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	<title>MANUSCRITOS VI &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS VI &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Ingratidão e criatividade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Aug 2021 11:48:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>Eu estava muito aborrecido. A decepção talvez melhor retratasse o meu estado de ânimo naquele momento. As amizades são uma das mais poderosas manifestações do sagrado que existem, face o seu aspecto acolhedor e transformador. Amigos nos ajudam a levantar das quedas, servem de lanterna para nos tirar da escuridão, compartilham dos sorrisos e prantos inerentes à existência. Em algumas situações foram como lanchas da guarda costeira a me socorrer dos naufrágios dos dias. Tenho poucos, porém, bons amigos. Diria, os melhores que alguém poderia desejar. No entanto, o Leonardo não era um deles, como eu sempre imaginara. Havia alguns anos, ele passara por momentos de extrema dificuldade. A sua empresa chegara à beira da falência. Sem crédito nos bancos, eu lhe emprestara uma quantia considerável para que pudesse reestruturar a firma. Eu fizera sem nenhuma garantia formal ou documento assinado. Apenas na palavra e sem prazo para pagamento. Quando pudesse, pagaria. Passados quase dois anos, Leonardo honrou o compromisso. Comemoramos o seu bom momento profissional em um memorável jantar. Uma amizade para sempre. Ao menos era assim que eu pensava até a situação se inverter. Cerca de uma década depois, em momento parecido, precisei de dinheiro. Com os limites de créditos estourados, sem chance nos bancos, fui ao Leonardo. Ele me recebeu com carinho, me ouviu com atenção e, ao final, disse que me emprestaria a quantia necessitada. Desde que o meu apartamento fosse dado em garantia. Mais grave, com prazo determinado para pagamento. Se eu não conseguisse quitar a dívida em seis meses, ele ficaria com o imóvel, cujo valor era superior ao empréstimo. Para o meu espanto, eu não estava diante de um amigo, mas de um astuto negociante.</p>



<span id="more-3818"></span>



<p>O seu argumento era que não acreditava que eu conseguiria reerguer a editora. De fato, a chegada dos livros digitais, as vendas online e o fechamento de várias livrarias, virara o mercado pelo avesso. Desde os grandes editores até os artesanais, todos buscavam por rotas impensadas para entender para onde e por onde iríamos. Desistir não era uma possibilidade para mim. Sempre considerei as crises equivalentes às tempestades; se entender o movimento das marés e as mudanças dos ventos, chegaremos a paraísos desconhecidos; do contrário, também é fato, conheceremos o naufrágio. Eu tinha escolhido a primeira opção. Todavia, precisava da guarda costeira para me salvar de um iminente desastre. Eu estava à deriva. Apesar dos avisos de SOS, nenhuma lancha veio em ajuda. Tive a sensação de estar sob ameaça de um navio corsário.<em>Os livros acabaram, as editoras idem</em>, declarou Leonardo como quem diz para eu desistir do negócio.&nbsp;<em>Ninguém mais vai se interessar em passar dias envolvido em leitura, se pode conhecer o mesmo assunto depois de assistir a um vídeo de duas horas</em>, previu a próxima tendência do comportamento humano.&nbsp;<em>Se fechar a empresa agora, os seus prejuízos serão menores</em>, vaticinou com um tom de voz típico daqueles que acreditam conhecer o amanhã, além dos designíos e destinos de todas as pessoas.&nbsp;</p>



<p>Como faço quando estou chateado, subi a Pedra Bonita, um enorme platô de granito, no alto de uma montanha à beira do Oceano Atlântico, no Rio de Janeiro. As boas vibrações telúricas, somadas ao som dançante dos ventos, sempre pareceu facilitar a minha conexão com as Terras Altas, em intensa oferta de intuições, percepções e rara sensibilidade. Era o meu Lugar de Poder, como me ensinou Canção Estrelada. Depois de alguns minutos apreciando a bela paisagem, me recostei em uma pedra de frente para o mar e fechei os olhos. Eu precisava de clareza no pensar, do contrário, não conseguiria encontrar nenhuma saída. Passado um tempo que não sei precisar, as ideias não avançavam. “A mágoa está bloqueando todas as passagens”, ouvi alguém falar ao meu lado. Era Cléo, a bruxa. Morena com o corpo longilíneo, cabelos negros e olhos da mesma cor, com seus vestidos multicoloridos e esvoaçantes, ela levava consigo o mistério de aparecer e desaparecer sem qualquer aviso no topo da Pedra Bonita. Sentou-se ao meu lado sem pedir autorização. Ela tinha o dom de transformar a realidade através das ideias. Sem dúvida, isto é magia.</p>



<p>Perguntei do que ela falava. A mulher explicou: “As emoções densas, como a mágoa, obstruem o desenvolvimento do pensar. As ideias travam; as portas da evolução se fecham. Diferente dos sentimentos sutis que estimulam as asas dos pensamentos para nos levar além de onde estamos”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “Não importa a cidade onde moramos, vivemos dentro da nossa consciência, na qual ideias e sentimentos têm uma relação simbiótica. Afundam ou voam juntas”.</p>



<p>Cléo continuou: “Assim como a mente clara desmancha a aspereza das emoções, as ideias turvas poluem o coração. A sabedoria precisa do amor para encontrar as passagens ocultas através das cercas envenenadas do sofrimento. Enquanto você estiver dominado pela mágoa, não achará saída para nenhum problema. Encontrará ideias de conflitos e um desejo inconfessável por vingança. Ainda que nada faça contra ninguém, esse veneno irá adoecê-lo um pouco mais a cada dia. Não há do que reclamar, foi você quem o destilou”. Falei que ela estava enganada; não era mágoa. Ingratidão era o sentimento correto. Leonardo tinha sido ingrato com quem o ajudou em um momento difícil. Faltara a reciprocidade. A bruxa deu de ombros e esclareceu: “Tanto faz, é o mesmo ódio. Ressentimento, decepção, frustração, mágoa ou qualquer outra palavra que busquemos para negar o ódio que não gostamos de sentir, muito menos de admitir, não irá ajudar por nos desviar da verdade”.</p>



<p>Eu quis saber sobre qual verdade ela se referia. Cléo explicou: “O quanto você conhece os aspectos e valores pessoais com o quais se relaciona consigo mesmo e com o mundo. Isto define a sua personalidade que, por sua vez, irá espelhar o seu jeito de ser e viver”. Argumentei que cada pessoa nasce com a sua personalidade. Alguns são extrovertidos, divertidos e sentimentais; outros são tímidos, sérios e racionais, citei algumas das inúmeras possibilidades. Já vieram assim ao planeta; não há como mudar. A bruxa fez não com a cabeça e disse: “Ledo engano. A personalidade não se estreita nesse raciocínio, tampouco é estática. Para que haja evolução, tudo necessita se transformar. Com a personalidade não é diferente”. Olhou para o mar por alguns instantes, como se buscasse inspiração, e explicou: “Um sujeito orgulhoso terá mais dificuldade em lidar com a negativa de outra pessoa do que um indivíduo humilde; enquanto o primeiro se sentirá ofendido ou magoado, o segundo entenderá as razões ou as dificuldades do interlocutor. Pensamentos e emoções que envolverão ambos serão diferentes e também determinantes, tanto para o bem estar quanto para as soluções que cada um encontrará. Modificar aquilo que precisa melhorar em si mesmo, seja o que for, é uma vertente necessária para quem deseja seguir em frente”.</p>



<p>Franziu as sobrancelhas negras e disse: “O assunto é mais amplo e profundo do que a maioria das pessoas se dá conta. Assim, não percebem como elas próprias influenciam a calma ou as tormentas dos seus dias e definem o próprio destino. Menos pelo poder da vontade, mais pela capacidade de pensar e sentir. Percepção e sensibilidade são primordiais para guiarem o agir; formam o leme que direciona a embarcação. A vontade é o motor que a impulsiona”.</p>



<p>Por perceber a atenção que eu dava as suas palavras, se animou em prosseguir: “O medroso verá a dificuldade como um empecilho, enquanto o corajoso encontrará nela um motivo de superação. O mesmo problema é visto de diversas maneiras em razão do olhar de cada pessoa. O jeito de pensar, a maneira de lidar com as emoções e a personalidade encurtam ou expandem a nossa capacidade de enxergar. Isto define a verdade pessoal. Percepção e sensibilidade se tornam fatores estruturais da consciência”. Lembrei da célebre citação contida no Sermão da Montanha,&nbsp;<em>quando os seus olhos são bons todo o universo é Luz</em>. Cléo sorriu em aprovação e acrescentou: “O<em>lhos bons</em>significam uma mente clara, um coração sereno e uma personalidade disposta a se transformar a qualquer instante. Todos os dias são perfeitos para se tornar uma pessoa diferente e melhor. Como consequência, a realidade se modifica ao passo e compasso dos nossos olhos”.</p>



<p>Não tinha como discordar da bruxa. Todavia, nada naquelas palavras servia para desmanchar a ingratidão do Leonardo, a quem eu havia ajudado em momento de semelhante dificuldade pela qual eu passava. Cléo não concordou comigo. Fiquei desconcertado com a explicação dela: “O problema é seu, seja financeiro, seja emocional. Não é justo transferi-lo. Leonardo não tem nenhuma obrigação de agir da mesma maneira que você. Do contrário, aceitar a sua ajuda faria dele um refém das necessidades que algum dia você poderia ter. Ele ficaria aprisionado as eventualidades de quem o socorreu. Ninguém deve viver assim”. Olhou para o céu azul como quem roga por boas palavras e disse: “Ajude a todos, mas faça por você. Quando ajudo alguém nunca devo fazer pelo outro, mas pelo meu próprio bem. Pelo amor que tenho no coração, pela luz que orienta a minha alma. Tão e somente. Se eu fizer pelo outro, criarei uma dívida de quitação complicada, como são as absurdas obrigações emocionais. Tanto o amor quanto a luz são um compromisso, nascem dentro da gente para viverem no mundo; são motivos de alegrias. Obrigações são imposições que vem do mundo para viverem dentro da gente; por isto causam desconforto e nunca encontram lugar”. Em seguida concluiu: “Se tiver que ajudar alguém, faça por você; jamais por ninguém. Do contrário, irá se arvorar na ridícula posição de credor do mundo”.</p>



<p>Eu precisava alocar aquelas palavras em mim. Como se adivinhasse, a bruxa me ajudou: “Ingratidão é o comportamento daquele que não reconhece a graça recebida. Em seu significado original, a palavra&nbsp;<em>graça</em>se refere a um movimento sagrado que nos socorre em momento de aflição. Ingratidão revela que alguém não foi agraciado em amor e luz diante de uma determinada situação. Logo, a ingratidão pertence a ele, nada tem a ver contigo. Sim, olhos enevoados o permitiriam se sentir abandonado pelo Leonardo, sem a devida reciprocidade que um dia você praticou. Contudo, se tiver clareza no olhar, entenderá o convite que a vida lhe faz para ir além de onde sempre esteve. Os imaturos acreditam que apenas dinheiro resolve problemas financeiros. Os maduros, se valem da própria força e equilíbrio. Isto lhes concede o poder da criatividade. Uma ferramenta capaz de criar portas onde todos enxergam um muro instransponível”.</p>



<p>Interrompi para dizer que estimular a minha criatividade não tinha sido a intenção do Leonardo ao recusar ajuda. Cléo deu de ombros e falou: “Não importa”. Diante do meu espanto, ela aprofundou o raciocínio: “Quando vivemos em função das escolhas alheias, elas limitam as alegrias e espraiam as tristezas. O nome disto é dependência emocional. Um nefasto jeito parasitário de ser. Algo inconcebível à felicidade e a paz. Não há nada de errado em pedir ajuda; em vários momentos e por diversos motivos, todos precisam. Sem exceção. Contudo, se faz primordial entender que a negativa de outra pessoa não pode ter o poder de impedi-lo de seguir em frente. Avançar depende apenas da sua força e equilíbrio. Nada mais. E isto é você consigo mesmo. Ninguém mais”.&nbsp;</p>



<p>A bruxa sugeriu: “Tenha compaixão pelo Leonardo. A sua compreensão amorosa pela dificuldade de entendimento e acolhimento por parte dele, fará com que o ódio, que você prefere denominar de ingratidão, arrefeça até se desmanchar por completo. Embora muitos não compreendam, isso nos diz muito sobre a liberdade, bem mais do que meramente andar solto pelas ruas ou pendurar uma mochila nos ombros para viajar pelo mundo. Os cárceres mais rigorosos são aqueles impostos à mente e ao coração quando aprisionados ao ódio”.</p>



<p>Em seguida, se levantou e rodopiou em dança estonteante à beira do penhasco. Aos poucos, foi se afastando até desaparecer no meio das gaivotas que, em revoada, embaralhavam a minha visão e pareciam se fundir ao vestido esvoaçante da bruxa. Sozinho, me apoderei das suas palavras para descontruir alguns conceitos e construir outros tantos em mim. A ingratidão tinha sido uma característica da atitude do Leonardo. Deixar que se tornasse uma emoção a me possuir era uma permissão que eu não poderia conceder. Talvez ele não olhasse o meu negócio sob o mesmo prima que eu observava; talvez não estivesse disposto a arriscar naquilo que acreditava estar fadado ao fracasso; talvez duvidasse que eu fosse lhe pagar, caso a editora fechasse. Eram muitas variantes. Contudo, na verdade, não importava. As razões eram dele, não minhas. Importante era aceitar que ele tinha direito a qualquer uma delas. Eu precisava me manter em meu eixo de luz. Se eu assim fizesse, nada nele poderia me impedir de seguir em frente.</p>



<p>A mim cabia a compaixão para acolher a escolha do Leonardo que, a princípio, contrariava os meus interesses. No entanto, jamais poderia faltar disposição para continuar me construindo; este sim, será sempre o meu melhor negócio. Independente do que acontecesse com a editora, sou muito mais do que qualquer empresa. Todos somos. O que enobrece é a dignidade, nunca o sucesso empresarial. Ao envolver o Leonardo em sincera compaixão, aceitei que ele não tinha nenhuma obrigação comigo. Ninguém tem. Diferente das obrigações, nas amizades valem os compromissos, pois falam da vontade que nasce no coração para florescer na consciência. Por isto, são suaves e alegres. Têm a linguagem do amor.</p>



<p>Ao metabolizar esse raciocínio, fui tomado por agradável sensação de leveza. Era o meu coração que sorria e bailava, pela simples razão da mente transbordar em clareza. A suavidade dos sentimentos conduziam os pensamentos a lugares desconhecidos. Belas paisagens. Permite-me pensar sem pressa, como fazem aqueles que trazem a paz em si. Então, como numa sequência cadenciada, fui visitado por ideias fantásticas. Criatividade são as passagens secretas para além da mesmice das soluções consideradas únicas. Absolutamente tudo está sob o poder da criação. Somos criadores das nossas próprias criaturas. Assim sendo, os meus problemas também são criados por mim e em mim permanecem enquanto eu me negar em aceitar que posso criar todas as soluções. Nem sempre as óbvias, mas também aquelas até então impensadas.</p>



<p>Desistir da editora? Não se tratava disto. Mudar a rota não significa desistir da viagem, mas criar alternativas para não perder o rumo. O rumo? Ora, será sempre a minha essência. Transforma-se para chegar ao destino de si mesmo exige desapego e criatividade. Era chegado a hora de aceitar algumas perdas; do contrário, jamais haveria outras conquistas.</p>



<p>Fingir que um problema não existe jamais significará a sua solução. No entanto, havia algum tempo, eu percebia a presença de uma nova estrada, cuja entrada se aproximava. Eu resistia à mudança de rota. Muitos são os motivos que nos levam a este comportamento. Medo, apego e teimosia são os mais comuns. Durante anos, a editora apostara em trazer obras de autores internacionais consagrados, ao custo de elevados royalties pagos antecipadamente em moeda estrangeira, com câmbio desfavorável e flutuante. Uma situação insustentável para uma editora de tamanho médio, sem o aporte financeiro dos grandes conglomerados. E se ao invés de insistir nesse modelo me atrevesse a criar outro? Diminuir o tamanho da empresa, se necessário deixar que se tornasse artesanal, mas que apostasse em jovens autores brasileiros, não em idade, mas em início de carreira, que se atrevessem a se aventurar ao meu lado? Proporia um novo formato de contrato no qual se tornariam sócios da editora em suas próprias obras; as vendas seriam realizadas apenas pelo site da editora, fato que permitiria um inédito percentual de pagamento quanto aos direitos autorais dos escritores.&nbsp;</p>



<p>Outro detalhe seria o acabamento e diagramação dos livros; seriam tão artísticos quanto os seus conteúdos. Imagens confeccionadas por artistas gráficos desconhecidos, em busca de divulgar os seus talentos. Seriam contratados para ilustrar as obras por um valor acessível a realidade da editora. Um bom negócio se caracteriza quando todos ganham. Figuras e letras se uniriam para contar histórias, expandir ideias e impulsionar descobertas, que além de embelezar os livros, auxiliariam a abrir as portas do poderoso inconsciente. A arte também tem este poder. No mais, reduziria o número de títulos para me concentrar em obras que versavam sobre Filosofia e Metafísica. Ao invés de seguir a tendência do mercado de economizar no papel e na impressão para baratear o custo final, como maneira de ganhar na quantidade, eu faria tudo diferente e andaria na contramão do fluxo. Faria livros refinados para quem os ama e os tem como obras de arte. Uma editora-boutique; um atelier literário. Seriam mais caros, porém, serviriam a muitas gerações. O bom saber está no planeta há milênios. Nenhuma tecnologia substituirá a viagem proporcionada pela leitura. Tais como os diamantes, os livros são eternos. Eu os faria para durar séculos. Seriam poucos, mas seriam maravilhosos.&nbsp;</p>



<p>Sim, os riscos eram enormes, mas perder é melhor do que nem tentar. Se antes eu queria aumentar de tamanho, naquele momento entendi que a saída era redimensionar o conceito da empresa. Ela se tornaria pequenina para ganhar leveza e, assim, atravessar os precipícios das dificuldades. Elefantes são pesados demais para voar.</p>



<p>Quando subi a Pedra Bonita, eu era um editor. Ao descer, outro. Algo estava pronto para vir à tona e me virar ao avesso. Mais uma vez. Eu sabia que não ficaria só nisso, mas era apenas o início da criação. Assim são as viagens de descoberta. Todos os dias servem para esses encontros. Eu me sentia como um garoto em uma plataforma de embarque rumo ao desconhecido de mim mesmo. Uma aventura irresistível. Animadíssimo, agradeci à Cléo por me ensinar sobre magia, transmutação e evolução; por me fazer compreender sobre o peso e o erro de carregar a ingratidão na bagagem e por me lembrar das chaves, sempre disponíveis, da criatividade. Impossível não agradecer também ao Leonardo por, mesmo sem saber, ter me ajudado a encontrar um inusitado caminho.&nbsp;</p>
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		<title>Ganhos e perdas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Aug 2021 11:04:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>As canecas de café estavam vazias sobre o pesado balcão de madeira. Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, que tinha o dom de costurar bolsas com a mesma mestria com que alinhavava ideias, encerrara o ofício naquele dia. Anne, uma das suas sobrinhas, uma linda jovem, recém-entrada na fase adulta, conversava com ele quando cheguei. Fui recebido com a alegria de sempre. Depois de um forte abraço e as devidas apresentações, Loureiro tratou de providenciar mais café. Logo fui colocado a par sobre o assunto que conversavam. Os pais de Anne se separaram antes de ela completar três anos de idade. Desde então, a jovem tivera um relacionamento difícil com o pai, a quem acusava de demonstrar pouco afeto e interesse por ela. Desde sempre, Loureiro a escutava reclamando do comportamento do pai. Havia poucas semanas, Jonas, como ele se chamava, tinha se desligado da empresa na qual trabalhara por quase trinta anos. Receberia uma boa indenização, que seria usada para montar um negócio que sempre sonhara. Um pequeno bar especializado em coquetéis e ostras. Ele próprio seria o barman e as ostras seriam fornecidos por um produtor que possuía uma inovadora fazenda no litoral. Um espaço de proporções reduzidas, com um balcão, poucas mesas, ostras frescas e coquetéis autorais, embalados ao som de um jazz intimista. Uma ideia simples e minimalista, na qual começaria sem nenhum funcionário. Uma ideia poderosa por depender apenas do Jonas para se transformar em realidade. Loureiro sabia do projeto, prestes a se realizar. Apesar do divórcio na época ter gerado uma enorme insatisfação na sua irmã, o sapateiro continuara amigo do pai da sua sobrinha. Entendia que Jonas tinha o direito de fazer as escolhas concernentes à sua vida. O motivo daquela conversa era que Anne entrara com uma ação judicial requerendo parte da indenização quanto à rescisão do contrato de trabalho do pai. A moça entendia que aqueles valores compunham o salário de Jonas, sobre o qual eram realizados os descontos para o pagamento da pensão alimentícia enquanto ela foi menor de idade. Como um percentual da indenização era referente aos antigos salários, cuja parte não fora incluída na pensão alimentícia, chegara o momento de Anne receber esse dinheiro. Ao menos, assim ela pensava ser um direito seu. Por sua vez, o pai contava com o dinheiro que receberia para montar a sua coquetelaria. Enfim, parte da indenização estava bloqueada por decreto judicial e a decisão colocava em risco o negócio de Jonas, que podia não mais acontecer.&nbsp;</p>



<p>Ao ouvir a história, ficou nítido para mim que havia um mestre escondido por trás do imbróglio. Naquele momento, eu não conseguia identificá-lo.&nbsp;&nbsp;</p>



