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	<title>MANUSCRITOS IV &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS IV &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Você não é igual a ninguém</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 May 2019 11:05:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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					<description><![CDATA[Li Tzu, o mestre taoísta, colocou as ervas em infusão. Eu tinha acabado de chegar na pequena vila chinesa aos pés do Himalaia. Sentado à mesa da cozinha, éramos observados por Meia-noite, o gato negro que também morava na casa. O som suave de um mantra tibetano e o perfume...]]></description>
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<p>Li Tzu, o mestre taoísta, colocou as ervas em infusão. Eu tinha acabado de chegar na pequena vila chinesa aos pés do Himalaia. Sentado à mesa da cozinha, éramos observados por Meia-noite, o gato negro que também morava na casa. O som suave de um mantra tibetano e o perfume de incensos ajudavam a manter o ambiente tranquilo, bem de acordo com os seus moradores. Conversávamos sobre como manter o controle em relação a si mesmo, sem perder a sensibilidade, e seguir com uma postura serena quando o mundo parece desabar à nossa volta. Falávamos, também, de como é bom estar ao lado de uma pessoa assim quando nos sentimos aflitos e perdidos diante dos emaranhados de situações que nos atravessam a existência. Comentei que a ansiedade era a principal doença da contemporaneidade. Li Tzu explicou: “A origem da ansiedade está no medo. Desejamos controlar os acontecimentos do mundo, aqueles que estão além de nós, os quais não temos nenhum domínio. Pela impossibilidade, nos tornamos dependentes de acontecimentos aleatórios. Sofremos enquanto as situações não se resolvem. Projetamos consequências desastrosas que, na maioria das vezes, nunca acontecerão. Somos corroídos aos poucos. Por ser uma das espécies do medo, escala graus e se acumula dentro da gente. Somatizam em doenças e provocam desequilíbrios emocionais. Isto continuará acontecendo enquanto mantivermos o padrão de pensamento a que fomos condicionados”.&nbsp;</p>



<span id="more-2926"></span>



<p>Questionei qual seria o modo de inverter o padrão. Ele aprofundou o raciocínio: “O Tao Te Ching ensina que temos que ir às origens do sofrimento para entender a sua desnecessidade. Os efeitos cessam quando pomos fim à causa”. Ponderei que as suas palavras eram simples, mas não claras o suficiente. Li Tzu prosseguiu: “Não me refiro a um acidente que possa acontecer pelo simples fato de existirmos. Falo dos desastres que causamos dentro de nós pela incompreensão que temos da vida”. Encheu as nossas xícaras com chá e continuou: “Três são as causas do sofrimento. Desconectamos aquilo que precisa ficar conectado; travamos um inevitável processo de transformação; fugimos do medo ao invés de dissolvê-lo”.&nbsp;</p>



<p>Tornei a pedir ao mestre taoísta que fosse mais claro. Ele sempre era atencioso: “Fomos condicionados a pensar que dependemos dos acontecimentos do mundo como fatores determinantes à felicidade, à paz, à dignidade, ao amor e a liberdade. Este é o padrão que precisa de inversão”. Bebeu um gole de chá e ponderou as próprias palavras: “Não falo de sermos insensíveis à vida ao nosso redor. Não há luz sem compaixão, misericórdia e delicadeza. São virtudes indispensáveis às plenitudes. Contudo, fomos educados dentro de um processo mental que nos torna viciados.<em>Precisamos sempre que alguém faça alguma coisa ou que aconteça determinada situação para que possamos nos sentir bem.</em>Assim, o sofrimento não terá fim. Buscamos do lado de fora a solução que apenas existe dentro de nós mesmos. Uma dependência que criamos por acostumar as nossas mentes a pensar de modo equivocado. Vejo as pessoas muito ligadas às notícias do mundo e distantes dos acontecimentos da alma. A falta de conexão consigo faz tudo parecer confuso, apressado e com pouco sentido. A princípio, pode parecer egoísmo, mas é justamente o contrário. Quanto mais firme for a conexão interna, maior será a compreensão externa”.</p>



<p>“O planeta está em constante rotação, pois o movimento é um dos pilares da vida. Tudo muda porque a evolução é uma inexorável lei cósmica. Não há como deter esse fluxo. Aceite que, ao menos por ora, acidentes acontecerão de modo que não podemos impedir, pois são reflexos da psicoesfera planetária, ainda muito densa. Lembre, o mundo vibra ao nível dos seus habitantes e somos um deles. Entende onde podemos atuar de modo efetivo?”, perguntou e apontou para o próprio peito.</p>



<p>“Como temos uma enorme dificuldade em lidar com a inconstância da vida, com os imprevistos, com os acontecimentos além do nosso domínio, sofreremos por insistir em um padrão mental equivocado. Continuamos a buscar desesperadamente por estabilidade nas coisas do mundo e a renegamos dentro de nós. Ficamos pesados por carregar tanta preocupação e sofrimento. Tudo ao redor também se contamina”.</p>



<p>“Quando imaginamos que podemos perder algo que nos causa prazer, conforto ou segurança, sofremos. Por inverter o sentido da vida, nos sentimos inseguros pelas ameaças que se avizinham e ansiosos por não saber como será o amanhã. Então, brigamos para que as coisas fiquem como estão, que nada mude, nem mesmo em nós, contrariando as inevitáveis transformações universais em todos os níveis da existência. Como uma hipotética represa, travamos o inevitável fluxo das transformações. Para seguir, a vida pressionará o dique até que se rompa”.</p>



<p>“Aperfeiçoe o espírito para aprender com as dificuldades. Entenda a necessidade das mudanças como parte essencial ao processo evolutivo, ainda que demore um pouco a encontrar as devidas explicações. Aceite que elas precisam acontecer a todo instante. Dentro e fora de si. Quando nos opomos à vida, a existência perde o gosto e nos conduz pela força”.</p>



<p>“Por fim, concedemos poder ao medo ao invés de entender a sua desnecessidade. Interpretamos personagens socialmente aceitos em busca de aprovação; seguimos modelos ao invés da ousadia de sermos autênticos. Acumulamos mais do que o razoável por recear possíveis intempéries. Vivemos mais o remorso pelos equívocos do passado do que gratidão pela oportunidade de fazer diferente e melhor no presente; tememos a incerteza do futuro quando temos nas mãos o dia de hoje. Se prestarmos atenção, nos daremos conta de que a dificuldade em perdoar consiste no receio de mudar, não apenas a intensidade, mas o jeito de olhar e de amar. O medo se tornou um deus para as sociedades contemporâneas. Ofertamos as nossas vidas no altar dessa divindade sombria”.</p>



<p>Reconheci o sentido das suas palavras, mas questionei por uma solução. O mestre taoísta bebeu mais um gole de chá e explicou: “Pensamos que raiz do medo está no mundo enquanto, em verdade, a sua semente foi plantada em nossa mente e se espalha um pouco mais a cada dia. Sem dúvida, há perigos lá fora. Conquanto, nenhum tão maléfico quanto a se perder de si mesmo. Quando isso acontece, é como deixar uma criança na selva a mercê das feras”. Esvaziou a xícara e concluiu: “O erro está em fugir ou tentar se proteger do medo quando se deve desmanchá-lo no ar”.</p>



<p>Brinquei dizendo que gostaria de conhecer esse mago. Rimos. Eu queria saber como dissolver o medo. Ter esse poder seria maravilhoso. Li Tzu foi didático: “Virtudes, consciência e sabedoria são os três vértices do triangulo sagrado. Sagrado como tudo aquilo que nos aperfeiçoa. São os instrumentos que embalam a canção da vida no baile da eterna evolução. Devem ser tocados em sintonia e em toda a extensão possível, um pouco mais a cada dia”.&nbsp;</p>



<p>“As virtudes são os diferentes atributos do amor, a começar pela humildade até chegar à pureza, passando pela bondade, sinceridade e justiça, entre várias outras, que tanto já falamos. A consciência é a percepção apurada de si mesmo e de tudo ao seu redor. O entendimento de quem sou, de quem ainda me falta ser e como isto é primordial nas minhas relações. A sabedoria é o exercício concomitante das virtudes e da consciência. Um entendimento sereno dos movimentos da vida e das oportunidades de florescer a cada instante. A sabedoria se expressa através de cada uma das nossas infinitas escolhas. Assim desenhamos o triângulo sagrado”.</p>



<p>“O medo é uma doença oriunda de um equivocado padrão mental. A cura ocorre no exercício da leveza e da fé”.&nbsp;&nbsp;O mestre taoísta me perguntou se eu sabia o significado destas preciosas virtudes. Falei que a leveza estava ligada ao desapego, não apenas no aspecto material, mas, sobretudo, às desnecessidades emocionais. Tudo o que preciso está dentro de mim, porém, apenas me aperfeiçoo através das relações que tenho no mundo. O problema é que sempre desejamos mais do que precisamos. Depois, um pouco mais, como mitológicos Sísifos modernos que nunca conseguem levar a pedra ao alto da montanha. Assim, nada nos completa. Isto tem um peso insuportável e agiganta o medo pela sensação de impotência que traz”.</p>



<p>“Do contrário, de quanto menos precisar, mais leve seremos, expliquei. Li Tzu concordou e complementou sobre a necessidade da leveza: “O medo guarda proporção com as nossas dependências. Quanto menor forem os vícios existenciais, maior o poder que teremos sobre o medo”.&nbsp;</p>



<p>Esvaziamos as nossas xícaras. Li Tzu, sempre delicado, tornou a enchê-las. Em seguida, comentou: “Contudo, não basta. A fé é uma indispensável aliada na batalha contra o medo. A fé é uma virtude muito mal compreendida por ter o seu sentido desvirtuado através dos tempos”. Olhou-me com curiosidade e quis saber: “Você sabe o que é a fé?”. Respondi que a fé é diferente da crença. Ter fé não é somente acreditar em um poder maior a nos iluminar e proteger, no compasso de nossos pedidos e desejos. Fé é a consciência de que somos parte indissociável do universo e ele nos habita. Somos oriundos de um mesmo início, de uma única explosão, temos os mesmos átomos. Estamos interligados desde antes de o tempo existir. A energia que move as estrelas é a mesma que me movimenta. A fé é fazer com que esta energia flua dentro e através de mim, me transforme e se manifeste em luz. Como as estrelas, concluí. O mestre taoísta balançou a cabeça como quem diz que concordava. Contudo, acrescentou uma explicação importante: “A fé é a virtude que faz a sintonia entre você e o universo. De que maneira? Faça o seu melhor a cada dia; tenha cuidado em amanhã fazer um pouco melhor e nada lhe faltará. Esta é a Lei do Caminho. Você terá luz e proteção à medida do seu aperfeiçoamento. Essa prática concede um tipo inabalável de coragem conhecida como fé. A leveza enfraquece as ameaças; a fé dissolve o medo”.&nbsp;</p>



<p>Perguntei como poderia me aprofundar sobre as Leis do Caminho. Li Tzu me lembrou: “Lembre do triângulo sagrado. As virtudes, a consciência e as escolhas dialogam com o Caminho e as suas Leis por todo o tempo todo. Nenhuma pergunta ficará sem resposta”.&nbsp;</p>



<p>Essa conversa aconteceu havia muitos anos. Lembrei dela quando uma das minhas filhas me chamou para conversar. Ela tinha cursado a faculdade de Direito. Advogava em um bom escritório e todo os seus atuais amigos também pertenciam a esse círculo jurídico. Era o ar que ela respirava e a sua fonte de sustento. Eu já havia notado algo diferente em seu comportamento. Andava mais introspectiva do que de costume, logo ela, tão alegre e comunicativa. Nunca considerei a introspecção um problema, apenas uma valiosa fase que antecede a uma boa expansão. Aguardei. No entanto, tomei um susto quando ela me disse que pensava em largar o Direito. Não estava feliz com a maneira como vivia, explicou. A sua dificuldade consistia em abrir mão de quase dez anos dedicados a um estudo específico, como se fosse jogar no lixo tudo aquilo que foi vivido. Um desperdício de tempo e dinheiro, descreveu a sensação. Também existia uma incompreensão quanto a ela mesma. Os seus amigos estavam sinceramente animados com o estilo de vida que praticavam. Falavam dos projetos em montarem os próprios escritórios, outros planejavam em ingressar na magistratura. Viviam empolgados com a carreira, enquanto ela se sentia mais deslocada e desanimada a cada dia. Por que não se sentia como eles? Ela queria entender o seu problema.&nbsp;</p>



<p>Por força do hábito e do gosto, marquei de conversarmos em uma cafeteria. Já tinha esvaziado um copo quando ela chegou. Deu-me um abraço apertado e notei uma lágrima rebelde em um dos olhos. Ela disfarçou. Depois me contou o momento pelo qual atravessava. Falou bastante. Ao final, declarou chegada a hora de fazer uma escolha: prosseguir ou recomeçar. Havia prós e contras em qualquer das decisões, ponderou. Ela fez questão de mostrar que tinha pensado bastante sobre o assunto. Contou ter se interessado em fazer um mestrado em Literatura, na área de Estudos Editoriais. Tinha um caso de amor com os livros desde sempre. Era uma escolha difícil por ser angular. Mudaria o rumo da sua existência. Alegou que no Direito tinha conseguido subir muitos degraus dentro da carreira, conquistas que ficariam para trás. Pior, sem a certeza daquilo que viria. Sofria muito com este impasse e se confessou indecisa.</p>



<p>Brinquei ao dizer que só falaria diante de mais um copo de café: “É o meu preço”. Ela riu e foi buscar no balcão. Na volta, expus para ela: “Não existe indecisão, apenas medo”.&nbsp;</p>



<p>Ela me olhou como quem diz não entender. Eu expliquei: “A escolha você já fez. O medo não permite que você se apodere dela. Isto a afasta de si mesma. Por isto o sofrimento”.&nbsp;</p>



<p>Era como se o Li Tzu estivesse sentado à mesa conosco. Eu quase conseguia vê-lo com o seu sorriso suave e olhar sereno, enquanto falava para a minha filha: “Quando abandonamos os nossos sonhos e dons, desconectamos uma parte de nós. Passamos a ser menos do que poderíamos. Este processo faz sofrer por nos afastar da nossa essência. No mais, você está interrompendo o seu processo de transformação. Isto também causa dor”.</p>



<p>Tive a sensação de que o mestre taoísta sorria para mim. Ela me interrompeu para lembrar da empolgação que contagiava os seus colegas de Direito, mas não a envolvia. Argumentei: “Entenda que a sua jornada evolutiva é diferente. Ninguém é igual a ninguém. Isto nos torna únicos e somente isso nos faz belos”.</p>



<p>“O sofrimento surge quando, por padrão, projetamos as nossas vidas espelhadas no sucesso de vidas alheias. Esse condicionamento mental é como um software, instalado em fábricas ancestrais, que sempre apresentou mau funcionamento. Contudo, insistimos. Esperamos por algo que, dessa maneira, nunca virá. Como método, se mostra imprestável pelas singularidades que envolvem cada pessoa”.&nbsp;</p>



<p>“Mudar o padrão é entender que, assim como todas as pessoas, você não é igual a ninguém. Nem melhor nem pior, apenas diferente”.&nbsp;</p>



<p>“Interrompemos a evolução quando teimamos em seguir por um caminho que não é o nosso. Algo vital dentro da gente também se desliga. Um padrão que se manifesta em sofrimento. A solução está em não negar a sua própria originalidade. Caminhe de um jeito que só você sabe.”. Bebi um gole de café e sugeri: “Entenda quem você é, perceba os seus gostos, expanda as suas habilidades, aquilo que a mantém iluminada, acredite no seu olhar, principalmente quando ele mostra coisas que ninguém mais consegue ver. Seja intensa, mas seja leve. Para ser inteiro é preciso ter fé em si mesmo. Crie o seu próprio padrão de ser e viver. Somente ele a levará às plenitudes”.&nbsp;</p>



<p>Ela me disse que não era fácil. Como editora, teria um mercado de trabalho bem mais restrito em oportunidades do que uma carreira como advogada. Ganharia bem menos também. Questionei a ela: “Qual das coisas interessa mais, ser rica ou ser você mesma?”. Bebi um gole de café e avisei: “Uma coisa não anula a outra, mas é preciso montar uma escala de prioridades. São escolhas que definem o destino próximo”.</p>



<p>A minha filha revelou o temor de nem ao menos conseguir um emprego depois do mestrado em Estudos Editoriais. Fui sincero: “Não será fácil. Contudo, tenha fé em si mesmo, isto equivale a ter fé na vida. Faça o seu melhor a cada dia sem perder a leveza. Desta maneira, não duvide nem sinta medo, a vida protegerá e iluminará os seus passos”.</p>



<p>Em seguida, ela questionou se já passara da hora de realizar mudanças tão radicais. Talvez fosse melhor aceitar as escolhas que tinha feito no passado, até porque seria um desperdício jogar fora tantos anos de estudos. Orientei-a: “Agora você retorna ao discurso do medo. Lembre,<em>nada se perde, tudo se transforma</em>. Esta foi uma das valiosas lições deixadas pelo alquimista francês”.</p>



<p>“Todos, em algum momento, se perdem nas veredas da existência. Ficamos mais forte ao voltar à estrada da vida, aquela que nos leva à própria alma, onde encontraremos com a alma do mundo”.&nbsp;</p>



<p>“No mais, o medo nunca foi um bom conselheiro. Ele nos faz andar em sentido contrário à verdade que nos habita. Afasta-nos do amor e nos deixa na escuridão por nos desconectar da nossa própria luz. Ficamos mais fraco a cada dia”. Bebi mais um gole de café e prossegui: “Nunca é tarde para mudar e ser pleno. Todos os dias são bons para conhecer quem sou, tudo aquilo em que posso me transformar e descobrir a magia sem fim que a vida me reservou. A única revolução da existência acontece dentro de nós. É a evolução pessoal das virtudes, da consciência e das escolhas. Cada um impõe o próprio limite”.</p>



<p>Não por acaso, entrou na cafeteria uma colega de trabalho da minha filha. Elegante, bonita e educada, nos cumprimentou com gentileza. Uma moça muito agradável. Empolgada, disse que estava indo a uma audiência e perguntou à minha filha se queria acompanhá-la. Era o julgamento de um importante processo judicial, muito comentado nos jornais. Havia uma sincera animação em sua voz. Por fração de segundo, tive uma troca de olhares com a minha menina que dispensou qualquer palavra. “Seja virtuosa e ouça a sua consciência. Seja qual for, ela lhe mostrará a melhor escolha. Não para mim nem para ninguém. Apenas para você”. Era o que eu teria dito e foi exatamente o que ela entendeu.&nbsp;</p>



<p>Após a recusa do convite, se despediram. Tornamos a ficar a sós. A minha filha piscou um olho, de jeito jovial e alegre como há muito não acontecia, e disse: “Não há duas histórias iguais. Salvo por farsa ou plágio, ambas são tragédias vulgares. A literatura nos ensina isso”. Em seguida, disse que iria ao escritório. Naquele mesmo dia pediria demissão e se matricularia no mestrado. Tinha um sorriso no rosto que apenas a mais linda das poesias seria capaz de traduzir. Deu-me um beijo e saiu aos pulos como uma menina que acabou de passar por uma prova difícil na escola.</p>



<p>Como um doido, eu sorria sozinho, enquanto observava o Li Tzu dançar por entre as mesas da cafeteria. Esperei os sentimentos e ideias assentarem. Em silêncio, agradeci ao mestre taoísta, esvaziei o meu copo e fui embora.</p>



<p>Imagem: Michal Bednarek &#8211; dreamstime.com</p>
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		<title>A face oculta do fracasso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 May 2019 10:52:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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					<description><![CDATA[“Valentes são o touro e o toureiro, todos na arquibancada são covardes. Esta frase é atribuída ao pintor espanhol Pablo Picasso”, comentou Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e dos livros, enquanto enchia as canecas com o café que acabara de coar. Essa conversa ocorrera havia muitos anos. Na época,...]]></description>
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<p>“<em>Valentes são o touro e o toureiro, todos na arquibancada são covardes</em>. Esta frase é atribuída ao pintor espanhol Pablo Picasso”, comentou Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e dos livros, enquanto enchia as canecas com o café que acabara de coar. Essa conversa ocorrera havia muitos anos. Na época, eu contava a experiência vivida ao publicar o meu primeiro livro, um romance criminal, com abordagens distintas das que carregam os meus textos hoje. Como todo escritor iniciante, eu acalentara a certeza de que, logo nas semanas iniciais, viraria um best-seller, aclamado pelos leitores e críticos, um desejo comum, embora velado, entre os autores. Porém, não foi isso que aconteceu. Os leitores não demonstraram maior entusiasmo e as críticas foram rigorosas. Algumas bastante duras, até mesmo agressivas, aconselhando a nunca mais escrever uma única linha. Arrasado, eu me recolhi por muito tempo, jurando nunca mais dar a minha cara a tapa. A arena da existência não é um lugar seguro para se viver, eu pensei.</p>



<span id="more-2921"></span>



<p>Eu tinha passado quase dois anos dedicados a esse romance. Usava os finais de semana e as horas de folga. Escrevia nas madrugadas. Páginas em troca de horas de sono. Quando considerei a obra terminada, enviei a um amigo, editor dedicado e competente. Ele decidiu por publicar o livro. Contudo não traçou nenhum comentário; na época, não me dei conta da razão disso. Fizemos uma noite de lançamento com dedicatórias e autógrafos. Muitos amigos compareceram para prestigiar. Foi uma festa deliciosa. Nos dias seguintes, aguardei pelos aplausos que não vieram. Nos poucos telefonemas que recebi, havia mais polidez do que empolgação. Em seguida, chegaram as críticas demolidoras. Literalmente, eu tinha a nítida sensação de ter sido destruído. De início, amaldiçoei a humanidade por sua falta de sensibilidade. Fiquei amargo. Depois, censurei a mim mesmo. “Por que me meter a fazer aquilo que nunca fiz?”. Melhor seria me limitar aos afazeres de sempre. Isto tinha que bastar. Entretanto, eu não sabia que somente me basta o que me fazer crescer.</p>



<p>Fiquei vários meses com ojeriza em abrir qualquer livro, pois me remetia ao meu próprio fracasso. Evitei os amigos, pois sentia vergonha de mim e temia por ouvir mais críticas ou, pior, palavras compulsórias de consolo. Sim, o orgulho e a vaidade me corroíam enquanto fingiam me proteger. Eu me sentia o pior dos homens e não queria que as pessoas soubessem disto. Não queria enfrentar isso. Até que viajei de férias. Embarquei em um voo diurno de muitas horas e o sistema de transmissão de filmes no avião estava com defeito. Ao me perceber entediado, sem nada para fazer, uma educada senhora, sentada ao meu lado, me ofereceu um livro para me entreter. Era o meu livro.</p>



<p>Peguei o livro e agradeci. Nada falei sobre a autoria. Ao reler, depois de meses afastado da obra, achei a história pavorosamente mal escrita. A humanidade estava certa, como escritor eu era imprestável. Prometi a mim mesmo que quando retornasse, compraria todos os livros e os colocaria para arder nas chamas de uma grande fogueira. Isto evitaria continuar me expondo diante do mundo. No fundo, não passava de uma cena melodramática para esconder a vontade de apagar o passado que eu considerava vexaminoso.</p>



<p>Comentei com a senhora, sentada na poltrona ao lado, sobre a péssima qualidade do livro. A trama estava mal contada, além de as motivações dos personagens se mostrarem de extrema ingenuidade. Tudo muito pueril. Era uma obra que não valia a pena o tempo investido, comentei. Ela me olhou com delicadeza. A delicadeza é uma virtude poderosa, pois é exercida por aqueles que não admitem qualquer mal a ninguém e, por isto, são cuidadosos no trato pessoal. A senhora discordou: “Penso que não. De fato, o autor se mostrou inábil ao tecer a trama. Contudo, me encantei como aborda a alma dos personagens. Como se, no fundo, eles fossem diferentes do que são. O autor mostra uma&nbsp;<em>vida em potência</em>que pode ou não acontecer, a depender somente de cada um deles. Havia uma história escondida dentro da história aparente. Exatamente assim acontece conosco. Quando o romance é ruim, sempre há uma sensível filosofia oculta, como uma semente que precisa forçar o solo, em inevitável esforço para germinar”.</p>



<p>“Somente possível quando rompe a barreira da terra que a esconde e, supostamente também a protege”, a senhora fez uma pausa, como se fosse buscar pensamentos distantes e questionou as próprias palavras: “A terra protege a semente de quê? Da vida? De continuar semente sem nunca se transformar em árvore? Será mesmo uma proteção? Ou seria uma fuga? Do que vale a existência sem arriscarmos a ser tudo aquilo que podemos ser?”.&nbsp;</p>



<p>Em seguida retomou o raciocínio: “Ao rasgar o solo e a própria casca, a semente, em busca pela vida, conhece o sol. Então, tudo muda. A escuridão do subsolo não mais a interessa. Entretanto, também se expõe aos predadores do mundo. Ela vai precisar de ousadia e coragem para continuar a crescer e, um dia, se transformar em flor e fruto”. Tornou a pausar antes de concluir: “Caso contrário, sem sair do esconderijo, não conhecerá todas as suas possibilidades; negará a si mesma. Morrerá semente”.&nbsp;</p>



