na crença comum por um determinado resultado sem a realização de nenhum movimento. Apenas acreditar que algo se realizará porque se tem uma crença é a antítese da evolução. Não acontecerá”. Valentina perguntou se poderíamos considerar a oração como um movimento. O Velho esclareceu: “Sem dúvida. A oração é um valioso canal de comunicação com as esferas sublimes, servindo de amparo e revigoramento, seja para restabelecer o equilíbrio energético e o fortalecimento moral, seja quando a solução está além da capacidade de realização do indivíduo. Contudo, jamais substituirá os devidos movimentos mentais, emocionais e físicos possíveis à concretização do resultado. A oração é uma ferramenta, nunca uma fuga”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir daquelas palavras, Valentina questionou se a fé era uma espécie de movimento. A crença na realização despertava a vontade, contudo, algo mais precisava para intensificar a atuação da fé. O Velho sorriu, disse sim com a cabeça, e pontuou: “Mover-se através da fé é trazer à tona o sagrado que nos habita. Assim, alcançar resultados até então impensados. Em suma, fé também significa ação. Não uma ação qualquer, mas um movimento diferenciado e, acima de tudo, em pleno alinhamento com a luz”. Valentina indagou o que seria um movimento diferenciado. O bom monge esclareceu: “Estar por inteiro na ação. Se o indivíduo estiver inseguro, com dúvida ou medo a fé restará fragmentada. Mente, coração e corpo precisam se movimentar como se a vida dependesse daquele resultado. Mesmo que o resultado não ocorra, a ação moverá a consciência a um olhar nunca alcançado. Isto se chama lucidez, a capacidade de encontrar portas onde antes só havia muros instransponíveis. Esta é uma das razões pelas quais o mestre afirmou que <em>a fé move montanhas</em>. O mundo e a vida se modificam à medida que pessoa compreende a si e a todas as coisas de maneira diferente. O resultado obtido nem sempre será aquele desejado de início, mas inevitavelmente oferecerá uma inusitada solução libertadora”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que compreender a fé como um movimento real dentro de si para se manifestar em realizações de vida me parecia estranho. Valentina compreendia as ideias do Velho melhor do que eu. Ela me corrigiu: “Não há nada de estranho. Em verdade, é revolucionário, pois, muda por completo o modo como lidamos com essa poderosa ferramenta de transformação. Fala sobre poderes que nunca ninguém ensinou a usar com tanta clareza”. Pedi para que explicassem melhor. O bom monge foi didático: “Em diversos textos sagrados, como o Livro de Mateus, os Salmos, o Apocalipse de João ou as cartas de Paulo, nos é ensinado que a cada pessoa será entregue conforme as suas obras. Ora, em nenhum momento falam que receberemos segundo nossas crenças. As obras são as realizações materiais e imateriais de cada pessoa. Tanto o bem como o mal praticados. As realizações pessoais se traduzem através de movimentos no âmago e deslocamentos pelo mundo. Fé sem ação é virtude vazia. Não tem nenhum poder ou alcance”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valentina sorriu ao me ver desconcertado. Era como se a minha casa, que eu sempre considerara bem arrumada, de um momento para outro mostrasse desordem até então ignorada. Perguntei como fazer os movimentos corretos para ativar a fé. O Velho balançou a cabeça aprovando o questionamento e esclareceu: “As prioridades. A crença é o primeiro degrau, os movimentos são o segundo, sendo as prioridades o terceiro elemento indispensável a restaurar a força da fé, um poder perdido na noite dos tempos”. Bebeu mais um gole de café e explicou: “Comece por entender as prioridades. Elas se erguem sobre dois alicerces: a ética e a bagagem. A ética, escrita pelas letras do amor e da sabedoria, ensina a discernir o bem do mal, a distinguir o certo do errado. Uma tarefa nem sempre fácil diante da complexidade das situações ou dos interesses e sentimentos em jogo. As virtudes são engrenagens fundamentais à aplicação da ética. Não se vive a ética fora das virtudes. Humildade, simplicidade, compaixão, sinceridade, mansidão, abnegação, delicadeza, coragem, entre outras, são atributos da genuína nobreza e essenciais à luz”. Fez uma pequena pausa antes de continuar: “O outro pilar das prioridades é a bagagem. Tudo aquilo que levamos conosco para o próximo trecho da jornada. O conteúdo da bagagem define o próximo destino da viagem, suas delícias e dificuldades. Acima de tudo, as prioridades falam do patrimônio necessário a quem quer acessar as Terras Altas. Os textos sagrados são abundantes em alertar sobre a importância das prioridades. Priorizar o essencial para deixar o supérfluo em segundo plano é parte da arte da evolução. O essencial nos conecta à luz e aperfeiçoa o conteúdo da bagagem. Preste atenção em alguns trechos do Sermão da Montanha:&nbsp; <em>Não acumulem riquezas do mundo, onde as traças e ferrugem destroem, os ladrões arrombam e roubam. Ao contrário, ajuntem riquezas morais e amorosas, as quais traças e ferrugens não podem corroer, nem os ladrões podem subtrair. Onde estiver as suas riquezas, estará a alma de vocês</em>. &nbsp;Percebam que o maior dos mestres ensinava sobre a importância do conteúdo da bagagem. Na mesma mensagem, um pouco mais à frente, volta a orientar: <em>entrem pela porta estreita das virtudes, a porta larga é o caminho fácil para o erro, o vazio e o desperdício da vida</em>. As prioridades elevam o nível das escolhas. O conteúdo da bagagem estabelece a luz ou a escuridão de onde está a alma. Ela nos mantém no raso ou nos conecta à eternidade. O grau de intensidade da fé não se mede pelo ardor da crença, mas por quem você é, pelas obras realizadas e a luz que já consegue reverberar. Cada parágrafo lembra da importância de nortear as escolhas pelos critérios a valorizar os interesses da alma. Enfim, as prioridades direcionam e intensificam o poder da fé ao máximo. Então, como a autêntica espada confeccionada na forja sagrada ao bom combate, a fé se manifesta com todo esplendor e poder. As prioridades definem o nível de comprometimento do indivíduo com a luz, com a evolução e com o divino. São com escolhas deste naipe que a fé impulsiona e agiganta de modo inimaginável. Uma pessoa franzina se mostrará mais forte do que outra de maior estatura e robustez. Não me refiro à agressividade, mas a força de movimento para ir além de quem sempre foi e a realizar o que nunca fez. A fé é o centro de força transformador da realidade individual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficamos algum tempo sem dizer palavra. Eu precisava alocar aquelas ideias nas prateleiras da razão. Voltamos a conversar quando o Velho disse que precisava ir. Alguns afazeres no mosteiro o esperavam. Coloquei a mão sobre o seu braço como maneira de pedir que esperasse mais alguns instantes. Em seguida, elenquei os três degraus da fé: acreditar, agir e priorizar. Argumentei que as prioridades deveriam vir na frente como orientadoras dos movimentos. O bom monge concordou com a cabeça e acrescentou: “Como em um organograma, as prioridades estão no degrau mais alto em função da sua importância direcionadora. Contudo, há uma relação simbiótica entre elas. Sem a crença, as ações restam enfraquecidas ou nem mesmo acontecem. Sem os devidos movimentos, a crença nada constrói. Sem o perfeito entendimento quanto as prioridades, os movimentos se tornam erráticos ou superficiais. Distante das prioridades, as crenças conduzem os movimentos rumo ao precipício do desespero, fanatismo e frustração. Então, não será a verdadeira fé nem haverá nenhuma evolução”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele pediu licença, se levantou e saiu. Comentei o motivo de ele ter esperado tanto tempo para nos ensinar algo tão importante como a fé. Valentina sorriu e apontou para o Velho com o queixo. Ele ainda se dirigia à porta da cantina. Ela ponderou: “Naquela época não estávamos prontos para entender toda a dimensão e poder da fé”. Sem demora, explicou o raciocínio: “Note como ele caminha”. &nbsp;Os passos do bom monge eram lentos, porém, seguros.</p>
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		<title>Estilo de vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 21:30:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">O ônibus que levava à pequena vila chinesa na subida ao Himalaia, onde mora Li Tzu, o mestre taoísta, apresentou problemas no motor. Para prosseguir a viagem na estrada íngreme, teria de aliviar parte do peso. Metade dos passageiros desceriam para aguardar outro ônibus. Como de costume, fazia muito frio, ao menos para quem sempre viveu nos trópicos ao nível do mar. Ponderei que aguardássemos dentro do veículo para aproveitarmos sensação de bem-estar permitida pela calefação, não afetada pelo defeito do motor. O motorista explicou que uma regra da empresa determinava que em situações como aquela a decisão caberia ao responsável pelo transporte. No caso, o próprio motorista. Ele esclareceu que o nível de vulnerabilidade dos passageiros determinaria quem prosseguiria e aqueles que aguardariam na beira da estrada por outro ônibus. Este foi o critério estabelecido. Enfermos, idosos e pessoas com crianças teriam preferência. De início, fiquei aliviado. Na época, eu beirava os sessenta anos de idade. Não tinha me atentado à longevidade dos habitantes da região que, não raro, alcançavam quase um século de existência usufruindo de boa saúde. Feita a seleção, eu tive de desembarcar. Ainda procurava pelo gorro e as luvas de lã na mochila, quando um senhorzinho veio conversar comigo. Disse estar disposto a ceder o seu lugar para mim. Sabia que eu morava em um país de temperaturas altas e teria dificuldade para lidar com o frio intenso da cordilheira. Agradeci, mas recusei. Ele insistiu. O outro ônibus demoraria a chegar. Explicou que nascera ali. O frio lhe era companheiro desde a infância. Não teria qualquer dificuldade em esperar por algumas horas ao relento. A voz da conveniência dizia para eu não perder a oportunidade, enquanto a voz da consciência me lembrava de que princípios e virtudes são ainda mais valiosos nas situações limítrofes. Numa atroz luta interna, falei que ficaria bem. Ele sorriu e entrou no ônibus. Foi quando, depois de revirar a mochila, me dei conta de ter esquecido de levar o gorro e as luvas. A minha luta contra o frio, já bastante difícil, ficaria ainda mais complicada. Instantes antes de partir, ao me observar pela janela e perceber o meu problema, o senhorzinho atirou um manto de lã na minha direção enquanto o ônibus seguia a viagem. Surpreendido e encantado pela atitude, gritei em agradecimento, mesmo sem saber se ele me ouviria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cheguei na pequena vila chinesa ainda de madrugada. O comércio estava fechado, assim como a única estalagem do local, onde eu sempre me hospedava. Assolado pelo frio, me dirigi à casa de Li Tzu. Como de costume, o portão estava aberto. Como a porta da cozinha sequer tinha chave, entrei. De cima da geladeira, Meia-noite, o gato negro que também morava na casa, me olhou entediado por alguns instantes e voltou a dormir em seguida. O forno à lenha estava aceso, oferecendo calor e aconchego ao ambiente. Acendi a luz. Sobre o fogão havia uma chaleira. Ao lado, dentro de um bule, algumas ervas apenas aguardavam a água quente para a infusão do chá. Preparei a bebida. Sem demora, Li Tzu surgiu na cozinha sem demonstrar surpresa com a minha presença. Tinha tido notícias do problema com o ônibus. Olhou para a lenha em brasa no forno e comentou: “Imaginei que aqui seria o seu refúgio nesta madrugada fria”. Apontou para o bule com o queixo e comentou: “Selecionei algumas ervas regeneradoras ao sistema imunológico. As misturei com outras que oferecem a sensação de bem-estar pelo relaxamento que proporcionam. Você irá se sentir melhor”. A delicadeza do mestre taoísta era encantadora e contagiante. A delicadeza é uma virtude típica ao estilo de vida daqueles que têm o cuidado de evitar qualquer mal, dano ou desconforto, por menor que seja, as outras pessoas, sem importar quem sejam. Em seguida, serviu-nos o chá e se sentou à mesa ao meu lado. Mostrei o manto de lã e contei a história com o senhorzinho. Falei da sensibilidade e preocupação de ambos comigo. Mostraram o quanto eu era importante para eles. O amor demonstrado através de atitudes como aquelas possuí um enorme significado pelo poder de acolhimento e transformação que proporcionam. Confessei que eu gostaria de possuir tamanha delicadeza no trato pessoal. Eu tinha de admitir que algumas virtudes me eram possíveis, outras eram inacessíveis por causa das minhas características pessoais. O mestre taoísta foi categórico: “Você será quem escolheu ser. Nem mais nem menos. Todos trazem em si o poder sobre a própria vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Discordei. Argumentei que há multidões desejosas em ter um estilo de vida diverso daquele que possuem, mas nunca conseguirão. E sabem disto. Eu também queria ser diferente de quem eu era. Embora tivesse tentado por longos anos, algumas particularidades me impediam de efetivar a necessária transformação para alcançar a sonhada conquista. Li Tzu não titubeou: “Se você fala de resultados externos, sem dúvida o raciocínio está correto. Contudo, conquistas exteriores não garantem a vitória interior. Nesta reside o sentido da vida, não naquelas”. Pedi que explicasse melhor. Ele esclareceu: “Não temos o menor controle sobre situações e circunstâncias do mundo, pois, dependem da vontade ou do interesse de outras pessoas convergirem com os nossos. São questões complexas que nem sempre dialogam com a capacidade pessoal. Quando acontece é maravilhoso pelo objetivo alcançado; quando não, também é maravilhoso por estarmos diante de novos desafios evolutivos. A força da vida consiste no poder pessoal de compreender as prioridades e aperfeiçoar as escolhas. Faz-se necessário distinguir onde reside o poder do mundo e onde está a força da vida. São estradas nem sempre alinhadas a uma mesma trajetória. Entender a diferença, assim como traçar uma rota que lhe satisfaça, define um genuíno estilo de vida. Ao contrário do que muitos acreditam, estilo de vida não se altera por fama ou dinheiro, mas na compreensão da importância do gosto e do olhar que o indivíduo tem em relação a si mesmo e ao mundo. Modificamos o jeito de viver ao ritmo das transformações interiores. Mesmo que as pessoas próximas não entendam nem queiram acompanhar. Não há outra maneira de evoluir e encontrar a felicidade. Isto está ao alcance de qualquer pessoa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falei que não era bem assim. Ponderei que temos personalidade e temperamentos próprios, além de estar sujeitos a outras influências, como características físicas e culturais. Sem contar as situações marcantes ou traumáticas do passado, indissociáveis à pessoa à medida de como se compreende. Sem negar a beleza da singularidade e a importância das transformações, algumas características, mormente as essenciais, não são passíveis de modificação. Li Tzu disse não com a cabeça e pontuou: “Esse raciocínio é contrário a ideia de evolução. Inexistem aspectos nocivos ou desagradáveis em uma pessoa que não possam ser aprimorados à perfeição. Evoluir é aguçar a percepção e a sensibilidade para estruturar um novo jeito de agir e reagir diante de todo tipo de situação. Somente isto muda um estilo de vida. Isso todos podem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argumentei que em razão de algumas experiências desastrosas é comum desenvolver um olhar pessimista, a desconfiança sobre tudo e todos, a aspereza nos relacionamentos, o estimulo à raiva, mágoas, inseguranças e medos, a descrença nas virtudes e no amanhã. São apenas alguns aspectos, entre muitos outros, que servem como molde definitivo ao jeito de ser e viver de uma pessoa. Eu era um exemplo dos meus próprios argumentos. Nascido em um bairro hostil e violento, no seio de uma família que não compreendia nem atendia as minhas necessidades emocionais, não havia mais como trocar a forja que laminou no fogo e no martelo a têmpera de quem eu havia me tornado. Algo em mim era passível de transformação; outro tanto jamais seria modificado. Eram marcas definitivas, afirmei com segurança. Delicadeza e paciência, apenas para ficar em alguns poucos exemplos, não eram para mim. O jeito brusco, irritadiço e impulsivo que eu reagia nas vezes que me sentia prejudicado era uma luta que eu sabia inútil. A mansuetude e a serenidade que eu tanto admirava em algumas pessoas, jamais estariam disponíveis para mim. Li Tzu me olhou com doçura e perguntou: “Você me diz que muitas das particularidades do seu temperamento e da sua personalidade, que tanto lhe desagradam, assim como comportamentos alterados e disfuncionais surgidos de situações desconfortáveis do passado serão carregados como fardo e ferida até o último dia do dia sem fim? Que somos vítimas e prisioneiros de características, fatos e circunstâncias sem possiblidade de cura ou libertação?”. Sim, era exatamente isso, afirmei. Temperamento e personalidade são características inatas ou adquiridas muito cedo, se solidificando com o passar do tempo, sendo impossíveis de ser esculpidas mais tarde, ainda que pese o desgosto pessoal. Algumas escolhas me eram permitidas. Outras não, ratifiquei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mestre taoísta bebericou o chá sem pressa, como se procurasse as palavras exatas que pudessem mostrar o equívoco de uma crença que me restringia e espremia quanto as minhas próprias possibilidades e capacidades. Ele ponderou: “Você é menos quando poderia ser mais. Isto acontece com quem tem medo de crescer”. Retruquei de imediato o absurdo da afirmação. Claro que eu queria mudar e evoluir. A questão é que eu tinha de ter consciência do que era passível de modificação e o que era imutável. Li Tzu explicou: “Evoluir é se tornar alguém até então desconhecido. Terá de reaprender a lidar com resultados diferentes daqueles aos quais estava acostumado. Assustado, duvidará se a mudança será benéfica. Por se tratar de uma inovação consciencial, uma revolução em si mesmo, teme não saber em quem se tornará. Adiará indefinidamente o momento do movimento. A mente é fértil na produção de desculpas e subterfúgios. Escolherá se amiudar na crença absurda da imutabilidade. Repetirá que não tem escolha até acreditar na própria mentira”. Bateu com o dedo indicador sobre a mesa e pontuou com seriedade: “Quem você é o trouxe até aqui, jamais conseguirá o levar adiante. Para seguir em frente terá que se transformar em outro, precisará ir além de si em si mesmo. E isto passa necessariamente por uma nova moldagem do temperamento e da personalidade como método indispensável a um estilo de vida diferente e aperfeiçoado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Achei estranho que o temperamento e a personalidade servissem para desenhar um estilo de vida. Li Tzu esclareceu: “São os alicerces centrais a sustentar os demais traços da transformação. A mudança no modo de vestir, no corte de cabelo, de residência, emprego e profissão, assim como tatuagens ou viagens a lugares exóticos, nem sempre refletem transformações internas. Não raro, demonstram insatisfações íntimas que gritam por compreensão sem que o indivíduo consiga fazer a exata leitura da confusão interna que lhe subtraí o sentido da vida. Funcionam como fugas para uma solução recusada. Em verdade e em essência, o estilo de vida apenas se modifica com a remodelagem do temperamento e da personalidade. Grosso modo, já que o assunto é vasto, o temperamento reflete como a pessoa lida com as suas emoções e sentimentos, como reage diante contrariedades e dificuldades. Por sua vez, a personalidade se aprimora à medida que o caráter e a ética se tornam mais valiosos do que os interesses materiais e desejos meramente sensoriais. O quilate das escolhas e a suavidade dos movimentos se refinam substancialmente. A consciência – seja sobre si, seja em relação a todas as coisas, pessoas e situações –, aos poucos, ganha clareza e perde a amargura. Um novo e genuíno estilo de vida se estabelece a partir da criação de uma criatura diferenciada. Mudam-se as prioridades, posturas, valores e direcionamentos. Não há outro jeito para encontrar as maravilhas do mundo e a alegria da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante daquelas definições, sim, era possível aperfeiçoar a personalidade. Sem dúvida, caráter e ética são passíveis de lapidação. Eu era prova disto. Prioridades e escolhas comuns tempos atrás eram inconcebíveis nos dias atuais pelos erros e absurdos que agora eu conseguia enxergar. Sob o aspecto moral, aquele homem não existia mais. Educar-se tem, entre outras finalidades, aguçar a capacidade de discernir o certo do errado, não se valer do mal sob a equivocada crença de fazer o bem. Um aprendizado necessário e sem fim. Essa era a face cabível à evolução consciencial. De outra face, sobravam motivos para eu acreditar na imutabilidade do temperamento. Eu também era prova disto. Por muito tempo busquei por um improvável equilíbrio emocional capaz de me manter no eixo da luz quando diante de contrariedades e problemas provocados por outras pessoas. Nunca consegui; por fim, desisti. Para mim, definitivamente, o temperamento era uma característica inata ou adquirida na tenra idade que, com o passar do tempo, se tornara imutável. Li Tzu explicou: “A origem do erro está na premissa do raciocínio. Ninguém tem o poder de roubar a paz de ninguém. Cada pessoa faz isso consigo mesma. Acontece quando se deixa dominar pela raiva”. Interrompi para dizer que eu não gostava de sentir raiva. O mestre taoísta ponderou: “Ninguém gosta. É desagradável, nos deixa mal, furta o que há de melhor em nós. A raiva é uma nefasta herança ancestral. A raiva sempre foi usada como instrumento de dominação, subjugação, convencimento, para dobrar alguém as nossas verdades e interesses. Fruto da ignorância e do egoísmo, a raiva nos priva da serenidade, da sensatez e do equilíbrio. Quem me maltrata não é a raiva alheia, mas a minha própria raiva. O que me prejudica não é o comportamento dos outros, mas a incapacidade de interpretar e reagir a eles de outra maneira”. Surpreso, indaguei se ele sugeria que sentir raiva era uma simplesmente uma escolha minha, sem qualquer conexão com a ação vinda em minha direção. Li Tzu não pestanejou: “Sim”, respondeu como se nenhuma outra palavra fosse necessária. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se era assim, questionei o motivo pelo qual eu não conseguia reagir sem raiva em situações de provocação, contrariedade e conflito. O mestre taoísta franziu a sobrancelha e afirmou: “Falta coragem”. Falei que não fazia sentido. A coragem nada tinha a ver com a raiva, afirmei. Li Tzu explicou: “Estar diante de um problema, dificuldade ou qualquer outro desafio existencial, por condicionamento atávico, nos remete à sensação de guerra. Ora, desde tempos imemoriais, a raiva e o medo são os sentimentos comuns aos campos de batalha. Como o medo nos torna impotentes, aprendemos a usar a raiva para guerrear. De modo inconsciente, acreditamos que a raiva é o sentimento adequado às lutas. Um vício comportamental que aplicamos aos relacionamentos atuais de todo tipo ou espécie. A raiva traz a ilusão de força. Ser mais forte que o outro equivale a vencer a guerra. Um engano comum e vulgar. É neste ponto que nos perdemos de nós mesmos. Afastamo-nos da essência que individualiza, embeleza e ilumina. Então, tombamos no desequilíbrio emocional que tanto fragiliza e reduz a capacidade de movimentos internos e deslocamentos externos”. Perguntei onde entrava a coragem nesse processo. Ele me desconcertou: “Falta coragem para ir a guerra sem medo nem raiva. Ficamos com a equivocada sensação de vulnerabilidade”. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu mais um gole de chá antes de continuar: “Refiro-me aos relacionamentos como se fossem batalhas conscienciais. E são. Nada há de errado nisto. O erro está em levar a raiva das guerras ancestrais aos atuais desafios existenciais. O indivíduo se perde e se amiúda, o mundo se estreita e corta, a vida amarga e segrega. As escolhas se reduzem, não porque deixaram de existir, mas pela incapacidade de as enxergar. A fragilidade pela perda de poder sobre si mesmo dá margem à instabilidade mental e emocional. A agonia parece não ter fim. Nos tornamos menos quando poderíamos ser mais. Ninguém nos ensinou a lutar sem raiva. É preciso aprender. Então, o temperamento, o qual se acreditava imutável, será remodelado pelas mãos de sentimentos nobres e ideias claras através da manifestação de virtudes como a humildade, a abnegação, a simplicidade, a paciência, a compaixão e a delicadeza. Há amor e sabedoria em todas as virtudes. A força de movimento se expandirá e o equilíbrio, até então impossível, será definitivamente conquistado. O sofrimento vai embora por falta de lugar onde morar. O indivíduo somente se torna senhor de si ao conseguir escolher os sentimentos regentes das suas ideias e escolhas. Do contrário, se manterá escravizado pelas emoções que sempre o apequenaram”. Em seguida, ressaltou: “Faz-se necessário reaprender a sentir os sentimentos. Somente a exata compreensão de cada um deles permitirá que sejam usados a favor da própria evolução”. Abriu um surrado livro do Tao Te Ching, que sempre ficava sobre a mesa da cozinha para consultas eventuais, e me mostrou a estrofe inicial do poema trinta e três: <em>Vencer os outros é poder / Vencer a si mesmo é iluminação</em>. Depois, concluiu: “Alterar verdadeiramente um estilo de vida consiste em mudar o campo de batalha. Nunca será nada contra ninguém. A vida encontra sentido na luta interna para aperfeiçoar a personalidade e redesenhar o próprio temperamento como única maneira de prosseguir na jornada rumo à luz. Não existe outra vitória. Tudo mais se resume a enfeites, maquiagens e enganos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dia amanhecia. Os alunos começaram a chegar para as aulas. Terminamos o chá sem dizer outra palavra. Não precisava. Ainda fiquei na vila por algumas semanas estudando com o mestre taoísta. Não precisava. A lição fundamental a um novo estilo de vida para eu melhor me relacionar comigo e com o mundo tinha sido ensinada naquela madrugada.</p>