<span id="more-3813"></span>



<p>Ao saber que o pai lamentara o fato com o tio, que tanto admirava, Anne quis se explicar. Loureiro a ouviu com carinho. Ao final, como costumava fazer, começou a tecer um raciocínio ao modo socrático, um eficiente método no qual as respostas dos próprios interlocutores servem para construir as suas conclusões e, assim, encontrar as saídas ocultas em momentos que a existência parece travada. O sapateiro fugiu do óbvio, que seriam perguntas sobre a indenização pleiteada. Ele quis saber sobre o relacionamento de Anne com o pai quando ainda criança.&nbsp;<em>Complicado</em>, foi a resposta curta, porém, passional. Loureiro insistiu: “Ele a visitava sempre?”. A jovem explicou que passava finais de semana alternados na casa do pai, além de metade das férias. Anne ressaltou que eram dias muitos chatos, pois o pai não se esforçava para torná-los divertidos. O sapateiro prosseguiu: “Em que aspectos eram diferentes dos finais de semana que você passava com a sua mãe?”. A moça demorou algum tempo para responder. Depois, explicou que fazia coisas parecidas. Contudo, como morava com mãe, se sentia mais à vontade em casa. Loureiro indagou se Jonas a tratou com rudeza alguma vez. Anne admitiu que nunca acontecera. Acrescentou que a sua queixa era pelo fato de o pai não ter jeito para lidar com crianças. Tampouco se interessava em aprender. Para mim, como ouvinte, ficara claro que a moça tinha níveis de exigências bem mais elevados em relação ao Jonas do que quanto à mãe. A questão era entender a causa de olhares tão díspares. Loureiro indagou: “Qual a imagem que você tem do seu pai?”. Anne explicou que ele tinha abandonado a família para viver os prazeres do mundo. O tio perguntou se já ouvira a mãe falar isso. Anne fez sim com a cabeça. Depois, acrescentou que recentemente a mãe disse se arrepender de ter se queixado com a filha sobre o comportamento do pai. Em silêncio, eu seguia tentando entender as raízes do conflito. Sim, a mãe se arrependera, uma atitude sempre positiva, contudo, o olhar da filha talvez ainda estivesse deformado pelas mágoas que o formara. Mágoas que não eram suas, porém, ao serem transferidas, deturparam a imagem que Anne tinha do pai. Como se adivinhasse os meus pensamentos, o sapateiro questionou: “Ao seu olhar, quais os traços da personalidade do seu pai foram desenhados pelas mágoas da sua mãe?”. A sobrinha se calou por instantes.&nbsp;<em>Nenhum</em>, respondeu com uma irritação contida.&nbsp;<em>Não sei a razão de insistir em perguntas que você sabe as respostas</em>, acrescentou. Em seguida, disse que tinha compromissos. Voltaria em outro momento para continuarem a conversa. Despediu-se e foi embora.</p>



<p>A sós com Loureiro, comentei que Anne se sentia credora do pai. A suposta dívida financeira, pleiteada em juízo, era o transbordamento de uma suposta dívida emocional que, como tal, era de complexa quitação. Seja por causa das suas motivações, não necessariamente justas, seja pelo conforto de elegermos um vilão sobre o qual podemos descarregar todas as frustrações existenciais e transferir a responsabilidade pela amargura que sentimos no coração. Simplesmente acreditar que&nbsp;<em>a culpa é do outro</em>, não se mostra um caminho, mas uma fuga. Uma resposta fácil de solução inexistente. O sapateiro concordou, mas ponderou: “Sim, uma situação é reflexo da outra. Questões meramente financeiras oferecem equações exatas. Assuntos emocionais costumam embaçar não apenas a razão, mas também o amor; então, as saídas se mostram imprecisas ou mesmo bloqueadas”.&nbsp;</p>



<p>Questionei como poderíamos saber se, a cada conflito existencial, encontraremos a saída certa. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e ensinou: “Se restar mágoa, ressentimento, irritação ou qualquer emoção parecida, significa que foi uma solução equivocada”. Fez uma pausa e acrescentou: “O coração tem razões simples. Ele quer amor. Assim acontece com todos os corações. Sem exceção. O problema surge quando, na imaturidade do ego, buscamos por ganhos imediatos, aparentes ou de superfície que nos levam a perdas prolongadas, essenciais e de profundidade. A alma sofre. Toda vitória será vã”.</p>



<p>Na incrível sincronicidade da vida, onde os acontecimentos precisam se encaixar para que os mestres nos ensinem a lição da vez, fomos interrompidos pela entrada de Jonas na oficina. Tinha nos olhos as marcas de uma noite mal dormida; na face, a luz de quem encontrara um caminho. Depois de me cumprimentar e trocar um forte abraço com sapateiro, disse que tomara uma decisão. Pediria ao seu advogado para desistir de contestar o pedido judicial feito por Anne. Pagaria o valor pleiteado. Assunto encerrado.</p>



<p>Loureiro salientou: “O assunto somente estará encerrado se houver entendimento e, se for o caso, compaixão. Do contrário, a questão seguirá em aberto. Não na esfera judicial, mas nos campos do coração, um lugar onde os danos costumam ser bem maiores”. Jonas concordou. Disse que a conversa que tivera com o sapateiro, havia dias, o fizera entender o significado oculto que havia por trás daquela questão. Amava Anne. Queria viver em paz com a filha. Enquanto durasse o processo judicial viveriam em guerra. O sofrimento se alongaria. Não fazia sentido insistir naquela disputa. Alimentariam as piores emoções um pelo outro. Seria o reverso da sua busca. Ao abrir mão de parte da indenização em favor da filha, ainda que considerasse o pedido inapropriado, sentiu uma maravilhosa sensação de serenidade, como se tivesse entendido o recado da sua alma. Isto lhe dava a certeza da decisão certa.</p>



<p>Perguntei se seria justo abrir mão daquele dinheiro. Ainda mais, de talvez inviabilizar o projeto da coquetelaria. Uma lágrima escapou dos olhos do Jonas quando me explicou que ganhar o coração da sua filha compensava as dificuldades que teria para montar o bar. Lembrei que aquela equação não era exata. Ele podia ficar sem ambas as coisas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Jonas disse que estava disposto a correr o risco do caminho que escolhera na tentativa de desmanchar a couraça que Anne havia erguido e o impedia de se aproximar. Seria como enviar um recado silencioso de que a felicidade dela importava para ele. Precisava descontruir a imagem que Anne tinha sobre quem ele era. Até aquele momento, as palavras tinham se mostrado insuficientes; então, era hora de falar através das atitudes. Sabia que muito dos conceitos tinham sido inseridos através das queixas da mãe.&nbsp;<em>Nem tudo verdadeiro, nem tudo falso</em>, admitiu. Teimar nesta discussão não levaria a lugar nenhum.&nbsp;<em>Nunca levou</em>. Era preciso fazer diferente. Sim, há a hora de falar, existe o momento de agir. Ainda que não conseguisse encontrar o coração da filha, teria oferecido o seu melhor nesta busca. Estava disposto a ir além de onde sempre estivera, fosse dentro de si mesmo, fosse no esforço para tocar no coração de Anne. A olhos sensíveis, qualquer que fosse o resultado, aquela decisão traria mais ganhos do que perdas. Algumas vezes, perdas materiais podem significar ganhos intangíveis.</p>



<p>Jonas não poderia viver a espera do resultado esperado, pois poderia nunca acontecer. Ele sabia disto. Do contrário, a decisão traria peso aos seus dias pelas mágoas e frustrações que geraria se vivesse na expectativa de determinada reação por parte da Anne, da qual não teria, nem poderia ter, qualquer controle. Entendi que o Jonas passaria a viver pela alegria do amor semeado. Tudo mais seria uma questão de solo fértil e primavera no coração da filha. A certeza de ter oferecido o melhor que havia em si, resgatara a leveza e a alegria dos seus dias. Outro ganho inestimável.</p>



<p>Conversamos mais um pouco. Depois, tive de me despedir. Eu estava indo para o mosteiro. Mais um ciclo de estudos me aguardava. Não por acaso, foi um período no qual debatemos sobre a resistência que temos às transformações. Queremos desenhar uma vida colorida, mas não admitimos nos desfazer das moedas para conseguir uma caixa de lápis de cor. Por não entender o processo, não o completamos. Então, sofremos.</p>



<p>Na volta, como sempre fazia antes de ir para estação ferroviária, fui visitar o Loureiro para um pouco de prosa e uma caneca de café. Perguntei sobre a situação da sua sobrinha. Ele me contou que Jonas pagara o valor pleiteado por Anne. A moça tinha comemorado com as amigas. Depois tinha partido em uma viagem sem data de volta pela Ásia, uma região que sempre quisera conhecer. Eu quis saber sobre como Jonas estava e se conseguira montar o seu negócio. Loureiro explicou: “Ele está muito bem. Em paz por ter ouvido o seu coração como nunca antes tinha conseguido. Fez o que era impensável tempos atrás. A mudança lhe trouxe força e equilíbrio improváveis. Decidiu por montar uma coquetelaria mais acanhada, dentro das condições que restaram. A serenidade e o ânimo advindos da sua postura, têm lhe permitido encontrar soluções criativas todas as vezes que dinheiro se torna um problema. Percebe quantos ganhos podem surgir das perdas?”.&nbsp;</p>



<p>Problemas são ótimos para nos oferecer inusitadas soluções, desde que a busquemos dentro de nós. Contudo, lembrei que apesar de todo esforço, perdera o coração da filha. Anne estava feliz por viver em lugares paradisíacos. Talvez nem lembrasse do pai. Quis saber se Jonas ficara triste com isso. Loureiro franziu as sobrancelhas e disse como se mostrasse as estrelas para quem nunca olhou para o céu: “Inicialmente, antes de acatar o pleito da filha, viveu dias tumultuados e dolorosos. Quando se permitiu olhar pelas lentes da alma, entendeu que o poder da sua vida estará sempre na sua ação, jamais na reação de Anne ou de qualquer outra pessoa. Ao compreender esse mecanismo do poder pessoal, os dias se tornam leves e alegres”.&nbsp;</p>



<p>Em seguida, Loureiro acrescentou: “Esse movimento o levou a uma descoberta. Ele encontrou uma grande mestra, a paciência. Uma virtude essencial. Ao conhecer os segredos e meandros dessa arte, aprendeu a lidar com tempo. De vilão o tempo se fez guardião. A ouvir a sua voz e a bailar em seu ritmo, passou a adquirir ganhos incomensuráveis originados de perdas consentidas. Nenhuma história termina agora. Anne partiu conforme quis, mas levou com ela, ainda que inconscientemente, a mensagem de que o pai continuará sendo um porto seguro para ela atracar nas tempestades da existência. Ninguém é igual a ninguém. Para isto, há mil maneiras de amar. Uma para cada pessoa. Jonas encontrou a sua. Um jeito próprio de amar a filha”.</p>



<p>No ano seguinte, ao retornar para mais um ciclo de estudos, fui visitar o meu amigo sapateiro. Como houve atraso no voo, perdi o trem que costumava embarcar para chegar ainda de madrugada na oficina de Loureiro. Desembarquei na estação no final da tarde. Antes de ir para o mosteiro, decidi conhecer a coquetelaria do Jonas. Tomaria um drinque, saborearia algumas ostras e depois seguiria para o mosteiro. Foi uma decisão repleta de agradáveis surpresas. Além do local ser bastante charmoso, não apenas encontrei Loureiro, mas me deparei com Anne. A moça trabalhava com o pai no bar. Enquanto Jonas cuidava do balcão, a filha atendia as mesas. Eu quis saber o que tinha acontecido. O sapateiro me contou: “Após alguns meses em Bali e outros locais paradisíacos, Anne começou a entender o inferno que se tornara as suas confusões emocionais. Não importa o lugar que moramos, sempre viveremos no nosso coração. Resistiu enquanto o dinheiro a entorpecia com inúmeras diversões. Decidiu voltar quando não teve mais como se manter. No entanto, percebeu que apesar da enorme beleza das diversas praias que visitou, nenhuma delas seria suficiente para alegrar o seu coração. Somente o amor em movimento tem força para desmanchar a amargura. Nada mais”.</p>



<p>Ao retornar à cidade, Anne encontrou Jonas dando os retoques finais na coquetelaria, embora mais simples do que no projeto inicial, se destacava pelas soluções criativas necessárias para suprir a falta de dinheiro. A criatividade traz consigo o poder da originalidade. A magia do impensado. O mundo de cada pessoa se torna perfeito quando movimentado com boa vontade. O contrário também se aplica. Sim, os gestos de má vontade abrem as portas do inferno. “Não é assim?”, comentou Loureiro. Sem esperar pela resposta, ele prosseguiu na história recente: “Ao reencontrar o pai, Anne admitiu que não tinha mais um centavo. Pediu para trabalhar como garçonete, pois precisava de um emprego para pagar as suas contas. Sem sucesso, tinha tentado em outras lojas da cidade. Jonas disse não ter condições de contratar nenhum funcionário. Era verdade. As suas economias haviam se esgotado. A filha disse entender a situação. Os seus olhos marejados falavam de um arrependimento pulsante no coração”.</p>



<p>O sapateiro continuou: “Antes de Anne ir embora, Jonas disse que podia oferecer algo diferente à filha.&nbsp;<em>Não posso contratar uma funcionária, mas nada me impede de aceitar uma sócia</em>, propôs. A jovem sorriu encantada pelo amor do pai que, apesar das dificuldades, se negava em desistir de chegar ao seu coração. Somente então pode conhecer um amor que, apesar de sempre ter existido, ela nunca fora capaz de aceitar. Jonas abriu os braços para no abraço selar, não apenas a sociedade, porém, um aguardado encontro de almas”.&nbsp;</p>



<p>A coquetelaria estava repleta de clientes. Notei que mesmo na correria dos afazeres do bar, pai e filha se buscavam em incessantes olhares. Então, sorriam. A felicidade está atrelada ao processo evolutivo. Tornar-se uma pessoa diferente e melhor é a base desta e de outras plenitudes. Resistir às transformações é o mais grave dos entraves. Comentei isto com o sapateiro. Ele fez sim com a cabeça e acrescentou: “O ponto crucial foi o entendimento de Jonas sobre o verdadeiro significado de perdas e ganhos. Ao compreender que havia um bem mais valioso em questão do que o dinheiro, foi possível fazer uma escolha de perdas superficiais para atingir ganhos profundos. Como no Jogo de Xadrez, quando se sacrifica o cavalo para libertar a rainha de uma armadilha perigosa. Ou o rei de um xeque-mate”.</p>



<p>Argumentei que poderia não ter acontecido. Loureiro deu de ombros e ponderou: “Vale a boa ação; nela superação se completa. Este é o autêntico resultado. Equivocadamente, entendemos como resultado a resposta do mundo. Ora, em verdade, isto é apenas a reação dos interlocutores que se movem de acordo com a sua consciência, princípios, valores e interesses nem sempre equivalentes aos nossos. Pouco ou nada podemos fazer. A errada interpretação entre os significados de perdas e ganhos, que se arrasta através da História, continua trazendo muita confusão e sofrimento. Enquanto não soubermos diferenciar um do outro, continuará sendo causas de mágoas e decepções desnecessárias”.</p>



<p>Comentei que havia sido uma grande conquista para o Jonas. O sapateiro tornou a concordar, mas fez uma ressalva: “Não menos importante foi a descoberta que antecedeu a conquista”. Bebeu um gole do drinque e finalizou: “Nem sempre o amor chega pronto; não raro, se trata de uma construção. Construir o amor é uma obra que exige compreensão. Como ensinou um antigo sábio egípcio, é impossível amar sem a tentativa sincera de entender as dificuldades das pessoas. Sem esta descoberta, Jonas não teria alcançado o coração da filha”.</p>
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		<title>Significados perdidos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jul 2021 13:46:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>A palestra tinha sido maravilhosa. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sabia expor as suas ideias com extrema clareza. Assuntos considerados difíceis se tornavam de fácil entendimento. Assim fazem os sábios. Quando a explicação é nebulosa, significa que a ideia ainda não está madura naquele que a expõe. Contudo, nas aulas do bom monge, apesar do raciocínio claro e objetivo, ao final, tínhamos a sensação de que ele sempre deixava algumas reflexões subliminares, como palavras não escritas de um livro, porém, fundamentais para o entendimento mais amplo e profundo da história. Naquela tarde, ele falara sobre um tema delicado, o sentido da vida. Muitas teses já foram desenvolvidas sobre o assunto. Todas de extrema valia. Ao seu modo de nos fazer compreender questões complexas, ele costumava simplificar a ideia em uma única palavra. Este era o ponto central de onde o pensamento seria expandido. Um eficiente método. Como se o conhecimento sobre a aldeia na qual habita fosse o movimento primordial para o indivíduo entender o mundo. E é. Havia assuntos que sempre considerei complicados de entender. Carma era um deles. Li várias explicações sobre o assunto; ouvi muita gente discorrer sobre a complexidade do tema, na maior parte das vezes repetindo frases que pareciam mais esconder do que mostrar. Lembro de quando o Velho iniciou a aula sobre o assunto da seguinte maneira: “Carma é aprendizado. Tudo mais são comentários sobre essa importante questão”. Cerca de uma hora depois, finalmente havia entendido com clareza o que ninguém conseguira com frases enigmáticas, durante anos, me explicar.&nbsp;</p>



<span id="more-3807"></span>



<p>Naquela tarde não foi diferente. O bom monge começou a palestra bem ao seu estilo: “O sentido da vida é evoluir. Tão e somente”. Fez uma pausa antes de acrescentar: “Todavia, entender a evolução, para então vivê-la, é um exercício sem fim”. Ele nos entregava a boa semente para nos fazer jardinar a árvore. Ao ritmo com que ela crescia em nós, entendíamos a sua utilidade e beleza. Assim funciona a tão falada, e nem sempre compreendida, expansão de consciência. O Velho explicava que, entre várias coisas que atrasavam o processo evolutivo, o fato de perdermos ou desvirtuarmos o significado das palavras era um dos aspectos mais comuns e despercebidos. Segundo ele, propositalmente. O fato de uma mesma palavra possuir diversos significados, como alma, por exemplo, era prova desse atraso. Fomos interrompidos pelo sino do mosteiro que nos convocava para o almoço.&nbsp;</p>



<p>Estávamos animadíssimos. Como costumamos ficar sempre que uma ideia faz despertar algo importante que, até então, não tínhamos notado. Ver o que nunca enxergamos equivale a cura para a cegueira da consciência. A sensação da descoberta é maravilhosa e primordial para as etapas seguintes de encontros e conquistas. Sentados nas compridas mesas coletivas da cantina, conversávamos sobre a palestra interrompida. Tentávamos não apenas decodificar as entrelinhas do conteúdo oferecido, assim como seria a abordagem da parte faltante. O Velho se sentou perto de onde eu estava.&nbsp;</p>



<p>Em determinado momento, o Guilherme, um dos monges que estavam próximos, comentou que faria uma viagem para passar um período em um conhecido&nbsp;<em>ashram</em>, na Índia, pois acreditava que as práticas milenares de meditação, ali praticadas, o ajudariam a compreender o que nunca conseguira entender em si mesmo. Assim, teria uma melhor leitura de todas as pessoas à sua volta. Outro monge, o Renê, muito amigo do Guilherme, o felicitou e disse sentir&nbsp;<em>uma invejinha boa</em>do colega. Neste instante, o olhar do Velho se mostrou atento a nossa conversa. Ele franziu as sobrancelhas e, sem dizer palavra, voltou à refeição. Percebemos e calamos. Renê perguntou se teria dito algo indevido. O bom monge explicou: “Não por acaso, esse foi o tema da palestra de hoje”. Fez uma pausa antes de explicar: “Não existe inveja boa. Ainda que se use a palavra no diminutivo para parecer carinhosa. Como toda sombra, a inveja necessita de iluminação para que não cause sofrimento”. Renê argumentou que todas as coisas possuem polaridades negativas e positivas. Diferente não eram as sombras. O Velho aprofundou: “A polaridade positiva das sombras consiste em despertar uma virtude para substituí-la em sua consciência e escolhas. Inveja é sentir incômodo pelas conquistas de outra pessoa. Este é o genuíno significado da palavra. Penso não ser saudável tal emoção. Tudo mais são distorções de fuga”.&nbsp;</p>



<p>Renê tratou de esclarecer de que o seu sentimento era diverso daquela definição. Em verdade, tinha admiração pela busca espiritual empenhada pelo Guilherme e se alegrava pelo fato de o amigo estar preste a experienciar mais uma importante etapa na sua existência. Confessou que um dia gostaria de fazer o mesmo. O Velho sorriu e o tranquilizou: “Sei do seu bom coração, incapaz de tentar se apoderar de algo que legitimamente não o pertença. Nesse caso, não tenho dúvida que você está alegre pela oportunidade permitida ao Guilherme. Ainda que também queira viver uma experiência parecida, não sente nenhum desconforto com o fato. Isto não é inveja, porém, alegria e admiração”. Bebeu um gole d`água e prosseguiu: “Dentro de todos nós habitam os sentimentos sublimes, assim como as emoções nebulosas. Aceitar esta realidade nos protege de nós mesmos. A importância do exato significado de todas as coisas, as palavras entre elas, consiste em não nos deixar enganar quando a autêntica inveja se fizer presente. Não haverá riscos de ficarmos tentados a acreditar que a tal emoção é a suposta invejinha boa. Pois, se acontecer, a deixaremos viver solta em nós. Logo teremos sérios problemas; sem darmos conta, as sombras assumem o controle da nossa consciência. O maior truque do mal é nos convencer que ele não existe em nós”.</p>