<p>Por fim, a senhora concluiu: “Tive a nítida sensação que o autor contou uma história quando, sem perceber, queria falar sobre algo diferente. É um escritor em busca da própria história”. Aquelas palavras tocaram o meu coração, mas nada falei. Nenhuma confissão fiz quanto a não ter pensado em nada daquilo quando escrevi o livro. Eu pouco, ou mesmo nada, sabia sobre o assunto no qual ela dizia ter sido abordado, de modo subliminar, na obra. Ela via algo em mim que eu não sabia existir. Era a minha&nbsp;<em>vida em potência</em>.</p>



<p>Passei as férias amadurecendo aquelas palavras. À noite, quando retornava dos passeios, comecei a escrever sobre a frustação que sentia e o medo de prosseguir. Sobre as feridas abertas pelas críticas, que abordavam não apenas os evidentes equívocos da criação, mas sugeriam maldosamente os defeitos do seu criador. Como se nada de bom existisse. Naqueles dias, havia um enorme receio até mesmo para emitir uma simples opinião sobre qualquer assunto, tamanho era o pavor de me expor. Escrevi sobre as minhas dúvidas e anseios. Como uma terapia, escrevia na tentativa de me entender.&nbsp;</p>



<p>Foi quando uma amiga me enviou os originais do seu livro de poesia. Seria também o seu primeiro livro e pedia para eu analisar antes de mandar para as editoras. Ainda com resquício de rancor, li as poesias com as amarguras que restavam no meu coração. Cheguei a escrever uma crítica dura ao trabalho dela. Antes de mandar, em momento de rara luz, me dei conta que aquele rigor não passava de uma mera e tola vingança. Não a ela, mas ao mundo. Foi quando entendi o quanto de amargura pessoal existe em cada crítica, dos olhos opacos de frustação em relação a própria vida que impedem de perceber a beleza existente nos outros. Percebi que uma crítica nunca pode ter força para destruir ninguém. Se houver sarcasmo, maldade ou ironia, tenha compaixão; pois remete ao coração do crítico, não ao trabalho em si. Fala mais sobre azedume da alma do crítico do que os eventuais equívocos da obra. De outro lado, se for justa, apontarão uma direção ou irão sugerir uma boa estrada. Então, aproveite para se aperfeiçoar. Assim são com os elogios. Muitos são apenas por polidez, não se entorpeça com eles; contudo, comemore aqueles que entender honestos. Isto serve para todos os momentos e aspectos da vida.</p>



<p>Reli as poesias, agora com a pureza da alma. De fato, eram lindas! Com sinceridade, escrevi isto à poetisa. Aos poucos, eu voltava a respirar ar puro, somente possível quando reencontramos a própria beleza.</p>



<p>Algum tempo depois, procurei pelo editor. Questionei o motivo pelo qual ele resolvera publicar o romance. Pela sua experiência, deveria saber da baixa qualidade da obra. Com a mesma delicadeza da senhora do avião, explicou: “Publiquei para você entender qual escritor existe dentro de si mesmo”. Em seguida, fez um comentário parecido com o dela, sobre haver uma&nbsp;<em>vida em potência</em>na existência de todos os personagens. Logo, de todas as pessoas. “Você escreveu um romance, no entanto, fiquei com a nítida sensação de que há outra história a ser contada”. De imediato, retirei da mochila o caderno em que eu escrevera as reflexões de férias. O editor nem ao menos o abriu. Apenas o colocou com carinho sobre a sua mesa e prometeu me dizer a sua opinião mais tarde.</p>



<p>O editor faleceu algumas semanas depois sem que voltássemos a nos falar. Passado uns meses, encontrei com o seu filho, um jovem culto e educado como o pai. Ele me disse que, ao arrumar as coisas do pai, encontrara um caderno com anotações, que acreditava, destinadas a mim. Alguns dias depois, recebi os papéis. Entre eles, o meu caderno. Trazia várias correções gramaticais e uma anotação final, escrita em letras garrafais:<em>Toda alma nua diante do espelho tem o fascínio da criação e do Criador!!!!!!</em>Assim mesmo, com muitos pontos de exclamação.</p>



<p>Foi quando decidi estudar filosofia e metafísica. Um pouco de psicanálise também. Não por acaso, conheci o Velho, Canção Estrelada, Li Tzu e o Loureiro, luzes que me ajudaram e ajudam a entender quem sou e quem ainda não sou. A compreender as minhas sombras e como fazer para transmutar cada uma delas em luz. Isto é primordial para conhecer a mim mesmo, o mundo, dar sentido à vida e acender a minha própria luz. Cada dia com um pouco mais de intensidade. A estrada não tem fim.</p>



<p>Foi fundamental para perceber a potência existente em toda alma. Para se desenvolver é necessário sair da arquibancada da existência e bailar na arena da vida. É necessário dar a cara a tapa, se expor às críticas, frustrações e até mesmo a inevitável maldade; coragem e ousadia são indispensáveis. Apenas na plateia, não há como viver as transformações e evoluir. Há que se assumir o protagonismo do próprio destino.</p>



<p>Há os que anseiam por asas; existem os que confeccionam estilingues. Estes nunca se arriscam em voo. Acreditam saber tudo sobre a beleza de voar, sem nunca terem se lançado ao ar sobre o abismo da existência. Sem admitir, ou sequer entender, sofrem com as frustações nascidas no vazio daquilo que&nbsp;<em>poderiam ter sido, mas não ousaram a ser</em>. Então, devolvem o sofrimento através dos tiros de erudição que disparam; precisam acreditar que são donos de si, mesmo sem saber quem são. Encastelados, nunca serão abatidos em voo, entretanto, jamais conhecerão a alegria de voar.</p>



<p>Pedra ou pássaro? Eis a questão. Em verdade, a escolha é sua.</p>



<p>Estudava e refletia sobre as questões da alma até quando trabalhava. Passei a levar um pequeno caderno e um lápis no bolso da calça para todos os lugares, evitando esquecer um pensamento ou ideia que me ocorresse. Escrevia, escrevia e escrevia. Depois, escrevia um pouco mais. Escrever se tornou um ritual pessoal de luz e proteção. Entendi que, para mim, escrever trazia a exata sensação de entrar em um templo. Passei a frequentar esse templo todos os dias.</p>



<p>Por sugestão de uma das minhas filhas, criei um blog para publicar os meus textos. Ao contrário da expectativa anterior, quando do lançamento do romance, não mais importava ou desejava virar um best-seller. Vencer não é chegar em primeiro lugar. O sucesso está na leveza de apenas ser você mesmo, de viver o sonho e o dom, ainda que sob as chuvas fortes das rejeições. A vitória reside em olhar para si, mesmo encharcado pela tempestade, e ter motivos para sorrir.&nbsp;</p>



<p>Escrevia com a sensação de um sobrevivente que lança ao mar uma garrafa contendo um bilhete. Talvez ninguém lesse. Não importava, eu escrevia para mim. Isto, sim, me bastava. Era o meu caminho para encontrar um mestre, aquele que se esconde no âmago de todas as pessoas.&nbsp;</p>



<p>Certo dia, eu estava na pequena vila chinesa, em meus estudos sobre o Tao Te Ching, quando recebi uma breve mensagem de um dos pouquíssimos leitores que acompanhavam as minhas novas histórias pela internet. Em resumo, ele dizia que as minhas palavras tinham evitado o seu suicídio e o fizeram recuperar o gosto pela vida. Comentei o fato com o Li Tzu. Ele me disse: “Ainda que ninguém mais leia os seus textos ou aprecie as suas palavras, acredite, já valeu a pena. O Tao ensina que quem resgata uma alma salva o mundo”.&nbsp;</p>



<p>Manifestei o meu estranhamento. Ressaltei que eu nunca fizera qualquer abordagem sobre a questão do suicídio. No texto referido pelo leitor, eu apenas ressaltara a importância do amor como pedra angular de transformação. Li Tzu deu de ombros e sorriu em resposta, como quem diz: “Entendeu agora?”.</p>



<p>Neste dia, com os olhos marejados, agradeci a doce senhora que, no avião, viajou na poltrona ao lado. Um anjo que não me deixou desistir e me emprestou um facho da sua luz para eu encontrar a minha. Eu nunca mais a vi nem sei o seu nome. Claro, houve outros anjos. Um deles foi o editor, com o seu olhar profundo e dedos longos, por me ajudar a rasgar a armadura, enxergar o sol e a construir um amanhã que, naquele momento, eu não conseguia vislumbrar.</p>



<p>Não podia deixar de agradecer a um grande mestre por ter transformado e iluminado a minha vida: o fracasso. Ele não acontece para determinar um fim, mas para sinalizar uma curva. Então, a possibilidade de uma estrada iluminada, aquela que o leva a encontrar consigo mesmo. Em verdade, as coisas dão errado para que possam dar certo.</p>



<p>Pedras ou pássaros? Eis a questão. Em verdade, as pedras ensinam os pássaros a voar mais alto.&nbsp;</p>



<p>Embora a afirmação seja verdadeira, não basta. Não se deve dividir ou classificar corações. O mundo precisa de todo o mundo. As sementes precisam romper a casca para crescerem ao sol.&nbsp;</p>



<p>Pedras ou pássaros? Eis a questão. Em verdade, pedras são apenas pássaros que ainda se recusam a voar.&nbsp;</p>



<p>Se faz necessário que cada um, no expoente da sua singularidade, ao seu passo, gosto e jeito, possa se expor ao fracasso. Então, conhecer a própria beleza. Com ela, as asas.</p>



<p>O fracasso é um maravilhoso fator de transformação. Um importante aliado no bom combate, jamais um inimigo. Ele nos mostra a estrada escondida, a&nbsp;<em>potência da alma</em>, a parte oculta a espera de descoberta e desenvolvimento. O seu dom e sonhos; revela o Caminho. Não os dos desejos do ego, porém, dos anseios da alma. Nela, a sua luz.</p>



<p>Imagem: Janet Hasting &#8211; dreamstime.com</p>
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		<title>O dilema da liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 May 2019 12:06:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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<p>Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através das histórias que contava, acendeu o indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, baforou algumas vezes e narrou: “O Grande Espírito, ao criar o mundo, teve o cuidado de distribuir os atributos de cada espécie, no intuito de que todas, cada uma dentro das suas capacidades, pudessem sobreviver e colaborar no equilíbrio da vida e na evolução planetária. Ao urso concedeu a força; a gazela recebeu a velocidade; para a cobra que se arrasta, o veneno; os pássaros foram dotados de asas; o camaleão ficou com o poder de se proteger através do disfarce. Há um equilíbrio sutil. Se observarmos com atenção, a natureza nos mostrará toda a criatividade e inteligência do Infinito Mistério”. Tornou a baforar o cachimbo, observou a dança da fumaça se dissipando à sua frente, e prosseguiu: “Nenhum animal nasce tão indefeso quanto o ser humano. Assim como, permanece tanto tempo incapaz e dependente, necessitando de total amparo de outros da sua espécie até que cresça e consiga se defender. Diante de um olhar precipitado, pode parecer que fomos relegados e esquecidos. Entretanto, o dom que nos foi concedido é o mais poderoso, conquanto, o mais perigoso. Não apenas para quem está ao nosso redor, mas principalmente para nós mesmos. Somos a única espécie com o poder consciencial. Logo, das escolhas. Isto nos permite modificar a realidade”.&nbsp;&nbsp;</p>



<span id="more-2914"></span>



<p>Interrompi para comentar como as diversas tradições filosóficas, dos mais distantes povos, em diferentes épocas, costumam conter a mesma sabedoria. Lembrei que, na Grécia Antiga, Platão narrou o mito de Epimeteu e Prometeu, sobre a criação do mundo, em história muito parecida. A condenação de Prometeu ocorreu pelo fato de ele ter furtado o fogo dos deuses e oferecido como dom aos homens e mulheres, após Epimeteu distribuir os atributos a cada uma das outras espécies. Dentro das várias leituras possíveis à mitologia, o fogo representa o calor típico provocado pelas escolhas. O fogo também traz claridade ao olhar, proporcionada pela luz da consciência, sempre em expansão, como, aliás, também foi eterna a condenação de Prometeu à pena de sofrimento, pela ousadia de desobedecer aos deuses e entregar aos seres humanos um atributo divino.&nbsp;</p>



<p>Entre outras coisas, o fogo mitológico se referia à liberdade humana. O leão que campeia solto pelas savanas ou a águia que se desloca em voo, embora sejam imagens usadas como metáforas para liberdade, vivem dessa maneira por mero determinismo biológico. Não têm a capacidade de viver de modo diferente. A liberdade reside nas impensáveis possibilidades de decidir e transformar. Assim, as possibilidades se tornam infinitas pela a intangibilidade que homens e mulheres têm em criar. Recordei que o Velho, o monge mais antigo do mosteiro, costumava usar termo&nbsp;<em>demiurgo</em>, muito comum às Escrituras, quando se referia ao ser humano.&nbsp;<em>Demi</em>significa metade;&nbsp;<em>urgo</em>, obra. Uma palavra que, originalmente, afirma sermos coautores na criação da vida e do universo. A liberdade, tão cantada em prosa e verso, além de ser um privilégio, traz consigo uma inevitável contrapartida, a responsabilidade. Algo tão grandioso que os gregos afirmavam que liberdade de escolher era mais desgastante do que as suas eventuais consequências desastrosas. No século XX, um famoso pensador francês, Jean Paul Sartre, afirmou que a humanidade estava condenada à liberdade. Sim, não importa a condição na qual se encontre, o indivíduo sempre terá uma escolha a fazer. Até quando se recusa a escolher, a escolha está feita. Esse é o seu superpoder; ele é transformador. Contudo, como aconteceu no mito platônico com Prometeu, tem sido causa de muito sofrimento. Canção Estrelada, que ouvia atento, me corrigiu: “Apenas quando mal-usada. Do contrário, a liberdade lhe concede a força do leão e o leva às alturas atingidas pela águia”.&nbsp;</p>



<p>Essa conversa aconteceu havia muito tempo.</p>



<p>A razão de eu me lembrar dela, era o dilema no qual me encontrava. Eu tinha conhecido a Maria, uma mulher encantadora, dona de uma personalidade marcante e um sorriso inesquecível. Tinha sido um grande encontro. Dava-nos muito bem. As nossas conversas pareciam não ter fim, ríamos o tempo todo, gostávamos de coisas parecidas, aprendíamos um com o outro. Era muito bom viver ao seu lado. Sim, eu a amava. Ocorre que Maria tinha uma sólida carreira construída dentro de uma multinacional, desde os tempos de estagiária. Tinha chegado o momento da sua transferência para a sede da empresa, em Estocolmo. A tão sonhada chance para ocupar um cargo na diretoria havia chegado. Ela dava pulos de alegria quando me contou. Conduzira a sua vida profissional, desde o início, com esse objetivo. Exultantes, abrimos um vinho para comemorar. Tudo andava bem até que chegou a hora de executar as ideias; teoria e prática nem sempre parecem afins.</p>



<p>Questionei se ela já tinha pensado em como faríamos para namorar; ela na Suécia, eu no Rio de Janeiro. Com o seu irresistível sorriso, Maria revelou que tinha um convite para me fazer: um pedido de casamento. Em seguida, iríamos morar juntos em Estocolmo. Acrescentou que já havia pensado em tudo. A agência de publicidade seria vendida; o dinheiro ficaria guardado em uma poupança, pois as principais despesas da nossa casa seriam custeadas pela multinacional. Eu poderia trabalhar como freelance, aproveitando a experiência que tinha no mercado publicitário, me dando ao luxo de somente aceitar os projetos interessantes sob o ponto de vista da inovação e da criatividade. Sobraria tempo para aprofundar os meus estudos. Lá existiam excelentes faculdades de Filosofia, falou animada. Disse, ainda, das vantagens em se morar na Europa. Da organização, da civilidade, do maior acesso aos centros culturais e sem o problema da insegurança pública existente no Brasil. Maria apresentou uma enorme lista de vantagens. Contudo, uma sensação amarga me invadiu.&nbsp;</p>



<p>Naquele dia me dei conta do óbvio: fazer uma escolha faz seguir por um caminho e, ao mesmo tempo, abrir mão de outros. Este, por vezes, é o dilema da liberdade.</p>



<p>Eu amava a Maria e me alegrava a ideia de casar com ela. Ocorre que isso significava abdicar de muitas coisas que eram importantes para mim. Eu tinha enorme carinho pela agência; as nossas trajetórias se misturavam. Ainda não considerava a hipótese de me aposentar, pois o entusiasmo em trabalhar continuava muito grande. Apesar dos problemas, o Rio de Janeiro era a minha cidade; eu a amava pelas referências que nela havia e marcavam a minha vida. Era para onde as minhas filhas viajavam nas férias para me encontrar. Íamos aos mesmos locais, contávamos velhas e novas histórias. Entre outros motivos, eu gostava de morar aqui. O mais importante, eu não queria mudar de lugar.</p>



<p>Ponderei que podíamos casar e morar em cidades diferentes. Sempre que possível, eu voaria até Estocolmo; nas férias, ela viria ao Rio de Janeiro. A saudade é um tempero maravilhoso aos romances. O amor não se esvai na relação espaço-tempo. Maria discordou e falou que a poesia nem sempre se aplicava à realidade. Argumentou que conhecia vários casais que tentaram essa fórmula e todos os casamentos naufragaram. Falei que as experiências alheias nem sempre se aplicam à nossa vida pessoal, seja no sucesso, seja fracasso. Pessoas com diferentes níveis de consciências têm percepções, expectativas e olhares diversos sobre situações parecidas.&nbsp;</p>



<p>Maria estranhou. Logo eu, tão afeito ao novo, com um discurso de exaltação às constantes mudanças na ponta da língua, agora recuava diante da possibilidade real de viver uma grande transformação. Lembrou que talvez me faltasse a determinação do passado; eu já fizera mudanças mais radicais do que aquela. Ela disse que eu estava com medo de fazer uma escolha. Medo do novo e da liberdade. Até mesmo, talvez, medo de viver uma história de amor com toda a intensidade possível. Então, eu propunha uma escolha intermediária que, em verdade, não era escolha nenhuma. Pior, eu virava as costas para a liberdade e o amor.</p>



<p>Passei dias em agonia. Poderia dizer sim, e partir para uma aventura inesquecível; poderia dizer não, e seguir no ritmo da vida que amava. Até que decidi casar e morar com Maria em Estocolmo. Contei a ela que deixaria uma procuração para que os funcionários da agência a administrassem, enquanto eu acompanharia tudo através dos modernos meios de comunicação à distância, com trocas diárias de e-mails e vídeos-conferências. Maria tornou a discordar. Alegou que ao não me desfazer da empresa, eu deixava uma ponte sólida para voltar atrás após à menor briga ou insatisfação. Um sinal claro de insegurança. Era preciso eu estar por inteiro onde estivesse. O argumento era insofismável.</p>



<p>Contudo, era preciso o primordial: eu ouvir a minha consciência, que entre razões e sentimentos, me diria qual a melhor decisão. Ocorre que a resposta da consciência, embora a mais sábia, nem sempre é a mais confortável.&nbsp;</p>



<p>Não raro, nos enganamos e estacionamos nas encruzilhadas da existência. Apenas fingimos tomar uma posição. Abrimos mão de decidir, então, a vida escolhe pela gente. Quando isto acontece, ela opta pelo viés educativo. Sem perceber, por negar a própria essência, somos levados à via dolorosa pela negação ao dom que nos diferencia e nos concede poder. A liberdade.</p>



<p>Para não contrariar Maria, e sem coragem para admitir a minha vontade, eu menti. Como eu não queria vender a agência, planejei em administrá-la sem o conhecimento da Maria. Sem perceber, ou mesmo admitir, morar em Estocolmo não era uma escolha minha. Era dela. Eu me sentia incapaz de rebater os argumentos que me acuavam, de seguir a voz da minha consciência. Senti medo de expressar a minha vontade. Então, mentia. Mentimos por dois motivos básicos. Quando sentimos vergonha de mostrar quem somos ou todas as vezes que nos falta coragem para manifestar a própria verdade.</p>



<p>Eu queria ser livre; todos queremos. Mas naquele momento, eu caminhava em rota contrária a liberdade.</p>



<p>Maria não tinha nenhuma responsabilidade nisso. Ela vivia a sua própria verdade e tinha todo o direito a isto. Eu era quem não estava vivendo a minha. Não sendo sincero comigo, nunca conseguiria ser honesto com a Maria.</p>



<p>A vida traz sempre dois aspectos distintos que aparentemente são contraditórios, mas, em essência, não devem ser: sobrevivência e transcendência. Alinhá-los sobre um mesmo eixo pavimenta a estrada para a felicidade. Não basta viver, sempre deverá existir na vida um impulso à evolução.&nbsp;</p>



<p>A vida em Estocolmo se mostrou agradável. Era uma cidade tranquila e moderna, com excelentes opções de entretenimento. Conhecemos pessoas interessantes e nos divertíamos. Maria estava animada com o seu momento profissional, enquanto eu me esforçava para acreditar que era feliz. Eu esperava ela sair para o trabalho e me conectava com a agência de publicidade. Coordenava as campanhas e participava da criação de anúncios. Maria achava que eu me empenhava na elaboração da tese de mestrado em Filosofia.</p>



<p>A vida seguiu o seu rumo, sempre com a sensação velada de que um pedaço do amor que nos unia se apagava a cada dia. Contudo, a existência é um mestre que sempre corrige a nossa rota para o encontro com a verdade. Aquela que nos habita, se expande e nos transforma.</p>



<p>A vida respira os ares da liberdade. Era eu quem me sufocava.</p>



<p>Eu vivia como um fugitivo. Fugia da minha verdadeira escolha. A liberdade não é uma fuga, mas um encontro.</p>



<p>Aos poucos, a olhos vistos, brigávamos mais, ríamos menos. Todos os dias, um pouco da leveza que tínhamos, se despedia de nós. Quando fizemos um ano de casamento, viajamos para Praga em comemoração à data. Passeávamos por essa belíssima cidade de mãos dadas, como dois namorados apaixonados. Entretanto, a alegria não era a mesma de antes. Inconscientemente, tentávamos ser o que já não éramos. Uma parte de mim se anulara, logo, eu não mais conseguia estar inteiro em nosso relacionamento. Quando isto acontece, tudo nos falta. A mentira aciona este vazio. Principalmente, a mentira que se conta para si mesmo. É como se uma grade invisível se fechasse ao redor; você não a vê, mas sabe que ela está ali.&nbsp;</p>



<p>De alguma maneira, Maria também sentia algo de errado, embora não pudesse entender por desconhecer os meus motivos. Em determinado momento, nos preparávamos para pegar um barco que nos levaria em passeio por um bonito rio que corta a cidade. No momento de embarcar, não por acaso, vi que um importante cliente da agência estava no barco com a esposa para o mesmo passeio. Tínhamos acabado de realizar uma campanha para a sua empresa. Era inevitável que ele tocasse no assunto, revelando a mentira que eu escondia. Aturdido, aleguei que não me sentia bem e me neguei a entrar no barco.&nbsp;</p>



<p>Fomos a uma cafeteria. Sentados em uma mesa no canto, bebi toda a xícara de café em silêncio. Maria tinha um olhar perdido, como quem tenta entender a palavra que não foi dita. Naquela manhã, eu me dera conta do que eu sentia por causa da mentira que vivia: vergonha. Percebi como a mentira é um capataz cruel da liberdade. Ninguém é livre enquanto enganar a si mesmo. Em constantes furtos diários, eu me tornara o ladrão da minha vida.&nbsp;</p>



<p>Contei toda a verdade para a Maria, sem esconder nenhuma letra. Em seguida, expliquei: “Por querer me mostrar arrojado, para você não pensar que eu temia o novo, para não a decepcionar, neguei a verdade. No momento do pedido de casamento, a maior transformação era deixar que cada um seguisse o seu caminho. O amor nunca é contrário à liberdade”.&nbsp;</p>



<p>“Abri mão da liberdade maior, aquela que me permite ser autêntico, ao tentar ser o homem dos seus desejos. Por não querer perdê-la, me perdi de mim. Por querer aprisionar o amor, o amor fugiu. Ao tentar ficar perto de você de modo equivocado, me distanciei da essência que me anima”.</p>



<p>Maria disse que todas essas palavras já existiam em meus discursos anteriores. Ela questionava o motivo pelo qual eu deixara aquela situação acontecer. Confessei que servia para me mostrar tudo aquilo que eu sabia, mas ainda não era. Contudo, nunca é tarde para retomar as rédeas da existência.&nbsp;</p>



<p>Sim, eu tinha feito uma escolha. No entanto, sempre há novas escolhas à disposição. Nós desistimos da liberdade; porém, ela nunca nos abandona.</p>



<p>Todos os dias são bons para morrer e tornar a nascer.</p>



<p>Por fim, falei que pegaria o primeiro voo para Rio. Nem mesmo retornaria a Estocolmo para buscar as minhas coisas. Maria e eu nos separamos em Praga. Foi onde voltei a encontrar comigo.</p>



<p>Maria ficou muito decepcionada. Porém, seria uma decepção superficial, típica de quando algo não acontece conforme o nosso desejo. Quando a bagunça das emoções desse lugar a sensatez das razões e dos sentimentos serenos, ela compreenderia que eu finalmente tinha feito escolha certa. Se fui covarde antes, fui corajoso depois. Com o tempo, a verdade se mostraria a melhor decisão, tanto para mim quanto para ela. Como fruto do encontro da ignorância com o medo, a mentira nunca protege, apenas ilude e atrasa a jornada para as plenitudes.&nbsp;</p>



