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	<title>MANUSCRITOS III &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS III &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>O perfeito espelho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jan 2018 17:37:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Mais de uma vez, durante os meus períodos anuais de estudos na Ordem, encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade, sentado em uma confortável poltrona na agradável varanda do mosteiro. Ele adorava aquele lugar, onde fazia as suas reflexões diárias diante do belo cenário...]]></description>
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<p>Mais de uma vez, durante os meus períodos anuais de estudos na Ordem, encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade, sentado em uma confortável poltrona na agradável varanda do mosteiro. Ele adorava aquele lugar, onde fazia as suas reflexões diárias diante do belo cenário proporcionado pelas montanhas. Sempre que eu queria conversar sabia que, quase sempre, o encontraria lá no final da tarde e, invariavelmente, seria recebido com um sorriso sincero. Naquele dia não foi diferente. Cheguei com duas canecas fumegantes de café, entreguei uma em suas mãos e me acomodei em uma poltrona ao lado. Em seguida puxei assunto com o monge. Falei que o foco dos estudos da Ordem era o autoconhecimento como estrada que leva ao sagrado, uma vez que não encontraremos Deus em nenhum lugar, salvo dentro de nós mesmos. Citei as famosas frases “Conheça a ti mesmo e conhecerás a verdade” e “Conheça a verdade e vos libertará”, de Sócrates e Jesus, respectivamente, como eixo filosófico condutor da busca. Acrescentei que as virtudes eram as ferramentas que me permitiriam avançar à medida que as sedimentasse em mim, possibilitando a libertação do sofrimento, essa cruel prisão sem grades. O monge ouvia a tudo com paciência e apenas balançava a cabeça em concordância. No entanto, em relação ao entendimento de quem eu era de verdade, falei que por vezes eu tinha um olhar por demais rigoroso, enquanto noutras era generoso em excesso. A dificuldade de me enxergar com clareza complicava o meu processo de aperfeiçoamento. Confessei que estava com a sensação de que não conseguia avançar há algum tempo. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e me orientou com a sua usual simplicidade: “ Preste atenção a como você reage todas as vezes em que é contrariado; quando o mundo lhe diz ‘não’. Nas ações costumamos ouvir antes o coração e, assim, reverberar em luz. É comum oferecermos o nosso melhor. Entretanto, nas reações quem costuma falar são as nossas sombras. É quando refletimos a face ainda obscura do ser. As reações nos mostram os cantos que ainda não foram iluminados”. Fez uma pausa para concluir: “As reações são o perfeito espelho do ser, pois nos mostram o que ainda não queremos ou não conseguimos ver.”<span id="more-2091"></span></p>
<p>Argumentei que é comum reagirmos mal quando surpreendidos com atitudes mesquinhas e retrógradas que não deveriam mais ter lugar no planeta. O monge deu de ombros e disse: “Nada mais mesquinho e retrógrado do que não respeitar as escolhas alheias. Cada qual ao passo de suas lições, no compasso do nível de consciência e capacidade de amar que já possui”. Sustentei que não devemos ser tolerantes com o mal. Ele concordou: “O mal deve ser estancado com firmeza”. Porém fez uma ressalva: “Entretanto, a maneira de fazer isso faz toda a diferença”. Bebeu um gole de café e prosseguiu: “Não raro vejo as pessoas apontando nos outros exatamente aquelas dificuldades que ainda não conseguiram superar, como uma maneira absurda de se sentir melhor ou adiar a inevitável batalha interna.”</p>
<p>“Exigimos dos outros um padrão de comportamento que, na verdade, não praticamos. Clamamos por justiça quando em verdade estamos sedentos por vingança, pois não vejo a preocupação na educação do indivíduo, mas apenas em fazê-lo sentir uma dor igual ou ainda maior do que aquela sofrida. Preferimos segregar ao invés de educar. Então temos o mal pelo mal, como maneira absurda de agigantar as sombras coletivas ao invés de estancar a escuridão”. Deu de ombros como quem diz o óbvio e falou: “Por princípio, para iluminar é necessário&#8230; Luz.”</p>
<p>Falei que o problema das reações surge quando somos pegos de surpresa. Então, reagimos no impulso, sem tempo para pensar. O Velho tornou a concordar: “Exato. O ‘automático’ é o cerne da questão. Ele fala de nossos instintos mais primitivos, dos preconceitos, dos condicionamentos culturais que nos moldam, dos papéis sociais que nos limitam, dos desejos de possuir, das necessidades ancestrais por dominação, dos anseios por aceitação e por aprovação. São vícios que de tão entranhados nem percebemos o quanto interferem em nossas escolhas, impedindo tudo aquilo que podemos ser. Sempre é possível ir além do que já conhecemos.”</p>
<p>“O ‘automático’, movido pela força do inconsciente coletivo, varre a nossa consciência para debaixo do tapete da existência. Então, restamos anulados.”</p>
<p>Bebeu mais um gole de café e continuou: “Não é só. Nas reações é quando mais comumente se manifestam as sombras do medo, do ciúme, do orgulho, da vaidade, da inveja. Todas são consequências da ignorância. Ignorância de não saber quem eu sou; ignorância que me aprisiona no cárcere da dor.” Olhou-me nos olhos e disse: “Para conhecer alguém, negue-lhe um desejo. A capacidade de reagir no expoente das virtudes já florescidas é a exata régua de evolução do ser.”</p>
<p>“Em um primeiro momento, preste atenção a cada reação surgida diante da adversidade. Depois, desligue o botão do ‘automático’. Tente entender como você pode reagir diferente e melhor toda a vez que o mundo lhe disser ‘não’. Assim avançamos.”</p>
<p>Fiquei um tempo sem dizer nada para concatenar as possibilidades de aperfeiçoamento que as reações ofereciam. Quebrei o silêncio para falar que a reação poderia se tornar um problema sério, a depender da sua dimensão e despropósito, origem de mágoas e contrarreações ainda mais violentas. No entanto, ela poderia virar um bom mestre a me indicar as mudanças que eu deveria trabalhar nos âmbitos do coração, da mente e das escolhas. O Velho concordou, mas fez uma preciosa ressalva: “Tenha cuidado para não sufocar ou negar as sombras que movem as reações. Nunca as trate como inimigas, mas sempre como aliadas”. Interrompi para dizer que aquilo não fazia sentido; afinal, as sombras eram boas ou ruins? Ele explicou com paciência: “Depende de como você se relacionar com elas. Se as reprimir, viram recalque; se as negar, acabam por te dominar por se moverem soltas dentro de ti. Cuide delas e as eduque. As sombras fazem parte de você. Caso queira ser inteiro será preciso aprender a evoluir com elas em infinitas transmutações. Elas mostram as feridas que sangram e doem, onde a cura se faz necessária. Use as sombras como um cão farejador de si mesmo, nunca como um animal de ataque.”</p>
<p>“Esteja atento às situações que te deixam agressivo ou triste. Ali é local onde está enterrado o tesouro; ali é ponto a ser transformado, o impulso da evolução. Muitas vezes, na busca para se aproximar do ‘modelo perfeito’ nos preocupamos mais com a imagem externa do que com o aperfeiçoamento interno. Sem a transformação vital da essência a aparência não irá se sustentar. Como uma construção sem alicerces, cedo ou tarde aquele personagem restará desmoronado em atitudes infantis, depressivas ou violentas. São os recalques e as negações sobre si mesmo.”</p>
<p>Pedi para ele explicar melhor. O Velho foi didático: “De tanto negar a própria essência, de tanto recusar a ouvir o coração, de tanto fechar os olhos para a verdade que pulsa, o indivíduo chega a acreditar que encontrará a plenitude através de um personagem encaixado em padrões moldados ao agrado social ao invés de se transformar naquela pessoa que nasceu para ser.”</p>