<p>O Velho acrescentou: “Outro perigo comum são os ditados consagrados, porém incompletos em sua compreensão. Por exemplo, costumamos dizer que aprendemos pelo amor ou pela dor. Em verdade, a dor nada ensina; apenas serve para despertar o amor adormecido pela pressão interna que exerce. Do contrário, nenhuma serventia terá”. O bom monge tinha toda a nossa atenção. Ele prosseguiu: “Quando o sofrimento consegue atingir a sua única utilidade, faz o amor acordar assustado, como quem perdeu a hora para o trabalho. No entanto, finalmente pode mostrar todo o seu poder e luz. Apenas ao envolver a situação com amor, conseguiremos encontrar a solução que nunca vimos, pois a passagem estava em um canto escuro da consciência que até então não tínhamos acesso ou acreditávamos incapazes de alcançar. Somente o amor concede a força e o equilíbrio necessários para a superação das inerentes dificuldades da vida. Do contrário, ao nos mantermos refratários ao amor, sucumbiremos em sofrimento até o dia sem fim. Fato comum na existência de muitas pessoas. Enquanto se alimentarem da própria dor, em dieta restritiva, nada aprenderão”.</p>



<p>Inteligente, Renê argumentou que aquela ideia não se aplicava em todos os casos. Em seguida, articulou: “O medo está na raiz de todas as sombras. Uma sensação destrutiva e limitante. A princípio, algo que necessite de erradicação. No entanto, o medo pode ter utilidade ao nos salvar de perigos e desastres”. O Velho fez não com a cabeça e mostrou outro viés de uma mesma ideia: “O medo enfraquece e desequilibra. Nos convence que jamais conseguiremos. Ele limita, coage e oprime. O que nos salva dos perigos e dos desastres é o conhecimento, a sensatez, a percepção apurada, a sensibilidade refinada, a precaução e também a coragem. Estas virtudes nos lembra que precisamos ter cuidado, atenção, avaliar a hora de ir, o momento de ficar; porém, nos avisa que não podemos ficar estagnados. Tampouco fugir da vida ao se negar aos riscos de encontrar o desconhecido, indispensável à expansão da vida. Sob a desculpa de dias tranquilos, o medo aconselha a nos esconder de quem somos. O medo apavora, diz que nos daremos mal e grita para nunca irmos, pois, muitos já quebraram a cara. Enfim, uma cruel prisão erguida sob os pilares de criações mentais equivocadas. Para evoluir, o medo necessita de desconstrução, como um prédio que, além de ocupar muito espaço, nunca será um bom lugar para se morar. O medo nos apequena, pouco a pouco, até nos anular por completo”.&nbsp;</p>



<p>Em seguida, levantou uma questão retórica citando o sábio Zalu, em suas consagradas e desconfortáveis perguntas: “Nunca tentar é melhor que errar?”. Sem evitar o dilema, ofereceu o seu olhar: “Não há perigo maior do que uma vida desperdiçada por falta de tentativas. Não existe risco maior do que se negar a aprender com os próprios erros; mestres por excelência, desde que bem aproveitados. O medo é a rota de todas as fugas”. Fez um gesto com a mão para marcar a conclusão do raciocínio e disse: “Onde há medo não existe um Caminho”.</p>



<p>O jovem monge não parecia disposto a desistir dos seus argumentos e ponderou: “O medo é fundamental a sobrevivência da humanidade. Sem ele, seríamos uma espécie em extinção”. O Velho tentou demonstrar o equívoco daquela ideia: “Em verdade, o amor é fundamental à vida. Posso viver sem medo, jamais sem amor”.&nbsp;</p>



<p>No final da tarde, ao lado do Marcel, outro monge da Ordem, embalados por canecas de café, conversávamos na agradável varanda do mosteiro. Falávamos sobre a palestra, assim como ao acréscimo da ideia oferecida pelo Velho durante o almoço, quando ele surge à procura do Marcel. Trazia uma boa notícia. Uma prestigiada universidade francesa, de acesso restrito, tinha aceitado a inscrição do seu filho. Emocionado, Marcel revelou ter muito orgulho do rapaz. O Velho estava disposto a mostrar a aplicabilidade do tema da palestra em nosso cotidiano: “Você acredita que o seu filho está acima da média dos demais jovens da idade dele?”. Marcel fez não com uma das mãos e esclareceu que não quisera dizer que o filho era melhor que os demais rapazes.&nbsp;&nbsp;Disse que se alegrava pelo fato dele ser dedicado, estudioso e atencioso. Além de possuir um bom coração. Porém, nada que qualquer jovem também não pudesse se tornar, caso estivesse disposto. O bom monge instou o raciocínio do Marcel: “Então você fala de alegria, satisfação e até mesmo da sua autoestima em razão de ter participado da educação dele”. Fez uma pausa para acrescentar: “Orgulho é uma sombra que nos convence de absurda superioridade moral, intelectual ou social, cujo objetivo é esconder as fraquezas que não admitimos confessar. Enfim, acreditar que somos melhores do que os outros para evitar lidar com as dificuldades que não queremos enfrentar”.</p>



<p>Esclareceu: “Quando uma mesma palavra possuí significados opostos, revela que criamos uma rota de fuga na tentativa de evitar o inevitável confronto. Aquele que todos um dia terão com a própria verdade”.</p>



<p>O Velho explicou o motivo de insistir na ideia desenvolvida na palestra: “O sentido da vida é a evolução. O mundo melhora a partir do aperfeiçoamento individual. Não há outro jeito”. Olhou para as montanhas por breves instantes, como se buscasse inspiração, e prosseguiu: “Contudo, evoluir exige esforço. Dá muito trabalho desconstruir as imperfeições para abrir espaço onde um novo indivíduo irá se erguer. A mente humana é pródiga em encontrar atalhos sinuosos na tentativa de encurtar o longo, porém indispensável, caminho. Assim como o medo, o orgulho é uma das sombras que mais sofrimentos causa, seja pelo desequilíbrio que alimenta, seja pela fragilidade do poder&nbsp;&nbsp;que não existe. Desmanchar o orgulho com a luz da humildade é um dos trabalhos mais difíceis e necessários em nossa jornada às Terras Altas. Não raro, são necessários séculos de lutas para que a vitória se estabeleça dentro de si mesmo, o mais valioso dos campos de batalhas”.</p>



<p>Ele continuou: “Como disse, os atalhos surgem na tentativa de fugir das tarefas árduas. Aparentemente, fica mais fácil criar novos significados para as sombras ao invés de enfrentá-las uma a uma. Como em um show de ilusionismo, ao estalar dos dedos do mágico, surge a inveja boa de dentro da cartola, a vantagem em sentir medo vem de dentro da manga, o orgulho bom é tirado do bolso da casaca. Meros truques de salão”.&nbsp;</p>



<p>Fez um gesto com o dedo para lembrar: “Apenas para ficarmos nos exemplos citados hoje. Temos por costume fazer o mesmo com as demais sombras”. Franziu as sobrancelhas e alertou: “Então, ao sentirmos inveja, medo ou orgulho, atribuímos as emoções que nos atrasam a caminhada como sendo movidas por bons motivos. Em nós, tais sombras são do bem. Maus são os outros”. Tornou a olhar para as montanhas por instantes; depois, se virou para acrescentar: “Engana-se quem acredita que conseguirá evoluir sem enfrentar a si mesmo. Quando, ao invés de evoluir o indivíduo ressignifica o mal, se utiliza de truque que, embora conceda um ganho de superfície, instantâneo e aparente, traz uma perda profunda, prolongada e verdadeira. Não há engano maior. Fechar os olhos faz o mal desaparecer. Desaparecer não significa deixar de existir”.&nbsp;</p>



<p>Até ali eu era um expectador privilegiado daquele aprendizado. Decidi entrar em cena. Usei o dicionário como argumento. Ao procurar a palavra orgulho, o significado principal era&nbsp;<em>sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra</em>. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso, como se já esperasse por isso e quis saber se havia outra definição para a palavra. Nada mais, ao menos no dicionário que eu usava como aplicativo no celular. O bom monge balançou a cabeça e disse com um tom sereno de voz: “Vejam o que fizemos conosco. Misturamos orgulho com autoestima, confundimos orgulho com honra e não mais o diferenciamos da alegria. Nenhuma linha sobre os malefícios da soberba, arrogância e prepotência que tal sombra provoca. O insalubre comportamento de pretensa superioridade foi apagado dos nossos dias, não por conquista luminosa, mas por astúcia abusiva. Como se tivesse deixado de existir. Sem demora, haverá o ódio do bem, o mau será bom e o mal será figura de ficção. Ao inexistir distinção entre a palha e o trigo, não haverá razão para se reclamar do gosto azedo do pão. Tornaremo-nos perfeitos sem precisar esculpir a obra inacabada. Para tanto, bastará ressignificar todo o mal”.&nbsp;</p>



<p>Calei-me. Não houve mais palavra. O Velho pediu licença e se foi. A sós com o Marcel, admitimos que teríamos de prestar atenção, senão seríamos pegos nas armadilhas dos raciocínios tortuosos, que nos enganam sobre quem somos. No dia seguinte, enquanto aguardávamos a continuação da palestra, um dos monges nos mostrava no celular um vídeo de curta duração, uma coletânea de cenas filmadas ao acaso, onde ocorriam tombos desastrosos. As famosas vídeo-cassetadas. Ríamos à vontade quando o Velho entrou. Ele nada disse. Ao iniciar, quis saber o que pensávamos sobre as pessoas sádicas. De imediato, todos repudiaram tal comportamento. Sentir prazer no sofrimento dos outros era algo repulsivo, afirmamos sem qualquer dúvida. Ele fez uma pergunta simples: “Do que vocês riam?”.</p>



<p>Desconcertados, argumentamos que não se tratava de sadismo, mas de situações engraçadas. Apenas isto. Não fazíamos por mal, ponderamos. O Velho disse: “A maioria de nós jamais fará o mal por desejo. Fazemos por desconhecer o autêntico significado do bem”.&nbsp;</p>



<p>Sem que precisasse acrescentar palavra, nos demos conta de que ainda éramos capazes de dar gargalhadas com as quedas alheias. Qual personagem mitológico traz em si tal hábito? O silêncio que veio em seguida era de arrependimento. Ao contrário do remorso, uma triste prisão emocional, o arrependimento se caracteriza pela consciência do equívoco e a vontade da transformação. Um genuíno movimento de luz. Naquele instante, como se o silêncio falasse, cada um consigo mesmo, assumimos o compromisso em nos desvencilhar da armadilha que até então não tínhamos percebido, mas ainda nos amarrava. Em seguida, o Velho deu continuidade a palestra do dia anterior, sobre evolução, com a seguinte frase: “Evoluir é também encontrar os significados perdidos. Das pessoas, coisas e palavras”.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>Na sua fraqueza se esconde a sua força</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jul 2021 10:47:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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					<description><![CDATA[Sinto-me muito bem nas montanhas do Arizona. Talvez por todas as oportunidades de aprendizado que tive com Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a filosofia ancestral do seu povo através das palavras e da música. Sentir-se bem nem sempre significa estar confortável. Tentarei explicar. Sentado na...]]></description>
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<p>Sinto-me muito bem nas montanhas do Arizona. Talvez por todas as oportunidades de aprendizado que tive com Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a filosofia ancestral do seu povo através das palavras e da música. Sentir-se bem nem sempre significa estar confortável. Tentarei explicar. Sentado na cadeira de balanço, na varanda da sua casa, ele baforava o indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, enquanto ouvia os meus lamentos. Eu não queria mais me irritar, tampouco me magoar, com o comportamento de outras pessoas. Nenhum poder tenho, nem quero ter, sobre ninguém. Que cada um fosse do jeito que quisesse, a mim bastaria fazer as escolhas concernentes à minha vida e seguir em frente. O Caminho é personalíssimo; a jornada é intransferível. Contudo, apesar de saber, eu não conseguia. Todas as vezes que alguma contrariedade acontecia, eu me via dominado pela irritação ou pelo ressentimento; então, a minha luz arrefecia. A irritação e o ressentimento são subtipos do ódio. Enquanto nossas sombras não estiverem devidamente pacificadas, sempre haverá o risco de um transbordamento todas as vezes que forem provocadas por algum acontecimento. Sob o falso argumento de que elas servem para nos proteger, ficamos vulneráveis e suscetíveis a entrar em faixas vibratórias densas em razão do desequilíbrio que provocam. Ficamos muito mal. Quando ainda imaturo, o ego precisa de aceitação e reverência, mesmo que disfarçadas por nomenclaturas diversas e raciocínios tortuosos. Eu também sabia de tudo isso. E não mais queria, pois, enquanto estivessem presentes, significaria que eu ainda não me tornara senhor de mim. Portanto, nada possuía.&nbsp;</p>



<span id="more-3804"></span>



<p>Todos os dias, em breves cerimoniais matinais, eu assumia o compromisso de superar essas dificuldades. As oportunidades me eram oferecidas, mas eu sucumbia diante de situações que me levavam a constantes desequilíbrios emocionais, manifestados em irritação e mágoa. Embora não mais brigasse com os outros, restava um gosto amargo no meu coração. Confessei que estava preste a desistir dessa conquista. O xamã disse sim com a cabeça e aconselhou em tom de murmuro: “Faça isso”.&nbsp;</p>



<p>Surpreendido, falei que não esperava aquela resposta. Ele retrucou: “Se veio ouvir a orientação que já conhecia, a viagem até Sedona foi somente um passeio e esta conversa se mostrará desnecessária”. Argumentei que viajara em busca de ajuda para transformar em mim algo que já entendia, mas não conseguia modificar. Se eu compreendesse o motivo, talvez conseguisse fazer diferente e me tornaria um indivíduo melhor. Canção Estrelada tentou explicar: “Você entende, porém, não aceita”.&nbsp;</p>



<p>Não fazia sentido. Estava claro que eu entendia que a irritação e a mágoa me enfraqueciam por apagar a minha luz. Sentia-me envolvido em enorme mal-estar quando acontecia. Eu não queria mais esta sensação em meus dias. Assim, me parecia óbvio que eu não tinha qualquer problema em aceitar a minha dificuldade. Canção Estrelada estava errado.</p>



<p>O xamã baforou o cachimbo e disse: “Você ainda tem dificuldade em aceitar aquele a quem irá se tornar”. Como não aceito aquilo que quero? Nada mais absurdo, ponderei. Continuava sem fazer nenhum sentido o seu raciocínio. Disse isto ao meu amigo. Ele arqueou as sobrancelhas e falou com a sua voz rouca, em timbre de encantadora serenidade, típica de quem louva tanto o inverno quanto a primavera com a mesma alegria: “Por ora, é tudo que tenho”.</p>



<p>Contive a frustação de uma viagem desperdiçada. Canção Estrelada não poderia me ajudar daquela vez. Não, eu não estava irritado. A emoção corrosiva e incômoda pela qual fui tomado era apenas uma decepção em razão de razões que eu próprio desconhecia. Ao menos, assim justificava para mim a irritação que eu sentia, com todas as desculpas que costumamos nos permitir. São as insistentes trilhas sinuosas dos infinitos enganos.&nbsp;</p>



<p>O breve silêncio foi interrompido por Nuslu, um simpático rapaz, vizinho do xamã. Como o nome sugeria, era grande e forte como um urso. Os cabelos negros e compridos emolduravam o rosto com os belos traços da etnia Navajo. Bastante inteligente, tinha um temperamento manso e meigo, embora nem sempre tivesse sido assim. Tornara-se uma pessoa simpática e agradável de conviver. Avisou que iria a Flagstaff, uma cidade com maiores recursos, a cerca de uma hora de Sedona. Queria saber se precisávamos de algo. Além de um lindo passeio, seria uma maneira de interromper o constrangimento que a conversa com Canção Estrelada me causara. Perguntei se poderia ir junto. Nuslu sorriu e fez um gesto com a mão para eu acompanhá-lo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Após as compras, o rapaz sugeriu que fôssemos tomar uma cerveja no bairro histórico da cidade, por onde passa a lendária Rota 66, emblemática para os movimentos culturais dos anos 1960. Enquanto ele manobrava para estacionar o carro, um motociclista se adiantou para ocupar a mesma vaga. Nuslu freou para evitar um acidente. A motocicleta ficou com a vaga. Um abuso, exclamei irritado. Ele se limitou a sorrir e estacionou mais adiante. No bar, sentamo-nos nos bancos em frente ao balcão. Ao lado, não por acaso, estava o motociclista acompanhado da namorada. Nuslu tinha o dobro do seu tamanho. Conversávamos enquanto aguardávamos as cervejas. Quando o barman nos serviu, o motociclista apanhou os copos, sob alegação que aqueles eram dele. Nuslu fez um gesto para que ficasse à vontade. O funcionário do bar acompanhou o ocorrido e se apressou para nos servir. Com um movimento de cabeça, agradeceu a postura do meu amigo, evitando que uma confusão se formasse. Embora eu também não desejasse qualquer briga, fiquei irritado com a situação. Somente toquei no assunto no trajeto de volta a Sedona. Lembrei do comportamento do motociclista e comentei como seria fácil para Nuslu dar-lhe uma merecida surra. Sem tirar os olhos da estrada, o rapaz arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Não seria nem um pouco difícil, mas não seria eu o vencedor. Seriam os meus demônios. Hoje, eu os derrotei”.&nbsp;</p>



<p>Questionei se, mesmo sem reagir de modo agressivo, ele não se irritou com o motociclista. Nuslu explicou: “Se eu o olhasse como um adversário, seria tomado por ódio. Aprendi a aceitar essas pessoas como mestres involuntários. Embora não saibam, são. Eles são fundamentais para que eu me torne uma pessoa melhor. Ao instigarem as minhas sombras, surge a necessidade de iluminá-las para que não me dominem. Isto me leva a intensificar a minha própria luz. Assim, a cada dificuldade oferecida, me torno mais forte e equilibrado. Então, os agradeço pela maravilhosa oportunidade de superação oferecida”.&nbsp;</p>



<p>Apesar de me encantar com o seu comportamento, expliquei que no bairro carioca no qual fora criado, aquele comportamento seria classificado como covardia. Nuslu ficaria desmoralizado e mal falado. O jovem argumentou: “Não são os outros que estabelecem o meu padrão moral, tampouco as verdades que me orientam. Se deixar que façam isto, permito que definam quem eu sou. Não posso impedir que pensem ou que falem o que quiserem, mas posso impedir que as suas incompreensões e inadequações me dominem ou alcancem. O que me torna um homem livre não é a aprovação, concessão ou permissão de ninguém, mas a convicção e a coerência em me tornar quem quero ser”. Fez uma pausa antes de concluir: “Asas emprestadas não servem para voar”.</p>



<p>Chegamos em Sedona com a noite alta. Fui para o quarto. Foi uma noite movimentada por inúmeros pensamentos que, ora se abraçavam, ora se esbarravam. Eram diversas vozes. Somos muitos em um. Entender qual deles irá no guiar, define a alegria ou a amargura dos dias.&nbsp;</p>



<p>Na manhã seguinte, comentei com Canção Estrelada sobre o ocorrido no bar. Confessei estar encantado com o comportamento de Nuslu que, não apenas evitou uma confusão, como não se deixou abalar com a atitude do motociclista. Ressaltei que, apesar da provocação, não havia medo nos olhos do rapaz. Ao contrário, eram admiráveis a calma e a firmeza demonstradas. Ficara claro que recusar o confronto não era uma fuga, mas um caminho. O xamã disse: “Nuslu mostrou ser um bravo guerreiro ao se negar a entrar na vibração enfermiça e perturbadora para qual foi convidado. Assim, permaneceu dono de si e se manteve em seu eixo de luz. Outra bela vitória; uma nova consagração na mais importante de todas as conquistas”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Falei que conseguiria não brigar com o motociclista, mas admiti que ficaria bastante irritado com a situação. Aliás, eu tinha ficado. Essa era a minha dificuldade, não conseguia aplicar o conhecimento à prática. Isto distingue o selvagem do guerreiro, o erudito do sábio. Não aceitar o conflito externo era o passo primordial, o qual eu já galgara. Não me permitir o conflito interno, que também me arrancava da luz, por restar envolvido em irritação, frustração ou mágoa, eu ainda estava distante de conseguir. Era uma sincera confissão.</p>



<p>Canção Estrelada voltou ao tema: “Entender é fundamental, mas não basta. Enquanto você não aceitar, não haverá conquista”. Falei que já confessara a minha dificuldade. Ele explicou: “Não me refiro a aceitação da dificuldade. Sim, este passo foi dado. Falo da aceitação em quem você irá se tornar”.</p>



<p>Falei que não tinha entendido. O xamã explicou: “Aceitar a transformação significa se encantar com um estilo de vida bem diferente, fora dos padrões nos quais você está acostumado. Ainda mais, diverso daquele que causa admiração em muitas pessoas ao seu redor. De início, isso causa enorme desconforto. Você se transformará em alguém que até bem pouco tempo não teria nem mesmo a sua própria admiração e, ainda hoje, não está pronto para ser. Este é o muro que o impede de prosseguir”.</p>



<p>Canção Estrelada continuou: “Considerar algo interessante não significa que o queira para mim. Muitos apreciam a quietude e a solidão necessárias a um sábio; poucos a querem para si. A maioria prefere os holofotes do palco a ressaltar o talento, o aplauso das críticas para afagar a imaturidade, a reverência do público para ter a inebriante sensação de superioridade. Não me refiro especificamente aos atores de teatro e da televisão. Todos, sem exceção, de diferentes maneiras, temos os nossos palcos pessoais onde adoramos brilhar. Em casa, no trabalho, na igreja, na rua, na roda de amigos, não importa o lugar. Vale o show. As contrariedades representam o cancelamento do espetáculo. Em alguns casos, as vaias do público. Ou, ainda mais grave, em determinadas situações, significa que outros atores invadiram o palco para se apossar da cena. Como se dissessem para mim que sou ineficiente ou decadente; a partir dali o protagonismo é deles. Ao menos, esta é a leitura que fazemos quando essas situações ocorrem. A irritação, frustação ou mágoa somente se fazem presentes porque me estruturei em valores de extrema fragilidade por estarem fora da minha legítima esfera de controle. Tamanhos desequilíbrios levam a inevitáveis quedas. Em alguns casos, há pessoas que se anulam por longo tempo”.</p>



