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	<title>MANUSCRITOS V &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS V &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>O tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2020 11:13:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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					<description><![CDATA[“Qual a verdade da rosa?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, quando o questionei sobre o tempo. Em seguida, pediu licença, se levantou e me deixou a sós com os meus pensamentos. Não entendi a correlação que ele tentava me fazer entender. Pensei...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“Qual a verdade da rosa?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, quando o questionei sobre o tempo. Em seguida, pediu licença, se levantou e me deixou a sós com os meus pensamentos. Não entendi a correlação que ele tentava me fazer entender. Pensei que não quisesse enfrentar essa questão tão complexa e de difícil compreensão. Os nossos dias são medidos pela rotação da Terra sobre o próprio eixo; os segundos foram estabelecidos por um florentino ao verificar o padrão regular da oscilação de um pêndulo, fato científico relacionado ao efeito gravitacional do planeta que, por ora, habitamos. Outros planetas, estrelas e galáxias, com influências eletromagnéticas próprias, possuem impensáveis resultados na aferição das horas como medida para o tempo. Isto nos afeta de incontáveis maneiras. A velhice é uma permissão concedida a alguns; a morte é um direito de todos, do qual ninguém pode abdicar. Como um tambor, o tempo parece ditar o ritmo desta marcha. Não há como negar a sua enorme importância à nossa existência, embora importantes físicos e cientistas já tenham nos alertado da sua relatividade. Usamos um padrão convencionado há séculos como aferidor de uma força ainda bastante desconhecida que denominamos&nbsp;<em>Tempo</em>. Em nossos estudos metafísicos, os quais associamos à Filosofia, trabalhamos com a ideia da transitoriedade do corpo e da imortalidade do espírito, a verdadeira identidade de todos nós. A medição planetária de tempo possui fácil leitura: inventamos o relógio, que serve bem ao corpo. Contudo, há outra, com fator regulador próprio ao espírito. Percebemos com clareza que várias medições de tempo operam em paralelo, sendo que as que regulam os ciclos menores estruturam os períodos seguintes. Enfim, o tempo do corpo é diferente daquele aplicado ao espírito. Um perece enquanto o outro prossegue; aquele é unidimensional, este é interdimensional. Em análise um pouco mais profunda, o tempo do espírito, embora diverso, por ora está associado àquele imposto ao corpo pelas Leis da Física, pois, tenho no corpo um instrumento de experiências evolutivas proporcionadas pela existência, fundamentais ao avanço do espírito. Ele é quem anima o corpo e guarda a essência de quem eu sou. A minha jornada planetária, que tem como parâmetros os anos contabilizados pelas translações da Terra, com inevitáveis reflexos na deterioração do corpo, é um instrumento fundamental de navegação na atual escala evolutiva, exercício de aperfeiçoamento e capacitação do meu espírito imortal. Há uma evidente e indispensável simbiose nas diferentes escalas de tempo que regem a existência do corpo e a vida do espírito. Queiramos ou não, isso atinge a você e a mim.</p>



<span id="more-3460"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Eu queria entender para melhor aproveitar. Trata-se de apenas um dos muitos questionamentos provocados quando nos aprofundamos na ideia do tempo. Dizem que teriam indagado a Agostinho de Hipona, um filósofo cristão da Idade Média e muito importante para desenvolvimento da filosofia ocidental, se ele sabia algo sobre o assunto. O sábio teria dito:&nbsp;<em>Eu sei o que é o tempo, no entanto, se tiver que explicar, já não sei mais</em>. Nenhuma resposta se propõe definitiva face a complexidade do tema. Todavia, aprofundar a questão nos habilita cada vez mais ao uso de uma ferramenta de grande poder e inegável influência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se existia uma pessoa no mundo capaz de me explicar sobre o tempo, ninguém melhor do que o Velho. Ao menos, era isso que eu acreditava até receber uma pergunta sem sentido, beirando a bizarrice, como resposta para uma indagação séria e repleta de interesses educacionais. Era evidente que ele não sabia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O encontrei na manhã seguinte, ainda bem cedo, sentado sozinho na cantina. Ele sorriu, com o queixo me indicou que havia café fresco no bule e fez sinal para eu me sentar à mesa ao seu lado. Assim que me acomodei, ele quis saber se eu tinha avançado nos meus entendimentos sobre o tempo. Confessei que não. O Velho tornou a indagar: “Qual a verdade da rosa?”. Abri os braços em lamento e disse que não achava qualquer graça naquela brincadeira. O meu interesse pelo assunto era sincero. Entretanto, ponderei, talvez somente os tolos queiram conhecer sobre o tempo. O bom monge discordou: “Não. Apenas os tolos têm a pretensão de possuir a resposta definitiva para um tema tão intrigante. O conhecimento do tempo é uma estrada repleta de portais. Em cada qual um enigma. Então, haverá permissão para se percorrer mais um trecho. A estrada é longa, os portais são muitos. O pressuposto para iniciação é saber sobre a verdade da rosa”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Insisti que não fazia sentido. O Velho sorriu com doçura e paciência, como se estivesse diante de um aluno que não aprende porque se nega a pensar de um jeito diferente do qual se acostumou. Com a sua voz serena, comentou: “Talvez Logunan possa lhe auxiliar”. Fiquei atônito.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logunan ou Logunã é um dos Orixás da Umbanda. Os Orixás são energias criadoras e ordenadoras do universo conforme a teologia que estrutura essa religião, que como todas as demais, quando praticadas através dos trilhos do amor, são importantes vias evolutivas e repletas de Luz. Sempre frequentei igrejas, templos, sinagogas, mesquitas, centros espíritas, ordens esotéricas, de diversas vertentes e diferentes tradições, com igual carinho, admiração e respeito. Adoro as Giras de Umbanda como se denominam os lindos cerimoniais, a sua fantástica ritualística e o incrível bem-estar que sinto durante e ao final dos trabalhos. Eu havia estudado um pouco sobre essa maravilhosa religião, que por datar de apenas algumas décadas, possui pouca literatura a respeito se comparada àquelas que estão a milênios no mundo. Todas têm a sua beleza e razão de existir. Sobre Logunan há muito pouca coisa escrita ou revelada. Basicamente, se sabe que é o Orixá responsável pelo tempo e pela fé.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei isso com o Velho. Ele sorriu como quem conduz uma criança a uma descoberta improvável e perguntou: “Por que a energia que conduz o tempo também cuida da fé?”. Eu não fazia a menor ideia, até porque nunca tinha me atentado a esse detalhe. Por perceber que eu não tinha a resposta, acrescentou: “Entender a correlação entre o tempo e a fé irá ajudá-lo a conhecer a verdade da rosa. Então, poderá ter uma melhor noção sobre o tempo”. Sem que eu falasse palavra, ele disse que precisava se preparar para a aula daquele dia. Antes de sair, piscou um olho e disse matreiro: “O tempo urge”. Observei-o saindo da cantina com os seus passos lentos, porém, seguros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu ainda tomava café e navegava em meus pensamentos, quando fui informado que era para entrar em contato com alguém da minha família. Era urgente. A minha avó, que sempre tivera uma saúde privilegiada e uma impressionante vitalidade, apesar da idade avançada, até então, morara sozinha em sua casa em um subúrbio do Rio de Janeiro. Fazia todo o serviço, se mantinha alegre e bem-disposta. Frequentava a igreja do bairro, ajudava nas quermesses e no amparo aos necessitados. A poucas semanas de completar noventa anos, sofrera um derrame. As informações eram que ficaria com sequelas definitivas e passaria a precisar de ajuda. O seu estilo de vida autônomo e ativo chegara ao fim. Um novo ciclo se iniciara para ela por um tempo que ninguém era capaz de precisar. Conversei com uma prima ao telefone. Sugeri que nos reuníssemos para ampará-la. Se todos colaborassem, não haveria sobrecarga para ninguém. Ela me informou que já haviam feito uma reunião e decidiram que a melhor solução era interná-la em uma casa de repouso para idosos. Argumentou que lá teria a devida assistência, pessoas da mesma idade para interagir, atividades ocupacionais e poderíamos visitá-la sempre que quiséssemos, a qualquer dia e hora. Ela me tranquilizou dizendo para eu não me preocupar, pois, dona Valentina, como se chamava a minha avó, ficaria muito bem. Lembrei de como ela tinha sido importante para todos os netos. Quando crianças, passávamos os meses de férias na sua casa para que nossos pais pudessem trabalhar. Ela cuidava da gente com enorme paciência e infinito amor. A minha prima respondeu que não a estávamos abandonando, ao contrário, estávamos oferecendo a ela a oportunidade de ser bem-assistida e usufruir com qualidade o tempo que lhe restava. A casa de repouso era uma das vantagens da modernidade, alegou. Ao final, em tom de crítica, disse que ninguém deveria se sentir culpado. Era a melhor solução para todos. Ela estava sendo honesta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei com um gosto amargo. Tive o ímpeto de retornar imediatamente. Contudo, ponderei comigo mesmo que não havia qualquer razão. A decisão já tinha sido tomada e cabia a mim entender o que toda a família já entendia. Na construção dos meus argumentos pesava também ter de abandonar aquele período de estudos no mosteiro, uma das atividades que eu mais me alegrava em fazer. Terminei o café e fui assistir ao curso. Não consegui me concentrar na aula. No intervalo, fui passear por uma das trilhas da montanha. Eu precisava pensar e compreender o que tanto me incomodava. Uma escolha sensata tinha sido feita e, como disse a minha prima, não podíamos nos deixar conduzir por nenhuma culpa. O melhor estava sendo oferecido à dona Valentina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caminhei até um platô, bem no alto, de onde era possível avistar um lindo vale verdejante aos meus pés. Muitas vezes fui àquele local para refletir. Havia silêncio e quietude. Recostei-me em uma pedra e me deixei envolver pelas vibrações telúricas. Muitas ideias iam e vinham. São muitas vozes que nos habitam e eu vinha aprendendo a conversar com todas elas, identificar as suas origens, acatar algumas e educar outras. Tinha entendido também sobre qual critério usar para escolher quais ideias mereciam acolhimento. Os princípios orientadores eram os mesmos das plenitudes: liberdade, dignidade, paz, felicidade e amor. Um pensamento se fazia presente com muita força naquele momento: dona Valentina sempre fora uma mulher livre. Eram muitas as histórias que mostravam atitudes além do comportamento comum à sua geração. Ela nunca esteve presa ao seu tempo. Pois, viveu de acordo com a sua verdade, revolucionária aos padrões de uma época. Porém, dignos por não prejudicarem ninguém; amorosos por não causarem nenhum mal, salvo a falsa moralidade dos capatazes de plantão; pacíficos, por não insistir que ninguém acompanhasse o seu jeito de ser; feliz, como são as pessoas que fazem girar a roda da vida por acreditarem que a sua própria força lhes concede o poder de voar além do alcance dos estilingues da mesquinharia. Esta força gerada em si mesmo, em plena sintonia com o Universo, se chama fé.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa frase me chamou atenção,&nbsp;<em>ela nunca esteve presa ao seu tempo</em>. Sim, o tempo pode se tornar uma prisão. Quem a libertou foi a certeza de acreditar que em si habitava todo o poder da vida. Desde que não fizesse aos outros aquilo que não gostaria que fizessem a ela, tudo lhe era permitido. Isto se resume em amor. Mas não é pouco; ao contrário, é luz suficiente para iluminar a escuridão do mundo. Outra ideia que me ocorrera merecia análise cuidadosa:&nbsp;<em>quem a libertou foi a certeza de acreditar que em si habitava todo o poder da vida</em>. Isto é fé. Por princípio, por se tratar de uma virtude, a fé é instrumento da Luz e um dos atributos do amor; portanto, a fé é uma indispensável ferramenta evolutiva. A fé são as asas que permitem o voo para além dos muros da prisão do tempo, que se desmancha diante de uma existência compromissada com a evolução do espírito que anima o corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que o tempo pode se tornar uma prisão? A existência é uma experiência de iluminação oferecida ao espírito através do corpo. Quando aproveitada, se liberta do ciclo reencarnatório, como se referem os espíritas, ou da Roda do Samsara, termo utilizado por doutrinas orientais. Do contrário, não consegue avançar até as esferas mais sutis de existência, onde a vida prossegue com maior plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto tempo para o corpo é medido pelos dias e horas planetárias, para o espírito o tempo se mede pelos ciclos evolutivos completados. Este é o tempo cósmico, infinito e libertador. Para tanto, é indispensável descobrir a própria força e aprender a usar este poder. Ele vem através da fé em si mesmo e na Luz que está adormecida em você e em mim. Apenas o amor a desperta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fomos condicionados a interpretar a fé como a crença no divino. Está correto. Acreditar nessa força maior é o ato primordial da fé. Contudo, a fé é mais. Independente da maneira como cada pessoa tenha a sua compreensão sobre Deus, é indispensável que o encontremos em todos os lugares, principalmente dentro da gente. Manifestá-lo através de mim se torna possível tão e somente pelo amor já florescido e aplicado em cada uma das minhas escolhas. O amor vivido é a mais valiosa expressão do sagrado. Esta experiência é revolucionária. A consciência do poder transformador do seu próprio amor se chama fé.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amar mais e melhor me liberta dos limites do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele instante ficou claro a correlação entre o tempo e a fé. Olhei para o céu e sorri sozinho. Talvez, não tão sozinho. Agradeci a Logunan por aquela conexão e clareza de ideias. Era hora de voltar, eu sabia disto desde o início. Pelas limitações físicas que se impunham, dona Valentina, perdera a sua autonomia. Perdera ou lhe tinha sido negada? Embora a liberdade seja do espírito, quando já luminoso, a autonomia fala ao corpo. A palavra&nbsp;<em>autonomia</em>tem origem grega e deriva de&nbsp;<em>autos</em>(próprio) e&nbsp;<em>nomos</em>(regra). Ou seja, viver de acordo com as próprias regras. É um direito que, como tal, se legitima quando conquistado. Valentina tinha construído um jeito singular de ser e viver. Apesar de limitado, em parte, pelas dificuldades físicas que surgiram, de outra, muitas possibilidades ainda me pareciam viáveis a ela. Será que a vontade dela foi incluída na balança das boas e justas decisões ou somente prevaleceu os interesses e a comodidade da família? Quanto a mim, era hora de trocar um prazer de curto prazo por outro de longo alcance. Do contrário, eu ficaria preso ao meu próprio tempo. Entender o significado de cada situação nos permite abrir portas que nem sabíamos que existia. Simplesmente porque não as víamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pleno, como ficamos quando a verdade nos toma de assalto, retornei ao mosteiro. Procurei o Velho para justificar os motivos pelos quais eu interromperia aquele ciclo de estudos, mas que estaria de volta no ano seguinte. Ele franziu as sobrancelhas e disse: “Não há interrupção de nenhuma. Em verdade, neste instante, você está dando prosseguimento a um valioso ciclo de aprendizados. Sempre crescemos quando fazemos o caminho de volta para casa. Elabore e aproveite, filho”. Ao se despedir, o monge acrescentou: “Você está bem próximo de descobrir a verdade da rosa”, me lembrou do enigma ainda não resolvido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Rio de Janeiro, fui direto à casa de repouso. Havia muitos velhinhos internados, todos muito bem cuidados. Alguns alegres e adaptados à nova realidade, outros nem tanto. Fui informado que a minha avó se recusava a sair do quarto que ocupava. Ela tinha os olhos tristes. Pedi que nos deixassem a sós. Trocamos um abraço e algumas lágrimas. Falei que estava ali para levá-la para a sua casa, caso ela assim quisesse. Expliquei que contraria alguns funcionários para cuidar dela, além de fisioterapeuta e fonoaudiólogo para levarem adiante o tratamento necessário. Um grande amigo era geriatra e tinha se prontificado quanto à parte clínica. Eu supervisionaria tudo e a visitaria quase todos os dias. Apesar da dificuldade em articular as palavras, ela disse: “Você terá de se opor a toda a família. Não quero brigas”. Expliquei que acreditava que não haveria nenhuma confusão. No mais, lembrei a Valentina: “Faço por você, mas faço também por mim”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mesmo dia, falei com todos os primos. De fato, não houve briga, apenas pequenas contrariedades. Em síntese, falaram que ao insistir em agir movido por culpa, nada restaria da minha sensatez. Argumentaram que, embora amassem a vovó, não tinham qualquer dívida com ela. Mas que eu fizesse diferente, caso quisesse. Apenas lembraram que a partir do momento que eu a retirasse da casa de repouso, a responsabilidade seria unicamente minha. Falei que tinha consciência disto. Um deles, um pouco mais exaltado, chegou a dizer que&nbsp;<em>lavava as mãos</em>. Nada respondi, mas recordei que essas palavras a História atribuía a Pilatos. Ao contrário do que ele poderia prever, fiquei alegre por estar do&nbsp;<em>outro lado</em>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ser sincero, não foi nada difícil nem dispendioso. Nenhum ato de heroísmo foi praticado. Foi tudo bem simples. Como Valentina recebia uma generosa aposentadoria, o seu dinheiro foi suficiente para cobrir todas as despesas. A mim, coube apenas contratar os funcionários e administrar o funcionamento da casa e dos cuidados que ela passaria a necessitar. Foi tudo bem tranquilo e bem mais fácil do que parecia de início. A minha rotina não quase foi não afetada e as pequenas mudanças trouxeram enorme ganhos pela convivência mais intensa que passei a viver ao lado da minha avó. Ninguém é livre antes de se tornar sábio. Havia uma enorme sabedoria naquela mulher. Foram dias maravilhosos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como é típico nos subúrbios, onde a convivência entre vizinhos é mais intensa, havia uma pequena multidão para recepcionar Valentina. Eu tinha providenciado a limpeza da casa, mas afeto não se compra. Ela ficou emocionada ao encontrar com pessoas que estavam felizes por reencontrá-la. Ficou encantada a ver como estavam bem cuidadas as plantas que tanto gostava. Foi às lágrimas ao lhe entregarem a Frida, a pequena vira-lata que a acompanhava havia anos; sem que ninguém pedisse, uma vizinha ficara cuidando da cachorrinha ao saber da sua hospitalização. Foi uma linda festa, quase tão bonita quanto o sorriso que ela me ofereceu naquele dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À medida que se recuperava, Valentina assumia o comando da casa e da vida. A convivência com pessoas com as quais tinha afinidade era parte vital do tratamento. O poder do amor é incomensurável. Uma parte da melhora eram méritos dos médicos e demais profissionais da saúde, outra, foi de responsabilidade da sua própria consciência desperta. A minha presença não mais se impunha por necessidade, mas por pura vontade. Foram muitas e longas conversas sobre os mais diversos assuntos. Várias histórias divertidas que se perderiam sem aqueles dias encantadores. Entendi como o exercício da autonomia, nos limites específicos de cada corpo, impulsionam o despertar da liberdade, um atributo geral ao espírito que somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Das muitas conversas que tive com a dona Valentina, duas foram angulares para mim. Os primos a visitavam no seu aniversário e telefonavam no Natal. Eu tinha providenciado um bolo para a sua festa de noventa e um anos. Convidei os vizinhos também. Talvez contrariada por eu pensar e agir de modo diferente, uma das minhas primas insistiu no surrado discurso de que a culpa me movia. Sentada em sua cadeira de balanço, mas atenta aos acontecimentos, a nossa avó ouviu e respondeu por mim. Ela falou com a voz serena daqueles que vivem em paz com a própria verdade: “Filha, o que você interpreta como culpa, ele entende como amor. Amor sem comprometimento é amor de superfície”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A outra conversa, foi um pouco antes do dia sem fim, quando ela partiu rumo às Terras Altas. Comentei se havia mágoa pelo fato de ela ter cuidado de todos os netos com tanto amor e receber tão pouca retribuição. Ela arqueou os lábios em leve sorriso e disse com a pureza da alma: “De jeito nenhum. Uma rosa não se lamenta por alguém passar apressado sem reparar na beleza que ela se empenhou em oferecer ao jardim, não se entristecerá por não terem sentido o perfume com o qual ela melhorou o ar que todos respiram, por não terem percebido as cores que ela ofereceu para acrescentar beleza aos dias de toda gente, por não terem entendido que desenho curvo das suas pétalas exaltam o poder infinito da criação. Ela vive em plenitude por oferecer o seu melhor, ainda que ninguém a compreenda. Assim, a verdade da rosa se faz a mesma do Criador: o amor da rosa também iluminará os passos daqueles que negam a luz, mas que muitas vezes, mesmo sem saber, deixaram de tropeçar porque conseguiram ver algo que havia neles e nunca se deram conta. Talvez nunca reconheçam a beleza que a rosa trouxe para as suas vidas, jamais admitam que algumas vezes foram salvos da asfixia por causa do bom perfume da rosa. Não importa, ela conhece a verdade. Isto basta. Este é o seu poder. O único perigo na existência de uma rosa é ela se perder no tempo e morrer ainda em botão. A verdade da rosa a ensina que a fé na sua própria força é o que a fará florir. Ainda que muitos desprezem, não conseguirão impedir. Ela encanta em um lugar onde os brutos não alcançam”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Alguns consideram a rosa frágil, capaz de se despetalar diante de um mero movimento brusco. Não sabem que o poder da rosa reside em sua fé, ou seja, ao florescer, ela irá iluminar muitos corações. Assim, ao contrário daqueles que se acreditam fortes, ela supera o tempo da existência e conquista o direito de entrar na vida. Esta é a verdade da rosa. A força mais preciosa possui uma sutileza ainda pouco perceptível ao nosso tempo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele momento, tive a sensação de que dona Valentina era uma mensageira de Logunan.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo não apenas se explica, mas se define e ganha novos contornos por intermédio da fé. O tempo pode funcionar como prisão ou como asas, a depender do florescimento da rosa. O poder e a verdade em si mesmo revelam a fé. O encontro com a essência cria a sintonia com o Universo. Então, todas as montanhas se moverão para que se possa ver o que está por detrás delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender o significado de cada situação é encontrar o amor oculto no sofrimento de cada pessoa; da sabedoria escondida nas dificuldades de cada dia. Então, toda a escuridão se fará Luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conversei sobre isso com o Velho quando retornei ao mosteiro quase dois anos depois. Ele sorriu e comentou: “Tudo começa, caminha e se encerra no amor, virtude na qual existem diversos formatos de entendimento, dos mais selvagens aos mais sublimes. Há que se ter paciência, pois cada um traz a verdade ao nível da própria compreensão. Os seus primos foram tão honestos quanto você”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esvaziou a caneca de café e concluiu: “A estrada rumo à Luz se faz somente pelos trilhos do amor. A compreensão sobre a fé é o motor da locomotiva a nos conduzir ao destino. O tempo é apenas uma das estações, daquelas que possuem muitas bifurcações para diferentes lugares. Enquanto o maquinista não aprender a fazer a leitura do mapa a viagem não poderá prosseguir”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pediu licença, se levantou e foi embora. Fiquei observando o Velho sair cantina com os seus passos lentos, porém, seguros”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Russellgr &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>A verdade da rosa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2020 10:14:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">A barista deixou sobre a mesa uma xícara grande de café. Um jazz suave tocava ao fundo e o inverno sempre ameno do Rio de Janeiro me anunciavam uma tarde agradável que reservei para mim mesmo. Tirei da mochila um livro que havia algum tempo eu adiava uma desejada leitura. Aquela tarde tinha o carinho de um afago do ego na alma. A poltrona era confortável, o ambiente se mostrava acolhedor e o café estava delicioso. Tenho por hábito ler com um lápis na mão. Sublinho as partes que me chamam a atenção, anoto no canto das páginas as ideias que me ocorrem e faço desenhos para tentar explicar aquilo que não ainda consigo traduzir em palavras. Isto, por todo o livro. Estes são alguns dos motivos que me deixam sem jeito para emprestar livros a pessoas que não tenho muita intimidade, pois, não raro, nem mesmo eu, depois de passado um tempo, me lembro as razões dos muitos rabiscos que tracei. O outro motivo é que costumo muito consultar justamente essas anotações quando escrevo ou mesmo lendo outro livro, me dou conta da conexão de ideias que se integram para formar uma ideia diferente, com mais amplitude e profundidade. Eu tinha iniciado a leitura naquela tarde perfeita, quando rompeu uma violenta discussão na cafeteria. Em tom de voz alterado e palavras agressivas, pai e filho se machucaram. O rapaz, com cerca de vinte anos de idade, foi embora pisando forte; o pai ainda tentou que ele ficasse, pois, alegava ainda ter muita coisa para falar. As pessoas se olharam assustadas, se mostraram aliviadas pelo encerramento da discussão e retornaram aos seus afazeres. Fiz o mesmo. Todos temos problemas, pensei. Bebi um gole de café, deixei que o jazz me embalasse e voltei à leitura. Antes que fizesse mais um rabisco no livro, um impulso me fez tornar a olhar para o homem sentado ao balcão. Ele não conseguia conter as lágrimas. Cada um com os seus problemas, tentei me convencer e retornei à leitura. Os meus olhos teimaram em não me obedecer. Algo no homem me sensibilizara. Tive e tenho diferenças com as minhas filhas; sei que são importantes alavancas evolutivas por nos conduzir para além de onde sempre estivemos, desde que estejamos dispostos a avançar. Por vezes, o sofrimento é tão grande que não percebemos os pés atolados em tantas mágoas; então, acreditamos não existir uma maneira diferente e melhor para se viver, salvo, é claro, se o outro entender as nossas dores, mudar o seu comportamento e nos pedir desculpas. Não! Isto equivale a emperrar a roda da vida. Há uma vida encantadora mesmo sem que o ideal aconteça. O mundo perfeito é o mundo possível. Quando fazemos a rodar girar, a vida se ilumina. Tive um impulso para lhe dizer isso, mas me contive.</p>