<p>“A todo momento, por puro amor, a vida nos coloca diante do espelho, mas teimamos em fechar os olhos. A reação de desconforto explica o personagem. Quando uma situação rasga a fantasia, surge a dor do ser desnudo. Mas é preciso revelar a personalidade autêntica esquecida dentro do personagem de ficção. Você pode escolher em continuar na fuga de si mesmo. Outra opção é decidir pelo renascimento. Isto define a perpetuação do sofrimento ou a cura.” Bebeu mais um gole de café antes de concluir: “As reações servem como diagnóstico.”</p>
<p>Comentei que já tinha visto reações pavorosas. Confessei que agi assim muitas vezes, bastava que resgatasse os muitos fatos existentes em minha memória com sinceridade. Admiti que era deplorável agir dessa maneira. O monge ponderou: “Depende da maneira de como encarar a situação. A reação dolorosa, revelada através da tristeza, mágoa ou da agressividade, nada mais é do que um grito da alma por um entendimento diferente. É a sinalização de uma alma que anseia por libertação, que precisa ser ela mesma. Nem melhor nem maior que as demais, mas única e inteira para que possa ser bela. Trata-se de uma alma que não consegue mais ficar sem voar, por mais confortável que seja a gaiola. A essência da alma são as asas.”</p>
<p>“Afaste-se sempre da culpa para não restar estagnado. A culpa e a estagnação nutrem a tristeza e a agressividade. Tenha a responsabilidade de reparar os eventuais equívocos. O mais importante, empenhe os seus esforços para fazer diferente e melhor da próxima vez. Tenha este compromisso consigo. Assim nos conectamos com a Lei da Infinitas Oportunidades e alavancamos a evolução.”</p>
<p>Esvaziou a xícara de café e finalizou: “Aquele que busca o ouro da vida no mundo restará perdido e fragmentado. Pleno é aquele que o encontra no próprio coração. Então, ilumina o mundo.”</p>
<p>Tornei a ficar em silêncio. Aproveitei o bonito cenário proporcionado pelas montanhas para refletir sobre todas aquelas palavras proferidas pelo Velho. Tudo me pareceu claro, sensato e nem tão difícil assim de praticar. Tive certeza de que não teria dificuldade. Sim, eu estava pronto. Falei isso para o Velho que apenas me olhou e nada disse. Não demorou muito se aproximou outro monge, Mateus, para dizer que tinha resolvido estender por mais uma semana a sua estada no mosteiro. Isto impediria de eu ir de carona com ele até a cidade onde se localiza o aeroporto mais próximo. Como eu retornaria para casa dali a três dias, fiquei profundamente irritado. Pois tinha devolvido a passagem de trem que me levaria ao aeroporto por causa da carona. Argumentei que eu teria dificuldade em conseguir um novo lugar no vagão, pois estávamos em período de alta temporada na região. Insisti que ele não poderia agir daquela maneira. Usei palavras duras com o claro intuito de fazê-lo sentir a minha frustração. Mateus disse que lamentava, mas que para ele era importante ficar mais alguns dias. Acrescentou que contava com a minha compreensão, girou nos calcanhares e saiu. Inconformado, me virei para o Velho em busca de apoio à minha indignação. Para minha surpresa, ele olhava para as montanhas e sorria. Tinha o sorriso de um menino travesso que assistia ao amigo tropeçar nos próprios pés.</p>
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		<title>O quebra-cabeça</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jan 2018 19:47:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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<p>Esperei que Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, fechasse as portas da oficina. Embora ainda fossem meio-dia, o seu expediente de trabalho, que se iniciou de madrugada, já se encerrara naquele dia. Os horários inusitados de funcionamento da oficina eram lendários na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que abriga o mosteiro. Seguimos pelas ruas estreitas e sinuosas, com calçamento de pedras, na direção de um restaurante que adorávamos, para almoçar e trocar uma conversa vadia, como dois bons amigos que se alegram pelo simples encontro. Ao cruzarmos a praça onde se localiza o restaurante, vimos uma das sobrinhas do sapateiro sentada em um banco com a face banhada em lágrimas. Abordada, a moça disse que estava muito triste; ela acreditava que o seu casamento tivesse perto do fim, pois a convivência estava muito difícil. Confessou que não desejava isso. Embora morando na mesma casa, estavam mais distantes um do outro a cada dia. Loureiro a chamou para almoçar conosco e conversar um pouco. Disse que falar, nessas horas, pode ajudar, já que ao ouvir as razões que sustentam os lamentos, os sentimentos acabam por se tornar mais claros. Convite aceito, logo nos acomodamos em uma mesa confortável, longe do burburinho da rua. Assim que nossas taças foram cheias com um bom tinto da região, a jovem iniciou uma fileira de queixas em relação ao marido. Desde a sua desatenção em relação à vida afetiva do casal até o pouco empenho que tinha na empresa onde trabalhava. Ouvimos tudo com atenção e paciência, sem interromper a moça. Ao final, tive uma rápida troca de olhares com Loureiro. Foi suficiente para, em razão da nossa antiga amizade, eu saber o que ele pensava. O sapateiro olhou para a sobrinha e sugeriu: “Acho que você esqueceu de falar algo.” A jovem disse que não sabia sobre o que o tio se referia. Ele foi claro: “Esqueceu de nos contar sobre as qualidades do seu marido. Senão o casamento não teria durado tanto tempo nem você estaria sofrendo pela possibilidade do término da relação.” Ela ficou um pouco sem jeito, mas admitiu muitas das virtudes do marido. Falou sobre as mais relevantes e que mais admirava. Embora continuasse triste e preocupada, o seu ânimo deu uma leve melhorada. Em seguida, Loureiro comentou: “Todas as pessoas devem buscar a maturidade no decorrer da existência.” A jovem falou que, de fato, achava o marido, às vezes, muito infantil. O sapateiro corrigiu: “Não falo dele, até porque não seria educado em sua ausência. Refiro-me a você.” Ela rebateu de pronto dizendo que não era uma criança. O sapateiro balançou a cabeça para dizer que concordava e explicou melhor: “Ser maduro não acontece pelo mero fato de viramos adultos, de atingirmos a maioridade cronológica. Atinge-se a maturidade com a maioridade espiritual. Para isto não há idade definida. A maturidade se expressa através do ser inteiro. Aquele que está na busca incessante pela própria essência, quem conhece e aceita todas as suas características, boas e ruins, sem se esquivar da eterna batalha do aperfeiçoamento pessoal. Não deseja mais viver um personagem, mas formar a própria personalidade. Que segue em busca de si mesmo e de toda luz que nele existe. Apenas este encontro poderá proporcionar a harmonia e o equilíbrio necessários a todas as relações; seja consigo mesmo, seja para com o mundo.”<span id="more-2068"></span></p>
<p>“Há outros ganhos. Somente ao se sentir inteira uma pessoa poderá desenvolver todas as suas potencialidades. Poderá conhecer e usufruir cada uma das nobres virtudes. O ponto de partida reside em suas próprias dificuldades. Reconhecê-las, de imediato, nos torna mais generosos com o mundo. Lá, no entendimento das dificuldades, estão as sementes da humildade e da compaixão, virtudes básicas para o importante encontro consigo mesmo, para o florescimento das demais virtudes e o entendimento da vida. Enfim, é preciso se conhecer para ser capaz de apreciar o mundo. Sem se conhecer é impossível entender os outros e se encantar com a beleza que cada um traz consigo. Sem conhecimento sobre si mesmo os benefícios contidos nas relações se perdem pelos ralos da existência.”</p>
<p>“O indivíduo que não se conhece resta fragmentado, como um quebra-cabeça desmontado. Tem a sensação de que nada se encaixa, de que faltam ou sobram peças. Então, as partes, quando isoladas e perdidas, anseiam pela unidade, apenas possível pela compreensão do todo. Você é o todo; o todo está em você, a espera de ser montado. Apenas na montagem das partes poderemos refletir a totalidade de quem somos. O encantamento da vida é juntar cada um dos pedaços do ser na perfeita obra de arte que nos espera quando da junção de todas as nossas partes.”</p>