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		<title>O código</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 21:27:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Cléo, a linda bruxa de corpo longilíneo, pele morena, cabelos negros, sempre com vestidos esvoaçantes e coloridos, foi interlocutora de algumas das experiências mais incríveis que vivi. Com desconcertante lucidez, contei com a sua ajuda muitas vezes para desvendar o olhar que me permitiu seguir adiante. Inobstante aos encontros que tive, ela faz parte do universo mitológico carioca. Para muitos, se trata de uma lenda urbana. Uma personagem ficcional criada para ilustrar contos e contextos em conversas repletas de mistérios e desprovidas de compromisso. Respeito quem pensa assim. Acreditar em algo ou alguém é, ou deveria ser, um processo de construção racional. Ocorre que a Cléo escapa à lógica cartesiana. Não tenho o menor controle de quando estarei com ela. Os encontros nunca aconteceram quando eu os quis, porém, nos momentos escolhidos pela bruxa, sem qualquer aviso prévio. As conversas sempre aconteceram no topo da Pedra Bonita, um enorme maciço de granito debruçado a setecentos metros de altura à beira do Atlântico no Rio de Janeiro. Subo a montanha, me sento de frente para o mar e espero. Poucas foram as vezes que a Cléo apareceu. Do mesmo modo que surgiu, desapareceu como que por encanto, bailando rodeada de gaivotas. Contudo, esses raros encontros foram angulares pelas transformações oferecidas, conforme narrei em algumas histórias. Impulsionar os processos de mudanças intrínsecas sintetiza o poder da sua magia. Em síntese, magia significa transformação. Ninguém muda sem que tenha o firme propósito de substituir, em definitivo, aspectos e características comportamentais que até então o definiram. Apenas a vontade não basta. Faz-se necessário entender o que é melhor para si, uma tarefa bem mais complexa do que parece. Todos acreditam saber o que é melhor para si. Orgulhosos, vaidosos e gananciosos, assim como mentirosos, criminosos e egoístas também se movem nessa crença. O melhor para si precisa estar conectado à evolução espiritual. Somente essa compreensão nos deixa prontos para reeducar a mente e o coração. Fazer germinar luz das sombras internas exige comprometimento consigo mesmo. Não é fácil deixar para trás velhos hábitos de pensar e sentir. Haverá mil vozes interiores – dos gritos do medo aos convites da conveniência – na promessa vã de acomodar os sofrimentos e evitar o enorme esforço inerente ao desafio da transformação. Desconfio que nada na Cléo é aleatório. Quando conseguimos silenciar as vozes dissonantes, ficamos prontos para as mudanças. Então, ela aparece. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por esses motivos, quando me procuram na tentativa de intermediar uma conversa com a bruxa, afirmo que ela não existe. Digo que a Cléo é uma personagem do imaginário popular, a qual me apropriei sem pedir permissão. Como sou incapaz de avaliar quando as pessoas estão prontas para realizar as mudanças que desejam, evito as frustrações típicas dos devaneios e das expectativas indevidamente criadas. Percebo que a maioria não leva a sério ou ainda não compreende o alcance e o poder das transformações. Estes, em maioria, querem apenas que o mundo se adeque aos seus desejos. Como jamais acontecerá, se tornam mal-humorados, impacientes, ansiosos e irritadiços. Todos eles, sem exceção, não sabem lidar ou negam a necessidade de aperfeiçoar o próprio olhar, aprimorar o pensar e aguçar o sentir. Enfim, fogem do esforço para mudar o próprio jeito de ser e viver. Preferem o desgastado discurso da incompreensão e da injustiça a que se dizem vítimas. Optam em transferir a responsabilidade sobre a própria vida. Desconhecem ou não querem aceitar que o poder da vida reside no âmago do ser. Ninguém o encontrará em nenhum outro lugar. Deixar de ser quem é para se tornar outro não é uma ideia rasa nem de entendimento imediato. Requer uma longa elaboração nos laboratórios da mente e uma criteriosa faxina nas gavetas do coração. Faz-se indispensável reaprender a pensar e a sentir. Um criterioso processo de desconstrução e consequente reconstrução de si mesmo. Afoitos e despreparados terminam por se decepcionar com a mesma rapidez de quem se lança ao mar bravio em bote frágil, desprovido de mapa e bússola, remo e leme. Não escrevo isso para desanimar ninguém, mas para não restar nem um traço de dúvida sobre a difícil jornada que terá pela frente. Entretanto, são nas dificuldades do trajeto que descobrimos as maravilhas da viagem. Expandir fronteiras nada tem a ver com chegar do outro lado mundo. Em verdade, fala sobre ir além das próprias limitações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De início, não foi diferente com a Glória. Uma amiga desde os tempos da agência de publicidade. Ilustradora de raro talento, trabalhou comigo na equipe de criação por muitos anos. Ela conhecia as minhas histórias com a Cléo. Glória esteve casada com o Paulo por quase duas décadas. Começaram a namorar ainda jovens, quando cursavam o ensino médio. Divorciaram-se havia poucos anos. Tinham a guarda compartilhada do único filho. Fora ele quem quisera se separar, contra a vontade dela, apesar dos maus-tratos que sofria. Não se tratava de violência física ou ameaças. Tampouco, de coação financeira, uma vez que ela era uma profissional conceituada e bem remunerada. Porém, de manipulação psicológica face a dependência emocional oriunda da insegurança quanto ao amor que o marido sentia por ela. Suas alegrias e tristezas variavam de acordo com o carinho ou a indiferença com que o Paulo a tratava a cada instante. Se recebia atenção e sorrisos, ficava bem. Caso ele a olhasse com descaso ou irritação, afundava em agonia até que o marido decidisse por reverter o ânimo da esposa. Por saber do poder que tinha sobre a mulher, a tratava conforme o seu humor ou interesse. Era um joguete nas mãos do marido. A terapia a fez entender o processo ao qual se submetia por livre escolha. <em>Cada pessoa tem sobre a gente o exato poder que concedemos a ela. Nem mais nem menos</em>, ensinara a terapeuta. <em>Jamais permita que algo ou alguém a arranque do seu eixo luz</em>. Ao invés de mudar a si mesmo como maneira de alcançar a própria autonomia emocional, Glória preferiu conversar com o Paulo para que ele modificasse o jeito como a tratava. Mais uma vez abdicou do poder sobre si mesma. Ao contrário do pretendido, Paulo se serviu disso para fazer troças da fragilidade da esposa. Ainda mais, não satisfeito, pediu o divórcio sob a alegação de que ela não estava a sua altura. Queria uma mulher forte. No início, Glória acreditou que a separação, ao menos, serviria para pôr fim ao seu sofrimento. Ledo engano. Nada muda enquanto não levarmos a termo a indispensável transformação interna. Apesar de divorciados, o comportamento de Paulo continuava a determinar como Glória se sentia. O fato de terem um filho ainda pré-adolescente, em guarda compartilhada, mantinha vínculos de convivência com ex-marido, suficientes para que o seu bem-estar emocional seguisse manipulado por ele. Falavam ao telefone assuntos referentes ao filho ou se encontravam, ainda que por poucos instantes, nos momentos em que a guarda do menino era trocada. Palavras que insinuavam, olhares de desprezo ou sorrisos sarcásticos eram o bastante para desmoronar as estruturas emocionais da mulher. Por mais que se preparasse, continuava refém do comportamento do ex-marido. Ao contrário do que os seus amigos acreditavam, Glória não tinha a menor vontade de reatar com Paulo. Entretanto, dias antes dos encontros, vivia a ansiedade em saber como restariam suas emoções depois que se falassem. Embora tivesse consciência do desequilíbrio e conhecesse o processo psicológico, não conseguia se livrar do sofrimento a que se impunha. A terapia dera a compreensão da realidade, mas faltava o movimento final de libertação. O detalhe angular. Acreditava que Cléo pudesse lhe mostrar. De início, como de costume, neguei a existência da bruxa. A ilustradora não acreditou nem desistiu. Todos os dias me enviava mensagens falando da sua disposição em se livrar do cárcere erguido pela dor. O sofrimento é a mais cruel das prisões. &nbsp;Um dia me procurou na editora. Sensibilizado pela sua firme determinação em encontrar a cura, concordei sob uma condição: faríamos uma única tentativa. Se a bruxa não aparecesse, Glória teria de buscar outro caminho. Ela concordou com um lindo e confiante sorriso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era o mês de abril. O outono é a melhor época para subir a Pedra Bonita. Os dias costumam ter temperaturas amenas, com o céu azul sem nuvens nem névoas. A vista é deslumbrante. Fomos no meio da semana, quando não há quase ninguém lá em cima. Sentamo-nos de frente para o mar, tendo o Rio de Janeiro aos nossos pés. A brisa macia da manhã trazia o pulsar frenético da cidade. Não se tratava de barulho. O silêncio possuía um império no alto da montanha. Era possível ouvir os compassos dos corações descompassados entre a beleza e a ruína. Tanto o da cidade como o da Glória. Fechei os olhos e me deixei levar pelos pensamentos. Como eu estava cansado por ter trabalhado bastante naqueles dias, sem me dar conta, adormeci. Acordei no final da tarde. Como uma sentinela de plantão, Glória aguardava sentada ao meu lado. Ela me olhou aflita. Estava na hora de descermos. A bruxa não aparecera. Uma lágrima rebelde desceu como um pequeno riacho a desbravar o belo rosto de uma mulher sedenta pela própria libertação. Fiz menção em me levantar. Ela me segurou pelo braço e, com a outra mão, fez um gesto para que esperássemos mais um pouquinho. Sem perder o bom humor, disse que as bruxas também atrasam. Rimos. Expliquei que era perigoso ficar ali à noite. Ela me apontou para o sol poente e falou que quando o astro tocasse no oceano, desceríamos. Haveria claridade suficiente até chegarmos ao carro estacionado próximo à rampa de decolagem das asas-deltas. Concordei. Sensibilizei-me ao notar que ela tentava conter o mergulho do sol com a força do olhar. Qualquer segundo a mais importava. Até que não houve mais como esperar. Resignada, Glória se levantou. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sob o enorme platô de granito, andávamos rumo à trilha de descida, quando escutei o grasnar das gaivotas. Na fração de segundo seguinte, me virei para a Glória. Repletos de esperança, os seus olhos sorriam. Próximo de onde tínhamos ficado o dia inteiro sentados, acompanhada pelos pássaros, Cléo rodopiava à beira do penhasco. Por um instante, hesitei em retornar por causa dos perigos da noite. Os olhos da Glória me imploraram para não ir embora. Pediam para eu não fazer isso com ela. Foi impossível resistir. Voltamos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando estávamos pertos, Glória disparou em corrida ao encontro da bruxa. Cléo a recebeu de braços abertos. Trocaram um demorado abraço. A ilustradora chorou de soluçar. Havia uma dor tão grande e antiga que não cabia mais nela. Era preciso deixar transbordar para que não explodisse de desespero nem implodisse em tristeza. Depois, mais calma, Cléo a fez sentar e se acomodou ao seu lado. Fiz menção em me afastar para as deixar à vontade, mas a bruxa me pediu para ficar: “É importante que você também escute. Não apenas para aplicar as suas relações, mas para lembrar a ela de tudo que foi dito. Nada deve ser esquecido”. Em seguida, Glória narrou as suas dores, dilemas e dúvidas. Enquanto falava, uma enorme e fantástica lua cheia avermelhada se erguia por trás da Pedra da Gávea iluminando a nossa noite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem nenhuma interrupção, Glória falou por um tempo que não sei precisar. Somente quando cansou de se ouvir, foi que a bruxa pontuou: “Há três aspectos relevantes a serem abordados e entendidos. Validação, amor e perdão”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “A sua dependência emocional em relação ao Paulo surge na exata proporção em que você se nega a reconhecer o seu próprio valor. A imagem que cada um tem de si mesmo não pode ser desenhada pela opinião de outro indivíduo. Assim como todas as pessoas, a minha imagem se constrói através da dignidade com que me conduzo pelos dias, pelas virtudes que aplico às relações, aos princípios que norteio as escolhas, ao amor semeado pelas estradas da vida, ainda que ninguém mais os perceba. O valor das minhas atitudes me basta, pois, é o único critério útil para estabelecer o meu tamanho, riqueza e beleza. O conceito que alguém faz de mim servirá apenas como régua para a exclusiva medição daquele que se arvora no direito de medir os outros. Jamais terá qualquer utilidade para definir quem eu sou. Cada um compreende a realidade conforme os olhos que possui”. Em seguida, ponderou: “A sua imagem cabe a sua compreensão. Tão e somente. Nunca conceda esse poder a ninguém. Seria como autorizar o absurdo controle de determinar quem você é, o que pode pensar, deve sentir, aonde tem permissão para ir e chegar, de acender ou apagar a própria luz. Ninguém necessita da validação de ninguém para ser feliz, viver em paz e amar sem limites. Trata-se de uma conquista interna, um movimento primordial de dignidade, libertação e cura”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Glória quis saber se essa era razão do seu desequilíbrio emocional. Cléo explicou: “Também. Mas não é só isso. Para desmanchar um sofrimento se faz necessário ir à origem da dor para conhecer as causas que desestabilizaram a sua estrutura emocional. Sofremos pela incapacidade de elaborar a experiência vivida de maneira correta. Qualquer dependência furta o domínio que uma pessoa precisa ter sobre si mesma. Com isto, se torna impotente para as escolhas da sua vida, gerando a instabilidade causadora de ansiedades, medos e sofrimentos”. Ajeitou os cabelos antes de prosseguir: “Quando acreditou que a sua felicidade carecia do amor de Paulo, transferiu a ele o poder de manipular os seus sentimentos e a sua paz”. A olhou com seriedade e ressaltou: “Ele pode ter feito mal uso desse poder, mas não lhe roubou nada. Foi você quem o entregou”. Com o rosto banhado em lágrimas, Glória não teve como discordar. A bruxa deu de ombros e sugeriu: “Contudo, nada a impede de pegar esse poder de volta. É seu por direito, versa sobre a sua vida. Torna-se dona de si é uma escolha sempre disponível e possível”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ilustradora confessou não saber como fazer. Tinha sido honesta quando dizia não mais fazer questão de se sentir amada pelo Paulo. Isto a atordoava ainda mais, pois, não entendia o motivo de as atitudes do ex-marido ainda a desequilibrarem. Cléo foi direito ao cerne da questão: “O ódio”, afirmou sem rodeio. Glória tomou um susto. Disse que era uma pessoa boa. A bruxa não discordou: “Não tenho duvida disso. Do contrário, eu não estaria aqui. No entanto, pessoas boas também sentem ódio, inveja, ciúme e uma série de outros sentimentos autodestrutivos e desestabilizadores. Por condicionamento ancestral, tendemos a ficar com raiva e mágoa de quem nos faz mal, prejudica ou contraria. Desde tempos imemoriais fomos educados a pensar e sentir desta maneira. Alimentar o hábito é se afogar em veneno; negar o vício é se deixar destruir pelo sofrimento. Aceitar o sentimento amargo para, em seguida, o descontruir é a terapia de cura. O desequilíbrio é uma das inevitáveis consequências do ódio e do ressentimento por provocar a constrição do pensar e a acidez no sentir. Os movimentos se tornam ríspidos ou inseguros, o que faz escalar os níveis de instabilidade emocional, fertilizando o solo às raízes do sofrimento. Por ignorância, muitos confundem agressividade com força. Vale salientar que força significa movimento rumo à luz. Tudo mais se resume em brutalidade e maldade como síntese de covardia e fragilidade. A paz e a mansidão sinalizam a real presença do equilíbrio e da força de deslocamento por entre obstáculos e entraves da existência, sempre com leveza e suavidade”. Cléo ofereceu um lindo sorriso para a ilustradora e ponderou: “Troque o ódio pela força regeneradora e restauradora da compaixão. O reequilíbrio emocional será o efeito imediato dessa mudança de olhar. Ainda mais, terá a lucidez para entender como se colocou no lugar insalubre que estava e, assim, nunca mais voltar”. Glória ouvia com atenção. A bruxa prosseguiu: “A compaixão é a virtude de compreender e aceitar as fragilidades alheias a partir do entendimento das nossas próprias fraquezas e dificuldades. Afinal, não podemos exigir a perfeição que não temos para oferecer. Há muito amor e sabedoria nessa compreensão e movimento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ilustradora questionou se todas as vezes que fosse tomada pelo sentimento de raiva ou impotência restaria desequilibrada emocionalmente. A bruxa disse sim com a cabeça e ratificou: “Esse é a pedra angular da transformação. O ponto onde o mistério do sofrimento é decodificado”. Fez uma pausa para que pudéssemos concatenar o raciocínio e continuou: “Sentir ódio ou mágoa nas vezes que somos prejudicados, fala de um comportamento atávico que nos atrapalha desde sempre. Logo, requer modificação. Tudo que incomoda, causa desconforto ou dói sinaliza algo mal construído dentro da gente. Preste atenção as impaciências e intolerâncias, que tanto mostram o quanto ainda não sabemos lidar com as contrariedades inerentes as diferenças que caracterizam as pessoas e terminam por fazer dos relacionamentos uma escola evolutiva por excelência. Perceba que a razão dessas sombras dialoga com a aspereza da alma de um indivíduo desacostumado a usar o amor como anteparo no trato pessoal. Seja consigo mesmo, seja com o mundo. Aprendemos a pensar errado. Desde o início dos tempos, vivemos relações nas quais há uma luta insana, velada e inconsciente por domínio e superioridade. Ao aceitarmos viver sob esta regra, por lógica, abdicamos da liberdade e da paz. E, não raro, da dignidade. Nos movemos através de disputas e rivalidades contínuas. Somos multidões de desequilibrados que não percebem o equívoco do método adotado. Num insensato círculo vicioso comportamental, pensamos de maneira a alimentar os sentimentos densos que estreitam a capacidade de pensar. Somos menos quando poderíamos ser mais. Sofremos por incompreensão. Sem entender onde escolhemos morar, vivemos no cárcere da dor enquanto a liberdade nos aguarda à distância de uma simples mudança de olhar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tornou a pausar antes de fechar o arco filosófico: “A causa do desequilíbrio emocional é a raiva, o ressentimento, o medo, o vitimismo e a absurda crença quanto a própria incapacidade de lidar com toda e qualquer situação. De ser feliz, livre, digno, se sentir em paz e amar o quanto e quem lhe aprouver. É ignorar o poder da vida que grita das entranhas nas vozes do sofrimento: <em>eu estou aqui, venha me resgatar</em>”. A bruxa olhou com doçura para a ilustradora e finalizou: “Sofremos pelo desequilíbrio oriundo do ódio, da mágoa e do medo pelos quais nos movemos, ao invés de dar lugar ao amor e à compaixão diante das contrariedades e dificuldades inerentes à existência”. Fez uma pergunta no intuito impulsionar o raciocínio de Glória: “Entende que as provocações e manipulações do Paulo surgem das fragilidades e fraquezas que ele possui?”. Ela disse que ele sempre parecera um homem forte e dono de si. Cléo esclareceu: “Não se engane com as aparências. Há muito medo e sofrimento nele. Como não os compreende, se torna incapaz de equacionar os sentimento de maneira correta e, então, reage de modo a punir outras pessoas pela dor que sente. Se fosse feliz não agiria assim. As couraças do orgulho, da vaidade, da soberba, da arrogância e do sarcasmo escondem enormes e profundos sofrimentos. A aspereza no trato pessoal revela o alto teor de insatisfação interna inadmitida ou incompreendida. A compaixão permite a exata leitura desse cenário, modificando o olhar e o sentimento que se tem sobre a rudeza e a agressividade, nos mantendo imunes às incompreensões do interlocutor. Somente a partir da sincera aceitação das próprias dificuldades, se consegue compreender a fragilidade alheia. Sem humildade não se chega à compaixão. Um movimento interno desprovido de qualquer discurso. Tudo mais é mero exibicionismo de uma evolução ainda não alcançada. Trocar as lentes do ódio pelas do amor, afasta as causas do desequilíbrio e, por consequência, desmancha o sofrimento. O reequilíbrio mental, emocional e energético é reestabelecido de imediato. Os devidos limites necessários para evitar os desrespeitos, abusos e as influências nocivas da maldade, se apresentam com clareza e devem ser usados com firmeza e delicadeza a um só tempo. A firmeza fecha as portas para o mal, enquanto a delicadeza evita a produção do mal subsequente como reação à ação desastrada. À outra pessoa ainda restará os efeitos benéficos de constatar a ineficácia dos seus métodos, assim como o legado de dívidas que herdará pelo equívoco dos seus atos. Trata-se de uma escola de grande eficiência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Glória enxugou as lágrimas e sussurrou que compreendia com clareza o raciocínio oferecido. Se o sentimento amargo era a causa do desequilíbrio, ao substituir por outro, nobre e sutil, reverteria a instabilidade. Para tanto, se fazia necessário reeducar a mente para olhar tudo e todos sob novos, e até então impensáveis, ângulos. A bruxa sorriu e acrescentou: “Há um último detalhe, mas não menos importante”. Observou por instantes a fantástica lua avermelhada sobre a Pedra da Gávea, se virou para a ilustradora e pontuou: “Perdoe e perdoe-se”. Em seguida, explicou: “Ninguém esquece os fatos marcantes que viveu. Fazem parte da história pessoal e, por isto, fundamentais ao aprendizado. Ao fazer uma retrospectiva da sua existência, e é normal que a faça, lembrará dos maus-tratos. Se longe do perdão, sentirá culpa pelos abusos permitidos e mágoa pelas maldades sofridas. Se envolvida pelo perdão, compreenderá o quanto serviram ao seu crescimento espiritual. Alegrar-se-á”. Franziu as sobrancelhas e a lembrou com seriedade: “Do mesmo modo, enquanto se ativer à expectativa pelo arrependimento do Paulo, se manterá desequilibrada pela frustração gerada por algo fora do seu controle. Não caia nessa armadilha. Você pode ficar aprisionada por séculos. Por lógica, a libertação não depende do ato alheio. É movimento autônomo e independente. Ninguém tem o poder de fazer o outro caminhar. Cada um faz ao próprio gosto e ritmo. Nisso reside a força do perdão. Contudo, o desejo de uma pessoa pelo atraso não pode impedir a outra de embarcar no trem da evolução para seguir a viagem. O peso dele não pode fazer carga à sua leveza. Cada um é integralmente responsável por si. Sem lamentos nem reclamações. A esse entendimento denominamos maturidade”. Em seguida, sintetizou a conversa: “A cura dos males provenientes do desequilíbrio se ergue com a autoestima, se estrutura por intermédio do amor e da sabedoria contidos na compaixão, para se completar com a libertação alcançada pelo sagrado perdão”. <em>Sagrado é tudo aquilo que nos torna pessoas melhores</em>, balbuciou Glória. Cléo piscou um olho em anuência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem mais palavra, a bruxa se levantou, não sem antes oferecer um lindo sorriso à ilustradora, que agradeceu a conversa e o código para a libertação e a cura. Usá-los para abrir as portas por onde precisava atravessar era a tarefa que a aguardava. No espelho dos olhos da Glória, vi a Cléo, rodeada por gaivotas, bailar na beira do penhasco até sumir. Aproveitamos a noite de lua cheia avermelhada para metabolizar aquelas ideias. Era preciso que se tornassem instrumentos da transformação que a aguardava. Do contrário, o encontro restaria desperdiçado. Repassamos cada frase, conversamos e refletimos. Descemos ao amanhecer. Glória parecia não caber em si. Estava alegre e animada pela perspectiva quanto à própria vida dali para a frente. Sentia o poder dos dias na palma da mão. Garotava ao caminhar. Os seus pés pareciam nem tocar no chão.</p>