<p>Sim, se houver sinceridade, não há como contestar que comportamentos assim, em diferentes escalas, são comuns a todos nós. Indaguei qual seria a solução. O xamã respondeu: “Abdicar do palco”. Falei que havia algum tempo que eu não mais fazia questão de estar em evidência. Ele retrucou: “Verdadeiramente, ninguém abriu mão do espetáculo enquanto sentir falta dos aplausos e das reverências. Muitos admiram a humildade dos sábios, mas poucos querem a vida simples deles. Muitos sabem que o orgulho e a vaidade devem ser erradicados de suas personalidades, mas poucos estão dispostos a abandonar as vantagens e o brilho provenientes de tais sombras. Entendemos a causa do problema, estamos dispostos a encontrar a solução, mas não aceitamos nos desfazer de todos os fatores da equação. Enfim, queremos a força e o equilíbrio da humildade, da clareza e da leveza provenientes da simplicidade, mas não estamos dispostos a abrir mão de algumas sensações de poder e brilho provenientes do orgulho e da vaidade. As contrariedades nada mais são do que a repulsa às vaias que apareceram no lugar dos elogios que esperávamos. Abdicamos do palco, mas sentimos falta dos aplausos. Ao mesmo tempo que se deseja a cura, subsiste a paixão pelos prazeres que conduziram à enfermidade. Uma contradição escolhida, não há que se espantar por tantos conflitos, dentro e fora de si mesmo”.</p>



<p>Franziu as sobrancelhas e disse: “Quero a vida do mocinho sem deixar de ter as facilidades do bandido; quero a paz do monge sem deixar de me tornar dono do mundo. Enfim, isto significa entender, mas não aceitar. Ficamos no meio do caminho, nem lá nem cá; deixo de ser sem nada me tornar; não quero mais aquele, mas sinto falta dele. Minhas contradições me anulam, me enfraquecem e me desequilibram. Sofro”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Admiti que estava perdido. Eu não sabia qual movimento fazer para aceitar a transformação que já havia entendido necessária. Canção Estrelada me ajudou: “Na sua fraqueza se esconde a sua força”.&nbsp;</p>



<p>Fez uma pausa para que eu concatenasse aos poucos a ideia e acrescentou: “Apesar de não gostar das velhas roupas, você ainda as guarda”. Pedi para ele explicar melhor. Ele foi direto ao ponto: “Você abomina o orgulho, mas não consegue vestir o manto da humildade. Uma virtude que será impedida de se manifestar por falta de espaço em sua consciência, ainda ocupado pelos resquícios da equivocada equivalência dessa virtude com fraqueza, incapacidade, submissão e covardia. Por mais aguardada que seja, nenhum dos benefícios da transformação será possível enquanto o ciclo da renovação não se completar. Somente ao se sentir confortável nas roupas que sempre considerou como a vestimenta dos fracos, você conquistará a sua verdadeira força. O mais bravo dos guerreiros é aquele que não foge de si mesmo”.&nbsp;</p>



<p>Em seguida, concluiu: “Do contrário, restarão as contradições de quem fica no meio de dois caminhos. Você já descobriu o valor da humildade, mas ainda não conquistou o seu poder. Para tanto, terá de romper a casca que impede a essência dessa virtude germinar. Será necessário virar as suas fantasias pelo avesso para encontrar o pedaço que nunca aceitou. Não há como ser inteiro enquanto faltar um único fragmento. Acredite, a parte que incomoda é justamente aquela que se tornará o seu novo centro de força. A ausência da parte enfraquece o todo. Logo, o equilíbrio que falta está na parte rejeitada. Não tenha vergonha de se olhar no espelho da simplicidade. Admita as mentiras para conquistar a verdade. Tenha compaixão pelos seus enganos. Você merece o seu perdão. Todos merecemos. Ninguém precisa de personagens; sempre haverá beleza bastante em ser quem se é. Aceitar esta verdade permite a maior de todas transformações”.&nbsp;</p>



<p>Fiquei um tempo que não sei precisar sem dizer palavra. Canção Estrelada se levantou e disse que daria uma volta. Eu precisava de silêncio e quietude. Aos poucos, as ideias encontravam um lugar para morar em mim. Era como se eu abrisse as gavetas da consciência para substituir as roupas que não mais queria usar por outras mais adequadas a um novo estilo de vida. A alma se veste com ideias e sentimentos.&nbsp;</p>



<p>Se eu quisesse a força, o equilíbrio e a lucidez proporcionadas pela humildade, simplicidade e compaixão, não poderia mais me importar com o menosprezo com que muitas pessoas passariam a me olhar, com o desprezo por me considerarem fraco, perdido ou desequilibrado. Tampouco me deixar atingir com as reações adversas que, porventura, ainda que sem nenhuma intenção, o meu jeito de ser poderia lhes provocar. Eu sabia onde estava, aquilo que buscava e onde queria chegar. Eu sabia quem eu queria me tornar. Aceitar todas as consequências de uma escolha significa maturidade. Sem ela, todo caminho é incerto. A liberdade não se sustenta sem os pilares da própria verdade. Do contrário, mesmo que tenha algum brilho, jamais terei luz; serei alguém, nunca eu mesmo.</p>



<p>Quando Canção Estrelada retornou, comentei sobre as minhas reflexões e resoluções. Foi preciso esmiuçar a fraqueza para encontrar o esconderijo da força. A fonte do genuíno equilíbrio. Ao contrário do que muitos acreditam, o verdadeiro poder é de extrema leveza. Aceitar isto era a dificuldade que me impedia de prosseguir. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e retirou de dentro da bolsa de couro, que usava a tiracolo, uma pequena caixa. Era um presente. Havia um cachimbo com fornilho de pedra vermelha para mim. Perguntei a razão de, após tantos anos de amizade, somente então ele me presentear com aquele objeto ritualístico. O xamã explicou: “De acordo com a tradição dos meus ancestrais, não se entrega o cachimbo sagrado ao homem errado”. Questionei o que me tornava&nbsp;<em>o homem certo</em>. Ele finalizou a lição: “Aquele que ainda não aceitou a suavidade da força nada sabe sobre a luz. O poder não está na capacidade destruidora dos estilingues, mas na fantástica leveza das asas”.&nbsp;</p>
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		<title>A hora da decisão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jul 2021 11:07:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>O bule com café fresco foi colocado sobre o pesado balcão de madeira da pequena oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, que tinha o dom de costurar bolsas e ideias com uma mestria incomum. Eu voltava de um período de estudos no mosteiro, no qual aprendi que todo saber tem impensadas utilidades. A prática de um pedreiro na construção ensina que as frestas mal preenchidas de um alicerce, difíceis de perceber por estar abaixo do solo, pode surpreender ao causar o desabamento de um prédio de aparência sólida. Assim é comigo e contigo quando não estruturamos devidamente a argamassa da verdade e deixamos apagados os valores da luz na alma. O tempo certo para assar o pão não permite que fique cru nem que seja queimado. Em ambos os casos a massa restaria perdida. O mesmo ocorre com as suas e as minhas decisões, algumas angulares em nossas vidas, quando tomadas cedo ou tarde demais.&nbsp;</p>



<span id="more-3798"></span>



<p>Loureiro me ouvia sem dizer palavra, até que perguntei a sua opinião sobre a vontade que eu tinha de mudar o rumo dos meus negócios, uma decisão tão importante que traria grandes alterações na rotina dos meus dias. Como em qualquer escolha, havia expectativa de ganhos e riscos de perdas. Loureiro ponderou: “A minha opinião, assim como a de qualquer outra pessoa, não irá ajudar muito”. Eu quis saber a razão, ele explicou: “Se você quisesse se tornar um sapateiro, eu poderia detalhar sobre o ofício, alguns cuidados necessários para não incorrer em erros comuns a quem inicia em um negócio que desconhece. Porém, jamais poderia dizer se seria a decisão certa. O fato de eu amar o que faço não significa necessariamente um caminho a ser trilhado por você, tampouco se aquilo que considero um bom negócio seria interpretado da mesma maneira”. Deu de ombros e comentou: “Enfim, em certos momentos, por mais bem intencionada que seja a opinião dos amigos, de nenhuma valia terá. A razão é simples. Quando você precisa da certeza de outras pessoas para afastar as suas dúvidas, significa que a hora da decisão ainda não chegou”.</p>



<p>Em seguida, esclareceu: “Equivale dizer que você não está maduro para as inevitáveis consequências da mudança. Existem os questionamentos para se conhecer mais sobre o negócio, que são de muita valia. No entanto, há as perguntas para que alguém possa preencher os vazios da sua certeza; estas não terão nenhuma serventia. Por mais que eu queira ajudar, não conseguirei. Trata-se de algo que ninguém pode fazer por ninguém. Quando acredito que a convicção de alguém teve força para afastar a minha dúvida, significa que ainda não entendi o meu poder nem o compromisso que tenho comigo. Entregar o processo de construção das certezas é como decidir sem fazer escolhas; sem perceber deixo de viver as minhas próprias verdades para me conduzir pelas verdades alheias. Um engano que faz com que a minha vida escape do meu controle”. Bebeu um gole de café e vaticinou: “Se você estivesse pronto para a decisão, teria me comunicado; jamais perguntado a minha opinião”.&nbsp;</p>



<p>Argumentei que a opinião de um amigo, mormente de alguém que admiramos, pode nos mostrar vieses que nunca atentamos. Ele discordou: “Aparentemente, sim. Em profundidade, nem sempre. O ponto de vista de uma pessoa pode não representar o melhor entendimento da realidade, pois, não raro, traz a influência dos medos e frustações ou dos delírios e desejos, sem que haja qualquer má-fé por parte dela. Embora as intenções sejam boas, o resultado será vazio. Se a decisão não é impulsionada pela verdade estruturada nos meus princípios, valores, experiência e olhar, ela não será minha, mas da outra pessoa. Longe da minha verdade fico distante de quem sou e impossibilitado de me tornar quem posso ser. Quando sigo a rota que escolheram para mim, percorro uma estrada que não chegará a lugar nenhum”.</p>



<p>Loureiro se valeu das metáforas que eu havia oferecido: “Vidas assim são como prédios mal construídos, com evidentes erros de cálculos em seus alicerces. Não servem para abrigar a alma com segurança, mas usados no intuito de esconder as responsabilidades e compromisso evolutivos. Por serem erguidos sobre pilares das verdades que, em verdade, nada tem de verdade, assistimos a tantos desabamentos. Em alguns casos, como se leves tremores tivessem a fúria de terremotos”.&nbsp;</p>



<p>Fez uma pausa e prosseguiu: “As minhas decepções e amarguras podem impedir alguém de fazer um bom negócio; de outra face, as minhas irresponsabilidades e delírios talvez indiquem uma estrada que levará essa pessoa ao precipício. Tudo na melhor das intenções”. Franziu a sobrancelha, como fazia quando escalava o tom da seriedade, e afirmou: “Sua vida, suas verdades. Nenhuma outra cabe no lugar”.</p>



<p>Eu iria retrucar quando fomos interrompidos pela entrada de um dos sobrinhos do sapateiro. Miguel, como se chamava, era um homem bonito, de ombros largos, com cabelo e barba ruivos, olhos esverdeados que ofereciam uma interessante palheta de cores ao seu rosto. Com cerca de trinta anos de idade, era um profissional bem sucedido. Casara-se cedo, logo após se diplomar em Economia. Morava em uma movimentada metrópole a cerca de duas horas da pacata cidade onde residia a sua mãe e abrigava a oficina do sapateiro. Explicou que a esposa não o acompanhara daquela vez, pois ele tinha tirado uns dias de folga para reflexões. Confessou que estava infeliz no casamento. Pareciam dois estranhos em uma mesma casa. Acreditava ter chegado a hora da separação. Queria ouvir a opinião do tio. Sem nada dizer, me espantei pela sincronicidade.&nbsp;</p>



<p>Miguel disse que já tinha conversado com a esposa várias vezes sem qualquer melhora no relacionamento. Estavam em um beco sem saída; o jeito seria cada um ir para um lado, afirmou. Loureiro o fez pensar sobre as próprias palavras: “Se é um beco sem saída, não tem como cada para um ir para lado. Terão que retornar juntos por onde entraram”.</p>



<p>O sobrinho ficou um breve tempo em silêncio. Havia algo no raciocínio do tio que o desconcertara. Depois de se recompor, disse que talvez tivesse se expressado mal. Na realidade, estavam como na bifurcação de uma estrada. Não havia acordo para qual lado seguir. Melhor seria cada um seguir para uma direção, falou em tom de lamento. O sapateiro ponderou: “Isso não os impede de desejar o mesmo destino. Se quiserem chegar ao mesmo lugar, não há razão para seguirem separados, mas de escolherem uma rota que possa se adequar a ambos”. O sobrinho quis saber se o tio aconselhava que mantivesse o casamento. Loureiro explicou: “Não falei isso. Tampouco disse o contrário”.&nbsp;</p>



<p>Miguel abriu os braços como quem expressa nada ter entendido. O sapateiro esclareceu: “Uso as suas palavras para lhe mostrar o quanto está perdido. Ninguém encontra um rumo antes de encontrar consigo mesmo”. Miguel disse que este era o motivo pelo qual viera solicitar a opinião do tio. Loureiro o surpreendeu: “Não se ajuda quem está perdido mostrando uma direção para andar; sair do lugar não significa já possuir uma rota. Muitos caminham em círculos na ilusão de que o movimento os conduzirá para algum destino. Um engano muito comum”. O sobrinho quis saber se o tio iria ajudá-lo. O sapateiro explicou: “Posso mostrar um mapa para que entenda onde está. Nada mais. Encontrar-se é a preparação indispensável e anterior a qualquer decisão; escolher no mapa para que lado seguir, a fase seguinte. Em ambas as etapas será fundamental aprender a ouvir a voz da alma, o seu mais poderoso conselheiro, quem melhor conhece as suas verdades”.&nbsp;</p>



<p>Miguel argumentou que a separação era única solução. Estava insuportável morar na mesma casa e ter uma vida em comum com uma mulher que não mais reconhecia como esposa. Não aguentava mais viver assim. Seria a melhor decisão. Loureiro balançou a cabeça e disse: “Então, faça isso”. Depois de um breve silêncio, o sobrinho ponderou que os filhos ainda eram pequenos. Sofreriam bastante. Não suportaria causar tamanha dor àqueles que tanto amava. Talvez fosse mais aconselhável esperar que iniciassem a adolescência, quando saberiam lidar melhor com a ruptura. O sapateiro passou as mãos nos seus fartos cabelos brancos, como se os penteasse, e falou: “Então, faça isso”.</p>



<p>Irritado e confuso, Miguel disse não entender a razão de o tio se comportar daquela maneira. Loureiro tentou explicar: “Se você não sabe o que é melhor para a sua vida, ninguém poderá ajudá-lo. Posso ajudar a consertar as velas do barco, nunca decidir o destino da viagem da qual não sou comandante nem passageiro”.</p>



<p>Os olhos do Miguel procuraram pelos meus em busca de ajuda. Fiz um simples menear com a cabeça, o suficiente para ele entender que em nada eu poderia auxiliar. Naquele momento compreendi a minha própria situação. Quando não estamos firmes quanto a decisão que tomaremos, significa que a verdade ainda está crua para sustentar uma escolha. De outra face, se a deixarmos no formo por demasiado tempo, ela irá queimar, sem servir de alimento. A hora da decisão é disciplina obrigatória no colégio dos sábios.&nbsp;</p>



<p>Sem esconder a sua insatisfação, o sobrinho usou um tom visivelmente sarcástico para agradecer a conversa, girou nos calcanhares e foi embora. Sem trocarmos palavra, Loureiro e eu concordávamos que Miguel recebera a melhor ajuda. Um dia entenderia. Sugeri uma nova rodada de café fresco para iniciarmos outra prosa. Quando o sapateiro retornou com o bule, após encher as canecas, fomos surpreendidos pela chegada de Lorena, a sua filha caçula. A moça trazia uma inusitada e contagiante alegria no olhar. Após nos cumprimentar de maneira meiga, disse que precisava conversar com o pai. Falei que estava na hora de ir para estação, senão eu perderia o embarque. Com um sorriso travesso, ela disse que o trem ainda demoraria algumas horas. Apontou para o café ainda fumegante na caneca, como se dissesse para eu o saborear com calma. Passou para o outro lado do pesado balcão de madeira, se sentou ao lado do pai e contou que tinha pedido demissão do emprego. Desde que se formara como programadora de softwares, Lorena trabalhara como contratada para dar suporte a um conhecido site especializado em vender artigos femininos de diversas marcas famosas. Um emprego estável e com ótimo salário.&nbsp;</p>



<p>A moça disse ao pai que aprendera bastante, juntara algum dinheiro e que chegara a hora de seguir por outro caminho para manter o sentido que traçara para a sua vida. Loureiro arqueou os lábios em leve sorriso. A filha indagou o motivo do sorriso. O pai explicou: “Sim, é verdade. Como em uma viagem de longa distância, na qual temos de fazer muitas conexões para chegar ao destino, durante a jornada existencial temos de mudar a rota várias vezes para não sairmos do rumo. Poucos aceitam que o destino se apresenta e se modifica durante a viagem”.</p>



<p>Animada, Lorena explicou que montaria uma pequena empresa que, no início, funcionaria em seu próprio apartamento. Ao lado de uma amiga médica, criariam um aplicativo de celular que monitoraria, em tempo real, pacientes com graves problemas cardíacos. Através de um minúsculo chip implantado na pele próximo ao coração, por bluetooth, as informações seriam repassadas ao celular do paciente que, por sua vez, faria a transmissão dos dados ao telefone do cardiologista, emitindo um alerta na hipótese de o programa identificar alguma anomalia. O aplicativo seria vendido por um preço irrisório. Porém, como milhões de pessoas são acometidas por enfermidades do coração, acreditava se tratar de um bom negócio, tanto para elas quanto para os usuários do sistema.&nbsp;</p>



<p>Loureiro perguntou se a filha tinha certeza sobre a escolha que fazia. “Absoluta”, respondeu a moça com serenidade. Ele lembrou das dificuldades inerentes às mudanças de rotas, que embora levem a impensadas paisagens e conduzam a conquistas fundamentais, oferecem perigos desconhecidos. E fez um aviso: “Prepare-se para o improvável. Não há como evitá-lo. Tudo pode acontecer”. Percebi que as palavras de Loureiro não eram de desencorajamento, mas tinham o intuito de testar a força e o equilíbrio da jovem, indispensáveis para uma decisão tão angular. A filha disse não restar em si nenhuma dúvida. Havia firmeza e suavidade no tom da sua voz. Sim, ela estava pronta. Lorena perguntou se o pai tinha mais alguma coisa a acrescentar. Ele disse: “Continue no comando das suas escolhas. Isto lhe concede a magia da vida. No mais, nunca esqueça que sempre haverá alegria quando nos encantamos pelo lado bom de todos os problemas. Quem vive assim não conhece derrotas”. Eles se abraçaram com carinho. Ela sussurrou: “Muito obrigada, pai”. Vi um sorriso nos olhos do sapateiro quando respondeu à filha: “Estarei aqui sempre que precisar”.&nbsp;</p>



<p>Com os olhos marejados, Lorena se despediu e partiu para a aventura necessária à vida. Levava na bagagem o poder da verdade. Da sua verdade.</p>



<p>A sós com o sapateiro, comentei que apenas não estava pronto para a decisão que precisava tomar quanto à minha vida profissional, como tinha aprendido que era a firmeza nos meus fundamentos, constituídos pelos valores que eu acreditava, que me permitiriam a firme conexão com quem eu sou; além de fornecer a força e o equilíbrio necessários para ir além de onde sempre estive. Somente assim, eu conquistaria o exato ponto de maturação para a indispensável mutação. Então, poderia decidir. Do contrário, era hora de esperar. A ansiedade, uma evidente inadequação ao tempo, à vida e à verdade, debilita a razão, embaralha sentimentos e emoções, enfraquece a coragem e abre espaço para o desequilíbrio. De outra face, que eu me mantivesse atento, para não deixar que o medo me fizesse perder a hora da decisão.</p>



<p>Loureiro esvaziou a caneca de café e pontuou: “Cada decisão equivale a uma das conexões da Grande Viagem. Para que possamos manter o rumo ao destino, as rotas precisam de inúmeros ajustes, à medida que o entendimento e as necessidades se modificam. Compreender a hora da decisão equivale se tornar senhor de si mesmo”.</p>
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		<title>Criar a realidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jul 2021 10:38:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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					<description><![CDATA[Havia muito tempo que eu não visitava Li Tzu, o mestre taoísta. Na primeira oportunidade, viajei até a pequena vila chinesa na subida para o Himalaia. Quando desembarquei do ônibus, após deixar a mala na única estalagem do local, me dirigi à casa do meu amigo. Como os portões estavam...]]></description>
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<p>Havia muito tempo que eu não visitava Li Tzu, o mestre taoísta. Na primeira oportunidade, viajei até a pequena vila chinesa na subida para o Himalaia. Quando desembarquei do ônibus, após deixar a mala na única estalagem do local, me dirigi à casa do meu amigo. Como os portões estavam sempre abertos, entrei. O doce perfume oriundo do jardim de bonsais me deixou deliciado. Entrei na cozinha. Meia-noite, o gato negro que também morava lá, dormia em cima da geladeira. Olhou-me sonolento e tornou a fechar os olhos. Não havia mais ninguém. Antes de me sentar à mesa para esperar, ouvi o barulho de um carro estacionando na rua pacata. Escutei uma porta se abrir e se fechar. O carro foi embora. Passado alguns instantes, Li Tzu entrou. Mostrou-se alegre em me ver. Em seguida, colocou algumas ervas em infusão para o nosso chá. Enquanto esperávamos, ele disse que fora visitar um terreno não muito distante dali, onde se construiria um parque inspirado nos Jardins Suspensos da Babilônia que, segundo os raros relatos da época, eram de uma beleza incomum. Entre alamedas arborizadas, os canteiros seriam erguidos sobre pilares de pedra, sob os quais haveria bancos, mesas, além de outros canteiros, com diferentes flores e plantas, pois estes, ao contrário dos demais, seriam compostos por flora sensível ao sol. Retirou de dentro de um tubo a folha enorme do projeto e o abriu sobre a mesa da cozinha. Um espetáculo. Contou que o parque seria construído com a gentil colaboração de diversas pessoas.&nbsp;</p>