<p>“A pessoa fragmentada, que vive no automatismo de um dos muitos papéis sociais, sem entender quem realmente é, sem uma personalidade já construída, tende a enxergar no outro os defeitos que, consciente ou inconscientemente, sabe existir nela mesma, mas que não quer enfrentar. Embora não admita, isto a incomoda de maneira profunda. Então, reclama do outro como maneira de esconder as próprias dificuldades. Acaba por não apreciar tudo que existe de bom em razão da necessidade de ressaltar o que há de ruim. A fuga de si mesmo se torna muito dolorosa, pois cria o vício de se manter através dos defeitos alheios, assim como na literatura os vampiros anseiam por sangue para sobreviverem”</p>
<p>A sobrinha disse que o tio exagerava. Argumentou que, no caso dela, tinha sido muito difícil de conviver com pessoas egoístas, como o marido, que pensava apenas nele mesmo. Intrometi-me na conversa. Falei que devíamos nos concentrar em aperfeiçoar as próprias atitudes ao invés de insistir na procura pelos defeitos alheios. A jovem insistiu que era muito complicada a relação com o marido. Lembrei-lhe que ela sempre poderia conversar com ele, expor as suas ideias de maneira clara e serena. Todavia, não tinha o direito de exigir mudanças no comportamento dele. Isto, os tolos fazem. Ela poderia ficar ou partir, porém a única pessoa na qual ela poderia efetuar transformações era nela mesma, não no outro. Ela deveria prestar mais atenção em suas ideias, sentimentos e escolhas.</p>
<p>A jovem considerou uma contradição o que eu acabara de falar. Sustentou que nada mais egoísta do que uma pessoa que gira em torno de si. Expliquei que havia uma diferença fundamental entre girar em torno de si mesmo e se movimentar a partir do próprio eixo. Claro que alguém se considerar o umbigo do universo é um caso clássico de egoísmo. Ser inteiro é diferente, é mover-se a partir da própria essência, fonte de toda a luz, em ondas concêntricas, propagando o bem até os confins do universo. Para tanto, é indispensável acender essa luz que aguarda o ser em sua profundeza. A imaturidade é justamente o contrário. Ao esperar que o universo se mova a fim de se adequar aos seus menores desejos, de lhe entregar em domicílio as suas maiores vontades, de fazê-lo feliz por milagre, a pessoa se afasta de si mesmo e de todo poder que tem. É melhor desistir de esperar, pois não vai acontecer. Trata-se de uma relação ainda infantil com a vida. Assim, exigimos dos outros tudo aquilo que nos cabe buscar. Por pesado, os relacionamentos se tornam insustentáveis. Como acreditamos, por vício de pensamento, que a culpa pela nossa insatisfação está sempre fora da gente, além dos domínios do ser, nos declaramos decepcionados com os outros. Em realidade, um sofrimento inútil, fruto da ignorância sobre quem se é e da fuga em lidar consigo mesmo.</p>
<p>Loureiro voltou a conversa ao seu jeito desconcertante: “Somente as pessoas imaturas ficam decepcionadas.”</p>
<p>Diante do espanto da sobrinha, o sapateiro ampliou o raciocínio: “O outro é o outro, do jeito dele, com suas dores e delícias, no limite da sua consciência e na fronteira do seu coração. Você pode e deve impor limites; nunca mudanças. Cuide de transformar a si mesmo como alavanca evolutiva. Ajude sempre que alguém pedir; mas nunca se torne um credor. Isto é dominação; antítese da liberdade e do amor. Em verdade, enquanto ainda indivíduos partidos, nos decepcionamos quando alguém faz escolhas que nos desagradam. Ou seja, no fundo, responsabilizamos os outros pela nossa infelicidade. A felicidade, ao lado do amor, da liberdade, da paz e da dignidade, forma os cinco estados de cura denominados plenitude. Ora, a responsabilidade pela conquista da plenitude é sua, é minha, é de cada um de nós, pelo simples fato de não a encontrá-la em nenhum outro lugar, salvo dentro do próprio ser. Depender de alguém para amar, ser livre, digno, feliz ou viver em paz revela uma pessoa fragmentada, um indivíduo imaturo, que ainda não sabe quem é.”</p>
<p>“Portanto, faça o caminho de volta a partir da dor que incomoda: busque a sua essência, os sentimentos e as sombras que a nutrem; conheça a si mesmo, amadureça no exercício das virtudes, elas são os instrumentos da vida. Assuma a responsabilidade pela conquista da plenitude e por tudo que acontece na sua vida. Seja inteiro. Não tenha dúvida, dentro de ti há tudo o que você precisa. Aprenda, se transforme, compartilhe o seu melhor e siga adiante. Encante-se com a maturidade, com ela vêm o escudo e as asas!”</p>
<p>Resolvi colorir um pouco mais o assunto e disse que para atingir a maturidade e, por consequência, os cinco estados que compõem a plenitude, temos à disposição as maravilhosas ferramentas das virtudes. Não devemos fazer de ninguém alvo de nossas insatisfações. Isto atrasa a jornada. Quando as críticas, assim como os elogios, recaírem sobre você, tenha a consciência que nem sempre aquelas são justas ou estes são sinceros. Isto afasta a maldade, a bajulação interesseira, a falsidade, a mentira, a vitimização, o orgulho, a vaidade, além de outras sombras. Para tanto é necessário ter humildade para entender as próprias dificuldades, pois sempre é possível fazer diferente e melhor; compaixão para compreender as dificuldades alheias e descartar os desajustes escondidos nas ofensas que nos lançam; sinceridade no relacionamento consigo; honestidade no trato com os outros. Misericórdia para perdoar sempre, doçura para abraçar o mundo com carinho; firmeza com os seus propósitos; além de amor, é claro, sem o qual não se chega a lugar nenhum. Independente de qual seja a opinião das ruas sobre a sua pessoa, o ser inteiro se movimenta através da verdade contida na sua essência; não depende da autorização de ninguém para amar, ser livre, feliz, digno e viver em paz.”</p>
<p>Tornei a me meter na conversa. Falei que uma pessoa madura é aquela que vive os seus sonhos e exerce os seus dons, sejam quais forem. Em contrapartida respeita os sonhos e os dons alheios. Cada qual é único e nisto reside a beleza de todos; afinal, não há duas histórias iguais. Sabendo disto, a pessoa madura se despe do personagem que os condicionamentos sociais impõem para ser ela mesma, viver a vida do seu jeito, escrever a própria história, trilhar um caminho que ninguém pode percorrer por ela. O ser inteiro trata com sacralidade as suas escolhas. Ele sabe que as escolhas são as ferramentas que transformam a vida, é a única maneira de manifestar a sua verdade. Isto o aproxima do sagrado. Somente através das escolhas conseguimos evoluir. Permitir que outros interfiram em nossas escolhas é a maior falta de respeito que podemos ter para conosco. Da mesma forma, a recíproca se aplica em relação às escolhas alheias. É uma questão de puro respeito para o indivíduo maduro. Quando abdicamos de nossas escolhas perdemos a personalidade, aquilo que nos identifica como singulares no universo. Perdemos o encanto da vida. De outro lado, interferir nas escolhas dos outros é exercício de dominação e falta de respeito pela liberdade e dignidade alheia. Sinais de imaturidade por não entender a responsabilidade e o poder que cada um tem sobre o próprio voo.</p>
<p>Loureiro concluiu as minhas palavras: “Somente consigo ver a beleza do outro quando a encontro dentro de mim.”</p>