<span id="more-3449"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Não devo me meter nos problemas dos outros, já tenho os meus. No mais, ainda corria o risco de ser maltratado ou mal interpretado pelo homem. Voltei ao livro, um universo maravilhoso estava à minha espera. Não naquela tarde. Somos muitos em um, a aldeia que me habita entrou em polvorosa. Alguns dos meus habitantes começaram a trocar ideias, argumentar e ponderar. Lembraram-me de momentos parecidos que passei, de como as falhas de comunicação, as lentes e filtros pelos quais analisamos os acontecimentos e captamos as informações, permitem ou impedem entendimentos mais claros e adequados. Ao mudar as lentes, as cores ficam mais nítidas; ao substituir os filtros poluídos, deixamos de nos contaminar. Pare de ser intrometido e volte à leitura, é isto que você veio fazer, gritou alguém em mim. Você tem que oferecer o seu melhor ao mundo, sugeriu outro habitante. Aprenda a resolver os seus problemas antes de solucionar os dos outros, falou mais um. Balancei a cabeça na tentativa de que eles se calassem, esvaziei a xícara de café, pedi mais uma à barista e mergulhei no livro. Ali eu estaria seguro. Ledo engano. Na primeira linha do parágrafo seguinte estava escrito que o medo é o maior empecilho ao amor. Então, uma voz serena, diferente de todas as demais que tinham palpitado, me lembrou que amor sem envolvimento é poema desperdiçado. Aquela voz era inconfundível, pois vinha da alma. Sim, como sempre, estava repleta de boas razões. Nenhum conhecimento possui valor se não servir de engrenagem a um melhor funcionamento da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esperei que os seus olhos cruzassem com os meus. Eram olhos aflitos a procura de amparo e compreensão. Fiz sinal para que se sentasse à mesa comigo. Ele me pareceu aliviado pelo convite e, sem hesitar, se sentou na poltrona ao meu lado. Quando trouxe o meu café, sensibilizada e atenta à situação, a barista veio com uma xícara para o homem também.&nbsp;&nbsp;Não precisei falar que tinha assistido à discussão dele com o filho, pois tinha sido comum a todos na cafeteria. Esclareci que poderíamos conversar sobre outros assuntos, como modo de ele se acalmar, se assim preferisse. O homem disse que não, pois precisava desabafar e, ainda mais, entender a razão de o filho se comportar de modo tão intransigente. Pedi para que contasse a sua história, não apenas para que eu o entendesse um pouco, mas principalmente para que ele ouvisse a própria narrativa. Costuma ser um jeito valioso para começar a entender a si mesmo. O homem falou muito, era tanto sofrimento que parecia que explodiria se não extravasasse. Em resumo, disse que se divorciou quando o filho ainda era bem pequeno, a mãe ficara muito magoada e, em razão disto, o menino tinha sofrido alienação parental. Segundo ele, a mãe distorcera sua a imagem a ponto de deformá-la em um monstro. Desde pequeno a garoto teria aprendido a odiá-lo. A mãe transferira a mágoa que sentia para o filho. Argumentou que, por mais que fizesse ou falasse, nada parecia ter força suficiente para o rapaz se permitir outro olhar e diferente viés dos fatos. O motivo da briga que eu assistira tinha sido em razão dele ter programado uma viagem com o filho, comprado as passagens, reservado os hotéis, detalhado cada dia do passeio e, na véspera do embarque, naquela tarde na cafeteria, o rapaz comunicou que não iria porque não estava com vontade. Resignado, o homem ponderou que era impossível mostrar ao filho o equívoco que existia enquanto o rapaz se negasse a conviver com ele, uma vez que as palavras já tinham se mostrado insuficientes. Questionava a si mesmo se não era hora de desistir, pois assim sofreria menos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebi um gole de café e indaguei ao homem: “O que desequilibra a balança?”. Ele disse não ter entendido a pergunta. Tentei explicar: “O que nos faz sofrer é aquilo que faz a balança interna desalinhar. Se por vezes nos negamos a ver, em outros momentos enxergamos o que não existe. Fora do equilíbrio, perdemos o prumo. Todos os fatos passam a ter pesos adulterados. A realidade fica deturpada, pois, a verdade descarrilhou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem discordou que isso estivesse acontecendo. Para ele, os fatos eram muito claros. A sua convivência com o filho era desperdiçada em razão de ele ter do pai uma imagem que não correspondia a verdade. Mostrei o meu olhar: “Você pode entender a enorme dificuldade de convivência, repletas de aspectos distorcidos que geram asperezas no trato pessoal e se sentir injustiçado. Isto trará irritação pela maldade praticada e desânimo pela sensação de desamparo provocada. Mas existe também uma possibilidade diferente, ela o levaria a enfrentar a situação como um desafio de aprimoramento”. O homem disse que não estava entendendo. Expliquei ao meu modo: “Veja como se estivesse diante de uma fortaleza quase inexpugnável. Os sistemas de defesa estão todos ativados. Os muros do ressentimento são altos; nas vigias, arqueiros da intolerância; portões pesados do vitimismo se mantêm fechados; na retaguarda, os lanceiros do desprezo para conter qualquer investida. Contudo, em uma sala fechada, existe um tesouro de valor incomensurável, o coração do seu filho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Trata-se uma fortaleza que resistirá aos ataques das verdades lançadas aos gritos, dos melhores argumentos disparados com irritação, da pólvora da pressa daqueles que ainda não aprenderam a lidar com o tempo das horas infinitas. Uma fortaleza que atacada com as bombas da impaciência fará com que o tesouro seja jogado no fundo do poço e nada de valor sobreviva”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não se consegue invadir fortalezas desse naipe, elas precisam ser desmanchadas. Para tanto, há que se mostrar a sua desnecessidade das suas defesas. Para se viver em paz é preciso que não haja movimentos de guerra. Não me refiro apenas ao relacionamento entre pai e filho, mas principalmente na relação intrapessoal, ou seja, consigo mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem me interrompeu para dizer que sempre ofereceu o melhor que havia nele para o filho, contudo o rapaz acreditava que ele fazia por culpa. Contudo, o amor era a sua única motivação, disse com evidente honestidade. Confessou que estava cansado. A cada dia lhe parecia mais intensa a falta de vontade em prosseguir. Argumentei por um viés pouco explorado: “Para se viver o amor é preciso entender o amor. Não é tão fácil como muitos acreditam. Embora, em maior ou menor grau, se trate um lindo sentimento comum a todas as pessoas, o amor também requer sabedoria. O amor se torna pleno à medida que a percepção se amplia e a sensibilidade fica apurada. Por isto se diz que evoluir é amar mais e melhor. O amor é um estilo de ser e viver que se conquista aos poucos”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Algumas das muitas características que esquecemos sobre o amor são a paciência e o equilíbrio que proporcionam quando já florescidos em nós. Ele não se assusta com a mentira nem teme a injustiça; não tem pressa nem desanima. Em sua maturidade, o amor conhece a fé, o tempo e a verdade.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem pediu para eu explicar melhor. Tentei: “A fé traz em si o poder de uma inexorável força cósmica, a Lei da Evolução, a qual estabelece que o melhor irá acontecer, não na régua dos meus desejos, porém, na exatidão das minhas necessidades de aprendizado. No expoente da sua capacidade, ela permite a sintonia fina entre mim e o Universo, em uma mesma voz e movimento. A fé desmancha o medo e sustenta o ânimo; ela oferece a brisa suave da esperança nas tardes em que o calor parece insuportável. A fé nos diz para nada temer nem ter nenhuma pressa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Assim a fé nos conduz ao mistério do tempo. Ele nos ensina que o amor é dócil, mas não é subserviente; tem infinitas reservas de paciência e tolerância, mas age com bom senso e firmeza; não negocia com as sombras nem com o mal. É manso sem jamais deixar de ser corajoso. O tempo mostra que o amor somente se faz perfeito através das suas imperfeições. No amor o tempo nunca se mede pelas horas, mas somente pelo bem compartilhado.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O tempo, não dos dias, mas do amor florescido na alma, nos encaminha até a verdade. Esta, nos liberta do sofrimento. Nenhuma dor tem como causa o amor. Todo o sofrimento tem raízes no egoísmo, nos condicionamentos ligados ao medo e à dominação, no apego injustificado de perder aquilo que não se pode possuir pela imaterialidade do objeto, no ciúme que aprisiona, no orgulho que confundimos como respeito e na vaidade que nos engana. Ficamos frágeis e dependentes. Nasce a dor à medida que não conseguimos enxergar o amor. O sofrimento mostra o equívoco no trato com o amor e o quão distante estamos de entender o significado de todas as coisas. Este é o código da vida: o amor oculto em cada situação. Do contrário, não chegaremos à verdade. Encontro com a verdade no mesmo dia que consigo ficar face a face com à minha essência. Para tanto, preciso de cada uma das virtudes que compõem o amor, sem as quais ele não se completa. Todos nós amamos desde sempre, contudo, quando consigo amar com simplicidade, humildade, compaixão, pureza, sinceridade, misericórdia, delicadeza e coragem, já não é um amor que tenha pernas. Ele descobriu as suas asas.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Portanto, pouca importância tem se o seu filho acredita que os seus gestos são movidos por culpa, como talvez seja confortável a sensação de vitimismo que ele se acostumou e lhe traz conforto. Você sabe do amor que o movimenta a ir ao encontro do rapaz; por ora, isto basta. Para ele, a ilusão de que a vida é ruim porque existe um vilão que o impede à felicidade pode trazer alguma comodidade, mas causa uma nociva estagnação. Iremos apodrecer até entender que o bandido de nossas vidas não está no mundo, mas se faz presente por intermédio das crenças paralisantes e das influências abusivas que as nossas próprias sombras exercem na forma como lidamos com a realidade”. Fixei os meus olhos nos do homem e o lembrei: “A você, vale a consciência em relação ao amor que orienta as suas próprias escolhas.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ainda que nas necessárias incursões que precisamos fazer ao nosso passado para cicatrizar cada uma das feridas que sagram, você venha se deparar com antigas faltas, não se assuste nem fuja. A ausência de erros é um privilégio com o qual ninguém foi agraciado. Peça desculpas e se perdoe também, todos temos as nossas dificuldades. Assuma a responsabilidade perante a si mesmo de fazer diferente e melhor daqui por diante. O compromisso com o presente precisa bastar para que o passado não seja o peso a desequilibrar a balança. Isto costuma causar constantes sofrimentos. Tenha consigo a segurança e a serenidade proporcionada pela fé, pelo tempo e pela verdade. Então, você terá a leveza típica das manhãs de sol, mesmo durante as mais severas tempestades.”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem insistiu que a reconciliação com o filho seria impossível enquanto a mãe do rapaz continuasse a distorcer a sua imagem como pai. Ponderei: “Quem traz consigo a fé, o tempo e a verdade sabe que o uso inadequado cega o fio da espada. Apenas viva sem pressa, sem medo e nunca desista de usar o amor como mapa, bússola e estrada. Assim, nele você também encontrará o seu destino”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele insistiu que o ódio da mãe que contaminava o filho parecia sem fim. Lembrei ao homem: “Sem dúvida, o ódio causa muito estrago, mas o seu poder em algum momento se esgotará. Perceba a oportunidade e se prepare. Neste dia, esteja com os braços e o coração abertos para acolher o seu filho, sem permitir que a mágoa se revigore em sentido inverso e se volte contra a mãe. Dê um fim ao sofrimento de todos. Acredite, ela é uma das pessoas que mais sofre. Do contrário, não faria o que faz. Ter compaixão não é ser permissivo ao mal, mas ser compreensivo quanto as dificuldades alheias, até por ter consciência que não podemos exigir a perfeição que também não temos para oferecer. Há que se ter percepção e sensibilidade. Após a humildade, a compaixão é o próximo dos degraus fundamentais ao indispensável perdão, uma linda maneira de amar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficamos sem dizer palavra por longos minutos. Ele precisava concatenar aquelas ideias e as alocar nas gavetas da sua existência. Seria preciso elaborar cada uma delas para que as experiências vividas revelassem os segredos que ele ainda precisaria decodificar se quisesse avançar rumo ao entendimento de si mesmo. Ninguém melhor do que as pessoas com quem convivemos para nos dificultar a encontrar os códigos da vida. Somente assim, teremos acesso aos portais da fé, do tempo e da verdade. Isto nos fará amar mais e melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem esvaziou a xícara de café, tornou a me olhar e perguntou quanto tempo teria de esperar até que a situação mudasse e pudesse ter uma convivência saudável com o filho. Fui honesto: “Não tenho a menor ideia, caso você use a régua dos dias. Esse tempo também será amargo se for as horas da vingança e trará ansiedade quando se tratar de um mero desejo. Se quiser utilizar uma melhor medida, arriscaria afirmar que seriam as estações que o jardineiro aguarda enquanto se encanta ao ver a semente se transformar em flor e depois em fruto. O tempo da criação é aquele que se revela e se manifesta em amor. Então, não terá existido tempo nenhum”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele sacudiu a cabeça e afirmou que eu estava sendo muito poético e nada pragmático. Discordei: “Precisamos da arte para nos ajudar a despertar o sentido oculto da vida, o leito onde a verdade adormece. Precisamos da arte para ir onde a objetividade não alcança, explica nem satisfaz. Arte não é uma fuga da realidade, mas parte da alquimia necessária ao chumbo para se transmutar em ouro”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resignado, ele afirmou que era preciso entender a busca inútil e saber a hora de desistir. O homem agradeceu o café e a conversa, mas precisava ir embora. Antes de ele sair, argumentei: “O que resta a uma rosa se ela desistir de florir?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele me ofereceu um olhar triste, talvez o único que tivesse naquele momento, nada disse e saiu. Observei-o pela janela da cafeteria até que desparecesse na multidão. Com o lápis, rabisquei no livro uma indagação:&nbsp;<em>qual a verdade da rosa?</em>Eu precisaria desta resposta mais à frente e para sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Richard Kemp&nbsp;&nbsp;</p>
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		<pubDate>Thu, 30 Jul 2020 09:02:23 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">Um grande amigo tinha partido de viagem rumo ao&nbsp;<em>Grande Mistério</em>, termo usado por Canção Estrelada ao se referir a outras dimensões de existência.&nbsp;<em>Mistério</em>também era a palavra utilizada por Li Tzu para traduzir o&nbsp;<em>Mundo Invisível</em>no Tao Te Ching, como dizia o Velho. Loureiro gostava de usar o termo&nbsp;<em>Universo</em>. Correntes religiosas se valem de diversas nomenclaturas, desde&nbsp;<em>Céus</em>até&nbsp;<em>Esfera Espiritual</em>. Os nomes são muitos, assim como inúmeros são os caminhos que conduzem ao mesmo destino, para o qual múltiplas escalas se fazem necessárias. Fausto era um amigo muito querido. Alegre, carinhoso, sempre bem-humorado e com uma palavra de incentivo ou um elogio com quem conversava. O seu olhar apurado lhe permitia a clareza de enxergar as virtudes das pessoas e o lado bom de todas as situações. Chamava a todos pelo diminutivo como demonstração ao afeto sincero que sentia. Tinha enorme facilidade em fazer novas amizades, assim como se dedicava a cultivar as antigas. As pessoas gostavam de estar ao seu lado. Não é difícil imaginar a multidão presente ao seu funeral. Alguns choramingavam pela sua partida, outros lembravam histórias divertidas vividas ao lado dele. Eram muitos casos e aventuras. Troquei algumas palavras com a viúva, amparada por um grupo de amigas, dedicadas em ofertar o conforto emocional necessário em um momento tão delicado. Depois, fiz uma prece rogando por uma transição suave ao meu amigo. Na imensidão do silêncio, pedi que ele seguisse aproveitando a vida após a existência com a alegria de sempre. Foi quando tive atenção desviada para Tiago, o seu filho adolescente, sentado sozinho em um canto. Diante de tamanha emoção e com tanta gente que se conhecia reunida, todos com uma enorme necessidade de ressaltar a memória de Fausto, que Tiago acabara esquecido. Ele tinha um temperamento tímido, de poucas palavras e amigos, bem diferente do pai. O fato de nunca ter exigido ou chamado atenção para si, talvez tenha contribuído para que não lhe dessem atenção naquele momento. Os olhos tristes espelhavam o exato sentimento do seu coração. Aproximei-me e abri os braços. Ele se levantou e trocamos um forte abraço. Sou apaixonado por abraços pela maravilhosa sensação de aconchego que proporcionam. Com a cabeça encostada em meu peito, Tiago chorou de soluçar. O pranto estava contido, como um rio represado. As comportas se abriram e a energia mostrou a sua natureza. Embora eu quisesse cumprir o protocolo típico aos funerais, não me ocorreram palavras para arrefecer o seu sofrimento. Apesar de estar com vontade de conversar com alguns colegas ali presentes, e eu não os encontrava havia muito tempo, preferi me sentar ao lado do Tiago. Mesmo sem dizer palavra.</p>



<span id="more-3443"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Em silêncio, eu tinha a intenção de ofertar toda a solidariedade possível com a minha proximidade física. Nunca gostei de discursos nos quais a solidariedade é praticada à distância do tipo&nbsp;<em>meu coração está contigo</em>ou&nbsp;<em>estou presente em espírito</em>. Não que sejam mentirosos, creio em suas honestidades. Contudo, não bastam. Estamos na matéria, vivemos na terceira dimensão. Temos um corpo sólido. Isto faz da presença e do contato físico um diferencial indispensável. Nem sempre é possível estar presente, mas diante da menor possibilidade, jamais devemos nos abster. Aprendi isso quando em determinada ocasião, ainda muito jovem, me vi diante de uma enorme tristeza e, mais grave, completamente perdido, sem ter noção de qual rumo tomar. Algumas pessoas empenharam palavras de consolo e disseram que eu poderia procurá-las se sentisse vontade. Elas estavam sendo sinceras e havia valor nisto. Contudo, eu precisava de um novo caminho e isto ninguém poderia me oferecer. Todos os dias, no final da tarde, hora na qual a tristeza era avassaladora, eu ia andar na praia. Por algum motivo que não sou capaz de explicar, esse ritual me trazia algum conforto. Ao saber disso, o Augusto, um amigo de infância, sem nada combinar comigo, passou a me esperar em um determinado ponto do trajeto todos os dias. Ao me encontrar, sem nada dizer, seguia ao meu lado, ombro a ombro. Ao terminar, cada um rumava para a sua casa. Nunca trocamos uma única palavra nesses passeios diários que se estenderam por meses. Na sua sabedoria, Augusto entendia que não havia nada a acrescentar a tudo que me tinham dito. Ele sabia que eu precisava de tempo para metabolizar os fatos, entender o significado deles, transmutá-los em mim e encontrar o sentido que me faltava. Não era hora das palavras, mas do movimento para me mostrar que eu jamais estaria sozinho. A sua atitude foi inestimável pelo conforto emocional que me proporcionou. Quando o coração serena, a mente fluí com leveza. Por mais valiosa que fossem as palavras e as orações, e são, a presença física foi o diferencial. Ela me ofertou o apoio que não cabiam nas palavras. Foi o amor que eu precisava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei sentado ao lado de Tiago por minutos que não sei precisar. Quando os funcionários do cemitério levaram o corpo do pai para a cremação, ele procurou pela minha mão e a apertou forte. Vi uma lágrima escapar dos seus olhos. Era um momento difícil e quase pude sentir a sua dor. Aos poucos, as pessoas se retiraram. Ao final, ficou a mãe amparada pelas amigas mais íntimas, além de nós dois. Ao perceber que ela se levantava para ir embora, Tiago perguntou se poderia conversar um pouco comigo. Falei que estava ali também para isso e, se ela permitisse, depois eu o deixaria em casa. Era uma conversa que eu nem sabia por onde começar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi Tiago que a conduziu. Ele quis saber se conversaríamos ali mesmo. Dei de ombros e falei que seria onde ele se sentisse mais à vontade. O rapaz, ainda na faixa dos dezesseis anos de idade, me perguntou se me incomodava o fato de estar em um cemitério. Expliquei o meu ponto de vista: “Sem dúvida, é um lugar que remete muitas pessoas a emoções dolorosas, também em razão de a questão da morte não restar bem resolvida para muita gente. Creio que traz a equivocada sensação de se tratar de um terreno mal-assombrado, dominado por energias densas. Também pensava assim, mas reescrevi essa ideia. Os antigos sábios chamavam o local onde estamos de&nbsp;<em>Campo Santo</em>e o faziam com muita razão”. Como os seus olhos demonstravam interesse, prossegui: “Poucos lugares são tão protegidos no plano etéreo como os cemitérios. Poderosos guardiões que trabalham a serviço da Luz atuam incessantemente para proteger os espíritos que já não estão acoplados ao corpo, mas ainda não se desprenderam deste plano por algum motivo. Como estão desorientados da sua nova realidade, ficam vulneráveis a ataques de entidades sombrias e precisam de muita proteção até estarem prontos para o momento de serem encaminhados a outras esferas existenciais”. Em seguida, acrescentei: “Isso é apenas um resumo bastante sintético de um assunto muito complexo e que envolve vários outros aspectos importantes. Existe uma literatura muita séria sobre o tema que, se houver interesse, posso lhe emprestar alguns livros”. Fiz uma pausa e concluí: “Digo isso apenas na tentativa de desmistificar o medo e o preconceito que causam sensação de mal-estar em algumas pessoas ao entrar em um cemitério. Assim como as igrejas e templos de Luz, ou mesmo santuários naturais como mares, rios e montanhas ou catedrais como praias, cachoeiras e florestas, todo solo sagrado deve ser pisado com muito respeito pelo sagrado que ancora, guarda e representa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tiago disse que, diante do exposto, gostaria de continuar a nossa conversa ali mesmo. Sugeri que fôssemos nos sentar em um dos vários bancos espalhados pelas vielas que cruzavam o enorme gramado. Devidamente acomodados, ele me perguntou a razão de pessoas boas morrerem, enquanto pessoas más continuavam vivas. Mostrei o meu olhar: “Todos morrem, os bons e os maus. A morte não é algo ruim. Sustentamos esse conceito em razão da nossa ótica predominantemente existencialista e, por consequência, de apego excessivo à matéria. Este planeta é uma escola formadora de grandes mestres, no entanto, o currículo é extenso e os alunos nem sempre dedicados. A morte é um ato de amor e sabedoria da vida para conosco”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tiago pediu para eu explicar melhor. Tentei: “Diversos bons motivos podem ser listados. Desde a recomeçar em diferentes condições de existência como maneira de ajudar a alavancar novos ciclos evolutivos até a indispensável regeneração de forças para prosseguir a jornada planetária no expoente das suas capacidades. Entretanto, o motivo que aos meus olhos mais demonstram o amor e a sabedoria da morte como leal aliada da vida é a inevitável lição que teimamos em não aplicar no cotidiano: o valor real e infinito das virtudes agregadas ao espírito diante da mera aparência, finitude dos prazeres meramente físicos e da riqueza material. Neste assunto a morte é professora”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Neste ponto da narrativa se faz indispensável um parêntesis para explicar ao leitor uma aparente contradição, da qual não seria justo fugir ao debate. Nos parágrafos iniciais do texto eu falo sobre a importância do abraço e do contato físico no dia a dia da existência. Nos trechos seguintes, ressalto o valor do espírito sobre a matéria. Talvez fosse a hora de demitir o autor por absoluta incoerência. Antes que façam isso, e com aparente razão, deixem eu me explicar. Prometo que serei sucinto pela clareza das ideias que me habitam quanto ao assunto. Espero que eu tenha capacidade para transmiti-las de modo que pareçam sensatas e compreensíveis.