<span id="more-3793"></span>



<p>Ele estava animado: “É uma ideia antiga que começa a ganhar contornos de realidade. Conseguimos a doação de um terreno de generosas dimensões. O próximo passo será limpá-lo do mato alto, antes de iniciarmos a construção das alamedas de pedra. Faremos com muito cuidado, de maneira que todas as árvores sejam preservadas, algumas são mais antigas do que a vila e merecem destaque no parque. Não faria sentido arrancar árvores para se montar um jardim”. Depois comentou: “Esse foi o motivo que me fez ir hoje ao terreno. Um empresário de uma cidade próxima prometeu ceder o maquinário necessário para esse serviço”. Falei que tudo me parecia perfeito. Li Tzu esclareceu: “Sim, mas perfeito não significa sem dificuldades. Como são muitas árvores, o empresário propôs arrancar algumas para agilizar o serviço. Faria uso de tratores de grande porte que, por causa do tamanho, são incapazes de manobrar por entre o arvoredo. Se trabalharmos com máquinas menores, conseguiremos manter todas as árvores, porém, levaremos muito mais tempo. Algo que talvez inviabilize a ajuda do empresário. Ele não pode ceder máquinas, além dos funcionários para conduzi-las, por um período de tantos dias”. Em seguida me convidou para o acompanhar em uma reunião na qual conversariam com esse empresário. O intuito seria solucionar o impasse.&nbsp;</p>



<p>A reunião terminou tarde. Era noite alta quando deixei o mestre taoísta em casa antes de ir à estalagem. Tinha sido uma conversa desastrosa, a ponto de eu acreditar que o parque não mais sairia do papel. O empresário se mostrara irredutível. Se o povo da vila quisesse, a ajuda seria nos seus moldes; senão, teriam de encontrar outro jeito para erguer o parque. Aceitar a oferta do empresário parecia a maneira mais fácil, o que representaria arrancar a maioria das árvores para poupar tempo e viabilizar a ajuda. Instalou-se uma divisão entre o povo da vila. De um lado, havia os que entendiam que os fins justificam os meios; de outro, aqueles que queriam construir os Jardins Suspensos da Babilônia sem abdicar das centenárias árvores da região. Não houve acordo. Após o empresário retirar a oferta de ajuda, muitos se mostraram desanimados em prosseguir com o projeto. Acreditavam ser impossível preparar o terreno sem ajuda das eficientes máquinas modernas. Vi o desânimo imperar nos olhos de muitos. Li Tzu estava impassível. As suas feições permaneciam serenas. Ao me despedir dele, perguntei se estava chateado com a postura do empresário. O mestre taoísta disse: “De jeito nenhum. Cabe a ele decidir o que fazer com as suas máquinas. A mim resta a vontade para buscar, e a criatividade para encontrar, outra solução. Assim cada pessoa cria a realidade na qual vive. Ao próprio jeito e gosto”.&nbsp;</p>



<p>Questionei sobre as muitas pessoas que se mostraram desanimadas em prosseguir. Ele explicou: “Existe uma distância entre o saber e o viver. O agir é a nave que nos conduzirá de um ponto ao outro”.</p>



<p>Falei que entendia o desânimo geral. Não seria fácil resolver o problema do terreno. Lembrei que a maioria das pessoas envolvidas no projeto, além de terem os seus afazeres profissionais, já tinha idade avançada para se envolverem com tanta chateação. Talvez fosse acertado transferir o sonho do parque para as futuras gerações. Eles teriam mais tempo. O mestre taoísta me corrigiu: “Independente da idade, não me parece sensato abrir mão dos projetos que falam à alma”. E me deixou uma pergunta: “De que valem os dias quando não mais existir os sonhos?”.&nbsp;</p>



<p>No dia seguinte, logo cedo, retornei à casa de Li Tzu. Encontrei-o na prática matutina da yoga. Em seguida, o acompanhei na breve meditação, pois logo haveria aula sobre o Tao Te Ching. O mestre taoísta estava com a sua alegria serena e discreto bom humor habituais. Pensei que tivesse abandonado a ideia dos Jardins Suspensos da Babilônia no sopé do Himalaia. Sonho doido, me diverti ao pensar, sem nada dizer. Fui surpreendido, enquanto tomávamos uma xícara de chá antes de se iniciar a aula, quando ele comentou sobre a área reservada aos bonsais que haveria no parque. Ainda naquele dia, plantaria mais algumas mudas para essa finalidade. Entendi que ele não tinha desistido. Estranhei, mas não falei palavra.</p>



<p>Naquela manhã, a aula seria para decodificar o poema cinquenta e um do Tao Te Ching. A sala estava repleta de alunos oriundos dos mais diversos cantos do planeta, em uma demonstração do crescente interesse que a obra milenar de Lao Tsé despertava no público contemporâneo. Li Tzu iniciou a explicação dos versos: “Não somos aquilo que pensamos. Sem negar a importância das ideias, assim como dos sentimentos e emoções que, ora as impulsionam, ora as cerceiam, são as nossas atitudes que nos traduzem. Elas narram a história de cada indivíduo. Tudo mais são meras elucubrações e discursos vazios. Por estarem distantes da verdade que acreditamos, mas não conseguimos viver, representam os nossos enganos”.&nbsp;</p>



<p>Fez uma pausa antes de prosseguir: “A ação constrói a verdade pessoal. Somente o agir modifica a realidade. Nada mais. Sem ação, a realidade me consome. Na ação, a realidade me fortalece. Sem ação, a ideia genial não passará de semente improdutiva, o amor ficará restrito à poesia e os lábios jamais se tocarão em beijos. A vida é mais; ela exige movimento”. Franziu as sobrancelhas e aumentou o tom da seriedade: “A ação é a perfeita medida da verdade madura que existe em mim. De outra face, revela também parte da verdade que ainda não tem força para transformar a realidade. A ação mostra o exato ponto onde estou. Apenas o agir me levará além de onde sempre estive”.&nbsp;</p>



<p>Li Tzu fez uma ressalva: “Lembrem que no indispensável equilíbrio do movimento, no qual o Yang é a expansão, a ação no mundo, existe também a necessidade da quietude e do silêncio, o agir no espírito, através da meditação, oração, reflexão e estudos; o movimento Yin de contração. Elaborar mais para laborar melhor”.</p>



<p>O mestre taoísta continuou: “A ação precisa de aperfeiçoamento, do contrário, acabará se tornando uma ação empobrecida, incapaz gerar movimento de avanço. Agir sem se aperfeiçoar é andar em círculos. Quem vive assim não vai a lugar nenhum”. Fez um gesto com a mão e disse: “O Tao, ou seja, o Caminho, é gerado através do entendimento. Entre o entendimento intrínseco e a ação extrínseca, existe a vontade; a alma da criação e da criatividade. Trata-se da força que transforma o saber em realidade através da ação. O conhecimento mostra as portas; a vontade impulsiona; a ação nos faz atravessá-las. Esta é a equação do Caminho; a sagrada trindade do movimento. Somos os seus viajantes; há mil maneiras possíveis para viver a jornada. O jeito como andamos faz toda a diferença. Define o passo e o compasso, o ritmo e o rumo. Aperfeiçoar o caminhar é a parte que cabe na arte de viajar. Ela transforma o viajante. Isso se faz através das virtudes. Não há outro método”.&nbsp;</p>



<p>Abriu os braços como quem soluciona a equação e esclareceu: “A humildade, a simplicidade e a compaixão oferecem a lucidez. A alegria, a delicadeza, a generosidade e a misericórdia me permitem, a todo instante, viver pelo viés do amor. A sinceridade, a honestidade, a firmeza e a justiça trazem a incomensurável força da verdade. O perdão, a mansidão e a pureza oferecem o maravilhoso equilíbrio da serenidade. Na Fé, consigo levar a minha alma ao coração do mundo e, assim, alcanço a unidade com a Luz quando a movimento através de mim. Ao fazer com que as virtudes se façam presentes em cada uma das ações, o viajante se encanta com viagem. Dentro e fora de si mesmo”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Foi uma aula maravilhosa. Havia uma mensagem subliminar que necessitava de maiores reflexões. Como fazia parte dos meus planos, eu ficaria ausente por três semanas. Naqueles dias aconteceriam eventos literários em Pequim e Xangai. Aproveitaria para alocar aquelas novas ideias. Ao término, eu retornaria à vila chinesa para conhecer mais um pouco sobre o Tao Te Ching. Assim foi feito.&nbsp;</p>



<p>Na volta, soube que mudanças significativas tinham acontecido quanto ao parque. A dona da estalagem me sugeriu visitar o local onde seria construído. Avisou que Li Tzu estaria lá. Ao chegar, fui tomado pelo espanto. O terreno estava limpo, as árvores preservadas e um caminhão deixava a remessa inicial de pedras para começarem a erguer as alamedas. Perguntei ao mestre taoísta como tinham conseguido preparar o terreno do modo como planejaram, sem a perda das árvores. Ele apontou para um canto onde estavam enxadas, pás, ancinhos, entre outras ferramentas para capinar. Com instrumentos rudimentares eles tinham realizado o mesmo trabalho de máquinas modernas. Com um sorriso, Li Tzu explicou: “Poderíamos ter nos corroído em lamentos diante das dificuldades; poderíamos ter aceitado condições que nos levaria a perder a identificação com o parque dos sonhos. A vontade é a conexão entre o saber e o ser. Ela desmancha os problemas e desconstrói os empecilhos. Ela nos faz seguir em frente sem que nada nem ninguém nos impeça. Levamos três semanas para fazer com as mãos o que os tratores fariam em três dias. Fomos poucos, mas o suficiente. Não foi fácil, mas se tornou maravilhoso. Fizemos ao nosso jeito, tempo e verdade. Criamos a realidade”.</p>



<p>Em seguida acrescentou: “Depois de pronto, muitos virão ao Jardim Suspenso da Babilônia. Elogiarão a beleza das flores, as cores das plantas, a arquitetura das alamedas, os pilares de pedra, as árvores seculares de troncos robustos e copas largas. Embora se torne uma atração à parte para quem visitar o Himalaia, algo invisível encantará o coração dos visitantes, sem que a maioria consiga identificar o motivo”. Fez uma pausa e explicou: “A história da construção moldará a alma do parque. A olhos distraídos, erguemos um lindo parque. A olhos atentos, criamos uma fantástica realidade. Assim também é contigo e comigo”. Então, concluiu: “Entender essa diferença dá acesso à magia da vida”.</p>



<p>Não falei palavra. Apenas observava. Mais tarde, me aproximei do mestre taoísta para perguntar se o Tao Te Ching seria uma religião pelo alcance que permite a outras esferas existenciais. Ele disse não com a cabeça. Questionei se seria filosofia. Ele tornou a negar. Indaguei o que seria o Tao. Li Tzu ensinou: “O Caminho é uma viagem de aperfeiçoamento; por isto é sagrado. No entanto, aperfeiçoar-se é criar a realidade de encantamento da alma’. Em seguida, finalizou: “Tão e somente”.&nbsp;</p>
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		<title>A minha vida não tem solução</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jul 2021 10:13:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>“<em>Dai-me o pão de cada dia</em>, diz um dos versos da conhecida oração. Não apenas o alimento necessário à sobrevivência, porém, também o pão da transcendência, aquele que irá nutrir a alma. Precisamos de ambos. Contudo, nem sempre nos damos conta da refeição espiritual oferecida. Muitas vezes, mesmo diante de uma mesa farta, torcemos o nariz por falta de apetite. Diferente do pão que alimenta o corpo, degustar o pão da alma requer percepção, sensibilidade e, acima de tudo, vontade. Noutras, além dos atributos citados, também se faz necessário a valiosa criatividade, fundamental para que passemos a observar os acontecimentos por ótica diversa e, assim, fazer de um jeito nunca antes pensado. Do contrário, sem darmos conta das deliciosas iguarias que temos à disposição, seguiremos esfomeados. Modificar a maneira como vivemos é o único jeito de mudar a realidade. Como na matemática, esta é a equação da vida que nos conduzirá a solução de cada problema existencial. Seja qual for. Contudo, a essencial transformação espiritual, aquela que transformará a nossa maneira de ser e viver, exige muita vontade e dedicação. Ao contrário do pão do corpo, já pronto e disponível nas prateleiras dos mercados, bastando pegar, pagar e levar, o alimento do espírito costuma necessitar de uma cuidadosa preparação”, comentou Canção Estrelada, o xamã que tinha dom de perpetuar a filosofia ancestral do seu povo através das histórias e das músicas.</p>



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<p>Na varanda da sua casa, em Sedona, nas montanhas do Arizona, enquanto conversávamos, ele colocava fumo no fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo, embalado no vai e vem da cadeira de balanço. O xamã ilustrou: “Vejo as pessoas chegarem aqui em busca dos cerimoniais mágicos. Querem a transformação através dos fenômenos interdimensionais, do rufar dos tambores, das ervas purificadoras, das fogueiras transmutadoras, das cantigas ancestrais, das rezas secretas, mas poucos estão dispostos a fazer a parte que lhes cabe. Justamente a principal”. Esperou o fogo queimar o fumo, baforou algumas vezes antes de prosseguir: “Os rituais sagrados são preciosíssimos, seja pela harmonização da aura e sintonização com as faixas astrais mais sutis de existência, seja pelo refinamento da percepção e da sensibilidade indispensáveis à transformação pessoal, ou ainda, pelas palavras orientadoras oferecidas. No entanto, um cerimonial, assim como o mais poderoso dos livros, por si só, não muda ninguém. Serve apenas para sinalizar uma rota evolutiva. Cabe ao viajante das estrelas percorrê-la com os próprios pés. Não há outro jeito”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Franziu as sobrancelhas e disse: “A maioria deseja as mudanças por intermédio da facilidade instantânea dos milagres. Poucos estão dispostos ao longo, porém indispensável, esforço da transformação”. Deu de ombros e vaticinou: “Enquanto não houver movimento de elaboração interna, nada mudará”. A conversa foi interrompida pela chegada de uma das suas sobrinhas. Com ela, veio uma amiga, a jovem Mary, que precisava de ajuda para encontrar a saída do labirinto existencial no qual se sentia perdida. Com a sua gentileza habitual, Canção Estrelada pediu para que se sentassem e ficassem à vontade para falar. A moça confessou viver uma situação muito complicada. O seu casamento chegara ao fim. A relação estava insuportável. Nem tinham mais vontade de brigar, explicou. Conviviam como dois estranhos em uma mesma casa. Conversavam somente o indispensável, como as compras e as contas a serem pagas. Mesmo assim, com a menor quantidade de palavras possíveis. Uma atmosfera horrorosa, admitiu. Estava disposta a sair de casa. Ocorre que o seu salário não era suficiente para bancar um aluguel, além das outras despesas inerentes à sua manutenção pessoal. Enfim, não queria ficar nem tinha para onde ir. Já tentara empregos melhores sem que tivesse sucesso. Embora pudesse pedir acolhida temporária na casa de um parente ou amiga, não se sentia à vontade na casa de ninguém. Estava em labirinto existencial. Ainda mais grave, era um labirinto sem nenhuma porta. Não havia saída. Precisava do auxílio de outras esferas dimensionais. Por isto estava ali.</p>



<p>Com o olhar sereno e acolhedor, Canção Estrelada ouviu todos os lamentos sem dizer palavra. Quando a jovem, ao terminar de expor, acrescentou não haver solução para os seus problemas, o xamã continuou em silêncio. A sobrinha instou o tio a se pronunciar. Com a tranquilidade de sempre, típica daqueles que sabem que todas as tempestades não apenas passam, mas também servem para modificar a paisagem árida, se não aparente, mas na profundidade das raízes, ele baforou o cachimbo e comentou: “Se a jovem afirma não haver solução para a sua vida, nada me resta fazer”. Esperou que a fumaça se dissolvesse no ar antes de acrescentar: “Faz-se necessário acreditar que todo labirinto tem uma saída. Do contrário, será impossível encontrá-la”.</p>



<p>A sobrinha se mostrou indignada com a postura insensível do tio. Mary ficou com os olhos marejados e de declarou abandonada pela sorte. Disse não entender a razão de tanto infortúnio em sua vida. Tentei ajudar. Expliquei que ao acreditarmos que sempre existe uma solução para qualquer problema, estimulamos a criatividade, um atributo tão importante na arte quanto na vida. Citei um antigo sábio que ensinava a necessidade de desenhar uma porta onde até então existia somente um muro. Depois, criaremos a realidade para que ela se abra.</p>



<p>As moças disseram que as minhas palavras eram bonitas, porém, inúteis. Não se cria a realidade com poesia, disseram. Foi quando Canção Estrelada nos surpreendeu: “Vou ajudá-las. Estejam aqui amanhã cedo”. A sobrinha salientou que apenas a Mary precisava de auxílio. O xamã a corrigiu com uma mistura de doçura e firmeza em seu tom de voz: “Ambas necessitam. Assim será feito”. Satisfeitas, as jovens agradeceram, prometeram voltar no dia seguinte e se foram. A sós, questionei o que ocorrera para que mudasse a sua opinião e decidisse por ajudá-las. Ele esclareceu: “Nada mudou. Apenas as fiz entender a importância da esperança. Amanhã vou mostrar o valor da fé”. Falei que não tinha entendido. Canção Estrelada explicou: “Na ânsia de sair, muitos tentam abrir as portas do labirinto movendo-as para o lado de fora”. Tornou a baforar o cachimbo e concluiu de modo enigmático: “No labirinto da vida as portas se abrem para dentro. A saída está no âmago do próprio problema. Nunca fora dele. A vida forma sábios, jamais super-heróis”.</p>



<p>Não tive certeza se havia entendido o raciocínio. Esperava que no dia seguinte tudo se tornasse mais claro. Somente à noite, ao me deitar, me dei conta de um detalhe; era sexta-feira. Nas manhãs de sábado, dezenas de pessoas se reuniam sob a copa do carvalho que havia no quintal da casa do xamã para ouvir as lindas histórias que narravam a filosofia ancestral do seu povo. Um pequeno cerimonial sagrado que se tornara tradicional em Sedona. Era comum virem pessoas de cidades próximas, como Cottonwood, Jerome ou Flagstaff.&nbsp;</p>



<p>Logo cedo, eu ainda bebia a primeira caneca de café da manhã, quando as moças chegaram. Elas estavam bastante animadas com o ritual que participariam, no qual teriam acesso a portas até então inimagináveis. Delicado, Canção Estrelada as convidou a compartilhar do nosso desjejum. Elas aceitaram e se sentaram à mesa conosco. Como eu tinha refletido sobre a difícil situação da Mary antes de adormecer, aproveitei para sugerir algumas alternativas que pudessem servir de saída para os seus problemas. À medida que as expunha, eram rechaçadas de imediato. Uma após outra, as soluções pareciam contaminadas pelo fracasso ainda em sua semente. Nenhuma das ideias que propus teve chance de alçar nem mesmo um voo rasante. Como um franco atirador que tem na mira todos os pássaros possíveis, a jovem abatia as ideias assim que mostravam as asas. Todas as saídas estavam bloqueadas ou eram impossíveis de transpor. Esgotado, admiti que a vida da Mary não tinha solução. Em silêncio, Canção Estrelada apenas observava.</p>



<p>Foi quando as pessoas começaram a chegar para o cerimonial no quintal da casa. Espalhavam-se pelo gramado, aproveitando o sol do outono que acariciava o corpo e afugentava o frio da manhã. Havia uma atmosfera de alegria proporcionada por aqueles memoráveis encontros. No entanto, as jovens estranharam o movimento. Embora soubesse das tradicionais reuniões de sábado, a sobrinha acreditou que o tio cancelaria o encontro daquele dia para que realizassem um ritual sagrado no alto da montanha ou à beira do lago, como já participara de alguns. Canção Estrelada explicou que sagrado é tudo aquilo que abre a possibilidade para nos tornamos pessoas melhores: “Para tanto, vale mais o amor do que a liturgia”. Pediu para que as moças, ao se juntarem aos demais no quintal, o fizessem por inteiro: “Nada de vocês deve faltar ou transbordar. Do contrário, não terá serventia”. Em seguida, desfez a frustração que se avizinhava: “Magia é transformação. Se os seus corações estiverem presentes, haverá um lindo cerimonial mágico nesta manhã. Senão, somente ouvirão uma história. Nada mais”.&nbsp;</p>



<p>Após uma rápida troca de olhares, as jovens se dispuseram a participar integralmente do pequeno ritual. Sentado em uma poltrona debaixo do carvalho, Canção Estrelada rufou o seu tambor de duas faces. Uma suave cantiga em dialeto nativo serenou os ânimos e rogou por proteção aos guardiões responsáveis pela egrégora da casa. Em seguida, iniciou a narrativa: “Em uma época da qual não há registros, havia uma aldeia liderada por um xamã sábio, justo e amoroso. Como tinha o respeito e a admiração de todos, orientava sem obrigar ninguém a seguir os seus conselhos. A autodeterminação era respeitada como método educativo, cabendo a cada um se responsabilizar pelos efeitos dos seus atos. Mérito ou demérito tinham as consequências premiadoras ou reparadoras. Inexoravelmente. Embora fosse um período de fartura, tanto a caça quanto a colheita eram abundantes, intuiu que o inverno daquele ano seria bem rigoroso e mais prolongado do que o usual. Seriam dias difíceis. Pediu que se realizasse um mutirão para a construção de um grande celeiro, onde guardariam os grãos e outros alimentos. Sendo que as frutas deveriam antes passar por um processo de secagem e a carne seria defumada, evitando que estragassem durante o armazenamento. Contudo, ninguém deu importância ao pedido do xamã. Fosse porque tinham afazeres mais importantes e poderiam iniciar a construção no dia seguinte, pois ainda faltavam muitas luas para a chegada do inverno, fosse porque acreditavam não haver tanta necessidade em terem o celeiro. Um esforço desnecessário. Afinal, tinham vivido bem até então, indo buscar na floresta tudo aquilo que precisavam. Bastavam fazer o que sempre tinham feito. Nenhuma mudança se fazia necessária”.</p>