<p>A refeição foi servida. Enquanto nos deliciávamos com a gostosa comida do restaurante, conversamos sobre outros assuntos. A jovem estava distante e quase não tocou no prato, tampouco falou. Antes de terminarmos, a moça perguntou se achávamos que todos os defeitos que ela apontava em relação ao marido eram, em verdade, uma fuga dela mesma, da responsabilidade que tinha sobre a própria felicidade e o aperfeiçoamento que lhe cabia. Ninguém respondeu. Depois de alguns segundos de um silêncio constrangedor, caímos os três na gargalhada. Em seguida, a jovem confessou que era casada com um bom homem, piscou o olho e disse com jeito maroto que embora pudesse ser melhor, ele era uma pessoa com muitas qualidades. Pediu licença para sair, alegou que tinha um importante compromisso. Eu quis saber se ela iria encontrar com o marido. A moça deu um sorriso alegre e sincero antes de dizer que estaria com o marido apenas à noite, que naquele momento começaria um trabalho, o maior da sua vida: catar as peças soltas para montar o quebra-cabeça de si mesmo. Falou que estava entusiasmada com o desafio e encantada com as infinitas possibilidades que surgiriam. Sentia-se fortalecida por trazer para si o poder sobre a própria vida. Loureiro sorriu e finalizou: “Essa é a maior magia.” A jovem deu um beijo na bochecha do tio, se despediu de mim e foi embora. Pela janela do restaurante a vimos andar pela praça. Aos saltos, parecia que tinha molas nos pés.</p>
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		<title>Siga o seu coração</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Dec 2017 19:02:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>“Siga o seu coração”, me aconselhou Canção Estrelada quando me despedi. Eu tinha ido às montanhas do Arizona para participar de alguns cerimoniais nativos em um período que, por coincidência, era de mudança de ciclo em minha vida. A agência de propaganda na qual eu era sócio tinha sofrido uma forte cisão com a saída de alguns sócios e precisava encontrar novos rumos. Ao mesmo tempo se encerrava o romance de alguns anos com a minha namorada que cheguei a imaginar não ter fim. Naquele momento eu precisava me reinventar. “Siga o seu coração”, levei aquelas palavras comigo, que me enchiam de força, e tomei uma série de decisões, tanto pessoais quanto profissionais, que se mostraram equivocadas. Alguns meses depois, no turbilhão de desencontros que a minha vida tinha se tornado, aproveitei que teria o tradicional ritual do equinócio de verão e voltei ao Arizona. Encontrei Canção Estrelada sentado na cadeira de balanço da agradável varanda de sua casa. Ele me recebeu com alegria. Depois de devidamente acomodado, não demorou muito, confessei ao xamã que seguir o coração tinha se tornado desastroso, haja visto o que tinha acontecido comigo. Pior, eu tinha a nítida sensação de as coisas iriam se agravar ainda mais. Ele me olhou como a uma criança chorosa, acendeu o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e, depois de algumas baforadas, disse: “Tem dois aspectos no seu discurso que você parece não entender. O primeiro é que, algumas vezes, estamos tão arraigados às velhas formas de viver que é preciso demolir tudo, até não sobrar pedra sobre pedra, para que seja possível reconstruir uma nova realidade baseada em um diferente entendimento sobre o ser. Não se constrói uma boa casa sustentada por paredes podres.” Tornou a baforar o cachimbo e concluiu: “Outro aspecto, e não menos importante, é quanto a seguir o seu coração. Será sempre um valioso conselho. No entanto, nem sempre possível de realizar, pois para seguir o coração é preciso aprender a ouvi-lo.”<span id="more-2054"></span></p>
<p>Discordei. Eu achava que dizer para uma pessoa seguir o próprio coração em um momento que ela está desorientada, sem saber para que lado seguir, diante de bifurcações que a vida apresenta, me parecia covardia ou maldade. Era justamente a hora de pegá-la pela mão e a conduzir pela escuridão da estrada. O xamã franziu as sobrancelhas e disse com seriedade: “Imaginar que sabemos o que é melhor para os outros é um exercício típico dos tolos, sejam aqueles que conduzem, sejam aqueles que se deixam conduzir. Cada qual é o mestre de si mesmo e toda a sabedoria está adormecida no coração.” Falei que me espantava ele insistir nessa teoria, que mais me parecia um discurso fácil daqueles que, na verdade, não querem ajudar aos outros. Canção Estrelada se virou para mim, em seus olhos percebi sincera e doce compaixão, e disse: “Sempre ouvimos as nossas vozes. Não há nada de complicado nisto. Difícil é saber identificar de onde cada uma delas vem. Não é apenas o coração que nos fala. As sombras também nos falam, através de medos, desejos e mágoas das mais diversas espécies, como o ciúme, a inveja, a vaidade, o orgulho, a usura, entre várias outras, que nos levam a contruir raciocínios tortuosos de autojustificação do ego quando em desalinho com a alma. Existem outras vozes com as quais dialogamos, como os condicionamentos culturais, que nos levam a decidir no afã da aprovação e dos aplausos sociais; preconceitos, quaisquer que sejam, que de tão arraigados nem nos damos conta que existem; memórias que gostaríamos de esquecer, mas que ainda sangram como feridas abertas. Enfim, para seguir o coração é preciso identificar a sua voz no meio de uma multidão que grita dentro do ser.”</p>
<p>“O coração é a fagulha do sagrado que nos habita. Somente lá encontraremos o Grande Mistério para conversar e conhecer a Sua face. É preciso que essa centelha se acenda em lanterna para iluminar o ser e entender a parte que te cabe no todo; conhecer o todo é conhecer a parte. O coração sempre vai orientar pelas escolhas que nos conduzam à plenitude através das cinco curas do espírito: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor e a felicidade. Os remédios para todos os males do espírito têm como ingredientes essenciais as virtudes. Se a escolha não for movida por uma ou mais das nobres virtudes, tenha certeza de que a voz que a aconselhou não foi a do coração.”</p>
<p>“A humildade, a compaixão, a sinceridade, a mansidão, a misericórdia, a coragem, a alegria, a fé, entre várias outras virtudes, são os instrumentos do Caminho. Além, é claro, do amor, a virtude das virtudes pelo fato de estar presente em todas as demais. O amor é o remédio e a cura.”</p>
<p>Eu quis saber se ele me ensinaria a ouvir o coração. Canção Estrelada me alertou: “Posso apenas mostrar onde está a porta. Atravessá-la depende de você.” Falei que aceitava a condição. Naquele mesmo dia, quando entardeceu, fizemos uma trilha pelas montanhas até que paramos em um platô que oferecia uma bela vista do vale. Estendemos as mantas coloridas e o xamã entoou algumas canções ancestrais ritmadas pelo seu tambor de duas faces. Em seguida, explicou: “Conversar com o coração é um rito pessoal, cada um tem o seu; todos são belos e valiosos. A música me ajuda a encontrar o sagrado oculto no mundano ao me deixar mais sensível e perceptivo. Contudo, eu chego ao meu coração através da prece. A oração, para mim, possibilita o encontro com a minha própria luz, o divino que me habita. Somente assim consigo escutá-lo.”</p>
<p>Fechei os olhos e Canção Estrelada entoou outras canções até que silenciou. Ele se retirou sem dizer palavra e me deixou a sós comigo mesmo. Por diversas vezes tive que reiniciar a oração. Eu seguia bem até um determinado ponto quando a minha mente era invadida por diversos fatos do passado que insistiam em desviar os meus pensamentos da prece. A tarde avançou na noite e adormeci sem conseguir me concentrar integralmente na oração. Canção Estrelada retornou ao amanhecer trazendo algumas frutas para o desjejum. Ao perguntar como tinha sido a experiência, confessei que não tinha conseguido chegar ao coração através da prece, pois era interrompido a todo o instante com memórias desagradáveis, de situações que eu não mais fazia questão em lembrar. O xamã sorriu satisfeito e disse: “É assim mesmo. Para chegar ao coração é preciso estar despido das mentiras que contamos para nós mesmos; dos personagens que criamos na ilusão de melhor enfrentar a existência. O coração é o lugar da verdade; para chegar ao coração é preciso estar envolto na verdade; a verdade sobre si mesmo. Se conhecer por inteiro é pressuposto para a viagem até o coração. Por definição, o coração não é uma rota de fuga; ao contrário, é a estrada da verdade e da luta pelo autoconhecimento.”</p>