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O valor do espírito sobre o físico é inquestionável, seja por sua infinitude, seja pela riqueza imperecível que são as percepções ampliadas e as virtudes sedimentadas à alma na viagem rumo às Terras Altas. Nada mais é meu; salvo quem eu sou. Sou tão e somente a intensidade da Luz que já resplandece em mim. Tudo o que é sólido se desmancha pela ação do tempo. Assim, todas as coisas do mundo apenas nos servem como instrumento de aprendizado. No entanto, prestemos atenção a um detalhe que todos sabem, mas parecem esquecer: pessoas não são coisas. Cada ser é parte de um mesmo Todo do qual o leitor e eu também pertencemos. Esta parte a qual me refiro é o espírito que anima o corpo que usamos; embora o corpo apodreça, o espírito se manterá infinitamente vivo, aprisionado em suas próprias sombras ou impulsionado pelas virtudes agregadas. Como partes isoladas, viajamos ao encontro do Todo e nos integramos à medida da nossa própria evolução. Mas o que é evoluir se não for amar mais e melhor? O planeta não é um colégio de futuros mestres como você e eu? Dessa maneira, o contato físico tem a finalidade primordial de nos ensinar alguns dos muitos aspectos que ainda desconhecemos sobre o amor. Precisamos entender o amor através do corpo como pressuposto para o conhecimento do amor além do plano material. Não se aprende trigonometria antes de conhecer as operações básicas da matemática. Um degrau por vez. Aprendemos quando damos e também quando recebemos; o toque, o sorriso, o abraço, o olhar e o beijo nos emocionam e tornam o amor perceptível; fora disto, o amor ainda é irreal na infância da alma. Por desfaçatez, usamos a tese do amor incorpóreo como desculpa para justificar a preguiça, o comodismo e adiar a atuação do amor como movimento físico. Assim, desperdiçamos inúmeras oportunidades para aprender a amar mais e melhor.&nbsp;&nbsp;Aqui fecho o parêntesis na esperança que o leitor siga me acompanhando na narrativa, daqui por diante não mais como espectador, mas como cúmplice do amor que tento entender.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tiago quis saber qual o meu olhar em relação ao seu pai. Fui sincero: “Existe muita complexidade entre a aparência e a realidade de qualquer pessoa. Tanta, que a maior e a melhor parte de mim mesmo ainda desconheço. Quanto ao Fausto, uma característica marcante da sua personalidade era a arte da delicadeza, uma virtude típica daqueles que cuidam do mundo como um jardineiro demonstra a importância das flores pela atenção dedicada a cada uma delas. O seu pai fazia isso sem qualquer esforço, pois era um atributo verdadeiro sedimentado ao seu espírito. Todas as pessoas se sentiam valiosas ao lado dele. Vale ressaltar que não havia qualquer demagogia, eram gestos genuínos e autênticos. Os seus olhos atravessavam as paredes grosseiras da aparência para enxergar a fragilidade dos corações aflitos. Uma capacidade de ver típica de uma alma já florescida”. O rapaz me olhou com curiosidade e comentou que o seu pai sempre usava a palavra&nbsp;<em>florescer</em>quando o orientava em relação à vida: “<em>Floresça, filho!</em>Ele me aconselhava”. Esclareceu que nunca entendeu o exato alcance desse verbo, florescer. Tentei explicar: “Todo verbo significa uma ação. Portanto, exige um movimento intrínseco para que se complete em atitude”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse instante me dei conta que amar também é um verbo e para que realize a migração do onírico até a realidade necessita de um gesto efetivo para movimentar esse sentimento de dentro para fora, sem o qual não se completará.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, questionei ao Tiago: “Quando dizemos que uma rosa floresceu, qual o significado da expressão?”. O rapaz respondeu que a rosa, até então em botão, permitiu que toda a sua beleza se revelasse ao mundo. Os olhos do rapaz mostravam o entendimento que se anunciava à medida que o traduzia em palavras. A mim, bastou acrescentar: “Florescer é desabrochar todo o potencial que guardo em semente. É descobrir o meu dom, aceitar os meus sonhos, entender a força das virtudes, revelar a minha essência, fazer de mim a minha melhor invenção”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É suavizar a aspereza de todas as minhas relações, é cegar o fio da navalha por entender que posso oferecer a outra face, a face da luz, nos momentos em que a escuridão se avizinhar. É desatar os nós das mágoas que tanto me amarram e me impedem de prosseguir com a leveza necessária, sem a qual não conseguirei encantar o mundo com a beleza da minha essência nem me deixar encantar pelas maravilhas da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Florescer é a expressão maior da vida e o significado para a existência da semente. Acontece quando a essência germina em luz”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com lágrimas nos olhos, o rapaz afirmou que o seu pai tinha florescido: “O mundo era um lugar melhor quando estávamos ao lado dele”. Balancei a cabeça, era impossível negar. Tiago continuou: “As ideias ficavam claras, os sonhos se mostravam possíveis e a vida se alegrava”. Fez uma pausa para concluir o conceito de florescimento de Fausto: “O coração do meu pai era um bom lugar para se viver”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não havia como discordar, mas cumpria lembrar de dois aspectos fundamentais: “O seu coração também precisa se tornar um bom lugar para você morar e acolher o mundo. Do contrário, não existirá qualquer florescimento. No mais, jamais esqueça que não há duas espécies iguais, cada flor é única e nisto reside o seu encanto e beleza. Inspire-se no seu pai, mas seja quem você veio ser. Desenhos, cores e perfumes, para florescer será preciso amar aquilo que nos faz diferentes, pois somente assim poderemos acrescentar a parte que nos cabe e ainda falta ao Todo. Não há maravilha maior. Fora disso, a vida se resume em plágio”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entardecia. Estava na hora do&nbsp;<em>Campo Santo</em>fechar as suas portas ao público para reabrir no dia seguinte. Não trocamos palavra até o momento que o deixei em casa. Tiago agradeceu a conversa e, antes de se despedir, comentou: “Meu pai me deixou de herança a orientação essencial para a vida:&nbsp;<em>Floresça, filho!</em>Em uma frase, ele me ensinou a como encontrar um rumo”. Com os olhos marejados, vi quando a mãe o recebeu com um abraço e eles entraram. A semente estava em solo fértil.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Andrea Simon &#8211; Dreamstime.com&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>A Teoria da Teia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2020 09:11:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Conforme narrado no texto&nbsp;<em>O Significado</em>, eu estava sentado à mesa de uma cafeteria, que ao final da tarde se tornava uma vineteria, ao lado de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, e Sofia, sua sobrinha. Encerrávamos uma interessante conversa sobre a importância de entendermos o significado de todas as nossas experiências para que possam servir ao processo evolutivo, quando sugeri que esta ideia possuía muitos pontos em comum com a Teoria da Teia. Loureiro concordou e Sofia quis saber mais sobre o assunto. Expliquei a ela que se tratava de conhecimento em uma área delicada, pois envolvia questões metafísicas e eu, confessei, não me sentia à vontade de abordar aspectos interdimensionais em qualquer lugar em razão do ceticismo e desconfiança com os quais muitas vezes são recebidos. “Em razão de certos vieses do existencialismo e do materialismo reinantes, quando agrego metafísica à filosofia, muita gente me olha como se eu fosse doido. Não que eu me importe com isto, mas não há razão para desperdiçar tempo com um assunto que as pessoas não se interessam”, argumentei. Eu a alertava para a conversa que viria pela frente, caso Sofia insistisse em saber um pouco mais. A moça riu e brincou ao dizer que adorava papo de maluco. Depois, disse com seriedade que gostava de ler sobre metafísica, embora ainda tivesse dificuldade em entender muitos conceitos de um universo que lhe parecia bastante complexo. E é.</p>



<span id="more-3436"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Decidi ilustrar a teoria com uma história que me havia sido contada por Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo. Fechei os olhos e me esforcei para lembrar das suas exatas palavras: “Quando os bisões ainda pastavam tranquilos pelas planícies e não era possível contá-los, existia uma aldeia muito próspera e alegre. Os seus habitantes tinham desenvolvido técnicas para o plantio do milho e do trigo que proporcionavam safras muito fartas. Durante anos, o excesso da colheita era vendido em mercados comuns às aldeias vizinhas. Os lucros eram repartidos e serviam para adquirir diversos outros bens de consumo, como ferramentas, adornos e peças de vestuário. Mesmo durante o rigoroso inverno da região, todos sorriam, a aldeia não conhecia qualquer dificuldade e vivia em constante harmonia. Os equinócios eram comemorados com festas maravilhosas que duravam vários dias, uma homenagem à regeneração e fartura da vida. Até o dia em que cacique, um homem justo, sábio e amoroso que sabia entregar a exata parte de cada um e acolher a todos em seu coração, teve de partir em viagem ao encontro do Grande Mistério”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Um novo cacique seria escolhido para ocupar o lugar daquele que partiu. Assim a vida se renova infinitamente. Vários habitantes se candidataram e logo expuseram as qualidades que acreditavam possuir para um cargo tão importante. Não demorou para que a harmonia desparecesse e a aldeia se fracionasse em vários grupos. A boa camaradagem, antes comum como a relva, se tornou artigo raro. Ninguém mais prestou atenção ao canto dos pássaros, sentiu prazer em uma cavalgada descompromissada, se encantou com a lua crescente nem lembrou de agradecer ao sol por sua luz e calor. Ao perderam contato com a terra, se distanciaram de si mesmos e, com isso, os sorrisos desapareceram. Ainda era uma aldeia rica, mas deixara de ser próspera. O mel da vida amargara”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Foi quando chegou a notícia que uma tribo distante, conhecida por sua ferocidade, dedicada ao ofício da guerra, pois nada produzia, apenas tomava dos outros aquilo que precisava ou tinha vontade, marchava para invadir a aldeia. Eles precisavam se proteger, pois sabiam que se não conseguissem, o destino lhes reservaria cinzas, lágrimas, miséria e escravidão. No entanto, ao invés de se reunirem em um mesmo propósito, intensificaram as disputas internas, movidos pelo orgulho e vaidade. Brigavam por quem seria o escolhido que traçaria as estratégias de defesa, lideraria a aldeia e ficaria com a fama da vitória. As discussões se acirraram ao limite. Em condições normais, a tentativa de invasão não traria qualquer ameaça grave, pois o antigo chefe sempre cuidou da sua proteção com o mesmo equilíbrio que se dedicava às plantações. Contudo, guerreiros se preocupavam mais em discussões acaloradas do que em afiar as suas lanças, havia uma preocupação maior com os louros da vitória do que com a proteção das crianças”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Os dias correram rápidos como acontece com dias assim. Até que souberam da proximidade da tribo invasora. Faltavam duas noites para o ataque. Os cuidados necessários para a defesa tinham sido relegados. Não havia mais tempo para a preparação devida. Naquele momento, não mais acreditavam ser capazes de cuidar da aldeia sozinhos. O berço do desespero é a crença na incapacidade das suas próprias forças. Lembraram de pedir auxílio ao xamã que até então permanecera quieto, em silêncio e apenas observava. Somente os poderes do mundo invisível poderiam salvá-los do pior. O xamã recebeu em sua tenda a comissão que se foi solicitar ajuda. Ouviu os pedidos e, ao final, mostrou a eles a razão pelas quais se encontravam em uma situação que não precisariam estar. A discórdia e a intriga, alimentadas pelo orgulho e pela vaidade, tinham sugado a força vital da aldeia. Se estavam fracos, era por causa de terem se afastado dos seus próprios corações. Disse que iria ajudá-los, mas era fundamental que tivessem aprendido a lição, pois precisariam dela para sempre”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Pediu que todos se embrenhassem na floresta e trouxessem a maior quantidade de cipó possível. Naquela mesma tarde, uma quantidade descomunal de cipó se espalhava pelas ruas da aldeia. O xamã pediu que fosse trançado uma enorme teia, de uma malha tão fina que nem mesmo um pequeno esquilo pudesse atravessar. A teia teria um tamanho capaz de cobrir toda a aldeia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Assim foi feito. Trabalharam durante toda a noite e no amanhecer do dia, a enorme teia estava pronta. Não havia tempo a perder, a tribo invasora marchava a poucas horas dali. O xamã explicou que a teia seria erguida por sobre a aldeia e os guerreiros a manteriam firme, cada um segurando uma das suas múltiplas pontas. Se a aldeia permanecesse unida em uma mesma ideia e sentimento, ficaria invulnerável. Mas se uma das pontas rompesse, a teia se fragilizaria e, na sequência, poderia se rasgar. Então, não teria como conter os invasores. Em seguida, enfeitiçou a teia e os guerreiros que tinham a função de sustentá-la, tornando-os invisíveis aos inimigos. Disse também, que o comportamento de cada habitante em apoio a difícil missão dos guerreiros era igualmente fundamental”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando os invasores chegaram, a teia envolvia a aldeia e, firme em cada um dos pontos mantidos pelos guerreiros, manteve a aldeia incólume à selvageria da tribo assaltante. Alguns dias se passaram sem qualquer sucesso para os invasores, que eram impedidos de avançar além das malhas finas e fortes da teia protetora. Dentro da aldeia, os demais habitantes que se dedicavam a alimentar os guerreiros para que suportassem a difícil missão, começaram a acreditar na, até então improvável, vitória. Mesmo antes do perigo cessar, reiniciaram a discussão sobre futura liderança da aldeia. As brigas voltaram e esqueceram de alimentar os guerreiros. Enfraquecido, um deles não conseguiu manter a ponta da teia que segurava, sendo o suficiente para que alguns invasores penetrassem na aldeia. Eles foram contidos pelos guerreiros que ficaram na retaguarda. No entanto, a ponta rompida os fez recordar a sensação de perigo: a retorno do medo gerou o pânico. Os habitantes voltaram a desacreditar nas suas forças e esqueceram o indispensável propósito de unidade pedido pelo xamã. Agora, apenas pensavam em escapar levando as posses que podiam carregar. Um grupo deles, na fuga, derrubou um guerreiro que sustentava outra das pontas da teia. Aproveitando-se disto, mais invasores entraram na aldeia. Contudo, também foram impedidos de avançar em função do bom trabalho realizado pela retaguarda cuidadosa. Ocorre que com duas pontas soltas, acabaram por sobrecarregar os guerreiros que sustentavam outras pontas próximas àquelas. Eles não conseguiram manter a missão pelas quais estavam encarregados. A teia se rompeu e, desta vez, a retaguarda não foi suficiente para conter o número crescente de invasores. A aldeia sucumbiu. Restou cinzas, lágrimas, miséria e escravidão. Muitos até hoje acreditam que o problema estava na fabricação da teia ou na incapacidade do xamã”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro, embora ouvisse com atenção, já conhecia aquela história. Sofia a ouviu atentamente e, ao final, pediu por mais detalhes sobre a Teoria da Teia. “Na casa do meu pai tem muitas moradas”, citei uma conhecida fala de Jesus narrada nos Evangelhos canônicos para introduzir o assunto. Sofia entendia que o mestre se referia aos muitos destinos possíveis após o final de uma existência. Concordei: “Sim, me parece uma interpretação correta, embora o assunto mereça maior amplitude e permita outras abordagens, todas bem interessantes. O que me chama atenção na frase proferida é a realidade de múltiplas dimensões cósmicas de diferentes padrões vibracionais. Cada dimensão, uma morada. Todas essas dimensões, em maior ou menor grau, sutis ou densas, estão ou podem entrar em conexão conosco, exercendo uma enorme e, muitas vezes, impensável influência em nossas vidas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todas as pessoas, desde o nascimento, trazem consigo uma egrégora”. Sofia me interrompeu para dizer que nunca tinha ouvido aquela palavra. Expliquei ao meu modo: “Em resumo, egrégora é um campo estrutural vibracional que possui afinidade com uma alma. São energias de diversos matizes, fundamentalmente construídas com o intuito de iluminar, intuindo e orientando escolhas, e também de proteger, evitando ataques e influências prejudiciais ao ciclo evolutivo daquele indivíduo. Para tanto, se forma em torno dele uma teia energética de luz e de defesa que, embora real e até mesmo tangível, com vários níveis de interação, é imperceptível aos olhos humanos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Contudo, a manutenção dessa teia dependerá exclusivamente do padrão intelectual, emocional e ético do indivíduo. É a importante parte que lhe cabe. Os seus pensamentos e escolhas podem intensificar o tráfego entre as dimensões, auxiliando na expansão de consciência, na percepção da verdade e, com isso, desmanchar sofrimentos, além de otimizar ciclos evolutivos ao fomentar o florescimento de virtudes. As intuições, uma valiosíssima linguagem na qual o ego consegue escutar a alma, também se manifesta em diálogo cada vez mais alto e claro com sua egrégora. Outra função de extrema importância de uma egrégora é fortalecer o sistema defensivo, pois sofremos constantes ataques oriundos das dimensões mais densas. A proteção oferecida pela egrégora dependerá da capacidade de percepção e sensibilidade, assim como do comprometimento do indivíduo para entender-se mais profundamente e oferecer ao mundo, com a maior amplitude possível, as flores que consegue germinar todos os dias em seu coração. Uma pessoa com uma egrégora fortalecida e luminosa é como uma casa montada em alicerces firmes, paredes robustas, ambientes claros e jardim florido. Não há noite que a assuste, pois terá sempre consigo a sua própria luz”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Como vimos, existe uma constante e intensa sintonia entre os hábitos de pensar, sentir e agir do indivíduo com a sua egrégora. De outro lado, a teia pode se romper ou mesmo se desintegrar como consequência do seu comportamento. Então, ele ficará vulnerável aos mais diversos ataques e influências”. Sofia ponderou: “A minha avó me ensinou a rezar para o meu anjo da guarda para que ele sempre me proteja e ilumine. Tenho esse hábito desde criança e me sinto bem”. Expliquei: “A sua avó era sábia em seus conselhos. O anjo da guarda está presente em diversas tradições religiosas, embora surja com diferentes denominações e roupagens. O anjo da guarda tem importante papel na egrégora de uma pessoa. Embora não vá abandonar a missão a que se propôs, ele tem sérios compromissos com dimensões mais elevadas e não pode descumprir uma determinação superior fundada nas leis cósmicas de justiça, sabedoria e amor. Não raro, ele não conseguirá impedir um efeito desastroso cuja causa provocamos. Trata-se, em análise aprimorada, de indispensável correção de rota sem a qual não iremos rever comportamentos sombrios nem nos descolar de conceitos obsoletos, dos quais ainda não percebemos o grau de insalubridade. Não esqueça: educar é tornar melhor e, por isto, se faz sagrado. Não lamente; lembre de agradecer e aprenda”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em analogia à história de Canção Estrelada, ela comentou que, se acontecer da egrégora se romper, foi porque, assim como os habitantes da aldeia que precisavam cuidar dos guerreiros para manter a teia firme e forte, nos descuidamos e acabamos por nos afastar da Luz que nos orienta e protege. Sofia tinha entendido a teoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis adicionar mais um detalhe: “As egrégoras podem se juntar quando duas ou mais pessoas se reúnem sob um mesmo propósito, como uma família, ou mesmo uma empresa, apenas para ficar com alguns dos muitos exemplos possíveis”. Sofia estranhou a ideia de existir uma egrégora para uma empresa. Mostrei a ela o viés: “Uma empresa tem uma importante função social e, creia, espiritual. O trabalho, quando bem direcionado, será sempre uma fonte de evolução, seja pela superação dos diversos tipos de dificuldades que surgem, desde a aspereza comum às relações quando pessoas de diferentes olhares convivem sob um mesmo interesse até a necessidade de inovações para que obstáculos sejam vencidos. Muitas famílias têm na manutenção e crescimento de uma empresa a base dos seus sustentos e bem-estar. As egrégoras de luz querem que um sem número de pessoas se beneficiem, de modo a alavancar o progresso de todos. Empresas com ambiente de trabalho saudável, onde os funcionários se respeitam e colaboram para o bem comum, com bom clima de camaradagem, são fontes de alegria, têm a criatividade estimulada e possuem uma teia forte de proteção às inevitáveis intempéries típicas aos negócios. O contrário também acontece, um ambiente dominado por intrigas, orgulhos, vaidades, egoísmo e ganância, não raro, rasga a teia e expõe a empresa aos reveses da fortuna. Como consequência, aqueles que dela dependem terminam prejudicados pelos prejuízos e aborrecimentos que sofrerão. Não foi vingança dos céus nem acaso do destino, mas justas consequências às causas que provocaram, associada à vulnerabilidade que causaram. Energias destrutivas, presentes em dimensões de vibração densa, são atraídas por afinidade energética e causam um enorme estrago. Isto acontece quando a egrégora se rompe”. Fiz uma pausa e acrescentei: “É bastante comum vermos empresas que floresceram durante anos e, por causa de um pequeno desentendimento entre sócios, as brigas escalam tons e, quando nos damos conta, a empresa faliu. A indolência crescente de funcionários pode gerar consequências semelhantes. Não houve reviravolta no mercado nem mudança de gestão. Aconteceu porque as sombras internas se agigantaram e destruíram a teia. Em pouco tempo, uma quantidade absurda de energia deletéria é capaz de invadir e destruir uma empresa, seja por influenciar decisões, seja por afastar fornecedores e consumidores sem motivo aparente. São reflexos do padrão vibracional das pessoas que ali trabalham e, principalmente, dirigem a firma”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia perguntou se algo parecido poderia acontecer com um casamento ou mesmo com o nosso sistema imunológico. Lembrou das doenças psicossomáticas, oriundas de desequilíbrios existenciais e emocionais, cada vez mais presentes no planeta. Tornei a balançar a cabeça em anuência: “Somos atacados o tempo todo, de inúmeras maneiras e em diversas frentes. O funcionamento e as influências das diversas dimensões cósmicas é um assunto amplo e complexo, que exige muito estudo. Por ora, o importante é entender como fortalecer a sua egrégora para que você não caia em desequilíbrio e possa cuidar de outros assuntos relativos à sua vida com tranquilidade, enquanto esse verdadeiro campo de força lhe protege de algo que, embora real, não conseguimos ver”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A moça ficou pensativa por alguns instantes, como fizesse conexão entre a teoria exposta e alguns acontecimentos da sua vida. Em seguida, indagou se a mágoa que sentiu da irmã por meses seguidos poderia ter afetado a sua egrégora, pois desde então tem sentido enorme impaciência pelo comportamento das pessoas, principalmente do seu marido, e isto tem afetado muito o seu casamento. Apenas olhei para ela como quem diz que ela sabia a exata resposta. Sofia sorriu resignada. A solução da equação era clara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela quis saber o modo mais prático para fortalecer a sua egrégora e evitar influências nocivas. Fui sucinto: “Que a Sofia nunca duvide nem abandone a sua própria Luz; que não se esqueça dos princípios norteadores da vida. Nisto reside a sua força e beleza. No mais, jamais negocie com as sombras”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia me olhava atentamente. Fui um pouco mais didático: “Cuide dos seus pensamentos e, aos poucos, liberte a sua consciência dos condicionamentos limitantes impostos por medo, culpa e ódio. Permita-se pensar fora da caixa para que ideias ancestrais de dominação, vingança e intolerância não guiem às suas escolhas. A vida pode nos oferecer bem mais do que nos tentam fazer acreditar. É preciso pensar além para não ficar aquém”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Fique atenta aos seus sentimentos. É preciso amar mais e melhor a cada dia. As virtudes estão à sua disposição para isto. Elas são como instrumentos diversos reunidos em uma única orquestra: você mesma. Não pode sobrar nem faltar nenhum. Somente assim, será possível compor uma linda ópera cósmica”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A beleza dessa sinfonia, à medida dos seus acordes, não deve ficar restringida à música que precisamos tocar para acalentar o próprio coração. Faça isto sempre, mas não esqueça de reservar momentos para dançar com o mundo. Somente assim será possível juntar os corações em um mesmo passo e compasso. Esta é a razão de as escolhas existirem”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A consciência é o maestro, as virtudes são os instrumentos; as escolhas permitem a música e o baile”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Acredite, a sua egrégora estará presente, seja em sopros de intuição, seja no ritmo afinado das cordas de cada instrumento manifestado em notas musicais. É também ela que vigia o salão onde acontecerão todos os bailes da sua vida. A você cabe cuidar e criar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava na hora do meu trem. Loureiro disse que me acompanharia até a estação. Antes de ir, Sofia quis saber qual a correlação entre a Tese do Significado e a Teoria da Teia. Foi o sapateiro quem respondeu: “Encontrar o significado de todas as coisas reside na importância de descobrir o amor oculto em todas as situações. A teia nos ensina que sem amor nos tornamos fracos e ficamos vulneráveis”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia nos agradeceu. Havia sinceridade e alegria em seus olhos. Disse que ficaria para brindar consigo mesmo; tinha sido um dia de descobertas importante: “Preciso reorganizar a minha orquestra. A vida ainda me aguarda para muitos bailes”. Quando nos despedimos, havia um lindo sorriso no seu rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Alexaxm &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>O significado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2020 21:41:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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					<description><![CDATA[A oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, era famosa pelos seus horários inusitados de funcionamento na pequena e agradável cidade que se situa no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Não tinha dia certo para abrir nem hora exata para fechar. O costume nos...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">A oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, era famosa pelos seus horários inusitados de funcionamento na pequena e agradável cidade que se situa no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Não tinha dia certo para abrir nem hora exata para fechar. O costume nos indicava que encontraríamos as suas luzes acesas a partir das três horas, ainda de madrugada, e as portas estariam fechadas ao meio-dia. Eu vinha do mosteiro após um período de estudos. Agora, cabia a mim a parte mais difícil, aquela em que precisamos ordenar intrinsecamente esses novos conteúdos para aplicá-los no dia a dia, sem o qual a nau não completaria a travessia e o tesouro se perderia nas zonas abissais dos mares da existência.&nbsp;</p>