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		<title>Um grande mestre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 21:22:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">A atmosfera do mosteiro estava tensa naquele período de estudos. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado para ministrar uma palestra em uma universidade e ainda não retornara da viagem. Até que voltasse, eu ficara responsável pela direção. Havia pouco tempo, Alex ocupara o cargo de coordenador-geral dos cursos. Decidira estabelecer uma rota na qual os monges teriam de trilhar a partir de então. Os cursos não seriam mais de livre escolha, como sempre acontecera. Estabeleceu-se critérios à trajetória de estudos, sob o pressuposto de que alguns conhecimentos são fundamentais à compreensão de outros, como degraus primordiais e indispensáveis à escadaria infinita para um conhecimento maior. O Velho aprovara o novo planejamento e, antes de viajar, fizera uma reunião com os monges para que todos tomassem ciência e dirimissem dúvidas. Contudo, mudanças trazem inquietações, desconfortos e contrariedades. Se nas mudanças reside o cerne da evolução, brota também o germe da insatisfação em quem se sente atingido pelas transformações dos movimentos exigidos pela vida. Quase ninguém gosta de se levantar da poltrona confortável da qual se considera dono pelo longo tempo que está sentado. Embora a comodidade, a conveniência e o privilégio fomentem o atraso e a desigualdade, não há como negar suas raízes ainda atuantes no comportamento comum. Sem darmos conta, influenciam na leitura dos acontecimentos e interferem em nossas ações e reações, escolhas e destino, aproveitamento ou desperdício de oportunidades. São condicionamentos ancestrais, com uma pesada carga de primitivismo e imobilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o passar dos dias, o burburinho aumentou. Diversas requisições foram indeferidas pelo Alex, redirecionando os proponentes a outros cursos, conforme o plano de estudos traçado pela coordenação, e não aqueles desejados pelos monges, na contramão de hábitos que, de tão antigos, viraram vícios ou supostos direitos. Como se não bastasse, algumas rejeições tratavam do anseio de quem estava há bem mais tempo na Ordem do que o Alex. O aforismo popular sustenta que antiguidade é posto. Uma falácia criada por interesses de oportunidade, muitas vezes obscuros e nem sempre justos. Capacidade, competência e comprometimento são pressupostos com maior teor de equidade e justiça do que a cronologia de ingresso em uma instituição, empresa ou irmandade. Capacidade fala da habilidade inata para o exercício de uma função específica; competência se refere a habilidade adquirida através de estudos e práticas; o comprometimento se revela por intermédio do nível de dedicação e esforço indispensáveis à tarefa. De outra face, habilidade não se estabelece apenas com inteligência cognitiva e erudição. Não há como negar a existência dos gênios à serviço das sombras. Não raro, eles somos nós, quando insatisfeitos ou contrariados, fomentamos conflitos, desagregação e, por consequência, ainda que inconscientemente, semeamos dor e sofrimento. Bons e nobres sentimentos são essenciais no exercício de separar o bem do mal. Cabe-nos a meticulosa tarefa de valorizar a luz reverberada na utilização das virtudes como meio de deslocamento por entre os obstáculos inerentes às relações e ao cotidiano. Humildade, simplicidade, compaixão, delicadeza, sensatez, firmeza, paciência, tolerância, honestidade, pureza, entre outras virtudes, na confluência do amor com a sabedoria, ilustra o nível do desenvolvimento espiritual alcançado. Em situações de conflito, a lucidez aliada ao equilíbrio emocional se mostra mais útil, valiosa e necessária do que qualquer genialidade ou diploma, sem importar a capacidade de cognição em resolver complicados cálculos matemáticos, citar autores consagrados ou o prestígio da universidade cursada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A insatisfação escalou tons no mosteiro. Embora a maioria tenha aceitado de bom grado as mudanças, lhe reconhecendo a importância e a necessidade, percebia-se a formação de um pequeno grupo de monges descontentes, cujo comportamento beirava a revolta. Poucos, quando articulados e insistentes, podem abafar a voz da maioria e contagiar os desprevenidos e distraídos. Então, o perigo se alastra. Como responsável pela direção na ausência do Velho, por inexperiência, eu demorei a agir para debelar os ânimos acirrados e manter o mosteiro unido. Até que estávamos na cantina, reunidos para o almoço, quando o Ibrahim, um dos integrantes mais antigos da Ordem, que teve a sua requisição rejeitada pelo Alex sob a alegação de que antes de realizar o estudo pretendido, precisava cursar outro como pré-requisito, questionou em público o motivo do indeferimento. A decisão se pautara nas novas regras estabelecidas, sem levar em conta o conhecimento, a experiência e a trajetória de Ibrahim no mosteiro ao longo de tantos anos. Em fração de segundo, da conversa se fez uma discussão ríspida. Inveja, ciúme, despeito, abusos e desrespeito foram termos utilizados na troca de acusações. A aspereza no timbre da voz, no teor das palavras e no fundamentos dos argumentos ilustravam a gravidade e o descontrole da situação. Não se tratava de um desentendimento isolado entre o Alex e o Ibrahim. Alguns monges tomaram partido. A animosidade escalou intensidades, evidenciando uma fratura na estrutura do mosteiro. Não física ou material, mas espiritual e energética. Empresas, famílias e amizades; impérios, tribos e casamentos, antes prósperos e felizes, desmoronam diante da desatenção com movimentos dessa natureza. Ao contrário do que muitos acreditam, o maior perigo não vem de fora, mas reside latente e paciente do lado de dentro, a espera do descuido e do desequilíbrio para se manifestar e destruir tudo e todos ao redor, inclusive, e principalmente, a si mesmo. Somos hospedeiros, lanceiros e herdeiros da nossa própria tragédia. Não cabem lamentos nem reclamações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mal-estar se instala de imediato na presença da discórdia e da incompreensão. A ambiência na cantina, onde todos os monges estavam reunidos para almoçar, costumeiramente alegre e descontraída, restou pesada e sombria. Atônito, pedi que os dois me acompanhassem até o gabinete da direção. Embora não soubesse exatamente como agir, entendia que algo precisava ser feito de imediato na tentativa de impedir que o conflito se alastrasse e a desavença amargasse outros corações. Deixei que cada um expusesse as suas razões, incentivei o diálogo e o entendimento, mas fui incapaz de costurar a paz. Estavam irresolutos e inflexíveis em suas posições e convicções. Se foram com a promessa de que refletiriam sobre os seus comportamentos. Havia a necessidade premente de expandirem suas fronteiras internas para que um coubesse no coração do outro. Foi o meu pedido a ambos. Apesar de desejar, eu não acreditava que, naquele momento, isso fosse possível. Estavam fechados para a clareza do pensar e a serenidade do sentir, como sempre ficamos quando somos dominados pela intransigência, ódio ou mágoa. A irredutibilidade se sustenta na denominada <em>certeza de túnel</em>, aquela que o olhar se fixa em uma única direção, sem levar em consideração a enorme beleza e as mil possibilidades do universo que existe e pulsa além das paredes da incompreensão e da intolerância, que amiúdam e estreitam o objetivo e a verdade. Em momentos assim, se faz imprescindível que algo ou alguém seja capaz de demolir essas paredes para, então, encerrar os conflitos. A reboque, desaparecerão os sentimentos densos e sofrimentos que acompanham e estimulam a discórdia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de viajar, o Velho havia realizado uma palestra em que desenvolveu o seguinte raciocínio: “Vivemos em momento planetário no qual ninguém ainda conseguiu se desligar por completo das influências que ancoram o atraso, estimulam os confrontos e aprisionam em vícios comportamentais que tanto postergam a evolução. Em maior ou menor grau, ainda oscilamos entre luz e sombras. A dualidade existe, mas não precisa perdurar. Em algum momento, há de ser superada. Uma jornada intrínseca e extrínseca a um só tempo, que não fala apenas sobre encontrar a paz, mas permite o movimento primordial à liberdade. Ser livre não é meramente fazer o que se tem vontade. Isto os inconsequentes e irresponsáveis sempre fizeram sem jamais auferir qualquer vantagem evolutiva. Entre outras questões, a genuína liberdade versa sobre a desconstrução das prisões insalubres e dolorosas do sofrimento, nas quais cada um se coloca por desconhecer como aprimorar e conduzir as próprias escolhas. Acontece nas vezes que não conseguimos enxergar as mil possiblidades que sempre estarão à disposição. Quem diz que não tem escolhas, nada sabe sobre as escolhas. Revela imaturidade ou falta de coragem. Quando uma decisão não é capaz de gerar bem-estar, reequilíbrio e serenidade, significa que outra, ainda escondida ou inadmitida, está à espera. A recusa em agir ou reagir no modo automático, no qual, lançados pelos conflitos, ódios, medos e mágoas, costumeiramente despencamos no despenhadeiro da dor, é passo primordial à transformação. A liberdade se inicia com a autopermissão de ir aonde nunca estivemos dentro da gente. Não há outro jeito de encontrar o sagrado, abrir portas e seguir em frente. Faz-se necessário deixar morrer uma parte de quem somos todos os dias. Do contrário não haverá espaço para alguém diferente e melhor possa renascer em nós”. Fez uma pausa antes de adicionar um importante comentário: “O sofrimento não é normal e inevitável, porém, uma enfermidade da alma, cujas raízes remontam às próprias incompreensões, típicas da imaturidade apegada às asperezas, privilégios, impaciências e intolerâncias usadas como lentes para interpretar o mundo e filtros para direcionar os relacionamentos. O cenário se apresentará cinzento, os personagens parecerão amargos e, amiúde, os resultados se mostrarão trágicos. Não se trata apenas da incapacidade em compreender pessoas e possibilidades. É bem mais. Tratamo-nos mal quando nos movemos por orgulho, vaidade, ganância, vingança e egoísmo. Sem darmos conta, geramos o mal-estar e as adversidades que vivemos. Fomentamos o celeiro das contrariedades e, depois, alimentamo-nos desses sofrimentos. Enquanto recusarmos a encontrar as escolhas que afastem a angústia e reconduzam ao equilíbrio, desperdiçaremos um sem-número de oportunidades de avanço e crescimento”. Eram palavras valiosas à vida, que também serviam de prenúncio aos acontecimentos que logo ameaçariam a integridade e a harmonia do mosteiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pela manhã, após o desjejum, os monges se dividiam pelos diversos cursos oferecidos. Almoçávamos. A tarde era reservada para leitura, conversas e reflexões. Antes do jantar ocorria uma palestra comum a todos. Com pequenas variações, assim era a rotina do mosteiro. Naquela noite, conforme planejado, a palestra estava a cargo do Ibrahim. Pensei em alterar, porém, considerei que, se assim fizesse, passaria a todos a impressão de que ele sofrera uma punição pelo seu destempero na cantina. Eu não queria isso. No mais, o Alex também fora deselegante. Acreditei que, como tiveram uma tarde inteira para refletir e serenar os ânimos, não haveria problema. Eram pessoas adultas, cultas e bem-preparadas. Ledo engano. Equilíbrio emocional não se aprende nos livros. É uma conquista do espírito no decorrer da jornada, quando consegue realizar trocas angulares e substanciais, do fútil ao essencial, das conquistas rasas e imediatas àquelas de profundidade e eternas. Trata-se da arte da abnegação, fundamental ao equilíbrio e a força indispensáveis aos movimentos seguintes; senão, nos manteremos estacionários em conflitos e sofrimentos sem fim. Sem que eu fosse capaz de evitar, se instalara um duelo velado no mosteiro. Dois pequenos grupos disputavam quem detinha a razão e a verdade. Qual vontade prevaleceria em lamentáveis encenações de poder fútil e vazio. O tema da palestra versava sobre um texto de Platão denominado <em>O anel de Giges</em>, no qual um pacato camponês, ao encontrar um anel que tornava invisível quem o usasse, passou a praticar atos abomináveis de ganância e vingança, antes impensáveis àquele homem aparentemente humilde. Ao ficar protegido pelo manto da invisibilidade, uma desconhecida e improvável personalidade revelara a verdadeira face do pastor. Desde o início da palestra, com evidente desvio de finalidade, Ibrahim fez um paralelo com a função recentemente ocupada pelo Alex, repleto de provocações subliminares às decisões do jovem coordenador. Argumentara, de modo fictício, sem citar nome ou instituição, como indivíduos, sob os mais diversos e altruísticos pretextos, se valiam de cargos ou poderes pontuais para prejudicar pessoas com quem tinham problemas, antipatias ou rivalidades. Alguns cargos, pelos enormes poderes investidos, se equivaliam ao anel de Giges ao revelarem aspectos ocultos da personalidade de quem os exerce quando se sentem intocáveis. A reação de Alex, embora franca, foi igualmente agressiva. Uma confusão sem precedentes se instalou. Nunca acontecera algo parecido no mosteiro. Graças a sensatez e a serenidade presente na maioria dos monges, os dois grupos foram impedidos de prosseguir com as ofensas, evitando consequências ainda mais tristes e lamentáveis. Após o arrefecimento dos ânimos, sem prejuízo das emoções exaltadas, pedi que todos se recolhessem aos seus quartos. Era momento de pensar. Ninguém jantou naquela noite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o sono intermitente e agitado, acordei antes do amanhecer. Fui à cantina em busca de uma caneca de café. Eu estava muito chateado. Não apenas pelo mal-estar criado, mas pelo fato de a confusão ter ocorrido quando o mosteiro estava sob a minha direção. Para a minha surpresa, ao chegar, encontrei o Velho sentado à uma das mesas próximas à janela com vista para as montanhas. Ao me ver, fez sinal de que havia café fresco no bule. Enchi uma caneca e me sentei ao seu lado. Não encontrei o tradicional sorriso, tampouco, qualquer traço de condenação em suas feições. Sua fisionomia era de serenidade. Entendi que ele já estava ciente do ocorrido. Antes que eu pudesse fazer qualquer comentário, Alex e Ibrahim entraram na cantina acompanhados de Heitor, o monge argentino, psicanalista, escritor e meu grande amigo. De imediato, compreendi que o Velho já conversara com o Heitor. Em consequência, os monges tinham sido convocados para uma conversa. Todos devidamente acomodados, o bom monge pediu para que cada um expusesse suas razões na tentativa de explicar o ocorrido. Permitiu os contra-argumentos, quantas vezes entendeu necessários. Não autorizou apartes ou interferências para que da conversa não se fizesse uma discussão. Ao perceber que os fundamentos se tornaram repetitivos, seja por desnecessidade em prosseguir, seja para não esgarçar uma relação já desgastada, encerrou o debate. Manteve-os em silêncio com a clara intenção de conceder tempo às indispensáveis reflexões. Um precisava ponderar os argumentos apresentados pelo outro para compreender se eram úteis e aplicáveis ao seu jeito de pensar, sentir e olhar. E, assim, sair de onde estava dentro de si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após alguns instantes, pontuou: “Todos têm o direito de conduzir suas vidas da maneira que melhor lhes aprouver. Contudo, para cada ação existe uma reação conforme o movimento realizado. Dentro e fora da gente. Inexoravelmente. Bem-estar, alegria, encontros e avanços ou conflitos, rupturas, sofrimento e atraso. Quando existe um grupo de pessoas em torno de um propósito em comum, há de haver ordem, disciplina e respeito. Isto vale para empresas e famílias, instituições e irmandades, amizades e casamentos, aqui no planeta ou nas Terras Altas”. Fez uma breve pausa para que pudéssemos concatenar ao arco filosófico proposto e continuou: “Ordem é uma determinação de origem superior, com o objetivo maior de estabelecer uma relação harmônica e próspera entre os integrantes de um grupo específico. Em alguns casos, como amizades e casamentos, não cabe a unilateralidade das regras, que devem primar pela pluralidade de opiniões na busca de um ponto comum, possível e saudável, com o aceite prévio dos envolvidos. Em outros, a relação hierárquica deve ser obedecida, no entendimento que cargos e funções são distribuídos em razão da competência, capacidade e comprometimento dos seus integrantes. Quando assim acontece, geram soluções e constroem pontes; do contrário, se tornam fontes de problemas e erguem muros. As diferenças de olhares não são antagônicas, porém, complementares, cabíveis e bem-vindas, desde que expostas com respeito, clareza e serenidade. No mesmo tom, as decisões devem ser respeitadas. Aos que ocupam funções diretivas, jamais devem se permitir às tentações do orgulho, da vaidade, da ganância, do revanchismo, entre outras sombras. De outra face, não devem ter apenas o respeito como guia, mas também a humildade, a simplicidade, a compaixão, a sinceridade, a delicadeza, a firmeza, a justiça, a pureza, entre outras virtudes”. Bebeu um gole de café e prosseguiu: “Disciplina é o cuidado e a atenção com os preceitos indispensáveis à boa ordem, seja daquele que dirige, seja de quem é dirigido, para que os objetivos traçados em prol de um bem comum não se percam, porém, restem direcionados rumo ao objetivo pretendido. Por sua vez, o respeito trata da regra fundamental de se colocar no lugar da outra pessoa, sem nunca fazer o que não gostaria de sofrer. E, em um patamar mais elevado de dignidade, em entregar na mesma medida que gostaria de receber”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não disse mais palavra. A intenção era que as ideias expostas encontrassem lugar na mente e no coração dos monges. Pensamentos transmutam sentimentos. A depender do teor ou do quilate, emoções impulsionam ou aprisionam o pensar. Portanto, este movimento simbiótico é a forja da genuína liberdade. Tudo mais são paredes erguidas em argamassa de devaneios e incompreensões na construção de antigos e recorrentes cárceres repletos de agonia e dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As fisionomias de Ibrahim e Alex estavam bem diferentes. Enquanto Ibrahim tinha os olhos marejados, Alex mantinha o semblante fechado. Em um tom de voz baixa, com evidente emoção à flor da pele, Ibrahim se confessou arrependido. Apesar de ter motivos para pensar que os monges mais experientes não devessem receber o mesmo tratamento dos recém-chegados quanto à escolha e alocação nos cursos, a forma como manifestou o descontentamento estava errada e agravou a situação. Perdeu-se de si mesmo quando se deixou irritar. Estava sinceramente triste por ter levado o mosteiro a tamanho conflito, próximo a uma fratura institucional. Pediu perdão ao Alex e disse que repetiria o gesto perante os monges no café da manhã. Se tornara pública a sua insatisfação e destempero, o pedido de perdão também deveria acontecer perante a todos. Tomado por profunda alegria, o Velho se levantou, trocou um forte abraço com Ibrahim e comentou: “A nobreza do seu espírito não me surpreende”. Em seguida sussurrou como se falasse consigo mesmo: “Vocês não imaginam a intensidade da luz gerada através do reconhecimento do erro e do pedido sincero de perdão. Um movimento fundamental ao autoperdão e, por consequente, a libertação do sofrimento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os olhos se voltaram para o Alex. O jovem e culto monge, em timbre seco e com poucas palavras, disse que perdoava o Ibrahim. Fez-se um silêncio ensurdecedor por outros fundamentos, conteúdos e explicações. Como acréscimo, Alex se limitou a lembrar que a adaptabilidade é uma virtude indispensável aos inerentes movimentos de mudanças. Quanto às ofensas proferidas na discussão com o Ibrahim, justificou ter usado a linguagem adequada à situação. Respondera no mesmo tom da acusação. Sem deixar que o mal-estar se instalasse, o Velho contrapôs de imediato: “A atitude dos outros não é da nossa conta. Reagir da melhor maneira é a responsabilidade que nos cabe. Revela luz ou sombras. Fala sobre quem somos e o que ainda nos falta aprender. Tudo mais são incompreensões reverberadas em raciocínios tortuosos na tentativa de negar a perda de mais uma oportunidade evolutiva”. O bom monge prosseguiu: “A indispensável resiliência é virtude necessária a quem recebe novas ordem e regras, mas também indispensável àqueles que comandam e orientam. Entregar a cada um conforme as suas diferenças demonstra equidade, uma virtude que exige percepção apurada e sensibilidade aguçada. Na emergência de um hospital, um paciente com risco de morte deve passar à frente de outro em estado de menor gravidade, embora este tenha chegado antes daquele. Quem conhece trigonometria não precisa voltar à sala de aula ao lado de quem aprende as quatro operações básicas de matemática. Por lógica e bom senso, já as conhece. Diante de um muro alto, oferecer um caixote idêntico a dois meninos de tamanhos diferentes, significa igualdade, um mesmo tratamento aos dois garotos. De cima dos caixotes, a depender da altura dos meninos, permitirá que um veja o que existe do outro lado muro, enquanto o outro fique impedido de descobrir. Entregar um caixote mais alto ao garoto de menor estatura, permitindo que os dois enxerguem além do muro, concederá a mesma oportunidade a ambos. Como vê, a equidade, por vezes, é uma virtude mais refinada que a igualdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fomos interrompidos pelos monges que chegavam para o café da manhã. Sem demora, Ibrahim cumpriu a sua promessa de admitir o erro e pedir perdão a todos pela confusão causada. Foi aplaudido demoradamente. Não era difícil de reconhecer a grandeza daquele homem. Alex se manteve calado. Numa lógica desprovida de valor, pensava: <em>se ele está errado, eu estou certo</em>. Era nítido em seus olhos a expressão da vitória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquela mesma manhã, fui chamado ao gabinete da direção. Cheguei junto com o Alex. O Velho, o Heitor e a Valentina, uma monja admirada por muitos, poetisa de raro talento e engenheira aeroespacial por profissão, nos aguardavam. Fomos convidados a nos sentar à mesa de reunião. O Velho comunicou que Valentina assumiria o cargo de coordenadora-geral dos cursos a partir daquele instante. As feições de Alex demonstravam espanto e decepção. Irritado, exigiu saber o fundamento da decisão. Foi o psicanalista quem explicou: “Você esteve diante de um grande mestre, mas foi incapaz de o reconhecer. Isto mostra que, apesar dos cursos que fez e dos livros que leu, ainda não está qualificado para funções de comando, pois, desconhece os mecanismos básicos de autoconhecimento. Em outro momento, voltará a ter uma nova oportunidade”. O jovem monge questionou quem era esse mestre. O Velho? Ibrahim? O próprio Heitor? Queria saber. Foi o bom monge quem esclareceu: “O erro, quando bem aproveitado, é o maior dos mestres. O erro sempre nos ensina algo que desconhecemos quando estamos dispostos a rever a rota para ajustar o rumo. Ensina a distinguir o certo do errado na forja ardente dos acontecimentos, a fazer reflexões cuidadosas para evitar a repetição de atitudes grosseiras ou negligentes. Contudo, se faz necessário humildade e compromisso com a verdade. Do contrário, o erro será um eterno algoz a nos impedir de sair de onde estamos”. O Velho concluiu: “A maneira de lidar com o erro revela a nobreza de caráter e a capacidade de aprendizado. O apego ao erro revela orgulho, vaidade e incapacidade de movimento. Usar o erro em favor do aprendizado fomenta o autoperdão, impulsiona o amadurecimento, o desfazimento do mal, refaz o equilíbrio e estimula o bem-estar”. Então, finalizou: “A cessação do sofrimento exige disposição, coragem e amor-próprio para ir à origem da dor e, então, a desmanchar por completo. Ninguém consegue isso sem educar a mente, serenar o coração e modificar hábitos no intuito de lapidar vontades, agregar virtudes e redirecionar escolhas. Não existe outro método de cura definitiva; tudo mais são terapias paliativas. Se tivesse prestado atenção à luz dos olhos de Ibrahim hoje cedo na cantina, entenderia melhor do que estamos falando”.&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inconformado, Alex disse que queria pensar. Precisava ficar sozinho. Com o timbre da voz alterado, solicitou uma licença para deixar aquele período de estudos imediatamente. Pedido concedido, saiu do gabinete de maneira estorvada. Em seguida, o Velho comentou: “Ele voltará. E chegará bem modificado. É um jovem inteligente e de bom coração. Precisa apenas arrancar as couraças do orgulho e da vaidade para encontrar a beleza do amor e o poder da verdade. Os erros são perfeitos para isso”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que traçássemos qualquer comentário, o bom monge disse precisar se preparar para a palestra daquela tarde. Levantou-se para se dirigir à biblioteca do mosteiro. Encantado, fiquei observando o seu caminhar de passos lentos, porém, seguros.&nbsp;</p>