<p>“Quando somos invadidos por memórias desagradáveis durante a oração, significa justamente aquelas situações que o nosso coração entende que devam ser pacificadas dentro de nós para que possamos seguir adiante. É parte primordial da prece. Não rejeite, sufoque ou negue essas memórias. Ao contrário, as abrace com amor. Entenda as dores que elas lhe provocam. Os sofrimentos são frutos de escolhas e entendimentos. Então, vá até as suas raízes para entender e escolher diferente e melhor da próxima vez que uma situação parecida se apresentar. Assim você substituirá a dor do equívoco pelo ânimo do amor de prosseguir adiante. Perdoe a quem lhe magoou; cada qual oferece apenas o que tem disponível no coração naquele momento da existência. Não podemos exigir flores de um coração encoberto por pedras. De outro lado, perdoe a si mesmo pelos mesmos motivos, pelas escolhas equivocadas que fez em determinados momentos da vida. Esta é a estrada para o coração, este é o tratamento de cura. Aceite que agimos no exato limite da nossa expansão de consciência e capacidade de amar. O erro é o mapa do acerto e o impulso do aperfeiçoamento. Aproveite para fortalecer o espírito para de uma próxima vez não tropeçar; assim evoluímos.”</p>
<p>“Entenda que por detrás dos pensamentos há os sentimentos que os movimentam. É preciso serenar os sentimentos para educar os pensamentos. Aproveite a oração para isso. Sentimentos densos fazem com que naveguemos em águas turvas; precisamos de águas claras para ver com profundidade, sem a qual não encontraremos o coração e o sagrado que nele habita.”</p>
<p>Ficamos algum tempo sem dizer palavra para que eu pudesse concatenar todas aquelas ideias. Em seguida, ele me convidou para mostrar alguns belos lugares da montanha. O dia foi ocupado por passeios e conversas descontraídas. Canção Estrelada era alegre e bem-humorado, sempre me fazia rir muito. Ao entardecer retornamos ao platô. Ele pediu para eu me concentrar em prece e avisou que voltaria no dia seguinte. Diferente do dia anterior, naquela noite não refutei os pensamentos, mas os acolhi na medida em que invadiam a prece, no esforço de pacificar os sentimentos que os moviam. Primeiro vieram à memória fatos do meu último namoro. As brigas e os desencontros. Aos poucos fui entendendo que apesar da admiração mútua que nutríamos um pelo outro – ela era uma pessoa encantadora – não nos amávamos. Tínhamos espectativas e olhares sobre a vida que nos distanciava. Ao forçar a aproximação, cada qual violava a si mesmo e terminava por responsabilizar o outro. Um erro infantil, porém, muito comum. Aceitei que o afeto e a admiração podiam e deviam continuar, entretanto, não mais enlaçados como um casal. Assim, eu poderia me sentir verdadeiramente livre para iniciar um novo relacionamento e teria plenas condições de abençoar o dela. Uma estranha e agradável sensação de leveza me invadiu.</p>
<p>Prossegui em minha prece até ser tomado por recordações referentes à dissolução da sociedade da agência de publicidade. Éramos quatro sócios; dois se desligaram para montar outra agência. Claro que durante o processo de separação surgiram divergências de vários tipos. Profissionais que faziam parte da equipe original decidiram quem acompanhariam, clientes optaram com quem trabalhariam, situações do passado nas quais existiam ressentimentos, muitos velados, vieram à tona, entre outras situações e detalhes. Todo corte sangra; aprender a maneira de cicatrizá-los é a arte do coração. Até que um dia sejamos capazes de entender que, na verdade, não existem cortes; apenas a liberdade. Sua e de todos. Isto é digno, é amor; constrói a paz e a felicidade. A agradável sensação de leveza voltou a tomar conta de mim; desta vez já não a considerei estranha.</p>
<p>Ao contrário do que se possa imaginar, essa oração não durou minutos, mas se estendeu por toda a noite. Quando me dei conta, o céu já tinha aquela cor, entre o rosa e o laranja, típica do amanhecer. Apesar de ter passado a noite acordado, eu não me sentia cansado ou com sono. Uma alegre vibração me mantinha animado, em um estado entre a alegria e a serenidade. Eu tive a certeza de ter conversado com o meu coração. O sagrado que nele habita tinha se manifestado em verdades que passariam a clarear as minhas escolhas.</p>
<p>Assim que Canção Estreladas me viu, sorriu. Sem que nada precisasse dizer, ele sabia que eu tinha tido um importante encontro, o mais importante da minha vida. O xamã sabia também que era a primeira das muitas conversas que eu teria com o meu coração e como isto mudaria a minha vida dali por diante. Sorri de volta em gratidão. Agradeci pela lição. Canção Estrelada sacudiu a cabeça e corrigiu: “Não há o que agradecer. Eu apenas disse: ‘ali tem uma porta’. Atravessá-la foi escolha sua. Seu esforço, seu mérito.”</p>
<p>Falei que agora entendia que até aquele dia eu não soubera usar os meus olhos para ver a verdade. Aprendi que para encontrar a verdade era preciso conversar com o meu coração. Para tanto, era primordial fechar os olhos. Era essencial olhar para dentro de mim para me conhecer. Esta é a senha que abre as portas dos corações. Canção Estrelada sorriu mais uma vez, pegou o seu tambor de duas faces e ritmou uma sentida melodia de comunhão com o Grande Mistério, o coração do universo, origem e destino de todos os corações. Mais um filho tinha aprendido a importância e a maneira de conversar com o próprio coração.</p>
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		<title>Uma sofisticada virtude repleta de outras virtudes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Dec 2017 18:27:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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<p>Uma das coisas mais agradáveis para mim era percorrer as ruas estreitas e sinuosas da pequena cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Melhor ainda é no início da manhã, quando o calçamento de pedras está molhado pelo orvalho da noite. Naquele dia, eu seguia na esperança de encontrar aberta a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. A oficina era lendária na região. Seja pela mestria de Loureiro em costurar o couro e as ideias, seja pelos horários inusitados e imprevisíveis de funcionamento, cujo critério era simplesmente a vontade do sapateiro. Quando dobrei a esquina e não avistei a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente, já sabia que encontraria a oficina com as portas cerradas. Passei em uma banca de revistas próxima e o jornaleiro disse que o meu amigo tinha trabalhado a noite toda, acabara de pegar um jornal e seguira para uma padaria perto dali. Alegrei-me com a possibilidade de uma boa prosa, logo pela manhã, acompanhada de café quente e pão fresco. Loureiro estava sentado em uma mesa ao fundo e abriu um belo sorriso quando me viu. Devidamente acomodado à mesa, com uma xícara fumegante e uma fatia de pão com o bom queijo da região derretido por cima, perguntei o que ele lia no jornal. O artesão respondeu que era sobre a polêmica em torno da aposentadoria diferenciada para algumas categorias profissionais. Enquanto uma parte das pessoas sofriam grandes perdas financeiras ao se aposentar, outras mantinham seus vencimentos integrais, em nada sendo afetadas. Havia um grande movimento para que estas fossem equiparadas àquelas. Ou seja, todos sofreriam igualmente as perdas. Eu falei que os protestos me pareciam justos. Loureiro me olhou por instantes, bebeu um gole de café e ponderou: “Será que o raciocínio não poderia ser invertido? Ao invés da luta para que todos tenham os seus ganhos rebaixados não seria mais sensato que a reivindicação fosse no sentido do fim das perdas, usando aquelas aposentadorias, então privilegiadas, como meta a ser proporcionada a todos?” Após alguns segundos de silêncio, admiti, um pouco sem jeito, que o sapateiro tinha razão. Isto faria com que a luta fosse por ganhos e não por perdas; fosse pela construção, não pela destruição. O sapateiro concluiu: “Assim passamos a lutar pela esperança e não movidos pelo ódio.”<span id="more-2023"></span></p>