<span id="more-3429"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Eram quatro horas da tarde. Havia muito tempo até a chegada do trem que me levaria à metrópole onde ficava o aeroporto mais próximo. As chances de encontrar a oficina aberta eram mínimas. Contudo, decidi conferir e apostar no inusitado. Os bons ventos estavam ao meu favor e me alegrei ao virar a esquina. O sapateiro acabara de fechar as portas do atelier e pegava a sua bicicleta encostada no poste em frente. Magro, alto, elegantemente vestido com uma camisa branca com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, uma calça preta de fina alfaiataria e sapatos de couro feitos sob medida, com os fartos cabelos brancos penteados para trás e uma enorme agilidade, atípica à sua idade, Loureiro não me viu acenar, montou na bicicleta e partiu. Senti os ventos soprarem em sentido contrário. Acalmei a minha decepção para que ela não escalasse tons e pensei que nunca é um mau programa conversar um pouco consigo mesmo. Decidi ir a uma cafeteria muito agradável, distante alguns quarteirões. Café com reflexões será sempre uma boa mistura, pensei. Segui em paz. Quando chego a cafeteria, uma boa surpresa. A clássica bicicleta de Loureiro estava na porta. Os ventos tornaram a mudar de direção. Lembrei das palavras do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro: “Os ventos mudam de direção para nos ensinar a navegar por todas as situações. O medo desaparece quando descobrimos a nossa capacidade de vencer as tempestades. Não raro, as tempestades surgem a partir de pequenas contrariedades, basta que tenham força para nos irritar. Então, aumentam de intensidade de modo absurdo. Os ventos do mundo, por mais violentos que sejam, somente derrubam a sua paz se você permitir”. Em agradecimento, sorri.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro me recebeu com sincera alegria e trocamos um forte abraço. Acomodados à mesa, revelei que estava sedento por uma xícara de café, quando a simpática garçonete se aproximou para informar que a partir daquele horário a cafeteria se transformava em vineteria. Uma prática que ficava mais comum a cada dia. As minhas opções estavam restritas aos vários bons rótulos de vinhos. Olhei para Loureiro, que abriu os braços e sorriu de modo gaiato como quem diz que nada poderia fazer. Pedimos duas taças de tinto para embalar a conversa.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei sobre as ideias que me acompanhavam naqueles dias. Falei que sabemos mais do que somos e isto é natural, pois faz parte do processo de aprendizado. Aprender, transmutar, compartilhar e seguir, nesta sequência, são as quatro fases de cada um dos infinitos ciclos evolutivos. Não basta saber; é indispensável ser. Enquanto não transmutarmos o conhecimento de modo que se torne utilizável no exercício das nossas relações, ele permanecerá como uma ferramenta esquecida nas prateleiras da vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transformar o conhecimento em instrumento de bem-viver, embora seja uma ideia simples, apresenta uma enorme dificuldade de execução. Eu queria entender o motivo. Loureiro, bebeu um gole de vinho, arregalou os olhos como quem elogia o sabor e explicou: “Enquanto não entendermos o significado de cada coisa, ficará impossível de aplicar o saber para suavizar a aspereza aparente da vida. Até o amor, o mais sagrado dos sentimentos, resta prejudicado quando não entendemos o significado das circunstâncias que o envolvem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste instante, fomos surpreendidos pela chegada de uma das sobrinhas do sapateiro. O encontro se dera pela magia do acaso, a sincronicidade. Sofia, como a moça se chamava, estava bem abatida e as feições aparentavam desânimo. Ela tinha ido tomar uma taça de vinho e espairecer. Queria se distrair um pouco para não ser dominada pela tristeza, explicou ao tio. Loureiro sugeriu que se sentasse conosco e, sentindo-se à vontade, conversássemos sobre o motivo da sua aflição. Sofia não apenas aceitou o convite para se sentar, mas também para conversar com o sapateiro, famoso por alinhavar ideias tão bem como costurava o couro. Objetiva, foi direto ao assunto. Contou que viajara de férias ao exterior com a irmã em um passeio que planejaram nos mínimos detalhes e com enormes expectativas. Tudo aquilo que poderia dar certo, deu errado. Logo nos primeiros dias, a irmã se tornara agressiva sem nenhum motivo aparente. Sofia tentou, por duas vezes, conversar com a irmã para entender o que estava acontecendo, mas não teve sucesso, sendo repelida de modo ríspido assim que iniciava o diálogo. Os dias se sucederam de maneira desagradável. Com tamanha animosidade, os passeios ficavam sem sabor. Aos poucos, a viagem perdia o gosto. Como havia reservas de hotéis e um roteiro pelas cidades que visitariam, com todas as despesas previamente quitadas, e como não tinha dinheiro suficiente para abdicar do roteiro traçado, decidiu por seguir ao lado da irmã na esperança que fosse um mau humor momentâneo que sumiria no decorrer dos dias. Em vão. A viagem finalizara sem qualquer melhora e, pior, com um insuportável clima de hostilidade. Nunca fizera um passeio tão desagradável, onde perdera tempo, dinheiro e alegria, explicou. Passados quase um ano, a tristeza oriunda naquele passeio não arrefecera e, mais grave, se intensificara. Beirava o insuportável e lhe causava muito mal, confessou Sofia. Disse também não saber mais o que fazer para se livrar dessa tristeza. Temia que virasse uma depressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro ouviu a história da sobrinha sem qualquer interrupção. Deixou que as palavras esgotassem os fatos da maneira como ela os interpretava. Quando Sofia cansou de falar, o sapateiro iniciou: “A depressão nasce com o distanciamento entre o ego e a alma, quando a essência do ser se afasta das escolhas do viver. Longe de si, distante das maravilhas da vida”. Bebericou o vinho e prosseguiu: “No entanto, se faz indispensável entender quais sentimentos nos movimentam. Por mais paradoxal que possa parecer, há razões nos sentimentos, assim como existem sentimentos em nossas razões. Entender o exato significado deles é a pedra angular que permite retomar a rota rumo à Luz”. Deu de ombros e comentou: “Sem Luz, resta-nos a escuridão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia pediu para o tio ser mais objetivo. Loureiro atendeu ao seu pedido: “Para começar, será preciso deixar de lado, por ora, as questões pessoais relativas à sua irmã, de quem gosto muito, mas que tem sérios problemas emocionais e existenciais. Enquanto não equacionados dentro dela, continuarão a funcionar como fonte de agressividade. Do jeito que tudo está confuso dentro dela, a vida lhe parece violenta e ela se acostumou a responder na mesma linguagem. Um diálogo que se sedimentou e enquanto não restar desmanchado para dar espaço a um novo jeito de conviver com ela própria e com o mundo, será causa de muita dor. Poucos se dão canta, mas os nossos relacionamentos apenas espelham o modo com o qual cada um convive consigo mesmo”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não duvide, embora possa não aparentar, pela postura orgulhosa disfarçada de independência do personagem que ela escolheu para viver, existe muito sofrimento naquele coração. Em algum momento, seja pelo esgotamento de forças, seja por não aguentar mais tantos conflitos, ela será levada a rever quem se tornou. Tomara que ocorra antes de a dor se tornar insuportável. Embora a agressividade seja sempre um pedido de socorro ainda não decodificado pelo agressor, teremos que esperar para ajudá-la. É impossível auxiliar quem acredita não precisar ou ainda não tem vontade de rever padrões e conceitos, filtros e lentes. Apenas esteja disponível para ajudar quando isso acontecer.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Por ora, apenas as atitudes luminosas por parte das pessoas próximas, e neste caso você poderá se incluir, podem fazer a sua irmã despertar que existe vida além da escuridão. Nesses momentos, as palavras têm pouca eficácia e o exemplo silencioso costuma causar melhor efeito. Os motivos são simples. Pessoas com o padrão de comportamento semelhantes ao dela estão envolvidas em orgulho e consideram uma humilhação aceitar conselhos ou admitir que escolheram valores equivocados para ser e viver. Os horizontes oferecidos através dos gestos sem palavra as fazem chegar as mesmíssimas conclusões, acreditando que encontraram as soluções por conta própria e, por isso, ficam mais suscetíveis às mudanças. Além, é claro, mais do que as palavras, as atitudes mostram que os comportamentos germinados em luz são possíveis e reais.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“De outro lado, você está muito mal e precisa de cuidados. Ninguém é capaz de cuidar melhor da Sofia do que ela mesma. Ainda mais, somente a Sofia poderá acender a sua própria luz para afastar a escuridão que tanta agonia causa. Para tanto, se faz necessário entender o significado do seu sofrimento, sem o qual não haverá cura”. Pausou por instantes, como se soubesse do espanto que causaria, e disse: O que você verdadeiramente sente não é tristeza, é ódio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ódio! Como assim? Não! A recusa foi veementemente. Ela jamais sentiria ódio da própria irmã, afirmou com convicção. Ficou até um pouco chateada pelo fato de o tio pensar que seria capaz de uma emoção tão densa e selvagem. Era uma pessoa boa, que fazia o bem por onde passava e tinha o amor como fio condutor da sua vida. A fase do ódio ficara na para trás e se tornara incompatível com quem se tornara. Pelo que se lembrava, havia muito tempo que não mais sentia ódio por ninguém. Sofia estava sendo honesta, pois acreditava na interpretação que tinha quanto aos seus próprios sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro sabia disso e iniciou o raciocínio: “Quantas pessoas você conhece que se declaram invejosas?”. Sofia respondeu que nenhuma. O sapateiro prosseguiu ao estilo socrático: “Então, podemos concluir que a inveja está extinta no planeta?”. A sobrinha foi veemente em negar. Embora ninguém se assuma invejoso, eles existiam aos montes; ela conhecia vários. O tio seguiu: “Declarar que a emoção não existe tem força para fazer com que desapareça?”. A moça sacudiu a cabeça como quem diz que desta maneira é impossível. Loureiro aprofundou: “Como se torna uma criança que cresce sem a devida educação e direcionamento?”. Sofia fechou os olhos, como quem começava a entender, respondeu que provavelmente essa criança se tornará um adulto insuportável, acreditando que os seus desejos não têm limites e insistirá em controlar a vontade das pessoas ao seu redor. “Entende o que acontece quando negamos uma emoção?”. Bebeu um gole de vinho e lembrou: “Dentro de nós navegam todas as emoções. Saber conduzir e aportar cada uma delas define a aspereza ou a suavidade dos dias. Ignoremos, elas dominarão quem somos”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sapateiro expandiu a ideia: “Há algumas maneiras de negarmos uma emoção que nos incomoda. A mais comum é a luta inglória de afastá-la da mente. Esforçamo-nos para sufocar uma emoção considerada inferior por nos envergonharmos de estar associado a ela. Afinal, ninguém gosta de se sentir invejoso, por exemplo. Entretanto, ao varrê-la para debaixo do consciente, ela irá se alojar no porão habitado pelos desconhecidos e renegados, o inconsciente. Ocorre que o porão é o maior cômodo da casa e, mais sério, está agregado aos alicerces que a mantém de pé. Quando fica lotado, precisa jogar para os andares de cima o conteúdo que não mais suporta. A casa treme e, se chegar ao ponto de os pilares ruírem, irá desabar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A outra maneira, não menos grave, é a vã tentativa de mudar o significado das emoções. Ao invés de negar, fugimos. O jeito aparentemente mais fácil de fazer isso é atribuir um significado agradável às emoções que não gostaríamos de sentir. Então, tristeza é a leitura conveniente, porém enganadora, para o ódio. Não raro, tentamos nos enganar com as palavras; como ódio ou raiva possuem uma carga pesada em seu conteúdo, disfarçamos ao usar termos de menor peso como mágoa ou ressentimento. Podemos mudar as palavras, mas a emoção continuará a mesma. Serve apenas para entorpecer a consciência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não tenha medo nem vergonha das suas emoções, mas se preocupe em não se deixar dominar por elas”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Olhar a verdadeira face de quem somos costuma causar muito desconforto. Contudo, não há outra maneira de identificar as feridas que tanto doem. Elas incomodam porque a sua alma está cansada de tanto sofrimento e clama por cura. Esse ato a torna pronta para a transformação”.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Apenas você poderá fazer isso por si mesma. Ninguém mais possui tal poder”. Olhou para a sobrinha com doçura e explicou: “Ao final da estrada sem fim, você perceberá que o mestre que a conduziu foi a sua própria consciência. A cada transformação, um passo de sabedoria e amor. Então, um pouco mais de Luz. O sofrimento, qualquer que seja, só sobrevive na escuridão”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O silêncio tomou conta da mesa. Sofia precisava arrumar aquelas ideias nos armários da mente e nas gavetas do coração. Mudei de assunto e conversamos sobre outras coisas em respeito ao tempo que ela precisava para metabolizar aquelas palavras. Ao pedirmos sanduiches servidos com o bom queijo da região para acompanhar o vinho, Sofia retomou o assunto: “Tio, você tem razão. Sinto muito ódio da minha irmã. Estragar a nossa viagem sem nenhum motivo foi muita maldade”. Era o movimento primordial. Em seguida, a sobrinha foi ao cerne da questão: “Não quero mais me sentir assim. O que eu faço com o meu ódio?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro franziu as sobrancelhas e disse com seriedade: “Perdoar é a resposta certa. Perdoar é educar as emoções densas que nos assolam. Educar significa aprender uma maneira diferente e melhor para ser e viver. Contudo, sem entender o significado do perdão, você não conseguirá. O perdão é um movimento de libertação das sombras que atormentam, da supremacia do amor por desmanchar o ódio e, não menos importante, de retomar a rota rumo à Luz. Enquanto o ódio perdurar, os guardiões fecharão os portais do Caminho e a impedirão de prosseguir”. Fez uma pausa e concluiu sobre o valor do perdão: “Enquanto ele não acontecer, você não conseguirá sair do lugar. Algo perigoso, pois, depois de algum tempo, tudo que está estagnado começa a apodrecer”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia arregalou os olhos. Loureiro explicou: “Apodrecemos por falta de amor, carência de luz e ausência de evolução. Por ter desperdiçado as oportunidades de florescer, a alma se encolhe e retorna à semente. Distante da doçura da alma, resta ao ego a amargura da existência expressada em tristeza ou violência, a depender do caso”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A moça quis saber como proceder para desmanchar o ódio. Loureiro foi claro: “Por inanição. O ódio é um veneno que, à medida que cresce, anula o amor. Entenda a sua insalubridade e desnecessidade; compreenda que o maior prejudicado pelo ódio é aquele que o cultiva. Pare de alimentá-lo para que perca força; somente quando enfraquecido, você conseguirá transformar a lagarta em borboleta”. Sofia fez um gesto com a mão para o tio continuar a explicação. Ele foi aos pormenores: “Para começar, seja firme para não deixar que bagunça existencial de uma pessoa consiga desmontar a sua estrutura interna. Confie na sua força, princípios e valores. Isto basta, pois a manterá na Luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A agressividade alheia não se impõe sozinha. Trata-se de um convite à escuridão. Não há a menor sensatez em aceitar a oferta para um passeio tão desagradável”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ninguém precisa do ódio para nada de bom. As melhores coisas da vida não acontecem movidas pelo ódio. Trata-se uma escolha absurda aceitá-lo como mestre ou capataz”. Fez uma pausa para a sobrinha absorver a ideia e aprofundou: “O ódio nasce da ausência de amor e de sabedoria. A agressividade de qualquer pessoa não pode ter a força de nos arrastar para a escuridão onde ela se encontra. Isto somente acontece quando nos descuidamos ou ignoramos o poder da nossa própria Luz. Entenda que os enormes conflitos internos fazem que com que os princípios norteadores da sua irmã fiquem envoltos em névoa e os valores se confundam. Embora não perceba, ela está perdida no ambiente hostil que se tornou a sua existência, na qual a agressividade é a única linguagem, ao menos neste momento, que ela consegue articular. É algo triste e comum aos dias de hoje. Cada um, ao seu jeito e tempo, terá de fazer a trajetória de volta, aquela que levará ao um novo despertar da alma”. Tornou a dar uma pausa e concluiu: “Enquanto você sustentar o ódio como reação, viverá sob a influência da atmosfera inóspita criada pela sua irmã.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia admitiu que, visto por aquela ótica, não era sensato nem inteligente a manutenção do ódio. Loureiro comentou: “Essa é a importância de entendermos o significado de todas as coisas. Somente, então, a dificuldade ganha sentido para se tornar uma lição, o sagrado se revela através do mundano e a luz dissipa a escuridão”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ao diagnosticar erroneamente uma doença, o remédio receitado se mostrará ineficaz. Entender o significado de todas as coisas é um exercício constante de percepção e sensibilidade, essencial aos movimentos evolutivos.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia nos ofereceu um lindo sorriso, o primeiro daquele dia e, talvez, o único a que se permitiu nos últimos meses. Os seus olhos já mostravam nuances de um brilho diferente. Ela disse estar disposta a essa fundamental virada de postura como modo de resgatar a leveza da vida, ora perdida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro se virou para mim e perguntou sobre qual assunto conversávamos quando a sua sobrinha chegou. Lembrei que falávamos sobre a dificuldade de pormos em prática o conhecimento que possuíamos. O sapateiro finalizou a lição: “A dificuldade permanece porque adquirimos o conhecimento, mas esquecemos de entender o significado que o estrutura. É como se o conhecimento fosse o corpo e o significado se traduzisse na alma de todas as coisas. Esquecemos desta diferença, acabamos por esquecer a importância do significado e perdemos a essência do conhecimento. Daí, a dificuldade de aplicá-lo na prática. O significado é o trilho da verdade. O amor é o significado oculto por trás de cada conhecimento. Sem ele, não restará nenhuma sabedoria”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A função de cada conhecimento é nos conduzir a uma desconhecida maneira de amar mais e melhor. Antes de encontrá-la, o mais refinado saber será somente erudição.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Entender sobre os malefícios do ódio e as maravilhas do perdão se traduz em valioso conhecimento. Encontrar dentro de mim a vereda de amor que me conduzirá dos becos do ódio até as praias do perdão é compreender o significado de cada experiência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Seja em si mesmo, seja no mundo ou fora dele, entender o significado de cada coisa é o ponto-chave da transmutação nos ciclos evolutivos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofia e eu, cada qual por suas razões, mas a um único tempo, tínhamos tido o privilégio de repartir uma mesma lição. Esvaziamos as taças de vinho. A moça disse que precisava ir. Deu beijo estalado na bochecha do tio e com sinceridade agradeceu pelas orientações quanto aos movimentos que teria de fazer para sair da escuridão. O sapateiro a lembrou que eram apenas os passos iniciais, no entanto, vitais à renovação: “O mais importante é não esquecer que todo o poder da luz também possui raízes no âmago de quem você verdadeiramente é. Essa é a fonte da vida”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, disse que os meus olhos revelavam algo que eu não tinha dito. Confessei: “Pensei em como a Teoria do Significado se aplica à outra, a&nbsp;<em>Teoria da Teia</em>”. Loureiro sorriu e disse concordar balançando a cabeça. Sofia se mostrou interessada, puxou a cadeira e voltou a se sentar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas isso já é outra história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Chris Boswell &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>A montanha errada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2020 09:04:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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					<description><![CDATA[“A depressão surge quando deixamos de acreditar nas nossas próprias capacidades”, me disse certa vez o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Sempre carreguei comigo esse valioso ensinamento, como se fosse uma espécie de colete salva-vidas, para usar todas as vezes que uma tempestade me dava...]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“A depressão surge quando deixamos de acreditar nas nossas próprias capacidades”, me disse certa vez o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Sempre carreguei comigo esse valioso ensinamento, como se fosse uma espécie de colete salva-vidas, para usar todas as vezes que uma tempestade me dava a sensação de que seria impossível prosseguir viagem rumo às terras sagradas das plenitudes. “Todos temos direito à felicidade, ao amor, à dignidade, à paz e à liberdade. Contudo, essas maravilhas não surgirão por encanto, mágica ou como presente. São conquistas oriundas das construções intrínsecas do ser para serem usufruídas no viver”.</p>



<span id="more-3412"></span>