<p>Nunca mais nos encontramos. Realizamos o divórcio por procuração. Algum tempo depois, soube que ela tinha tornado a se casar, desta vez com um diretor da mesma empresa. Vi em uma fotografia o quanto ela estava feliz. Maria merecia toda a felicidade do mundo. Uma incomensurável alegria me invadiu o coração. Eu tinha consciência de que o nosso relacionamento não tinha terminado na Europa, mas ainda no Rio de Janeiro, quando fui viver os sonhos dela. Não por culpa da Maria, mas pela minha irresponsabilidade em abandonar os meus próprios sonhos. Ao me distanciar de mim, me afastei dela. O amor não sobrevive no abismo da essência nem no vazio da liberdade.</p>



<p>Canção Estrelada tinha razão, a liberdade não traz em si nenhum dilema. Nada se perde ao escolher com a luz da consciência. O problema surge quando insistimos em negar a própria verdade.</p>



<p>Lembro que naquela manhã em Praga, fui para o hotel e peguei apenas aquilo que cabia em uma pequena mochila. Nada mais trouxe para o Rio de Janeiro; nada mais eu precisava. Quando desembarquei no Galeão trazia comigo uma velha e inconfundível companheira, da qual andava afastado, a leveza.&nbsp;</p>



<p>Uma sensação de estar em paz comigo; da dignidade por resgatar a verdade que tornava a pautar a minha existência; da felicidade de viver por inteiro os meus sonhos e dons. De viver com amor às lições de cada bifurcação que existe no Caminho. Então, avançar. Só a liberdade concede esse poder.</p>



<p>Naquele dia, voltei a sentir uma alegria que tinha esquecido existir.</p>



<p>Imagem: Viorec Dudau &#8211; dreamstime.com</p>
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		<title>O poder das emoções</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2019 10:39:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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					<description><![CDATA[“Todo o conhecimento apenas tem valor se utilizado para uma vida melhor. Do contrário, se restringirá a mero discurso acadêmico ou páginas emboloradas de um livro na estante”. Quem me disse isto foi o Loureiro, o sapateiro que costurava ideias e pedaços de couro com a mesma habilidade. Estávamos em...]]></description>
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<p>“Todo o conhecimento apenas tem valor se utilizado para uma vida melhor. Do contrário, se restringirá a mero discurso acadêmico ou páginas emboloradas de um livro na estante”. Quem me disse isto foi o Loureiro, o sapateiro que costurava ideias e pedaços de couro com a mesma habilidade. Estávamos em seu pequeno atelier, diante de duas canecas fumegantes de café. Eu relatara uma discussão que tivera, momentos antes, no mosteiro da Ordem, onde aprendia sobre filosofia e metafísica. Tudo começou quando eu me despedia das pessoas, ao término do período anual de estudos. O carro já estava no estacionamento à minha espera. Enquanto trocava os últimos abraços com os demais monges, com sinceras promessas de nos encontrarmos no ano seguinte, Sofia, uma iniciante na irmandade, me abordou. Na frente de todos, questionou o capricho com o qual eu tinha coordenado um curso aberto ao público. Elencou algumas atitudes minhas e questionou quanto as minhas verdadeiras intenções na condução das aulas. Acusou-me de estar mais interessado em brilhar do que no aprendizado oferecido aos participantes. No mesmo instante, fui tomado por uma intensa irritação. Ainda tentei argumentar com alguma sensatez. Porém, quando Sofia insistiu em suas razões, fui dominado pela raiva e a respondi no mesmo tom grosseiro. A discussão subiu degraus. Formou-se uma confusão horrível. Com o resquício do controle emocional que me restava, entrei no carro e fui para a pequena cidade no sopé da montanha que abrigava o mosteiro, onde eu pegaria um trem. Lá também ficava a oficina de Loureiro. Antes de ir à estação, decidi procurar o sapateiro para conversar e me acalmar.&nbsp;</p>



<span id="more-2907"></span>



<p>“Quando isto acontece, das paixões calarem as virtudes, sinaliza que deixamos de aprender ou de usar algo que aprendemos”, explicou o sapateiro.</p>



<p>Retruquei. “Aplico a linguagem adequada a cada interlocutor”, me justifiquei. Lembrei que fui provocado e reagi. Loureiro bebeu um gole de café e argumentou: “Sim, justamente a maneira como reagimos ao imponderável, e até mesmo ao injusto, é que nos permite avaliar o quanto já conseguimos caminhar. Será que você usou a melhor linguagem?”. Fez uma pausa e acrescentou: “As emoções são os lobos das sombras a serem adestrados para trabalhar em favor da luz”.</p>



<p>Ainda exaltado, falei que eu sabia de tudo aquilo. O sapateiro deu de ombros e comentou: “De pouco adianta saber sobre o que não estou disposto a ser”.</p>



<p>Por fim, perguntou como eu me sentia. Confessei que estava mal. Ele concluiu: “Quando alguma situação tem força suficiente para apagar a minha luz, significa que algo precisa ser mais bem trabalhado dentro de mim. Assim caminhamos”.&nbsp;</p>



<p>Esses fatos aconteceram havia muitos anos. Depois disso, voltei ao mosteiro inúmeras vezes. Realizei vários estudos como aluno, ministrei aulas, proferi palestras. Contudo, nunca mais tinha encontrado com a Sofia. De início, os nossos períodos de viagem não coincidiram. Mais tarde, soube que ela se desligara da Ordem sem apresentar nenhum motivo. Apenas abandonara a irmandade.</p>



<p>Nos meses seguintes à discussão, eu refletira bastante sobre o acontecido. Aprendera que quando um fato desagradável fica recorrente na memória, significa que há uma ferida emocional ainda aberta carente de cura.&nbsp;</p>



<p>Independentemente da provocação, eu reconhecia os meus erros. Embora a Sofia tivesse exagerado na dose e se equivocado na abordagem, ela tinha alguma razão. Eu me envaidecia muito nas funções que exercia naquela época, assim como poderia ter agido diferente e melhor quando me vi diante da reprimenda, ainda que não passasse de insultos disfarçados de boas intenções. Eu também não conseguira controlar o orgulho, ao me sentir atingido pelas críticas recebidas na frente de outras pessoas. O equívoco de ninguém justificará as minhas sombras. Sim, eu havia desperdiçado uma excelente oportunidade de exercitar todo o conhecimento que tinha. Todavia, tinha entendido o quanto eu ainda não era.&nbsp;</p>



<p>Tinha comigo a vontade de um dia reencontrar a Sofia para desfazer aquele mal-entendido; que o perdão extrapolasse da alma para, em atitude, se manifestar em amor. A chance de vivenciar o conhecimento e a mudança. Perceber que as pessoas que éramos não mais existem, será sempre uma experiência maravilhosa de superação. Eis uma das sete maravilhas da existência.</p>



<p>A vida é uma escola de excelência na formação de mestres. Todos estamos matriculados. As relações pessoais, ora são as aulas, ora são as provas. O pressuposto para avançar nas matérias é a maneira como cada um se relaciona consigo mesmo e reage frente aos fatos que se opõem à nossa vontade.</p>



<p>Assim foi, assim é.&nbsp;</p>



<p>Passado muitos anos, eu fui convidado para proferir uma palestra em um simpósio que abordava a correlação entre a ciência e a espiritualidade em uma universidade. Falaria de como, no decorrer da História, a ciência se inspirou na metafísica. O evento ainda não tinha começado. Estavam todos no hall de entrada, quando Sofia se aproximou para falar com um professor que conversava comigo. Não sei se me dirigiria palavra, mas ao reconhecê-la, sorri e abri os braços. Antes que ela se manifestasse, a envolvi em um forte abraço. Falei da alegria que sentia em estar de novo com ela depois de tanto tempo. Ela reagiu de maneira fria. Colocou as mãos nos meus ombros para afastar o corpo e murmurou: “Chega!”. Sem mais nada falar, se foi.</p>



<p>Foi tudo muito rápido e sutil. Ninguém ao redor percebeu. Mantive-me calado, porém, envolvido por uma energia densa, fiquei muito mal com o modo pelo qual fui tratado. Cheguei a duvidar se teria condições emocionais de realizar a palestra. Sentei-me sozinho em um canto para pensar e transmutar a emoção insalubre que tentava me dominar. Era preciso&nbsp;<em>arrumar a casa</em>. Lembrei que eu não poderia mudar a maneira de a Sofia se comportar, mas podia escolher quais sentimentos habitariam em meu coração. Surgiram alguns maus pensamentos e tratei de educá-los o quanto antes. A escuridão do mundo só apagará a minha luz se eu lhe der permissão.&nbsp;<em>Não mais</em>, disse para mim mesmo.</p>



<p>Aos poucos, me tranquilizei e voltei a me sentir em paz. Eu já tinha assistido àquela aula. Havia chegado a hora da prova. Acreditei estar aprovado. Embora não tenha tirado uma nota dez, pois fui tomado por perigosas paixões, conseguira me manter no eixo de luz. A reação interna, de início ruim, foi controlada em tempo hábil, sem gerar nenhuma consequência danosa. A invasão dos lobos ao templo foi dominada a tempo, sem qualquer estrago. A reação externa, se não foi negativa, tampouco se mostrou positiva; apenas neutra. Pois, em verdade, o meu silêncio não foi um gesto de sabedoria, mas de surpresa e espanto. Atribui-me uma nota sete.</p>



<p>Eu não imaginava que a prova estava começando.</p>



<p>Quando me sentei ao lado dos outros palestrantes, eu tornara a me sentir bem. Proferi a palestra com desenvoltura e, ao perceber o olhar atento do público, fui tomado por grande alegria. No final, como de costume, o mediador do simpósio permitiu às perguntas. A primeira a levantar a mão foi a Sofia. Autorizada, ela quis saber qual bibliografia sustentava a tese apresentada. Expliquei que não havia uma lista específica e ordenada de livros. A teoria exposta era uma interpretação pessoal do desenvolvimento científico ao longo dos séculos sob o prisma da metafísica. Lembrei, apenas para citar mais um exemplo, do ensinamento budista, que circula há três mil anos, de que o corpo reflete as emoções. Na atualidade, a medicina aponta, sem qualquer traço de dúvida, de que as preocupações, o estresse e o descontrole passional, afetam o sistema imunológico de modo negativo. Acrescentei que eu não era um cientista no sentido ortodoxo da palavra, mas apenas um filósofo espiritualista. A minha função se restringia a oferecer um olhar íntimo e sincero; ninguém estava obrigado a concordar. Sofia rebateu, dizendo que eu deveria me comportar de acordo com o local onde estava. Aquilo era uma universidade, repleta de acadêmicos. Não um bate-papo entre amigos. Ali era um lugar para se debater ciência, jamais um púlpito para os místicos.</p>



<p>A intenção da Sofia era me provocar. Isto se mostrou claro de imediato; o motivo pelo qual se originou, eu desconhecia. Se mantivesse a serenidade, eu teria condições de responder a todos os questionamentos, dentro dos limites do meu conhecimento. Caso contrário, teríamos uma discussão, como a ocorrida no mosteiro e mais uma chance restaria desperdiçada. Apesar do desconforto, a minha alma agradeceu diante da oportunidade que a vida me oferecia, de fazer diferente e melhor do que da vez anterior.&nbsp;</p>



<p>Argumentei que não deveríamos ter preconceito em relação a nada. A mística deveria receber a merecida atenção. Na Grécia Antiga, a filosofia socrático-platônica cunhou o termo justamente para explicar a percepção da verdade além do conhecimento científico. Parecia-me indiscutível de como isso ajudou à evolução da humanidade através dos séculos. Enquanto a ciência contribuiu ao bem-estar material e físico, a mística investiu na expansão consciencial, sem a qual inexiste avanço real.</p>



<p>Em seguida, expliquei: “A mística nos fala sobre o valor da ética. Mesmo diante de um grande progresso tecnológico alcançado por uma sociedade, sem o aprimoramento ético, viveremos em um lugar tenso, inseguro e sombrio. A ética está ligada à prática do bem que, por sua vez, se alcança através do exercício das virtudes. Não há como negar o extremo benefício trazido pela ciência, apenas um louco sustentaria tamanho absurdo. Contudo, quem desde sempre nos falou de delicadeza, compaixão, sinceridade e amor, apenas para ficar em algumas poucas virtudes, foi a mística”. Acrescentei que o conflito entre a ciência e a mística era desnecessário. Ao contrário, pertencem a uma mesma família, cuja finalidade é o bem-estar da humanidade.</p>



<p>Sofia se levantou, apontou o dedo em minha direção e disparou que eu era uma fraude. Um ignorante à serviço do atraso intelectual. A minha palestra não passara de um monte crendices. A universidade não era lugar de universos paralelos e outras esquisitices. Houve um enorme burburinho. Ela disse para eu só voltar quando conseguisse explicar, de modo científico, a existência de Deus. Uma parte do público a aplaudiu. Animada, Sofia se levantou e manteve um olhar desafiador para mim.</p>



<p>Percebi de maneira clara que, para Sofia, tudo aquilo era continuação da briga ocorrida no mosteiro há muitos anos. As emoções afloradas naquela época, podem ter sido negadas ou reprimidas, nunca pacificadas dentro dela. Ao me reencontrar, ela voltou ao centro da arena e me chamava para a luta. Aceitar o convite era uma escolha minha.</p>



<p>Havia ódio em seu olhar. Um ressentimento que, quando dominador, ofusca as melhores razões, a menor sensatez e qualquer traço de verdade. Interessa a sensação passional de uma inexistente vitória, não importa a qual custo; seja com a confissão de derrota do oponente, situação difícil de ocorrer, seja com o seu linchamento moral, fato de amargas consequências.&nbsp;</p>



<p>Naquele momento entendi o desprezo com que me tratou quando a abracei. O desprezo, em muitos aspectos, se parece com a ironia. Ambos têm uma enorme agressividade camuflada. Tanto num quanto noutro, há doses excessivas de orgulho e ressentimento. São maneiras de manifestar uma revolta incontida, com supostos contornos de polidez e pretensa superioridade intelectual. Infelizmente, ainda é uma maneira socialmente aceitável de ser agressivo. No fundo, mostra uma pessoa em uma escuridão tão intensa quanto aquele que disfere um palavrão ou aplica um soco.</p>



<p>Eu sabia que algo em mim a incomodava desde a época do mosteiro. Alguma coisa que falara, fizera ou a fazia recordar do seu passado. Eu não sabia o que era. Acreditei que no meu abraço existiria a mensagem subliminar de perdão e paz. De fato, havia para mim, não para Sofia. Naquele dia aprendi que cada um tem o seu tempo. Por isto, a paciência é uma virtude tão valiosa.</p>



<p>Essas ideias me ocorreram em fração de segundo. Eu estava sentado à mesa dos palestrantes; ela continuava de pé com o seu olhar desafiador. Sofia estava na arena me chamando para a briga. Eu poderia aceitar o convite e lutar com ela ao responder no mesmo diapasão. Havia a possibilidade de me recusar a entrar na arena para guerrear; bastava dizer que eu não debateria naquele tom de questionamento. Além de ter esse direito, isso evitaria uma confusão que se anunciava. Todavia, existia um terceiro viés: entrar na arena e a convidar para bailar comigo a grande sinfonia da vida.&nbsp;</p>



<p>Esperei que o auditório voltasse a silenciar. Disse que gostaria de responder ao questionamento que me fora feito. Sofia colocou a mão na cintura, como se a minha insistência a impacientasse. Eu falei: “Eu sou incapaz de oferecer a prova científica do que me foi questionado. Eu não a tenho”. Irônica, ela me interrompeu para dizer que, então, eu deveria estar em um mosteiro, jamais em um reduto acadêmico. Ouvi o riso de algumas pessoas. O sarcasmo tem um enorme poder destruidor, por abafar os argumentos contrários. Isto o torna uma eficiente ferramenta das sombras.&nbsp;</p>



<p>Se eu me permitisse sair do meu eixo de equilíbrio, a minha luz se apagaria. Outra oportunidade restaria desperdiçada. Tornei a esperar pelo silêncio e falei: “Há evidências de uma sabedoria muito além da capacidade humana de criação e entendimento desde o início dos tempos. Aos poucos, todo esse saber vem se tornando ciência. O incrível funcionamento da fotossíntese imprescindível à renovação da vida, o complexo sistema vascular, o intrigado funcionamento dos neurônios, a energia incomensurável contida em um minúsculo núcleo atômico e como se comportam os seus travessos elétrons; o movimento das correntes e das marés oceânicas que, ao cessar, encerraria a vida no planeta, são apenas alguns poucos dos infinitos exemplos de uma complexa e sábia interligação. A harmonia e a imprescindibilidade de tudo e de todos, como pequenas e grandes engrenagens, que ao defeito da menor delas, afeta o funcionamento de uma máquina gigantesca denominada Terra, sustentada ao sol através de uma força intangível conhecida como gravidade, segundo Newton, ou um espaço curvo como sugeriu Einstein. O sol, por sua vez, tão importante para nós, é um grão de areia, diante de outras galáxias, a maior parte delas ainda desconhecida pelo nosso tosco conhecimento. Aliás, olhar para as estrelas é um bom exercício para a indispensável humildade. Fazemos parte de algo do qual não temos a menor ideia, salvo na arrogância dos tolos. A mim parece evidente, à maneira como gosto de temperar a filosofia com a metafísica, que somos partes de um mesmo todo. Somos peças únicas, mas somos um. Mas, claro, posso estar errado.”. Fiz uma pausa e perguntei: “A questão que não cala em mim é quem criou, dirige e coordena tudo isso com tamanha perfeição e sincronia? O acaso? A natureza?”. Dei de ombros e disse: “São bons nomes, como quaisquer outros”.&nbsp;</p>



<p>Antes que houvesse qualquer manifestação, prossegui: “Entretanto, concordo que, entre inúmeros outros exemplos, alguns ainda melhores do que os citados, todos continuam sendo apenas evidências e ilações místicas. Entretanto, a mística continua sendo um importante instrumento de percepção e entendimento de quem sou e de tudo ao meu redor. Não sob o ponto de vista científico, mas consciencial”.</p>



<p>“Porém, quando falo de consciência, preciso também falar de amor. São expansões que precisam estar irmanadas”. Fiz uma pausa proposital e prossegui: “O amor, esta virtude tão desejada quanto incompreendida. O temos tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante”.&nbsp;&nbsp;Apontei aleatoriamente para as pessoas do auditório e perguntei: “Alguém aqui presente é capaz de negar a existência do amor?”. Um burburinho se formou. Eu segui o raciocínio: “Claro que não. Até os brutos amam. Sem amor o sentido da vida se esgota nos ralos da mera sobrevivência. Sem amor não há transcendência. No entanto, qual a definição científica para o amor? Além da poesia, o amor não se traduz em palavras”. Fiz uma pausa e confessei: “O amor se sente; Deus também”.&nbsp;</p>



<p>“Se algum cientista for capaz de demonstrar matematicamente o funcionamento do amor em nossas vidas, a sua incomensurável importância para uma existência plena, com argumentos além da mística, eu conseguirei comprovar a existência de uma consciência cósmica, também conhecida pelo nome de Deus”.</p>



<p>“Por isto, a linguagem preferida da mística é a arte. Pela transcendência, transformação e magia que traz”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por um lapso de tempo, o silêncio foi absoluto. Quando Sofia fez menção em continuar a discussão, vieram alguns aplausos por parte do auditório. Isto talvez tenha freado o seu ímpeto; ela nada mais disse. Alguns estavam desconfortáveis; outros, desconcertados. Alguns concordavam; outros não. Eu tinha conseguido expor as minhas razões de maneira calma, simples e clara. Isto me bastava; conquanto, não me alegrava. A situação com a Sofia não se resolvera. Contudo, não dependia somente de mim.</p>



<p>Na saída, algumas poucas pessoas vieram me cumprimentar. O professor que organizara o simpósio veio agradecer e conversar comigo. Falou que, embora a minha palestra não fosse uma unanimidade, tinha convicção que fizera muita gente pensar. Isto era o mais importante.</p>



<p>Quando me dirigia à estação de metrô, a Sofia passou à minha frente. Ela não me dirigiu olhar. As suas feições estavam inamistosas, de quem continuava&nbsp;<em>pintada para a guerra</em>. Ao contrário do que ela podia acreditar naquele momento, a batalha não era contra mim. Era uma luta travada dentro dela mesmo, ainda longe de ser pacificada. Não consegui ver os lobos, mas os senti ao seu redor. Eu os reconheci, eram lobos iguais aos que acompanham quando me afasto de mim.</p>



<p>Naquele instante, me dei conta que ao convidar a Sofia para dançar comigo a canção da vida, eu pudesse ter feito de maneira equivocada. Todo aquele discurso sobre metafísica e amor, teria acirrado ainda mais o seu ressentimento. Ocorreu-me se, durante o curso no mosteiro, uma situação involuntária da minha parte não teria provocado nela as emoções que a devoravam. Vi quando ela entrou em uma cafeteria. Fui atrás. Sem que Sofia percebesse, deixei que fizesse o pedido e, antes que ela pagasse, falei para o balconista que queria a mesma coisa e me adiantei para pagar.</p>



<p>Ela me olhou assustada. Antes que pudesse reagir, falei: “Precisamos conversar”. Ela não disse palavra. Esperamos calados que entregassem os cafés e sentamos em uma mesa. Tomei a iniciativa: “Quero lhe pedir desculpas”. Sofia me indagou por qual motivo eu me desculpava. Fui honesto: “Quanto a briga no mosteiro, não sei ao certo. Mas hoje, ao fazer um grande elogio ao amor, me dei conta de quanto sou pobre deste amor que falo, mas mal conheço. As palavras que usei sobre o amor foram sinceras ao justificar as ideias que tenho sobre a vida. Mas o sentimento que as impulsionam será vazio se eu não as viver com intensidade. Ali, eu expus um pensamento que não me aproximou de você. Encantei a arquibancada, mas perdi o jogo. Aqui temos a chance de começar uma nova partida”.</p>



<p>A Sofia chorou. Foram lágrimas sentidas, típicas de quem trancou uma emoção dolorosa por muito tempo. Eu a abracei. Desta vez, recebi um abraço emocionado em retribuição. Esperamos que se acalmasse. Ela confessou que concordava com tudo o que eu havia dito na palestra. Assim, como na Ordem, adorava as aulas que eu ministrava. Contudo, percebia que eu falava em amor com um altruísmo que não possuía. Isto a incomodava, pois ela era igual a mim.</p>



<p>Rimos. Ponderei que provavelmente esse também tinha sido o ponto de eu ter me irritado tanto naquela época. Ela tinha arrancado uma das minhas máscaras. Ao invés de agradecer por ter me desnudado diante do espelho da verdade, eu me aborreci pela vergonha de me descobrir pelado. Rimos de novo.</p>



<p>Encorajada, Sofia começou a falar de si e das dificuldades que tinha para lidar com as suas sombras. Dos erros que cometeu e da vontade avançar no Caminho. Fiquei impressionado em como éramos parecidos. Confessou que todos os dias pensava em voltar ao mosteiro. Contou que nunca mais voltara porque desejou ter sido acalentada por todos após a briga que tivéramos. Como não aconteceu, não retornou. Reconhecia que não passava de um capricho inconcebível. O orgulho, a sua sombra mais poderosa, a impedia de voltar. Isto a fazia sofrer muito.&nbsp;</p>



<p>Foi a minha vez de revelar: “A origem da sua dor é a mesma da minha. O orgulho nos corrói e mesmo assim relutamos em nos afastar dele. Apenas uma das muitas incoerências de quem somos. Dizem que para curar o orgulho é preciso fazer da humildade um lugar confortável para se viver”. Sofia balançou a cabeça e concordou: “Mais uma das muitas coisas que sabemos, mas ainda não conseguimos ser”.&nbsp;</p>



<p>Conversamos muito sobre muitos assuntos e todas as coisas. Rimos muito. Sofia era uma mulher encantadora, inteligente e dona de um surpreendente bom humor. As emoções desvairadas escondiam toda essa beleza. Fomos embora somente quando a cafeteria fechou. A noite estava repleta de estrelas. Alegres, enfim, dançávamos a canção da vida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Transmutar as paixões por sentimentos. Eis outra das sete maravilhas da existência.</p>



<p>Fiquei observando-a ir embora. Não tinha nenhum lobo por perto. Eles se afastam quando paramos de alimentá-los.</p>



<p>Imagem: Cynoclub &#8211; www.dreamstime.com</p>
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		<title>A força da leveza</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 May 2019 20:31:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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<p>Tudo começou com a cisão na agência de propaganda da qual eu era um dos sócios. O motivo da separação tinha sido a conta de uma poderosa multinacional que exigia exclusividade no atendimento. Enquanto dois sócios se retiraram para montar outra agência com a finalidade de atender a essa empresa, outros dois, eu e o Paulo, ficáramos com as contas dos clientes antigos, todos de pequeno e médio portes. Abrimos mão de ganhar um bom dinheiro, mas poderíamos manter uma rotina saudável e alegre, sem a frieza no trato pessoal, típica das grandes corporações. Eu seguia satisfeito. Todavia, o sócio que ficara comigo, não. O motivo era a vida dos outros que saíram. Eles, no decorrer de poucos anos, ficaram milionários. A cada notícia de uma mansão, iate ou artigo exclusivo aos ricos, adquirido por eles, incomodava profundamente ao Paulo. Ele sempre lamentava a escolha feita e ficava dias, por vezes semanas, com extremo mau humor. Tratava a todos com rudeza e impaciência. Até comigo o relacionamento ficara difícil. Não raro, desaparecia da agência, me evitava e sequer respondia as mensagens enviadas. Certo dia, eu o vi falando de maneira grosseira com uma funcionária. Havia passado da hora de estabelecer um limite àquilo.</p>