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		<title>As quatro flechas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jan 2025 15:14:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Ao chegar em Sedona, nas montanhas do Arizona, me dirigi à casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a filosofia ancestral do seu povo através de músicas e histórias. Ao estacionar o carro, notei que ele conversava com uma mulher na varanda. Eu a conhecia. Era a Nascha, uma respeitada anciã Navajo. Sua reconhecida sabedoria a fizera integrante do Conselho dos Anciões, órgão de representatividade máxima entre os povos originais norte-americanos. Hesitei em me aproximar. Não queria atrapalhar a conversa. Ao me ver, Canção Estrelada sorriu e fez um gesto com a mão para eu entrar. Fui recebido pelo xamã com um forte abraço, como demonstração de amizade e alegria pelo reencontro. Nascha me brindou com palavras doces e um lindo sorriso. Com cerca de setenta anos de idade, duas tranças no cabelo, um elegante vestido estampado com desenho étnicos, olhos castanhos esverdeados e pele morena, ela encantava pela beleza dos seus traços e estilo. Era extremamente simpática e bem-humorada, como são os espíritos de luz. “Gente ranzinza não cabe nas Terras Altas”, ensinava Canção Estrelada em suas palestras. Ela comentou que realizariam um pequeno cerimonial no dia seguinte e que eu seria muito bem-vindo. Agradeci o convite e, claro, confirmei a presença. Ela me ofereceu um sorriso sincero e acolhedor. Aproveitei para mostrar a minha admiração pela sua enorme sabedoria. Ninguém faz parte do Conselho se não for possuidor de um grande conhecimento sobre os mistérios da vida, comentei. Nascha tornou a sorrir e ponderou: “Não há nenhum valor em possuir um grande conhecimento. O valor surge à medida que conseguimos usar o conhecimento que possuímos. Ao contrário do que muitos imaginam, eu sei muito pouco. Se tenho algum valor, reside no esforço de não esquecer de usar o pouco que sei em todas as situações que vivo. Como as situações nunca são iguais, aprendo todos os dias um pouco mais. Acredito que esse hábito tenha me habilitado ao Conselho, já que não detenho nem uma pequena fração da sabedoria dos demais integrantes”. Por sua simplicidade, Nascha encantava com a beleza da sua luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei se mais alguém participaria do cerimonial. Nascha respondeu que se destinava a um grupo de jovens. Indaguei se havia algum motivo específico. O xamã esclareceu: “Eles serão apresentados às quatro flechas do espírito”. Fiquei esperando que algo fosse acrescentado, mas nada mais foi dito. Tentei tirar alguma informação, ao questionar os objetivos dessas flechas. Canção e Nascha se entreolharam sem dizer palavra. Em seguida, sempre com um sorriso nos olhos, a anciã se despediu e foi embora. Depois, o xamã me convidou para ir a Flagstaff, uma aprazível cidade há menos de uma hora de carro. Fomos conversando pela linda estrada que atravessa as montanhas. Eram tantos assuntos que não notamos o tempo passar. Entramos na Barnes &amp; Noble antes de almoçar. Heitor, o monge argentino, irmão de alma, escritor e psicanalista, também monge da OEMM, encomendara quatro livros de contos inéditos da Agatha Christie, descobertos pela família após a autora se retirar da estrada do tempo. Tinham sido publicados havia poucas semanas. Almoçamos quase na hora de jantar em uma antiga cervejaria, onde assistimos à apresentação de uma banda de rock formada por amigos do xamã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o show, vieram cumprimentar Canção Estrelada. Um deles se sentou à mesa conosco. Era o John, guitarrista do grupo. Apesar da alegria de encontrar com o xamã, uma inegável amargura estampava as feições do músico. Sem que eu nada perguntasse, bebeu uma dose de gim enquanto me contava a sua história. Era evidente a sua necessidade de falar, como maneira de extravasar a insuportável pressão interna causada por uma sequência de incompreensões, raiz de todos os sofrimentos. Abandonara a faculdade de arquitetura para se dedicar à música. Tinha um sonho comum à sua geração. Desejava se tornar um popstar, fazer parte de uma banda famosa, vender milhões de discos, viajar o mundo, se apresentar em estádios para dezenas de milhares de pessoas. Nascera para o estrelato, afirmou sem medo de errar. Tanto, que nos anos 1980, quando completara trinta anos de idade, fora convidado para substituir o guitarrista de uma banda de muito sucesso em uma turnê por diversos países. Teve o talento reconhecido tanto pelo público como pela crítica. Sendo assediado nas ruas pelos fãs, requisitado para entrevistas na televisão e convidado para festas exclusivas, a ponto dos demais músicos do grupo sentirem ciúme. E os velhos amigos ficarem com inveja. Foi um período curto de muita fama e dinheiro, mas também de muitas brigas e confusões, confessou. Então, preferiu se desligar do grupo para montar a própria banda. O antigo grupo mais atrapalhava do que ajudava em sua escalada rumo ao sucesso. Não tinha dúvida de que daria certo, pois, não carecia de vontade nem de talento. Seria a estrela maior da nova banda. Investiu tudo que ganhou. Contudo, por influência dos antigos companheiros, foi boicotado pelas gravadoras e sabotado pelos produtores. Nunca conseguiu um bom contrato nem as necessárias condições para divulgar o seu trabalho. Terminou por se endividar com os bancos. Uma dívida que nunca conseguiria quitar. Passados quase quarenta anos, ninguém nas ruas o reconhecia mais. Restava fazer apresentações em bares onde as pessoas estavam mais interessadas na bebida do que na música. Sentia-se injustiçado e abandonado, declarou. Fomos interrompidos por um funcionário da cervejaria. Estava na hora de começar a segunda parte da apresentação. Canção Estrelada disse que precisávamos retornar a Sedona. Tínhamos de acordar cedo por causa de um compromisso pela manhã. Convidou John para ir a sua casa. Queria conversar mais com o músico. Despedimo-nos e fomos embora. No caminho de volta, comentei como a vida fora severa com o John. O xamã ponderou: “Você escutou a leitura que ele faz quanto a própria vida. Faz com os olhos que possui. É a versão que sinceramente acredita. A melhor que consegue aceitar ou aquela que lhe é conveniente. Não significa ser a verdadeira. Por isto sofre tanto”. Franziu as sobrancelhas e pontuou: “Você teve a oportunidade de presenciar como funcionam as quatro flechas do espírito”. Em seguida, questionou: “Entendeu?”. Atônito, falei que não. Ele nada acrescentou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia seguinte, acordei cedo e me preparava para subir as montanhas, quando fui informado que o ritual aconteceria no quintal da casa. Nascha já tinha estendido várias mantas coloridas pelo gramado para os jovens se sentarem. Estranhei que um cerimonial mágico fosse realizado em um lugar tão comum. Canção Estrelada explicou: “Magia é transformação. As que verdadeiramente importam são aquelas que acontecem dentro da gente. Tudo mais é forma sem conteúdo. Transmitiremos aos jovens um conhecimento ancestral de imensurável valor. O conhecimento fornece as chaves de muitos portais. Aproveitar a oportunidade e fazer bom uso está de acordo com a capacidade e a responsabilidade de cada um. A isto denominamos maturidade, que nada tem a ver com a idade, mas com o progresso espiritual”. Sem demora, eles começaram a chegar. Eram moças e rapazes com idade entre dezesseis e dezoito anos. Estavam descontraídos e animados. Acomodaram-se sobre as mantas no gramado para aguardar. Juntei-me ao grupo. No horário marcado, Canção e Nascha se sentaram lado a lado em duas cadeiras colocadas debaixo do frondoso carvalho que reinava no quintal. Todos ficaram atentos e em silêncio. O xamã rufou o tambor de duas faces em melodia que invocava a iluminação e a proteção dos bons espíritos àquele espaço e ao ritual que começaria. Em seguida, Nascha deu início ao cerimonial: “Desde tempos imemoriais, cada pessoa herda as consequências das suas próprias escolhas. Um patrimônio imaterial de oportunidades e aprendizados, maravilhas e dificuldades, liberdades ou distopias. Direcionamos a vida conforme elaboramos as experiências vividas. Processamos os acontecimentos de acordo com os princípios, valores e prioridades que usamos como elementos à equação. Como resultado de uma mesma experiência, a depender dos elementos usados na equação, tais como vícios ou virtudes, encontraremos alegria ou tristeza, paz ou revolta, evolução ou estagnação. Assim, conforme a maturidade alcançada, conseguiremos expandir ou contrair a verdade. Como efeito, o indivíduo encontrará a realidade permitida à sua percepção e sensibilidade. Daí, podemos concluir que, apesar de estarmos num mesmo mundo, face as diferenças de compreensão, vivemos em mundos distintos. O que eu não vejo, entendo ou sinto, não existe para mim, embora faça parte da realidade de outras pessoas. E vice-versa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A anciã aguçou o raciocínio e o interesse dos jovens. Canção Estrelada prosseguiu: “O aproveitamento ou desperdício de cada situação, em encadeamento incessante de acontecimentos, dimensiona as fronteiras da vida, sempre estruturada dentro da própria consciência. Ninguém consegue extrair de uma situação o bem que não enxerga, a lição que não compreende, a luz escondida por traz da sombra que ainda admira. Assim, todo sofrimento tem como origem os desajustes dos painéis da consciência, ainda incapaz de filtrar o mal, oferecer mecanismos para reverter as incompreensões e liberar o amor reprimido, seja por si mesmo, seja pela vida. O amor tem amplitudes e profundidades diversas. Logo, não basta amar. Faz-se necessário aprender a amar mais e melhor. Uma conquista equivalente a retirar a venda dos olhos da alma, fundamental à desconstrução dos sofrimentos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nascha complementou: “As fôrmas rígidas do pensar, o vício pelo imediatismo provocador da corrida por conquistas e prazeres de curto alcance, as restrições e condições coercitivas impostas ao amor, a perda da individualidade pela deformação causada por lutas ideológicas incapazes de preencher o vazio existencial, devaneios servindo como fuga ao autodescobrimento, a liberdade de escolha sendo constrangida pelo medo, são exemplos de algumas condições desencadeadoras de dores emocionais, que se avolumam, intensificam e destroem o indivíduo pelo desconhecimento das causas que lhe deram origem. O mau humor, a impaciência e a intolerância, em companhia com a insatisfação, ansiedade e depressão sinalizam o transbordamento do sofrimento fora de controle”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada foi ao ponto central: “Esses fenômenos existenciais, que tanto abalam o pensar e o sentir, proporcionam emoções enfermiças, como o desejo, o deslumbre, o ódio e a frustação. As quatro flechas que atingem o espírito e o faz desperdiçar as maravilhas da vida”. Fez uma pausa para os jovens concatenarem o arco filosófico e ilustrou: “O desejo é como um caminhão ladeira abaixo, sem freio nem direção, abalroando tudo que se opõe ao que o indivíduo entende como destino. Até mesmo o desejo pela prática do bem e as conquistas evolutivas necessita de equilíbrio e sensatez para não despencar no precipício do egoísmo e da obsessão, atropelando vontades, olhares e direitos alheios. Como limite ao desejo, há de haver sincera satisfação quanto aos bens e condições oferecidos pela vida. Neles residem todas as ferramentas necessárias à evolução espiritual. Por vezes, o desafio está na carência, por vezes consiste no excesso. Existe aprendizado e provas de superação em ambas as situações. Seja para despertar a humildade, seja para desmanchar o egoísmo. Não se trata de um comportamento conformista. A compreensão de que o suficiente basta para uma existência luminosa, ilustra uma postura de lucidez e harmonia interior. Todos os demais bens materiais a serem agregados, se vierem, serão bem-vindos. Caso não cheguem, a prosperidade não restará prejudicada pela ausência de nenhum deles. A prosperidade está além do imediatismo dos prazeres rasos, pois, dialoga tão e somente com desenvolvimento espiritual. Nenhum desejo desmedido terá força para saciar o indivíduo perdido e descontrolado nesse tipo comum e vulgar de loucura”. &nbsp;Uma bela jovem, de olhos sagazes, perguntou se todo prazer é um vício comportamental. O xamã esclareceu: “De jeito nenhum. Há que entender o que lhe dá prazer. Existe quem se apraz com a exibição, o revide ou a derrota alheia. De outro lado, tem pessoas que sentem prazer em ajudar, acolher, orientar e curar”. Fez uma breve pausa para fazer perguntas de simples retórica com intuito de impulsionar o raciocínio: “Sinto mais prazer ao criar problemas ou em encontrar soluções para os outros? O prazer tem mil faces. Qual delas encontro no espelho?”. Em seguida, acrescentou: “Outro aspecto valoroso é compreender se você domina o seu prazer ou se está escravizada por ele. Quando estamos no controle, temos à disposição o equilíbrio e a sensatez para fazer escolhas, separar o certo do errado, discernir o bem do mal. Algo que se tornar impossível quando é o prazer que detém o poder e está no comando das ações”. A moça disse ter entendido e agradeceu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nascha abordou a segunda flecha: “O deslumbramento é consequência de um desejo desmedido que vida autorizou mais como prova do que por mérito. O orgulho e a vaidade deformam a personalidade e ofuscam a identidade de um sujeito movido pela ambição desenfreada. Acredita-se superior aos demais, entende natural os privilégios que usufrui sem levar em conta o prejuízo que causa em outras pessoas. Move-se na ilusão do dinheiro, fama e cargos como fontes de poder e prazer sem nada entenderem sobre dignidade e felicidade. Atormentados pela transitoriedade do tempo, lutam desesperados contra inimigos invencíveis que não compreende em amor e alcance, como a velhice e a morte. Apesar de se colocarem no pedestal do mundo, mesmo nos dias de apogeu, ficam exacerbados pelo medo de perder a posição de destaque que, apesar do poder mundano auferido, é de extrema fragilidade diante da impermanência dos acontecimentos e a velocidade do tempo, fenômenos impossíveis de dominar. Sofrem por nada saber sobre as verdadeiras riquezas, poderes e prazeres da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A anciã emendou: “O ódio é a terceira flecha. Surge como a loucura do interesse ou desejo não atendido. Dá vazão a sentimentos selvagens e destrutivos, sendo causa de comportamentos torpes e cruéis. Pulverizado através de diversos formatos de revanche ou vingança, na maioria das vezes, se esconde por trás do absurdo argumento da aplicação da justiça ou da imposição de respeito. Justiça e respeito são virtudes educativas e reequilibradoras, movidas por amor e sabedoria, jamais confundidas com instintos primitivos ainda dominados pela maldade. Não raro, se esconde em reações de irritação, ansiedade e inconformismo. Quando não desmanchado, o ódio se solidifica e fica armazenado com o nome mágoa anotado no rótulo do veneno. Sem um bom argumento que lhe justifique a existência, o ódio é fator dos mais profundos sofrimentos e da consequente somatização dos desalinhos da alma em doenças corporais graves”. O xamã pediu a palavra e concluiu: “A quarta flecha é a frustração. A sua origem está nas confusas ideias de méritos e direitos naturais que o indivíduo se acredita merecedor, sem nenhuma consonância com os movimentos do mundo, as Leis Cósmicas ou as diretrizes pedagógicas da vida. Acredita ser quem ainda não se tornou. Mira-se nos espelhos turvos e falaciosos da vaidade, da empáfia, da ganância e do egoísmo. Entende estar atracado no cais da realidade enquanto, na verdade, singra nos mares tormentosos da incompreensão”. Olhou para os jovens com candura, se virou e fez um gesto com a mão para que a Nascha finalizasse a palestra. A anciã ressaltou: “Na raiz de cada sofrimento encontraremos o próprio indivíduo como autor das dores que padece. Ao se valer dos vícios e condicionamentos que o aprisiona e faz sofrer, ao invés da virtudes regeneradoras que libertam e curam, continuará a elaborar equivocadamente as experiências vividas. Num doloroso círculo vicioso, seguirá direcionando a vida por rotas que jamais o conduzirão ao destino almejado. Como consequência, agravará em intensidade e volume as suas dores emocionais ao constatar, depois de algum tempo, estar muito distante de onde pretendia chegar. Permanecerá assim enquanto se negar a retirar as absurdas condições impeditivas para que o amor sirva de guia ao seu processo evolutivo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada rufou uma melodia de agradecimento pela proteção e iluminação concedidas àquele cerimonial. O portal foi mostrado aos jovens. Atravessar caberia a cada um deles. Devemos ajudar a todos, mas ninguém está autorizado a carregar ninguém na estrada da evolução. Não será permitido nenhum avanço a quem se nega ao aprendizado e à transformação. Aos poucos, os jovens foram saindo, não sem antes agradecer à anciã e ao xamã pelo conhecimento compartilhado. Nascha trocou um abraço com Canção Estrelada e também se foi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sós com o xamã, fomos nos sentar na varanda para aproveitar a brisa suave que desce das montanhas na primavera. Ao contornar a casa, fomos surpreendidos com a presença do John, o guitarrista da banda de rock, aguardando na varanda. Com os olhos marejados, disse ter chegado logo no início do cerimonial. Ouvira tudo que fora dito. Teve a sensação de ter a alma dissecada e os sentimentos expostos à luz. Cada palavra e ideia serviram para mostrar a origem dos seus sofrimentos, sem nenhuma consonância com as imagens desfocadas e narrativas imprecisas que ele mantinha sobre os acontecimentos do passado. Tinha que admitir que se perdera em si mesmo quando se creditou o sucesso de uma banda que já possuía um séquito de admiradores e fãs. Ao fazer parte do grupo, se arvorou maior que o grupo. Daí, as brigas e rupturas. Viveu o desejo desmedido de se tornar um astro da música ao invés de trabalhar com alegria e desenvolver o seu dom, compreendendo que fama e fortuna são efeitos que nem sempre dependem do talento pessoal. Movera-se pelo ódio e pela mágoa crescente à medida que as coisas não aconteciam do modo como desejava. Frustrou-se na convicção de ter sido injustiçado e abandonado, enquanto, na verdade, a vida o protegera dos próprios desatinos. Por longos anos, o aconselhara a substituir as lentes escuras, dramáticas e imediatistas com que observava tudo e todos, por outras mais claras, sensatas e de longo alcance. Recusara-se por todo tempo. Envenenara-se com as quatros flechas que atirou contra si mesmo. Enquanto permanecessem espetadas no seu coração, continuaria a sofrer com os pensamentos estreitos e sentimentos turvos que alimentava. Com a voz embargada, confessou que esteve longe de ser uma pessoa sensata e equilibrada. Havia magoado alguns, maltratado outros. Ao lhe negar os desejos, a vida o salvara de se tornar alguém ainda pior. Chegara a hora de arrancar as flechas, estancar o veneno, corrigir a rota e se libertar da dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentado na cadeira de balanço, sem dizer palavra, Canção Estrelada ouvia com atenção enquanto acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha. Ao final da confissão do guitarrista, o xamã ponderou: “A vida trabalha em prol da evolução de todos. Não está interessada em atender os desejos de ninguém. Os seus esforços estarão sempre direcionados a nos fazer pessoas diferentes e melhores. Tão e somente. Seus métodos quase nunca são de simples compreensão, pois, ao contrário do que gostaríamos, não prima em satisfazer prazeres rasos e imediatos, mas em aprimorar a percepção e a sensibilidade para que as conquistas sejam valorosas e definitivas. Jamais entregará na medida dos desejos, porém, na exata régua das necessidades evolutivas. As dificuldades trabalham à serviço da luz. Quando decodificamos suas razões e motivações, somos envolvidos por uma maravilhosa sensação de encantamento pela verdade, e, como consequência, veremos emergir o amor que liberta dos sofrimentos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada mais foi dito&#8230; nem precisava.</p>