<p>Diante da plateia atenta, Canção Estrelada seguiu com a história: “Aquele inverno foi mais rigoroso do que nunca. Estendeu-se por uma maior quantidade de luas; a temperatura esteve tão baixa que fez a floresta ficar branca. Nas árvores, nenhuma folha. Tampouco, frutas. As sementes não encontravam calor para germinar. O solo estava congelado. Os animais sumiram. Os bravos guerreiros da tribo andavam por dias em busca de caça ou mesmo de uma fruta. Na volta, em seus alforjes havia somente desânimo e cansaço. A aldeia conheceu a fome. Como uma entidade tenebrosa, a fome é cruel e atormenta a todos. Surgiu o desequilíbrio, os conflitos se apresentaram. Os aldeões se acusavam mutuamente por passarem por aquele sofrimento. Cada pessoa tinha a sua justificativa para se escusar da responsabilidade por não terem erguido o celeiro. Por estar ocupada com outra importante atividade, não podia cuidar de todas as necessidades da aldeia; contudo, os outros poderiam ter colaborado na construção. Com variadas, porém insignificantes variações, era o argumento de todos”.</p>



<p>A narrativa prosseguiu: “Sem saber quando o inverno teria fim, se que é terminaria um dia, as discussões e brigas se avolumaram. Vários aldeões já duvidavam se haveria uma nova primavera. Desde crianças conheciam histórias muito antigas de longos períodos que a Mãe Terra permaneceu sob o gelo. Outros, acreditavam que os seus ciclos naquele local havia se encerrado; aquele inverno era um recado do Grande Criador para que fossem buscar a prosperidade em terras distantes. Agoniados e famintos, a maioria dos habitantes se mostrava disposta a partir. Escolheram representantes dessas famílias, formaram uma comissão, e foram comunicar a decisão ao xamã. O líder da aldeia os ouviu com enorme paciência. Depois, os lembrou que todos sempre foram livres para dirigirem a própria vida. Era um princípio inalienável que continuaria a orientar aquela tribo. Desejou que o Grande Criador os protegesse durante a peregrinação. Em seguida, perguntou para onde eles iriam. Disseram que seguiriam para o Norte. Alguém da própria comitiva lembrou das perigosas cordilheiras que se situavam nessa direção. Não conseguiriam passar enquanto o inverno perdurasse. Falaram de ir para o Sul. Outro dos aldeões os fez considerar quanto ao enorme rio que havia ali, com suas águas revoltas e redemoinhos traiçoeiros, capaz de sugar uma charrete com muitos cavalos num piscar de olhos. Ponderaram ir para o Leste. Uma ideia logo descartada, pois teriam de atravessar um longo e insalubre deserto. Ninguém sobreviveria. Restava o Oeste. Uma direção impossível por terem de atravessar o território de tribos extremamente selvagens e hostis. Discutiram por longo tempo. Agressivos no início, resignados ao final. Não temos para onde ir, decretou um dos integrantes da comitiva”.</p>



<p>Canção Estrelada observou as pessoas sentadas no gramado por alguns instantes e continuou: “O líder da aldeia os fez recordar:&nbsp;<em>Quando não sei para onde ir, não raro, significa que, apesar de eu estar insatisfeito, o meu coração quer ficar. Pois se a vontade de partir é sincera, os obstáculos serão vistos como desafios a serem superados. Na imaturidade da vontade, quando em verdade se trata de uma fuga, nunca de um caminho, os obstáculos se mostrarão como empecilhos intransponíveis</em>”. Um dos aldeões perguntou ao xamã qual a diferença entre uma fuga e um caminho. Ele respondeu: “<em>O trato sincero com a própria verdade. Então, a vontade se mostra madura, corajosa e equilibrada. Nada nem ninguém será capaz de me impedir de seguir em frente. Assim, no exercício efetivo das minhas escolhas revelo a verdade que há e também aquela que ainda não existe em mim. Tudo mais são apenas palavras sem o devido amadurecimento no solo fértil da verdade, seja por falta de tempo, seja por ineficácia da semente</em>”.</p>



<p>A história entrou no último capítulo. Canção Estrelada contou: “Um ancião, membro do Conselho de Sábios da aldeia e amigo pessoal do xamã, que conversava com ele quando a comitiva entrou, e tinha assistido à reunião, comentou que a ideia de ir embora da aldeia surgira após a fome. Não apenas a falta de alimento do corpo, mas mostrava também a desnutrição daquelas almas. Como tinham se esquivado da construção celeiro, fato que teria evitado aquela situação difícil, tentavam agora fugir da realidade que acabaram por construir. Eles eram o resultado das suas próprias equações. Enquanto não olhassem para si, não encontrariam nenhuma solução. Nem lugar serviria pela inadequação que não compreendiam”.&nbsp;</p>



<p>Canção Estrelada prosseguiu: “Um dos aldeões lembrou sobre os sinais enviados pelo Grande Criador e falou sobre o aviso de partir. O ancião explicou que as dificuldades que encontramos no mundo refletem as incompreensões sobre quem somos; estas incompreensões embaçam a leitura da vida. Daí, as dificuldades. Ele esclareceu:&nbsp;<em>Os dias se tornam mais complicados à medida que nos eximimos das responsabilidades de construção. Quando a vida parece não ter solução, revela que erramos na equação. Meramente mudar a equação na tentativa de encontrar a solução é um erro comum e vulgar. Para cada situação existe a exata equação. Tem a hora de mudar e o momento de refazer. Entenda a si mesmo para saber se tratar de substituição ou caso de reelaborar a equação.</em>Um dos aldeões quis saber qual era a opinião do ancião. Ele a ofereceu:&nbsp;<em>Nesse caso, refaçam a equação. A solução sempre se oculta dentro do problema; nunca fora dele. Enquanto justificarem os próprios erros nos erros dos outros, nenhuma porta se abrirá. Acolham amorosamente os seus equívocos e omissões. Aceitem-se com compaixão, humildade e simplicidade. Parem com as acusações recíprocas; elas são incapazes de indicar uma verdadeira saída. Por isto se enganam mutuamente e ficam sem direção. Usem o passado e os erros não como objetos de acusação, mas como fontes de sabedoria. Apoiem-se para compreender de qual maneira deverão fazer daqui por diante. Projetem, planejem, desenhem a porta que atravessarão. Que cada um se preocupe menos com que o outro deixou de realizar e se concentre mais naquilo que poderá fazer. Sem necessidade de qualquer discurso; use o bom exemplo para levar o faltoso a rever a própria postura. A suavidade da verdade traz a força, o poder e a magia para a construção da realidade. Façam e refaçam até encontrarem o melhor jeito. Na alegria de um dia qualquer, na distração das horas bem aproveitadas, se darão conta que a porta desenhada tomou forma e se tornou real. Ainda mais, ela seu abriu!”.&nbsp;</em></p>



<p>O ancião aproveitou para lembrar:&nbsp;<em>Mas tenham compromisso para que haja amor. Vida sem compromisso mostra um amor de superfície; nenhuma solução será alcançada. O desenho no muro se apagará. Não haverá porta para atravessar nem caminho para seguir</em>”.</p>



<p>Em seguida, Canção Estrelada finalizou a história: “A aldeia nunca esqueceu aquele inverno. Precisaram de união e esforço em uma intensidade nunca antes ousada. O celeiro construído na primavera seguinte se tornou o símbolo de evolução e prosperidade da tribo. Reza a lenda que nunca mais ficou vazio. Foram dias rigorosos que ensinaram a todos sobre a importância das exatas equações para as corretas soluções. Contudo, isso somente se mostrou possível quando passaram a se mover por amor. Assim, compreenderam que a porta do labirinto, aquela que nos levará à saída, está travada para fora para que seja aberta para dentro.&nbsp;<em>O que eu posso fazer?&nbsp;</em>Uma pergunta que, quando feita com sinceridade e coragem, torna a minha equação revolucionária.&nbsp;<em>O que os outros deixaram de fazer?&nbsp;</em>Uma indagação escapista que me impede de encontrar a solução de qualquer equação”.&nbsp;</p>



<p>E abriu os braços como fazia quando chegava ao fim de uma das suas histórias.</p>



<p>Aplausos emocionados. As pessoas sentadas no gramado sabiam como aquela singela história se encaixava em suas vidas. Cada qual com as suas peculiaridades. Mary tinha as faces banhadas em lágrimas. Foi a última a se levantar. Somente depois que todos se foram, ela se aproximou. Agradeceu muito. Disse saber que agora tinha um lugar para onde ir. Iria para casa. Tudo desmoronara porque o marido e ela, ao invés de cada um fazer o que poderia, passaram a esperar que o outro fizesse a sua parte antes. Nada de bom acontecia. Uma espiral descendente de incompreensão e inadequação mútua. Falou que o chamaria para uma conversa. Acreditava haver amor entre eles. Um amor que estava escondido atrás de muitas brigas. O convidaria a desenhar uma porta, por trás da qual encontrariam o amor esquecido. Entendeu que não achara lugar para ir porque o seu coração queria ficar. Havia um celeiro a ser construído em seu casamento, onde sempre haveria amor para os sustentar durante os invernos da existência. Igualmente emocionada, a sobrinha também agradeceu ao tio. Tinha compreendido as raízes de muitas das suas revoltas. Compreendera como fazer para solucionar os seus problemas dali por diante. Deram um beijo estalado nas bochechas do xamã e saíram saltitantes como duas meninas que descobriram que podiam tratar os próprios machucados. Tinham reconquistado a alegria e encontrado o poder da vida.</p>



<p>A sós com o meu velho amigo, comentei sobre a bela lição contida naquela história acerca do pão espiritual que nos é servido diariamente, mas que sem o devido preparo se torna impossível de ser apreciado. Seguiremos esfomeados. No entanto, me lembrei que ele havia dito que ensinaria as moças sobre esperança e fé. Disse que ele esquecera dessas questões em sua narrativa. Canção Estrelada fez não com a cabeça e esclareceu: “A esperança surge quando desenhamos uma porta na parede do labirinto. Ao entender que essa porta se abre para dentro, descobrimos a saída do labirinto e, pasmem, encontramos o mundo. Assim, a porta desenhada se torna realidade”. Fez uma pausa antes de concluir: “Este se movimento se chama fé”.&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>Areia movediça</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Jun 2021 21:10:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>O dia amanhecia quando entrei na cantina do mosteiro. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, já deixava que uma xícara de café embalasse os seus pensamentos, enquanto se deliciava com uma fatia de bolo de aveia. Ele sorriu ao me ver. A alegria serena e o constante bom humor eram seus companheiros inseparáveis. Apesar de ter assistido a diversas situações complicadas ocorridas no mosteiro, não me lembrava de nenhuma que tivesse sido capaz de arrancá-lo do eixo de luz no qual caminhava. Impressionava-me a sua força mansa e equilíbrio improvável diante das mais duras provocações. Era algo que eu admirava e desejava para mim. Contudo, eu ainda estava bastante distante. Enchi uma caneca com café e me sentei ao seu lado. Comentei que aquele ciclo de estudos transcorria maravilhosamente bem. As aulas se mostravam produtivas e todos pareciam satisfeitos com os aprendizados oferecidos. No entanto, havia um fato recente que me intrigava. Miguel, um jovem e culto monge, na faixa dos trinta anos de idade, havia algum tempo, chegara emocionalmente despedaçado no mosteiro. A sua bela esposa falecera poucos meses após ter sido acometida por uma enfermidade avassaladora. Ele estava inconsolável. Foi acolhido pelo Velho com carinho e paciência. Naqueles dias era comum, logo cedo, antes do início das atividades, ver os dois andando pelos roseirais do jardim interno do mosteiro. Miguel recebeu as orientações e o amor necessários para superar um momento de extrema dificuldade. Misericórdia é a virtude de oferecer o nosso melhor, seja em palavras, seja em atitudes, para atenuar o sofrimento de alguém. Uma linda maneira de amar. O Velho fez isto com uma dedicação incomum. Mais rápido do que eu acreditava, Miguel conseguiu cicatrizar a ferida dolorosa. Eu acompanhara e apreciara cada etapa daquela valiosa transformação.</p>



<span id="more-3785"></span>



<p>O que me intrigava não era a superação do Miguel, mas passado dois anos, ele havia conhecido outra moça, se apaixonado e casado. Não me causava estranheza o casamento, mas o fato de o Velho não ter sido convidado para a festa de celebração. Vários monges da Ordem estiveram presentes. Fiquei indignado justamente por restar esquecido aquele que mais se empenhou para tirá-lo do porão escuro, de onde chegou acreditar que nunca mais conseguiria sair. Incomodou-me a injustiça. No período de estudo seguinte, observei o Velho tratando-o com o mesmo carinho e atenção de sempre, como se não tivesse sido deixado de lado. Isto me intrigava. Confessei que eu jamais conseguiria. O bom monge franziu as sobrancelhas e disse em tom repleto de compaixão: “Ele deve ter motivos para isso”. Insisti que não era justo; pedi que ele me explicasse que motivos seriam esses. O Velho deu de ombros e argumentou: “Os motivos são dele, não meus. Embora eu desconheça quais são, não me cabe antever que eles não existam ou que sejam insuficientes. Ao contrário, cabe a mim respeitar as escolhas concernentes à vida do Miguel. Sua vida, suas escolhas. Um princípio filosófico que alicerça a dignidade e fundamenta a compaixão. Ao não aprisionar ninguém às minhas verdades e escolhas, eu me liberto por impedir qualquer dependência emocional, como dívida oriunda dos atos que pratiquei. No amor nunca haverá credores nem devedores. Esta ideia desconstrói sofrimentos”. Em seguida acrescentou: “Por isso os poetas cantam que o amor liberta”, e fez uma pergunta retórica: “Entendeu agora?”.&nbsp;</p>



<p>Depois, acrescentou: “Não me cabe gerenciar as escolhas de ninguém. Tenho apenas de cuidar para que o melhor de mim jamais me escape. Nada mais. Isto é libertador. Se não me esforçar para compreender as dificuldades alheias e acolher as inadequações com a necessária compaixão, passarei a existência acreditando que o mundo conspira contra mim. Será um sofrimento infantil, desnecessário e sem fim”. Falei que não era fácil agir desse modo. Ele explicou: “Não é fácil por causa do software pré-instalado em nosso inconsciente, denominado condicionamentos ancestrais, que nos faz acreditar que todas as nossas contrariedades, frustações e decepções existem porque sou uma pessoa boa em um mundo ruim. Sinto-me perseguido, sem lugar e constantemente desconfortável; os dias se fazem pesados. Faz-se necessário desmontar esse raciocínio limitante; do contrário, o sofrimento nunca cessará. Uma nova maneira de pensar, bastante simples, precisa ocupar o seu devido lugar”. Bebeu um gole de café e esclareceu: “Em verdade, sem exceção, caminhamos no tênue limite entre o bem e mal. Se reajo mal diante da maldade, também me torno um homem mau. Se a desonestidade de alguém me faz agir da mesma maneira, permito que o mundo estabeleça a linguagem que irei usar. Se me irrito ou entristeço por causa da ofensa ou da acusação que alguém me faz, deixo que o desequilíbrio dos outros me contagie e me faça sofrer. Não há sabedoria nisto. Se me envolvo em mágoa ou ressentimentos em razão da escolha de alguém, concedo aos outros o poder de decidir o veneno que me adoecerá e desperdiço a alegria indispensável à leveza dos dias. Não há amor nisto. Ao deixar que isso aconteça, abandono o melhor de mim; a minha luz se apaga. Torno-me uma pessoa amarga, ou ainda mais grave, um indivíduo que acredita que a maldade se faz indispensável em um mundo malvado. Fico aprisionado a uma ideia tola, estagnante e equivocada”. Fez uma pausa antes de acrescentar: “Essa maneira de pensar me parece tão nefasta que a denomino de&nbsp;<em>areia movediça</em>. Ao aceitá-la, ela terminará por me engolir”.</p>



<p>Bebeu um gole de café e mostrou outro viés: “Cabe a mim decidir quem serei e a maneira como viverei. A ninguém mais. Não posso justificar que reagi mal ou, ainda pior, me tornei agressivo ou triste porque alguém agiu errado comigo. Enquanto eu não conseguir ser quem quero me tornar me justificando nas influências externas danosas que recebo, significa que ainda não me tornei dono de mim. Quando reajo condicionado à ação dos outros, haverá mais do mundo e menos da minha essência em quem eu sou. Assim, dia após dia, sem me dar conta, me torno o avesso de quem quero ser”.&nbsp;</p>



<p>Mordeu um pedaço de bolo antes de prosseguir: “Ao agir mal por causa da maldade alheia, entrego o poder da minha vida nas mãos de pessoas desequilibradas ou mal-intencionadas. Afasto-me da luz, traio a minha consciência e contrario o meu coração. Enquanto as atitudes dos outros me servirem de desculpa para eu explicar as minhas escolhas equivocadas, não conseguirei avançar”. Sacudiu a cabeça e disse: “Preciso me livrar dos enganos. Mostrar-me bom perante àqueles que me fazem bem não exige nenhuma dificuldade. A virtude reside em me manter firme aos meus propósitos luminosos quando diante dos reveses da existência. As virtudes precisam orientar todas as minhas palavras, gestos e reações. Por serem a confluência do amor com a sabedoria, as virtudes precisam se firmar como a regra, e também servirem à exceção, de cada uma das minhas decisões. São valores fundamentais de construção da obra de si mesmo. Eis a pedra angular da evolução. Esta é a fronteira entre a infância e a maturidade da alma; entre a dor e a cura. Esse é o poder da luz nas minhas mãos”.</p>



<p>Esvaziou a xícara de café e revelou: “O segredo está em não deixar que o coração seja afetado pelas as inadequações do mundo. Lembre-se, o coração precisa estar leve para que as ideias sejam claras. Do contrário, ficaremos aquém quando poderíamos ir além. Não existirá nenhuma liberdade. Nada em você será seu”.</p>



<p>Aquele período de estudos tinha se encerrado com muitos aprendizados. Dentre tudo que havia sido ensinado naqueles dias, a conversa com o Velho na cantina tinha sido o que mais me impactou. Contudo, não somos aquilo que sabemos; somos aquilo que fazemos. O aprendizado é somente a primeira etapa de cada ciclo evolutivo. Depois, se faz necessário transmutar, compartilhar e seguir ao encontro de novas e infinitas transformações. Inexoravelmente.&nbsp;</p>



<p>Doze meses se passaram. Era o dia no qual os monges chegariam para um novo ciclo de conhecimento. Seriam quatro semanas de aulas, debates e reflexões. A cantina era ponto de encontro para as conversas informais. À medida que chegavam, os monges deixavam as malas nos quartos e iam rever os amigos. Iam também em busca de uma xícara de café acompanhada com um pedaço de bolo. A alegria era indescritível. Muitas histórias para contar, além das expectativas quanto aos aprendizados que seriam permitidos. No entanto, nem tudo são flores em um jardim. A erva daninha da amargura sufocava as minhas margaridas; as larvas da raiva devoravam os meus lírios. Explico. Uma prima muito próxima a uma das minhas filhas, contrariada com uma escolha que fiz, havia distorcido alguns fatos e os usara para que a minha filha ficasse magoada comigo. Isto criou entre pai e filha um atrito que nunca houvera, com ações e reações muito ruins. Tivemos um sério desentendimento; ela fora agressiva como nunca antes. Estávamos magoados um com o outro, a ponto de eu decidir que me afastaria dela por tempo indeterminado. Também não mais lhe prestaria qualquer ajuda financeira. Considerei uma ingratidão o seu comportamento diante do pai que eu acreditava ter sido por mais de trinta anos. Que ela seguisse a vida distante de mim e que terminasse o mestrado com os seus próprios esforços. Uma decisão irrevogável.&nbsp;</p>



<p>Sentado na última mesa, próximo à janela com vista para as montanhas, eu conversava com o Velho. Contei os fatos e falei da decisão que havia tomado. Argumentei que eu precisava ser justo comigo. O tempo mostraria a ela quem era quem. O bom monge me ouviu com a sua enorme paciência e indescritível compaixão sem me interromper. Quando terminei, ele fez menção em falar, mas se calou. Ele olhava atento para a porta da cantina. Todos os monges pararam as suas conversas. Ao me virar, entendi o silêncio. A entrada de Miguel foi impactante. O jovem monge estava emocionalmente destroçado. Mais uma vez. O motivo nos foi explicado. A sua mulher, com quem havia contraído núpcias recentemente, após o falecimento da sua primeira esposa, tinha sido fatalmente atingida em um acidente automobilístico. O Velho aguardou que todos os monges expressassem solidariedade, se levantou, abraçou o Miguel e, como a cena de um filme já visto, o levou para andar nas vielas repletas de roseiras do jardim interno do mosteiro.&nbsp;</p>