<span id="more-2899"></span>



<p>Tranquei-me com ele na sala de reuniões. De modo sereno, falei que o comportamento dele era inadequado ao ambiente de trabalho. O fato de ser o dono da empresa não o legitimava a falar daquela maneira com ninguém. Pedi para ele avaliar as suas atitudes nos últimos tempos e perceber como se tornara uma pessoa malquista por todos na agência. Porém, caso ele quisesse, era possível modificar esse comportamento e retomar a alegria de antes. Falei que eu sempre prezei muito por um local onde as pessoas trabalhassem com satisfação, em ambiente propício ao desenvolvimento do potencial e talento de cada funcionário. Quando isto acontece, todos ganham. Lembrei que este tinha sido o diferencial para agência ter conquistado alguns prêmios e um pouco de prestígio no passado. Algo que vinha se perdendo, talvez pelo fato de o ambiente de trabalho ter se tornado tenso e pesado.</p>



<p>De modo acintoso, Paulo colocou os pés em cima da mesa e reclinou a cadeira para trás. Olhou-me com mágoa e, em tom de voz agressiva, disse que eu era culpado pela fortuna que ele tinha perdido. Referia-se ao fato de não ter acompanhado os sócios que saíram da agência. Confessou que, na época,&nbsp;<em>embarcara na minha lábia, com aquelas ideias absurdas de viver com leveza</em>. Falou que a vida era dura e o mundo admirava somente aos que tinham dinheiro. Este era o padrão de prestígio e sucesso para a humanidade. Sem me deixar sair do meu eixo de equilíbrio, tentei ponderar: “Estamos, você e eu, tão longe da riqueza quanto da miséria material. Temos uma existência confortável. Um lugar para morar e comida na mesa todos os dias. Nossos filhos estão em boas escolas e são pessoas encantadoras. Isto é suficiente. Se tivermos riqueza espiritual, isto nos tornará prósperos”.</p>



<p>Prósperos? Ele estranhou. Eu expliquei: “Ao contrário da riqueza, caracterizada pelo acúmulo de bens materiais, muitas vezes além do necessário, a prosperidade se estabelece quando vivemos bem com aquilo que temos”. Paulo me interrompeu para dizer que esse era o meu problema, eu me contentava com pouco. Segundo ele, eu tinha a mentalidade de pobre e, por isto, tinha que&nbsp;<em>lamber as fotos</em>e me contentar com as notícias de conquistas dos antigos sócios.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Eu argumentei por outra ótica: “Isso não verdade. O sucesso dos outros nunca será um impeditivo à alegria dos meus dias. Quero o bem de todos, movimento que desatrela a minha vida à existência alheia. Se a felicidade de alguém me incomoda, está disparado o alarme que algo em mim anda mal. Nada a ver com as coisas que tenho, mas com a pessoa que sou. Em mim, jamais nos outros, está a fonte das dores e das delícias que brotam todos os dias”.&nbsp;</p>



<p>“Esforço-me para viver com a mentalidade de um homem livre. Para isto, tenho que me desamarrar de toda e qualquer dependência possível. Sejam os vícios emocionais, sejam os materiais, condicionamentos que aceitamos sem entender, por não questionar.&nbsp;<em>De quanto menos precisar, mais livre serei</em>; este é o eixo horizontal que me conduz.&nbsp;<em>A escuridão do mundo não apagará a luz da minha alma</em>; eis a linha vertical que me orienta. Este processo se inicia dentro mim para se refletir nas minhas relações pessoais. Se não vivo bem comigo, terei problemas com as pessoas”.&nbsp;</p>



<p>Paulo abriu os braços, disse que eu deveria seguir as minhas teorias idiotas e deixá-lo viver como ele desejava. O meu sócio estava mal. Era como se ele estivesse em um quarto escuro. Quando isto acontece, nem sempre entendemos que precisamos de luz, mas, ao contrário, tentamos trazer as pessoas para ficar na escuridão conosco. Incomoda admitir que estamos fazendo escolhas erradas. Esta é uma das razões da nossa agressividade. Aparentemente é mais fácil transferir para os outros a responsabilidade pela insatisfação que sentimos. Uma facilidade que engana. Não se consegue sair do lodo movediço quando teimamos em fazer o movimento errado. Então, afundamos mais. Sem transformação no ser e no viver não há superação de nenhuma situação que nos cause sofrimento.&nbsp;</p>



<p><em>Deixe-me viver do jeito que quero</em>, o Paulo repetiu. Era uma atitude de evidente provocação. Eu não podia deixar que ele me arrancasse de mim. Sem abdicar da serenidade, argumentei: “Cada um deve ser e viver do jeito que acreditar melhor. Contudo, há limites. Esta fronteira é a individualidade. É inadmissível subjugar os outros. Ninguém é obrigado a se sujeitar às suas contrariedades com a vida, quando elas se manifestam de modo agressivo”.</p>



<p>“Ainda que pese as necessidades de muitos funcionários quanto aos empregos que sustentam as suas famílias, nenhum deles é obrigado a ficar na empresa, se não estiver satisfeito. Porém, quando se sujeitam, as consequências são ruins. É preciso levar em conta o péssimo ambiente de trabalho que tem permeado as relações entre todos na agência. Isto afeta não apenas a produtividade, mas a leveza indispensável à felicidade. Delicadeza é fundamental e é de graça”.&nbsp;</p>



<p>Dei uma pausa, pois entraria em terreno sensível e disse: “Sem dúvida, você tem o direito de viver como deseja. Entretanto, não quero que a agência que também dirijo, o meu local de trabalho, onde passo muitas horas todos os dias, seja um lugar sombrio e desagradável. Pior, sem necessidade”. E o lembrei: “Eu tenho esse direito”.&nbsp;</p>



<p>Paulo deu uma gargalhada. Falou que eu não tinha como obrigá-lo a ser diferente. Concordei com ele: “Em verdade, nunca pensei nisso. Forçar a quem quer que seja a fazer algo que não queira, foge aos meus princípios. De outro lado, não sou obrigado a viver de modo ou em lugar que me seja desagradável. Vim conversar contigo para que refletisse sobre as suas atitudes”. Antes que ele se manifestasse, acrescentei: “No passado sempre tivemos um bom relacionamento. Tudo mudou quando nos separamos dos outros sócios. Que tal você tirar férias para pensar sobre os motivos que tanto o deixam insatisfeitos? Acredito que podemos retomar o bom ambiente que um dia tivemos”.&nbsp;</p>



<p>Desafiador, falou que não sairia de férias nem mudaria a sua conduta. Se eu quisesse, continuaríamos assim. Caso contrário, eu poderia fazer o que achasse melhor. Eu não tive dúvida em afirmar: “Penso que cada qual deve seguir o seu caminho”.&nbsp;</p>



<p>Com sarcasmo, Paulo disse que&nbsp;<em>pagava para ver</em>. Ainda se utilizando de termos comuns ao pôquer, falou que eu blefava. Lembrou que ele era quem&nbsp;<em>tinha</em>os clientes. Era amigo da maioria. Sob determinado prisma, era verdade.&nbsp;</p>



<p>Paulo sempre tinha funcionado como uma espécie diplomata informal da agência. Gostava de comer e beber com fartura, de ter sempre pessoas à sua volta, de contar piadas e viajar em grupo. Ao menos uma vez por semana, ia ao restaurante com algum cliente, em almoços que costumavam demorar toda uma tarde. Como era casado com uma mulher parecida com ele, também tinha o hábito de viajar em família com os clientes. Estreitara a amizade com vários deles. O seu mau humor era restrito a quando estava dentro da agência. Em público, parecia outra pessoa.</p>



<p>Não, ao contrário do que se possa pensar, Paulo não era falso ou portador de dupla personalidade. A questão era mais simples. Caso o homem seja um animal social, como sustentam alguns filósofos, a agência se tornara um habitat desconfortável para ele, pelas lembranças desagradáveis quanto as oportunidades perdidas na cisão da antiga sociedade, ao menos de acordo com o seu entendimento. Essas memórias se personificavam através da minha presença.</p>



<p>Ainda desafiador, duvidou que eu tivesse coragem de romper a sociedade que tínhamos, como fizera com os outros. Dessa vez seria diferente, ele garantiu; a maioria dos clientes, ou mesmo todos, o acompanhariam. Eu ficaria na miséria, me assegurou. Falei que o trabalho de relações públicas realizado por ele tinha extremo valor. Entretanto, eu fora responsável pela criação das campanhas durante todo esse tempo e algumas foram premiadas, o que muito contribuiu para angariar e manter os clientes. Ele retrucou que me substituiria facilmente por jovens talentosos e criativos. Melhor, não precisaria mais dividir os lucros da agência comigo. Alegou que, até então, tinha sido extremamente generoso, pois eu teria enorme dificuldade em conseguir alguém como ele, capaz de captar e cativar a clientela.</p>



<p>Expliquei ao Paulo: “Sou muito grato e reconheço a importância do seu trabalho. Embora torne as relações mais suaves, não me agrada a ideia de manter a clientela, sobretudo e somente, pela amizade. Eu reconheço e prezo os amigos como instrumentos primordiais à alegria da vida. Todavia, não se pode ter dependência profissional às amizades. O trabalho deve se manter pela qualidade, comprometimento e inovação com que nos empenhamos a ele. Esse é um diálogo claro que mantenho com a liberdade”.</p>



<p>Ele perguntou com ironia se eu era dono de mim como me fazia parecer. Sem perder a calma, respondi que me empenhava em ser sincero aos meus princípios para ter uma relação honesta com a vida. Acrescentei que eu não deixaria o medo guiar as minhas escolhas. Conclui ao dizer: “Não subestimo o seu poder, mas conheço a minha força”.</p>



<p>Não que eu tivesse qualquer virtude extraordinária. Longe disto. Apenas tinha a consciência de que o Caminho nunca se fecha ao andarilho que o trilha com vontade e amor.&nbsp;</p>



<p>A sociedade foi desfeita. Antes da dissolução contratual, os clientes foram comunicados para decidirem se trabalhariam com o Paulo ou comigo. Como previsto por ele, quase todos o acompanharam. Apenas um preferiu que eu cuidasse da publicidade da sua empresa. Como era uma conta pequena, por sensatez, a agência ficou com o Paulo, inclusive a espaçosa casa, em um bairro nobre, onde funcionava. Assim como a maioria dos funcionários. Abri uma nova agência, abrigada em uma sala comercial. Foram comigo somente uma designer gráfica e um funcionário para serviços gerais. Era o limite do orçamento financeiro que me restara. Mesmo com uma única conta, era muito trabalho para três pessoas. Como se não bastasse, foi preciso reduzir o salário deles. Eles aceitaram sem reclamar. Contudo, eu não me sentia justo. Foi quando ofereci uma participação nos lucros, caso houvesse. Apesar de todas as dificuldades de espaço e dinheiro que tínhamos, os nossos dias eram alegres, divertidos e repletos de esperança.</p>



<p>Entretanto, a vida não acompanha os desejos, mas a necessidade de evolução. Ao final do primeiro ano, estávamos com prejuízo na contabilidade. Havia surgido despesas imprevistas e eu tive que esgotar uma pequena poupança pessoal para honrar os compromissos da agência. Certo dia, os dois funcionários me chamaram para conversar. Cientes das dificuldades financeiras que a agência atravessava, disseram que entenderiam a minha opção em fechar a empresa e, neste caso, até abririam mão de qualquer indenização trabalhista, pois reconheciam o valor da minha luta e o quanto tinham crescido durante todo esse período. Com os olhos marejados, lhes falei: “É muito importante perceber quando um ciclo de vida se encerra. Entretanto, não podemos confundir o fim de um ciclo com as dificuldades inerentes à vida. A sociedade com o Paulo foi um período que terminou; a minha carreira como publicitário, não. Os problemas que existem são exercícios de criatividade, aprendizado e força”. Fiz uma pausa para enxugar as lágrimas e prossegui: “Acredito em mim, isto sempre me bastará. Ocorre que a vida, com toda a sua infinita generosidade, me privilegiou ao colocar duas pessoas maravilhosas para trabalharem ao meu lado, durante um momento, embora difícil, muito bonito, pois exige que tenhamos de ir além de onde sempre estivemos. Isto é transformador”.</p>



<p>A jovem designer quis saber se eu não tinha nenhum receio. Afinal, o futuro da agência parecia incerto. Lembrei de uma conversa que tivera com o Velho, o monge mais antigo da Ordem, onde eu estudara filosofia e metafísica, havia muitos anos. Ele me ensinara que&nbsp;<em>quem caminha com amor não precisa ter medo da escuridão</em>.&nbsp;<em>Pois, a luz estará dentro de você a iluminar os seus passos e a proteger o seu caminho</em>. Contei isso para eles e acrescentei que essa era a virtude que movia a minha vida. Desistir estava fora de cogitação. É preciso trabalho e paciência para que a magia da vida se manifeste.</p>



<p>O rapaz que tinha um cargo de muitas funções, confessou que eles vinham recebendo constantes propostas do Paulo para retornarem à antiga agência. O salário era maior e as perspectivas melhores. Sorri por entender aonde aquela conversa nos levaria. Falei que deveriam fazer aquilo que fosse melhor para eles. Eu entendia a escolha. Por ter profundo respeito à minha liberdade, respeitava a liberdade de todos. Inexistiria qualquer traço de ressentimento. Os dois me deram um abraço apertado e se foram.</p>



<p>No dia seguinte, talvez sabendo que eu ficara sozinho, a única empresa que ainda se mantinha comigo, me telefonou para rescindir o contrato. Restara eu, uma sala, nenhum cliente e pouco dinheiro.</p>



<p>Para ser justo, não me cabiam a revolta, a vitimização ou a tristeza. Eu vivia as inevitáveis consequências das escolhas que fizera. No mais, também não era inteligente. Desde que eu tenha sabedoria e amor para aproveitar, tudo o que acontece na minha vida é para o meu bem. Este é um precioso mantra a ser repetido todos os dias. A maneira como reagimos aos problemas define o poder que eles terão sobre nós. Os problemas podem se comportar como abismos que interrompem a estrada ou se transformar nas asas que levarão ao inimaginável da vida e de si mesmo.&nbsp;</p>



<p>Como ainda era cedo, decidi subir a Pedra da Gávea, uma montanha com face de esfinge que, dizem alguns místicos, serve de sentinela da cidade do Rio de Janeiro. É possível chegar ao topo depois de cerca de três horas de escalada sem necessidade de cordas. Eu costumava ir lá quando mais jovem. Sempre me encantara com a sua estranha energia. Como se houvesse um portal entre dimensões, ali os pensamentos ficavam incrivelmente claros em mim. Era o que Canção Estrelada, o xamã que me ensinara a filosofia ancestral dos povos nativos da América, chamava de&nbsp;<em>Lugar de Poder</em>.&nbsp;&nbsp;Um local onde a conexão com o lado invisível do universo fica mais acessível. Lá em cima, há um amplo platô, onde é possível avistar toda a cidade. Naquele dia, não tinha mais ninguém no topo; o silêncio era tão absoluto que me parecia possível ouvir a sua voz. Sentei-me e fiquei em reflexão por um tempo que não sei precisar. Eu precisava me conectar com a minha essência e, por consequência natural, com o universo; entender o que acontecia comigo e por onde deveria seguir.</p>



<p>Em determinado momento, me veio a mente a imagem de Canção Estrelada. Lembrei de uma frase que ele sempre repetia:<em>quem tem a si, nada falta</em>.&nbsp;</p>



<p>Eu sorri para mim. O Caminho sinalizava uma direção. Eu tinha, mais uma vez, que me reinventar, remodelar a minha carreira profissional e a agência. Quando cheguei em casa, dormi profundamente. Nos meses seguintes, fiz um curso para aprender a usar programas de edição de som e imagens no computador. Aprofundei os estudos em psicanálise e os reflexos inconscientes dos costumes nas redes sociais. Enquanto isso, entrava em contato com empresas, oferecendo os serviços da minha agência. Os estudos iam bem, os negócios não saíam do lugar.&nbsp;</p>



<p>Em uma agradável tarde de sábado, fui assistir a um interessante espetáculo que misturava teatro, dança e circo em um mesmo enredo. Diversos estilos narrativos usados para ilustrar e aprofundar uma história. Encantado, fiquei imaginando como eu poderia usar essa ideia para inovar no meu trabalho. Não por acaso, encontrei com o Paulo e a esposa na saída. Eu não o via desde a dissolução da sociedade. Apenas ouvia que a sua agência seguia com bons contratos. Fui cumprimentá-los com alegria. Apesar das consequências que enfrentava, eu não sentia qualquer mágoa. Tinha sido uma escolha consciente, madura e sem nenhum traço de arrependimento; afinal, nunca se lamenta o preço da liberdade.&nbsp;</p>



<p>Fui recebido com arrogância. Ele disse saber que pouco, ou mesmo nada, restara da minha agência. Lembrou que tinha me avisado que isso aconteceria. Em seguida, me ofereceu uma vaga na equipe de criação da sua empresa. Falou que estavam com muito trabalho e precisavam contratar funcionários. Sem vestígio de orgulho, agradeci e expliquei que, apesar das enormes dificuldades, eu estava seguro quanto à direção que havia dado à minha vida e acrescentei: “A agência está de pé e, acredite, estou bem”. Era a mais pura verdade. Paulo deu um sorriso sarcástico, me desejou sorte, virou as costas e se afastou.&nbsp;</p>



<p>Fui tomar um café. Encontrei com uma amiga da qual não tinha notícias havia anos. Ela estava com a filha, uma moça bonita e bem-humorada, na faixa dos vinte anos de idade. Maria era o nome da jovem. Convidei para que sentassem à mesa comigo e logo engatamos em uma animada conversa. Em determinado momento, perguntei à Maria sobre o seu trabalho. Ela abriu a bolsa e retirou dois potes. Um hidratante e um protetor labial. Explicou serem elaborados de maneira artesanal, sem qualquer produto químico ou de origem animal. Inteiramente veganos, eram produtos de beleza tão saudáveis que poderiam até mesmo servir de alimentação. Para me mostrar que falava sério, abriu um dos potes, passou o dedo e ingeriu uma pequena quantidade. Em seguida, me ofereceu. Aceitei, comi e comentei: “É gostoso”. Rimos. Perguntei se eram eficientes na pele. Maria me respondeu que eram ótimos. As pessoas que experimentavam nunca mais deixavam de usar. Entretanto, as vendas estavam muito pequenas e talvez tivesse que abandonar o projeto para arrumar um emprego. Isto a entristeceria.</p>



<p>Ocorreu-me uma ideia. Falei que eu poderia ajudar, se elas confiassem em mim. Em contrapartida, elas também me ajudariam. Propus me deixarem criar uma campanha para os cremes. Eu usaria diversas narrativas para divulgar a marca, como havia visto no espetáculo que acabara de assistir. Elas disseram que seria maravilhoso e que acreditavam em mim, mas não tinham dinheiro para me pagar. Combinamos que os meus honorários seriam pagos através de um pequeno percentual dos lucros sobre o aumento das vendas. Caso não houvesse lucro, nada me deveriam. Aceitaram na hora.</p>



<p>Era o momento de fazer valer toda a minha experiência e estudos. Recriei todos os aspectos externos da marca. Mudei o nome para outro mais apropriado à ideia subliminar aos ingredientes usados nos cremes; desenhei, através de um software gráfico, um novo rótulo para personalizar os atributos contidos na marca. Abusei das cores nas embalagens. Construí um site, com navegação intuitiva, tanto para que o público se inteirasse sobre os ideais que moviam a marca, quanto para impulsionar as vendas pela internet. Criei grupos de debate nas redes sociais. Telefonei para uma amiga, uma conhecida atriz, e pedi para que ela aceitasse participar de um pequeno vídeo, no qual usaria um hidratante, enquanto explicava os diferenciais do produto. Acrescentei que não tinha condições de pagar o cachê. Como ela já tinha estrelado boas campanhas comigo, na época das antigas agências, foi generosa e não regateou. Quando estávamos filmando na casa dela, o seu gatinho se aproximou e começou a lamber o creme que acabara de passar nas mãos. Ela, de maneira espontânea, passou um pouco do hidratante na língua, sorriu com a própria travessura e elencou cada um dos ingredientes, todos naturais e comestíveis. Usei as imagens inesperadas para ressaltar, ainda mais, de como, além de bom para a pele, era saudável e isento de aditivos tóxicos.&nbsp;</p>



<p>A campanha teve uma aceitação muito além das nossas melhores expectativas, a ponto de Maria não ter condições de atender à crescente demanda. Sem demora, foi procurada por um investidor que a ofereceu condições para aumentar a produção em troca de participação nos lucros. Eu passei a ganhar mais também. Logo, comecei a contratar profissionais para trabalharem comigo. Tive que alugar uma sala ao lado. Para coroar essa jornada, inscrevi a campanha em um prestigiado festival de propaganda, que reúne agências de todas as partes do mundo. Não fui premiado com os primeiros lugares, mas recebi uma menção honrosa na categoria criatividade e outra no quesito modelo de negócio. Foi o suficiente para que empresas com dificuldades financeiras começassem a me procurar. Propunham o mesmo tipo de parceria; os honorários seriam um percentual do lucro, se houvesse. Aceitei todos. Passado alguns meses, tive que procurar um local mais espaçoso para a agência. Dessa vez fiz uma rota diferente. Fui para um galpão em um bairro industrial, no subúrbio da cidade. Todos os profissionais que vinham trabalhar comigo ganhavam participação nos lucros da agência. A expansão de uma ideia simples que unia as pessoas ao redor de um mesmo objetivo. Trabalhávamos sem paredes, em comum-unidade; todos tinham enorme interesse em se ajudar e no andamento de cada campanha. O ambiente era permeado de entusiasmo, alegria e leveza.&nbsp;</p>



<p>Uma revista de grande circulação fez uma matéria sobre a nossa trajetória e jeito de trabalhar. Não demorou, tive uma surpresa. Os dois funcionários que tiveram que deixar a agência para voltarem a trabalhar com o Paulo, me procuraram. Queriam retornar, mas entenderiam, caso eu não os aceitasse. Afinal, tinham me abandonado em um momento crucial. Emocionado, antes de dizer palavra, eu os abracei. Depois, falei que eles tinham sido aliados importantes na primeira hora e compreendia a necessidade pela sobrevivência. Lembrei que tinha falado que não haveria qualquer traço de ressentimento. Era verdade. Acrescentei que as portas estavam abertas para eles. Choramos juntos. Começaram a trabalhar naquele mesmo dia.</p>



<p>A agência seguiu em frente. Nunca fiquei rico. Não ganhei dinheiro como o Paulo nem me tornei milionário como os outros antigos sócios. Conquistei algo bem mais valioso. Intangível e imperecível: quando o abismo se apresentou à minha frente, eu aprendi a voar.</p>



<p>Imagem: Joingate &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>O tamanho de uma autoridade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Apr 2019 17:22:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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<p>Alguns anos atrás, acompanhei o Velho, como chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a uma universidade, onde o reitor costumava convidá-lo para ministrar palestras. Haveria um simpósio sobre transformações sociais. Em algumas metrópoles aconteciam agitadas manifestações populares. A universidade, como um centro gerador e catalisador do pensamento crítico, precisava entender a ótica e os motivos de todos os envolvidos. Foram convidados líderes sindicais e empresários; magistrados e parlamentares; policiais, estudantes e professores; artistas, psicólogos e filósofos. Enfim, todos aqueles que, ao menos em tese, poderiam colaborar para o melhor entendimento e avanço das relações sociais. A cada qual seria oferecido o mesmo tempo para expor as suas razões. Dentro das suas respectivas especialidades e experiências, iriam falar sobre quais mudanças deveriam acontecer para que a sociedade avançasse em sentido aos objetivos almejados. Naquele dia, o Velho alegou um ligeiro mal-estar e pediu que eu o substituísse. Falei que eu não tinha me preparado. Ele sorriu e sugeriu: “Siga o seu coração”. Girou nos calcanhares e foi se sentar no auditório.&nbsp;</p>