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		<title>O cais e o caos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jan 2025 19:21:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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					<description><![CDATA[Nada havia mudado na pequena vila chinesa no sopé do Himalaia desde a última vez que lá estive. Desci do ônibus na praça em frente a única estalagem do local. A dona me recebeu com a indiferença de sempre. Fiz o pagamento e ela me entregou a chave do quarto...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Nada havia mudado na pequena vila chinesa no sopé do Himalaia desde a última vez que lá estive. Desci do ônibus na praça em frente a única estalagem do local. A dona me recebeu com a indiferença de sempre. Fiz o pagamento e ela me entregou a chave do quarto sem dizer palavra. Deixei a mochila e fui à casa de Li Tzu, o mestre taoísta. No trajeto, para espantar a fome, comprei uma momo, uma espécie de trouxinha de queijo cozida no vapor, vendida nas ruas e muito apreciada na região. Como de costume, o portão da casa estava aberto. Atravessei o jardim de bonsais com recorrente encantamento. Eu me perguntava se a dedicação do mestre taoísta às plantas era a causa da cativante serenidade que expressava em seus gestos e palavras. Ao entrar na cozinha, Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, se espichou, eriçou o pelo, saltou de cima da geladeira e desapareceu em fração de segundo. Espantei-me. Tinha ouvido falar que algumas espécies de animais possuíam aguçada sensibilidade, sendo capazes de identificar o sentimento das pessoas. Apesar de serem transmutadores energéticos, quando muito denso o sentimento, por vezes, os gatos preferem se afastar. Como não havia mais ninguém na cozinha, estranhei. Eu vivia um momento de tranquilidade. Nenhum conflito significativo me atormentava os dias. Sem entender a reação de Meia-noite, sentei-me à mesa a espera de Li Tzu, que não tardou a chegar. Sempre comedido no modo de expressar as emoções, vi nos olhos do mestre taoísta a alegria por me encontrar. Sem demora, colocou algumas ervas em infusão para o chá. Pediu notícias do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Tinham sido contemporâneos em uma universidade inglesa nos anos 1960. Uma amizade que vencera as turbulências do tempo. Comentei sobre a admiração que eu tinha sobre esses encontros, capazes de superar os reveses e as asperezas comuns à existência. O mestre taoísta sorriu e relatou: “Somos almas afins, com semelhante padrão de consciência e sintonizadas a um mesmo objetivo”. Perguntei qual seria esse objetivo. Ele revelou: “As grandes tradições filosóficas ensinam que o sentido da vida é a libertação dos sofrimentos”. Questionei se a principal motivação não seria a evolução espiritual. Li Tzu respondeu que sim com a cabeça e acrescentou: “Evoluir é amar mais e melhor. O amor exige o necessário aprendizado sobre a origem, funcionamento e a desconstrução dos sofrimentos, para encerrar definitivamente os atormentantes ciclos de dores emocionais contínuas. Do contrário, o amor ficará aquém quando poderia ir além. O sofrimento registra o potencial perdido do amor ainda desconhecido”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mestre taoísta fez o assunto retornar ao Velho. Salientou que eu não havia respondido à pergunta que fizera. A conversa tomara outro rumo sem que eu desse notícia do seu amigo. Falei que ele estava bem, dirigindo a Ordem Esotérica dos Monges da Montanha e orientando os diversos cursos ministrados no mosteiro. Não me estendi além do básico. Li Tzu me olhou com seriedade e pediu: “Conte-me o que aconteceu”. Insisti em dizer que estava tudo bem. O mestre taoísta ponderou com candura: “Sei da importância do Velho na sua formação filosófica, assim como do carinho e do respeito que nutre por ele. Contudo, nunca o vi tão sucinto para falar sobre alguém com tamanha luminosidade. Para corroborar as minhas impressões, a repentina mudança em suas feições também o denuncia. Algo está fora do lugar”, afirmou. Em seguida, me deixou à vontade: “Não se sinta forçado a falar sobre o que não deseja ou o deixa desconfortável”. Expliquei que não era nada demais. Apenas tinha discordado do Velho quanto a algumas decisões administrativas. Havia alguns anos, eu fazia parte da diretoria da Ordem e era responsável por um dos cursos oferecidos no mosteiro. Ocorre que ele convidara outro monge – como são chamados os integrantes da irmandade –, o Alex, para um cargo recém-criado, o de coordenador-geral de cursos e estudos. Tratava-se de um monge estudioso e bem-preparado, mas muito jovem. Não se podia negar o valor das novas ideias que trazia, nem o seu intenso dinamismo em implementar algumas mudanças. Confessei que já assistira algumas aulas do Alex e não me agradava o tom de voz alto nem o excesso de pirotecnia, como me referi aos tantos recursos tecnológicos que ele usava em sala de aula. Considerava desnecessário. O importante será sempre o conteúdo, argumentei. Defini-me como alguém mais clássico e tradicional. Decidi me afastar da diretoria e abdiquei de ministrar o curso no qual eu seria responsável no próximo período de estudos. Comuniquei a minha decisão ao Velho em mensagem escrita. Entendia que precisava me afastar para oferecer espaço à indispensável renovação. A evolução exige mudanças, pontuei para concluir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Li Tzu franziu as sobrancelhas e observou: “O discurso está perfeito, porém, sem nenhuma conexão com o coração. Você foi polido, e quase gentil, mas nem um pouco sincero. O sentimento reprimido sobre o fato, gera o sofrimento que o atormenta. O equilíbrio que demonstra é parte do personagem de aparência bem-resolvida, sem o necessário respaldo de uma consciência em paz consigo mesma”. Falei que ele estava enganado. Comentei que eu passava por um período sem qualquer sofrimento. Um momento de grande estabilidade emocional. Todas as questões prementes estavam equacionadas. Eu estava em paz, afirmei. Li Tzu comentou ter visto Meia-noite sair em disparada no instante que eu entrara. Admiti que também estranhara, uma vez que me sentia bem. Ele alertou: “Alguns sofrimentos são tão antigos que já os consideramos parte indissociável de quem somos. Outros, se manifestam com tamanha recorrência que passam desapercebidos. Existem também aqueles que negamos por considerar absurdo suas presenças, face o desenvolvimento espiritual que acreditamos já ter alcançado. Acostumamo-nos as essas dores a ponto de sequer considerar que existam. Criamos uma crosta espessa de proteção em volta do coração, aos moldes das cascas surgidas em pés descalços forçados a caminhar em terrenos pedregosos. Ambos, coração e pés, se tornam insensíveis às asperezas da vida e da estrada. Em situações extremas, ficar insensível pode se apresentar como a defesa possível para o indivíduo não restar destruído pela dor insuportável. Porém, não podemos esquecer que se trata de um mecanismo temporário de autopreservação, sem jamais o confundir como uma solução definitiva”. Encheu as xícaras com o chá recém-tirado da infusão e acrescentou: “A sensibilidade é parte essencial à consciência. Logo, tem importância direita de como elaboramos as experiências e aproveitamos os dias. Com a diminuição da sensibilidade perdemos a capacidade de discernir e valorizar os sentimentos. Dores e amores se estreitarão na mesma medida. Sufocar as dores da existência não devolve as cores da vida. Negar nunca foi um método eficaz de desconstrução. Não sem razão, um sábio alquimista de Kesswill ensinou que não seremos derrotados pelos adversários que surgem nos entreveros das relações, mas pelos sentimentos e sofrimentos que insistimos em ignorar. Uma prática que os permite campear soltos até nos dominar por completo. Assim como as doenças do corpo, as enfermidades da alma se alastram por falta de tratamento. A insensibilidade não simboliza qualquer vitória, porém, uma triste redução de potencialidades. Um jeito de se amiudar para sobreviver de um jeito acanhado ao invés de crescer para viver da melhor maneira possível”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebemos o chá sem pressa e sem palavra. Li Tzu me instava a pensar sobre o meu comportamento, a maneira como eu lidava com os meus sentimentos e elaborava as experiências à medida que as vivia. Um exercício indispensável de autodescobrimento, fundamental às genuínas transformações. A base da evolução. Tudo mais é maquiagem e encenação. Confessei que havia uma série de situações que me fizeram sofrer. Algumas tinham ficado para trás, pertenciam ao passado. Outras, como algumas relações profissionais e familiares prosseguiam por se manterem ativas. Contudo, eu as tinha equacionado dentro de mim. Disposto a colocar o meu coração diante do espelho da verdade, o mestre taoísta questionou: “Acomodou-se ao sofrimento, o tornando suportável, ou alcançou a vitória de o desmanchar definitivamente?”. Falei não saber como identificar a diferença. Li Tzu desfez a dúvida: “Se ao relembrar os fatos for tomado por uma sensação desconforto, significa que houve somente uma acomodação. Ele está guardado, porém, ativo. Caso a lembrança traga a alegria do aprendizado e da superação, o sofrimento foi desmontado definitivamente. Já não causa mais dano”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De diferentes maneiras, todos sofrem. Comentei que gostaria de entender melhor sobre o funcionamento das dores emocionais. Li Tzu foi didático: “Fomos condicionados a sentir medo, a guardar mágoas, a reagir mal diante de situações insignificantes. A usar coisas, como automóveis e casas, como representação da imagem pessoal. Bens materiais são utilizados como régua de sucesso. Privilégios sociais, políticos e jurídicos funcionam como fonte de poder e superioridade. Idolatramos os perfeitos contornos do corpo em detrimento à beleza da alma. Invertemos os valores da vida. Criamos um ambiente propício a frustações e contrariedades. Passamos de um aborrecimento a outro sem descanso nem trégua. O comportamento dos outros incomoda sobremaneira, a ponto de o sujeito desconsiderar a si mesmo como o centro gerador do próprio bem-estar. Fomentamos a intolerância e a impaciência. Estabelecemos como meta de felicidade conquistas que independem da nossa vontade ou capacidade. Abrimos mão do poder de redirecionar a vida. A nossa própria vida. Sem darmos conta, nos esgotamos sem sair do lugar. Somos o oceano dos sofrimentos que nos afogam”. Bebeu um gole de chá e prosseguiu: “O sofrimento tritura os sentimentos até o limite do insuportável. Desequilibra, fragiliza, infelicita, impacienta, leva a conclusões falsas, reduz possibilidades e faz desperdiçar oportunidades. Estimula a agressividade ou o desânimo conforme as estruturas mentais e emocionais do indivíduo. Um perigoso círculo vicioso que se retroalimenta com dores contínuas e crescentes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei como eu poderia me tornar apto para reverter o processo. O mestre taoísta explicou: “Há prazeres que geram dor desmedida, existem prazeres que proporcionam sincera alegria, mas desaprendemos a distinguir qual é qual antes de o sofrimento se instalar. A diferença estabelece o cais ou o caos. Onde podemos aportar em segurança ou os mares que iremos naufragar”. Perguntei se ele se referia a alguma situação específica. Li Tzu esclareceu: “Falo do todas as situações, mas falo também de uma situação específica. No caso, ao seu ato de renúncia aos cargos que tinha na Ordem. Por não saber identificar ou se recusar a aceitar o sentimento que o envolveu ao saber da decisão do Velho em nomear o Alex para uma função na qual você ficaria subordinado, o fez reagir mal. Contudo, na tentativa de esconder de si mesmo e ocultar dos demais monges o autêntico sentimento que movia a sua escolha, elaborou uma renúncia com ideias nobres de abnegação e renovação. Se houvesse sinceridade, a paz transbordaria. Como não há, permanece uma tensão velada em seus gestos e palavras”. Contestei. Ele estava enganado. Questionei o modo pelo qual chegara àquela conclusão. O mestre taoísta mostrou a sua perspicácia: “Pirotecnia”, disse somente. Sim, eu tinha usado esta palavra para adjetivar o modo de agir do Alex, mas não entendia o que ele queria me mostrar. Ele esclareceu: “O tom sarcástico no uso do termo para ilustrar os fatos, mostrou existir um sentimento incompreendido e revelou a dor reprimida. O sarcasmo e a ironia são nefastas vias de agressividade disfarçada, porém, socialmente aceitas. Sendo até mesmo aplaudidas como suposta manifestação de bom teor intelectual. No entanto, a aceitação social não excluí a violência embutida no ato. A depender do indivíduo e da situação, o sofrimento tem o poder de comprimir ou esgarçar, implodir ou explodir, nos fazer acabrunhados ou impetuosos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desconcertado, deitei a xícara sobre a mesa e perguntei se ele alegava que eu tomara a decisão de me afastar dos cargos de diretor e professor movido por ciúme ou inveja. Falei em tom de indignação. A acusação era severa. Li Tzu não se alterou, manteve a serenidade, os seus olhos fixos nos meus e devolveu a pergunta: “Defina o cais que aportará ou caos que viverá&#8230; Diga você”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contive o ímpeto de me levantar e ir embora. Ele queria me ajudar. Para tanto, eu tinha que ficar e enfrentar. Não a ele, mas a mim mesmo. Como ensinou o alquimista do Recôncavo, <em>narciso acha feio o que não é espelho</em>. Ciúme e inveja, jamais. Sentimentos sombrios já transmutados e superados, afirmei. O ciúme se caracteriza pelo incômodo de não ser o polo principal do interesse de alguém. A inveja se restringe a indivíduos que não se conformam com as conquistas alheias. Em ambos os casos, insistem em reagir por instinto sem deixar aflorar os mais belos sentimentos. A minha postura não se adequava ao ciúme nem a inveja. Eu apenas não me alinhava às novas diretrizes determinadas pelo Velho. Para não atrapalhar, me afastei. Simples assim, expliquei. Li Tzu sacudiu a cabeça como quem diz não e contrapôs: “Simplória, sim. Simples, jamais. Se fosse, descortinaria os enganos que você teme revelar”. Indaguei por qual motivo eu recearia admitir os meus enganos. Em resposta, ele apenas me olhou. Não carecia de palavra. Abaixei a cabeça. Eu sabia que não há mentira maior, nem mais grave, do que aquela que cada um conta para si mesmo. Daí, o caos ao invés do cais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fechei os olhos e me calei por um tempo que não sei precisar. O mestre taoísta demonstrou não ter pressa. Manteve-se sentado à minha frente com uma calma e uma paciência inabaláveis. Para fazer do caos um cais, eu precisava admitir os genuínos sentimentos que moveram a minha decisão e começar a trabalhar com a verdade. Respirei fundo e confessei que, embora até então não admitisse, sentira ciúme pelo fato de o Velho ter escolhido o Alex, e não a mim, para o cargo de coordenador-geral. Eu sentira inveja ao ouvir tantos elogios quanto método pedagógico que ele utilizava, assim como da leitura diferenciada que oferecia sobre a matéria que lecionava. Sim, o Alex era muito bom. Contudo, ao invés de me valer da verdade desconfortável, porém, libertadora, eu escolhera uma saída de palavras elegantes para esconder sentimentos falaciosos. Era o prazer de curta duração com sofrimento de longo prazo de que Li Tzu falara há pouco. Tive de vencer todos os meus dragões internos para verbalizar que, sim, eu agi por ciúme e inveja!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário do que imaginava, fui envolvido pelo frescor de um sentimento puro de autocompaixão e amor-próprio. Quando um sentimento surge para substituir outro, a transmutação se faz sem demora. Somente assim pude desafazer o sentimento que me afogava em sofrimento. O Alex e o Velho mereciam todo o meu amor. Eram pessoas maravilhosas e gostavam de mim. Entendi, na prática, que o ciúme e a inveja são incompreensões internas que criam contrariedades e conflitos desnecessários, em movimentos desgovernados de auto traição. Então, amargamos a vida, apagamos a luz. Faz-se indispensável emergir com a inveja e o ciúme à tona da consciência para reconhecer suas presenças e o alcances, assim como os enganos e desastres que provocaram, como meio de estancar suas atuações e influências. Perdoar-se a partir de um arrependimento sincero, oferece as perfeitas condições de transmutação desses sentimentos por outros, como o carinho, o respeito e a admiração. Da mágoa se faz o amor. Então, a luz volta a brilhar. Reconhecer a própria fragilidade faz germinar a semente da força. Se a verdade oferece o remédio, o amor faz cicatrizar. A renovação que o Alex levava ao mosteiro também serviria ao meu aperfeiçoamento, desde que não me faltasse humildade e simplicidade. A regeneração consiste no renascimento e na reconstrução de si mesmo com diferentes e melhores fundamentos. Era isto que me esperava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerrei a minha confissão com os olhos marejados citando um axioma popular: <em>aprendemos no amor ou com a dor</em>. Li Tzu discordou: “A dor nada ensina. A dor é o recurso limítrofe da vida para despertar o amor desconhecido ou desprezado. Enquanto o amor não chegar, o indivíduo não aprenderá. O sofrimento estreita a mente, turva a visão e envenena o coração. Se insistir em se manter distante do amor, a dor o fará naufragar após sucessivas colisões com os rochedos da incompreensão e da amargura. Somente quando a dor aceita o amor como timoneiro, a embarcação da vida ajusta a rota, saindo dos mares tempestuosos do caos para aportar no cais seguro da paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento, Meia-noite, o gato negro que também morava na casa, entrou na cozinha, saltou para cima da geladeira, me olhou por alguns instantes, bocejou e adormeceu, em claro sinal que aprovava o meu novo padrão vibracional. Rimos. Ponderei que aquela conversa tinha encerrado a função da viagem. O meu coração pedia para eu partir rumo ao mosteiro. Encontrar com o Velho e o Alex, os abraçar, admitir os equívocos e pedir que me fosse permitido reingressar na Ordem. Tive o amor e a alegria traídos pelo orgulho, vaidade, ciúme e inveja. Tudo se resumia aos meus desencontros comigo mesmo. Li Tzu pontuou: “Todos os conflitos são projeções externas de nossas insatisfações e incompreensões internas. Em verdade, ninguém tropeça por culpa de ninguém, salvo pela própria inabilidade em andar com os próprios pés”. Ofereceu-me um lindo sorriso e disse: “Agora, vá! Faça o que precisa ser feito. Não deixe a vida esperar. Quando não entendemos o cais, somos envolvidos pelo caos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao sair, passei pelo jardim de bonsais. Lembrei ter me perguntado, ao entrar, se cuidar das plantas era a razão de Li Tzu expressar tamanha serenidade em seus gestos e palavras. Embora o contato com as plantas fosse salutar, a resposta era não. Há tempos, o mestre taoísta aprendera a discernir a estrada que leva ao caos do caminho que conduz ao cais.</p>
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		<title>A dor e o segredo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jan 2025 16:49:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Havia algum tempo, eu não visitava o Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos. Como de costume, era madrugada quando o trem me deixou na estação. Era prazeroso, embora exigisse cuidado, andar pelas ruas estreitas e sinuosas daquela pequena cidade. De tanto uso, as pedras do calçamento antigo se tornaram lisas. O orvalho da noite as tornava ainda mais escorregadias. A iluminação precária dos lampiões favorecia ao esplendor das estrelas que preenchiam o céu com infinitos pontos de luz de diversas grandezas, formando desenhos e aguçando a imaginação. De todos os espetáculos de beleza proporcionados pela natureza, e existem muitos, esse é um dos que mais me encanta. Como se não bastasse, uma elegante lua minguante apontava no canto, logo acima do telhado das casas, como se fosse a assinatura do artista na tela sagrada. O único som vinha dos meus passos. Eu pisava devagar para não acordar a cidade adormecida. Ao dobrar a curva da rua, avistei a lendária bicicleta do sapateiro encostada ao poste em frente à oficina, sinalizando que estava aberta. Os horários de funcionamento do ateliê eram inusitados e tão famosos quanto a habilidade do Loureiro em costurar sapatos e ideias. Fui recebido com um forte abraço e um sorriso sincero, como acontece com os bons amigos. O aroma do couro se misturava a fragrância do café. Notei haver mais alguém. Lúcia, uma sobrinha do sapateiro, chegara um pouco antes. Fomos apresentados. Era uma mulher com uma beleza fora dos padrões. Com um pouco mais de trinta anos, tinha cabelos ruivos cortados rente à nuca e olhos penetrantes, num tom castanho, tão claro que se aproximava do amarelo. Características físicas que acrescentavam um intenso magnetismo a sua presença. Embora a fala fosse segura e os gestos firmes aparentassem uma pessoa senhora de si, de dentro dela emanava uma indisfarçável tristeza. Ou seria uma agonia? Eu não sabia qual sentimento a incomodava. Sabia apenas que por trás daquela mulher de aparência forte, havia um sofrimento capaz de demolir as suas estruturas e a levar à ruina existencial, caso não fosse revertido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A moça precisava conversar. Ela procurava por ajuda e estava ali para isto. Ninguém melhor do que o Loureiro para oferecer lentes claras e de longo alcance para observarmos tudo e todos sob diferentes ângulos e com maior nitidez. Sofremos quando teimamos em ver quem somos, o mundo e a vida com lentes turvas ou para distâncias curtas. Imediatamente, desconversei. Falei que tinha passado somente para um abraço. A padaria não tardaria a abrir, comentei. Eu estava com saudade do maravilhoso sanduiche feito com frios e queijos da região. Ela sorriu diante da minha falta de habilidade em dar desculpas e disse para eu ficar. Estava frio lá fora e ainda faltavam um par de horas para a padaria abrir. No mais, talvez eu pudesse oferecer algumas nuances às múltiplas cores sempre disponíveis na paleta de ideias do seu tio. Aceitei o convite e me sentei. Sem demora, tínhamos três canecas fumegantes de café sobre o balcão de madeira para ajudar a impulsionar o raciocínio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lúcia estava casada com Oliver havia dez anos. Tinham terminado de se formar na universidade e começavam a trabalhar quando tomaram essa importante decisão. Estavam apaixonados. Ao longo desse tempo a relação se deteriorou por vários motivos. Alegou que o marido sofria de uma forte dependência emocional em relação aos pais e irmãos, o que a impedia de construir com ele um novo núcleo familiar a partir do casamento. Não sentia que o marido a olhasse como a principal parceira de uma história a ser escrita a quatro mãos, mas como coadjuvante de menor importância, cuja principal atenção se concentrava na casa dos pais. O distanciamento foi inevitável e aconteceu aos poucos. Quando se deu conta, compartilhavam a mesma casa, mas não formavam mais um casal. Faltava a cumplicidade indispensável a projetos de vida alinhados em uma mesma direção. Não havia mais qualquer resquício do amor original. Embora nunca tivessem tocado no assunto, ambos tinham relações extraconjugais. Uma espécie de consentimento tácito e destrutivo. Estava decidida a se divorciar havia algum tempo. Aguardava somente a promoção na empresa para arcar com as despesas de morar sozinha. Considerava um retrocesso retornar à casa dos pais, ainda que por pouco tempo. Administrava o processo de espera da decisão com tranquilidade, até que se descobriu grávida. As chances de o Oliver não ser o pai eram consideráveis. Tiveram relações esporádicas nos últimos meses. No íntimo, havia a convicção de que o filho não era dele. O marido desconfiaria, claro. Por questões filosóficas e humanistas, a hipótese de interromper a gravidez estava descartada. Logo o seu corpo começaria a mudar. Não tinha muito tempo. Uma lágrima rebelde revelou a fragilidade daquela mulher de aparência forte. Disfarçou e, mesmo sem ninguém perguntar, murmurou que estava bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro franziu as sobrancelhas brancas e a corrigiu: “Você não está bem”. A sobrinha o retorquiu: “Sim, estou bem. Eu sei me cuidar. Pode parecer estranho vir de madrugada ao ateliê para conversar, mas há tempos tenho como hábito dormir poucas horas por noite”. Fez questão de mostrar que tinha absoluto controle sobre si mesma. Um vício de comportamento ligado ao orgulho e à imaturidade, numa tentativa desesperada de se manter forte e equilibrada diante do mundo, enquanto no âmago desabava em desespero silencioso. O sapateiro ponderou: “Repetir uma mentira todos os dias jamais terá o poder de a transformar em verdade. Aceite o sofrimento, será o início da cura; admita a sua fragilidade, nela encontrará a semente da força desconhecida. Entenda que está a um passo de perder o domínio sobre a própria vida se não fizer a escolha precisa. Os próximos movimentos necessitam ser firmes, angulares e bem direcionados. Do contrário, se perderá em si mesma, como herdeira do medo e da falta de decisões assertivas”. Lúcia engoliu em seco e abaixou a vista. Aquelas palavras atravessavam o ego para lhe tocar à alma. Loureiro prosseguiu: “Negar, enganar ou entorpecer o sofrimento é método de alienação e grave desperdício de tempo, sem qualquer possibilidade de alcançar um resultado saudável. São mecanismos à serviço da deturpação da realidade e convenientes àqueles que insistem em fugir da verdade. Ao invés de colaborar com a cura, esgarçam a dor até que se torne insuportável. As quedas são abissais. Ninguém precisa deixar que isso aconteça”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda com dificuldade em admitir a fragilidade e o desequilíbrio que a distanciavam do autocontrole, Lúcia alegou que o sofrimento era a única certeza da vida. Um inimigo impossível de derrotar. Resta-nos aprender a tornar suportável o que não tem fim. O tio voltou a corrigir a moça: “O sofrimento existe na razão direta da dificuldade de compreensão, ineficiente elaboração e consequente erro quanto à resolução das experiências vividas. Logo, da imaturidade consciencial. Uma postura sincera, serena e corajosa de enfrentar o sofrimento, o examinando desde a origem em todos os seus aspectos e modos de funcionamento, demonstra a lucidez daqueles que compreendem que as dores emocionais resultam dos equivocados direcionamentos pelos quais decidiu se conduzir através dos dias. Costumam estar ligados a interesses imediatos, soluções rasas e desejos superficiais, dando causa ao desequilíbrio e à fragilidade que agoniza face às sensações de perdimento, desorientação, impotência e incapacidade. Reações de revolta ou vitimismo servem apenas para aumentar ainda mais a dor. Um processo difícil de enfrentar, mas sempre apto à reversão. Essa é a jornada de cura da alma. Disponível a todos, aproveitada por poucos”. A sobrinha se calou por alguns instantes, segurou a caneca com as duas mão, como representação simbólica de que precisava se agarrar a algo para não desabar diante do medo quanto às incertezas futuras, bebeu um gole de café e confessou estar perdida. Para todos os lados que olhava, não vislumbrava nenhuma saída. Todas as soluções pareciam ruins. O sapateiro a acalmou: “Saídas difíceis não significam soluções ruins”. A moça disse estar disposta a qualquer sacrifício para se ver livre do labirinto que se encontrava. O tio a alertou: “Quando mal compreendido, os sacrifícios nos afastam da essência e nos levam a perder o essencial, gerando ainda mais sofrimento. Trata-se de um erro comum acreditar que esse tipo de esforço conduzirá a uma resolução saudável. Nada impede que a solução difícil seja também alegre e prazerosa”. Lúcia disse não entender como seria possível. Loureiro esclareceu: “Basta que compreenda se tratar da sua reconstrução, da criação de uma nova versão de si mesma. Mais bela, leve e aperfeiçoada. Com maior suavidade, equilíbrio e força de movimento para chegar aonde nunca esteve, seja nos meandros próprio âmago, seja pelos caminhos do mundo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole de café e explicou: “A palavra sacrifício vem do latim, significa sacro ofício ou trabalho sagrado. Se a conotação de sagrado sintetiza tudo o que nos torna pessoas diferentes e melhores, no esforço da transformação temos de ter sensibilidade para jamais abrir mão daquilo que não podemos perder, como o amor-próprio, o autorrespeito e a paz. O autêntico sacrifício se resume em deixar para trás, por mais difícil que seja, o que não nos serve mais ou impede a nossa caminhada rumo à luz, como o egoísmo, a mentira, o orgulho, a vaidade, a ganância, o revanchismo, entre outras sombras pessoais, ainda inseridas nas entranhas do nosso comportamento, personalidade e escolhas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>A mulher ruiva de olhos castanhos amarelados balançou a cabeça em negação. Teorias bonitas eram inexequíveis; a vida exigia praticidade, alegou. O artesão arqueou os lábios em singelo sorriso e concordou para em seguida contra-argumentar: “As teorias precisam ser vividas. Do contrário, serão discursos vazios de utilidade. A dificuldade de transformar uma ideia em realidade está na proporção direta da recusa em deixar de ser para se tornar. Em outras palavras, renunciar as características, hábitos e meias-verdades que aprisionam o indivíduo onde está, o impedindo de ir além de quem sempre foi. Uma tarefa que exige determinação e dedicação. Questões que desmancham o orgulho, fazem abdicar da vaidade, encerram a ganância e desfazem o egoísmo abalam uma estrutura ainda apreciada pelas multidões. Embora arcaica e obsoleta, traduz os elementos usados à autoidentificação. Uma espécie de registro realizado por intermédio das ações e reações que compõem e descrevem a personalidade. &nbsp;Inconscientemente, o sujeito receia não mais se reconhecer. Imagina que restará incompleto, sem compreender o quanto conseguirá acrescentar e integrar em si mesmo. Teme a rejeição por parte daqueles que convive e admira; se apavora com a possibilidade de inadequação ao seu novo jeito de ser e viver. Receia ficar irreconhecível sem se atinar que a evolução impõe uma indispensável transformação. Acredita que perderá a identidade, quando, na verdade, trará à tona uma criação mais avançada de si mesmo, porém, jamais revelada por aguardar em local até então nunca acessado”. Bebeu um gole de café e prosseguiu: “Como pode perceber, a impossibilidade não dialoga com teoria, mas com o vício da imobilidade”.