<p>Tornei a concordar com o meu bom amigo, entretanto, ponderei que isso não retirava a caráter justo das manifestações. Loureiro voltou a me propor um novo olhar: “Essa é a questão que tem me chamado atenção e me parece estar além do problema das aposentadorias.” Perguntei do que ele falava, pois não tinha entendido. O artesão explicou: “A justiça é uma virtude de aparência simples, tanto que dificilmente encontraremos uma pessoa que se declare injusta. Pensamos saber o que é justo. Acreditamos que a justiça é uma virtude natural, que nasce com as pessoas; que com facilidade saberemos entregar a cada um o que for do seu merecimento.” Interrompi para dizer que eu sempre tivera aquela sensação. O artesão começou a explanar o seu raciocínio: “Em verdade, não é bem assim. A justiça é uma virtude complexa e, como tal, precisa de outras virtudes que a complementem. Por isto, precisa de aperfeiçoamento interno tanto em seu entendimento quanto em sua aplicação.” Bebeu um gole de café e prosseguiu: “Entretanto, seja por causa do instinto movido por condicionamentos ancestrais, seja pelas sombras do egoísmo e do medo, costumamos, em primeiro plano, preservar a nossa sobrevivência. Resguardamos tudo aquilo que denominamos ‘meus direitos’ e, somente depois, nos permitimos olhar para os lados. Este é o cerne do problema relacionado à justiça. Todas as vezes que vejo alguém encher a boca para falar dos seus direitos, a primeira pergunta que me ocorre é o quanto de egoísmo pode estar contaminando aquelas palavras. Não raro somos injustos por não entendermos a profundidade da justiça. Daí ser uma virtude cujo alcance requer esforço e mergulho em sua essência.”</p>
<p>Argumentei que por isso existiam as faculdades de direito, algumas muito famosas pela formação acadêmica para a vida profissional dos seus alunos. Loureiro tornou a ponderar: “Não falo apenas do conhecimento jurídico. As leis são ferramentas importantes de equilíbrio social e necessárias enquanto a maior parte das pessoas precisar de controle quanto aos seus impulsos primitivos.” Falei que ele exagerava falando naquele tom. O sapateiro balançou a cabeça em negação e disse: “Não. Enquanto for preciso leis para nos dizer o que podemos ou não fazer, tribunais para nos aplicar punições e presídios para segregar pessoas, estaremos, como corpo social, ainda distantes de entender a virtude da justiça. Não me refiro aos códigos legais, que apenas são a perfeita fotografia da realidade cultural de uma sociedade. As leis avançam na exata medida da evolução dos indivíduos que estão a elas submetidos. De quanto mais leis precisarmos, mais selvagem é o estágio que nos encontramos; mostram como ainda são injustas as nossas relações cotidianas e como precisamos de balizamento externo. A necessidade das normas legais se torna incontestável nos dias atuais na exata régua da nossa infância espiritual.”</p>
<p>Franziu as sobrancelhas e disse com seriedade: “Quanto mais violento for um animal, mais grossas serão as barras da jaula que o detém.” Bebeu mais um gole de café e disse: “Precisamos aprender a viver sem jaulas ou coleiras. Precisamos entender mais sobre a justiça.” Fez uma pausa e explicou: “Quando me refiro a justiça como virtude, falo das nossas relações diárias com o mundo, das posturas que temos no dia a dia, de como ela, a justiça, se faz presente nas situações banais do cotidiano e, sem perceber, desperdiçamos a oportunidade de exercê-la.”</p>
<p>Argumentei que o tom do seu discurso era por demais melodramático. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e falou: “Afastar a ilusão é o primeiro passo para começarmos a lidar com a verdade. E a verdade tem uma ligação de absoluta simbiose com a justiça. Esta não existe sem aquela. Somente ao trabalhar com a verdade será possível aceitar quem ainda não somos, entender as nossas dificuldades, afastar o egoísmo que nos faz pensar como pessoas especiais ou superiores. Se faz imprescindível incorporar o conceito de que qualquer direito que seja exclusivo se torna imprestável por injusto; que todo tipo de elite é fruto de um atavismo alicerçado na dominação dos demais segmentos da sociedade. Entretanto, é muito difícil enfrentar a verdade, pois, não raro, ela nos mostra que os injustos somos nós.” Tornei a interromper para dizer que não é difícil entender a realidade do mundo e as suas várias relações injustas. O sapateiro contrapôs: “Sim, é fácil apontar várias injustiças mundo afora. E quanto aos nossos pequenos egoísmos de todos os dias, as nossas escolhas vingativas alimentadas por mágoas pretéritas que escondemos sob as fantasias da justiça? Falo da dificuldade quanto à verdade interna, aquela possível apenas quando a alma está diante do espelho. É indispensável sinceridade para consigo mesmo para, somente então, haver honestidade para com o mundo.”</p>
<p>“Sinceridade, honestidade, responsabilidade, prudência, paciência, tolerância, firmeza e temperança são as virtudes que dão suporte e compõem a justiça como virtude.” Calou por instantes e complementou: “Além do amor, é claro. O amor é a virtude das virtudes por estar presente em todas as demais virtudes. Se o egoísmo é o veneno da justiça, o amor é o perfeito antídoto. Shakespeare disse que ‘justiça sem amor não é justiça, é vingança’. A diferença está no fato de que a vingança apenas visa a punição; ela está empenhada em devolver ao outro um sofrimento semelhante ou pior do aquele que foi infligido. Por sua vez, a justiça terá sempre no bojo de sua pena a finalidade maior: a educação do indivíduo. Enquanto a vingança apenas deseja punir; a justiça tem a preocupação em resgatar. Para tanto, é preciso amor. Devemos sempre pensar nisto ao fazer as escolhas ou ao proferir opiniões, pois definem o casamento com as sombras da vingança ou a condução à luz da justiça.”</p>
<p>Pedi para que Loureiro explanasse um pouco sobre as tais virtudes que integram a justiça e me sinalizasse uma prática notoriamente injusta. Ele franziu as sobrancelhas e não se fez de rogado: “Um bom indicativo de uma relação injusta são os privilégios. Onde há privilégio, de qualquer tipo ou espécie, inexistirá justiça. Os privilégios são vícios ancestrais firmados na ilusão de pretensa superioridade pessoal e estão tão arraigados culturalmente que, muitas vezes, nem percebemos a sua existência. Mas não se preocupe tanto com os privilégios alheios; se dedique em abdicar daqueles que você exerce. É uma maneira pacífica de evoluir e mudar o mundo. Os privilégios são traças que corroem o tecido social. O melhor remédio é a sinceridade.”</p>
<p>“A sinceridade é a virtude ligada à verdade em relação a si mesmo. É muito comum os enganos do ego pelo medo de enfrentar os contornos da alma; pela negação da própria essência. Termina por adiar a batalha ao não entender a montagem da armadilha cuja presa é a própria plenitude. Portanto, a sinceridade é uma virtude íntima da humildade. A sinceridade é o compromisso com a verdade que o indivíduo assume consigo. A sinceridade não permite a criação de personagens sociais; não negocia com a ilusão; ilumina as escolhas ao mostrar quais os sentimentos que as movimentam. A sinceridade é como uma bússola na estrada do autoconhecimento. É a virtude daqueles que amam a verdade. Por tudo isto, é primordial aos justos. Somente então, após sedimentar a sinceridade em si, será possível ser honesto com o mundo.”</p>