<span id="more-2887"></span>



<p>Apenas pedi ao reitor que me deixasse falar por último. Acomodado no palco junto aos demais palestrantes, procurei me atentar ao que todos falavam, enquanto pensava sobre como eu abordaria o assunto quando chegasse a minha vez. Percebi dos oradores, com alguma recorrência, a facilidade de indicarem erros administrativos, tanto do passado quanto do presente, sempre atribuindo a responsabilidade à terceiros. As soluções apontadas se mostravam genéricas e difusas, dependentes de circunstâncias econômicas ou políticas com resoluções complexas e de muitas variantes. Confesso que comecei a achar todas as palestras estéreis, vagas e carentes da consistência necessária para promover mudanças efetivas. Os discursos propunham soluções de pouca praticidade, sem a ousadia de arriscar novas ideias e, o mais grave, nenhum histórico que demonstrasse um sincero comprometimento pessoal. As propostas me pareceram inócuas por se mostrarem dependentes à aspectos e possibilidades além do indivíduo comum, como se esperassem pelo surgimento de um fenômeno coletivo e improvável. Havia algum tempo que o discurso da transferência de responsabilidade me cansava; assim como a insistência em tentar me obrigar a acompanhar um jeito de pensar que não era o meu. Também entediava a repetida retórica por soluções ortodoxas e supostamente infalíveis, nas quais deveríamos seguir alguns eleitos para sairmos da crise. Em determinado momento, um dos palestrantes, acompanhando a linha de raciocínio predominante, afirmou que havia um&nbsp;<em>vácuo de autoridade</em>no mundo; não se fabricavam mais líderes como outrora. Naquele instante entendi sobre qual assunto eu deveria falar.</p>



<p>Não por acaso, eu falaria em seguida. Iniciei a palestra na contramão dos demais. Apontei aleatoriamente para várias pessoas no auditório e afirmei com serenidade: “Nenhuma autoridade é maior do que você”.&nbsp;</p>



<p>As palavras geraram um enorme burburinho no auditório, mas também criou desconforto por se mostrar antagônica à posição dos demais palestrantes. Um deles pediu um aparte. O reitor alertou que todos tiveram a sua vez para falar e ninguém foi interrompido. Eu teria o mesmo direito. No entanto, autorizei a interferência com o seguinte comentário: “Qualquer tema somente se torna polêmico quando as paixões se sobrepõem à sensatez e ao equilíbrio. Não quero suprimir nenhuma opinião que se oponha a minha. Quando evito a verdade por sentir medo, me afasto do melhor que há em mim”.&nbsp;</p>



<p>Fiz um gesto permitindo que aquele palestrante se manifestasse. Era um homem que há tempos ocupava um importante cargo governamental. Ele questionou que, se cada um é a maior das autoridades, ninguém iria respeitar ninguém e a cidade ficaria entregue ao caos. Esforcei-me para esclarecer: “Este ponto é de extrema importância e precisa do devido aprofundamento”. Fiz algumas perguntas ao estilo socrático: “Por que razão, quando falamos de autoridade, nos referimos ao controle da vida de uma pessoa por outra? Por qual motivo, ao me deparar com uma autoridade, personificada em outro indivíduo, tenho a sensação de ter o poder da minha existência usurpada por alguém?”.&nbsp;</p>



<p>“Por que insistimos em soluções que estejam além de nós mesmos? Talvez este seja o fato de nunca as alcançarmos”.</p>



<p>Percebi que a plateia ficara inquieta. Ainda não sabiam exatamente ao que eu me referia. Esclareci, aos poucos: “Falo das crises”. Fiz uma pausa proposital e acrescentei: “De toda e qualquer crise. Das financeiras às emocionais, das políticas às existenciais. Todas as crises se alimentam da ausência de autoridade que cada um tem por si mesmo”.</p>



<p>“Por pura lógica, as crises chegam ao fim quando resgatamos essa autoridade”.</p>



<p>“As crises são consequências inevitáveis de escolhas que, por algum motivo, se mostraram equivocadas. Podem também demonstrar práticas que se mostraram válidas em determinado período de espaço-tempo, porém, esgotaram a utilidade que tiveram. Sempre haverá a necessidade por mudanças, esta é uma inexorável lei universal”.</p>



<p>“O que isso significa? Se consigo compreender que as dificuldades são ferramentas evolutivas por me levarem à superação do problema e me tornarem um indivíduo mais virtuoso, não me deixarei abater nem recorrerei a qualquer tipo de violência para me afastar da crise. Irei me reinventar”.</p>



<p>“Se faz indispensável conhecer e enfrentar as origens da crise em si próprio. Como cada um de nós a alimentou, seja por ação, seja por omissão. Também reconhecer que as crises são sementes de grandes transformações, não raro, impulsionam grandes passos evolutivos. Mas apenas quando envolvidas por amor e sabedoria, concomitantemente”.</p>



<p>“Quando superamos uma crise, nunca saímos igual ou do mesmo tamanho. Em verdade, ficamos diferentes e melhores do que éramos. Sempre”.</p>



<p>“Não importa a espécie, origem ou tamanho da crise. Se o atinge, provavelmente lhe parecerá grave. Nada mais natural que, assim como muitos, você se sinta desorientado sobre qual rumo seguir. Escute a todos e pondere; leia muito e reflita; medite, faça preces. Tudo isto tem extremo valor. Contudo, quando decidir, faça dentro da maior amplitude que a sua consciência alcançar, escolha por si, pelo seu coração. Você irá errar algumas vezes, acertará outras, mas estará alicerçado nos fundamentos da sua alma. Portanto, quando chegarem as consequências, e elas são inevitáveis, você estará em paz por ter exercido pleno poder sobre a própria vida e pela relação digna que manteve consigo. Assim fazem aqueles que são livres”.&nbsp;</p>



<p>“O mais crasso dos equívocos é delegar a alguém o destino da sua existência. Esta é a única ausência de liderança que pode haver. Quando isto acontece, de transferir o poder da sua vida para alguém, ainda que sinta algum alívio de início, esta sensação será rasa e de curta duração. Logo virá o sofrimento proveniente da dominação, da impotência e da falta de horizontes. Com isto, a tristeza o envolverá, manifestada em depressão; ou revolta, exteriorizada através da violência. Estes são os escravos modernos; eles são muitos e, pior, não se percebem neste papel”.&nbsp;</p>



<p>“Todas as vezes que fugimos de nós mesmos, e da responsabilidade que temos perante à própria evolução, a verdade nos alcança por intermédio das crises. Não para punir, mas para corrigir a rota e nos entregar as rédeas da vida. Pegue-as”.</p>



<p>“Todas as vezes que reconheço uma autoridade e concedo a ela a força de me fazer decidir de maneira contrária às minhas ideias, valores e virtudes, entrego o poder da minha vida a outra pessoa”.</p>



<p>Tornei a apontar para algumas pessoas e disparei: “Você é o único líder que você deve seguir”.&nbsp;</p>



<p>O auditório emudeceu. Prossegui: “Qual a dificuldade que temos de entender que o único e verdadeiro poder que cada um de nós tem é o de decidir sobre a própria vida?&nbsp;&nbsp;É um poder fantástico, transformador e seguidamente desperdiçado. Por que, mesmo após séculos de sofrimentos, mesmo com os posteriores esclarecimentos, teimamos no vício ancestral de pensar em autoridade como uma absurda ferramenta de subjugação de interesses e vontades?”. Olhei para o auditório e disse: “Ao resgatar a autoridade sobre si mesmo, você sentirá a vida pulsando de novo na palma da sua mão”.</p>



<p>O burburinho retornou; o desconforto era quase absoluto. Os meus olhos encontraram com os do Velho na plateia. Ele apenas balançou a cabeça em aprovação. Respirei fundo para concluir.</p>



<p>“Assim, para sair de uma crise, ao menos de maneira verdadeira e profunda, será necessário recuperar a autoridade sobre a própria vida. Todo o resto é manipulação e fuga”.&nbsp;</p>



<p>Tornei a dar uma pausa antes de finalizar: “Nenhuma transformação social será efetiva e eficiente se não for antecedida por uma revolução pessoal de valores e virtudes. A consciência precisa se expandir e o coração transbordar. Quando isto não acontece, a História se repete, não como farsa, mas como lição. Não se muda o mundo sem transformar o ser; não se soluciona nenhuma crise sem iluminar a si mesmo”.</p>



<p>Puxada pelo palestrante que me aparteou, uma estrondosa vaia rompeu pelo auditório. Eu ouvia também alguns gritos, todos de reprovação pela minha retórica.&nbsp;<em>Místico</em>e&nbsp;<em>alienado</em>, eram algumas das acusações proferidas. Não me surpreendi. As minhas palavras eram a antítese das crenças que muitos acreditavam imutáveis, dentro dos parâmetros fechados de fórmulas políticas repetidas, embora fracassadas, ao longo dos séculos. O novo causa repulsa até que se entenda que ele chegou, não para condenar o antigo à cegueira, mas para mostrar a possibilidade de diferentes olhares.&nbsp;</p>



<p>O Velho, ao contrário dos demais, parecia se divertir, pois sorria encantado. Vi que apenas uma mulher, de cabelos encaracolados e óculos de grau, com aro arredondado, embora de maneira tímida, me aplaudia. O reitor esperou que os ânimos acalmassem, agradeceu a participação calorosa de todos e prometeu que em breve haveria outro ciclo de palestras. Nas despedidas, alguns oradores me olharam com desdém, outros não esconderam a satisfação de a minha tese restar vaiada. Penso que se acreditavam, por isso, vitoriosos. O Velho percebeu a reação deles quando se aproximava e, ao me abraçar, cochichou no meu ouvido: “Nunca almeje a vitória dos tolos, somente eles não entendem que, em verdade, nada ganharam”.&nbsp;</p>



<p>Em seguida, quis saber como eu estava. Fui sincero: “Estou bem. Já não me abalo quando discordam de mim. Deixei de tentar convencer as pessoas quanto às minhas razões, não quero exercer nenhuma autoridade sobre quem quer que seja. Empenho-me para expor as minhas ideias de maneira clara e tranquila. Ter autoridade apenas sobre mim, basta. Ninguém precisa me acompanhar”. O Velho balançou a cabeça em concordância e comentou: “Assim, você se permitirá sempre a leveza necessária para não estancar diante das contrariedades da vida”.&nbsp;</p>



<p>Fomos interrompidos pelo reitor. Os dois tinham programado de conversarem a sós. Eram amigos havia muito tempo. Ficamos de nos encontrar à noite na estação para embarcarmos no trem de volta ao mosteiro. Sem nada para fazer, andei pelo campus até encontrar um lindo jardim. Sentei-me em um dos bancos e fiquei apreciando a movimentação dos estudantes. Fui surpreendido pela mulher de cabelos encaracolados e óculos arredondados. Sem pedir autorização, ela se sentou ao meu lado. Trazia dois copos de café e me entregou um, como se não tivesse dúvida que eu aceitaria. Aceitei, é claro. Brinquei ao dizer que era apenas pelo fato de ela ter sido a única pessoa a me aplaudir naquela tarde. Era uma mulher com uma beleza singular. Ela disse se chamar Meg e era professora de matemática naquela universidade. Em seguida explicou para eu não me alegrar com os aplausos, pois não tinha certeza se tinha gostado da minha palestra. Por isto estava ali. Bebi um gole de café e fiz um gesto com a mão para que ela ficasse à vontade para falar.</p>



<p>Meg disse que eu talvez estivesse distante da realidade. Não achava tão simples a ideia de possuir autoridade plena sobre si mesma. Assim como na matemática, a questão da autoridade era complexa e possuía diversas variáveis. Falou que, no entanto, as minhas palavras a tinham tocado pela conexão que pareciam ter com a sua vida. Contou que era de uma família tradicional, regida por sua avó, uma rica matriarca, centralizadora e muito rígida. Quando adolescente, engravidou e se viu forçada a casar. O rapaz era de uma família conhecida e com padrões semelhantes. Não demorou, o casamento se mostrou um pesadelo. Embora nunca tenha ocorrido agressões físicas, ele a tratava com desprezo e, até mesmo raiva, pois considerava que ela tinha&nbsp;<em>atrapalhado a sua vida</em>. O marido se formou e se tornou um conceituado executivo de uma poderosa multinacional. Ela teve de largar os estudos para cuidar da casa e do filho. Embora vivesse cercada de luxo, nunca tivera conforto emocional. Nos encontros familiares, a matriarca elogiava a todos os netos, todos diplomados em renomadas universidades, nenhum elogio era dirigido a ela. Desde que engravidara precocemente, nunca mais recebera uma palavra carinhosa por parte de qualquer dos familiares, apesar dos constantes esforços em se fazer agradável e prestativa.&nbsp;</p>



<p>Todos os dias pela manhã, sentia vontade de se divorciar e iniciar uma vida diferente; à tarde, desistia. Sabia, caso se separasse do marido, que nunca mais seria aceita pela própria família. Ali, nenhum casamento fora desfeito. Bastava ter de ouvir nas festas e reuniões que todos eram diplomados, menos ela. O marido, por sua vez, sabendo disso, abusava desse abandono emocional em que a Meg vivera desde a gravidez. Como não tinha estudado nem possuía experiência profissional, ela não vislumbrava nenhuma saída.&nbsp;</p>



<p>O tempo passou. Quando o seu filho se formou, foi trabalhar no exterior. No dia em que o levou ao aeroporto, na volta, tomou uma importante decisão. Iria prosseguir os estudos e se formar. Como o marido não sem importava com o que ela fazia, desde que a casa estivesse em ordem e as aparências preservadas, terminou o ensino médio e conseguiu uma vaga na universidade. Como gostava muito do raciocínio lógico e se sentia à vontade com os números, decidiu por cursar Matemática Aplicada. Estudou muito durante o curso e, quando se formou, foi convidada a trabalhar na faculdade como professora assistente.&nbsp;</p>



<p>No dia da colação de grau, convidou toda a família. O seu filho veio de longe para homenagear a mãe. O marido não pode ir, sob o pretexto de uma importante viagem profissional. Alguns poucos familiares estiveram presentes. A sua avó se sentou na primeira fila. O coração de Meg ficou aos pulos, pois tinha certeza que seria presenteada pela matriarca com um anel de formatura, como fizera com os outros netos. Para a Meg, o anel representava a sua tão sonhada aceitação familiar. Entretanto, uma surpresa. A avó, embora tenha lhe parabenizado, usou o absurdo argumento de que o anel somente era merecido para aqueles que seguiam&nbsp;<em>carreiras de respeito</em>, como médicos, engenheiros e advogados, uma tradição na família.&nbsp;</p>



<p>A mulher contou que aquele, que deveria ser um dia muito alegre, foi o mais triste da sua vida. Depois que se despediu do filho, sem nada lamentar, foi para a casa e chorou por toda a noite. Na manhã seguinte, ao levar o terno do marido à lavanderia, encontrou um bilhete no bolso. Acabara de descobrir mais um dos inúmeros casos de infidelidade praticados por ele.&nbsp;</p>



<p>Meg retirou os óculos para enxugar uma lágrima rebelde. Perguntei a ela quanto tempo tinha se passado desde que ocorrera aqueles fatos. Para o meu espanto, ela contou que transcorrera vários anos. Confessou que estava decidida a se separar e a enfrentar a rejeição da família. Não abria mão de voltar a sentir amor por si mesma. Ou, como eu havia exposto na palestra, regatar a autoridade sobre a própria vida.</p>



<p>Embora tivesse contratado um advogado para o divórcio, admitiu que ainda não tomara nenhuma atitude, pois havia uma enorme dificuldade para&nbsp;<em>romper com a vida que tinha</em>. Às vezes, pensava que, como&nbsp;<em>estava calejada para a dor</em>, deveria se conformar e seguir com a rotina de sempre, contornando uma situação aqui, outra ali. Noutras, ao se imaginar falando com o marido, a avó e os demais familiares, sobre os seus novos propósitos e escolhas, entrava em pânico, na certeza de ser massacrada por críticas e desprezo. Não queria mais aqueles dias de sofrimento e abandono, mas não conseguia dar o passo seguinte para fechar um ciclo existencial e iniciar outro.</p>



<p>Era uma decisão que tinha tomado para si. Contudo, não conseguia transformá-la em ação.</p>



<p>Eu dei de ombros e comentei: “Você entende a crise porque é capaz de identificar a origem da dor. Contudo, o medo da responsabilidade em romper com o estilo de vida com o qual se acomodou, a impede de aproveitar o melhor que há em si. No fundo, você não é vítima do abandono emocional imposto pela sua família, como pode parecer em uma análise superficial. Você é vítima do próprio medo. Do medo de ser inteira e autêntica, de mostrar ao mundo que cada indivíduo possui uma beleza única e peculiar. Todos têm este direito. Em verdade, você se rendeu ao seu medo. Assim, apenas você poderá se resgatar”. Bebi um gole de café e a lembrei: “É uma lógica matemática”.</p>



<p>Ela argumentou que a minha tese não era para pessoas comuns e fracas como ela. No mais, ponderou, não gostava de brigas e confusões. Esforcei-me para que o tom da minha voz fosse uma mistura entre a doçura e a firmeza: “Ser forte é uma escolha. Uma simples escolha. Ser forte não se confunde com brutalidade ou violência de qualquer natureza. A força de uma pessoa se estabelece através da dignidade com a qual decide tratar a si e aos outros. O poder de um indivíduo está na liberdade com que segue os seus princípios e valores, ainda que contrários ao desejo de muitos. A luz de uma pessoa está em envolver com amor todos os problemas. Apenas encontramos a paz quando vivemos no exato limite da nossa consciência, fazendo o que ela nos diz. A felicidade está em encontrar a beleza em todas as situações da vida”.</p>



<p>“Somente assim resgato a autoridade sobre a minha existência”.</p>



<p>Meg sustentou que aquele discurso não era simples e fácil como eu fazia parecer. Concordei somente em parte: “Você tem razão quando diz que não é fácil. Romper com o passado, tecer uma vida diferente, enfrentar situações desconhecidas, assumir a responsabilidade pelas consequências das novas escolhas, rasgar a cartilha de uma existência que ensinaram como única, exige muito esforço em um processo de entendimento e construção. Entretanto, é simples por depender apenas de você”.</p>



<p>“Para superar a crise na qual se encontra, você não precisa da autorização do seu marido, da chancela da sua avó nem da aprovação de ninguém. Basta firmar compromisso consigo mesma. É de uma simplicidade estonteante”.&nbsp;</p>



<p>Meg falou que talvez fosse o seu carma viver com aquela família. Lembrei a ela do outro lado da mesma questão: “Carma, segundo as tradições orientais, é aprendizado. Nada mais do que isto. O carma persiste enquanto as lições ainda não tiverem sido interiorizadas e aplicadas no dia a dia. Podemos viver ao lado de qualquer família, por mais complicado que seja, entretanto, determinar os limites entre a delicadeza e a justiça, a extensão das permissões concedidas e ter respeito por si mesmo, levam a extinguir o carma no aperfeiçoamento das relações”.</p>



<p>E se tudo desse errado e a vida dela ficasse ainda pior, me questionou. Tornei a dar de ombros e respondi com sinceridade: “Nada pior do que não ter a si mesmo. Este é o maior dos abandonos”.</p>



<p>Então, chegou o momento crucial. Ela me perguntou o que eu faria se estivesse no lugar dela. Fui lacônico: “Não sei”. Meg me olhou atônita, ela esperava pela exata resposta que não veio. Ela insistiu na pergunta, eu mantive o posicionamento: “Mais uma vez você quer entregar a autoridade da sua vida para outra pessoa. Obrigado pela confiança, mas recuso o convite. Converso sobre questões filosóficas, porém, me nego a administrar a vida alheia”.</p>



<p>Eu vi o terror nos olhos da Meg. O medo de enfrentar a verdade, de assumir o controle sobre a própria existência e das inevitáveis consequências. Este é o ponto onde muitos desistem. Ela queria que eu falasse. Senão, teria dificuldade em prosseguir. Mas eu não podia. Se eu fizesse, não iria ajudá-la; era hora de ela se lançar em voo sobre o abismo. Ela precisava aprender a se orientar pela própria consciência para descobrir e expandir as suas verdades. Caso contrário, nunca teria autoridade sobre si mesma.</p>



<p>Ela ainda esperou algum tempo na esperança que eu falasse. Mantive-me em silêncio. Eu fui até onde podia. Dali para frente era parte que cabia somente à Meg. Magoada, ela disse que eu era uma fraude e se mostrou arrependida por ter me procurado para conversar. Alegou que eu não tinha as respostas que ela tanto precisava e foi embora.&nbsp;</p>



<p>Era verdade, eu não as tinha. Nunca as terei. Deu vontade de dizer que ninguém tem as respostas sobre a vida de ninguém. Cada um encontrará apenas as respostas sobre a própria vida. Este é o tamanho de uma autêntica autoridade.</p>



<p>.Foto de Sergeii Kolensnky &#8211; Dreamstime.com</p>
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		<title>Você sabe o que fazer?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Apr 2019 16:10:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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					<description><![CDATA[“Eu não sei o que fazer”, disse a mulher. As duas amigas dividam um sofá em uma cafeteria. Eu tinha me sentado em uma poltrona próxima. Elas deveriam ter cerca de trinta anos e estavam vestidas formalmente. Percebia-se que tinham se permitido alguns minutos durante o horário de trabalho para...]]></description>
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<p>“Eu não sei o que fazer”, disse a mulher. As duas amigas dividam um sofá em uma cafeteria. Eu tinha me sentado em uma poltrona próxima. Elas deveriam ter cerca de trinta anos e estavam vestidas formalmente. Percebia-se que tinham se permitido alguns minutos durante o horário de trabalho para conversarem um pouco. Uma era loira; a outra, morena. Esta era quem relatava a sua angústia. Eu tinha ido de metrô do aeroporto direto para essa cafeteria, onde costumava encontrar a minha filha, que estudava no campus universitário em frente. Era um costume nosso encontrarmos naquele lugar, antes mesmo de eu ir ao hotel, quando viajava até a cidade que ela morava para visitá-la; um ritual simples, porém nosso. Os rituais, muitas vezes nem nos damos conta, são muito bons para criar identidades e costurar os laços de amor entre as pessoas. O estabelecimento tinha um bom movimento. Pedi uma xícara de café e, atrapalhado com a mala que levava, procurei um lugar para sentar, apenas encontrando bem perto dessas duas amigas. Foi inevitável ouvir a conversa, até porque a morena estava aflita, como quem está perdida diante de uma das muitas bifurcações impostas pela existência. Embora se percebesse que ela tentava se controlar, o seu tom de voz estava ligeiramente alterado em razão de algum descompasso emocional.</p>



<span id="more-2865"></span>



<p>Ainda faltavam uns vinte minutos para a minha filha chegar. Eu saboreava um maravilhoso café, quase cremoso, feito por uma jovem e bonita barista, repleta de tatuagens e piercings. A mulher morena seguia explicando à sua amiga os motivos da aflição que abalara a sua tranquilidade. Ela tinha descoberto um desvio de dinheiro praticado por um colega na empresa em que trabalhava. Era uma quantia considerável. Antes de relatar o caso à diretoria, havia procurado o colega para conversar. Achava uma atitude sensata, uma vez que trabalhavam no mesmo departamento havia algum tempo. Pelo o que eu pude entender, John era nome dele. Um homem da mesma idade dela, culto e sensível. Era muito bem quisto por todos na empresa. Tinha sido uma surpresa para ela; seria uma decepção para todos.</p>



<p>Marcaram de almoçar para conversarem com calma. Então, uma surpresa ainda maior. A mulher disse para o John que descobrira o desfalque e que, se ele próprio não o fizesse, ela iria comunicar os fatos aos diretores da empresa naquele mesmo dia. Ela estava lhe dando uma chance de se redimir. O colega a ouviu sem dizer palavra. Ao final, pediu ao garçom que cancelasse o pedido do almoço e que ela fizesse a gentileza de o acompanhar. A levou a um hospital especializado no combate ao câncer infantil. A sua sobrinha estava internada lá e o dinheiro desviado teve a finalidade de custear o tratamento. John lhe disse que nunca furtara nada e sabia que estava errado. Mas não foi forte o suficiente para resistir a tentação; ou, visto por outro ângulo, foi forte o suficiente para enfrentar a própria vergonha e tentar salvar a menina. Pediu a colega que nada contasse e prometeu que, se algum dia conseguisse ganhar uma soma de dinheiro equivalente, devolveria à empresa. Acrescentou que, se ela relatasse os fatos, seria demitido e, pior, dificilmente conseguiria um emprego equivalente. Confessou precisar muito daquele trabalho, não apenas pelo dinheiro, mas estava formado havia poucos anos e alimentava muitos sonhos profissionais, inevitavelmente abatidos, se constasse um desfalque financeiro em seu currículo.</p>



<p>A amiga ouvia com os olhos marejados. A morena prosseguiu: “De outro lado, eu sou uma das pessoas responsáveis pela contabilidade da firma. Existe uma relação de confiança entre mim e a direção. Um elo que não pode se quebrar. No mais, tenho um compromisso ético comigo mesmo. Relatar os fatos talvez demonstre insensibilidade da minha parte; encobrir os atos do John seria desonesto com a empresa. Além de eu estar conivente com a fraude e a mentira. Eu seria a sua cúmplice”.&nbsp;</p>



<p>A loira quis saber o que a amiga faria.&nbsp;&nbsp;A morena também tinha o rosto molhado, engoliu em seco e revelou: “Eu fiz”.&nbsp;&nbsp;Após uma pausa breve e disse: “Contei tudo à diretoria ontem”. Olhou profundamente para a amiga e prosseguiu: “Hoje cedo, acordei com a notícia do suicídio do John. Ele não suportou”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>E começou a chorar de soluçar.</p>



<p>A loira tentava consolar a amiga. Para piorar a situação, a morena contou que quando chegou na empresa, foi recebida com olhares de censura pela maior parte dos funcionários, que a culpavam pela morte do John. Ela se sentia deslocada e sem ambiente no trabalho. “Estou me sentindo a pior das criaturas”, confessou.</p>