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Lúcia ponderou sobre a dificuldade de conversar com o Oliver face a enorme possibilidade de ele não ser o pai da criança. Estavam casados. Os seus próprios pais, assim como a família do marido e parte do círculo de amigos em comum reprovariam o seu comportamento. Utilizando um adjetivo grosseiro e inadequado, a moça afirmou estar condenada a viver sozinha com uma criança bastarda. Loureiro foi enérgico: “Não cabem cenas melodramáticas na vida de ninguém. Assim como todos, você está onde se colocou. Seja responsável por suas atitudes e escolhas. Arque com as consequências e cresça com o aprendizado extraído da experiência vivida. Seja sincera consigo para que possa enxergar o mundo e a vida com clareza. Isto é fundamental à maturidade. Se o Oliver tiver um pingo de sensatez e serenidade entenderá que concorreu para esse desfecho. Se não tiver, tampouco importa. Você sabe dos seus motivos, razões, sentimentos e necessidades. Isto basta. No mais, ninguém está sozinho quando tem a si mesmo. Confie na sua capacidade de superação, perdoe-se e siga em frente. As oportunidades oferecidas pela vida são infinitas”. Deu um sorriso acolhedor e disse: “Eu estou aqui. Sempre haverá uma caneca com café quente a aguardando para um boa conversa”. Com os olhos em lágrimas, a sobrinha abraçou o tio por longos minutos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A moça bebericou o café, como se tomasse coragem para abordar um assunto delicado, e admitiu a hipótese de aguardar que o marido manifestasse a suspeita e pedisse um exame genético para verificar a paternidade da criança. Com um pouco de sorte, tudo ficaria bem. O sapateiro tornou a franzir as sobrancelhas espessas e ponderou com firmeza: “Do contrário, se o Oliver se calar sobre a dúvida, como você se sentirá perante a ele, ao seu filho e, principalmente, diante de si mesma com o passar dos anos? Por que os segredos existem? É possível viver em paz atormentada pelo medo de ter os segredos revelados?”. As perguntas eram de simples retórica. Ele acrescentou: <a>“A mentira nos faz perder o autodomínio por nos afastar da dignidade. Não importa o tamanho do muro que nos esconde, restaremos fragilizados. Quando abdicamos do controle de nossas vidas, ficamos reféns dos acontecimentos. Nada agoniza mais um marinheiro do que estar num barco à devida, com o leme quebrado, ao sabor das marés e correntezas, e não mais ter a capacidade de evitar os rochedos nem o naufrágio. Sofremos porque somos marinheiros que insistem em quebrar o leme da embarcação. A negação em atuar quando temos a responsabilidade de fazer, nos faz escravos desde a origem da omissão. Não cabe reclamar do sofrimento que demos causa”. Lúcia comentou que pensava em substituir um sofrimento por outro; uma troca que talvez tivesse aspectos favoráveis. Loureiro foi enfático: “Ledo engano. Não se consegue trocar um sofrimento por outro. Os fatos e atos geradores não se apagam na sequência de escolhas falaciosas, como se a mentira fosse capaz de atenuar o sofrimento. Caso em que atenuar teria a mesma conotação de entorpecer. Disfarçar a dor serve apenas para postergar a cura. Pintar as paredes e mobiliar um cárcere o torna um lugar mais agradável, no entanto, a condição de prisioneira permanecerá imutável. Apenas a verdade tem o poder de libertar”.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Lúcia balançou a cabeça. Parecia não acreditar. Lidar com a verdade naquele momento seria muito difícil. Temia a reação do marido, da família e dos amigos. Talvez não estivesse pronta, talvez devesse deixar ao sabor do acaso, considerou. Loureiro pontuou: “O amanhã traz o signo do imponderável. Nada sabemos sobre o desenrolar dos acontecimentos em nossas vidas. A dignidade é o lastro da embarcação perante os reveses da existência, a permitir o equilíbrio e manter a direção. Na confluência da ética com o amor, a dignidade consiste em tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. Um jeito simples e essencial de viver em paz, sem importar a imprevisibilidade dos ventos e o rigor das tempestades. A relação entre verdade e dignidade é simbiótica. Uma não existe sem a outra. Ser digno consiste em ter a verdade como alicerce na construção de si mesmo. Um pilar indestrutível. A desconstrução do sofrimento exige, entre outros aspectos e questões, a reconstrução moral através do alinhamento com a verdade”. Lúcia argumentou que o marido também tinha tido relações extraconjugais. Estavam quites. Loureiro a lembrou: “Não importa o que os outros fizeram. É problema deles. A cada um será entregue conforme as suas obras. Inexoravelmente. O valor que possuímos reside em nossas ações e reações diante dos acontecimentos da vida. Quando justifico as minhas atitudes no erro das outras pessoas me distancio da verdade e revelo quem eu ainda não sou. Afasto-me da luz. A escuridão é o ambiente propício para o sofrimento ganhar vulto e poder”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em pequenos goles e sem dizer palavra, a sobrinha bebeu o café até esvaziar a caneca, como se precisasse de tempo para alocar aquelas ideias nas exatas prateleiras da mente e do coração. Depois, fechou os olhos por longos minutos. Quebrei o silêncio para lembrar que nenhuma decisão precisava ser tomada naquele momento. Disse que havia aprendido que escolhas difíceis eram apenas escolhas ainda não amadurecidas. Quando estamos prontos para a decisão, o movimento se torna simples. Lúcia abriu os olhos e sorriu. Era um lindo sorriso. Disse que sabia exatamente o que fazer. Se conduziria pelos trilhos do respeito e da verdade. Convidaria o Oliver para almoçar. Teria uma conversa franca com o marido. À tarde, procuraria um lugar para morar que coubesse no seu orçamento. Não esconderia nada de ninguém. Tampouco havia motivo para se envergonhar. Seria responsável por si, pelo filho e pelos efeitos das suas escolhas. Tornou a sorrir, fixou os olhos nos olhos de Loureiro e disse ter consciência que iniciava um ciclo de enormes dificuldades, mas com grandes aprendizados e profundas transformações. Não seria fácil, mas faria valer a pena. Não desperdiçaria a oportunidade de crescimento proporcionada por aquela experiência. Mesmo que não acreditássemos por causa de todas as dificuldades que enfrentaria, estava animada e bem-disposta, confessou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro retribuiu o sorriso e explicou: “Eu não tenho dúvida de que esteja de braços dados com a felicidade. Entre as várias escolhas possíveis, você decidiu por iniciar um processo de cura concomitante a uma jornada de libertação. Em alguns casos, curar um sofrimento é se libertar do imobilismo, do medo e da mentira. É ter a coragem e a ousadia de viver o expoente das transmutações possíveis. Assim, apesar das enormes dificuldades inerentes à mudança, haverá alegria e prazer em cada movimento”. Esvaziou a caneca de café e lembrou à sobrinha: “Há de haver abnegação para deixar ir o que não cabe mais ficar; humildade, para que haja espaço para as mudanças e o crescimento; simplicidade, para afastar os enganos das conveniências; e compaixão para nunca faltar o perdão. A culpa e a mágoa formam o manancial mais comum e vulgar dos nossos sofrimentos”. Fez uma pausa e finalizou: “Por último, mas não menos importante, que o amor permeie todas as suas posturas e escolhas. A dor se afasta à medida que o amor se aproxima”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher de cabelos ruivos, cortados rente à nuca, e olhos castanhos, quase amarelados, disse que precisava ir. Aquele dia, que iniciara numa madrugada triste, amanhecia em tons de esperança. Ela tinha muito o que fazer. Se despediu de mim, deu um beijo estalado na bochecha do sapateiro e se foi. A moça que saiu da oficina acabara de encontrar uma parte essencial e desconhecida de si mesma. Descobrira, também, o caminho da paz.</p>
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		<title>O mendigo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Dec 2024 19:44:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu estava no mosteiro para mais um ciclo de estudos. Tinha sido uma noite difícil. Uma avalanche de pensamentos me furtara o sono. Ninguém consegue dormir se dentro de casa impera o barulho, a bagunça e a desordem. Cada um mora em si mesmo. Eram muitas vozes falando de maldades, abusos e rejeições sofridas. Quando acontece, o caos se espraia pelos cômodos. Desconfortável, você sai de casa. Desconecta-se da sua essência para viver à margem de quem você é. Perde o rumo e a identidade. Torna-se inseguro, os movimentos ficam vacilantes, por vezes, impetuosos. São sintomas comuns às dificuldades de elaborar as dores emocionais. Em diferentes graus, todos enfrentam esse desafio existencial. Sem exceção. Ninguém gosta de se sentir assim, muito menos que percebam o desequilíbrio pelo qual atravessamos. É comum fazermos um enorme esforço para transmitir a todos uma imagem de equilíbrio e força. Contudo, de nada adianta encenar uma falsa tranquilidade enquanto a agonia e o sofrimento deitam raízes no coração. Apenas adiamos a resolução do problema. A aparência, por mais bela que seja, jamais terá o poder de transformar a essência. Não iremos a lugar nenhum. Não há como apagar esse incêndio sem chegar num lugar difícil, porém, lindo; delicado, porém, poderoso: o âmago do ser. Instado por essas ideias, desisti de continuar na cama. Eu precisava pensar sobre os sentimentos que me moviam e, tão importante quanto, para onde eles me conduziam. Do contrário, permaneceria distante de quem eu precisava encontrar: a mim mesmo. Levantei-me com o céu ainda estrelado. Fui à cantina, fiz um pouco de café, enchi uma caneca e me sentei próximo às janelas com vista para as montanhas. Havia silêncio e quietude. Uma maravilhosa vibração de paz era a tônica constante do mosteiro, um lugar bastante agradável de estar. Algumas das pessoas que me eram mais valiosas estavam ali. Apesar das condições externas serem perfeitas ao bem-estar, nem toda aquela paz era capaz de encerrar o tiroteio do meu coração em guerra. Depois de anos e anos de estudos, pilhas de livros lidos, inúmeros cursos e palestras, incontáveis horas de oração e meditação, eu ainda era escravo das minhas emoções indomáveis e desvairadas. Era preciso compreender o que eu ainda não fora capaz de entender. O mais grave é que eu nem sabia por onde começar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Comece por onde doí. O rasgo da ferida é perfeito para deixar a luz entrar”, fui surpreendido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele entrara na cantina sem que eu o notasse. Encheu uma caneca de café e se sentou à mesa comigo. Perguntei sobre a que se referia. Respondeu-me: “Falo das incompreensões que o arrancam do seu eixo de luz. Sem o devido entendimento desperdiçará o mel da vida. Não conhecerá a paz nem a felicidade. Viverá amores esgarçados. A liberdade se manterá impossível enquanto permanecer refém do comportamento alheio. Não menos importante, sem se dar conta, aos poucos, perderá a dignidade em escolhas desorientadas e atitudes permissivas”. Antes que eu pudesse dizer algo, ele complementou: “Quando a voz cala a dor, os olhos suplicam ajuda”. &nbsp;Bebeu um gole de café e, com seu modo simples e sincero, me ofereceu acolhimento: “Estou aqui”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não consegui conter a lágrima rebelde que revelou o teor dos sentimentos e se antecipou as minhas palavras. Eu precisava falar e o Velho estava disposto a me ouvir. Sem julgamento nem censura. Falei por um tempo que não sei precisar. Contei sobre o histórico de rejeição familiar que eu vivia desde a adolescência. Não é fácil nem simples crescer em uma família sem se sentir acolhido e compreendido em suas necessidades emocionais. À medida que me tornei adulto, nada mudou. Assistia como todos se importavam com todos, se procuravam, confraternizavam. Muitas vezes deixei de ser convidado para aniversários, encontros, casamentos, festas de Natal e Ano Novo. Não era apenas uma questão de convites. As críticas eram ferozes. Até quando eu acertava, para eles, havia um erro. Falavam que o bem praticado tinha sido motivado por vaidade ou culpa. Viver no seio de uma família sem fazer parte dela era doloroso. Mais ainda, quando tentava conversar com essas pessoas para entender sobre o motivo da aspereza, elas negavam. Diziam me amar. Momento seguinte, me descartavam. Era quase uma tortura. Vivenciei constantes picuinhas e agressividades veladas. Maus-tratos. Citei inúmeros episódios ainda vivos na memória, mesmo depois de muitas décadas. Mesmo assim eu não desistira de fazer parte da família e me sentir amado por eles. Eu desejava que um dia o meu valor fosse reconhecido. Ao final, o Velho me questionou: “Por que você insiste em se desrespeitar?”. Falei que era necessário oferecer a outra face todas as vezes que nos agrediam. Oferecer a outra face, em melhor interpretação, é mostrar os encantos da luz a quem vive na escuridão. O bom monge balançou a cabeça e pontuou: “Um conceito certo aplicado ao caso errado. Não há nenhuma luz quando nos deixamos ferir para não desagradar os outros. Não devolver o mal com o mal é ato luminoso. Estabelecer limites para cessar abusos, também. Jamais permita que nada nem ninguém o destrua. Deixar-se destruir é como se abandonar nos becos sombrios de um sofrimento sem fim”. Franziu as sobrancelhas e pontuou com seriedade: “Existe uma importante diferença entre persistir e insistir. Persistir é não desistir de um caminho apesar dos obstáculos que se apresentam. Insistir é teimar em prosseguir em um caminho sem saída. Cabe a cada um adequar a teoria ao caso concreto”. Em seguida, me desconcertou: “Você está fragmentado entre o sofrimento da rejeição e a dor do crescimento”. Fez uma pausa para ressaltar: “Sim, crescer dói, causa medo, raiva e culpa. Mas é fundamental à evolução. Trocamos a sensação de abandono pelo sentimento de amor-próprio. Aprendemos a nos cuidar, a entender o que é melhor para a gente e adquirimos prazer em vivenciar a nossa própria reconstrução. É maravilhoso!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionei o motivo pelo qual resistíamos tanto em levar a termo uma transformação tão necessária. O Velho explicou: “A rejeição é um sofrimento conhecido de longa data. Você acredita já ter se acostumado ou que saiba lidar com ele. Por isto, prefere deixar como está a ter de enfrentar a dor desconhecida do crescimento. Não é simples ir a um lugar onde nunca esteve tanto dentro como fora de si mesmo. Isto assusta. Nem sempre é fácil impor limites a quem se acostumou a nos tratar sem nenhum respeito. Terá de contrariar pessoas que acredita amar, negando vontades e desejos a que se habituaram, mas que ferem a sua consciência ou o deixam desconfortável. Como ensina uma alquimista contemporânea, <em>dizer não a pessoas que pretendem que diga sim – e defender os seus limites com pessoas que estão acostumadas a que não tenha nenhum – vai provocar uma sensação horrível de morte. E é uma espécie de morte: a morte daquela parte de si que pensa que precisa ser desrespeitada para ser amada</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não compreendia a razão de uma transformação tão benéfica gerar dor, medo, raiva ou culpa. Acreditava que ao caminhar rumo à evolução seríamos tomados apenas por sentimentos bons. O bom monge esclareceu: “Para chegar aos sentimentos bons será preciso enfrentar e ultrapassar os sentimentos ruins. Não apenas isto. Terá também de aprender a interpretar os novos sentimentos. Afinal, você ainda os desconhece”. Pedi para que explicasse melhor. O Velho foi didático: “De início, será doloroso perceber que muitas pessoas queridas não mudarão de comportamento, mesmo quando lhes disser que o modo como se relacionam contigo o faz sofrer. Terá de aceitar que, por serem insensíveis ao teor nocivo das próprias atitudes, precisará se afastar delas. Terá de encerrar ciclos com quem acreditava que estaria ao lado até o dia do dia sem fim. Contudo, a dor da perda não pode furtar a alegria dos inquestionáveis benefícios que virão com as mudanças. Então, em melhor análise, entenderá não se tratar nem de uma dor nem de uma perda, mas de um sentimento de perplexidade, aprendizado e transformação por estar transitando em uma estrada nunca percorrida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole de café e continuou: “Podemos sentir medo ao pensar como as pessoas reagirão aos limites que passaremos a impor. Ficaremos receosos se entenderão e apoiarão a nossa nova versão. Se saberemos lidar com a solidão até encontrarmos quem nos ame e admire por ser quem verdadeiramente somos. É como retornar à escola para reaprender a ser e viver de um jeito diferente e melhor. O medo de curto prazo não pode impedir a liberdade de longa duração. Toda quebra de padrão traz uma sensação de insegurança. Se pensar bem, essa sensação é fictícia e desprovida de valor. Nada há de ruim em deixar ir o que não nos faz bem. Em verdade, esses novos sentimentos são sinais de uma transformação que se anuncia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “Será comum se, num primeiro momento, nos sentirmos culpados por negar os desejos daqueles que sempre atendemos. Nos sentiremos egoístas pelo simples fato de respeitar, valorizar e cuidar do nosso próprio bem-estar. Afinal, são atitudes que, além de novas, geram prazer. Uma vez que o sofrimento nos fez companhia por longo tempo, ainda que absurdo, duvidaremos do nosso direito à felicidade. Absurdo também será, e não se espante que aconteça, ficarmos mal ao impedir a entrada de quem sempre se portou como se o nosso coração fosse um bordel ou parque de diversão. São sentimentos novos decorrentes de um comportamento novo. Mais maduro e evoluído. Não hesite, nenhuma correlação existe entre autoestima e egoísmo. O amor-próprio é pressuposto indispensável para amar mais e melhor a todos. Sem aquele, este será impossível”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, explicou: “Sentiremos raiva ao perceber que muitas pessoas só se interessavam pelas vantagens que usufruíam no modelo de relacionamento abusivo que mantinham conosco, sem nutrir qualquer afeto ou interesse pelas nossas necessidades. Sentiremos raiva por ter deixado que nos maltratassem, seja por termos demorado a compreender a importância do autorrespeito, seja por não termos tido coragem para impor os devidos limites. Porém, com a mudança de postura, descobriremos o prazer pela liberdade desconhecida, assim como por encontrar a identidade perdida. Então, a surrada mágoa que imperava no coração será substituída pela transbordante alegria de quem aprendeu a se apaixonar por si mesmo. Isto não é vaidade, é autoestima. Primordial à plenitude”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebericou mais um gole de café antes de concluir: “Se mesmo assim restar qualquer dúvida, lembre que não há a menor possibilidade de aperfeiçoar um relacionamento alimentando um comportamento errado ou enfermiço. Um bom exercício é se distanciar dos densos sentimentos à flor da pele, observando a si mesmo como um espectador, como modo de obter um panorama geral da triste situação atual, assim como de todas as conquistas a sua disposição caso aceite o desafio da redenção: a liberdade através da própria reconstrução. Quando entendemos a grandeza das possibilidades, o movimento se torna inevitável”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que essa mudança de comportamento me faria enfrentar muitas dificuldades e inevitáveis problemas. Eu não acreditava que ninguém mudasse o comportamento apenas para me agradar. Até porque já tinham se mostrado insensíveis aos meus sentimentos. O Velho concordou com a cabeça e me lembrou: “O esforço para mudar quem está confortável onde sempre morou é exercício dos tolos. Somos nós que temos de construir um lugar bom e seguro para viver, sem jamais depender que alguém nos coloque onde merecemos estar. Não podemos permitir que baguncem ou destruam a nossa casa por achar indelicado fechar a porta para baderneiros e malfeitores. Não esqueça que cada um vive dentro de si mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole de café antes de continuar: “Caso queira se libertar do sofrimento, terá de aprender a se defender. Tanto dos seus próprios sentimentos, conforme falamos há pouco, como daquelas pessoas que se acostumaram com a sua permissividade. Muitos deles reagirão mal diante das inesperadas contrariedades. As experiências evolutivas não existem para serem fáceis, mas para valer a pena. Ninguém é obrigado a abrir caminhos dentro de si para que possa crescer e avançar pela vida. Entretanto, ao negar esse movimento, sem importar o fluxo da sua conta bancária, seguirá no papel de mendigo existencial, a se alimentar de esmolas afetivas ou se contentar com migalhas de amor que sobrou no prato dos outros. A maior das misérias é negar a si mesmo o melhor do amor que existe em si mesmo. O amor não sobrevive à falta de respeito. A mendicância por restos de afetos e resíduos de atenção é causa de sofrimentos amargos e profundos. Manter-se nesse lugar é uma escolha. Sair dele é também uma escolha. Ambas estão à disposição de todos. Amar-se para se fazer genuinamente amado é fórmula comprovada de