<p class="wp-block-paragraph">“Como toda conquista, exige luta. Por isto, Paulo, o apóstolo, cunha em uma das suas famosas cartas, o termo&nbsp;<em>O</em><em>Bom Combate</em>. Pois, esta batalha é um trabalho de descobrimento de si mesmo, de suas forças, dons e capacidades para iluminar as próprias sombras e superar as dificuldades. O essencial da vida não é negado a ninguém. Aceite as suas dificuldades com gratidão, nelas estarão os seus códigos de acesso às plenitudes. Eles são personalíssimos, ou seja, cada indivíduo tem o seu e eles não se repetem para ninguém. Portanto, jamais compare a sua vida com a de ninguém. Apenas os tolos insistem nisto”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tornei a lembrar dessa lição quando encontrei com o Ivan, um colega de faculdade. Ele sempre fora uma pessoa muito alegre. Tínhamos nos divertido muito durante o curso. Além de muito estudioso, Ivan tinha&nbsp;<em>mãos de cura</em>, termo que eu usava para definir o seu dom, um talento pessoal, o qual todos temos, porém, se manifestam de diferentes formas. Ainda acadêmicos, estagiando em hospitais, por diversas vezes o vi solucionando situações aparentemente complicadas com incrível facilidade, surpreendendo até mesmo os supervisores, todos médicos experientes. Quando eu o perguntava como tinha feito aquilo, ele respondia que fizera o óbvio de maneira simples. Quando eu perguntava onde ele aprendera a fazer, Ivan dava de ombros e dizia que parecia que sempre soubera, embora nunca houvesse pensado ou passado por aquela situação antes. Aos poucos, a indispensável técnica aprendida com os muitos estudos, no qual ele se dedicava com afinco, aprimorara o seu dom e ampliava a sua capacidade de medicar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ivan não tinha o tipo físico de galã de cinema. Ao contrário, era desengonçado, quase nunca penteava os cabelos, barba por fazer e não ligava muito para as roupas que usava. Contudo, possuía um lindo sorriso, um constante bom humor e uma alegria contagiante, características que o tornaram um namorador de grande fama na universidade. Era um homem feliz e em paz consigo mesmo. Pessoas assim têm o poder de fazer com que outras ao redor sintam vontade de se aproximar e aconchegar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele fez especialização em Ginecologia e Obstetrícia e, sem demora, ficou muito conhecido. No seu consultório era comum a espera por semanas para se conseguir uma consulta. Época em que nos afastamos, como é comum, face aos múltiplos compromissos e afazeres que surgem no cotidiano de todos, embora o sentimento de sermos amigos tenha permanecido. Os anos se passaram; soube que o consultório virara uma clínica e, algum tempo depois se tornara uma maternidade. O talento de Ivan o fizera um homem muito rico, graças ao seu grande e justo trabalho. Algumas fotos dele, agora um médico de merecida fama, mostravam uma pessoa com apurado corte de cabelo, sempre barbeado e vestido com roupas elegantes. “Ele se tornou um homem bonito”, eu ria comigo mesmo e, quando o encontrasse, iria brincar dessa maneira com ele. Passamos muitos anos sem nos ver. Muitas coisas mudaram em nossos dias com o intuito sagrado de nos transformar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tinha saído do atelier de um excelente designer gráfico que, por vezes, cuidava das capas dos livros que a editora publicava. Sempre me interessei em acompanhar todos os detalhes da criação dos livros e gostava muito de trabalhar com esse artista, pois além de admirar o seu talento, era um homem que também amava aquilo que fazia. Era o seu dom e, como tal, instrumento do seu sonho. Era divertido estar com ele, uma pessoa alegre e bem-humorada, apesar das dificuldades financeiras que, não raro, enfrentava quando os pedidos de trabalho diminuíam. Como era hora do almoço e a sua oficina era em um modesto apartamento, no final de uma daquelas ruas esquecidas do restante da cidade, típicas do Humaitá, no Rio de Janeiro, decidi ir a pé até Botafogo, um bairro vizinho, famoso por seus bons restaurantes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tive dificuldade, mesmo após tantos anos, de reconhecer o Ivan, sozinho sentado à mesa. As suas fotos eram comuns. A recíproca não se aplicou. Ele demorou a me reconhecer e os motivos eram justos. Os longos cabelos negros estavam extintos por completo e a barba quase branca, somadas as argolas que eu passara a usar nas orelhas, dificultavam a identificação. “Parece outro homem, achei que era um velho cigano!”, exclamou simpático antes de prosseguir: “Apenas o riso fácil ainda permanece como uma espécie de marca registrada”. Trocamos um forte e sincero abraço.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentados à mesa, atualizamos as nossas vidas. A garrafa de vinho que já estava pela metade quando cheguei, foi logo substituída por outra, que se esvaziava rapidamente. Eu ainda estava na primeira taça. Ele ficou espantado quando soube das muitas mudanças de rumo, fossem profissionais, fossem existenciais, que ocorreram em minha existência. “Não foi uma estrada em linha reta”, comentou. Concordei com ele: “Não, com certeza não foi. Foram necessários muitos erros para eu entender quem eu era e quem eu gostaria de me tornar. Agradeço a cada um deles pelas verdades reveladas e transformações permitidas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei sobre a trajetória dele, pois, embora eu nada tivesse dito a respeito, tinha percebido uma inegável tristeza em seus olhos. Ivan franziu as sobrancelhas e afirmou: “A minha estrada seguiu em frente. As curvas que surgiram foram para fazer do consultório uma clínica; esta, poucos anos depois, virou uma conhecida maternidade. Hoje, não atendo às pacientes nem realizo partos. A administração do hospital já me exige por demais. Em suma, modéstia à parte, creio ter sido uma história de sucesso. Não houve nenhuma reviravolta significativa. Desde cedo, alcancei prestígio na carreira e tranquilidade financeira. Não tenho motivos para reclamar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brindamos à beleza da vida. Conversamos sobre amenidades e, quando a segunda garrafa se esvaziou, quase que somente por conta do Ivan, em nome da antiga amizade que se mantivera, apesar do tempo que ficamos distantes um do outro, arrisquei: “Embora não existam motivos aparentes, tenho a sensação de encontrar tristeza em seu olhar. Tem sentido o que vejo?”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ivan balançou o cabeça afirmativamente, sem dizer palavra. Perguntei qual o motivo o deixara assim. Ele deu de ombros e murmurou: “Não sei”. Uma lágrima escapou pela sua face.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, lamentou: “Acho que fui pego por essa epidemia silenciosa denominada depressão. Tenho uma família linda, prestígio dos colegas e a maioria das coisas que o dinheiro pode comprar. No entanto, não encontro motivos para me alegrar”. Sem nada falarmos, ambos sabíamos o motivo de ele ter consumido sozinho quase duas garrafas de vinho no almoço. O álcool é um ansiolítico de efeito rápido, mas de curta duração, com nefastas consequências. Talvez seja a medicação mais usada contra a depressão, mormente em seus estágios iniciais, sem que as pessoas se deem conta do real motivo pelos quais gostem tanto de usá-lo. É comum à sua utilização para encobrir os abismos existenciais com os mantos ilusórios da breve euforia. Grupos de amigos se reúnem sob diversos pretextos, levando o desejo subliminar de ter um motivo justificável para se esconder da vida, como se fossem tribos em celebração a uma deusa trevosa que os ameaça jogar no precipício do dia seguinte. Não, não se trata de satanizar o álcool; será sempre uma infantilidade agir sem ponderação. Pensar por via de mão única leva a barbárie. O refinamento das ideias exige que qualquer fato seja pensado por múltiplas vertentes. O álcool é uma ferramenta como todas as coisas que existem no mundo. O uso adequado não causa nenhum problema, o mau uso gera o abuso. O abuso e a inércia são fontes turvas que irrigam a decadência.&nbsp;<em>Qual o vazio que eu insisto em preencher com álcool?</em>Um questionamento vital, sem o qual nada restará preenchido. É a pregunta que não quer calar, mas poucos têm coragem de enfrentar. Claro que o Ivan sabia disso, porém, por algum motivo fugia de si mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Cheguei no topo e lá não havia o que eu acreditava encontrar”, Ivan comentou como sinceridade. Ponderei com ele: “É preciso entender qual montanha estamos escalando para saber se no topo estará aquilo que procuramos. Há que se prestar muita atenção para não subirmos a montanha errada”. Ivan me olhou como se as minhas palavras fizessem algum sentido para ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conversamos muito. Lembrei do seu inegável talento para a cura. De como ele havia sido um acadêmico diferenciado, apresentando uma desenvoltura acima da média. Lembramos de muitos casos e fatos, até consegui a proeza de fazer Ivan dar boas risadas. Por alguns instantes, pude ver nuances de luz daquele jovem sonhador que se dedicara em usar o seu dom como instrumento para o bem-viver. A felicidade é a manifestação de plenitude pelo encantamento da vida. O fiz recordar como estava sempre alegre e bem-humorado e como estes fatores faziam com que a vida se apresentasse como uma infinita estrada iluminada. Naquela época, o hoje era vivido com intensidade e sem qualquer preocupação com o amanhã. Pois, havia a certeza de que seria ainda melhor. A paz é o sentimento de plenitude pela superação do medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em determinado instante, eu o perguntei: “Em qual momento o Ivan se perdeu dele mesmo?”. Ele, um homem inteligente e sensível, respondeu com incrível clareza: “No dia em que esqueci quem eu verdadeiramente sou”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, concluiu o raciocínio: “Então, comecei a subir a montanha errada”. Eu o lembrei da necessidade de pensarmos através de múltiplas vertentes: “Não existirá nenhuma montanha errada se raciocinarmos que, de alguma maneira, aprendemos com os nossos erros. Contudo, há uma montanha certa. Aquela que o seu coração se alegra em escalar e a sua alma o espera no topo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A maioria das pessoas, ao menos aquelas com um grau consciencial mínimo, caso sejam perguntadas o que almejam na vida, responderão as mesmas coisas: amor, paz, felicidade, liberdade e dignidade. No entanto, nos perdemos quanto a maneira com a qual alcançaremos essas plenitudes. Não raro, subimos a montanha errada. Então, claro, ao chegarmos no topo, encontraremos muitas coisas, mas lá não estará o essencial da busca. Muitos continuam sem entender o motivo do vazio, afinal, chegaram ao topo!”. Bebi um gole do vinho e concluí: “Eles nada sabem sobre a montanha errada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando escalamos a montanha certa, ainda que chova, os dias serão de sol; por mais íngreme que possa parecer aos desavisados, a caminhada será leve. Não haverá riscos que o impeça de prosseguir, não existirá medo capaz de deter o seu avanço; o único perigo é de ser traído por si mesmo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ivan me olhou por alguns segundos e admitiu: “Foi isso que aconteceu. No descuido de um dia qualquer, eu me perdi de quem sou”. Fez uma breve pausa e emendou: “Ou melhor, de quem eu era”. Tornei a lembrá-lo: “Podemos nos afastar, renegar ou abandonar a essência de quem somos, mas ela nunca morre. Ela irá esperá-lo até o dia da reconciliação, quando irá resgatar a verdade que orienta o seu caminho. É a expressão maior da dignidade no trato pessoal. A dignidade é a consciência da plenitude no ser e a liberdade é a sua total expressão no viver”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele balançou a cabeça como quem diz não ter jeito e comentou em tom resignado: “Eu me perdi no caminho. Enveredei pela estrada errada. Estou velho demais para retornar. Resta-me aproveitar as coisas boas que ainda existem no mundo”. Discordei dele: “Longe de si mesmo, distante das maravilhas da vida. Sem aquela não haverá esta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recordei de um mantra nórdico que aprendi durante a travessia no deserto e o citei: “Onde há uma vontade, existe um caminho”. Ficamos sem dizer palavra por um longo tempo. Os olhos de Ivan vagavam universo adentro, em busca de algo que somente ele sabia do que se tratava. Até que quebrou o silêncio: “Já fiz muitos partos, mas não tenho ideia de como se faz para renascer”. Sorri e fiz uma sugestão: “Eu tenho uma ideia. Quer tentar?”. Foi a vez de ele sorrir e responder com sabedoria: “Errar é mil vezes melhor do que não se arriscar”. Em seguida, quis saber como faríamos. Sem entrar em detalhes, pedi que ele me desse a oportunidade de lhe mostrar por um dia. Bastava um único dia. Parecia-me uma ideia simples, entretanto, era preciso que trouxesse significado ao seu coração ou não teria qualquer valor. Se despertasse a sua alma, o portal para uma nova realidade se abriria. Ivan tornou a sorrir, deu de ombros e afirmou: “As melhores ideias se caracterizam por sua simplicidade”. Combinei nos encontrarmos às sete horas da manhã do dia seguinte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As muitas comunidades do Rio de Janeiro, e talvez de todo o país, são marcadas pela ausência absoluta do Estado e, por conseguinte, dos serviços básicos de segurança, educação e saúde. Como a editora fazia em trabalho em uma delas, ensinando técnicas de narrativa para estimular a formação de novos escritores, eu tinha acesso às áreas fronteiriças da comunidade, onde a circulação pode se tornar perigosa se feita sem prévia autorização. Ao lado do prédio onde havia as aulas, tinha um posto de saúde precariamente assistido. Sim, essa era a ideia absurdamente simples; fazer com que Ivan retornasse às origens de si mesmo, resgatasse o seu dom e sonhos. Ali está a essência de todos nós.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se adivinhasse os meus pensamentos, quando estacionei em frente da sua casa, Ivan já me esperava na porta. Pareceu-me animado. O mais interessante era que não usava as roupas finas do dia anterior. Embora vestisse uma camisa social, estava de calça jeans e tênis; o cabelo despenteado e a barba por fazer. Trazia nas mãos um jaleco branco e o estetoscópio pendurado no pescoço. Embora algumas décadas mais velho, pude enxergar ali o amigo que eu conhecera, havia tempos, na faculdade. A risada alegre dele ao entrar no carro sinalizava que não tinha sido por acaso. O restante foi como a execução perfeita de uma ópera anunciada. Fomos muito bem-recebidos no posto de saúde. A fila de pacientes à espera de atendimento era enorme; o responsável indicou uma sala para ele clinicar, na qual havia somente uma pequena mesa e uma maca. Bem diferente da moderna e bem aparelhada maternidade da qual era o proprietário. A dificuldade não foi encarada como um empecilho, mas vista como desafio por Ivan e isto sempre será o diferencial. O dia passou e acompanhei a enorme disposição do meu amigo diante de vários tipos de problemas. Quanto maior era a dificuldade, mais forte se evidenciava a vontade de Ivan em aplicar a medicina e promover a cura. Em determinado momento, uma moça entrou sentindo muitas dores. O processo do parto se iniciara e não dava tempo de levá-la a um hospital, onde seria mais bem assistida. Ivan pediu algumas toalhas limpas e uma bacia com água quente. Ele e eu nos emocionamos quando vimos o pequeno bebê em suas mãos. A vida nos encanta com a sua magia quando estamos em sintonia com ela. “Foi um sucesso”, comemorei com o Ivan ao sairmos da lá. O seu sorriso estava solto como de um menino que brinca ao sol logo após a chuva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como a noite se avizinhava, o convidei para jantar e ele aceitou. Retornamos ao mesmo restaurante, em Botafogo. Sugeri um vinho e, sem se dar conta, ele disse que não estava com vontade. Fixei os meus olhos nos seus. Ele riu e balançou a cabeça como quem diz que entendia que tudo começava a mudar. Ivan me agradeceu. Fui sincero: “Em verdade, fiz muito pouco. Se prestar atenção, perceberá que não houve resistência da sua parte em realizar a experiência. A sua alma já o convidava há tempos para esse baile. Você já estava pronto para resgatar a sua essência. Eu apenas indiquei uma possibilidade”. Conversamos bastante e, ao final, falei que agora dependia de ele prosseguir, se tivesse vontade. Ou retornar ao ponto onde o encontrei na tarde anterior. Contudo, aquele dia tinha aberto um portal para uma nova realidade, um caminho para ele encontrar o melhor que estava perdido dele mesmo. A escolha e o destino, como sempre acontece, estavam em suas mãos. Em resposta, Ivan apenas me ofereceu um olhar sereno e alegre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns meses se passaram, até que recebi um telefonema do Ivan. Era o seu aniversário e ele me chamou para jantar na sua casa. Para minha surpresa, ao chegar, além da esposa e dos filhos, eu era o único convidado. Ele explicou: “Sempre fiz grandes festas. Convidava pessoas famosas e autoridades, com as quais eu nunca tive nenhuma afinidade. Mas eu precisava me sentir importante. A razão era o fato de eu não mais me sentir valioso para mim mesmo. Quando nos desconectamos da própria essência, rompemos o elo que devemos manter com a vida. Usufruir dos prazeres do mundo é diferente de aproveitar a vida. É fundamental entender o significado de cada coisa”. Piscou um olho e fingiu me contar um segredo: “Caso contrário, subiremos a montanha errada. Quando acontece, encontraremos muitas coisas boas, menos o bem que buscamos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante o jantar, Ivan explicou que pela manhã assinara um documento outorgando a direção da maternidade para a sua filha mais velha, que já o ajudava a gerenciar a maternidade. Contratara gestores profissionais para a auxiliarem na tarefa. Tinha certeza que o hospital estaria em boas mãos. Quanto a ele, voltaria a clinicar e a realizar partos. A partir de agora, trabalharia como um dos médicos da maternidade, sem nenhuma preocupação com questões administrativas e financeiras. Olhou para mim com seriedade e revelou: “Continuarei atendendo, duas vezes por semana no posto de saúde da comunidade”. Fez uma pausa propositalmente dramática e, embora poético, disse com sinceridade: “Para mim, a medicina não é apenas um ofício, mas também sacerdócio e arte. Sacerdócio por haver a participação intensa da minha alma, o sagrado que me habita, em cada ato do meu trabalho; arte por servir de instrumento para seguir avançando além das fronteiras da realidade ao me fazer entender novas e diferentes verdades”. Ser médico fazia parte da sua essência; este exercício o mantinha conectado com a vida, em simbiose constante. Somente assim poderia retornar ao seu eixo de luz e voltar a ampliar e aprofundar as suas capacidades. Infinitamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ocorreu-me uma passagem do Evangelho de Tomé em que Jesus diz: “Se dois viverem em harmonia na mesma casa, dirão a uma montanha:&nbsp;<em>saia daqui!</em>– e ela sairá”. Os dois a que se refere o aforismo, é o Universo e a sua alma; se estivem alinhados em uma mesma casa, ou seja, dentro de você, tudo será Luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa capacidade de movimentar o Todo através da Parte, significa Fé em seu degrau mais elevado. É um poder capaz de<em>mover montanhas</em>. A alegria que Ivan transmitia era inenarrável e contagiava a todos na sua casa. A magia da vida estava de volta. Lembrei que era assim que eu o havia conhecido na faculdade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi uma noite maravilhosa. A esposa e os filhos do Ivan eram pessoas muito agradáveis e interessantes. Conversamos bastante. Era madrugada quando me despedi. No trajeto de volta para casa, eu pensava sobre o acontecido. Não tinha como negar a admirável disposição do Ivan em abdicar do topo de onde estava para voltar a escalar a sua montanha. O amor é a essência da plenitude aplicada ao viver. Lembrei das palavras do Velho: “Há aqueles que ainda não sabem quem são nem em quem querem se tornar. Existem aqueles que, apesar de saberem, por algum motivo se recusam em ir ao encontro da sua essência. Afastados da essência, perdem contato com a vida. Ao se distanciarem de si mesmo, se enfraquecem. Então, a tristeza se aproxima”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recordei que ele encerrou aquela conversa me propondo um enigma: “A montanha errada é relativa, pois está ligada ao aprendizado de quem a escala. Contudo, a montanha certa se torna absoluta quando você entende o seu verdadeiro significado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No meio da noite, parado em um semáforo, por fração de segundo, tive a sensação de ver o Velho atravessando a rua. Os seus passos eram lentos, porém, seguros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Bo Li &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>O perdão, o expurgo e a semente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jul 2020 11:38:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Tenho amigos maravilhosos. Diferentes personalidades, gostos diversos e olhares contrastantes quanto à realidade. Tanta diversidade me enriquece pelas possibilidades que se multiplicam em nossas convivências. Nem sempre é fácil, contudo, é encantador. Ocorre que um deles, o Eduardo, deu uma enorme vacilada com outro, o Paulo, a ponto deste se sentir traído na relação de confiança indispensável a qualquer amizade. Passou um tempo ressentido e, como sabia que a mágoa é uma prisão e um veneno, se esforçou para perdoar. Como não conseguia, veio trocar ideias comigo. Ponderei que se conheciam havia muitos anos e viveram juntos muitas coisas legais. Tentei fazê-lo ver que, entre prós e contras, o saldo era positivo. Conversamos sobre a importância de ele pacificar a questão dentro de si, não apenas por se tratar de um gesto libertador, mas também para que a convivência com os demais amigos não restasse prejudicada, caso em que todos perderiam. Sugeri que conversassem para que todas as arestas restassem aparadas. Paulo poderia expor as razões do seu ressentimento, oferecendo a Eduardo a oportunidade de explicar as suas motivações. Penso que um dos maiores motivos dos conflitos é a falha de comunicação. Enquanto teimarmos em adivinhar o universo intrínseco das outras pessoas seguiremos semeando problemas. É necessário se esforçar para entender e, se possível, ter paciência com a bagunça das gavetas internas de cada indivíduo. Todos temos as nossas histórias, dificuldades e, portanto, somos merecedores de compaixão. Assim foi feito. Paulo procurou o Eduardo para uma conversa franca e apaziguadora. Ao expor os motivos da sua mágoa, foi surpreendido pela reação de Eduardo, que jurou nem ter percebido o aborrecimento causado amigo; pediu desculpas, prometeu ter mais cuidado, se abraçaram e tudo terminou bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mentira. Nada tinha sido resolvido.</p>