<p>As duas mulheres eram somente um pouco mais velhas dos que as minhas filhas. Fiquei sensibilizado com a história. Esperei que os olhos da morena encontrassem os meus. Quando ela percebeu que eu a olhava, indagou: “Você ouviu?”, quis saber. Balancei a cabeça afirmativamente. “Está com pena de mim?”, tornou a perguntar. Eu lhe disse que não. “Por que me olha, então? Também está me censurando?”, se sentiu acuada. “De jeito nenhum”, respondi. Em seguida, contra-ataquei: “Você aceita um abraço? Quero oferecer o meu coração para atenuar a sua dor”, expliquei. Foi a vez da moça balançar a cabeça dizendo que sim.</p>



<p>Dei-lhe um forte e demorado abraço. A ponto de as suas lágrimas molharem a minha camisa. Sem jeito, ela pediu desculpas. Sorri para ela e disse: “Isso nunca será um problema”. Ela perguntou se eu me referia à camisa molhada. Eu esclareci: “Falo do problema que lhe aflige, aliás, serve para todos os problemas. Aprendi com um velho monge que o problema nunca será um problema, salvo se não soubermos como reagir diante da situação”.</p>



<p>A morena me perguntou se eu achava que ela tinha agido errado em denunciar o John. “Não”, respondi. Ela voltou a questionar: “Então você acha que agi corretamente”. Dei de ombros e murmurei: “Também não”.&nbsp;</p>



<p>Ela voltou a falar que as pessoas a culpavam pela morte do John. Quis saber se eu também pensava assim. Fui claro: “Com certeza, não”. A moça disse que não me entendia. Eu esclareci: “Foi uma situação na qual ninguém mais a viveu, apenas você. O dilema era seu; quem caminhava na tempestade era você. Logo, nem eu nem ninguém temos o direito de criar tribunais existenciais. Tampouco, você deve aceitar o papel de ré que tentam lhe impor. Entenda que não há a necessidade de julgamentos, seja por você, seja pelo mundo”.&nbsp;</p>



<p>Bebi um gole do café; tinha esfriado. Ofereci-me para pegar mais para todos nós. Elas aceitaram. A mesma barista, aquela jovem repleta de tatuagens e piercings, me entregou uma bandeja com três xícaras fumegantes. Quando fui pagar, ela me disse que não precisava. Disse que não sabia o motivo, mas de longe era solidária às lágrimas da morena. Agradeci e me sentei com as moças. Apresentamo-nos. A Loira se chamava Liz; a morena, Beth. Elas pediram para eu me explicar melhor. Aceitei o convite e afirmei sem nenhuma dúvida: “Você não matou o John. Você não o convenceu a pular do terraço, não o empurrou para os trilhos do metrô, nem o persuadiu a tomar uma overdose de calmantes. A decisão de se matar foi única e exclusiva dele. Assim como foi dele a escolha por desviar os fundos da empresa em uma atitude muito nobre, vale ressaltar, para custear o tratamento da sobrinha”. Beth me interrompeu e ponderou sob o argumento de que, se a atitude de John tinha sido nobre, a dela foi mesquinha.</p>



<p>Tornei a discordar e ampliei o raciocínio: “Podemos considerar a atitude de John nobre por alguns bons motivos. Acima de todos, John foi ético”. Foi a vez de Beth discordar. Ela sustentou que o gesto dele era nobre por estar revestido em generosidade e misericórdia. Ele colocou em risco a sua reputação e o futuro profissional na tentativa de salvar a sobrinha. No entanto, a fraude tinha sido um erro. Era um delito; logo, antiético”.</p>



<p>Expliquei a elas como eu pensava: “A ética pouco, ou mesmo nada, tem a ver com as leis. A ética habita um universo além dos crimes. Por isto a ética é perigosa no sentido de transformar e conceder poder à vida de uma pessoa”.</p>



<p>“A ética é um interesse antigo da humanidade. Os gregos clássicos a discutiram profundamente. Espinosa, um filósofo racionalista, lhe dedicou um livro. Os metafísicos também a tratam com cuidado e carinho em razão da sua importância, pois fala da reestruturação de valores e da aquisição de virtudes para uma melhor condição existencial. Algumas correntes religiosas sustentam que a ética é primordial à evolução espiritual”. Bebi um gole de café e acrescentei: “John foi ético. A generosidade e a misericórdia, as quais se referiu, faziam parte do código de ética pessoal do John”.</p>



<p>“A ética navega sobre um eixo consciencial: saber o que quero para mim e aquilo que não quero. Sendo que aquilo que quero para mim, faço também pelos outros; o que não quero, me recuso a praticar. Não importa o que digam as leis, os olhares de censura ou os discursos de aplausos; as ideias preconcebidas, os padrões sociais e as regras culturais”.&nbsp;</p>



<p>“A ética é a escolha atrelada ao nível de consciência e capacidade de amar. Portanto, ela muda de um indivíduo para outro e, até mesmo, em uma mesma pessoa, na medida das suas transformações ao longo da vida. Espinosa dizia que não devemos rir ou desprezar as atitudes alheias. Antes, devemos compreender os seus motivos.”&nbsp;</p>



<p>“O John tomou a atitude que achou correta; contudo, não teve maturidade suficiente para lidar com os inevitáveis efeitos. Cada escolha corresponde a uma responsabilidade”.&nbsp;</p>



<p>“No entanto, embora seja inegável a beleza da generosidade de John, faltou a ele a coragem necessária para enfrentar as consequências. As virtudes se complementam em equilíbrio como método eficiente de aprimorar as escolhas e fortalecer o ser”.&nbsp;</p>



<p>“Transferir responsabilidade é uma sombra; exigir que os outros nos acompanhem é outra sombra muito comum. Ambas oriundas do medo. Um código de ética aprimorado exige muita compaixão, humildade, firmeza e coragem, além de amor, é claro, por parte do seu portador. Quanto mais digno e livre ele for, menos aceitação terá por parte daqueles que ainda não entendem o seu alcance. Será preciso enfrentar esta falta de compreensão do mundo com maturidade. Esta é a raiz da paz. Toda a força que alguém precisa o aguarda dentro de si”.&nbsp;</p>



<p>Beth admitiu que duvidava da minha coerência. As atitudes, dela e do John, foram antagônicas. Se eu sustentava a ética do John, indiretamente afirmava que ela tinha sido antiética. Logo, os colegas tinham razão em culpá-la pela morte dele. Ela o tinha colocado em posição vexatória. Balancei a cabeça e expliquei: “Está havendo um erro de premissa que a leva a uma conclusão equivocada. Uma coisa nem sempre anula a outra em oposição. Temos que aprender a pensar sem maniqueísmos, na superada fórmula de dividir o mundo entre heróis e vilões. Isto, além de um erro, torna a vida muito chata, rasa e pesada.”&nbsp;</p>



<p>Bebi um gole de café, antes que esfriasse de novo, e esclareci: “Beth, você também foi ética. Embora se sensibilizasse com os belos motivos do John, achou que não podia arcar com o ônus moral de esconder o malfeito dele. Entendia que esta atitude a tornava cúmplice da fraude e se negou a compactuar com o delito. Havia o compromisso assumido quando aceitou o cargo; a sua honestidade também é uma virtude. Sem esquecer que foi concedida a ele a oportunidade de procurar os diretores para tentar resolver a questão, sem a necessidade de que você o denunciasse. Ele teria saído fortalecido se assim o fizesse, principalmente perante a si mesmo”.</p>



<p>“Mas John se recusou ao enfrentamento. Talvez em razão de não estar pronto para isto; fato que não pode ser atribuído a você. De outro lado, você agiu de acordo com os seus conceitos morais; decidiu em razão dos compromissos profissionais assumidos e a sua capacidade de arcar com as consequências dentro da empresa. Sim, caso tivesse acobertado o John e fossem descobertos por outro funcionário, também restaria responsabilizada pelo desfalque. Tanto você quanto o John agiram de acordo com os seus limites e valores. Ambos foram éticos”.&nbsp;</p>



<p>Beth levantou outra hipótese: “Caso eu entendesse diferente e decidisse proteger o John, mesmo sob o risco de restar equiparada a ele, eu continuaria sendo ética?”. Respondi de imediato: “Se a convicção necessária para a escolha estivesse harmonizada entre a mente e o coração, a resposta é sim”.</p>



<p>Ela olhou por alguns segundos para a rua através da vidraça da cafeteria, voltou a olhar para mim e concluiu: “Apenas John é responsável por sua morte. Ninguém mais”.</p>



<p>Eu a lembrei do mais importante: “John teve um problema porque não soube enfrentar os efeitos da sua escolha. Você também terá um problema se não entender como deve reagir as consequências da sua decisão”.&nbsp;</p>



<p>Veio a inevitável pergunta. Ela quis saber como deveria reagir aos olhares e comentários de censura dos colegas de trabalho. Eu não titubeei: “Com ética”.&nbsp;</p>



<p>Ela me olhou assustada como se eu fosse doido. Eu sorri. Em seguida a provoquei com o intuito de esclarecer o meu raciocínio: “Você sabe o que fazer com você mesma?”. Atônita, não respondeu. Eu expliquei de maneira que não restasse dúvida: “Esta é uma questão inconsciente na maioria das pessoas. Não sabem o que fazer delas. A ética me mostra, não apenas a pessoa que sou, mas me ensina a chegar naquela que quero ser. A ética é o exercício das virtudes aplicadas à vida. Ela me ensina muito sobre o amor”.</p>



<p>Beth confessou não ter certeza se conseguiria superar a condenação imposta por parte dos colegas. Eu expus o meu jeito de pensar: “Entenda que todo julgamento público é vil e covarde. Analisam sem conhecimento e critério. Julga-se alguém com facilidade quando se tem dificuldade para entender a si mesmo. Negue-se a participar desse triste espetáculo; você tem esse direito”.</p>



<p>“Jamais permita que a escuridão do mundo apague a sua luz”.&nbsp;</p>



<p>“Lembre que devemos saber o que queremos e o que não queremos para nós. A ética é este trilho; as virtudes são a locomotiva que impulsionam o vagão da vida”.&nbsp;</p>



<p>“Não esqueça que você agiu dentro dos seus parâmetros de consciência e amor. Neste momento, tomou uma decisão sincera na sua relação consigo e honesta com o mundo. O entendimento quanto à amplitude desses conceitos pode mudar? Claro! Assim como todos, você está em pleno processo evolutivo e, para isto, passará por inúmeras transformações. Devo me sentir culpada se amanhã eu pensar diferente do que penso agora? Não. Pois neste instante você oferece o seu melhor, está no limite da sua capacidade. Por ora, apenas isto importa. Todavia, tenha consigo o compromisso de sempre tentar fazer diferente e melhor em uma próxima oportunidade. Portanto, perdoe aqueles que não a conseguem entender”.</p>



<p>“Dentro de cada pessoa existe um guerreiro e um monge. O encontro deles cria o mestre. Por isto a necessidade das infinitas transformações até o perfeito equilíbrio entre quais das virtudes aplicar em cada caso, pois existe a hora do&nbsp;<em>sim</em>e o momento do&nbsp;<em>não</em>. Acredite sempre em você, pois no seu âmago estão guardadas todas as respostas das perguntas sem fim. Portanto, nunca deixe de confiar em si”.</p>



<p>“No mais, siga em frente. Lamentos, culpas e bate-bocas levam à estagnação; isto, sim, é um erro. A vida exige movimento. Sem avanço não há luz”.</p>



<p>Ficamos um tempo sem dizer palavra, apenas nos olhando. Beth deu um suspiro profundo e, em seguida, um lindo sorriso. Falou que aquela conversa tinha tirado um enorme peso das suas costas. De fato, as feições do seu rosto estavam mais leves. Eu pisquei um olho, como quem vai brincar, e insisti: “Você sabe o que fazer consigo?”. Ela tornou a sorrir e respondeu: “Algumas coisas eu sei, outras ainda não. Das que eu sei, uma jamais vou esquecer: nunca deixarei que a escuridão do mundo torne a apagar a minha luz”.</p>



<p>Liz, satisfeita com a ânimo renovado da amiga, lhe deu um beijo no rosto. Quando voltamos a beber o café, tinha esfriado de novo. Rimos. Neste momento, a minha filha entrou na cafeteria. Trocamos um abraço apertado. Tinha quase um ano que eu não a via. Apresentei ela à Liz e à Beth. Conversaram um pouco sobre amenidades, mas tínhamos que ir embora. Nos despedimos sem saber se algum dia voltaríamos a nos encontrar. Esta é a parte que cabe à magia da vida.</p>



<p>Quando estava saindo, a barista, aquela moça repleta de tatuagens e piercings, me entregou um copo descartável com café fresco e disse que era porque o da xícara tinha tornado a esfriar. Mais uma vez, não quis me cobrar. Alegou que já estava pago. A minha filha estranhou e perguntou quem era a moça. Eu expliquei: “É um anjo. Eles sempre andam disfarçados”.&nbsp;</p>



<p>Já na calçada, pela vidraça da cafeteria, avistei a Beth pela última vez. Ela olhava para mim. Ela movimentou lentamente os lábios para que eu entendesse as suas palavras. Era um resumo daquela conversa: “Perdoe, confie em si e siga em frente”.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>Obrigado!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Apr 2019 11:26:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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					<description><![CDATA[As águas do Estreito de Gibraltar costumam estar agitadas. Nesse dia, em especial, o céu estava escuro, anunciando que a tempestade não demoraria a chegar. O vento forte sacudia o barco que fazia a travessia de Tarifa, na Espanha, até Tânger, no Marrocos. Algumas pessoas enjoavam; outras, se mostravam amedrontadas...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As águas do Estreito de Gibraltar costumam estar agitadas. Nesse dia, em especial, o céu estava escuro, anunciando que a tempestade não demoraria a chegar. O vento forte sacudia o barco que fazia a travessia de Tarifa, na Espanha, até Tânger, no Marrocos. Algumas pessoas enjoavam; outras, se mostravam amedrontadas com o perigo. O barulho das ondas, que se chocavam com o casco do barco por todos os lados, era ensurdecedor. As únicas vozes que eu ouvia eram os gritos de um grupo de homens que jogavam dados. Falavam em um idioma desconhecido, talvez um dialeto africano. Além disso, em razão de suas expressões faciais, sempre taciturnas, me era impossível saber quem ganhava ou perdia a cada rodada. Um pouco afastado de todos, um homem me chamava atenção. Com cerca de cinquenta anos, a cabeça raspada e uma compleição robusta, se mantinha impassível desde antes de o barco zarpar. A pele era morena, com rugas típicas da idade e do excesso de sol; o bigode farto já estava prateado. Sentado no chão, encostado na parede, ele mantinha os olhos fechados e a respiração tranquila, como se nada a sua volta tivesse força para lhe furtar a tranquilidade. Contudo, algo mais me intrigava naquele indivíduo. Eu tinha a nítida sensação de que o conhecia, somente não lembrava de onde.&nbsp;</p>



<span id="more-2861"></span>



<p>O barco atracou em um porto de carga,&nbsp;<em>no meio do nada</em>, a cerca de meia hora da cidade de Tanger. O transporte terrestre, feito através de ônibus em precárias condições de uso, estava incluído no preço da passagem marítima. No entanto, eram poucos ônibus para tantos passageiros. Logo se formou uma enorme confusão para embarcar. Na medida que a lotação chegava ao limite, partiam. Não foi difícil perceber que não haveria lugar para todos. No último ônibus deram preferência para crianças e idosos. Como eu tinha imaginado, sobrei. Garantiram que os ônibus voltariam para buscar os passageiros que restaram. Além de uma grande área, na qual armazenavam dezenas de containers, um pouco mais afastado havia duas tavernas de péssimo aspecto. Mesmo assim, me pareceu melhor esperar lá o prosseguimento da viagem.</p>



<p>Por dentro, a melhor das tavernas era pior do que aparentava. Não apenas no aspecto físico, embora fosse suja e várias cadeiras estivessem quebradas, mas a energia predominante no lugar era densa e nociva. Senti um enorme mal-estar no instante que entrei. Em defesa, concentrei os meus pensamentos por situações de luz e proteção. Este será sempre o melhor escudo. Apesar de atento, me esforcei para me manter sereno. Busquei por um equilíbrio entre a firmeza e a delicadeza. Ao fundo do estabelecimento, algumas mulheres se insinuavam; próximo delas, homens sentados à mesa fingiam se distrair com um baralho. Claramente estavam com suas atenções voltadas aos visitantes compulsórios, como eu.</p>



<p>No canto oposto, junto a uma mesa, vi uma cadeira desocupada. À mesa, tinha sentado o homem robusto que eu desconfiava conhecer. Ele estava de costas quando me aproximei. Curvado, mexia em uma das suas duas bolsas. Perguntei se podia me sentar e dividir a mesa com ele. O homem se virou e eu pude ver em seus olhos toda calma da sua alma. Uma calma perturbadora por me parecer estranha àquele homem tão rude. Ele autorizou com um gesto de cabeça. Mais assustador foi quando ele tornou a se virar e se abaixou para continuar a afiar um punhal. Em seguida, guardou a pedra de amolar em uma das bolsas e acomodou o punhal no cós da calça. Eu sabia da tradição dos homens do deserto de usar uma peça de aço junto ao corpo para absorver as vibrações deletérias. Todavia, naquele lugar, as ameaças físicas me pareciam mais perigosas do que as armadilhas astrais.</p>



<p>Em seguida, falei da sensação que tinha de conhecê-lo. Contudo, admiti que isso já tinha me ocorrido outras vezes e, na maioria dos casos, não passara de impressões sem sentido. Foi quando ele me surpreendeu: “Estivemos juntos em uma travessia pelo deserto há alguns anos. Lembro-me que você seguia para se encontrar com o sábio dervixe que morava em um dos oásis”. Fez uma pequena pausa e revelou: “Eu fui um dos encarregados pela segurança da caravana. Não chegamos a conversar naqueles dias, mas dividimos algumas experiências. Eu me chamo Zayn”.&nbsp;</p>



<p>Sim, agora eu me recordava. Ele era um dos homens de confiança do caravaneiro. Entre várias passagens que ocorreram, lembrei de uma em que Zayn, na velocidade de um raio, sacou o punhal e o colocou na garganta de outro encarregado, pelo fato deste ter lhe provocado com um comentário jocoso. Zayn comentou: “Eu quase matei aquele homem. Teria sido uma enorme bobagem. Tudo por causa de uma mera ofensa; tudo por causa do orgulho e da vaidade. Agradeço a interferência do caravaneiro naquele episódio”. Na sua voz não havia orgulho nem vergonha, mas a serenidade daqueles que estão em paz com o passado. Tornou a fazer uma pausa e acrescentou: “Naquela noite surgiu uma bela mulher com os olhos azuis. Conversamos por um longo tempo. Ela me fez entender que a minha derrota não foi a ofensa recebida, mas aconteceu quando eu me perdi do melhor que havia em mim e deixei o ódio tomar conta da minha mente e coração. Quando isto acontece, perdemos o controle da própria vida e o entregamos aos lobos”.&nbsp;<em>Lobos</em>, estranhei a denominação. Ele me explicou: “É como alguns de nós, no deserto, nos referimos aos espíritos que instigam as nossas sombras com o intuito de nos manipular. Eles se alimentam dos nossos descontroles emocionais. Por ser de difícil percepção, se torna uma cruel forma de dominação. Muitos indivíduos se acreditam valentes, mas não passam de frágeis marionetes”.&nbsp;&nbsp;Sem desviar os seus olhos dos meus, confessou: “Eu já me permiti esse papel várias vezes. No entanto, naquela noite decidi nunca mais me perder de mim”.</p>



<p>Veio-me a doce recordação da bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli e do caravaneiro, leais guardiões da caravana pelo deserto. Tinham sido dias de extremo aprendizado e eficiente transformação. Pelo visto, não apenas para mim.</p>



<p>A conversa estava boa. Falei que buscaria uma cerveja no balcão; quis saber se poderia trazer um copo para ele. Ele agradeceu e aceitou. Quando retornei, comentei que apesar da aparência árabe que possuía, se notava que ele não era muçulmano, como a maioria dos encarregados da caravana. Eu falara por causa dos preceitos que desaconselham o consumo de álcool. O homem me esclareceu: “Naquela noite, a mulher de olhos azuis me deixou de presente um livro de poesias de Rumi, o poeta Sufi”. Perguntei se os sufis eram uma vertente do hinduísmo. Zayn explicou: “Os sufis seguem todas as religiões e nenhuma religião. Buscamos pela verdade da vida. Ela pode ser encontrada na Bíblia, na Torá, no Alcorão, no Tao ou nos Vedras. Pois a verdade é apenas uma e está em todos os lugares. Inclusive, nesta taverna. Basta saber olhar”.&nbsp;</p>



<p>Naquela taverna? Achei um pouco exagerado, mas não quis polemizar. Perguntei se ele era adepto do sufismo. Zayn me surpreendeu: “Eu tento, mas é muito difícil. Ainda não consigo”. Eu quis saber a razão, ele esclareceu: “O compromisso do Sufi é com a própria consciência, pois é o lugar onde germina a fé e encontramos com Deus. Contudo, embora a fé seja importante, de nada adianta se eu não me manifestar em amor a cada gesto, através de qualquer das suas virtudes. Somente assim conseguirei intensificar a luz que me clareia os passos”. Bebeu um gole demorado de cerveja e confessou: “Ocorre que ainda sou muito pobre em amor”.</p>



<p>Eu estava prestes a perguntar em como ele fazia quando precisava de doses de amor que não tinha. Afinal, não é toda hora que encontramos uma pessoa que se declara pobre em amor, ao mesmo tempo em que reconhece a importância do amor na vida. Eu já tinha visto pessoas reclamando que não tinham dinheiro, saúde, sossego e até mesmo de amor, porém se lamentavam do pouco amor dos outros em relação a elas. Admitir ter pouco amor dentro de si para compartilhar com o mundo, talvez tenha sido a primeira vez. Mais ainda, eram palavras que não vinham de um homem agoniado ou triste, mas de uma alma que parecia em paz consigo mesmo.</p>



<p>Iria lhe falar que talvez houvesse alguma incoerência em suas palavras, quando fomos interrompidos por um dos homens mal-encarados da taverna. Fiquei tenso; percebi que, embora tivesse o olhar atento, as feições de Zayn permaneceram tranquilas, sem qualquer alteração. O sujeito indagou se estávamos interessados em adquirir algumas joias. Sem tempo para a resposta, o homem abriu um estojo de veludo com vários anéis, pulseiras, cordões e relógios. Apesar de reluzir como ouro, nada daquilo me pareceu verdadeiro. Com uma postura agressiva, pegava os objetos e aproximava de maneira provocativa bem próximo ao nosso rosto, com claro intuito de nos amedrontar.</p>



<p>Percebi que Zayn não desviava o olhar dos olhos do homem. Era um olhar firme. Não como um desafio, mas como um ato de coragem. O desafio reflete o orgulho de se mostrar maior do que o outro; a coragem somente avisa que o medo ficou para trás e não haverá submissão. Como se dissesse,&nbsp;<em>nem melhor nem pior, apenas serei eu mesmo; estou aqui por inteiro</em>. Quem já viveu nas ruas ou enfrentou batalhas, sabe que é mais fácil enfrentar uma gangue alquebrada e insegura do que um único homem que esteja por inteiro. Inteiro em si, consciente da força inquebrantável da sua alma.</p>



<p>Naquele instante percebi o tamanho desse poder em Zayn. O homem que tentava nos vender as joias, também. Tanto que não se preocupou comigo. Por experiência, sabia que Zayn era oponente a ser vencido. Como ficamos irredutíveis, apesar da sua enorme insistência, o homem simulou que tinha desistido. Quando começou a recolher as bijuterias sobre a mesa, que ele dizia se tratarem de joias, gritou ter sumido um cordão de ouro cravejado de rubis, a peça mais valiosa que tinha.</p>



<p>O sujeito fez um escândalo como parte da arapuca. Declarou-se furtado por nós, pois todos na taverna tinham visto quando colocou as joias na mesa. Fiz menção em argumentar o absurdo da acusação, porém fui persuadido a me manter calado com um simples gesto feito com a mão por Zayn. De fato, mesmo a melhor palavra, naquele momento, não teria serventia. Entretanto, havia outro recado naquele gesto: Zayn podia não ter o controle da situação, mas permanecia senhor de si.</p>



<p>Insatisfeito com a postura impassível de Zayn, o sujeito aproximou o seu rosto ao dele, a ponto dos narizes quase se roçarem. Pensei que assistiria à repetição da cena em que o antigo encarregado da caravana, um homem robusto, ágil e acostumado a lutar, sacaria o punhal que usava no cós da calça e, se não o cravasse, ao menos encostaria no pescoço do impostor. Confesso que cheguei a pensar que seria um mal menor, uma defesa legítima, diante do abuso e da ameaça real imposta por aquele sujeito mal-intencionado. Entretanto, havia os comparsas dele. Talvez atacassem; talvez, recuassem diante da disposição letal que Zayn passaria a representar. Se ele repetisse o gesto feito no deserto, as consequências seriam imprevisíveis. Se demonstrasse medo, também.</p>