bem-estar, alegria e felicidade. Entretanto, somente conseguiremos nos sentir amados por ser quem somos após suprimir toda e qualquer dependência por aceitação, pertencimento ou validação. A dependência emocional causa uma deformação desnecessária por fazer adotar características estranhas a própria identidade. Deixamo-nos usar e manipular para estar ao gosto de quem nunca nos amou. Personagens e fantoches servem apenas ao prazer alheio, sem qualquer nesga de afeto, respeito ou admiração. O amor é avesso a comportamentos assim. Somente o poder da singularidade e da autenticidade de uma pessoa, por toda beleza e encanto únicos que possui, faz abandonar o falso brilho da insegurança para dar lugar à luz da firmeza e da verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Velho se levantou e se dirigiu ao armário da cantina. Cortou duas fatias generosas de bolo de milho, as colocou em pratos e trouxe à mesa. Fez um gesto para que eu me servisse em silêncio. Era momento de refletir sobre o conteúdo da conversa que tivéramos. O aprendizado só se completa quando aplicado à prática. O conhecimento só faz sentido se gerar transformação. Todo sofrimento é sintoma de experiências mal elaboradas. A vida as repetirá até que se tornem desnecessárias. Eu precisava me curar. Mas sabia que o elixir sugerido pelo bom monge podia provocar efeitos colaterais. Comentei isto com ele. O Velho arqueou os lábios em sorriso, como se já esperasse por esse questionamento, e ponderou: “Haverá momentos de dúvidas e insegurança. Algo natural para quem vive a jornada de quebrar padrões de comportamentos que o acompanham desde sempre. Haverá uma ruptura. Aquele que você foi durante muitos anos deixará de existir para dar lugar a uma versão diferente de si mesmo. Antigas práticas serão encerradas para sempre. Assistirá uma parte de quem você sempre foi indo embora. Terá de aprender e se acostumar a viver com a nova postura que escolheu para se posicionar diante de si e perante o mundo. Uma transição nem sempre compreendida por inteiro de imediato. É natural que precise fazer ajustes durante o processo. O fator mais importante é nunca esquecer que o genuíno respeito dialoga com a serenidade, a clareza e a honestidade. É manso e firme a um só tempo. Estabeleça limites sem agressividade ou revide de qualquer tipo e espécie. O respeito é um movimento interno que se expressa sem pedir licença nem necessita aguardar por autorização de ninguém. É o eixo central da dignidade. Não podemos exigir que nos respeitem, mas tem de haver um compromisso definitivo de jamais abdicar dele no trato consigo mesmo. O amor-próprio e o autorrespeito compõem o arcabouço da consciência que nos ilumina os passos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esvaziou o café da xícara e concluiu: “No começo, haverá momentos de incerteza quanto as novas decisões. Muitos se dirão decepcionados e se afastarão ao ver negado os pedidos que sempre foram atendidos. Eram pessoas a quem serviu sem impor limites para não as desagradar. Você queria ser compreendido e amado por elas. Não se surpreenda nem tenha medo. As transformações evolutivas são luminosas. Um dos seus efeitos é a capacidade de clarear tudo ao redor. As diferenças entre o bem e o mal se tornam nítidas. Separar o certo do errado fica mais simples. Nem todo grão é semente. Quem nos ama sempre se esforçará para nos compreender sem exigir nenhuma contrapartida em troca. O amor não cobra preço. Desagradar-se para agradar os outros é movimento de desamor”. Fez uma pausa antes de acrescentar: “Confie na sua narrativa e olhar, nas suas virtudes e verdades. Perdoe e se perdoe. E siga sem medo”. Bateu com o dedo indicador na mesa para ressaltar as palavras seguintes: “Lembre-se que o não, até então nunca dito a pessoas que sempre tiveram suas solicitações atendidas, significará um sim revolucionário para você. O amor e o respeito negligenciados durante tanto tempo, finalmente será resgatado. Esse movimento é parte da arte que cabe à liberdade. Os cárceres emocionais, por suas grades nem sempre visíveis, terminam por impor penas longas e cruéis.”. Em seguida, finalizou: “Despir-se do mendigo afetivo que interpretou em suas relações por causa da enorme carência emocional que sempre sentiu, mesmo sem lhe negar todos os motivos e razões, será fundamental para assumir o controle das suas necessidades e verdades. Do contrário, jamais conhecerá o genuíno amor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dia amanhecia. Alguns monges chegavam para o desjejum. O Velho disse precisar se preparar para a palestra daquela tarde. Despediu-se e saiu com os seus passos lentos, porém, seguros. Não sem antes fazer um gesto como quem diz que o poder da cura estava nas minhas mãos. Cabia a mim aproveitar.</p>
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		<title>A paz desconhecida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Oct 2024 23:25:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando a paz me abandona, Sedona é um dos refúgios a que recorro, uma autêntica trincheira existencial onde posso me restabelecer em segurança antes de voltar ao combate. Não se trata de estar em guerra contra ninguém, um olhar equivocado e ingênuo sobre qualquer tipo de relação com o mundo....]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Quando a paz me abandona, Sedona é um dos refúgios a que recorro, uma autêntica trincheira existencial onde posso me restabelecer em segurança antes de voltar ao combate. Não se trata de estar em guerra contra ninguém, um olhar equivocado e ingênuo sobre qualquer tipo de relação com o mundo. Refiro-me à luta interna para chegar aonde nunca estive dentro de mim. Tudo que me irrita ou entristece carece de melhor compreensão e consequente transformação. Para ir além de quem sou, preciso conquistar cada palmo de quem desconheço em mim. Como dizia um antigo sábio, não há adversários mais renhidos do que os nossos adoráveis demônios internos. Adoráveis porque nutrimos enorme paixão e admiração por alguns deles. Não raro, confundimos orgulho e empáfia com dignidade e respeito; sem conhecer os exatos limites entre respeito e generosidade, embaralhamos tolerância com permissividade; misturamos em um mesmo pacote conceitos díspares como vaidade e amor-próprio. Perdemos o foco dos aprimoramentos necessários à evolução. Se formos honestos ainda encontraremos resquícios de prazer nas vezes que nos sentimos maiores ou melhores do que alguém. Vivemos dias confusos por não conseguir identificar os exatos sentimentos que moldam nossas percepções. Desconhecemo-nos. Não existe melhor cenário para os nossos demônios pessoais continuarem a reinar. Sim, são demônios por nos aprisionarem em vícios comportamentais – as nossas sombras – que tanto nos desequilibram e afastam da paz, tão necessária e valiosa. Vale salientar, para não restar nenhuma dúvida, esses demônios a que me refiro são partes indissociáveis de quem somos. Ninguém os colocou dentro da gente contra a nossa vontade. Eles sempre nos pertenceram. Aceite-os sem revolta ou mentiras. Quando os negamos, campeiam soltos por entre ideias e sentimentos, adquirindo maior autonomia para nos dominar. Na ingênua tentativa de meramente os afastar, eles nos enganam. Apenas fingem que foram, quando, na verdade, permanecem escondidos ou disfarçados. Por acreditar que não mais nos habitam, ficamos invigilantes e permitimos a eles um enorme poder de influência sobre as nossas compreensões e escolhas. A mais cruel das prisões é aquela que não conseguimos enxergar as grades. Como fantoches, somos manipulados sem o menor controle sobre os próprios movimentos. Para se libertar desse jugo se faz necessário transmutar sombras em luz, demônios em anjos, para que não haja margem para falsos avanços. Eis o bom, difícil e lindo combate. É preciso algum nível de paz para travar esta luta. A falta de serenidade impede a clareza necessária para entender e realizar os movimentos internos corretos, sem os quais os deslocamentos externos restarão vazios. Uma paz contínua e crescente será o imensurável prêmio da vitória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada, o xamã cujo dom é perpetuar a filosofia ancestral do seu povo, me aguardava na varanda, sentado em sua cadeira de balanço. Ele me recebeu com um sorriso sincero e um forte abraço. Acomodei-me no sofá. Enquanto ele preenchia o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo, perguntou o que me arrancava do meu eixo de luz e acrescentou: “Quando acontece, a paz é a primeira perda sentida”. Havia algum tempo, comentei, que a relação com o principal autor da editora andava de mal a pior. Ele era o autor mais importante no quesito vendas. Os seus livros se tornaram bestsellers internacionais, sendo os valores auferidos muito importantes para a contabilidade da empresa. Entretanto, nem sempre fora assim. Quando o descobrimos, ele havia sido rejeitado por inúmeras outras editoras. Ninguém se interessara em o publicar. Encontramos nos seus textos um diamante ainda não lapidado. Havia um tesouro escondido debaixo de muita terra. Foi preciso um enorme e invisível trabalho de editoração. Não apenas de revisão gramatical e ortográfica, mas na reescrita de parágrafos inteiros para tornar a leitura mais agradável, com o cuidado de não alterar o estilo singular do autor. Foi necessário suprimir trechos que nada acrescentavam, assim como pedir para o autor acrescentar outros tantos na exigência de melhor explicar algumas cenas e diálogos. Depois de cuidarmos do conteúdo, fizemos um trabalho primoroso de artes gráficas com a participação incansável de ilustradores e diagramadores. O resultado foi uma obra fabulosa que merecidamente encantou os leitores. No início, houve uma agradável lua de mel entre autor e editora. Com o passar do tempo, o autor foi depreciando o esforço e o carinho da editora até a relação se tornar bem desagradável. As suas exigências eram cada vez maiores e, algumas beiravam à insensatez. Nunca se dava por satisfeito. Como o contrato estava próximo ao vencimento, havia da parte dele a ameaça velada de nos preterir para assinar com outra editora de maior tamanho. Como os lucros auferidos dos seus livros eram muito importantes para vários compromissos financeiros assumidos, embora a contragosto, a editora terminava por ceder às exigências do escritor. A cada exigência o autor nos espremia um pouco mais, como se testasse até onde iríamos. Tínhamos chegado ao nosso limite. A depender da sinceridade do olhar, o limite já havia sido ultrapassado havia algum tempo. Contudo, romper com o autor, afinal éramos uma editora de pequeno porte, poderia nos trazer complicações contábeis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem nenhuma pressa, Canção Estrelada acendeu o cachimbo, baforou algumas vezes, e depois comentou: “Na semana passada uma sobrinha veio me contar uma história parecida”. Perguntei se ela era autora ou editora. O xamã sacudiu a cabeça em negativa e disse: “Nem uma coisa nem outra. Ela veio conversar sobre o seu casamento. Embora os aspectos aparentes sejam distintos, essencialmente é a mesma história de falta de limites, respeito e amor-próprio. Abusos, ameaças veladas e medo. O marido se nega a admitir a importância que ela sempre teve em estruturar a casa e a família, permitindo a ele se dedicar integralmente à sua carreira profissional. Desconsidera que o lar bem estruturado tenha sido importante para alcançar cargos e salários exponenciais na empresa na qual trabalha desde o início do casamento. Agora desmerece a esposa, se comportando como um eterno e insatisfeito credor que lamenta o muito que entrega para o pouco que recebe. Por mais que ela o agrade, ele nunca está satisfeito. Paira no ar uma ameaça de que poderá ir embora a qualquer instante”. Questionei por qual razão os relacionamentos chegam a esse ponto. Canção Estrelada explicou: “Quando há falta de humildade e gratidão de uma parte e ausência de amor-próprio e coragem da outra, os relacionamentos se tornam abusivos e desonestos”. Bateu com o dedo indicador no braço da cadeira para ressaltar: “Ninguém tem a obrigação de caminhar ao lado de ninguém. Seja afetiva ou profissionalmente. Todos podem ficar ou partir conforme a consciência os aprouver. Contudo, jamais pode faltar respeito para que não haja desonestidade e abusos. Ninguém deve se tornar objeto de maus tratos ou até mesmo de inconscientes torturas emocionais de ninguém”. Argumentei que dificuldade financeira é assunto sério. Assusta demais. Alguns passos são muito difíceis. Muitas vezes, ficar ou partir restam atrelados a esse tema. O xamã anuiu e retrucou: “Sem dúvida, as questões de sobrevivência costumam pesar bastante na decisão. Porém, a dignidade, a paz e a liberdade deveriam ter um peso ainda maior ou até mesmo absoluto. Podemos ser felizes com pouco dinheiro, nunca com pouca dignidade. Ao deixarmos a luz interna se apagar, a felicidade e a paz se tornam lugares de ficção”. Baforou o cachimbo e expandiu o raciocínio: “Questões financeiras são de enorme importância, mas não se aplicam em todos os casos e nem sempre são determinantes. Dependências emocionais são barreiras ainda mais comuns do que as econômicas e obstáculos mais difíceis de transpor. Não raro, se usa o dinheiro como argumento de sujeição, quando, em verdade, o impedimento está atrelado ao medo, à crença quanto à própria incapacidade de superar as dificuldades inerentes ao crescimento pessoal. Como há muito medo em partir na viagem em busca de um céu desconhecido, muitos preferem permanecer no inferno conhecido. Habituaram-se a viver ali. Embora bastante desagradável, acreditam não ser possível dias diferentes e melhores. Adaptaram-se às dores emocionais como se a cura fosse impossível. Acostumaram-se às péssimas condições e aos sofrimentos que, de tão antigos, os têm como se fossem parte de um inevitável destino. Grandes tolices, tristes hábitos. Negam o céu, sempre à disposição, por se sujeitarem às regras do inferno. Por serem avessas aos riscos, perdem as maravilhas da vida e desperdiçam as delícias de viver. Abdicam das mudanças por temer o desconhecido. Não merecerá a paz todo aquele que se recusar à aventura de encontrá-la”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Discordei. Ele falava como se o entendimento conduzisse a um movimento óbvio e fácil. Canção Estrelada pontuou: “Óbvio, sim. Fácil, jamais”. Em seguida, esclareceu: “Diz-se óbvio a compreensão que salta à vista. De tão evidente, esgota todas as dúvidas e incertezas. A clareza no olhar é indispensável para alcançar tamanha percepção. Quem a possui tem acesso a uma verdade transformadora, sendo quase impossível recuar a partir do momento que a vislumbra na consciência. Esta é a irrefreável força que move as mudanças angulares, nas quais algo até então considerado essencial à sobrevivência, ao conforto ou ao prazer terá de ficar para trás para que seja possível alcançar uma conquista existencial ainda maior e de valor imensurável. A vitória sobre o medo é fundamental à paz. Esses movimentos se tornam viáveis quando percebemos que aquilo que mais temíamos perder é justamente o que nos furta a paz e impede de sermos livres e dignos. Falo em relação ao respeito que cada indivíduo precisa ter por si mesmo, sem o qual a cura e a evolução se manterão inacessíveis”. Soprou no fornilho do cachimbo para que o fogo não se apagasse e ponderou: “Como essa clareza nem sempre está disponível, as multidões tratam os visionários como se fossem desmiolados. Do mesmo modo, os ousados, que por fazerem o que poucos têm coragem de fazer, são tratados como irresponsáveis. O poder da verdade é revolucionário por conceder o quinhão de confiança necessário para conseguirmos ir além de quem somos. A escala de prioridades se altera. As transformações internas alicerçam um novo jeito de se mover pela vida. Um poder tão arrebatador que não permite ao seu portador esperar pelas supostas condições ideais. Ele as criará a cada momento dali por diante. Na recusa pelo movimento, restará um sofrimento crescente e uma falta de respeito demolidora por si mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Baforou o cachimbo e alertou: “Lembre-se que ninguém é obrigado a mudar para se adequar aos nossos gostos, interesses ou verdade. Todos têm o direito de realizar as suas escolhas, definir a própria rota e destino. Do mesmo modo, não somos obrigados a acompanhar ninguém quando os rumos se desalinham. As rupturas não precisam ser bruscas nem conflituosas. Desde que haja o equilíbrio proveniente da clareza do olhar e os movimentos forem virtuosos, sempre caberá leveza e suavidade aos devidos encerramentos de ciclos existenciais. Jamais deixe de fazer o que for essencial à sua luz. Se for o caso, deixe o outro ir, porém, jamais permaneça parado, se sinta abandonado ou permita que o comportamento alheio o mantenha aprisionado em sensações de impotência, insegurança ou perda. Perdoe as incompreensões, confie em si e siga em frente. A vida tem mais a oferecer. Falo das descobertas permitidas nas vezes que precisamos despertar capacidades adormecidas, encontrar a paz desconhecida e conquistar a autonomia de caminhar com os próprios pés. Somente assim nos tornamos maiores que o maior dos nossos medos. Os sofrimentos se amiúdam por inconsistência e desnecessidade até desaparecerem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei se ele tinha tido a mesma conversa com a sobrinha. Canção Estrelada disse: “Foram palavras parecidas, adequadas a um modo inadequado de se relacionar com as próprias emoções e incompreensões. A falta de respeito e coragem em entender e aceitar o que é melhor para si embaça a realidade e deforma a própria identidade. A admiração é um aspecto valioso aos relacionamentos, mas quando esse sentimento transborda para a idolatria ou gera dependência, ocorre abusos, subjugação e faz a alma adoecer. Ninguém coloca ninguém nessa situação. Por descuido ou medo, permitimos que aconteça. Os relacionamentos precisam ser justos, amorosos e saudáveis. Do contrário, sugam ao invés de irrigar. Subserviência não se confunde com humildade. Enquanto aquela registra a anulação da autonomia e da vontade na submissão à absurdos desmandos, esta ilustra uma fantástica resiliência e abnegação fundamentais ao aprendizado e à evolução. Naquela prevalece o desrespeito, enquanto nesta há um profundo respeito por si mesmo, assim como por todos ao redor”. Fez uma pausa antes de concluir: “Nada nos faz perder tanto como a recusa em romper com o que nada mais acrescenta à nossa luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber como aplicar aquelas palavras ao cotidiano. O xamã explicou: “Mente e coração tanto se envenenam em simbiose de desvios, enganos e estagnação como se retroalimentam em processo contínuo de vigilância, correção e avanços. Identifique as ideias e os sentimentos utilizados na elaboração das experiências vividas, como maneira de entender se não há outros mais aperfeiçoados para melhores soluções e escolhas. Se há sofrimento, desânimo ou mágoa, estamos utilizando os elementos errados na equação da vida. Existe a necessidade refazer os movimentos internos. É o início da conquista do equilíbrio e da clareza consciencial, fundamentais aos deslocamentos externos seguintes. Tenha a ética como aliada ao separar o certo do errado. Faça uso das virtudes para não permitir que o mal se sobreponha ao bem nas escolhas que lhe forem concernentes. Compreenda a beleza do sim e o valor do não, o momento de ficar e a hora de partir. Contudo, conceitos sem bons sentimentos são como jardins sem flores. Sirva-se do amor para que o olhar ultrapasse o lugar-comum, sem jamais esquecer que sem amor-próprio não restará amor nenhum. Do contrário não haverá acesso à melhor leitura de todas as situações, coisas e pessoas. Inclusive, e principalmente, de nós mesmos”. Fez uma pausa antes de finalizar a conversa: “Quem não for senhor das suas escolhas e reações, viverá como escravo delas. Ainda que não saiba ou admita. Enquanto estiver surdo à voz da alma, se manterá em constante desequilíbrio, sem a percepção e sensibilidade aguçadas para usufruir da clareza oriunda da verdade. O acesso a todas as possibilidades de movimento ficará restrito. Desperdiçará as melhores oportunidades pelo simples fato de não as enxergar. A vida se amiudará”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei alguns dias em Sedona. Não houve mais nenhuma palavra sobre o assunto. Participei de um cerimonial na montanha. Rezamos e meditamos. Pescamos em um lago tranquilo e passeamos pelo silêncio do deserto do Arizona. Fomos a um show de música. Cantei e dancei até o dia amanhecer. Sem que eu me desse conta, Canção Estrelada me distanciou do problema, não como fuga, mas como maneira de me afastar de ideias e emoções viciadas que, baseadas em experiências anteriores, teimavam em reduzir a um único modelo de elaboração a solução de todas as minhas dificuldades. Eu precisava pensar e sentir diferente. Em verdade, sempre existem impensadas possibilidades de ver e fazer. Na exata dimensão da coragem, do respeito e do amor que eu tiver por mim e pela vida. Canção Estrelada me ofereceu as condições de criar o lugar interno onde as modificações aconteceriam. Assim consegui observar, compreender e enfrentar o problema através de outro viés.