<span id="more-3404"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Ambos mentiam, cada um para si mesmo. Nada estava bem. Todas as vezes que nos encontrávamos, aos mais atentos, era possível perceber uma atmosfera desconfortável. Não havia agressividade, nem mesmo através das odiáveis ironias ou do violento desprezo. Aos distraídos, as conversas pareciam transcorrer em bom tom. Embora o Eduardo tivesse pedido desculpas, algo em Paulo o impedia de perdoá-lo. Ele não conseguia se convencer que o Eduardo não tinha tido, à época, a sensibilidade de não perceber os equívocos que cometera. Cogitou a possibilidade de se afastar dele, porém, isto o distanciaria dos demais amigos, pois, era comum todos se reunirem com frequência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paulo dizia para si mesmo que era um bom homem, uma pessoa do bem e, indivíduos assim não carregam ressentimentos por saberem da importância do perdão como instrumento de liberdade e evolução. Ele sabia que a mágoa era um cárcere cruel e sem grades. Não, ele não se permitiria ter as suas próprias sombras como carcereiras e capatazes. Ele já tinha perdoado o Eduardo, repetia em silêncio todas as vezes que o encontrava. No entanto, se sentia incomodado não apenas com a sua presença, porém, mais grave, a mera lembrança do amigo era suficiente para trazer amargor à alma. Porém, negava as emoções que o dominava. “Eu sou um guerreiro da Luz”, proclamava em silêncio nos momentos de sofrimento agudo. Para não admitir que estava sendo incapaz de perdoar, sufocava a lembrança quando ela subia à memória. Apesar de já ter perdoado diversas pessoas e ter sido perdoado por várias outras em razão dos seus próprios equívocos, Paulo não conseguia, mas também não admitia a sua incapacidade para perdoar o Eduardo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em abril daquele ano, a conjunção dos feriados da Páscoa, Tiradentes e São Jorge, este último típico ao Rio de Janeiro, ficaram intercalados em curto espaço de tempo, o que nos permitiria quase dez dias de folga. Um dos amigos, proprietário de uma secular fazenda de café na divisa com São Paulo, onde havia um enorme casarão colonial de muitos quartos, convidou a todos para um período de descanso e confraternização.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na manhã do segundo dia, fomos jogar futebol. Paulo e Eduardo ficaram em times contrários e, na primeira oportunidade, Paulo fez uma falta violenta e, claro, desnecessária, no Eduardo quando ele tentou driblá-lo. Houve um breve silêncio causado pelo mal-estar provocado. Ninguém entendeu o motivo. Paulo murmurou que tinha sido sem querer e pediu desculpas. O jogo seguiu. Desconfiei ter percebido um rápido prazer mórbido nas feições do Paulo, típico de quando liberamos um pouco do ódio que nos sufoca. Como uma droga que nos vicia sem percebermos, me pareceu claro que ficou à espera de uma nova oportunidade para outro ato violento disfarçado por um esporte que exige contato físico. Não aconteceu, a partida acabou antes que ele pudesse repetir o gesto. Porém, ele ficou com um gosto de quero mais. O ódio tem esse nefasto poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À tarde, organizamos um campeonato de Buraco. Ao sortearmos as duplas, Paulo deu um jeito para fazer parceria com o Eduardo, que adorava o jogo de cartas. Como eu já estava atento à pendenga, me pareceu nítida a intenção de Paulo para que perdessem todas as rodadas. Era enorme o seu prazer ao ver a irritação do Eduardo a cada cada jogada propositalmente estúpida que fazia, somente para chatear o colega, que reclamou bastante da desatenção de Paulo ao serem eliminados. Achei ter visto os olhos de Paulo sorrirem de satisfação, embora ele nada tivesse falado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi quando uma das crianças esbarrou no braço de Paulo, onde havia um curativo cobrindo uma ferida. Sangrou. Imediatamente me ofereci para ajudá-lo a cuidar do ferimento. Afastamo-nos. A sós, enquanto separávamos os medicamentos necessários, fui direto ao assunto: “Antes que você perca o controle sobre si mesmo por completo, e a mágoa costuma provocar esse tipo de reação, penso que você deveria resolver o seu problema com o Eduardo”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paulo negou que restasse qualquer ressentimento. Alegou que já o havia perdoado. Fez um perfeito discurso sobre as maravilhas do perdão, além de expor, com segurança, as razões para respeitarmos os limites conscienciais de cada pessoa. Confessou que a conversa que tivera com o Eduardo se mostrara infrutífera. Apesar do amigo ter pedido desculpas pelo erro, percebeu que não tinha noção sincera do mal que causara e dos motivos pelos quais despertara nele, Paulo, tanta mágoa. Sustentou que não podia fazer mais nada, pois agora era uma questão de entendimento do próprio Eduardo. Enquanto retirava o curativo, falei: “Você o perdoou no seu intelecto. O entendimento é um importante passo inicial. Contudo, não basta. O seu coração precisa acolher o Paulo. Agora, será preciso você sentir o perdão. Ou, em verdade, o perdão nunca acontecerá”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que ele teimasse que já tinha perdoado, prossegui: “Você é um homem culto e conhece a exata teoria sobre a importância do perdão para a liberdade. Afinal, o ódio será sempre uma prisão, fazendo de você o carcereiro de si mesmo. Os dias se tornam amargos e a vida fica estreita. Muitos sabem tudo sobre o perdão, pouquíssimos já conseguem perdoar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os olhos de Paulo fugiram dos meus e, por um breve instante, me contaram sobre a verdade que ele sabia, mas negava para si mesmo. Neste momento, ao examinar o ferimento percebi que se tratava de um furúnculo, um tipo de infecção que acumula na região subcutânea uma massa bacteriana formada por pus e tecidos necrosados que, além de disseminar agentes nocivos na corrente sanguínea, impede a cicatrização enquanto não for retirada. “Temos de extrair o carnegão, do contrário, o ferimento irá se agravar”, expliquei. Ele concordou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de feita a devida assepsia no local, e com parcas lembranças da Escola de Medicina, espremi com força por entre os dedos até o núcleo purulento do furúnculo pular para fora do braço de Paulo. Sangrou bastante. Ele gritou de dor e fez uma feição de nojo ao ver a massa fétida e nociva. Depois, fechou os olhos e respirou aliviado na certeza de que tinha se libertado de algo que o envenenava. Antes de jogar o carnegão no lixo, mostrei a ele e perguntei: “Sabe qual o nome disto?”. Sem esperar pela resposta, falei: “Ódio, também conhecido com os nomes de mágoa ou ressentimento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paulo questionou se o furúnculo era a somatização das suas emoções aviltadas. Fui sincero: “Não necessariamente. Embora os sofrimentos e as emoções densas gerem reflexos danosos no corpo físico e, até mesmo doenças bem graves, de outro lado, os sentimentos sutis proporcionam cura e bem-estar. Faz-se necessário entender a terapia de cura específica do perdão. Sem o expurgo do ódio, não se conhecerá o fim do sofrimento. A cicatrização será apenas superficial e, a qualquer momento, a ferida voltará a incomodar. Não tenha medo de fazê-la sangrar até que haja a necessária purificação”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Expurgar significa fazer uma limpeza profunda, sem deixar qualquer resquício de impureza. Não adianta ter o perfeito raciocínio em descompasso com a falta de espaço no coração. A alma se ressente, se apequena e encolhe. Enquanto houver ódio, não existirá cicatrização e cura.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O perdão é uma virtude, como tal, uma indispensável ferramenta evolutiva. A sabedoria nos mostra a sua importância. Contudo, não se consegue expurgar o ódio sem amor.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto o Paulo concatenava aquela ideia e eu terminava o curativo, fomos surpreendidos com a entrada do Eduardo. Ele veio sob o pretexto de saber se estava tudo bem; contudo, havia uma intenção subliminar de reclamar da maneira como o amigo se comportara no carteado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a gota que fez desabar a tempestade. Paulo olhou para a lata de lixo onde tínhamos dispensado o carnegão, tornou a olhar para o colega e iniciou o expurgo: “Fico espantado como você se sente tão chateado com a derrota em um mero jogo de cartas, enquanto nunca demonstrou qualquer incômodo ou arrependimento com os graves equívocos praticados contra mim”. Eduardo alegou que reconheceu o erro e já tinha pedido desculpas. “Não basta?”, indagou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não!”, afirmou Paulo. “Não bastam as palavras, quando desacompanhadas do verdadeiro sentimento. Não basta entender que errou, é preciso um gesto para além das palavras, por menor que seja, para mostrar ao outro que entende e, ainda mais importante, que sente a dor causada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eduardo questionou: “O que você quer? Que eu me corroa em culpa, é isso? Pois saiba que não irá acontecer”. Paulo explicou: “Não quero que você sinta culpa, não existe a necessidade de tamanho fardo. Eu falo de responsabilidade e amor; percepção e sensibilidade. Ao demonstrar que a palavra estava desacompanhada do verdadeiro sentimento que lhe concede significado e grandeza, você retirou o real conteúdo dela. Ela ficou vazia, foi como não tivesse sido pronunciada. Pior, mostrou insensibilidade, não apenas com a dor que provocou, mas a agravou pelo desprezo demonstrado ao valor do perdão e da amizade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A banalização do pedido de desculpas havia sido a causa de um mal posterior e, até mesmo mais agudo, do que aquele praticado inicialmente. Então, os fatos se somaram para dar causa a um sofrimento ainda maior. Eu não tinha pensado nisto. Era verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca se deve usar a palavra sem estar acompanhada do perfeito sentimento que a anima. Quando se banaliza o perdão, se menospreza o amor e revela desprezo pela outra pessoa. Embora na aparência possa parecer perfeito, na essência aumenta o grau do mal praticado pela dor aprofundada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando pedi desculpas pensei que o assunto restasse resolvido”, ponderou Eduardo. Paulo esclareceu: “Foi neste ponto que o problema se agravou. A palavra oca me fez perceber a pouca ou nenhuma importância que você dava ao meu sofrimento ou à gravidade dos fatos. Sei que isso não fala sobre mim, mas o quanto você consegue entender e sentir a si mesmo e ao mundo ao seu redor. Doeu muito, mas agora, ao expressar os meus sentimentos, expurguei aquilo que me impedia o perdão”, e olhou para o curativo sobre a ferida no braço em vias de cicatrização definitiva. Uma imagem que o auxiliou a construir um raciocínio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eduardo alegou que havia exagero e dramatização. Paulo se virou para o amigo e, por alguns instantes, eu pude ver o brilho claro que já começava a emanar da sua face. Uma valiosa transformação acontecia dentro dele naquele instante. Em seguida, explicou com clareza e sinceridade: “Quando verdadeiramente sentimos o mal que praticamos, nunca mais o cometeremos. Do contrário, os erros e os repetidos pedidos de desculpas se manterão no raso da existência e se tornarão um hábito corriqueiro, desprovido de qualquer valor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, com impressionante tom sereno na voz, concluiu: “Não importa que você não entenda o que fez. Eu consegui retirar de mim aquilo que me fazia sofrer. O expurgo me permitiu perdoar; e o perdão me trouxe de volta à luz. Está tudo resolvido em mim. Daqui por diante, será você consigo mesmo; vá em paz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eduardo saiu sacudindo a cabeça como quem diz que aquela conversa não fazia sentido. Ficamos em silêncio por um longo tempo. Depois, Paulo me agradeceu: “Obrigado por ter me ajudado a sair de onde eu estava. Eu me deixei arrastar para a escuridão. Vou prestar mais atenção para não tornar a acontecer”. Fiz um gesto com a mão para sinalizar que ele estava enganado e confessei: “Aprendi mais do que ensinei. Nunca tinha me dado conta de como a palavra, por mais bela e nobre que seja, quando desacompanhada da verdade, se torna geradora de um mal ainda maior, e não do bem que deveria traduzir o seu significado original”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ainda mais, aprendi como é fundamental não apenas percebermos o erro que cometemos, mas também de sentir a dor que provocamos nos outros. Não por culpa, mas por lição. Somente assim ficaremos livres da repetição de obsoletas e desnecessárias maneiras de ser e de viver.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A sinceridade é o trato intrínseco com a verdade. Apenas depois disso as nossas desculpas se tornam honestas.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltamos à sala. As pessoas conversavam e se divertiam. Eduardo estava sentado na mesa de carteado substituindo um amigo que foi para a cozinha preparar o jantar. Ninguém tinha percebido o que acontecera havia pouco no outro cômodo da casa. Tudo estava como antes. Contudo, muita coisa tinha mudado. Fora-me proporcionado um maravilhoso aprendizado e uma fantástica transformação acontecera com o Paulo; ele estava livre do ódio que o maltratava há meses. Quanto ao Eduardo, mesmo sem se dar conta, levara consigo uma ideia luminosa. Talvez demorasse muito tempo para florescer, mas um dia isso aconteceria. Inexoravelmente. Boas sementes nunca deixam de germinar. A vida não desiste de ninguém e, ao seu jeito, nem sempre suave, mas inegavelmente justo, cuidaria de arar aquele solo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Tinamou &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>O jogo da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2020 10:27:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">As duas canecas fumegantes de café foram postas sobre o balcão de madeira da oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos. A pequena e charmosa cidade que ficava no sopé da montanha que abrigava o mosteiro ainda despertava. Havia quase um ano que não nos encontrávamos. Tínhamos muitas ideias para trocar. Comentei com ele um aspecto que me chamava a atenção nos últimos tempos: “As pessoas não sabiam ou tinham desaprendido a pensar”. O artesão me olhou com interesse e provocou: “O que pode ser mais íntimo a um indivíduo do que os seus pensamentos?”. Concordei, mas ponderei: “Nenhuma relação é tão intrínseca e, talvez, mais importante do que um sujeito com as suas ideias. Um relacionamento que define a música da vida e as cores do mundo. Estabelece as leis da selva ou as regras do templo, as noites tempestuosas e as manhãs de sol à beira-mar. Aflições, mágoas e desânimos ou serenidade, compaixão e entusiasmo, a depender do equilíbrio com o qual os pensamentos se sobrepõem uns aos outros, a coerência que possuem com os seus princípios éticos ou os desvios conduzidos pelos interesses rasteiros, além da harmonia com que convivem com os seus sentimentos mais puros ou a bagunça que as ideias se tornam ao se misturarem com as emoções aviltadas”. Loureiro continuou a me instigar: “Você está me dizendo que pensar não é uma tarefa fácil?”. Balancei a cabeça em anuência: “É dificílima. Mais grave, não raro, se trata de uma relação corrompida. A que preço cada um de nós prostitui a própria verdade?”.</p>



<span id="more-3395"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Sem responder à pergunta, Loureiro expandiu o raciocínio: “Isso a qual você se refere, embora seja atual, já era uma preocupação dos filósofos da Grécia Antiga. Platão escreveu um texto muito interessante, conhecido como&nbsp;<em>O anel de Giges</em>. Nele, conta a história de um homem pacato e simples que ao descobrir um anel que concedia o poder da invisibilidade, passou a cometer terríveis atrocidades, inimagináveis a um cidadão considerado sensato e cumpridor das leis. A questão era entender como cada pessoa se comportaria ao saber que a sua reputação e direitos não estariam em riscos ao praticar atos impossíveis de serem revelados. O hipotético anel seria uma experiência para que pudéssemos descobrir a verdade sobre quem não somos, o quanto de nós é apenas o personagem social que interpretamos, moldados pelas aparências, impulsionados pelos desejos ou limitados pelo medo. Também cabe a análise de como lidamos com as ideias que nos constroem, a sinceridade com a qual nos relacionamos conosco e as mentiras que acreditamos no intuito de deixar a vida mais confortável. Todos os meus conflitos com o mundo surgem das verdades e ideias desalinhadas que possuo quanto a mim mesmo. Obrigatoriamente”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebeu um gole de café e disparou: “Evoluir, em suma, é aprender a amar mais e a pensar melhor”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa estava animada, mas ainda no começo. Havia várias escalas tanto para ampliar quanto para aprofundar a ideia, quando fomos interrompidos pela chegada do sobrinho do sapateiro. Luiz era o seu nome. Ele estava diante de um dilema existencial, objeto da perturbação que o acompanhava há dias. O rapaz tinha formação em psicologia e especialização em psicanálise. Tinha paixão pelos estudos de Carl Jung. Trabalhava em um consultório comunitário em uma metrópole onde morava, cerca de duas horas da cidadezinha que estávamos. Não tinha clientes suficientes para manter um consultório particular. Como é comum no início de uma carreira profissional, enfrentava muitas dificuldades, entre elas, e principalmente, a financeira. O dinheiro que ganhava mal dava para pagar o aluguel de um apartamento minúsculo e cobrir os gastos com alimentação. Achava que o seu talento merecia melhor reconhecimento por parte das pessoas e, como consequência, maior remuneração. Como não acontecia, cada vez mais, aquela situação aumentava o seu abatimento e desânimo. Luiz amava a profissão que escolhera, mas não suportava as enormes dificuldades que enfrentava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os seus pais se divorciaram quando ele ainda era garoto. Luiz ficou morando com a mãe, irmã de Loureiro. Embora o pai tivesse se mudado para outra cidade, mantiveram contato na medida do possível, face aos compromissos e à distância. Ocorre que recebera a oferta para ir trabalhar com o pai, proprietário de uma lucrativa casa de jogos, onde se podia apostar do futebol ao golfe, do basquete às lutas de box. Como tinha planos de, em breve, abrir outras filiais, propôs ao filho que fosse aprender sobre os meandros do negócio para, em seguida, não apenas ajudar na administração das lojas, mas se tornar o seu braço-direito e sócio. Seria também uma maneira de estreitarem mais a relação pai-filho, além de fortalecerem os laços de amor que sempre os uniu. Luiz nunca mostrara interesse no negócio do pai nem se sentia atraído por um cotidiano de probabilidades e prognósticos. No entanto, o fator que desequilibrava o rapaz era a participação nos altos lucros da empresa. Um detalhe capaz de modificar a sua existência. Teria acesso a desejados bens de consumo, alguns muito caros, permitindo que tivesse um estilo de vida cobiçado pela maioria das pessoas. Ganhar dinheiro para pagar as contas deixaria de ser uma preocupação. O preço seria abandono da carreira que escolhera para si. Uma profissão que adorava, mas que o fazia passar por sérias necessidades materiais. Atordoado, foi passar um final de semana na casa mãe, que também morava na pequena e charmosa cidade que abrigava a oficina de Loureiro. Depois de conversarem bastante, sem nenhum avanço, ela pediu que Luiz procurasse o tio, famoso por alinhavar ideias com a mesma mestria que costurava bolsas e sapatos. “Tenho tido dificuldades de dormir há dias”, confessou após narrar o dilema que enfrentava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se, por um lado, a oferta é tentadora, por outro, jogar fora tantos anos de estudo me assusta”, revelou a sua agonia. Questionei se o pai não poderia fornecer uma ajuda econômica, ainda que pequena, até que a sua carreira como terapeuta deslanchasse. Luiz explicou: “Meu pai é um homem bom, mas muito pragmático. As dificuldades que enfrentou o levou a uma visão áspera da realidade. Ele acredita que se fizer isso não estará me ajudando, porém, enfraquecendo”. Fez uma pausa e concluiu sobre a maneira de pensar do pai: “Se eu for trabalhar com ele terei acesso a todas as facilidades do mundo; caso não aceite, ele não ficará chateado, mas terei que superar os obstáculos sem ajuda, como ele conta que aprendeu a fazer”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ponderei com o Luiz: “Não seria caso de conversar com o seu pai para mostrar que a proposta dele leva ao abandono do exercício que ele tanto admira: se tornar uma pessoa forte. Abdicar da profissão que você adora, se dedica há anos e escolheu abraçar para trabalhar em um negócio que tem como atrativo, ao menos para você, somente a facilidade de ganhos financeiros, apesar dos vistosos adornos externos e aura de sucesso que o dinheiro pode proporcionar, não seria justamente uma escolha pela fraqueza intrínseca?”. Beberiquei o café e prossegui o questionamento: “Não seria a determinação pelo enfrentamento das dificuldades uma academia adequada para fortalecer a musculatura da alma?”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O rapaz sacudiu a cabeça e explicou: “Já tentei conversar com ele, mas não consegui avançar muito. Meu pai entende a vida de uma maneira muito peculiar e acredita que o mundo só respeita a quem tem dinheiro. Para ele, a difícil troca por uma atividade profissional mais lucrativa, deixando de lado o gosto juvenil sem resultados econômicos, seria um exercício necessário de força e o limiar da fase adulta. No mais, a convivência nesse ambiente complicado de apostadores espertos a procura do dinheiro fácil das apostas me tornará um homem mais calejado, experimentado e difícil de enganar”. Havia resignação em seus olhos quando disse: “Ele é um bom pai, não tenho dúvida do seu amor e está disposto a me ajudar, mas ao seu jeito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro, atento ao diálogo, observava em silêncio. Quando demos uma pausa, o sapateiro tornou a encher a minha caneca, colocou mais uma sobre o antigo balcão de madeira para o Luiz, bebeu um gole de café e comentou: “As escolhas angulares, aquelas capazes de nos levar às necessárias transformações evolutivas se referem às decisão entre priorizar a existência ou de valorizar a vida. Questões simples, porém, difíceis”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sobrinho pediu para o tio explicar melhor. O sapateiro foi didático: “Priorizar a existência é adotar um comportamento que valoriza as facilidades materiais e os privilégios sociais; apesar do afiado discurso ético, não entende ou não quer uma maior responsabilidade, ao menos naquele momento, com a sua evolução espiritual. De outro lado, valorizar a vida é o comprometimento diário com os infinitos ciclos virtuosos, sempre disposto a aprender, transmutar, compartilhar e seguir em frente; uma prática que, muitas vezes, o obriga a adotar conceitos na contramão dos padrões habituais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“Uma maneira simples de entender a diferença, desde que você seja sincero consigo mesmo, é responder a uma única perguntinha: O que te dá prazer é o que te faz sentir melhor ou que te torna uma pessoa melhor?”. Fez uma pausa para o Luiz alocar a ideia e prosseguiu: “Os afoitos ainda não perceberam a diferença, os atentos já conseguem unificar a resposta”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Loureiro bebeu mais um pouco de café e prosseguiu na explicação: “Diferente do que muitos imaginam, esses dilemas não estão presentes apenas em momentos mais significativos como esse que você vive, de mudanças mais aparentes, com reflexos evidentes nas facilidades ou dificuldades que irá enfrentar, a depender da decisão tomada. Essa pergunta se apresenta todos os dias, em momentos considerados banais, em escolhas que consideramos de menor importância. São questões que passam desapercebidas, embora também definam rotas e destinos. Roubamos o nosso livre-pensar e nos impedimos de ser tudo aquilo que poderíamos viver quando acionamos o botão no&nbsp;<em>modo insensível</em>. Ainda não entendemos que quando paramos de sentir a pulsação da vida no mesmo ritmo dos movimentos da alma nos afastamos de quem somos em essência e, como consequência, do poder transformador que possuímos”. Esvaziou a caneca antes de concluir: “Ninguém consegue isso sem aprender a pensar por si mesmo, enquanto não compreender qual a verdadeira aposta está sendo feita. Continuaremos sem entender o significado do jogo enquanto não soubermos de antemão o resultado da disputa entre o conforto do corpo versus a liberdade da alma, os prazeres da existência versus a felicidade da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Até que um dia nos damos conta que a felicidade da vida é impossível sem a liberdade da alma. Para tanto, é preciso ser quem você veio se tornar, tendo em mente que os sacrifícios necessários para isto são fontes de força e fé, na certeza de que ninguém consegue amar a si mesmo sem amar igualmente a vida”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luiz argumentou com o seu jeito doce: “Eu entendo as suas palavras, tio. Mas ninguém quer para si uma vida de sacrifícios”. Loureiro deu de ombros e disse: “Depende mais uma vez da capacidade de cada um em aprofundar a verdade para que possa ampliar a realidade. A origem morfológica da palavra&nbsp;<em>sacrifício</em>vem da junção de outras duas palavras,&nbsp;<em>sacro</em>e&nbsp;<em>ofício</em>. Antigos monges acreditavam que o&nbsp;<em>trabalho sagrado</em>não continha qualquer peso, pois trazia consigo a leveza da transformação. Sagrado é tudo aquilo que nos torna pessoas melhores. A partir daí, a escolha se torna simples e a dificuldade desaparece. As decisões, até então difíceis, passam a ser fontes inesgotáveis de alegria”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O rapaz ficou em silêncio. Tive a sensação que o seu olhar revelava uma decisão já tomada. O sapateiro finalizou a conversa com um valioso questionamento: “Temos que compreender em quem, ou no quê, verdadeiramente apostamos. Se prestarmos bem atenção, veremos que a vida é um jogo com resultados previsíveis. Só os incautos se decepcionam com as apostas que fazem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falamos mais alguns minutos sobre assuntos mais amenos. Depois, Luiz agradeceu a conversa e se despediu prometendo que pensaria bastante na decisão que tomaria. Meses depois, soube que ele tinha abandonado a carreira de terapeuta para trabalhar ao lado do pai. Desde então, não tive notícias do rapaz. Salvo por duas vezes, através dos noticiários, quando se casou com uma famosa modelo em um exclusivo e badalado balneário. Um casamento de curta e turbulenta duração. Além disto, teve um suposto envolvimento com um grupo que fraudava resultados em jogos de futebol, em uma investigação na qual terminou inocentado por falta de provas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dez anos se passaram desde esse encontro na oficina do Loureiro.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava no mosteiro quando me informaram que um homem me procurava. O encontrei sentado em um banco de pedras do jardim interno. Sim, era o Luiz. De uma maneira que não sei explicar, não me surpreendi. Os seus cabelos estavam grisalhos, em um tom acentuado e pouco comum à idade que tinha. Ele ainda não havia chegado aos quarenta anos. Vestido com roupas elegantes e com modos gentis, sorriu ao me ver e me deu um abraço apertado. Decidimos conversar ali mesmo, por entre as rosas cultivadas pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo e amado da Ordem, deixadas como um dos seus inúmeros legados. Luiz expôs que gostaria de participar dos nossos estudos e, se possível, mais à frente, se tornar um monge, como são conhecidos os integrantes da Ordem Esotérica dos Monges da Montanha – OEMM, uma irmandade filosófica sem cunho religioso. Eu quis saber sobre a razão daquela vontade. Ele se referiu aos últimos anos da sua vida: “Foi uma década perdida”.