<p>Foram apenas alguns segundos. Porém, foi um tempo que demorou muito a passar. A covardia é perigosa; a coragem, quando desatrelada do amor, também. A covardia, quando transborda para a agressividade, causa tragédias. Todo malfeitor é covarde; quando se torna agressivo, significa que o medo foi tão grande que não coube dentro dele mesmo. O que mais assusta ao medo é se deparar com a coragem do outro lado.&nbsp;</p>



<p>Os ônibus que tinham levado o primeiro grupo de pessoas, retornaram e estacionaram em frente à taverna. Um carro de polícia os acompanhava por se tratar de uma região perigosa. As pessoas hesitaram em ir para o embarque ou assistir ao desfecho do conflito. O dono do bar gritou pelo nome do sujeito e o alertou que não queria confusão com a polícia. O homem se afastou, não sem antes nos ameaçar, caso nos encontrasse de novo. Zayn estava impassível, como se nada daquilo lhe tirasse dos eixos mental e emocional. Sem tirar os olhos do sujeito, trançou as suas bolsas a tiracolo, uma de cada lado. Antes de sair, disse ao malfeitor: “Obrigado!”.</p>



<p>Ao contrário do que se pode acreditar, nem de longe era uma provocação. Havia sinceridade e gentileza no agradecimento. Uma inegável e encantadora gratidão.</p>



<p>Sentamo-nos lado a lado no ônibus. Zayn ficou junto à janela. Aguardávamos a partida, quando outro homem, do lado de fora, se aproximou e falou, com a evidente intenção de somente ofender, que éramos ladrões. Que, se dependesse dele, teria nos revistado e nos dado uma surra. Zayn não replicou em palavra. Apenas entregou a este o mesmo olhar de compaixão e coragem que tinha oferecido àquele. O homem gritou para que todos ouvissem a acusação até que o ônibus começou a andar. Zayn, em tom igualmente encantador, murmurou para esse homem: “Obrigado!”.&nbsp;</p>



<p>Passado alguns minutos da viagem, ainda permanecíamos em silêncio. Zayn se distraia com a paisagem; eu pensava em como uma simples atitude, acompanhada por uma única palavra, tinha tido uma força maior do que um longo discurso.</p>



<p>Entretanto, apesar de entender a força nascida na dignidade de Zayn – dignidade por se manter leal aos seus valores e virtudes, mesmo diante do mal que, ora o tentava, ora o ameaçava –, eu quis saber a razão de Zayn ter agradecido àqueles homens que o maltrataram. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e comentou com clara autoestima: “Eu venci”. Em seguida, acrescentou: “Em outros tempos, eu não teria qualquer dúvida em puxar o punhal e lhe encostar no pescoço. Talvez lhe rasgar a carne, caso a situação se agravasse. Embora ele tenha sido agressivo e representasse uma ameaça, estava desarmado. Não permiti que o mal que estava nele me contagiasse. Assim como o outro que me xingou ainda pouco. Poderia devolver as ofensas ou mesmo descer do ônibus para lhe aplicar uma boa coça. Eu não teria qualquer dificuldade em fazer isso. Porém, não permiti que a escuridão deles apagassem a minha luz”.</p>



<p>“Eu não os derrotei. Eu venci a mim mesmo”.</p>



<p>“A vida os colocou à minha frente para me testar. Para saber se eu daria ouvido às minhas sombras e abriria as portas do templo para os lobos entrarem”, nesse momento apontou para o próprio coração para indicar a qual templo se referia, e continuou: “Ou me manteria firme aos princípios da luz, expandindo o poder do sagrado que habita em mim”.&nbsp;</p>



<p>“Sem aqueles homens não me seria possível intensificar essa luz. Pelo tanto que eles me permitiram, eu lhes devo o meu sincero&nbsp;<em>obrigado</em>”.</p>



<p>Falei que notava a honestidade das suas palavras. Percebia, também, o enorme amor que Zayn emanava. Eu disse que ele estava enganado ao se acreditar pobre em amor. O homem do deserto, calejado e robusto, me contestou com doçura: “Não, Yoskhaz. Seria ilusão me imaginar diferente do que sou. Isto apenas atrapalharia a minha caminhada”.&nbsp;</p>



<p>“O amor se manifesta em gestos que brotam com naturalidade no coração, um sentimento leve e espontâneo. Quando agimos por amor não precisamos raciocinar antes, pois estamos envolvidos por essa força arrebatadora. Hoje, ao contrário do que você acredita, eu não agi com esse sentimento, pois o amor não apareceu logo no início. Eu senti raiva, fiquei irritado. No entanto, já reconheço aquilo que não quero mais em mim. Foi preciso dominar o ódio; o meu ódio. Não fiz através do coração, pois me faltava amor. Se eu tivesse amor naquele instante, eu teria sentido compaixão por aquele sujeito. Atuei por intermédio da mente, forçando em minhas atitudes as ideias que devem enraizar em meu ser, em forma de virtudes, por me fazerem bem, por me iluminarem. Somente então, após agir de acordo com essa consciência, o amor apareceu. Acontece assim, um pouquinho mais a cada dia. O amor nasce na mente, como uma escolha, para depois virar semente e florescer no coração”.&nbsp;</p>



<p>O ônibus chegou ao destino. Despedimo-nos, desejando que voltássemos a nos encontrar em uma das muitas travessias que ainda faríamos pelo deserto. Flanei pelas ruelas antigas de Tânger até o anoitecer. Eu tinha muito no que pensar. Aquele dia tinha me oferecido valiosas lições através de um mestre que não se via como tal. Por isto, talvez, fosse um dos melhores.</p>
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		<title>As várias mortes antes da morte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Mar 2019 13:34:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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<p>Uma tragédia, assim defini os fatos quando recebi a notícia no mosteiro. A casa que eu morava passava por uma grande reforma em todos os seus cômodos. Enquanto as obras não terminavam, como haveria muita poeira e entulho, deixei todos os móveis e pertences pessoais em um depósito. Em seguida viajei para o mosteiro para mais um período de estudos até que que pudesse ocupar a casa novamente. No entanto, uma forte tempestade, típica dos finais de verão no Rio de Janeiro, provocou uma enorme enchente em vários bairros da cidade, inclusive onde se localizava o depósito, e arrastou tudo aquilo que estava guardado. Móveis feitos com jacarandá, que estavam com minha família havia décadas; pinturas e esculturas de artistas renomados; milhares de CDs, LPs e livros, alguns raros e de primeira edição; fotos antigas e documentos; medalhas, troféus e diplomas, conquistados durante a minha trajetória profissional; todas as minhas roupas, salvo as que eu trouxera em uma mala na viagem ao mosteiro; os vários utensílios domésticos necessários a uma casa. Bens adquiridos durante muitos anos restaram destruídos pelas águas, em apenas algumas horas de chuva. Como eu tinha gastado as minhas economias na reforma da casa, naquele momento me faltavam condições financeiras para repor os prejuízos. Sem falar nos objetos de valor afetivo que eram insubstituíveis, cujas perdas eram as mais sentidas.</p>



<span id="more-2852"></span>



<p>Eu tinha consciência que os prejuízos, fossem afetivos, fossem financeiros, eram todos de caráter material. Sim, mesmo as perdas afetivas, no fundo, se referem somente ao aspecto material. O afeto como sentimento, quando verdadeiro, nunca se perde com a destruição do objeto que, tem por finalidade, apenas lembrar os dias de amor vividos. Como é amor, tenho o poder de levar as lembranças dos melhores capítulos da minha história em um lugar onde ninguém me roubará nem será destruído: o coração.&nbsp;</p>



<p>Eu não teria mais o álbum de fotos das minhas filhas quando crianças, mas teria a doce memória de momentos inesquecíveis, de uma época em que elas não tinham mais do que três palmos de altura e andavam aos saltos, como se tivessem molas nos pés. A saudade me encanta pelo amor que a envolve.&nbsp;</p>



<p>Não seria mais possível colocar na vitrola o LP do Cartola, comprado na saudosa Modern Sound, lendária loja de discos em Copacabana, ou ter nas mãos a primeira edição de Canto Geral, de Pablo Neruda, adquirido em um antiquário de Madri. Mas poderia ter acesso a todas as canções e poesias desses mestres, apenas para ficar restrito em dois, diante de muitos que eu admirava, tanto da música quanto da literatura, através dos diversos aplicativos online. Ouviria no celular; leria em um tablet. Todavia, confesso que me doía pensar na estante da casa, que eu mandara fazer para acomodar esses livros e discos, ser preenchida com objetos de mera decoração. Seria estranho entrar em casa e não encontrar o sofá e as poltronas que me acompanhavam desde a infância. Eram móveis talhados a mão pelo meu avô, um hábil artesão português, que já estavam ali quando o meu pai era apenas um menino. Os objetos que adornavam o altar que eu tinha em um dos quartos, recolhidos durante os anos da minha peregrinação espiritual por vários cantos do planeta, também não mais existiam.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>É hora da vida se renovar. Absolutamente tudo na existência tem prazo de validade</em>, disse para mim mesmo.&nbsp;</p>



<p>Também trazia a consciência de que tudo aquilo que nos acontece é para o bem; embora muitas vezes tenhamos dificuldade, no momento da tragédia, para entender esse conceito e perceber a sua aplicabilidade. Para tanto, se faz indispensável não olhar pelas lentes que mostram o desastre, mas por aquelas que oferecem a exata lição.&nbsp;<em>Por que isso me aconteceu?&nbsp;</em>Não é a melhor pergunta. Olhar a vida pelo viés da vitimização nunca me terá serventia.<em>O que isso quer me ensinar?</em>É a indagação a ser feita, por me mostrar o mestre oculto no caos e me iniciar em mais uma jornada de transformação e superação. Encontrarei a resposta de acordo com a pergunta que eu fizer. Com ela, a possibilidade de uma nova ferramenta para a evolução essencial.</p>



<p>Mais ainda, se o aprendizado chegou de modo súbito e arrebatador, até mesmo violento, era necessário admitir que a mesma lição já tinha sido oferecida a mim de maneiras mais suaves; contudo, por desatenção, comodidade ou medo, eu não percebera ou me negara às mudanças indispensáveis aos avanços inerentes à vida. Não era hora de lamentar, mas de aprender e crescer.</p>



<p>Embora soubesse de tudo isso, mesmo assim não estava sendo fácil.&nbsp;<em>Por que é tão difícil?</em>Eu me perguntava.&nbsp;<em>A perda foi grande</em>, eu respondia na tentativa de explicar a minha dor. Sem exagero nenhum, eu tinha a nítida sensação que algo em mim tinha morrido. Literalmente. Confessei isso ao Velho, como chamávamos o monge mais antigo da Ordem, quando o encontrei. Sem dizer palavra, ele me deu um forte abraço e ofereceu um olhar sincero de solidariedade. Em seguida, disse: “A sua sensação de morte é autêntica e real. Você morreu, Yoskhaz”. Diante do meu espanto, ele foi desconcertante: “Morremos várias vezes durante a mesma existência. A morte física não é a única que enfrentamos; apenas a última”.</p>



<p>Desnecessário acrescentar que o monge não falava da infinitude da vida espiritual. Assim como não se referia as diversas existências dos muitos ciclos encarnatórios, com muitos nascimentos e mortes, indispensáveis ao processo evolutivo. O Velho, naquele momento, comentara sobre as diversas mortes pelas quais passamos em um mesmo ciclo existencial; iniciado ao sair do ventre de nossa mãe e finalizado com o falecimento do corpo físico. Enfim, após o nascimento, morremos muitas vezes antes do atestado de óbito proferido por um médico e do sepultamento realizado por um coveiro. Segundo ele, eu tinha acabado de morrer. Isto me deixara atônito.&nbsp;</p>



<p>O Velho alegou que o lugar adequado para prosseguir com aquela conversa era a cantina. “Todo raciocínio fica mais fluente quando acompanhado de uma caneca com café e um pedaço de bolo de aveia”, brincou. Enlaçou o seu braço ao meu e fomos até o refeitório do mosteiro. Devidamente acomodados, com duas xícaras fumegantes sobre a mesa, ele tornou a surpreender: “Morremos todos os dias, quando, à noite, nos entregamos ao sono. Renascemos na manhã seguinte. Se você estiver atento, perceberá que o dia de ontem não lhe pertence mais. Já está nos domínios da morte”.</p>



<p>“Contudo, o fim de um ciclo será sempre o início de outro. Irremediavelmente. O dia é apenas um pequeníssimo ciclo que compõe outros maiores. Estes, fazem parte de outros ainda mais extensos. Todos valiosos e significativos. Os ciclos, sem exceção, se justificam pelo aprendizado do seu conteúdo. Repetem-se por necessidade; se extinguem pelo mesmo motivo”.</p>



<p>“O dia, por ser um ciclo corriqueiro e bastante comum, não lhe aplicamos o devido valor. Isto irá prejudicar o fechamento de ciclos maiores. O contrário também se aplica e podemos otimizar os ciclos. Alguns ciclos, mormente os ligados à existência, são conduzidos pelo&nbsp;<em>fator tempo</em>e, por sua inexorabilidade, nos traz sofrimentos quando ainda não estarmos prontos para o seu fim.”&nbsp;</p>



<p>“Morremos ao deixar a infância, ao terminar o período estudantil para entrar no mercado de trabalho, ao sair da casa dos pais, nos divórcios, no falecimento inesperado de uma pessoa querida, nas separações em geral, na demissão de um emprego, a cada enfermidade que deixa uma sequela ou mesmo ao ter um desejo contrariado. Acredite, para um ego ainda primitivo, todas as frustrações e mágoas são recebidas, mesmo que inconscientemente, como uma espécie de morte.”&nbsp;</p>



<p>Parou por um instante e me perguntou se eu sabia o que era um réquiem. Respondi que é como se chama a prece que se faz aos mortos. Ele balançou a cabeça e falou: “Os lamentos e as reclamações são como o avesso de um réquiem para si mesmo”.</p>



<p>“Morte é todo encerramento de ciclo, seja de uma lição, seja de uma existência. Significa que a vida precisa se renovar em diferentes condições. Quando ainda estamos despreparados, nos causa medo. Quando nos apavoramos com o fechamento das cortinas, desperdiçamos a beleza de toda luz que há por detrás delas. Então desperdiçamos a magia da vida”.</p>



<p>Questionei ao Velho se todos os desastres são, em verdade, um ato brusco de regeneração da vida. O monge anuiu com um gesto de cabeça e disse: “Quando estamos dispostos a enfrentar o problema com amor e sabedoria, sim. Caso contrário, será só uma tragédia. Uma alma madura cresce diante do caos, pois percebe a destruição das formas obsoletas e energias estagnantes. Ela aproveita a oportunidade de instalar, através de si, um jeito diferente de ser e viver. Agradece pela chance de iluminar os cantos escuros que passou a enxergar. Ideias e atitudes revolucionárias serão sempre, por pura e simples necessidade, cada vez mais leves e sutis.”</p>



<p>Eu não disse palavra. Esvaziei a minha caneca de café e fiquei pensando naquela conversa. Tinha algo que me encabulava. Pouca coisa do que o monge falara era novidade para mim. Eu sabia quase tudo que ele tinha dito. Por que eu continuava a sofrer? Teria o conhecimento alguma utilidade para atenuar a dor ou seria apenas retóricas acadêmicas com nenhuma aplicabilidade à vida real? Confessei as minhas dúvidas ao Velho.</p>



<p>Ele franziu as sobrancelhas e disse: “Somos menos do que sabemos. O aprendizado somente tem serventia quando se afasta do discurso e se torna inerente ao olhar e as escolhas. Do contrário, o conhecimento não subirá os degraus da sabedoria.”</p>



<p>Depois, arqueou os lábios em leve sorriso e concluiu: “Esteja sereno com a sua morte para que possa fazer bom uso dela. Ou você morrerá a mesma morte outras vezes”.</p>



<p>Em seguida, pediu licença. Tinha uma palestra a proferir no mosteiro. Eu o vi se afastar com os seus passos lentos, porém firmes.</p>



<p>As últimas palavras do monge ficaram dias ressoando em minha mente. Eram ideias que habitavam os meus pensamentos, mas ainda não faziam parte de quem eu era. Era hora de metabolizá-las definitivamente em mim ou esquece-las. Qualquer das decisões me levaria as merecidas consequências.</p>



<p>Eu estava no mosteiro para mais um período de estudos. Havia aulas, debates e conferências, mas eu não conseguia me concentrar. Havia uma bifurcação à minha frente e nada me seria útil antes de uma escolha angular sob o ponto de vista existencial. Aplicar à vida todo o conhecimento adquirido, muito além da aparente inteligência e da polidez social, era um ato de extrema maturidade. Uma responsabilidade assumida perante a mim mesmo de não mais conviver com a fraude intelectual, emocional e espiritual. Fugir da verdade é o que a torna dolorosa quando ela nos alcança.</p>



<p>Solicitei dispensa das atividades da Ordem durante aquele período. Contudo, pedi autorização para permanecer no mosteiro em reflexão, oração e meditação. Assim foi feito. Com o passar dos dias, fui me sentindo mais forte na mesma régua que as consequências da chuva perdiam a importância. Aos poucos, tudo ficara claro e simples. Até que numa manhã acordei sorrindo com um raio de sol travesso, que driblou a cortina do quarto para me beijar o rosto.&nbsp;</p>



<p>Quando o Velho entrou na cantina, eu estava sentado à mesa com outros monges, como denominamos os integrantes da Ordem, em uma conversa animada. Ele sorriu satisfeito e fez um gesto de que queria falar comigo. Fiz menção em me levantar, mas ele voltou a gesticular para explicar que não havia pressa. Mais tarde, o encontrei em seu gabinete. O Velho disse: “A sua alegria revela as mudanças ocorridas em sua alma”. Falei que eu tinha dado um mergulho profundo em mim mesmo para encontrar, não apenas o que eu tinha esquecido, mas aquilo que eu sabia e nunca me pertencera por falta de uso. Fui, também, em busca de algumas coisas que eu desconhecia. Ele balançou a cabeça em aprovação.</p>



<p>Falei que estava indo embora; aquele ciclo de estudo no mosteiro terminara. Era hora de por em prática decisões importantes que eu tinha amadurecido nos últimos dias. Sem que o monge precisasse fazer pergunta, adiantei quais eram. A mais angular, seria vender a casa. Expliquei que me dera conta que não precisava mais de uma casa tão espaçosa, com tantos cômodos, para apenas eu morar. As minhas filhas estudavam no exterior e não pretendiam retornar quando encerrassem os cursos. Tinham as suas vidas e estavam felizes. Isto é o que importava. Com o dinheiro da venda, compraria um pequeno apartamento. Bastava para mim. Eu arrumaria mais tempo para visita-las; bom para quem adorava viajar como eu, brinquei. Guardaria algum dinheiro para qualquer eventualidade; elas sempre acontecem. Optaria por morar no mesmo bairro da agência de publicidade, assim poderia ir a pé para o trabalho. Logo, poderia também me desfazer do carro. Dei-me conta que precisar de pouca coisa para viver é o verdadeiro luxo e uma riqueza autêntica.&nbsp;</p>



<p>O Velho me olhava com curiosidade, como se pedisse para eu falar mais sobre as conclusões que eu havia chegado. Expliquei que eu não tinha perdido nada com a enchente. Tudo de valioso continuava comigo.&nbsp;</p>



<p>Acrescentei que tanto as pessoas quanto as coisas se vão para que possamos também partir; nunca é tarde para levantar a âncora. A vida exige movimento; para tanto, oferece mecanismos para que cada pessoa construa um caís e, em seguida, o próprio barco. A essência dos barcos está no mar. Eu agradecia à tempestade por ter me ensinado a navegar em suas águas.&nbsp;</p>



<p>O Velho me olhou profundamente e disse: “A chuva levou na enxurrada quase tudo o que você tinha. No entanto, lhe entregou tudo aquilo que você poderá ser”.</p>



<p>Dei um forte abraço no monge e prometi que retornaria no ano seguinte. Estava na hora de ir; eu pegaria uma carona com o caminhão da mercearia que traria mantimentos ao mosteiro. Ele me acompanhou até o portão. Quando chegamos, Lucas, um aprendiz de cozinheiro, que tinha ido receber os mantimentos, informou que o caminhão acabara de partir. Diante do impasse que se formou, não hesitei; abri a mala e peguei duas ou três coisas. Depois, as coloquei na mochila. Avisei que desceria a montanha a pé; poderia aproveitar melhor a beleza do lugar. Lucas prometeu guardar a mala para mim. Falei que não precisava; ele poderia doar as coisas para um dos asilos assistidos pela Ordem. O jovem cozinheiro, como todos no mosteiro, sabia dos prejuízos provocados pela enchente; portanto, insistiu. Falou que as roupas eram quase novas.&nbsp;<em>Ainda bem</em>, respondi com sinceridade e tomado por uma alegria arrebatadora. Lucas não desistiu. Lembrou-me que eu não tinha mais quase nada. Eu sacudi a cabeça e expliquei ao rapaz:&nbsp;<em>Eu tenho o que sou e levo comigo a canção da vida. Nada me faltará!</em></p>



<p>Aproximei-me do Velho e disse em um tom baixo de voz, como quem conta um segredo:&nbsp;<em>Que venham as próximas mortes</em>. Pisquei um olho e concluí:&nbsp;<em>Serão recebidas em festa!&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em></p>



<p>O Velho sorriu para mim. Despedi-me com um aceno e comecei a descer. Pude ouvir algumas palavras de preocupação ditas pelo jovem cozinheiro em relação a longa caminhada que me aguardava. O monge pediu para ele se tranquilizar, pois a minha bagagem estava leve. Antes que Lucas contrariasse o argumento, o Velho esclareceu: “Não falo da mochila, me refiro ao coração”.&nbsp;</p>



<p>Os meus pés pareciam nem tocar no chão.&nbsp;</p>
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		<title>O manto da invisibilidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Mar 2019 20:11:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS IV]]></category>
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					<description><![CDATA[No sábado, cheguei em Sedona, cidade situada nas montanhas do Arizona, onde morava o Canção Estrelada, no sábado. Era o dia da semana em que ele reunia várias famílias no jardim da sua casa para contar histórias ancestrais que guardavam a filosofia do seu povo. Isto acontecia havia alguns anos,...]]></description>
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<p>No sábado, cheguei em Sedona, cidade situada nas montanhas do Arizona, onde morava o Canção Estrelada, no sábado. Era o dia da semana em que ele reunia várias famílias no jardim da sua casa para contar histórias ancestrais que guardavam a filosofia do seu povo. Isto acontecia havia alguns anos, desde que foi impedido de dar aulas na escola local em razão de uma determinação judicial. O xamã não tinha um diploma; mas tinha sabedoria. Para que o conhecimento não se perdesse, abria os portões da sua casa a fim de compartilhar esse bem precioso; todos eram bem-vindos. Como tudo que traz valor ao coração, multiplicamos ao compartilhar. Tornou-se um cerimonial mágico muito concorrido. Até mesmo o diretor da escola o frequentava com a família. Sentado em sua cadeira de balanço, colocada debaixo do carvalho frondoso, no meio do gramado, o xamã esperava que as pessoas se acomodassem sobre as mantas estendidas pelo jardim para começar a narrar uma das inúmeras histórias que tinha ouvido de seus antepassados. Todos caprichavam nos lanches que levavam e os repartiam com todos; uma comum-união. Por isto era um cerimonial. As histórias tinham o poder de transformar o jeito de olhar e pensar daqueles que a ouviam. Por isto era mágico.</p>



<span id="more-2841"></span>



<p>Quando desci do carro, Canção Estrelada estava fazendo uma prece breve e sincera, pedindo aos guardiões das esferas invisíveis que protegessem a todos durante o pequeno, porém, significativo ritual sagrado, para manter a harmonia do ambiente e o equilíbrio das pessoas, não permitindo a influência de energias densas e intrusas no local. Também solicitou que os espíritos iluminados, ali presentes, o intuíssem com boas palavras, com objetivo de que todos pudessem sair dali melhor do que chegaram. Deixei a mochila na sala da casa e me acomodei na varanda. Antes que o xamã iniciasse a história daquele dia, um garoto, com cerca de oito anos de idade, levantou a mão. Canção Estrelada sorriu para ele e pediu que falasse. O menino perguntou porque aquele encontro era um&nbsp;<em>ritual sagrado</em>. O xamã explicou: “<em>Ritual</em>é toda cerimônia na qual exista um modo próprio para se alcançar um objetivo específico. Todos os sábados me sento debaixo dessa árvore para contar histórias para quem quiser ouvir. As pessoas se espalham pelo quintal. Compartilhamos não apenas as histórias e os lanches, mas também a alegria pelas experiências irmanadas”. Fez uma pequena pausa antes de prosseguir: “<em>Sagrado</em>é tudo aquilo que nos torna melhor. Penso que todos se sentem assim ao retornarem às suas casas”. O intrépido garoto voltou a levantar o braço. Todos riram. Autorizado a prosseguir, o menino mostrou um livro,&nbsp;<em>As aventuras de Tom Sawyer</em>, um clássico da literatura escrito pelo escritor Mark Twain. Quis saber se aquele livro era sagrado, pois se sentia uma pessoa melhor à medida que acompanhava a saga do jovem protagonista. Canção Estrelada tornou a sorrir com sinceridade, balançou a cabeça e disse: “Sem dúvida nenhuma. O sagrado habita nas coisas comuns. Isto ocorre para que seja de fácil acesso e esteja ao alcance de todas as pessoas”.</p>