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao retornar ao Rio, a postura era outra. Eu trazia comigo uma confiança tranquila. Ocorrera um movimento interno que alicerçava os deslocamentos externos que eu estava determinado a fazer. Sentia-me seguro. A vida nunca desampara quem se move em busca da luz. Convidei o nosso principal escritor para um almoço. Com sinceridade, admiti o quanto ele era importante para a editora. Disse que faria muito gosto em renovar o seu contrato. Ofereci as melhores condições possíveis, dentro do nosso alcance. Fui honesto sobre os limites da editora. Evitei abordar o incrível trabalho que havíamos feito nos livros dele. Cabia a ele reconhecer isto sem que fosse preciso falar ou mostrar. Se não fosse um gesto de gratidão, jamais seria de convencimento. O autoelogio, além de cabotino, não me parece ético como elemento de negociação. Com delicadeza, expliquei que qualquer que fosse a sua decisão, restaria respeito e alegria por todas as conquistas realizadas em conjunto. Tínhamos uma bela história que não se macularia por diferenças de olhares ou vontade de mudar de ares e rumos. Todos têm direito a isto, ressaltei. O escritor fez uma contraposta de imediato. Expliquei que estava sendo franco. Tínhamos oferecido as melhores condições que nos eram possíveis. Senti nele uma irritação contida, comum a quem se acostumou a não ser contrariado. O autor comentou, sem ocultar o desdém, que eu estava diferente. Embora não fosse a sua intenção, recebi como elogio aquelas palavras. Eu sabia o que havia mudado. Ele se despediu, dizendo que ligaria em alguns dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A editora também passava por importantes mudanças. Ao chegar de viagem, eu reunira a nossa equipe para criar um desafio de superação. Não dependeríamos mais de qualquer obra ou autor para nos manter no mercado. Novos títulos, segmentos e talentos seriam publicados com o nosso indefectível selo de criatividade e qualidade. Se tínhamos feito uma vez, sabíamos que mil outras vezes seriam possíveis. A vida nasce e se renova na criação. A vida impulsiona quem tem respeito, coragem, ousadia e amor-próprio para se reconstruir. O processo de criação surge como efeito da necessidade de desconstrução do que nos impede de seguir adiante. A semente rompe a casca para se tornar árvore por não mais se sujeitar ao peso da terra. Aquilo que a oprime e esmaga termina por dar causa ao seu crescimento. Entretanto, ela conhecerá o sol apenas quando não mais se conformar em viver na escuridão do subsolo. Alguns dias depois, quando o escritor comunicou a decisão de não renovar o contrato, estávamos envolvidos com tantos movimentos de criação que a notícia foi recebida com tranquilidade e sem causar nenhum arranhão emocional. Havia muitas coisas maravilhosas sendo criadas para ir ao prelo e ganhar vida. Eu estava animado pelo trabalho e feliz pelo renascimento. Eu estava em paz. Somente novos sentimentos doces têm o poder de desmanchar antigos sentimentos amargos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contei o desfecho da história para Canção Estrelada em uma noite com o céu salpicado de estrelas. O xamã comentou: “Com a minha sobrinha foi um pouco diferente. Foi ela quem procurou o marido para manifestar a sua insatisfação. De início, ele se sentiu aliviado e partiu. Havia tempos que a considerava um peso em sua vida. Sem nada conhecer sobre a verdadeira estrutura da liberdade, se acreditou livre para se lançar no universo das paixões vazias de qualquer compromisso, como são todas as paixões. Olhou por instante para a lua crescente que surgia por trás das montanhas e segredou: “O compromisso é o elemento diferencial entre a paixão e o amor. A paixão fala sobre quem adora os frutos de uma árvore. O amor revela quem cuida da árvore”. Em seguida retornou à história da sobrinha: “Tudo parecia perfeito para o ex-marido até que surgiu um enorme problema na empresa que trabalhava. O setor dirigido por ele sofreu acusações de ter tomado uma série de decisões equivocadas, gerando sérios prejuízos e afetando a credibilidade da marca. Estava implicado em um inquérito administrativo do qual uma das resoluções possíveis era a demissão de todos os envolvidos. Ao conversar com a atual namorada, ela não se mostrou interessada em compartilhar problemas. Assim como ele, desejava somente o lado prazeroso do relacionamento. Desinteressou-se dele sem demora. Quando olhou para o lado não havia ninguém para atravessar a tempestade ao seu lado. Então entendeu o valor imensurável e silencioso da mulher que teve. O que mantém uma casa de pé não é a beleza do design, mas a firmeza dos alicerces. Tomado por intenso arrependimento, a procurou. Porém, não a encontrou disponível como se acostumara. Já não era a mesma mulher. Algo havia mudado substancialmente. A ruptura do casamento não deformara a sua identidade, mas colaborou para a valorizar. Fez emergir características esquecidas, atributos reprimidos e talentos adormecidos. Como era uma excelente cozinheira, decidira cursar culinária para atrelar o dom à técnica. Trabalhava em um restaurante muito apreciado e recebia constantes elogios. Planejava em breve abrir um pequeno bistrô. Conhecera uma pessoa que admirava tanto a trajetória quanto a sua personalidade, se interessava por suas opiniões, gostava do seu sorriso tímido e adorava o cheesecake cuja receita ela mantinha em absoluto segredo. Não havia lugar para retomar a vida que ficara para trás. Resgatara a própria dignidade. Libertara-se. Vivia um caso de amor consigo mesma e com outra pessoa. Estava feliz e em paz”. Arqueou os lábios em sorriso e reforçou a ideia: “A vida nasce e se renova na criação. Somos os criadores das criaturas que somos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que não tinha sido fácil. Eu enfrentara muitas adversidades durante o processo de renascimento. Houvera diversas dificuldades e nem todos os projetos alcançaram o resultado esperado. Encontrei nos erros os melhores mestres. Foi preciso criatividade e disposição para ultrapassar cada obstáculo. Alterei rotas para me manter no rumo. O xamã esclareceu: “Tenha certeza de que com a minha sobrinha não foi diferente. Assim acontece na vida de todos. Só há perdas quando desperdiçamos as oportunidades de aprendizado e transformação. Os momentos difíceis são perfeitos para isto. Tem dias que nada parece dar certo, que as portas jamais se abrirão e que terminaremos os dias em um beco sem saída. O que para o tolos ilustra um universo de impossibilidades, para os sábios é a forja da vida. A paz não é do mundo, ela pertence à alma. É preciso aprender a disciplinar os pensamentos e acalmar os sentimentos. Quem acredita em si mesmo e se mantém em movimentos mansos, ordenados e contínuos nunca será desamparado pela vida. Trata-se do instante crucial no qual a determinação será testada, a criatividade estará à serviço da regeneração para derrubar as obsoletas formas de lidar com problemas e soluções. Temos dificuldade de deixar para trás o que nos acostumamos a carregar. Não é fácil descontruir características pessoais que, apesar de atrapalhar o nosso desenvolvimento, insistimos em manter como se fossem atributos indissociáveis de quem somos. Renascer exige equilíbrio e força, pois é preciso romper a própria casca para ir ao encontro do céu desconhecido. Uma transformação dificílima, porém, indispensável. Está presente nos modos como nos relacionamos conosco e com o mundo. A crença absurda na própria incapacidade, nascida de experiências mal elaboradas, gera a nefasta dependência que agiganta os medos e alimenta os sofrimentos. Então, em movimento avesso à vida, preferimos nos acomodar ao inferno conhecido, tentando encontrar nele sabores e maravilhas que nunca existiram. Erguemos falsos argumentos para justificar a nossa falta de amor-próprio. Ao abandonar a dignidade e desistir da liberdade, abdicamos da paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada rufou uma cantiga ancestral em seu tambor de duas faces, cantada para celebrar as vezes que alguém encontrava com outro alguém desconhecido em si mesmo e, assim, conhecia um pouco mais do céu à disposição de todos.</p>
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		<title>Crenças e verdades. A arte da realidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Sep 2024 20:09:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VII]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu estava mal. Quando isso acontece, uma das alternativas a que recorro é subir a Pedra Bonita, um enorme maciço de granito debruçado sobre o Atlântico, ao lado da Pedra da Gávea, com vista para diversos bairros do Rio de Janeiro. Evito os fins de semana por causa do grande movimento. Vou meditar, rezar e refletir. Silêncio e quietude são fundamentais. Nos dias de sol a beleza é estonteante. O azul do céu se funde ao azul do mar misturando tons até se fundirem no infinito. A ideia de infinito me fascina desde sempre. Amor e infinito são conceitos que se fundem em mim. Penso, não haver um sem o outro. Refiro-me ao amor semeado, sem necessariamente obrigar ninguém a nos acompanhar. O amor é a flor oferecida ou recebida. Jamais planta dependente de outra por se considerar incapaz de se desenvolver sozinha. O amor é o pote d`água fresca do qual bebemos metade e deixamos a outra parte para quem vem atrás. Não existe amor sem respeito, compromisso e preocupação para além de nossas necessidades, interesses e vontades. O amor é a base da evolução espiritual, presente em todas as virtudes, assim como na compreensão da verdade, sob a qual cada indivíduo ergue a própria realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>Certa vez, no mosteiro, ao estudar o imprescindível Sermão da Montanha, nos deparamos com o trecho do texto em que o maior dos mestres profere para a multidão a seguinte frase: <em>vós sois o sal da terra</em>. Diante da dificuldade da turma em compreender o significado daquelas palavras, o Velho, o monge mais antigo da Ordem, explicou: “Os textos sagrados possuem várias camadas de interpretação. Todas válidas e verdadeiras. Uma das que mais me encanta é a seguinte: o sal é o mais importante dos temperos. Quando nos oferecem um delicioso jantar, elogiamos o sabor dos alimentos que vemos no prato. Por ser invisível aos olhos após o cozimento, nunca nos lembramos de exaltar as qualidades do sal. Contudo, na falta do sal, a comida fica insossa, o sabor desaparece. Assim é com o amor, o tempero da vida”. Fez uma pausa antes de concluir: </a><a>“Vivam de maneira que, mesmo que não os vejam nem reconheçam, a alegria de muitos haja sido temperada pelas mãos do vosso amor, invisíveis aos olhos do mundo, mas fundamentais ao gosto da vida”.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltemos a história que preciso contar. Esse fato aconteceu há alguns anos. Naquele dia, chovia muito. Foi uma subida difícil. Diferente não era aquele momento. O mercado editorial estava em crise. Cada vez mais as pessoas liam menos. Falo sobre a leitura de livros nas quais autores e leitores compartilham de uma mesma viagem a lugares e universos fantásticos. O escritor mostra cenários, oferece personagens e tramas; o leitor empresta a sua imaginação para acrescentar imagens às palavras. Algo tão fabuloso que eu acreditava sem fim. Nem mesmo a beleza do cinema arranhara o prestígio dos livros; ao contrário, uma mesma história tem contornos e contextos mais profundos nos livros do que nos filmes. No entanto, tudo mudara. Os motivos eram vários. Poderosas plataformas internacionais permitiam a publicação de livros digitais a custo zero. A autopublicação dispensava o trabalho e o conhecimento dos editores, sem se importar quanto da qualidade seria perdida. Os valores auferidos nas vendas seriam repartidos em diferentes percentuais, apenas entre plataformas e escritores. Ambos ganhariam mais. Como se não bastasse, a facilidade tecnológica para produzir vídeos artesanais de excelente qualidade e a existência de plataformas de exibição, além do apoio das redes sociais para a necessária divulgação, convergiam para mudar o gosto do público. Vídeos curtos, de poucos minutos, ou mesmo de alguns segundos, tomavam o lugar de histórias que se alongam por centenas de páginas. Aquela viagem simbiótica entre autor e leitor, depois de séculos, estava com os dias contados. &nbsp;Analistas de mercado, tendências e finanças eram unânimes e implacáveis: a editora que eu havia fundado e na qual trabalhara por longo tempo, fonte de tantas alegrias e conquistas profissionais, não mais existiria em alguns meses. Tudo muda, eu sempre soube. Não existe evolução sem transformação. Havia a necessidade de me reinventar. Agora e sempre. Eu precisava encontrar outro caminho. Só não sabia como nem onde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recostei-me em uma pedra, com o oceano algumas centenas de metros abaixo, tendo o céu nublado à frente. Admirei a paisagem por alguns instantes, depois fechei os olhos. Ignorei a chuva. Eu precisava pensar, rezar e meditar. A intuição, a inspiração e a reflexão eram indispensáveis para me apontar a saída daquele labirinto existencial. Não apenas as ideias precisam encontrar os devidos lugares nas prateleiras da mente para que haja clareza; os sentimentos também carecem de ordem e entendimento para servir à esperança e à serenidade, jamais ao desespero e ao medo. Assim fiquei por um tempo que não sei precisar, até que tive atenção despertada pelo grasnar de aves cada vez mais próximo. Ao abrir os olhos me deparei com a Cléo, a bruxa, envolvida em gaivotas, andando em minha direção. De pele e cabelos morenos, corpo longilíneo, movimentos graciosos e vestido esvoaçante, aquela bonita mulher era uma lenda urbana. Muitos tinham ouvidos histórias sobre ela, poucos a conheciam. Algumas vezes eu a encontrara na Pedra Bonita. Os encontros nunca dependeram da minha vontade, mas sempre dos caprichos dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem esperar por qualquer convite, ela se ajoelhou ao meu lado. Como se conhecesse as causas da minha agonia, disse: “A realidade é a verdade que vivemos. A verdade é a fronteira mais distante já alcançada pela consciência até o momento. Em sua composição, entram doses importantes de percepção e sensibilidade, os alicerces estruturais da consciência. Há também outros elementos de enorme influência para a formação da verdade: conhecimentos em geral, sentimentos, emoções, resiliência intelectiva, informações difusas, conceitos científicos, opiniões de pessoas de grande reputação ou que admiramos. Assim se formam as denominadas crenças. A qualidade destes aspectos pode ampliar ou entorpecer a percepção e a sensibilidade. Quando inebria, furta da consciência o livre-pensar. Perde-se a clareza do discernimento. O olhar pessoal resta deturpado por influências indevidas e prejudiciais. Abica-se da verdade singular elaborada a partir das experiências e conclusões próprias para adotar as crenças do mundo. Seja por sincera convicção ou mera conveniência”. Fez uma pausa para me permitir concatenar o arco filosófico e disse: “Se a verdade estabelece os parâmetros da realidade, ao aceitar uma verdade emprestada para viver, o indivíduo passará os dias numa realidade de aluguel, sob a qual definirá rota e rumo, fará escolhas e firmará o destino da sua viagem”. Deu de ombros e pontuou: “Nenhuma reclamação cabe caso o desembarque não seja onde o bilhete comprado indicava. Quem lhe vendeu também não sabia. A vida não engana ninguém”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confessei que nunca tinha pensado daquela maneira. O uso de uma verdade emprestada me faz confiar o destino da vida nas mãos de alguém que talvez desconheça a verdade ou não seja movido pelas melhores intenções. Cléo sorriu e argumentou: “Algo parecido como morar em uma casa que você não construiu. As paredes estão pintadas, há flores na janela. Aparentemente tudo parece adequado e perfeito. No entanto, não se sabe como foi erguida nem como funciona o sistema elétrico, pluvial ou de esgoto. Não se conhece a profundidade e a robustez dos alicerces que a sustentam. Dizem que o telhado é firme e o rio que passa ao lado é bom para mergulhar e pescar. Dão-lhe a garantia que a casa é segura e que o morador será feliz ali. O inquilino acredita na boa-fé do corretor ou do senhorio. Pode não haver nenhuma intercorrência durante toda existência. No entanto, pode o rio transbordar com as chuvas de verão ou haver ninhos de cupim no madeirame oculto da estrutura. Viver à deriva de uma verdade de aluguel se chama crença. Construir a própria casa se denomina verdade. Adotamos as crenças para suprir os vazios da ignorância e responder mais facilmente às dúvidas. Damos preferência em acreditar nas teorias e versões que dialogam com nossas necessidades imediatas, conveniências, medos e desejos. Substituir pouco a pouco as crenças pela verdade é uma jornada de autoconstrução em busca de equilíbrio e força de movimento para, então, seguir em frente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei que as verdades não eram definitivas nem estáticas. Porém, dinâmicas e mutantes. Cléo disse sim com a cabeça e acrescentou: “Conhecer a si mesmo é pressuposto indispensável de acesso à verdade. A jornada do autodescobrimento não tem fim”. Depois, complementou: “Assim como as virtudes, a verdade é parte da arte da evolução. O compasso do aperfeiçoamento espiritual é registrado pelo aprofundamento da verdade ocorrido através de uma consciência cujas percepção e sensibilidade se aguçam a cada experiência bem elaborada. Nesse ritmo, a verdade é um destino que se chega ao poucos, mas nunca se chega em absoluto”. Considerei que algumas crenças poderiam estar em estágio mais avançado do que verdades ainda em formação primária. A bruxa tornou a concordar: “Sem dúvida. Quando acontece, ajudam a nos sustentar por algum tempo. Jamais por todo tempo, uma vez que são efêmeras e inconsistentes por tratar das anotações da viagem de outra pessoa. Sem demora, haverá o momento em que as crenças se mostrarão insuficientes para responder perguntas e sinalizar saídas. A razão é simples: cada pessoa tem suas próprias elaborações, dúvidas e necessidades. Somos únicos. Agradeça, mas é hora de se desfazer delas. Contudo, não as desmereça. Lembre que foram úteis naqueles momentos e, não raro, forneceram valiosos elementos à compreensão da verdade, como os degraus iniciais de uma grande escalada”. &nbsp;Questionei se era normal as crenças se misturarem às verdades. Cleo esclareceu: “Crenças são como lentes. Servem para ampliar ou deturpar o olhar. Porém, não são os seus olhos. Logo, não representam a sua verdade. As lentes sintetizam olhares alheios. As crenças trazem consigo os equívocos e acertos, características boas e ruins de uma pessoa, coletividade ou cultura. Resta saber se você está aquém ou além delas para entender no que ajudam ou atrapalham”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argumentei que acreditar no poder do amor necessariamente é uma crença boa, independente de onde eu estiver na estrada evolutiva. Cléo sorriu como se falasse com uma criança e esclareceu: “Não resta dúvida de que o amor é o caminho e o destino. Contudo, assim como qualquer outra crença, essa também precisa ser experimentada para se tornar uma verdade. A boa crença se torna verdade quando tem capacidade de responder as perguntas, mostrar saídas, alavancar superações e impulsionar a criatividade rumo à transformação. Mesmo as melhores lentes possuem limitações. A verdade não pode prescindir da infinitude de aspectos na aprimoração do olhar. O amor é capaz disso tudo e muito mais. No entanto, exige aprendizado. A crença do amor como solução apenas se tornará verdade na medida que vivermos o exato amor à perfeita equação de todos os problemas. Não basta acreditar, se faz necessário usar a verdade como fator de mudança para fazer emergir uma nova e diferente realidade. Assim como o amor, a verdade não é discurso. Porém, ação”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, ressaltou a necessidade do respeito e da delicadeza nos relacionamentos: “Por mais estranho que possa parecer, vivemos realidades distintas em um mesmo entorno material, físico e urbano. Diferentes olhares explicam múltiplas realidades pessoais que se permeiam e misturam em relações, ora convergentes, ora divergentes. Universos ímpares se entrelaçam com suavidade ou aspereza num mundo comum a todos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhou para o horizonte por alguns instantes, como se procurasse pelas melhores palavras, e disse: “O cerne da questão é que a realidade é moldada de acordo com as crenças e verdades de cada pessoa, estabelecendo pontes ou muros, construções ou ruínas, regenerações ou desistências, propósitos ou abandonos, enganos e acertos. A compreensão do poder da verdade na criação da realidade finca as bases de um importante poder pessoal: criamos e destruímos a própria realidade através das mudanças de olhar que ocorrem por intermédio das transformações intrínsecas. No compasso da evolução da verdade adquirimos condições de remodelar a realidade de inúmeras outras maneiras. Imaginar as mil criações possíveis a partir de uma reestruturação interna e redentora é fascinante e encantador”. Deu um lindo sorriso e segredou: “Todos podem, poucos sabem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei como saber a hora de mudar. A bruxa explicou: “Verdades e crenças formam o solo existencial no qual caminhamos. Quando não mais fornecem as soluções necessárias para seguirmos adiante, é como se o chão se abrisse. Desabamos. O nível da crise variará do quanto insistimos em usar modelos de ser e viver, pensar e sentir, que não mais permitiam avançar. Em último estágio, o caos se instala para varrer a estrutura mal construída, incapaz de sustentar a evolução pessoal. Embora pareça ruim, se trata de uma dádiva. Apenas essa compreensão permitirá a regeneração, o renascimento em si mesmo, como o único jeito de redesenhar uma nova realidade. Do contrário, permanecerá aprisionado nas grades das próprias incompreensões”. Franziu as sobrancelhas e avisou: “Rever verdades, virtudes e hábitos, assim como buscar a serenidade dos sentimentos para que não falte clareza no pensar, é uma necessidade cotidiana. Somente encontraremos no mundo a beleza que já existe dentro da gente. Não me refiro a beleza como paisagem para fotografias, mas como essência e força-motriz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A bruxa olhou para o céu. A chuva parara. As nuvens se afastavam. Ela me perguntou se aquela conversa havia me ajudado a responder aos anseios que me agonizavam. Falei que não. As dúvidas permaneciam. Relatei o que se passava. Como a internet mudava as relações comerciais, criando e destruindo negócios. A minha editora estava perto do fim. Dentro de alguns meses estaria falido. Se a fechasse agora sobraria algum dinheiro para investir em outro negócio. Cléo me olhou com seriedade e perguntou: “A ideia de que os livros impressos irão acabar em breve é uma verdade ou uma crença?”. Argumentei que os especialistas eram unânimes em afirmar o colapso da literatura de papel. Apontavam para o declínio do hábito da leitura; vídeos curtos entretinham e exigiam menos esforço. A internet e o mundo digital mudaram o mundo e a vida para sempre. Bibliotecas inteiras cabiam dentro de um tablet de duzentos gramas. Lembrei que telefones fixos e máquinas de escrever tinham desaparecido. Resistir a essa mudança era se afogar numa onda irrefreável. Seria mais inteligente e sensato navegar nela. Até a maneira das pessoas se relacionarem tinha sofrido alteração com o surgimento das redes sociais. Encontros e relacionamentos eram cada vez mais virtuais. Foi quando Cléo me colocou para pensar: “Ligações encurtam distâncias e a troca de mensagens instantâneas fez aposentar o hábito de escrever cartas. Nada há de errado nisto. Ao contrário, aproximou as pessoas. A revolução digital oferece um sem-número de ferramentas que, como quaisquer outras, têm polaridade neutra. Como a usamos estabelece o polo positivo ou negativo delas. Do mesmo modo que nos facilita a vida em muitos aspectos, sendo fonte de alegrias e descobertas fabulosas, também serve de meio para intrigas, fraudes e maldades”. Fez uma pausa antes de argumentar para questionar: “Você disse que tecnologia mudou o formato dos relacionamentos. Apesar de todas as facilidades digitais para as pessoas se verem e se falarem, poderíamos afirmar que os antiquíssimos hábitos de abraçar, beijar e conversar presencialmente estariam sepultados em definitivo?”. De pronto, afirmei que não. A presença física era insubstituível aos melhores encontros. Em seguida, indagou: “O prazer de ler livros em aparelhos digitais é o mesmo da leitura em papel?”. De jeito nenhum, respondi. O livro impresso, mormente os bens editados e diagramados, possuem uma magia sensitiva difícil de descrever. Nem que daqui a alguns anos tivesse que ir aos museus para ler livros de papel, eu jamais abdicaria deste velho hábito, garanti. As perguntas de Cléo prosseguiram: “Como você existem outras pessoas?”. Falei que muitas. Até mesmo entre os mais jovens se notava a preferência pelos livros impressos. Contudo, lembrei, vídeos curtos substituíam os livros na preferência do público. Ele indagou: “Um vídeo de alguns minutos, ainda que com enorme capacidade de sintetizar ideias, pode ocupar o lugar de uma leitura ampla e profunda? Seria possível mergulhar no universo reflexivo de O mercador de Veneza, de Shakespeare, ou Ética, de Espinosa, com apenas cinco minutos de imagens e legendas?”. Sem medo de errar, afirmei ser impossível. A reflexão expansiva é uma estrada sem atalhos. Exige dedicação e tempo. Cléo fez uma interessante e óbvia observação: “Há público para todo tipo de gosto, interesse e entretenimento. Não se trata de certo ou errado, mas da capacidade de construir a realidade na qual cada um viverá logo adiante”. Em seguida, fez a pergunta derradeira: “Retornando à opinião dos especialistas que o conduziu pelos trilhos do desespero e do medo, e sem as desmerecer, você está construindo a sua realidade sob crenças ou verdade?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Emudeci. As gaivotas se aproximaram. Como em bailado místico, Cléo rodopiou, se afastando aos poucos, até desaparecer. Não pude me despedir nem agradecer à bruxa. As nuvens se afastaram. Alguns raios de sol sinalizaram a chegada de um novo tempo. Ou uma diferente realidade. Ainda fiquei sentado por um tempo que não sei precisar. Eu estava prestes a tomar decisões angulares, não por intermédio do meu olhar, mas baseado nas lentes do mundo. Eu me deixara mover pelas crenças alheias por não confiar na minha verdade. Ambas oferecem margem para erros e acertos, não há como ter garantia. A vida exige riscos e ousadia. Viver pelas crenças é negar a individualidade; confiar na própria verdade é o passo inicial rumo à liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem abdicar do progresso tecnológico, converti todos os livros da editora em formato digital. Mas não abandonei o velho, bom e tradicional livro de papel. Era preciso fazer mais. Confeccionei edições com diagramação, ilustrações e capas como nunca havia feito. Resgatei clássicos e filósofos há muito não publicados. Trouxe à tona livros para quem amava viver entre os livros, do mesmo modo que conviver ao lado de outras pessoas é fundamental para aqueles que se movem por amor. O resultado foi surpreendente. Embora a aceitação dos vídeos e dos livros digitais seja um movimento inegável e sem retrocesso, os livros impressos continuarão na vida de muitas e muitas pessoas. Por vezes, o novo não vem destruir o antigo, mas o valorizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passado algum tempo, retornei à Pedra Bonita. Queria agradecer a Cléo. Esperei por horas, ela não apareceu. Sentei-me de frente ao céu e ao mar na fusão dos azuis no infinito distante. Mergulhei em mim. Após algum tempo, a voz do silêncio me perguntou: “Com crenças ou verdades, como andas construindo a vossa realidade?”. &nbsp;</p>
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