&nbsp;&nbsp;Argumentei que nenhuma experiência se perde se houver percepção e sensibilidade, pois serão auxiliares, por outros vieses, como alavancas de transformação. Não raro, precisamos passar pelas situações que se apresentam, pois fazem parte do processo individual de amadurecimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luiz foi enfático: “Fui em busca do mel da vida e encontrei o período mais azedo da minha existência”. Olhou-me com melancolia e confessou: “Eu tive acesso a todas as coisas que um homem imaturo acredita precisar para ser feliz e conheci a superficialidade das relações e a amargura dos desencontros. As portas dos castelos se abriam à medida que os corações se fechavam. Eu não consegui ser ninguém. Faltava-me uma espécie de&nbsp;<em>selo de autenticidade</em>, algo que eu já tive, quando fui aquele humilde terapeuta a procura de um lugar ao sol. Embora me faltassem condições materiais e sobrassem múltiplas dificuldades, ali havia amplitude e profundidade em ser quem eu era. Sinto saudades daquele homem que tinha todas as coisas que realmente precisava, mas ainda não sabia. Em verdade, nada me faltava, salvo aprender a ver e a pensar”. Balancei a cabeça como quem diz que entende os motivos e lembrei: “Você encontrou exatamente aquilo que foi buscar. Nem mais nem menos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luiz concordou: “Foi isso que o meu tio quis dizer ao me falar que a vida não surpreende ao final do jogo. Nós que é nem sempre entendemos o resultado do placar”. Em seguida, quis saber: “Você acha que posso resgatar a minha essência? Afastei-me da administração nas casas de apostas, agora quero me preparar para retomar a parte essencial de mim mesmo que abandonei na prateleira de um dia que eu nunca esqueci. Responda-me com honestidade”. Sorri movido por intensa alegria. Poucas coisas me causam mais admiração do que ver alguém na busca por si próprio, na superação de quem foi e a procura de quem quer se tornar. Expliquei a ele: “Sim, acredito que você nunca deixou de ser um psicanalista, pois esta sempre foi a sua essência, embora esteja afastado dela por muito tempo, sempre será possível refazer o caminho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sim, desde que esteja disposto a usar as experiências vividas para alicerçar a certeza daquilo que não mais deseja para a sua vida. Os erros têm esse poder, de descontruir as ilusões, afastar as dúvidas que atormentam, fechar as estradas que levam a lugar nenhum e, então, acender uma luz onde antes só havia escuridão”. Fiz uma pausa e lembrei ao Luiz as palavras do seu tio, sapateiro de ofício e filósofo de profissão, ditas anos atrás na oficina:&nbsp;<em>Ninguém consegue isso sem aprender a pensar por si mesmo, enquanto não compreender qual a verdadeira aposta está sendo feita. Continuaremos sem entender o significado do jogo enquanto não soubermos de antemão o resultado da disputa entre o conforto do corpo versus a liberdade da alma, os prazeres da existência versus a felicidade da vida.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida concluí: “Entende a razão para não termos medo de errar? Não existem melhores mestres em nossas vidas. Não se envergonhe deles. Foram eles, os seus erros que a ampliaram sua consciência, aprofundaram a sua verdade e transformaram as fronteiras da realidade que existe hoje em você. Não lamente deles, agradeça a eles”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sem certeza se entendia a minha resposta, ele foi objetivo: “Isso quer dizer que serei aceito como aprendiz na Ordem? Mesmo com um passado complicado e repleto de más escolhas?”. Fui sincero: “Não somos um tribunal, mas um templo dedicado ao conhecimento e à superação. No mosteiro não contabilizamos quem você foi, mas levamos em conta quem você busca ser. Tudo mais são paisagens ou histórias”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falei para ele pegar a mala no carro enquanto eu providenciaria acomodação para o seu primeiro período de estudos. Observei ele se afastar. Luiz parecia saltitar como um garoto em uma manhã ensolarada. Ele estava de novo jogo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Em verdade, nunca saímos do jogo. Apenas precisamos entender melhor o seu significado”, pensei comigo mesmo. Lembrei da parábola do Filho Pródigo; depois de conhecer o mundo, Luiz fazia o trajeto de volta à casa. Ele retornava para encontrar consigo mesmo”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Dmytro Varavin &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>O mel da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2020 10:40:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Era uma manhã de sábado. Em Sedona, nas montanhas do Arizona, Canção Estrelada, o xamã que tinha dom de polinizar a sabedoria do seu povo, estava sentado debaixo do grande carvalho que havia no quintal da sua casa. As pessoas chegavam de diversos lugares para ouvir as suas histórias. Havia tempo que esse alegre cerimonial se estabelecera, desde que fora impedido de fazer o mesmo nas escolas por causa de uma lei que exigia um diploma universitário que ele não possuía. Passara, então, a contar as histórias no espaçoso gramado que existia na frente da varanda da sua casa. Famílias se sentavam sobre mantas e abriam as cestas com lanches que traziam. Compartilhavam a merenda enquanto as crianças corriam soltas e divertidas, até que às nove horas o xamã iniciava uma linda história. Ele nunca as repetia. Daquela vez, foi diferente. Diante do absoluto silêncio que se instaurava quando o xamã começava a falar, Canção Estrelada surpreendeu a todos: “Não haverá mais histórias. Creio que não me recordo de mais nenhuma. Acredito que toda a filosofia ancestral do meu povo já foi transmitida a vocês nos últimos anos. Agora é a hora seguinte, aquela na qual colocamos o conhecimento que adquirimos em ação e, assim, o transformamos em sabedoria. Conhecimento inerte é somente erudição; é como um artista sem obra. É como abelha que nega a própria essência ao se recusar a fabricar o mel”.</p>



<span id="more-3384"></span>



<p class="wp-block-paragraph">No mesmo instante se instalou um burburinho que foi escalando tons até me parecer que uma enorme confusão aconteceria. Algumas pessoas entenderam a postura do xamã e foram agradecê-lo por todo ensinamento transmitido durante tanto tempo. Admitiram que ele fornecera valiosas ferramentas para que todos conseguissem moldar as próprias vidas com a mestria que já eram capazes. Expressaram gratidão. Estavam sendo sinceros, mas foram poucos a se comportar assim. A maioria estava revoltada e reclamava muito. Algumas crianças, assustadas, começaram a chorar. Uma moça, com cerca de trinta anos de idade, muito inteligente e com um bebê no colo, era a mais articulada. Declarava-se traída. Alegava que o xamã não tinha o direito de interromper o tradicional ritual sem, ao menos, preparar um substituto ou avisar a todos com antecedência. Afinal, aquelas histórias já faziam parte das suas rotinas e as ajudavam muito pelo bem-estar que proporcionavam. Reconhecia que Canção Estrelada nunca cobrara nenhum centavo pelo trabalho que realizava, mas isto, não o isentava da responsabilidade com aquelas pessoas. Comparou-o ao pai que sempre alimentou o filho e, de repente, o deixa morrer de fome. Com o dedo em riste, citou uma frase célebre de um talentoso escritor dizendo que o xamã&nbsp;<em>era responsável por tudo aquilo que ele cativou</em>. Foi muito aplaudida. As reclamações subiram muitos degraus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De onde eu estava, na varanda, olhei assustado para Canção Estrelada. Para a minha surpresa, ele estava impassível. Não sorria nem demonstrava aborrecimento. Apenas olhava com a curiosidade e encantamento de um garoto em visita ao museu ou no circo. Vitrines expondo o desconhecido, ribaltas apresentando o inusitado. Ao contrário do que se pode imaginar, não era descaso; havia um profundo respeito em seu olhar, como de um aprendiz diante de um mestre com um improvável jeito de ensinar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois que todos foram embora, Canção Estrelada começou a varrer o quintal como sempre fazia todos os sábados. Tinha no rosto as mesmas feições serenas, como se nada de extraordinário houvesse acontecido. Ajudei-o na tarefa sem trocarmos palavra. Mais tarde, à sós na varanda, sentado em sua cadeira de balança, enquanto acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, comentei sobre a confusão daquela manhã. Eu quis saber o motivo pelo qual ele tinha resolvido não mais contar histórias. Afinal, ele estava abandonando o seu dom e, para usar uma expressão utilizada por ele mesmo, era como se a abelha se recusasse a fazer mel. O olhar do xamã vagava ao infinito, como se visse algo que ninguém mais via. Baforou o cachimbo algumas vezes, sem pressa, e disse: “A abelha nos ensina o valor de trabalharmos para um bem comum. No entanto, uma não interfere na atividade da outra, tampouco se prejudicam. A medicina xamânica da abelha nos fala sobre liberdade e responsabilidade; individualidade e coletividade; comprometimento e alegria. Tudo e todos em harmonia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A liberdade está atrelada a responsabilidade, principalmente quanto à dignidade das relações. Podemos muito, temos um universo amplo de possibilidades, mas ninguém pode tudo. Não posso pegar o que não me pertence, interferir abusivamente nas escolhas alheias, tratar as pessoas como se fossem objetos, impor a minha verdade como se eu a detivesse em monopólio. Quando insisto nestas práticas, crio problemas. De outro lado, a minha responsabilidade com a coletividade não poder se tornar maior do que a minha liberdade de fazer diferente, de caminhar onde ninguém nunca ousou ir; de entender que, quando os planos que os outros fizeram para mim são diversos daqueles que eu mesmo tracei para o meu destino, tenho o direito de decidir em ser quem sou, sem que isso me caracterize necessariamente como um sujeito egoísta. Se faz necessário manter o sabor da individualidade para não se perder o gosto pela coletividade”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se aprendo com os meus erros, não há razão para ter medo deles. A liberdade me diz que tenho o direito de errar e a responsabilidade me lembra que terei de arcar com os seus inevitáveis efeitos. Impossível escapar desta equação de aprendizado, justiça, sabedoria e amor. Eis a necessidade de viver a realidade sempre de modo coerente com a verdade já alcançada. Isto me justifica diante dos meus próprios equívocos e me ensina a fazer de uma maneira nunca antes imaginada diante de uma nova oportunidade. E a vida nunca nega mais uma chance quando estamos em sintonia com ela”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A construção de um indivíduo virtuoso é o pilar indispensável para se erguer uma sociedade justa. Não existe um código jurídico capaz de harmonizar uma cidade onde a população seja composta por pessoas infelizes ou desequilibradas. No máximo conseguirá acuá-las através do medo e do terror. Impossível pacificar um povo cujas pessoas são viciadas em ódio e se regozijam com notícias e cenas violentas. Ninguém terá um corpo saudável se as suas células estiverem doentes. De outro lado, nenhuma atividade que, de algum modo, não vise o bem-estar social será benéfica ao próprio indivíduo a longo prazo. A parte precisa estimular a melhora do todo, ainda que não seja compreendida pelos seus pares nos movimentos iniciais. O novo costuma assustar na sua chegada, mas depois do impacto provocado pelas mudanças que surgem, se mostra fundamental à regeneração da vida”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Pode haver uma existência sem comprometimento, jamais uma vida. Uma existência eufórica é muito diferente de uma vida alegre. A euforia trata do divertimento mundo afora, a alegria se refere a um encantamento universo adentro. A alegria surge na percepção de cada etapa evolutiva alcançada, ainda que mínima. Está presente, também, na sensibilidade refinada pelas relações que se apresentam em nossas vidas. Tanto aquelas que nos deliciam com a beleza do amor presente, como também nos relacionamentos que ensinam sobre o amor ausente, aquele que ainda não temos. Então, nos impulsionam a ir aonde nunca estivemos. Isto é motivo de alegria. A vida se expande no compasso de cada indivíduo. Somente assim as sociedades avançam. Qualquer outro jeito é mera maquiagem”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todos, de um jeito ou outro, são fundamentais. E precisam se tornar fontes de alegrias. Diferente disso, ouviremos música sem melodia; assistiremos correria sem movimento. Você não conhecerá o fruto doce da alegria enquanto não entender que a raiz dessa árvore é o compromisso com a evolução. Sem amor não existe comprometimento, apenas obrigação. Então, haverá apenas cansaço. Os dias continuarão pesados e com o gosto amargo deixado por uma vida sem transformação. Você buscará por momentos de euforia na tentativa de esquecer uma realidade vazia pela ausência de sentido”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se adivinhasse a minha próxima pergunta, disse: “A responsabilidade que tenho com quem amo não pode estar em descompasso com o comprometimento que tenho comigo, pois, do contrário, serei incoerente com a verdade que me serve de farol. A responsabilidade que tenho contigo é limitada ao compromisso que você deve ter consigo mesmo de avançar por vontade própria. O amor que cria dependências desnecessárias não é amor, mas abuso e dominação; capataz e servidão; fardo e medo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O amor não floresce longe da liberdade e da dignidade; sem ele não se vive a paz nem se conhecerá a felicidade. O amor são as velas que impulsionam o barco rumo à evolução, a vontade são é ventos. A sabedoria é o leme que o impede de navegar à deriva”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber a razão de ele não mais contar as histórias que mantinham viva a filosofia do seu povo. Canção Estrelada me surpreendeu: “Você já viu uma abelha parar de fazer mel? Eu não parei, é o meu dom. Penso em seguir contando histórias até o dia da minha viagem rumo ao Grande Mistério”. Atônito, lembrei sobre o fato ocorrido naquela manhã. O xamã me causou espanto: “Algumas das melhores histórias são aquelas nas quais os espectadores participam como personagens”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curioso, indaguei sobre os próximos acontecimentos. Ele deu de ombros e disse: “Essa é uma daquelas histórias que nem mesmo o narrador conhece o final, pois ele também aceitou participar como um dos personagens”. O xamã colocou o dedo diante dos lábios como quem pede segredo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dias se passaram. Em todos os lugares que eu ia, as pessoas comentavam sobre a decisão de Canção Estrelada não mais contar as suas famosas histórias. Como naquele sábado no quintal da sua casa, algumas se mostravam gratas pelo bem semeado durante tanto tempo; outras estavam amarguradas e o consideravam egoísta ou preguiçoso. Houve quem classificasse o xamã como vaidoso, por acreditar que o seu objetivo seria que as pessoas implorassem pelo retorno das cerimônias. Achei por bem comentar o que tinha ouvido para que ele estivesse preparado para todo tipo de reação. Canção Estrelada arqueou os lábios em sorriso e falou: “A indignação retrata os interesses e certezas de alguém. Revela o conteúdo do seu coração. Apesar de merecer o meu respeito e ponderações, não tem poder de coagir a minha verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele olhava para o céu repleto de estrelas ao se virar para mim e me lembrar: “O ódio de ninguém terá força para esmorecer o amor que trago em mim”. Esperou que eu alocasse a frase e avisou: “Nunca esqueça disso. Sempre será necessário”. Antes que eu esboçasse qualquer comentário, pediu licença e foi dormir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No final de semana seguinte aconteceria uma das mais tradicionais festas de Sedona. No topo de uma colina, onde funcionava o aeródromo da cidade, foi montado um palco para shows e, ao redor, diversas barracas com guloseimas, bebidas e comidas típicas. Na tarde de sábado, começaram os festejos. Fui para o local junto com Canção Estrelada, mas logo o perdi de vista. Não dei muita importância. Bandas locais tocavam músicas regionais, intercaladas com espetáculos de dança. Todos estavam animados e eu me divertia muito ao lado de um grupo de amigos. No meio da noite, o simpático prefeito da cidade assumiu o microfone para os agradecimentos habituais. Em seguida, para surpresa geral, inclusive a minha, anunciou um conhecido artista nativo. Sim, era ele, Canção Estrelada. Fiquei preocupado quando ouvi uma enorme vaia. Muita gente ainda estava chateada com o xamã. Vi quando a mesma moça articulada que estava na casa dele gritar: “Suma daqui! Você nos abandonou. Não o queremos mais! Vá embora!”. Isto levou outras pessoas a engordarem os protestos. Embora nem sempre percebamos, o ódio é uma droga que possui um enorme número de viciados; é de rápida propagação e possui uma grande aceitação quando oferecida. O mais grave é o fato de os seus adeptos não reconhecerem o uso que fazem, pois é uma substância ingerida sem matéria, que não precisa ser comprada nem preparada para consumo. Ela está pronta há séculos e paira à disposição em determinadas faixas astrais; basta o indivíduo se conectar. A maioria nem nota o próprio vício.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preocupado, corri para frente do palco. A serenidade de Canção Estrelada se mantinha inabalável. Naquele instante entendi a força que nasce quando nos mantemos no eixo da verdade intrínseca, aquela que não se mistura com o medo alheio, a escuridão do mundo ou interesses menores. Um poder que não se assusta com a reação impulsiva da manada nem com os gritos de quem usa palavras como se fossem pedras. Almas como as do xamã escolheram a liberdade como via evolutiva. Não existe liberdade sem amor. Naquele instante, compreendi a dimensão pessoal da verdade como o fator determinante para quem usa algemas ou asas. O grau de verdade (ao nível que cada um a conhece) aplicada à vida estabelece a coerência que temos conosco e a sintonia que mantemos com a Luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem se abalar, sentado em um banquinho, o xamã rufou o seu tambor de duas faces com suavidade. Devido ao burburinho, nada se ouvia. Ele não pareceu se importar e continuou tocando baixinho. Aos poucos, os protestos arrefeceram e pudemos perceber se tratar de uma cantiga ancestral de melodia bem compassada. Como muitos a conheciam, acompanharam o xamã quando ele recitou, em dialeto nativo, o poema que fazia parte da música. Eu não conhecia o significado das palavras, mas sabia que falava sobre o mel produzido por uma abelha, utilizado para alimentar toda a colmeia. Encerrava dizendo que o mel explicava à abelha o sentido da sua vida. Exercer o dom concede esse poder; ninguém pratica o dom sem amor. Percebi um agradável e crescente sentimento. Algumas pessoas cantavam emocionadas para si mesmas, como se conseguissem abraçar as estrelas por intermédio da canção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao terminar, quando todos esperavam por outras cantigas, uma maravilhosa surpresa. O xamã começou a narrar: “Quando os bisões ainda eram incontáveis nas planícies desta terra, existia uma aldeia&#8230;”, e foi interrompido por um estrondoso aplauso. Um jovem casal ao meu lado, de mãos dadas e lágrimas nos olhos, comemorava:&nbsp;<em>ele voltou, ele voltou</em>. Quem nunca esteve nas montanhas do Arizona, talvez ache um despautério a grandeza das emoções e sentimentos a envolver tanta gente naquele dia. Ocorre que a maioria daquelas pessoas tinha a base filosófica das suas vidas alicerçadas nas histórias contadas, havia décadas, por Canção Estrelada. Embora pouca gente desse conta, aquela atividade simples, de rotina corriqueira, erguera os pilares existenciais de várias gerações. No entanto, enquanto uns foram gratos, outros se sentiram abandonados quando ele avisou que fizera uma escolha diferente. Percepção e sensibilidade. A diferença se explicava pelas lentes e filtros que cada já era capaz de usar para viver.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada aguardou o silêncio retornar e prosseguiu: “Era uma aldeia muito próspera e tranquila. Todos os habitantes se dedicavam ao cultivo do trigo, devidamente organizados em suas funções. Preparação do solo, adubagem, semeadura, cuidados com a germinação, proteção contra pragas, irrigação e colheita. Depois, enfardamento, transporte e venda de parte do trigo para outras aldeias. Também debulhavam a espiga para a preparação de pães, que seriam consumidos ou mercadejados. O dinheiro arrecadado servia para comprar outros alimentos e diversos utensílios para a aldeia. Tudo funcionava bem e todos estavam satisfeitos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Certo dia, em uma das reuniões da tribo, um dos habitantes falou sobre a importância de diversificarem o cultivo, não apenas como forma de investimento, mas também de proteção. Cada produto traz em si características próprias de força e fragilidade. Alegou como isso era importante diante, não apenas diante às intempéries do clima, mas também quanto a impermanência da vida, que se modifica para que possamos avançar. As suas ideias foram rechaçadas de imediato. O argumento que mais se ouvia era&nbsp;<em>por que mudar algo que sempre deu certo?</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Falaram, ainda, que o pão era o alimento básico de todos os povos e nunca deixaria de ser consumido. Não havia com que se preocupar nem motivos para mudar. Manitú, como se chamava esse homem, lembrou que entender as mudanças e ser afeito a elas é razão indispensável ao aperfeiçoamento que ninguém consegue fugir por muito tempo. Respeitar as mudanças ensina sobre a liberdade; é, também, o seu melhor exercício. No mais, diversificar era ampliar possibilidades, não significava virar as costas para a tradição nem renega os objetivos alcançados. Negar a convivência com as diferenças é apequenar o mundo; se fechar ao novo é restringir a vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não teve jeito, ninguém entendia a necessidade do movimento e da mudança. Afinal, a vida estava confortável. Enfim, a proposta foi rejeitada. Esse habitante decidiu que, apesar do entendimento da tribo, ele cultivaria milho, ainda que sozinho. Houve muitos protestos e alegações de desvio de conduta; um comportamento que quebrava a unidade da aldeia. Ele argumentou que não alterava a harmonia da tribo, uma vez que o cultivo do milho em nada prejudicaria a rotina da plantação de trigo. Ele usaria terras que não eram utilizadas pela aldeia. Portanto, entendia que possuía direito a fazer tal escolha. Depois de muita discussão, se decidiu que ele poderia se dedicar à nova atividade, desde que não atrapalhasse a rotina da aldeia. Não sem antes lembrarem de como estavam sendo benevolentes. Decidiram, também, que ele não poderia mais participar das benesses proporcionadas pelo trigo nem compartilhar dos pães produzidos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Embora ele tivesse sido expulso da tribo, havia um banimento silencioso, também conhecido como marginalização, ou seja, aqueles que não se adequam ou parecem não caber no curso dominante de uma sociedade são colocados à margem da vida comum. Não raro, se tornam alvo de críticas rasteiras, atiradores de pedras e afins. Lembram do incômodo que causam sem se importarem em entender as suas razões. Temos incrível facilidade de restringir as escolhas alheias para que não sejamos esbulhados em nossa comodidade”. Fez uma breve pausa, olhou para a plateia e comentou: “Falo por pura ilação, pois nenhum de nós seria capaz de semelhante prática”. Silêncio absoluto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O xamã prosseguiu com a história: “Manitú passou por enormes dificuldades no primeiro ano. Sentiu-se isolado pela discriminação sofrida. As pessoas até mesmo se recusavam a conversar com ele. Mesmo tendo algumas economias, muitas vezes teve de comprar alimentos em tribos vizinhas ou com mercadores que visitavam a aldeia, pois os integrantes da sua própria tribo se negavam a fazer qualquer negócio com ele. Conheceu a fome e o abandono, mas não desistiu”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Então, veio o inverno mais rigoroso que se teve notícia. Nem mesmo os anciães lembravam de uma estação tão fria e inóspita. A maior parte do cultivo do trigo se perdeu. Na primavera, junto com a polinização, naquele ano veio também uma praga que deu fim ao que restava do trigo. O imponderável aconteceu. Todos ficaram assustados e desesperados. A aldeia funcionava em torno do cultivo trigo. Naquele ano não houve uma única espiga de trigo para debulhar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Convocada uma reunião para debater soluções, nenhuma proposta se mostrava animadora por ter mais aspectos negativos do que vieses positivos. Porém, era preciso tomar uma decisão, nem que fosse a menos ruim”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Foi quando Manitú pediu palavra. Apesar de estranharem a sua presença, como integrante da tribo ele tinha o direito de estar ali e, mais importante, de se manifestar, mesmo que a contragosto de todos. Em verdade, as pessoas estavam tão desanimadas que nem mesmo se importaram muito. Em tom sereno e com grande clareza, Manitú disse que, por ser mais resistente ao frio e imune aquela espécie de praga que assolou o trigo, o cultivo do milho passara incólume àquele complicado período. Explicou que o solo da região era muito propício ao seu cultivo. A plantação crescera vertiginosamente e como possuía um ciclo agrícola mais curto, permitia mais de uma colheita a cada ano. Para surpresa geral, disse que precisaria de ajuda, não apenas para a colheita, mas também para a semeadura, cujo período logo se iniciaria. Propôs que as parte do cultivo de trigo da aldeia se transformasse em milho e se ofereceu para ensinar as técnicas de manejo que aprendera na prática, por se mostrarem úteis ao aumento da produtividade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sem dúvida, era a melhor proposta apresentada naquela reunião. Constrangidos, perguntaram ao Manitú como ele imporia as relações empregatícias. O bom homem propôs o inesperado:&nbsp;<em>Eu compartilho a minha plantação com vocês e nos anos seguintes passo a fazer parte da colheita de trigo da aldeia</em>. Era irrecusável, pois não geraria dívidas nem relações de dependências, vassalagem ou, pior, de submissão com as tribos vizinhas”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Graças a Manitú, naquele ano a tribo não conheceu a fome e a miséria. Muito tempo depois, quando a aldeia tornara à prosperidade, foi preciso escolher um novo líder para tribo. O nome dele foi lembrado e aclamado. Contudo, mais uma surpresa. Manitú recusou. Propôs que, ao invés do poder ficar centralizado nas mãos de uma única pessoa, seria mais sábio formar um grupo de homens e mulheres que, por suas experiências e legados, estariam aptos para orientar os futuros rumos da tribo. Todos se encantaram com a ideia. Assim se originou o Conselho dos Anciões na tradição nativa, que tem como pilar dorsal o compromisso com a liberdade individual como fonte do bem-estar social”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fez uma breve pausa para concluir: “O respeito ao jeito e às escolhas individuais é a base da liberdade coletiva. Sem aquele jamais haverá esta”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Emocionadas, as pessoas sorriam e aplaudiam ao mesmo tempo. Aqueles que estiveram na casa do xamã no dia que ele disse que encerraria a sua carreira de contador de histórias, tiveram a sensibilidade de se perceberem como personagens da história que ele acabara de narrar, feita com tamanha sutileza que, mesmo entendendo o papel que desempenharam, não se sentiram ofendidos. Ao contrário, estavam encantados pela delicadeza do aprendizado. Em agradecimento, Canção Estrelada apenas sorriu de alegria. Quando estava saindo do palco, se virou para a plateia e lembrou que os aguardava no sábado seguinte: “Estarei sentado aos pés do carvalho”.