<p>Sempre tive o hábito de acordar muito cedo, com as estrelas ainda altas no céu. Naqueles dias, ao me dirigir para cantina em busca das primeiras canecas de café, eu os via conversando enquanto andavam por entre as rosas. Sentado à mesa próxima à janela com vista para o jardim, eu os observava e refletia. Mesmo relegado na festa, o Velho voltara a estender a mão no infortúnio. Não se tornara mau porque agiram mal com ele. Era o mesmo bom homem de antes. Ele não permitira que nada nem ninguém o arrancasse do seu eixo de luz. As inevitáveis agruras da vida jamais impediriam que o seu melhor florescesse e frutificasse no mundo. Ele não apenas sabia, mas também fazia. Isto se traduzia em inegável beleza e intangível leveza. Tive a nítida sensação de existir um gigante dentro daquele corpo franzino e alquebrado.&nbsp;</p>



<p>Depois de duas semanas, embora não estivesse recuperado por completo, o que ainda demoraria algum tempo, Miguel estava um pouco mais fortalecido e equilibrado. Já caminhava sozinho pelo roseiral. Naquele momento era importante que fosse assim para que voltasse a acreditar em si mesmo e, por consequência, no poder irresistível da vida. Como se tornara um costume naqueles dias, eu o observava pela janela da cantina, enquanto o café impulsionava as minhas reflexões. Foi quando o Velho apareceu sem avisar e se sentou ao meu lado. Antes que eu falasse palavra, ele perguntou: “Ainda amargurado e ressentido?”. Entendi que o bom monge dava prosseguimento à conversa interrompida no dia da chegada ao mosteiro. Ele se referia às emoções que me dominavam após a briga com a minha filha. Ratifiquei a minha decisão de me afastar dela. O Velho me olhou com compaixão e indagou: “Vai jogar pelas regras das sombras?”. Antes que eu me justificasse, ele acrescentou: “Vai se tornar um homem mau porque agiram mal contigo?”. No estilo socrático, continuou: “Qual a diferença haverá entre você e um troglodita qualquer?”. As perguntas escalavam nuances de raciocínio.</p>



<p>Embaralhado entre as emoções densas que estreitavam as minhas escolhas e a verdade que ressaltava à consciência, demorei a responder. Expliquei que eu precisava ser justo comigo. A minha filha tinha sido excessivamente agressiva e precisava entender o limite que ultrapassara. Respeito é fundamental. O Velho franziu as sobrancelhas e argumentou: “Um dos maiores enganos é quando usamos boas ideias para sustentar as piores soluções. Sem dúvida, respeito é muito importante em qualquer relação, mas o banimento é a única ou a melhor maneira de você resolver isso? Existe sabedoria em se privar do convívio e se negar ao amor? Afastar-se da sua filha é abrir mão de tudo de bom que sempre houve entre vocês. Seria justo contigo e com ela?”. Então, concluiu sem deixar de me oferecer as possibilidades de regeneração, um exercício que fazia através das perguntas: “Ao se decidir pelo afastamento, você cederá à armadilha de quem manipulou a sua filha como isca. Vai deixar que a maldade vença? Vai abdicar da sua luz?”.&nbsp;</p>



<p>Regenerar-se é retornar ao ponto da queda; se levantar e voltar a caminhar. Mais forte e equilibrado, seguir em direção até então inimaginável.</p>



<p>Antes de me deixar encontrar as respostas que eu precisava, o Velho me permitiu uma pista: “Boas escolhas não deixam sabor amargo no coração”. Uma lágrima rebelde revelou a purificação que a minha alma ansiava. Ao me envolver na luz oriunda daquelas palavras, o amor ocupou o seu devido lugar em mim, sem o qual nada faria sentido. Embora fosse simples, não era uma conversa qualquer; somente as perguntas certas nos permitem as melhores soluções. Entendi quais escolhas eu deveria fazer dali por diante para equacionar o conflito com a minha filha de maneira sábia e amorosa. Deveria haver compaixão para que pudéssemos nos perdoar; simplicidade para que pudéssemos afastar as máscaras dos enganos; humildade para cada qual admitir os seus equívocos. No mais, muita atenção para jamais voltar a participar como peças no tabuleiro do desequilíbrio dos outros, como meros joguetes da maldade alheia. Uma armadilha permitida em função de termos reagido mal diante do mau. Contudo, sempre haverá virtudes disponíveis para iluminar quaisquer sombras. Basta aprender a usar. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e sussurrou: “As melhores saídas serão sempre as que nos conduzem à beleza dos encontros”. O bom monge segredou-me uma verdade insofismável: “A maldade é como areia movediça. Ela se manifesta através de mil enganos e se esconde por trás de inusitados personagens. Enquanto não entendermos como isso funciona dentro da gente, seremos engolidos todos os dias”.&nbsp;</p>



<p>Pediu licença e foi aos seus afazeres, não sem antes levar consigo uma caneca de café. Logo que amanhecesse eu telefonaria para a minha filha. Seria uma linda conversa, como são todas as conversas de amor. Eu não tinha nenhuma dúvida. Pela janela, voltei a observar a regeneração do Miguel, que reaprendia a viver. Embora por motivos distintos, semelhante oportunidade me fora concedida naqueles dias. Ao fundo, vi o Velho passar pelo corredor lateral do mosteiro, com seus passos lentos, porém, firmes. A sua mão estava estendida a todos. O bom monge não mais se permitia sucumbir à areia movediça das incompreensões que nos fazem parceiros involuntários da maldade.&nbsp;</p>
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		<title>O inimigo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Jun 2021 10:23:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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					<description><![CDATA[As duas canecas fumegantes de café estavam sobre o pesado balcão de madeira da pequena oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Há muita alegria envolvida quando dois amigos se encontram pelo simples fato de estarem juntos; a amizade é uma poderosa irmandade cósmica. Sempre alinhado...]]></description>
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<p>As duas canecas fumegantes de café estavam sobre o pesado balcão de madeira da pequena oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Há muita alegria envolvida quando dois amigos se encontram pelo simples fato de estarem juntos; a amizade é uma poderosa irmandade cósmica. Sempre alinhado no vestir e elegante no trato pessoal, o artesão pediu desculpas por costurar uma bolsa de couro enquanto conversávamos. Eram os últimos arremates. A cliente aguardava a encomenda para aquele dia. Falei que eu era quem deveria pedir desculpas por sempre chegar sem avisar. Loureiro comentou que as verdadeiras amizades dispensam formalidades. Amigos se entendem até sem falar. A conversa estava animada. Ríamos bastante. Foi quando a nossa atenção foi desviada pelo agradável perfume que acompanhava uma bela mulher que entrara na oficina. Na faixa dos quarentas anos de idade, vestida com roupas de fino corte e uma maquiagem leve, que me pareceu mais esconder do que realçar a sua beleza, tinha os cabelos negros e sedosos, cortados na altura dos ombros, que pareciam dançar acompanhando os menores gestos do seu rosto. Um lindo rosto, de traços delicados e harmônicos, cujos olhos, também negros, demostravam o poder de quem sabe o quer para si. Nunca a tínhamos visto na charmosa cidadezinha de ruas estreitas e sinuosas, calçadas com pedras seculares, onde se localizava o atelier de Loureiro, no sopé da montanha que abrigava o mosteiro. Ela explicou que morava em uma famosa metrópole distante a cerca de três horas de trem. Em seguida, se confessou encantada com a habilidade do sapateiro. Conhecera o seu trabalho por intermédio de amigas que usavam bolsas e sapatos manufaturados pelo artesão.&nbsp;</p>



<span id="more-3778"></span>



<p>Era uma mulher de negócios, explicou. Tinha trabalhado muitos anos em uma conhecida multinacional de petróleo, na qual chegou a ocupar um cargo na diretoria regional. Recentemente havia se desligado da empresa para exercer a sua vocação de consultora e gestora de novos negócios. A sua função era de alavancar pequenas empresas, tornando-as maiores e mais lucrativas. Exemplificou com dois ou três exemplos alguns dos sucessos que já alcançara. Depois, disse estar ali para propor algo parecido ao Loureiro. Alegou se tratar de um desperdício todo aquele talento restrito a uma produção artesanal. A arte do sapateiro, aliada à experiência empresarial da bela mulher, possibilitaria que em poucos anos a marca do cáctus, como era a logomarca da pequena oficina, através de uma produção industrial e lojas franqueadas, estivesse presente nas cidades mais cosmopolitas do planeta. Alegou que, sem muita dificuldade, era capaz de angariar investidores interessados no projeto.</p>



<p>Embora eu não passasse de um simples expectador daquela conversa, admito que fiquei empolgadíssimo com a proposta. Para mim, não foi difícil imaginar a marca do cáctus rivalizando com as badaladas grifes de bolsas e de sapatos. Talento e criatividade não faltavam ao sapateiro. Lembrei-me que já assistira ele recusar um convite tentador, ao menos no aspecto financeiro, para se tornar o estilista de uma dessas empresas famosas. Porém, daquela vez a proposta era diferente. A bonita mulher garantiu que Loureiro teria total autonomia para a criação de todos os produtos. Era a sua marca, sob a sua própria direção criativa, se multiplicando em franquias mundo afora. Toda a parte administrativa e comercial ficaria sob a responsabilidade da bela mulher e das pessoas que trabalhavam com ela na sua consultoria. Ela foi honesta e, desde logo, deixou claro algumas condições básicas. Sim, seriam sócios; sim, os investidores também adquiriam cotas da pequena empresa para que pudesse se tornar um grande negócio; sim, haveria metas a cumprir; sim, algumas decisões não mais caberiam ao Loureiro. No entanto, os ganhos auferidos pelo sapateiro seriam infinitamente maiores, proporcionando acesso a bens exclusivos a um seleto grupo de pessoas. No mais, viver sem ter de se preocupar em correr atrás do dinheiro para pagar as contas do dia a dia é um conforto sempre desejável. Alegrei-me pelo meu amigo. Projeto e ideias perfeitas. Irrecusável.</p>



<p>O sapateiro ouviu a exposição da bela mulher sem a interromper. Tampouco fez qualquer pergunta. Com a serenidade e a delicadeza que lhe eram habituais, agradeceu a oferta, mas a recusou sem qualquer hesitação. Com seus modos sempre elegantes, explicou que não queria alterar a rotina que construíra para si. Gostava do estilo de vida que construíra; abria a oficina de madrugada, com as estrelas ainda altas, para cerrar as portas na hora do almoço, quando costumava encontrar com amigos e conversar por toda a tarde. A alegria na rotina que criara era fundamental à sua criatividade e a leveza da disciplina necessária a qualquer trabalho. Amava os seus dias. Isto se refletia na qualidade dos produtos que confeccionava e, por consequência, na conquista de uma clientela que, embora pequena, lhe proporcionava o suficiente para uma existência confortável. Não havia luxo, mas não faltava o essencial; e ainda sobrava um pouco para pequenas extravagâncias, como as camisas de linho e algumas breves viagens. Não ligava para carros; a sua clássica bicicleta, que quando estava trabalhando, ficava encostada no poste em frente à oficina, era tão conhecida na cidadezinha quanto as bolsas e os sapatos que produzia. Apesar das dimensões reduzidas e da simplicidade, a sua casa lhe bastava. Os seus filhos, já estavam crescidos e não mais moravam com ele. Enfim, tinha tudo o que precisava. A linda mulher se valeu de outros argumentos para demover aquela ideia do sapateiro. Projetou como seriam interessantes os dias de Loureiro depois que a marca do cáctus ganhasse o mundo. O seu talento, somente conhecido por um punhado de pessoas, seria admirado por multidões. Teria um novo e empolgante estilo de vida; garantiu que ele não sentiria saudade da atual rotina. Era uma proposta justa e interessante. Não houve jeito. Então, ela agradeceu, deixou um cartão para que ele a procurasse caso mudasse de opinião e foi embora.&nbsp;</p>



<p>O perfume dela ficou. Com o bom aroma ficou também a sensação ruim de uma oportunidade desperdiçada. Naquela época, a agência de publicidade da qual era um dos sócios, era uma das maiores do mercado. Embora eu vivesse um excelente momento financeiro, não gostava de pensar sobre determinadas práticas utilizadas para angariar clientes e contas. Eram ideias que eu tratava de afastar pelo incômodo que me causavam. A ética na esfera empresarial não era a mesma que eu ensinava às minhas filhas. Não há como ser santo em um mundo de demônios, dizia para mim mesmo, recalcando qualquer desconforto consciencial. Não, eu não queria fazer mal a ninguém, apenas jogava nas regras do jogo, ainda que a contragosto. As regras já estavam estabelecidas quando cheguei ao mercado. Eu fazia o que todos faziam sem que ninguém se melindrasse com aquelas práticas. Eu não tornara o mundo um lugar pior para se viver; ao contrário, era um bom homem, porém, restrito às amarras do meio e da sobrevivência. Não há outra maneira, repetia para mim todas as vezes que os pensamentos me assombravam. Ao assistir àquele convite feito ao Loureiro, fiquei inconformado. A sós com o meu amigo, questionei qual problema ele tinha com o dinheiro. Expliquei que o dinheiro, assim como todas as coisas do mundo, eram apenas ferramentas de polaridade neutra. É a maneira com as usamos estabelece a sua polaridade positiva ou negativa; para construir ou destruir. Acrescentei que ele não deveria ter nenhum tipo de preconceito quanto a qualquer ferramenta, entre elas, o dinheiro, que quando bem utilizado servia para importantes construções, fossem materiais, como as pontes e prédios de concreto, fossem imateriais, como a caridade, pontes de amor e misericórdia. Loureiro concordou comigo: “Corretíssimo o raciocínio. Você tem razão quanto à análise que faz sobre o dinheiro”. Porém, fez uma ressalva: “Ao contrário do que você imagina, eu não tenho nenhum preconceito em relação ao dinheiro nem a riqueza. Serão sempre bem-vindos. Contudo, existe outra questão importante que deve conviver com as demais sem qualquer atrito”. Fez uma pausa e acrescentou: “Refiro-me as prioridades. Haverá pouca beleza em mim enquanto eu não entender e viver as minhas prioridades”.&nbsp;</p>



<p>Perguntei ao Loureiro por qual razão ele se recusava a crescer profissionalmente. Quis saber se ele tinha algum problema em se tornar grande. O sapateiro franziu as sobrancelhas, disse não com a cabeça, e explicou: “Primeiro, ser pequeno não revela nenhum demérito; ao contrário, é preciso se entender miúdo para que um dia possa se tornar verdadeiramente graúdo; me parece mais vantajoso ser pequeno, mas dono absoluto das minhas escolhas, a ser grande, mas não ter o comando do meu próprio destino. A amargura e as delícias dos dias se molda através de cada movimento, mesmo aqueles que aparentemente não fazemos por comodidade ou fraqueza. Não existe riqueza em se viver as coisas do mundo distante dos valores da alma”.&nbsp;</p>



<p>Em seguida, acrescentou: “No mais, depende o que você entende por&nbsp;<em>ser grande</em>. Trata-se um conceito pessoal que irá direcionar as escolhas e, porquanto, o próprio destino”. Bebeu um gole de café e disse: “Adoro a rotina que tenho. Embora simples, e talvez por isto, ela seja a estrada que percorro para a felicidade”. Sim, era inegável a alegria, o bom humor, a delicadeza e a serenidade que Loureiro transmitia no trato com toda gente. Isto autenticava as suas palavras. Nada falei, pois o sapateiro continuava a explicar: “Gosto de receber os clientes, ouvir o que precisam, aquilo que querem. Desenhar a ideia colocando aspectos da personalidade deles naquilo que irão usar; depois, a transformar em objeto de uso e satisfação pessoal. Faço arte para que esteja em movimento e tenha utilidade. Acredito ser o meu dom. Administro o tempo e os dias conforme as minhas vontades, interesses, compromissos, possibilidades e sabores. Oriento as minhas escolhas através das minhas verdades. Sou dono do meu processo de criar e de viver; sou dono do meu sim e do meu não. Entendo que preciso mudar muitas coisas, mas não necessariamente na minha rotina. Mas em mim, onde reside o meu campo de batalha. Isto sim, como consequência, poderá alterar a rotina que tenho. Sim, quero sentir que conquistei um pouco mais de mim a cada escolha que faço. Uma percepção possível quando sinto alguma virtude, que ainda não alcancei, se manifestar cada vez com mais intensidade nas minhas decisões. Para tanto, há que acalmar as horas. Todas as noites, antes de dormir, ao fazer a retrospectiva do dia, busco entender se consegui amar melhor, se desmanchei os medos que se avizinhavam, se descontruí os sofrimentos que me roubavam a paz, se consegui me manter digno com toda gente, se me libertei de ideias e emoções que me impediam de viver no expoente das minhas capacidades. Esse movimento é fundamental para compreender se caminhei na estrada do tempo, na qual avançamos através das múltiplas transformações intrínsecas. Acredito que, dessa maneira, a minha luz se tornará mais intensa, seja pela força e equilíbrio que vibram em meus pensamentos e sentimentos, seja pela leveza que me envolverá por ter afastado a aspereza em mais uma das minhas relações. Claro que tudo isso é muito pessoal, cada um tem o seu próprio jeito de fazer a vida acontecer, de ser feliz e de amar; esse é o meu. Para mim, assim me torno grande. Nada mais”.&nbsp;</p>



<p>Falei que ele se enganava. Em análise mais sincera, Loureiro mentia para si mesmo ao se negar a um desafio que seria angular em sua existência. Recordei da outra ocasião na qual ele também recusara uma oferta de crescimento profissional. Falei que ele tinha medo de crescer. O sapateiro arqueou os lábios em doce sorriso e disse: “Fui honesto contigo ao oferecer os fundamentos da minha escolha”. Insisti que ele cometia um erro ao fugir da vida. Loureiro maneou a cabeça e, sem perder a delicadeza que lhe era característica, disse com firmeza: “Respeito o seu olhar, amigo. No entanto, jamais a certeza de alguém terá o poder de bagunçar a minha verdade. Minha vida, minhas escolhas, meu poder”.</p>



<p>Fiquei irritadíssimo com o que eu considerava falta de maleabilidade e de sensibilidade para as inevitáveis mudanças da existência. Porém, nada mais falei. Como estava no horário do meu embarque, agradeci a conversa e o café, me despedi e fui para a estação ferroviária. Levei na bagagem uma estranha amargura.</p>



<p>Como ainda faltavam alguns minutos para a chegada do trem, acomodei-me em banco próximo à plataforma de embarque. Estava observando o movimento da estação, quando reparei em uma cigana, vestida com trajes típicos, se oferecendo para ler a mão das pessoas. Embora nunca tenha sido determinante em minhas decisões, sempre senti um encanto irresistível por oráculos de todos os tipos. Quando ela se aproximou, de imediato estendi a palma da mão para que ela fizesse a leitura. A cigana me surpreendeu: “Não preciso olhar para a sua mão. A cor da sua aura narra o principal. Você está dominado pela inveja. Por isto, a irritação”.</p>



<p>Apesar de surpreendido, falei que ela estava enganada. A inveja era uma sombra há muito superada em mim. A cigana disse: “Nada agrada mais uma sombra do que a nossa ignorância em relação ela”. Falei que era absurdo o discurso de que eu desconhecia o significado da inveja; todos sabiam do que se tratava. No mais, era inconcebível que fosse incapaz de identificá-la em mim; eu me conhecia muito bem. Ela explicou com o seu jeito peculiar de se expressar: “Desconhecer é diferente de ignorar. Desconheço aquilo que sei não saber. Ignorância é diferente, ela me domina todas as vezes que eu não souber que não sei. Enquanto for imperceptível, não sentirei a necessidade de me libertar. Por isto, a ignorância será sempre uma prisão cruel”.</p>



<p>Admiti que estava irritado. Mas era por uma sandice de um amigo que eu muito admirava. Não havia qualquer inveja quanto ao Loureiro, eu nutria por ele sincera admiração por seu talento. Inveja eu teria se eu quisesse para mim a vida dele. Acrescentei que eu vivia um momento financeiro muito confortável, além de ter meu talento reconhecido através de alguns prêmios internacionais que a agência havia angariado. Isto me concedia acesso a vantagens e privilégios que eu gostaria que ele também usufruísse, pois não lhe faltavam talento e capacidade. Contudo, ele se recusava às oportunidades que a vida lhe oferecia através daquele desafio. Eu apenas desejava o melhor do mundo para ele. Por todos esses motivos, eu não precisava ter inveja do meu amigo sapateiro. A cigana me ensinou: “Cada qual tem os seus próprios desafios, pois a evolução é personalíssima; ninguém a faz por ninguém. O seu desafio é saber ser o mesmo homem com ou sem dinheiro. Uma prova muito difícil, que eu tenho dúvida se conseguirá superar. A maioria sucumbe nessa batalha, por se tornarem escravos quando deveriam ser senhores”.</p>



<p>Pedi para ela explicar melhor. A cigana disse: “O seu amigo não despreza as coisas boas do mundo, tampouco deprecia o dinheiro. No entanto, é senhor de si, não escravo das regras do mundo. Para ele, dinheiro é ferramenta, jamais a obra. Se servir para colaborar na obra, o dinheiro será bem-vindo; se atrasá-la, será deixado de lado”. Indaguei se ela se referia a obra de si mesmo. A mulher fez sim com a cabeça. Sem que eu nada perguntasse, ela me respondeu: “Embora saiba disso, você ainda não consegue. Se ele fizesse escolhas parecidas com as suas, você acreditaria justificada algumas das suas próprias decisões que tanto o incomodam nos porões da alma. A sua inveja não se refere à fortuna ou fama possíveis ao seu amigo, pois você já as têm, mas à tranquilidade aliada à firmeza com as quais ele faz as escolhas e percorre o Caminho. Apesar de tudo que sabe, você ainda não consegue; isso o incomoda. Daí a inveja”.</p>



<p>Insisti que ela estava enganada. Eu reconhecia também esse talento em Loureiro e, por isto, o admirava. Sim, não era inveja, tinha admiração por ele ter alcançado tal conquista. A cigana me ensinou: “O inimigo mais perigoso é aquele que acreditamos não existir. Se fosse admiração, você teria se alegrado com a escolha que ele fez. A inveja por não ser capaz de fazer o mesmo, trouxe a irritação”.</p>