<p>“A honestidade é a virtude ligada à verdade nas relações com os outros. É a antítese da mentira, da fraude, da vantagem indevida. Da corrupção dos valores morais. Aqui quando se diz ‘verdade’ não se fala da ‘verdade absoluta’, mas em viver de acordo com os conceitos éticos que já é capaz de compreender, na medida do seu nível de consciência. Embora não evite o erro, inerente ao processo evolutivo, exclui a mentira, denotando um inegável avanço. A honestidade se traduz na manutenção da boa-fé em todos os relacionamentos. Ela é aliada da simplicidade por não admitir artifícios, dissimulações, omissões ou falta de transparência. Não é não; sim é sim. Não basta apenas não mentir, mas se comprometer com os detalhes da verdade. Mais ainda, com a clareza das intenções para que a honestidade seja integral.”</p>
<p>Quando Loureiro começaria a abordar as demais virtudes que integram a virtude da justiça, os seus netos irromperam na padaria em correria para os braços do avô; uma típica manifestação de amor e alegria pelo encontro. O sapateiro, com um largo sorriso no rosto, me olhou como quem diz que a nossa conversa teria o devido desdobramento em outro dia. Balancei a cabeça e sorri de volta como maneira de responder que eu concordava com ele. Em seguida entraram a filha e o genro do sapateiro. Todos se acomodaram à mesa e a conversa passeou por vários assuntos. Até que um dos garotos decidiu fazer queixa da mãe ao avô. Contou-lhe que a mãe prometera uma caixa de bombons caso acertasse todas as questões na prova de matemática. “E você acertou?”, quis saber o Loureiro. O menino confessou que acertara apenas a metade delas. Entretanto, a mãe se negava a lhe dar a metade dos bombons a que tinha direito. A filha do sapateiro interveio dizendo que o filho que o trato não era aquele. O garoto se mostrou chateado com o que entendia como uma quebra do acordo. Declarou-se injustiçado. A mãe falou que o filho desvirtuava o combinado. O avô disse que não tinha poderes para intervir e que, de uma próxima vez, ambos tivessem mais clareza quanto às suas intenções: “O que se cala pode dizer mais do que aquilo que se fala.” Mas propôs a pacificação dos ânimos. Contou que naquela padaria tinha uma bebida deliciosa, “talvez a mais gostosa do mundo”, feita com leite quente repleta de pedaços de chocolates que desmanchavam na boca. Proposta aceita, o mal-estar restou desfeito. Loureiro me olhou, piscou um olho e murmurou: “Entende agora?” Eu sorri em resposta. Se o amor é a ponte de todas as relações, a justiça são os alicerces que a sustentam.</p>
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		<title>A luz do mundo e a misericórdia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Nov 2017 18:59:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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<p>O mundo não é um bom lugar para se viver. Eu estava convencido desta afirmação enquanto observava as belas montanhas, sentado em uma confortável poltrona na varanda do mosteiro. Cansado de tantos conflitos, injustiças e maldades, eu tinha perdido a esperança de viver em um mundo melhor. A minha vida pessoal também acumulava uma série de brigas e decepções, seja na família, entre amigos ou no trabalho. Desse modo, me alegrei ao viajar para passar um período de estudos e reflexões na Ordem. O mosteiro era um bom refúgio. Eu tinha chegado na noite anterior e ainda não tinha encontrado com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade. Ele retornara um pouco mais cedo; vinha de uma série de palestras em cidades próximas e tinha se recolhido em seu quarto para descansar. No dia seguinte, ao acordar, passei na biblioteca para pegar um livro, enchi uma caneca de café no refeitório e fui para a varanda. Não demorou muito o Velho veio ao meu encontro. A barba branca cuidadosamente aparada, os passos lentos, porém firmes, e com as feições coradas pelo sol das montanhas, ele era a imagem da alegria e da jovialidade apesar da idade avançada. Uma energia de bem-estar e paz o envolvia e contagiava as pessoas à sua volta. Mas não era uma calma preguiçosa; era uma tranquilidade vitalizante. Ele próprio, embora apreciasse o descanso, estava sempre envolvido em várias atividades, estudos e não dispensava a prática da yoga ao acordar. Ele trazia em si o poder da leveza e a força do movimento. Ofereceu-me um sorriso sincero e um forte abraço. Sentado na poltrona ao lado, contou do ciclo de palestras que acabara de ministrar e como estava contente por isto. Disse que queria me falar de seus novos projetos, mas antes desejava saber como eu estava. Como as palavras costumam refletir a bagagem da alma, derramei todas as minhas frustrações e lamentos quanto ao mundo. Conclui dizendo que agora iria me fechar mais em meu círculo de vida e seguir cada vez mais alheio às iniquidades da humanidade. Em seguida, acrescentei que eu estava ansioso pelo início daquele período de estudos e pelo desenvolvimento espiritual que ele traria. O velho me ouviu com atenção e paciência sem me interromper. Ao final, disse: “O novo ciclo de aprendizado será bem diferente dos anteriores. Acho que será proveitoso, embora tenha dúvida se irá lhe agradar.”<span id="more-1997"></span></p>
<p>Curioso, perguntei sobre qual autor iríamos nos debruçar. Eu apreciava muitos, e outros eu desejava conhecer. Yogananda, Lao-Tse, Blavatsky, Kardec, Teresa D’Ávila, eram alguns do extenso rol. Ele foi enigmático na resposta: “Todos são maravilhosos e permitem valiosos conhecimentos, mas desta vez estudaremos um que considero como o meu favorito.” Fez uma pausa e me surpreendeu: “Há um pequeno grupo de refugiados que chegou recentemente da África. Eles foram alocados em uma cidade próxima daqui. Ficaremos alguns dias com eles.” Como ficaremos? Eu tinha vindo de outro continente em busca de sossego e estudo. Sinceramente, não fazia parte dos meus planos trocar o conforto do mosteiro pela precariedade de um acampamento de refugiados. O Velho balançou a cabeça como quem diz que me entendia e disse: “Não lhe tiro a razão nem a liberdade de escolha.” Perguntei se todos os monges, como são denominados os membros da Ordem, também iriam. Ele sacudiu a cabeça e explicou: “Não. Iremos você e eu. Os demais ficarão para as palestras, leituras, debates e meditação.” Em seguida concluiu: “Partirei amanhã cedo, logo após o café. Esteja pronto, caso queira me acompanhar. Do contrário, você pode ficar com os demais. Sem problema.”</p>
<p>Diferente do que se poderia imaginar, não havia qualquer traço de decepção ou ressentimento na voz do Velho; era apenas bondade e compaixão. Foi justamente isso que me tocou a ponto de incomodar. Eu estava decido que ficaria no mosteiro. Eu sonhava por esses dias; toda aquela vivência de estudos era fantástica e apenas possível uma vez por ano; a miséria humana estava disponível a qualquer hora. Não, eu não iria acompanhar o Velho.</p>
<p>Naquele dia assisti a uma palestra seguida por um animado debate. Não me lembro do assunto abordado nem do que foi discutido no colóquio. Apenas pensava no convite absurdo que o bom monge tinha me feito. Passei a noite em claro. No dia seguinte, quando o Velho entrava no carro que o levaria ao acampamento, cheguei esbaforido, com a mochila nas costas, entrei pela outra porta e me sentei ao seu lado no banco de trás. Ele, sem olhar para mim, arqueou os lábios em leve sorriso.</p>
<p>A viagem demorou quase seis horas. Um campo de refugiados é o perfeito retrato das periferias urbanas, com o agravante de que aquelas pessoas não têm planos para o dia seguinte; apenas sonhos. Era justamente o sonho pessoal a alavanca propulsora do Velho. A sua força e poder; o seu discurso e ação; a sua esperança e fé. No bom monge o sonho pulava com a disposição de um garoto travesso. A primeira sensação que tive foi de que o acampamento se assemelhava a um orfanato, com a diferença de que havia, além das crianças, adultos que também estavam órfãos. Órfãos da vida. Mais do que os seus corpos, as suas almas precisavam de resgate. De imediato entendi que não se morre com a finitude do corpo, mas com o abandono da alma.</p>