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais tarde, na varanda de casa, o xamã acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, quando comentei que tinha sido uma das mais interessantes histórias contadas por ele, na qual ficção e realidade se misturam para ensinar uma valiosa lição. Canção Estrelada balançou a cabeça e revelou: “Não haverá mel sem abelha, assim como não existirá alegria sem liberdade. Esse é o fundamento da Medicina da Abelha na filosofia xamânica”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Diferente da crença comum e, apesar da denominação concedida, uma colmeia não é dominada pela abelha-rainha. Esta, tem a importante função de mantenedora da espécie. Tão e somente. Cada abelha tem a exata compreensão do amplo exercício da sua liberdade, mas sabe, também, que não deve negar a prosperidade da colmeia. Aspectos que convivem em harmonia, pois, em contrapartida, nenhuma abelha será esquecida ou abandonada pela colmeia.”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Fazer a coisa certa é agir em coerência com a sua verdade, da maneira como já consegue entendê-la, ainda que mais ninguém o compreenda. Acredite, não é pouco. Contudo, não esqueça que o mel da vida, aquele ingrediente que anima os seus dias e fortalece as suas asas, não poderá ser negado a ninguém.”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quis saber o que seria esse tal&nbsp;<em>mel da vida</em> a que ele se referia. Canção Estrelada disse: “Existem muitas coisas maravilhosas na vida. Porém, para que os dias sejam alegres, se faz necessário entender o significado de cada uma delas”. Baforou mais uma vez, olhou para céu, deu de ombros e finalizou: “Sem amor ninguém encontrará o sentido de coisa nenhuma”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: voxxphotografy &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>Para recomeçar é preciso reconstruir</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Jun 2020 13:26:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS V]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria do seu povo através das histórias que contava, acendeu o fumo no seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, baforou algumas vezes e deixou o olhar vagar pela infinitude da noite. Estávamos sentados na varanda da sua casa quando fui surpreendido com a chegada de um dos seus sobrinhos-netos. Percebi que Canção Estrelada o aguardava, não apenas pelo sorriso alegre, mas por já o orientar a deixar a sua mala no pequeno e arrumado quarto que havia no sótão da casa. Zaltana tinha cerca de trinta anos, era alto, atlético e com os cabelos longos, ao estilo dos Navajos. Simpático e gentil, nos cumprimentou e, após guardar as suas coisas, se sentou ao meu lado. Pareceu-me bem-disposto apesar da longa viagem que fizera de carro desde Tampa, na Flórida, até Sedona, nas montanhas do Arizona. Ele olhou sério para o tio-avô e sibilou por entre os dentes: “Homem maldito”. Fiquei tenso por uma fração de segundo, até que no instante seguinte Canção Estrelada deu uma gargalhada divertida, logo acompanhada por Zaltana. Era uma maneira carinhosa de brincarem. O motivo eu fui saber logo depois.&nbsp;</p>



<span id="more-3374"></span>



<p class="wp-block-paragraph">A mãe de Zaltana era a irmã caçula de Canção Estrelada. A diferença de idade entre os irmãos era grande, havia mais de vinte anos entre eles. Ela engravidara muito jovem, assim que ingressara na universidade. Embora o pai não se recusasse a cumprir com as obrigações em relação ao filho, se recusara a casar. A mãe ficou muito magoada e, como punição por um gesto que entendia se tratar de uma traição, passou a dificultar a convivência de Zaltana com o pai. Alguns poucos anos depois, ela se casou com outro homem, abandonou a faculdade, foi morar longe e teve outros filhos. A família sempre se apiedara da jovem que&nbsp;<em>teve os sonhos interrompidos por causa da gravidez precoce e, mais, pelo fato de ter sido abandonada pelo pai do seu filho</em>. O pai falecera alguns anos depois em um acidente de trabalho, sem que conseguisse restabelecer os laços afetivos com o filho. Como Canção Estrelada nunca compartilhou dessa ideia, pois considerava injusto o banimento paterno, manteve a amizade com o pai do seu sobrinho-neto até o último dia do dia sem fim. Por esta atitude, o xamã passou por um longo período de rejeição por parte da sua própria família. Daí a alcunha de&nbsp;<em>maldito</em>, como a irmã se referiu ao xamã por muito tempo. Zaltana cresceu com dificuldades no relacionamento com a mãe, que sempre projetava nele a decepção que tivera na gravidez e, sem se dar conta, o preteria em relação aos outros filhos. Ao contrário dos irmãos mais novos, Zaltana não conseguiu cursar a universidade. Sob o pretexto de que não era afeito aos estudos, foi incentivado a trabalhar desde cedo. Como na adolescência aprendera a fazer tatuagens, resolvera se dedicar a este ofício. Tudo seguia aparentemente bem, até que teve um grave problema. Após uma queda de motocicleta, perdeu grande parte dos movimentos da mão direita ao romper vários nervos e tendões, ficando impedido de tatuar, pois não tinha com a esquerda, nem de longe, a mesma habilidade. Chegou tentar a aplicar alguns desenhos na própria pele com a mão esquerda, mas os resultados foram desanimadores. Como a lesão era definitiva, ficou sem trabalho e, pior, sem profissão. As dificuldades se avizinhavam. Embora a família demonstrasse entender o seu problema, o apoio se limitou às palavras de incentivo. Lamentaram por ele, mas nada podiam fazer para ajudar. Na ausência de um apoio mais consistente, Zaltana se sentiu em queda no abismo existencial. Quando foi surpreendido por uma mensagem do&nbsp;<em>tio maldito</em>o convidando para passar um período sabático nas montanhas do Arizona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zaltana precisava se reinventar. Para tanto, era necessário se entender. Períodos sabáticos servem para isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouvi essa história ainda na varanda, contada pelo próprio Zaltana, que fez questão de acrescentar não ter qualquer rancor pelo fato de a sua família, ao menos aqueles com quem teve maior intimidade por toda a existência, não estarem disponíveis para ajudá-lo. Ele foi generoso ao manifestar o seu sentimento em relação a eles: “As suas vidas talvez sejam difíceis demais, impedindo que haja espaço interior onde eu possa me aconchegar até me restabelecer e entender por onde seguir”. Ofereceu um rápido, porém significativo, olhar demonstrando reconhecimento e gratidão ao tio-avô por aquele momento de acolhimento. Canção Estrelada que ouviu sem dizer palavra, ao final, estendeu o cachimbo com fornilho de pedra vermelha para Zaltana baforar. Estava selado um pacto de confiança e lealdade ao estilo Navajo. Vencido pelo cansaço após um dia cansativo, o rapaz pediu licença e foi se deitar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sós com o xamã, ponderei que talvez algumas sessões de fisioterapia ajudassem a recuperar, ao menos em parte, os movimentos perdidos, a ponto de Zaltana conseguir voltar a tatuar. Comentei que também poderíamos treinar a sua outra mão, a esquerda, para se tornar tão habilidosa como tinha sido a direita. Contei de alguns casos de superação que eu conhecia, fora os lindos exemplos de vidas que foram moldadas por artistas da própria existência, capazes de enxergar a realidade que havia por detrás das cortinas das dificuldades. Canção Estrelada concordou: “É verdade, as mais bonitas histórias são as de superação”, fez uma pausa breve e prosseguiu: “Principalmente, aquelas que, mais do que expandir os limites do corpo, ampliam as fronteiras da alma”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Baforou o cachimbo e concluiu: “Não existem duas histórias iguais. Há casos em que se deve ter firme determinação para prosseguir, outros nos quais é necessário recomeçar”. E concluiu: “Para recomeçar é preciso reconstruir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que eu pedisse para ele explicar aquelas palavras, o xamã disse que iria dormir. Nos dias seguintes, ao contrário do que eu imaginara, Zaltana não foi levado para fazer exercícios de fisioterapia. Fomos pescar em um belo lago, cavalgamos em lindas trilhas, ouvimos Canção Estrelada, sentado debaixo do carvalho que havia no quintal, contar as histórias ancestrais sobre a filosofia do seu povo aos moradores de Sedona, como fazia todos os sábados pela manhã. Também encontramos os amigos do xamã, cozinhamos, lemos alguns livros, conversamos sobre os mais variados assuntos. Nenhuma palavra foi dita sobre o problema de Zaltana. Sem nos darmos conta, o xamã já começara a atuar, purificando a aura do rapaz ao afastar as vibrações densas de dor e medo que o acompanhavam nos últimos tempos. A alegria e a leveza têm esse poder. Porém, não basta; é somente uma necessária preparação para as possíveis transformações. Após duas semanas divertidas, Canção Estrelada disse para pegarmos os cobertores, pois passaríamos a noite no alto da montanha, no seu&nbsp;<em>lugar de poder</em>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na tradição nativa,&nbsp;<em>lugar de poder</em>é o local onde uma pessoa estabelece uma forte conexão com o lado invisível da vida, face a intensa ancoragem energética instaurada, passa a funcionar como um portal. Pode ser em uma igreja, templo, praia, cachoeira, floresta ou um cantinho sossegado da nossa casa. Cada indivíduo tem o poder de determinar o seu ou fazer bom uso daqueles já existentes. O de Canção Estrelada era em um platô no alto da montanha, onde uma árvore dependurada na beira do precipício mostrava um equilíbrio improvável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foram quase duas horas de caminhada. Devidamente sentados em círculo, o xamã acendeu uma pequena fogueira ao centro e começou a rufar no seu tambor de duas faces uma canção ancestral. Ele pedia luz e proteção para aquele singelo, porém significativo, ritual mágico e sagrado. Magia é transformação; sagrado é tudo que nos torna pessoas melhores. A melodia nos embalava e parecia convidar as nossas almas a bailarem na grande sinfonia cósmica. Algumas músicas facilitam a condução à um estado alterado de consciência, no qual o fluxo de ideias e sentimentos trafegam com maior suavidade. Somente parou quando o céu trouxe as estrelas para participarem do cerimonial. Além da fogueira e das estrelas, tive a nítida sensação de haver luzes por todos os lados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, Canção Estrelada pediu que Zaltana fechasse os olhos e se concentrasse nas suas palavras. Começou homenageando todos os antepassados e, em especial, o pai e a mãe do rapaz, assim como aos seus irmãos que mereciam respeito e gratidão por tudo que acrescentaram à vida dele. Tudo era alegria ou aprendizado. Mesmo as dificuldades, quando devidamente entendidas, também se tornavam alegrias. O Xamã recordou a existência de Zaltana desde o seu nascimento. Nenhum fato foi poupado; não houve censura nem melindre. Pude perceber as feições do rapaz, que ora se contraiam, ora relaxavam, conforme as palavras chegavam ao seu coração. Dores e delícias. Alguns acontecimentos ele acreditava não mais lembrar; outros, preferia ter esquecido. Franziu as sobrancelhas várias vezes como se espantado por Canção Estrelada saber tanto sobre ele. Quando todas as defesas montadas pelo inconsciente para enganar as dores restaram desmontadas, o xamã abordou uma questão angular para aquele momento na existência de Zaltana: “Lembra de quando, no ensino médio, as suas notas estavam ruins?”. O rapaz anuiu com um movimento de cabeça. Canção prosseguiu: “Foi dito que você seria reprovado se tentasse o acesso à universidade. Disseram, ainda, que nem todos nasceram para estudar. Muitos teriam vindo ao mundo para somente trabalhar. Ao contrário dos seus irmãos, todos aplicados aos estudo e que, posteriormente, alcançaram os seus diplomas universitários, o seu destino e capacidade eram outros”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma lágrima escapou pela face do jovem e ele explicou que abandonar os estudos, após completar o ensino médio, para começar a trabalhar tinha sido uma escolha dele, Zaltana. O xamã esperou que o ímpeto arrefecesse para continuar: “O Zaltana sempre se sentiu esquecido, deixado de lado. Tudo que ele quis o tempo todo era a aprovação da mãe, era vê-la feliz, porque de algum modo se sentia responsável pela suposta destruição dos sonhos de moça que ela um dia nutriu. Acreditava que ela abandonara a faculdade por causa do nascimento dele. Era como se, inconscientemente, a sua chegada tivesse furtado o mel da vida dela. Os porões escuros do inconsciente falavam para o Zaltana que não seria justo ele conseguir algo que impedira a mãe de alcançar. Havia muita culpa dentro dele e isto o paralisava. Por todo tempo, ele apenas queria ser considerado um bom menino, não dar trabalho nem trazer preocupações. Se tivesse de abdicar da própria vida para levar um pouco de alento para a mãe, faria sem hesitar. E fez”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“De outro lado, a vitória do Zaltana, por menor que fosse, a incomodava como se a sua presença trouxesse a imagem e a força do pai do seu filho; como se ele a perseguisse e reavivasse as suas frustrações. Mostrasse tudo que ela poderia ser, mas não foi. Contudo, o destino dela se estabeleceu conforme as escolhas que ela própria fez. Responsabilizar o filho ou mesmo o pai, ainda que indiretamente, não era justo. Não, ela não fazia por mal ou porque não amasse o Zaltana, mas por não entender como essas emoções se embaralhavam dentro dela e ofuscavam o melhor entendimento. Por mais paradoxal que possa parecer, ela também sofria pelas dificuldades e dores do seu filho, porém, não sabia fazer diferente porque não entendia como as como o coração interfere na mente. Emoções e sentimentos aprisionam ou libertam os pensamentos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A verdade é que Zaltana não é responsável pelas dores e nós existenciais da sua mãe. Nunca foi. Por mais que ele fizesse, nada teria força de cura”. O jovem interrompeu e quis saber por qual razão ele não conseguiria cessar os sofrimentos da sua mãe. O xamã explicou: “Dores e nós existem em razão de equivocadas percepções que temos quanto à realidade. Portanto, apenas a sua mãe pode fazer isso por si mesma. Contudo, esteja disposto a ajudá-la quando precisar”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As faces do rapaz estavam banhadas por lágrimas. Canção Estrelada alertou: “Assim como ela, você também precisa se livrar da culpa que o atormenta desde sempre. Se sentir raiva, escapará de uma sombra para se aprisionar em outra. Há que se ter amor para acessar a mais pura sabedoria. Ninguém consegue ser livre e feliz longe do perdão. É necessário perdoar a si e a ela. Perdoe também o seu pai; acredite, ele foi o melhor pai que o deixaram ser. Por diversas vezes, o impediram de conviver contigo”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É preciso que você prossiga oferecendo o seu amor à sua mãe. Contudo, chegou a hora de resgatar a vida que você ofereceu em sacrifício a um altar sem luz. Não é necessário nem eficiente trocar uma vida pela vida de outra pessoa. Nunca funciona. Para manter acesa a luz de alguém, ninguém precisa se entregar à escuridão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É justamente o contrário. Quanto mais intensa for a sua luz, maior iluminação haverá ao seu redor”. Zaltana indagou como poderia ter certeza da escuridão que o envolvia. O xamã explicou: “Longe da essência, distante de quem viemos ser”. Olhou para o céu por breves instantes e concluiu: “Todo sofrimento mostra uma parte desencaixada à espera de elaboração para se integrar ao todo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficamos sem dizer palavra por um tempo que não sei precisar. Zaltana precisava alocar as novas ideias. Foi o próprio rapaz quem rompeu o silêncio ao comentar que estava na hora de recomeçar. Iniciaria a fisioterapia no dia seguinte e também aperfeiçoaria as habilidades com a mão esquerda. Ele me pareceu satisfeito com as próprias resoluções. Alegrei-me também ao ver tamanho entusiasmo. Canção Estrelada nos corrigiu: “Isso não seria recomeçar, mas prosseguir. Existe a hora de prosseguir e há o momento de recomeçar. Ambas são atitudes valiosíssimas, mas há que se entender quando se aplicam”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu perguntei como decidir por qual dos movimentos. O xamã foi claro: “O sonho, o plano de voo de uma existência, é determinante para esse entendimento”. Olhou-nos com doçura e disse: “Quando alguém vive o seu sonho e encontra uma das muitas dificuldades que precisam estar presentes para o fortalecimento das asas, irá ajustar a rota, realizar modificações intrínsecas e seguirá em frente. No entanto, quando estamos fora do nosso sonho, a vida virá demolir tudo que acreditamos nos sustentar. Agradeça a dádiva. Não é hora de adequações, mas de transformações. Não é momento de prosseguir, porém, de recomeçar. Para recomeçar é preciso reconstruir”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Para tanto, indispensável reinventar um caminho diferente. Ninguém consegue isto sem estar em sintonia com a face mais sagrada do ser, aquela que dirá a você mesmo quem você é. Lá estará também toda a sua luz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Tudo que você é e fez o ajudou a chegar até aqui. A partir deste ponto será necessário ser e viver de um jeito que até pouco tempo era inimaginável, mas se tornará essencial para uma nova realidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do olhar atônito de Zaltana, ele foi ao cerne da questão: “Feche os olhos e retorne ao dia em que decidiu abdicar da faculdade para se dedicar somente ao trabalho como tatuador. Não há nada de errado com esta belíssima atividade, no entanto, examine se esse era o sonho de Zaltana. Seja sincero consigo para que possa ser honesto com a vida”. O jovem demorou para voltar no tempo e se ambientar àqueles dias tão distantes. Canção Estrelada o orientou a observar aquele momento tão difícil, não como protagonista, mas como um espectador privilegiado. O distanciamento facilitaria a lucidez necessária a uma leitura isenta de todos os fatores que o influenciaram a fazer a escolha que não fez, mas achava que tinha feito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, explicou: “As escolhas não eram livres em razão de múltiplas circunstâncias que o aprisionavam em si mesmo”. Franziu as sobrancelhas e, em tom sério, avisou: “Não lamente nem se faça de vítima, apenas os tolos fazem isto. Agradeça de todo o coração o caminho vivido e aprenda com ele. Somente assim poderá alcançar inacreditáveis altitudes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada tornou a rufar no tambor de duas faces uma melodia compassada para facilitar a Zaltana a mergulhar em suas verdades mais profundas e revelar a peça intrínseca que faltava para as mudanças angulares que a vida oferecia. O jovem voltou a chorar. Bem mais forte desta vez. Ele soluçava a ponto de se engasgar com as próprias lágrimas. O tambor continuou tocando como se a música não tivesse fim. Aos poucos, Zaltana se acalmou e fez um gesto com a mão. O tambor cessou e Zaltana confessou, em voz baixa, como se tivesse descoberto um segredo guardado dele mesmo: “Eu sempre quis ser advogado”. Antes que alguém manifestasse surpresa, ele continuou a falar: “Desde pequeno, eu adorava assistir os filmes sobre julgamentos nos quais uma covardia parecia imperar, mas o trabalho brilhante do advogado conduzia o processo um veredito justo. Todos os dias, antes de dormir, eu imaginava solucionar os casos mais complicados e desejava dedicar a minha vida na proteção e defesa de pessoas desamparadas ou inocentes. Mas eu nunca acreditei no meu sonho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tive uma rápida, porém significativa, troca de olhares com Canção Estrelada. Ali estava a pedra angular da reconstrução. O xamã arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Não podemos abandonar quem viemos ser”. Assustado com a ideia que tomava forma, Zaltana disse que considerava tarde demais para ingressar na faculdade. Canção Estrelada o corrigiu: “Os sonhos não envelhecem. Eles não pertencem ao corpo, são propriedades da alma imortal”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, comentou que a Universidade do Arizona tinha planos de acesso para alunos com mais idade. Propôs ajudá-lo no que fosse preciso. Contudo, o essencial dependia tão e somente de Zaltana: “Uma vontade firme e inabalável para se reconstruir”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia seguinte, o projeto de reconstrução de Zaltana foi iniciado. O acidente demolira o passado; o presente começava a erguer um futuro diferente. A vida estava no seu recomeço. Quando retornei ao Rio de Janeiro, a documentação para que ele cursasse a Faculdade de Direito tinha sido protocolada. Eu levava a certeza que o tombo da motocicleta que lesionara a mão do rapaz não fora uma desgraça, mas um convite. Ainda que entregue de maneira estranha, sem dúvida, era um lindo e interessante convite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos anos seguintes, nas vezes que estive em Sedona para aprender sobre o Xamanismo com Canção Estrelada, não encontrei com Zaltana, que estudava em Phoenix, a metrópole mais próxima das montanhas. Soube que ele era um aluno não apenas dedicado, mas também entusiasmado. “São coisas distintas”, explicou o xamã: “A dedicação está ligada ao tempo oferecido para a execução da tarefa, algo bem valioso. O entusiasmo se refere ao empenho da alma para viver o próprio sonho, isto é imprescindível”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até que recebi um e-mail de Zaltana me convidando para a sua formatura. Sentado ao lado de Canção Estrelada, me emocionei na cerimônia ao vê-lo de beca e, ao final, fazendo, junto com os demais formandos, a tradicional&nbsp;<em>chuva</em>de capelos, como se chama o chapéu usado na formatura de graduação. Soube que ele tinha sido contratado para advogar em uma organização garantidora dos Direitos Civis. Depois, abraçou longamente o&nbsp;<em>homem maldito</em>e disse: “Gratidão infinita”. Em seguida, Zaltana explicou: “Gratidão não é um mero agradecimento, mas um reconhecimento pela mudança de olhar. Isto aprimora o ser e aperfeiçoa o viver”. Com os olhos marejados, tornou a repetir: “Gratidão pela transformação oferecida”. Canção Estrelada o corrigiu com sinceridade: “A transformação já estava pronta dentro de você e apenas aguardava que acreditasse na sua própria capacidade de recomeçar. Isto se chama fé. Ter é fé em si mesmo equivale a fé no Grande Espírito; Ele o habita, você é parte Dele. A minha participação foi muito pequena; em síntese, eu somente disse que sempre vale a pena tentar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A fé na sua própria força o permitiu percorrer o caminho; seria impossível de outro modo. A festa é sua, moço. Comemore cada uma das suas conquistas!”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltaram a se abraçar. Foi quando o xamã disse que trouxera um presente para ele. Com o queixo apontou para onde a sua mãe o aguardava aos prantos. A vida vale por cada dia, mas dias assim valem uma existência. Enquanto Zaltana confraternizava com a mãe e os colegas, a sós, sentamo-nos em um dos muitos bancos espalhados pelos belos jardins da Universidade, distante o suficiente do burburinho da formatura. Comentei sobre a importante lição de saber diferenciar a hora de prosseguir e o momento de recomeçar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canção Estrelada sorriu e disse: “Muitos falam sobre a capacidade das águas de um rio em chegar ao mar por contornar os obstáculos que se opõem em sua trajetória. É verdade. Adaptabilidade e resiliência revelam sabedoria e permitem a evolução. Contudo, a sabedoria não é estática, tal e qual a evolução, exige movimentos incessantes em infinitas direções. Muitas são as estradas que levam à Luz. Existe o momento em que ao encontrar com as pedras, as águas entendem que o curso daquele rio não mais as entusiasma em prosseguir. Muitas desistem e, ao permanecerem paradas, irão apodrecer. Entretanto, há aquelas que, ao invés de contornar os obstáculos, como algumas, ou ficarem estagnadas nas margens, como outras, decidem por mudar a própria trajetória de modo angular. Nem todas as águas de um rio podem seguir um mesmo curso. Assim surge a bifurcação que origina um novo rio que também chegará ao mar, porém, por outro caminho. Aquele que ele escolheu para si”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Lukasz Janyst &#8211; Dreamstime.com</p>
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