<p>O apito do trem abafou a conversa. A porta do vagão se abriu à minha frente. Os olhos da cigana me observavam com doce compaixão. Não consegui me levantar. Não por acaso, vi a bela mulher, a mesma que mais cedo estivera na oficina, entrar e se acomodar em umas das poltronas. Outro apito, as portas se fecharam e o trem seguiu. A cigana sorriu. Sem dizer palavra, girou nos calcanhares e foi embora. Peguei a mala e tentei acompanhá-la. Eu tinha muitas perguntas a fazer. Ágil, ela se esgueirou por entre as muitas pessoas que estavam na estação e desapareceu. Desconcertado, tornei a me sentar. Perdi a conta dos trens que chegaram e partiram. Algo em mim precisava ser desconstruído. Sem noção de quanto tempo se passara, me levantei para ir ao encontro do Loureiro. Era preciso reconstruir a nossa última conversa. Eu sabia que ele me aguardava. Os amigos sempre sabem.</p>
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		<title>Um segredo revelado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Jun 2021 08:19:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS VI]]></category>
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<p>A vida é desafiadora. Você quer viver em paz, sossegado, longe de conflitos e confusões, mas parece impossível. Como se fosse uma implacável caçadora, a vida vai à sua procura para lhe provocar. Em síntese, foi isso que eu disse para Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a filosofia ancestral do seu povo através das histórias e das músicas. Assim eu justificara a minha chegada à Sedona algumas semanas antes da data inicialmente prevista. Uma avalanche de aporrinhações me fizera antecipar a viagem. Eu precisava de quietude para resgatar a serenidade perdida. Alguns dias nas montanhas do Arizona, longe do burburinho do Rio de Janeiro, dos problemas profissionais e da inevitável aspereza do convívio com as pessoas que costumamos lidar no dia a dia, me pareciam proporcionar a fórmula exata de descanso, reequilíbrio e regeneração que eu tanto necessitava. Enquanto me escutava sem dizer palavra, o xamã acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, embalado no vai e vem ritmado da cadeira de balanço. Da varanda da casa, podíamos contemplar a riqueza das cores oferecidas pelo sol poente. Depois, ele baforou o cachimbo algumas vezes e pareceu se divertir com a dança da fumaça. Desconfiei que não estivesse prestando atenção às queixas que eu fazia quanto a essa mania de a vida me perseguir com tantos conflitos. Ao final, quando acrescentei que precisava me esconder para que a vida me esquecesse das suas confusões, Canção Estrelada me avisou: “Uma viagem perdida”. Falei que não tinha entendido. Ele disse algo que eu já havia escutado: “Não há como escapar dos problemas mudando de lugar. Somos a nossa própria bagagem”. Baforou mais uma vez e murmurou em tom profético: “Inexoravelmente”.&nbsp;</p>



<span id="more-3775"></span>



<p>Falei que ele estava errado. Aleguei o quanto eu já tinha mudado. Comportamentos de outrora não cabiam mais em mim. Houvera grandes mudanças. Ponderei que talvez fosse um carma desta existência o fato de eu ter me tornado uma espécie de catalizador de problemas. Eu precisava me acostumar a isto. O xamã esclareceu: “Todas as situações que se repetem em nossos dias, acontecem por um único motivo. Aprendizado. Enquanto não se aprender a lição embutida na sequência de fatos, que se apresentam com inúmeras roupagens, mas trazem um mesmo conteúdo transformador, uma determinada espécie de situações continuará se repetir. Em síntese, carma é aprendizado. Significa que a vida não desistirá da sua evolução. Aprenda a lição para extinguir o carma. Então, um portal se abrirá para uma nova fase existencial. Enquanto se recusar a aceitar que o sentido da vida é a evolução, você ficará retido na estrada do tempo”.</p>



<p>Depois, acrescentou: “Primeiro, a vida lhe oferece as ferramentas adequadas. Depois ensina o manejo delas. Então, entrega a matéria-prima para execução da obra: os problemas. A evolução pessoal é parte essencial da perfeição universal. É natural que de início apresentemos a dificuldade dos aprendizes. Temos dificuldade para compreender o uso das ferramentas e a finalidade da obra; duvidamos que a matéria-prima fornecida seja capaz de se tornar parte da grande arte. De início, apenas queremos nos livrar do problema sem nenhum cuidado com o conteúdo oculto. Como um bom mestre, a vida segue fornecendo o material para sucessivas tentativas; aos poucos, diante de pequenos avanços, também disponibiliza o uso de novas ferramentas, sem deixar de oferecer o aperfeiçoamento no uso das antigas; todas de extrema valia. Por vezes, se faz necessário mudar as condições, pois, alunos rebeldes ou displicentes precisam de maior rigor e atenção. O Grande Mistério não desiste de ninguém. Tampouco diminui o amor. Trata-se de uma questão de sabedoria e justiça. Por isto os dias de ninguém são iguais aos de ninguém. Você é único. Todos somos. Entender as ferramentas e a obra é fator de libertação ou aprisionamento, depende somente de si mesmo. Por isso os desavisados lamentam pelos dias chatos que insistem em se repetir como uma melodia monocórdia. Estão retidos na estrada do tempo. Para mudar o tom das horas se faz indispensável aperfeiçoar o talento intrínseco do artista. Isto equivale ao aprimoramento da obra”. Tornou a baforar o cachimbo e complementou: “Portanto, nunca lamente. Aceite a lição; entenda a transformação oferecida. Nisto reside a alegria dos dias. Aproveite a matéria-prima, aperfeiçoe o manejo das ferramentas e execute a obra de si mesmo”.</p>



<p>Insisti que ele estava equivocado. Indaguei a razão de ele se negar a ver o óbvio. Falei que entendia a evolução pessoal como a obra primordial, assim como as virtudes serem as ferramentas disponíveis para essa grande arte. A questão era outra. Eu ficava quieto no meu canto, não provocava ninguém nem me intrometia nas escolhas alheias. No entanto, nunca bastava. Os conflitos me perseguiam. Sim, era preciso viajar, tirar férias, ficar um tempo distante. Talvez houvesse uma chance de os problemas esquecerem de mim, suspirei. Torcia também para que algumas pessoas, por ficarem sem me ver, apontassem as suas miras para outra direção. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso. Pensei que fosse de doce aprovação. Era compaixão.</p>



<p>Na manhã seguinte, logo após as primeiras canecas de café, por hábito, fui ler as mensagens contidas no celular. Entre muitas, duas me trouxeram desconforto. Em uma delas, um dos meus ex-sócios, que na dissolução da sociedade ficara com a casa onde funcionara a agência de publicidade, reclamava que havia sérios problemas de infiltração na casa, a ponto de comprometer a estrutura se uma enorme reforma não fosse iniciada imediatamente. Embora a sociedade restasse desfeita havia vários anos, ele alegava que, pelos estragos causados, o início da infiltração, de acordo com os engenheiros, era anterior a isso. Sustentava que as despesas deveriam ser rateados entre os antigos sócios. Ora, por que ele esquecera de mencionar os altos aluguéis que passara a auferir desde então com a casa localizada em um bairro nobre da cidade? Quem fica com os bônus deve arcar com o ônus, disse para mim mesmo, não sem alguma irritação.&nbsp;</p>



<p>A outra mensagem desagradável fora enviada por uma prima. Havia anos, eu assumira os cuidados com a nossa avó. Em razão da idade avançada, surgiram entraves físicos que exigiram atenção constante e ajuda intensa. Para evitar que fosse internada em uma casa geriátrica, como era a vontade da família, mas não da minha avó, que queria continuar residindo na mesma casa onde passara toda a existência, perto dos vizinhos e das referências que coloriam a sua realidade e ajudavam a contar a sua história, eu assumira a responsabilidade em cuidar dela. Não era tarefa complicada. Como ela recebia uma generosa aposentadoria, coube a mim selecionar os funcionários adequados e coordenar o funcionamento da casa, que eu visitava de duas a três vezes por semana. Uma tarefa tranquila, que eu executava com tranquilidade, embora soubesse que por ter feita essa escolha, não teria qualquer ajuda da família. Na maioria das vezes, fazíamos juntos o lanche da tarde. Eu costumeiramente levava os croissants de amêndoas, feitos em uma padaria perto da minha casa, que ela adorava. Conversávamos bastante. Eram momentos de intensa alegria para ambos. Essa prima, ainda que pese o justo motivo de morar em cidade distante, nunca demonstrara qualquer interesse em saber da nossa avó, aproveitou que estava no Rio de Janeiro por causa de um compromisso profissional e foi visitá-la. Na mensagem enviada, se mostrara preocupada com as diversas falhas que, segundo ela, existiam nos cuidados e aproveitou para apontar várias melhorias que deveriam ser implementadas de imediato. Em outras palavras, ela não estava disposta a fazer nada, mas tinha decidido aquilo que eu precisava fazer para que a assistência à nossa avó melhorasse. Achava-se no direito de apontar os defeitos sem se oferecer para executar as soluções que ela mesma propunha. Simples assim, resmunguei irritado com o abuso.&nbsp;</p>



<p>Ao entrar na casa com um saco de pão fresco que fora buscar para o café da manhã, Canção Estrelada me encontrou sentado à mesa, com as feições típicas de quem está contrariado. Ele perguntou com a sua voz serena e rouca: “O que é capaz de lhe tirar do eixo da luz logo após acordar?”. Contei para ele sobre as duas mensagens. Dois evidentes abusos. O fiz lembrar da nossa conversa da tarde anterior. Era impressionante como os problemas me perseguiam. Eu me tornara o alvo predileto para as pessoas descarregarem as suas insatisfações e incompletudes. O xamã ponderou: “O saber tem muitas camadas. Faz parte do processo evolutivo, aos poucos, descortinar cada uma delas”.</p>



<p>Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “Embora haja razão nos seus argumentos quanto à maneira como muitas pessoas lidam com as suas incompreensões, seja transferindo responsabilidade, seja recusando compromissos, a questão me parece diferente. O problema não reside nos problemas em si, mas na maneira como você reage a eles. Qualquer situação pode ser motivo de sombra ou de luz, depende apenas do seu olhar”. Sentou-se a mesa, enquanto passava uma generosa porção de manteiga no pão, disse: “Enquanto você não entender todo o poder da compaixão, o comportamento alheio continuará sendo motivo irritação”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “A irritação, por se tratar de uma sombra proveniente do ódio e da impaciência, afasta o amor e desbota a luz se não a desmancharmos imediatamente. A irritação nos dará mil motivos para reagirmos aquém das nossas possibilidades. Será mais uma oportunidade desperdiçada. A obra seguirá inacabada”.</p>



<p>Em seguida, concluiu: “Ao aceitarmos a oferta da vida para bailarmos a fantástica sinfonia das estrelas, passamos a envolver os problemas e os problemáticos sob o manto da compaixão, uma virtude primordial que, como tal, reverbera em amor e luz. Um portal se abrirá. Aquilo que os incautos acreditam se tratar do fim, a compaixão permite o início de uma nova jornada repleta em leveza”.</p>



<p>Canção Estrelada nada mais disse. Deixou-me refletir sobre as suas palavras. No entanto, eu continuava sem entender a valiosa ferramenta que tinha nas mãos, a compaixão. Embora a conhecesse em teoria, a desperdiçava na aplicação dos meus dilemas pessoais.</p>



<p>Naquele mesmo dia, ao visitar uma interessante feira de artesanato local, encontrei um artesão do qual já tinha adquirido várias peças nas vezes anteriores que estivera na cidade. Eu era um admirador do seu trabalho e talento. Sempre tínhamos conversas agradáveis quando nos encontrávamos. Daquela vez, ao me ver, de imediato comentou como eu tinha emagrecido. Comentei que me sentia muito bem naquela nova fase. Foi quando o artesão disse que a minha aparência estava péssima. Segundo ele, eu ficara com a fisionomia de um homem doente e deveria repensar a questão, pois, não deveria ser assim. Depois de tantos anos com o desconforto de estar acima do peso, envolvendo todos os riscos de saúde envolvidos, justamente quando conseguira me adequar a uma nova dieta, associada à prática de exercícios físicos e estava alegre por ter atingido o objetivo desejado, me chega uma crítica que nas entrelinhas me diz que fiz tudo errado e estou mal situado. Fiquei chateado. De imediato pensei que era despeito do artesão por ostentar algumas dezenas de quilos além do limite para uma condição física saudável. Com um enorme esforço para conter a irritação e manter a gentileza, aleguei outros afazeres e me despedi. Fui embora da feira. Mesmo em um lugar onde havia tantas coisas interessantes e belas, não tive qualquer vontade de permanecer ali. O passeio de encerrara. A alegria e a leveza também.</p>



<p>Retornei para casa. Era final de tarde. Canção Estrelada se embalava na cadeira de balanço enquanto colocava fumo no fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo. Ao me ver, fez não com a cabeça. Seja a minha fisionomia, seja a energia que eu emanava, não deixava qualquer dúvida como eu estava irritado. Ao me aproximar, ele questionou: “Tornou a se machucar?”. Contei o ocorrido. Depois, lembrei-o da tese de eu ser uma espécie de para-raios para as insatisfações alheias. Não importava onde estivesse, eu era o alvo. O xamã franziu as sobrancelhas e disse com seriedade: “Enquanto interpretar o personagem de vítima do mundo, ficará estancado na própria incompreensão. Todo sofrimento, qualquer que seja, tem a sua origem na equivocada interpretação da realidade. Entenda um pouco mais de si mesmo para que possa ter uma melhor leitura do mundo. Conhecemos o mundo através das lentes que usamos. Claras ou escuras, ao substituir as lentes, as cores mudam. Também não esqueça de limpar os filtros por onde chegam as impurezas para não permitirmos qualquer tipo contágio energético. Sim, a frequência das vibrações são venenos ou elixires. Lembre que a Lei das Afinidades é implacável. Isto também é uma escolha. Nos casos das ofensas e das provocações, a questão fundamental não é conseguir fazer de imediato a exata leitura do coração do antagonista. Embora importante, esta é a parte mais simples. Complexo é saber como reagir”.</p>



<p>Questionei como seria possível não se irritar com a carga de agressividade proveniente de uma ofensa, seja uma acusação depreciativa direta ou em forma de ironia e sarcasmo, seja por intermédio de uma cobrança injusta. Falei que eu sofria ataques constantes; eram pedras de todos os lados. Canção Estrelada baforou o cachimbo, sorriu para fumaça que bailava diante dos seus olhos, e ensinou: “Enquanto olhar para o mundo como uma guerra a ser vencida, você viverá todas as agonias, horrores e escuridão da guerra. Diante das pedras, você levanta os seus escudos para se defender e, por vezes, atira de volta na tentativa de fazer cessar os ataques. Mata e morre todos os dias. Não há do que reclamar das dores da batalha escolhida”.</p>



<p>Indaguei se havia escolha. O xamã fez sim com a cabeça e me lembrou: “Sempre há escolhas. Infinitas escolhas. Estamos destinados à liberdade”. Antes que eu dissesse palavra, ele esclareceu: “A liberdade é consequência do processo evolutivo. Muito mais do que flanar solto pelas ruas, a liberdade nasce na profundidade do pensar, através do desfolhamento das camadas do saber, para se desenvolver na amplitude de escolhas até então inimagináveis”.</p>



<p>Fez uma pausa antes de prosseguir: “Viva o mundo como se fosse uma escola. Assim ele é. Aceite os problemas como desafio, não de confronto, mas para soluções nunca pensadas. Essa é uma maneira eficaz de expandir a consciência. Já imaginou se ao invés de se defender das pedras com os escudos da irritação ou as devolver com igual ódio, você se colocasse em um lugar inalcançável às ofensas?”. Falei que tal postura me parecia impossível. Canção Estrelada continuou: “Continuará impossível até que se ouse a fazer diferente e melhor”. Como percebeu um enorme ponto de interrogação em meu olhar, revelou acesso: “Na compaixão reside o segredo de acesso”.&nbsp;</p>



<p>Pedi para ele definir o que entendia como compaixão. O xamã foi didático: “Ao lado da humildade e da simplicidade, a compaixão forma a tríade das virtudes primordiais, fundamentais para que o viajante das estrelas ultrapasse o Primeiro Portal do Caminho, conhecido como Portal da Lucidez. Como o próprio nome explica, lucidez é a capacidade de trazer luz onde há escuridão. Dentro e fora de si. Compaixão é a compreensão amorosa da dificuldade alheia, possível para aqueles que já reconhecem as próprias dificuldades, sejam as superadas, sejam as que ainda estão em elaboração”. Tornou a baforar o cachimbo antes de fazer uma valiosa ressalva: “Contudo, se faz essencial que a compaixão venha acompanhada da humildade, virtude típica daqueles que sabem quem ainda não são e se reconhecem sinceramente pequenos, mas dispostos a evoluir. Acreditar-se graúdo enquanto ainda se é miúdo é o maior dos enganos, fruto dos vícios em máscaras e personagens que buscam encurtar o Caminho. Não saem do lugar. Esgotam-se em guerras inúteis. Daí a importância da simplicidade para afastar as névoas das mentiras e dos condicionamentos aprisionantes. Faz-se necessário coragem e sinceridade para se olhar nu diante do exato espelho da alma; todas as suas conquistas e as inúmeras dificuldades. Então, entender que a vitória não está em derrotar ninguém, mas consiste tão e somente em se tornar uma pessoa diferente e melhor; um pouco mais a cada dia. Pode-se derrotar mil exércitos, mas enquanto não aprender a amar mais e melhor, nada de verdadeiro terá conquistado. Esta é a síntese da evolução”.</p>



<p>Depois do preâmbulo, foi ao cerne da questão: “Esse entendimento proporcionado pela compaixão, que envolverá o ofensor em luz, precisa estar genuinamente acompanhado por virtudes sedimentadas, como a humildade e a simplicidade. Do contrário, será mero exercício de orgulho e vaidade, por se acreditar maior e melhor que os outros. Não haverá qualquer traço de lucidez; nenhum portal se abrirá. Você continuará estancado na estrada do tempo, trocando pedras de mútuas incompreensões em uma selva escura e densa de sofrimento e ignorância”. Deu de ombros e concluiu: “A propósito, ignorância se manifesta todas as vezes que acreditamos saber o que não sabemos. Solo fértil para erva daninha dos enganos”.&nbsp;</p>



<p>Então, finalizou: “Com humildade e simplicidade, envolva o agressor no manto luminoso da compaixão. Entenda que qualquer ofensa se expressa por sofrimento e incompreensão. São palavras que, por ignorância, tentam ferir quando em verdade gritam por ajuda. Ali existe uma mente enevoada, um coração bagunçado e uma alma coagida. Um grito silencioso de desespero que somente a compaixão é capaz de ouvir. Nestes momentos, lembre que você não está em guerra, mas na escola. A compaixão é a solução para esses problemas. Tenha a doçura da rosa para entender as dificuldades e a firmeza da rocha para conter eventuais abusos. Mas lembre, você não está mais em guerra; logo, qualquer revide será um retrocesso. Estar na escola significa estar disposto a evoluir. Acolha o ofensor no limite da sua capacidade e dentro das possibilidades permitidas à ocasião. Nunca esqueça que sempre é possível fazer diferente e melhor. Aja com sincera compaixão e sinta o amor injetado em suas veias, iluminado cada viela escura do seu ser. Isto se chama felicidade. Para alcançá-la todos os dias ninguém depende de ninguém, salvo de si mesmo. Esse poder é seu e meu. É de todos”.</p>



<p>Perguntei o que fazer se o ofensor persistir em sua postura agressiva. Canção Estrelada deu de ombros e disse: “Nada além do que seguir o envolvendo sobre o manto sagrado da compaixão. A ofensa ou a acusação, são como convites para um baile trevoso. Como qualquer convite, basta recusar. Entenda que as pedras que ele continuar atirando, por terem se tornado inócuas, não mais atingirão você. Como a irritação da vítima alimenta o desequilíbrio do ofensor, ao perceber ineficácia dos tiros, ele compreenderá a inutilidade da batalha. Em algum momento, se dará conta que está lutando sozinho. De início, ficará mais irritado. Depois, sentirá inveja, pois enquanto o mundo avançou, ele ficou empacado. Em seguida, virá a admiração. Então, estará pronto para buscar a própria luz. Este é o processo. Assim aqueles que sabem mais, também fazem conosco. Iluminamos o mundo ao acendermos a própria luz. Sem nenhuma guerra, mas solucionando os problemas da escola. Não conheço outro jeito”.</p>



<p>Não dissemos mais palavras. Eu precisava de quietude para alocar aquelas palavras. Ficamos na varanda por um tempo impreciso. Entendi como as queixas, insatisfações e críticas do antigo sócio, da prima e do artesão falavam mais sobre as suas dificuldades em lidar com as próprias escolhas do que justificavam obrigações ou equívocos meus. Embora as palavras fossem dirigidas a mim, elas falavam das suas próprias incompreensões. A compaixão me permitia esse entendimento e afastava qualquer irritação. Fui tomado por uma indescritível sensação de leveza. Sorri de alegria por compreender o alcance e o manejo da compaixão como uma das ferramentas fundamentais ao bem viver. Dali para frente cabia a mim aperfeiçoar ainda mais o seu uso. Lembro quando Canção Estrelada rufou em seu tambor de duas faces uma suave canção ancestral. Olhei para céu e agradeci às estrelas. Toda amargura desaparece quando entendemos que o mel da vida está em nossas mãos. Naquele momento, assumi o compromisso que não mais importaria para a felicidade dos meus dias o ódio, a indiferença, o egoísmo ou a desfaçatez com que o mundo me tratasse; dali por diante, passaria a valer o amor, a sabedoria e as virtudes que qualquer aspereza fosse capaz de despertar em mim. Os problemas são a valiosa matéria-prima na arte sagrada da consagração na luz. Compaixão, um segredo do incomensurável poder da evolução.&nbsp;</p>
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