<p>O xamã iniciou a narrativa: “Há muito tempo, numa época em que não existiam carros nem telefones, havia uma tribo próspera e pacífica, governada por um líder muito generoso e sábio. Ele tinha o respeito e o carinho de todos na aldeia pela maneira justa com a qual decidia as questões e encerrava os entreveros. Esse chefe tinha adquirido a capacidade de entregar a cada um a&nbsp;<em>medida exata</em>: o que pertencia a uma pessoa por merecimento, não permitia que lhe tomassem; de outro lado, não a entregava coisa nenhuma caso não merecesse. Isto gerava tranquilidade e bem-estar entre todos”.&nbsp;</p>



<p>“No entanto, ele sabia que os dias de continuar a andar sobre a terra estavam chegando ao fim. Aproximava-se rapidamente a hora de viajar ao encontro do Grande Mistério”. O irrequieto menino tornou a levantar o braço. Canção Estrelada sorriu e fez um gesto com a cabeça para que ele falasse. O garoto quis saber a razão de as pessoas boas morrerem. O xamã explicou: “Todos morremos porque precisamos renascer. Renovados e em melhores condições para prosseguirmos de onde paramos. Acredite, até os bons têm muito a aprender. Entender o processo permite perceber que a morte é um ato de amor do Grande Espírito para conosco”.</p>



<p>O menino agradeceu e disse ter compreendido. Canção Estrelada prosseguiu a narrativa: “O chefe entendia mais acertado que o seu substituto fosse escolhido enquanto ele ainda podia ajudar no processo para evitar conflitos e dissabores na tribo após a sua partida. Foi perguntado a todos quem gostaria de se tornar o próximo líder da aldeia. Três pessoas se candidataram. O mais bravo dos guerreiros foi o primeiro a se apresentar. Ele era um homem que trazia muitas conquistas e vitórias em sua história. Depois, veio um jovem agricultor que tinha perdido os filhos e a esposa, ainda muito cedo, sem que ninguém soubesse a causa dos óbitos. O terceiro era o ferreiro da tribo. Além de excelente artesão, era homem muito cordato. Tão pacato que as pessoas somente lembravam dele quando precisavam dos artefatos que confeccionava”.</p>



<p>“Logo a aldeia ficou bastante movimentada. As pessoas manifestavam as suas opiniões e grupos de apoio se formaram. Aqueles que entendiam que, entre os três, o guerreiro seria o melhor chefe, alegavam que ele era temido pelas tribos vizinhas, pois todos conheciam a sua coragem nos campos de batalha. Diziam também que ele estava acostumado a comandar. Com ele à frente, continuariam a ser um povo ordeiro. Sem dúvida, era o favorito da tribo”.&nbsp;</p>



<p>“Bem próximo, vinha o ferreiro na preferência da aldeia. Os seus apoiadores queriam como líder uma pessoa afeita à paz e não um contumaz da guerra. Sustentavam que a paz tem atributos valiosos sem os quais é impossível a felicidade; a guerra é inteiramente ocasional e, sempre que possível, dispensável. Graças ao ferreiro a tribo tinha à disposição importantes utensílios que auxiliavam no progresso e prosperidade da aldeia. Não precisavam de um chefe temido. Queriam alguém que fosse admirado”.&nbsp;</p>



<p>“Por fim, com pouquíssimas chances, e bem atrás, vinha o agricultor. Tinha o apoio de apenas alguns poucos anciões. Estes ponderavam que as desventuras do passado tinham lhe ensinado sobre a misericórdia e a compaixão. Todavia, as situações obscuras pelas quais passara, além da má sorte que parecia lhe fazer companhia, o tornara um pária, quase um maldito para o resto da tribo. Temiam que a sua&nbsp;<em>energia de sofrimento</em>fosse contagiosa. Ele não tinha a menor chance na disputa”.</p>



<p>“Com o passar dos dias, os debates se acirraram e algumas discussões aconteceram. Por entender ter chegado a hora de encerrar com o processo de escolha para que, por divergências de olhar, amigos não se tornassem inimigos. Estava também disposto a oferecer uma sábia lição a todos. O bom chefe chamou o feiticeiro em sua tenda. Quando o bruxo entrou havia três mantos expostos. Pediu para ele lançar sobre os mantos o feitiço da invisibilidade. Quem estivesse agasalhado por qualquer deles não seria visto por ninguém. Salvo por quem estivesse com o&nbsp;<em>Anel do Trono</em>, aquele usado pelo líder da tribo. Assim foi feito”.&nbsp;</p>



<p>“Em seguida, pediu ao feiticeiro que ofertasse um manto para cada candidato, dizendo a eles, em separado, sobre a magia do presente. Explicaria, também, que o poder se desmancharia se o segredo fosse revelado. Alertou ao bruxo que um não poderia saber sobre o manto do outro. E, mais importante, o feiticeiro teria que manter absoluto sigilo sobre a capacidade do&nbsp;<em>Anel do Trono</em>em revelar quem estava oculto por debaixo do manto”.</p>



<p>“De início, os três homens se mostraram surpresos com o presente, depois se sentiram envolvidos por desejos enraizados e nunca revelados. Na mesma noite, se ocultaram sob os seus mantos e saíram pela aldeia. Como um não via o outro também agasalhado pelo mesmo encanto, por pouco não se esbarraram em seus passeios invisíveis”.&nbsp;</p>



<p>“Na manhã seguinte a aldeia parecia virada ao avesso. Muitas pessoas reclamavam do sumiço de seus artefatos e utensílios. Os mais exaltados prometiam encontrar o ladrão e exigir uma punição exemplar. Outros, atribuíam o sumiço ao fato de a tribo restar amaldiçoada por causa da participação do agricultor na sucessão ao cargo mais importante da aldeia”.&nbsp;</p>



<p>“A jovem esposa do trovador comentou com o marido sobre um estranho pesadelo que tivera naquela noite. Sonhara que o irmão dele, o guerreiro, jurava para ela que logo se casariam. A moça chorou muito. Disse que amava o marido e não desejava se separar dele, tampouco enviuvar tão moça. O trovador disse para a mulher não se assustar. Ele estava bem de saúde. No mais, o seu irmão era um guerreiro honrado e lhe protegeria. Mais tarde, comentou o fato com alguns amigos. Logo surgiu a versão de que o pesadelo era o prenúncio da má sorte do agricultor, um homem sem família e sem amor. Deveriam tomar cuidado com ele”.</p>



<p>“Na contramão do assombro que se abatera sobre a tribo, a mãe de um bebe adoentado comemorava a cura do seu filho ocorrida naquela noite, como que por milagre. Um ancião, também enfraquecido, pois não sentia mais vontade de se alimentar, falava do mistério de ver as suas frutas prediletas na cabeceira da cama ao acordar. Sentiu vontade de comer pela primeira vez, depois de muito tempo. Disse se sentir bem melhor depois de se alimentar. Todos atribuíram os fatos à generosidade do Grande Espírito. Ainda mais, interpretaram como um aviso para que a aldeia se definisse entre o bem e o mal. O mal estava personificado na intenção do agricultor em se tornar o chefe da tribo. Isto, se acontecesse, seria como entregar a aldeia aos domínios das trevas e iniciar um ciclo de sofrimentos”.&nbsp;</p>



<p>“No final da tarde, um enorme grupo de aldeões exaltados foi à tenda do bom e sábio líder. Exigiam que a agricultor fosse alijado da disputa pela sucessão, assim como queriam o julgamento e a consequente condenação daquele homem a pena de banimento. Temiam a sua influência nociva”.</p>



<p>“O chefe, com serenidade e sem se permitir envolver nas paixões descontroladas da aldeia, os aconselhou a pensar sem medo. Explicou que o medo nunca será um bom mestre. Pediu para que todos retornassem as suas tendas e descansassem. No dia seguinte comunicaria a todos a sua decisão. Embora contrariados pelo afã de não verem os seus pedidos imediatamente satisfeitos, atenderam à ordem. Não sem cochichar entre eles que o chefe estava velho e fraco. Era mesmo chegado a hora de substitui-lo. Alguns diziam sentir falta da mão enérgica do guerreiro para arrumar a tribo; com ele haveria ordem. Outros, alegaram que entendiam o valor imprescindível de um homem trabalhador, pacato e habilidoso como o ferreiro, ao proporcionar melhores condições de vida à aldeia com os artefatos que produzia; com ele existiria prosperidade”.</p>



<p>“No meio da noite soou alto a trombeta feita com chifre de carneiro. Era um alarme. Todos se levantaram assustados e correram para fora de suas tendas, onde o chefe os aguardava ao lado do feiticeiro na praça central. Pais carregavam os seus filhos ainda bebes; filhos ajudavam aos seus pais já com idade avançada. Todos falavam ao mesmo tempo em busca de uma explicação para o que estava acontecendo. O chefe levantou a mão pedindo por silêncio. Entre muitas coisas boas que o sábio chefe deixaria como legado era ter ensinado a tribo a ouvir. Ouvir antes, falar depois. Fez-se um absoluto silêncio. Até mesmo os sons típicos da noite pareciam ter obedecido por perceberem a importância do momento”.</p>



<p>“O velho chefe começou a falar: ‘Ontem eu ouvi vossas razões e vontades. Hoje lhes entrego a minha decisão, não sem antes ter o respeito em detalhar as minhas motivações’. As pessoas se entreolharam, mas não pronunciaram palavra. Ele prosseguiu: ‘A tribo está toda reunida aqui, na praça central, certo?’ Os aldeões balançaram a cabeça em concordância, menos a esposa do trovador. Nervosa, disse que o seu marido tinha desaparecido”.</p>



<p>“O chefe, balançou a cabeça como se já soubesse e continuou: ‘Faltam quatro homens. O trovador, o guerreiro, o ferreiro e o agricultor. Alguém sabe onde eles estão?’. Atônitas, naquele instante as pessoas se deram conta das ausências. Ninguém sabia deles. O sábio chefe apontou para o portão da aldeia e disse: ‘O primeiro acaba de entrar’<em>.</em>No entanto, ninguém o viu”.&nbsp;</p>



<p>“O homem, protegido pela invisibilidade do manto, se manteve quieto ao chegar e encontrar a aldeia reunida. Pretendia entender o que estava acontecendo. O chefe ordenou com a voz serena, porém firme: ‘Dispa-se do manto!’. Intrigado por se acreditar oculto a todos, mas sem ousar desobedecer a ordem, ele retirou o manto para se revelar. Era o guerreiro”.</p>



<p>“Perguntado o que fora fazer à noite na floresta, alegou ter ido refletir sobre as graves questões que envolviam a aldeia. Disse que precisava pensar para entender a situação, assim como as decisões que tomaria. Parte da aldeia o aplaudiu satisfeita na certeza de que era o homem adequado ao comando da tribo”.</p>



<p>“Olhem agora, disse novamente o chefe apontando para o portão. Como o segredo restara revelado, não mais surtia efeito a magia da invisibilidade. Todos viram quando o ferreiro entrou na aldeia. Perguntado de onde vinha, o homem disse que fora na floresta à procura dos artefatos desparecidos. Comentou que talvez o ladrão tivesse escondido na mata o produto dos furtos. Outra parte da tribo aplaudiu na convicção de que a aldeia não seria guiada por melhores mãos do que a de uma pessoa que perde a noite de descanso preocupada com o bem-estar alheio”.</p>



<p>“O terceiro a chegar foi o agricultor. Nada lhe foi perguntado. Quando viram que trazia um saco com os utensílios furtados, lhe cercaram e prenderam. Era a prova insofismável do crime. Diante de muitos gritos de revolta e brados de justiça, a mulher do trovador reconheceu no corpo do agricultor a camisa do marido. Estava rasgada e ensanguentada. Além de amaldiçoado, era ladrão e assassino. O sonho que a moça tivera foi uma premonição, comentavam todos”.</p>



<p>“Amarrado, o agricultor foi levado diante do velho chefe sob os gritos histéricos de ‘justiça!’”.</p>



<p>“O sábio chefe tornou a levantar o braço. Desta vez os ânimos demoraram um pouco para se acalmar. Quando o silêncio tornou a reinar, ele falou: ‘Eu lhes prometi a uma decisão. Apenas esperei um pouco para ter todos os elementos necessários a melhor compreensão de vocês<em>’.&nbsp;</em>Fez uma pausa breve pausa para inquirir: ‘Existe da parte de vocês alguma dúvida na interpretação do ocorrido nas duas últimas noites?’. A enorme maioria se declarou ungida de convicção sobre os crimes. O bom chefe alertou: ‘Há por trás das evidências, alguns fatos e verdades que quase todos desconhecem’”.</p>



<p>“O sábio chefe falou: ‘Teremos bem mais do que um julgamento’. As pessoas se olharam sem entender. Ele prosseguiu: ‘Há dias, a meu pedido, o feiticeiro presenteou os três candidatos’. Em seguida, explicou como funcionava o encanto do manto da invisibilidade e do<em>Anel do Trono</em>.”</p>



<p>“O chefe prosseguiu: ‘Alguém se questionou a razão de o ladrão retornar à aldeia com as coisas que dali furtou? Ninguém se perguntou o motivo de um assassino usar a camisa suja da vítima ao invés de ficar com a sua roupa limpa?’”.</p>



<p>“Apontou para o agricultor o disparou: ‘Este homem foi condenado pela maioria de vocês. Não em virtude dos fatos, mas de meras circunstâncias. Não em virtude de um pensamento crítico e isento de emoções, interesses ou comodidade, mas na velocidade de ideias pré-concebidas. Aqueles que se arvoram como donos da razão e detentores da verdade, se acalmem e tenham a dignidade de ouvir a sua história”.</p>



<p>“O silêncio foi sepulcral, como se algo tivesse morrido. Naquele momento talvez tenha chegado ao fim a impaciência e a intolerância de muitos. Impaciência no pensar; intolerância em relação às diferenças que temos em relação às outras pessoas. Livre dos braços que o prendiam e da coação que o calava, o agricultor explicou que tinha ido na floresta em busca de algumas ervas medicinais para medicar os enfermos, quando viu o guerreiro aplicar uma surra no irmão e o levar para o fundo de uma caverna. Um lugar onde ninguém costumava ir e os gritos não eram ouvidos. O trovador morreria logo por causa dos ferimentos, do frio e por inanição. Escondido, esperou que o guerreiro fosse embora e auxiliou o jovem poeta. Aliviou as feridas com emplastos feitos com as ervas, trocou de camisa com ele para que se sentisse agasalhado e, como o trovador não tinha condições de andar, retornou a tribo em busca de ajuda. Na volta, porém, viu o ferreiro esconder os utensílios na mata. Isto explicava o desaparecimento da noite anterior. Recolheu os objetos do esconderijo e os trouxe de volta. Esta era a explicação que tinha; esta era a verdade, alegou. Pediu, no entanto, que alguém corresse à caverna para resgatar o trovador enquanto prosseguissem no julgamento. O velho chefe anuiu e ordenou que alguns homens partissem imediatamente em socorro”.</p>



<p>“Fez-se um enorme burburinho. A aldeia se dividiu. Atônitas, algumas pessoas acreditaram naquele depoimento. Outras, ainda céticas, questionavam se aquele discurso não passava de uma enorme mentira contada por um homem na tentativa de fugir da condenação”.&nbsp;</p>



<p>“Para encerrar qualquer discussão, o velho chefe da aldeia mostrou o&nbsp;<em>Anel do Trono</em>para lembrar que podia ver o aquilo que o manto da invisibilidade escondia. Em seguida, revelou a visita do guerreiro na tenda do irmão; falou também do furto perpetrado pelo ferreiro. Não satisfeito contou à tribo do auxílio que o agricultor prestou tanto ao bebê quanto ao ancião. Todos esses fatos tinham acontecido na noite anterior”.</p>



<p>“Em seguida, perguntou se o guerreiro e o ferreiro gostariam de explicar as motivações das suas ações. Esclareceu: “Retomar a verdade não isenta da responsabilidade. Porém, resgata a dignidade esquecida e aproxima da luz”.</p>



<p>“O guerreiro pediu para falar. Confessou que sempre foi apaixonado pela esposa do seu irmão mais jovem. Apesar de todas as façanhas e vitórias nas guerras que lutou, o fato de aquela mulher preferir a poesia das canções ao invés da proteção da espada tinha sido a sua maior derrota. Inconformado, jurou que um dia se casaria com ela. Para isto, a cunhada teria que enviuvar. Acreditou que a invisibilidade do manto lhe oferecia a tão desejada oportunidade”.</p>



<p>“Em seguida, o ferreiro contou que sempre teve um enorme ressentimento em relação à aldeia. Era um homem quieto e cordato, nunca arrumava brigas nem participava de discussões. No entanto, as pessoas apenas o procuravam quando tinham interesse pelos artefatos e utensílios que confeccionava. Fora isto, ninguém parecia preocupado com ele. Aproveitou a invisibilidade do manto para esconder o material que produzira, pois desejava que a tribo, na falta dos objetos, lhe atribuísse o valor que merecia”.</p>



<p>“Quando terminaram, o chefe concedeu a palavra ao agricultor. O homem revelou sentir um grande vazio dentro de si depois que a esposa e os filhos partiram ao encontro do Grande Espírito. Ele tinha dificuldade em se aproximar das pessoas em razão de enorme parte da tribo acreditar que fosse um indivíduo amaldiçoado. Até mesmo alguns anciões, que pensavam de maneira diferente dos demais aldeões, tinham dificuldade em se aproximar dele porque suas famílias impediam. Todos os dias, bem cedo, ele partia sozinho para as plantações de trigo e milho, apenas retornando ao entardecer, já muito cansado, para se entregar ao sono. Às vezes, entrava pela floresta para colher frutas e ervas, que as pessoas recusavam para não se&nbsp;<em>contagiar com a sua má sorte</em>. A sua colheita de milho e trigo apenas conseguia negociar com as aldeias vizinhas. Salvo no caso de escassez, quando sua própria tribo parecia esquecer o mau agouro relacionado a ele. Porém não se ressentia; ao contrário, ficava feliz por se sentir útil”.&nbsp;</p>



<p>“Naquela noite, como era possível entrar nas tendas, deu preferência àquelas em que havia pessoas doentes. Pegou um bebe que ardia em febre e aninhou em seus braços. Macerou algumas ervas curativas e misturou ao leite na mamadeira. Embalou o neném por longo tempo até que a temperatura arrefecesse e um sono tranquilo envolvesse a criança. Depois foi na tenda de um ancião que estava muito enfraquecido por causa da idade. Quase não sentia fome. O agricultor sabia qual era a fruta preferida dele. Era uma fruta difícil de conseguir. Como tinha ido na floresta no dia anterior, não por acaso, tinha trazido algumas. As colocou ao lado da cama do homem enquanto ele dormia e saiu sem alarde. O ancião, depois de recuperado do susto de ver a fruta predileta em sua cabeceira ao acordar, se alimentou com vontade e logo se sentiu melhor”.</p>



<p>“Um dos aldeões questionou como a tribo pôde se enganar tanto. O velho chefe explicou: ‘De um lado, cada pessoa vê somente aquilo que consegue ver; de outro, enxerga apenas aquilo que deseja enxergar’.”</p>



<p>“‘Quando uma pessoa fala, sempre há mais conteúdo sobre ela no silêncio que se calou do que nas palavras ditas. Existe mais de um indivíduo dentro de cada pessoa: há o que todos conhecem e existe aquele que ninguém nunca viu. Isto serve para você e para mim’”.</p>



<p>“Depois, ensinou: ‘Todos receberam o mesmo poder. Cada um o usou conforme a sua consciência. Um sujeito pacato não significa um homem em paz; um indivíduo corajoso não cria, necessariamente, um ambiente seguro. Acreditamos conhecer as pessoas através do trato social, do modo como se portam, das glórias que alcançam. Tudo isto tem valor, mas ainda é muito pouco. Também costumamos pensar que nos reconhecemos por essas mesmas lentes, que embaçam, reduzem e enganam o olhar para falsear a verdade’”.</p>



<p>“Contudo, antes de julgar os outros, cada um deve se imaginar sob um manto da invisibilidade, com o qual pudesse fazer qualquer coisa sem que ninguém soubesse. Uma análise sincera ensinará muito sobre si mesmo, além de mostrar a necessidade de sermos mais gentis, pacientes e delicados com os outros”.</p>



<p>Canção Estrelada se calou e as pessoas aninhadas em seu jardim se aquietaram. O xamã pediu para que todos se imaginassem sob o manto da invisibilidade. Um exercício valioso e extremamente difícil se praticado com sinceridade. O silêncio foi quebrado mais uma vez pelo mesmo garoto. Ele queria saber como a história terminava.&nbsp;</p>



<p>O xamã a concluiu: “Logo após o resgate do trovador, o velho chefe sentenciou o guerreiro e o ferreiro à pena de banimento. Eles teriam de ir embora da aldeia e nunca mais voltar. Perguntou se todos estavam de acordo. Não houve nenhuma voz dissonante, salvo do agricultor”.&nbsp;</p>



<p>“Ele pediu que o chefe revisse o veredito. Alegou já ter havido muito sofrimento. Não era hora de punir, era um bom momento para perdoar ou, ao menos, atenuar a penar. Falou que eles se mostraram arrependidos. Pediu também que levasse em consideração as coisas boas que esses homens tinham feito para a tribo no passado. No mais, lembrou que os dois não foram os únicos a cometerem equívocos naquele caso. Nesse momento os aldeões abaixaram os olhos”.&nbsp;</p>



<p>“Disse, também, que todos faziam parte da mesma aldeia e deveriam se ver como uma enorme família. Ressaltou que tudo aquilo que tinha acontecido trouxera muito aprendizado à tribo. Todos se tornariam melhores depois da lição. Afinal, a meta primordial da justiça era a educação”.&nbsp;</p>



<p>“O chefe olhou para o feiticeiro. O bom bruxo arqueou os lábios em leve sorriso. Apesar do sofrimento, o agricultor não tinha perdido a capacidade de amar e de acreditar na beleza da vida. A última prova tinha sido vencida”.</p>



<p>“O chefe converteu a pena de banimento por trabalhos prestados ao bem comum da aldeia pelo período de doze luas. Em seguida, emocionado, declarou saber quem estava pronto para assumir o comando da tribo depois que ele partisse. Apontou para o agricultor. Seriam liderados por um homem sábio, justo e de bom coração. Toda a aldeia aprovou e se sentiu satisfeita. Como rezava a tradição, naquela noite haveria uma grande festa para comemorar a escolha”.</p>



<p>“Naquela mesma noite, enquanto todos comiam, dançavam e cantavam o futuro da aldeia sob um céu salpicado de estrelas, o velho chefe avisou apenas ao feiticeiro. Sem que ninguém mais percebesse, pegou um cobertor e partiu sozinho para o alto de uma montanha próxima. Foi ao encontro do Grande Mistério. Ele estava em paz consigo”.&nbsp;</p>



<p>O silêncio tornou a imperar, dessa vez no jardim da casa de Canção Estrelada. As pessoas estavam emocionadas; algumas tinham lágrimas nos olhos. Em seguida, aplaudiram. O intrépido menino, pegou a manta na qual estava sentado, a colocou sobre a cabeça, como se estivesse invisível, foi até o xamã e lhe deu um beijo estalado na face. Palmas ainda mais emocionadas.</p>



<p>As pessoas conversaram, repartiram os lanches e, aos poucos, retornaram às suas casas. A sós com o Canção Estrelada, comentei que eu dera sorte, pois chegara no dia de conhecer uma das mais belas histórias que já ouvira. O xamã sorriu em agradecimento e tornou a lembrar: “Uma grande parte dos nosso equívocos e aproximação com a sombras pessoais ocorre por causa de nossas frustrações. Ficamos ressentidos quando não nos julgamos amados como gostaríamos; nos magoamos quando achamos que o mundo não reconhece o valor que acreditamos ter. Uma enorme bobagem. Nada disso tem qualquer importância para a conquista das plenitudes. Então, a vida nos concede um manto de invisibilidade disfarçado em uma situação qualquer para que possamos nos revelar. Não para os outros, mas para nós mesmos. Assim, entender quem somos. Se soubermos aproveitar, será o passo inicial para a transformação e a cura”.</p>



<p>Sim, parte de mim se revela quando&nbsp;<em>estou invisível</em>: todas as vezes quando faço algo que ninguém está me vendo. Falei que era um bom exercício se imaginar portador de um manto da invisibilidade. O xamã concordou, mas fez uma ressalva: “A prática do manto é excelente, porém ela se completa com o exercício do anel. A história de hoje não fala apenas do poder do manto, mas, também, do encanto do anel. Se esforce para ver nos outros aquilo que ninguém vê. Não falo somente sobre o mal; mas, principalmente, a respeito do bem”.&nbsp;</p>



<p>À tarde, esfriou. Canção Estrelada pegou um manto para se agasalhar. Mostrei o meu anel. Rimos. Ele se sentou à minha frente, acendeu o cachimbo com fornilho de pedra vermelha, baforou algumas vezes e finalizou: “Livre é o indivíduo que não precisa esconder as vontades nem se envergonhar das suas escolhas. Ele consegue manifestar a verdade em si. Isto é pura luz”.</p>



<p>Imagem: Cenk Enver &#8211; Dreamstime.com</p>
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