<p>Porém, antes que eu pensasse em qualquer palestra de cunho espiritual para animar aquelas pessoas, era necessário cuidar de feridas, providenciar roupas, sanar a desnutrição, criar condições para que as crianças estudassem e traçar metas de trabalho para os adultos. Enfim, proporcionar àquelas pessoas condições mínimas de existência. Era tanto para se fazer que tive vontade de desistir. Tive a convicção de que o melhor a fazer era dar meia-volta, entrar no carro e retornar ao mosteiro. Cheguei a colocar a mochila nas costas até que, quando ia me retirar, percebi o Velho abraçado a três crianças. Uma delas, com uma ferida infeccionada no braço, manchara a camisa do monge com sangue e pus. Reparei que ele não dava a menor importância a isso. Ao contrário, o seu olhar tinha uma luz indescritível. Irradiava o amor na sua vibração mais alta; era a caridade, a beneficência, a compaixão; o amor em seu sentido mais nobre: ame o outro como a si mesmo. Eu já ouvira esta frase diversas vezes, mas foi a primeira vez que eu a vi.</p>
<p>Não, não e não. Aquilo era muito elevado, mas não era para mim. As autoridades e os governantes foram eleitos para resolver isso. Além do mais, eu já fazia a minha parte através de doações financeiras para ONGs que cuidavam de problemas semelhantes. Eu não queria essa vida, aquele não era o meu mundo. Quando eu estava saindo, não consegui deixar de olhar para o Velho mais uma vez. Para minha surpresa, ele também me olhava. Nos seus olhos não havia decepção, apenas misericórdia. Nos encaramos por segundos que se traduziram em uma eternidade em meu coração. Então, ele balbuciou lentamente com os lábios para que eu pudesse entender: “Vós sois a luz do mundo!”</p>
<p>Era um trecho do Sermão da Montanha, texto que eu tanto estudara por ser o eixo filosófico da Ordem. Mil coisas se passaram na minha cabeça. Como eu me sentiria em voltar para o mosteiro e seguir nos estudos se eles não me tinham serventia? Como evoluir sem me envolver com o mundo? Como avançar sem a coragem de me reinventar? Eu estava disposto a viver a minha existência ou somente tirar férias sobre ela? Se estou neste planeta, com toda as suas aflições e injustiças, é por causa da minha afinidade energética com ele; eu não era tão bom como gostava de me imaginar. Para ter direito a um mundo melhor, eu tinha a obrigação de ser uma pessoa melhor.</p>
<p>Não tinha jeito; era impossível evitar o espelho. Eu tinha cruzado o “ponto sem volta”. Joguei a minha mochila para o lado e me aproximei de um médico, que estava generosamente prestando serviço ali durante as suas férias no hospital em que trabalhava, e me ofereci para ser o seu assistente. Ele sorriu e pediu para que eu lhe passasse mais gaze e algodão. Uma energia incomensurável pulsou em minhas entranhas e toda a repulsa se modificou por uma enorme vontade de fazer o que tivesse que ser feito. Naquele instante comecei a entender um pouco mais sobre o amor.</p>
<p>Foi um dia intenso, o primeiro da semana que eu passaria ali. À noite, após um jantar frugal e um banho em condições precárias, encontrei o Velho sentado sozinho e quieto em um banco de madeira a céu aberto. Sentei-me do seu lado e apenas falei obrigado. Ele sorriu e ficamos calados por algum tempo. Quebrei o silêncio para comentar que seria preciso providenciar muitas coisas para que aquelas pessoas saíssem das margens da vida e pudessem se reintegrar ao mundo. O monge balançou a cabeça em concordância e acrescentou: “Sim, precisam de condições materiais para atingirem uma condição básica de existência, mas precisam também de afeto. Elas não podem desacreditar no amor, na sua força e poder transformador. Tampouco, nós. Pois, nem sempre teremos dinheiro suficiente para suprir as necessidades alheias, mas quando nos negamos a oferecer carinho e atenção, revelamos toda a miséria em que vivemos.”</p>
<p>Comentei que enquanto eu auxiliava no serviço, tive uma sensação de leveza em relação aos meus problemas pessoais, por perceber o quanto eles eram de simples superação; tinha me dado conta de como eram risíveis as minhas paixões. Acrescentei que a vida podia ser diferente e um mundo um bom lugar. O Velho sorriu e disse: “Somos a luz do mundo. Se dentro mim está escuro, encontrarei um mundo sombrio para viver. Do contrário, se existe luz em mim, viverei em um mundo claro e colorido, apesar de todas as dificuldades e problemas inerentes à vida. Se há luz em mim, tenho também o poder de iluminar a vida de quem estiver por perto. Quanto mais alto eu vibrar a minha luz, mais longe será o seu alcance. As trevas somente persistirão enquanto eu me negar a acender a minha própria luz. Quando ilumino a mim, ilumino o mundo.”</p>
<p>Comentei que agora concordava que aquele ciclo de estudos prometia grandes avanços. O Velho expôs as suas razões: “Olhar as fotos de um lugar será sempre diferente de morar nele; ouvir falar de uma pessoa nunca será igual a conviver com ela. Assim é com as virtudes, precisamos experimentar cada uma delas para conhecê-las de verdade. Só então será possível incorporá-las ao nosso jeito de ser e de viver.” Fez uma pausa e prosseguiu: “A misericórdia é uma das mais belas e poderosas virtudes por toda a sua profundidade. A começar pela origem latina da própria palavra. Ela é uma das mais lindas do vocabulário. Trata-se da união de duas outras, <em>miserere</em> e <em>córdia</em>, que significam aflição e coração. Ser misericordioso é usar o coração para curar a aflição de alguém.” Olhou-me nos olhos e concluiu: “A misericórdia é uma das variantes mais elevadas do amor. Na misericórdia o sagrado se manifesta através de você.”</p>
<p>O Velho pediu licença e se levantou. Era hora de dormir. Fiquei ali sentado por mais algum tempo pensando em todas as lições que couberam naquele dia. Lembrei que antes de virmos ele tinha dito que iríamos estudar o seu autor predileto. Eu estava curioso para saber de quem se tratava. Foi quando me dei conta que tínhamos falado da luz do mundo e do valor da virtude da misericórdia, a quinta bem-aventurança, trechos do Sermão da Montanha. Sorri sozinho. Não foi difícil descobrir o seu nome. Justamente aquele que não escreveu uma única linha, mas viveu o amor de acordo com a sua palavra.</p>
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		<title>Diante da alma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Nov 2017 17:55:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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<p>O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de levar a sabedoria do seu povo através das palavras, rufava em ritmo compassado quando cheguei ao seu “lugar de poder.” Este local era próximo à sua casa, no alto de uma montanha no Arizona, em um pequeno platô, onde, além da bela paisagem e profundo silêncio, me chamava a atenção uma árvore bem antiga em um improvável equilíbrio, bem na ponta de um penhasco. Ele dizia que todos têm um lugar onde sentem com maior intensidade a ligação com o Grande Mistério, o invisível que permeia e atua no visível, na harmonia entre a força e a sutileza da vida. A minha viagem para encontrar com o xamã já estava programada há meses, mas perto da partida a adiei várias vezes em razão de alguns acontecimentos. Tudo começou em um evento no qual a minha agência de publicidade, embora pequena, havia sido premiada pela originalidade de um anúncio. Uma famosa atriz, mulher lindíssima, tinha sido contratada para apresentar a cerimônia de premiação. Foi ela quem puxou assunto comigo quando nos esbarramos no coquetel que aconteceu logo após. Ela fez elogios ao meu trabalho e mostrou interesse em saber mais. Eu fiquei apaixonado ao ouvir o som das suas palavras enquanto olhava para aquele rosto angelical, emoldurado pelos cabelos encaracolados que lhe desciam pelos ombros à mostra. Ali começou um romance. E também a minha agonia.<span id="more-1984"></span></p>
<p>Os primeiros dias foram de muita euforia. Além do troféu, aquela noite tinha me presentado com uma mulher que era um sonho para a grande maioria dos homens. Em todos os lugares que íamos as pessoas se viravam para nos observar. Eu me sentia enorme e poderoso. No entanto, esse relacionamento acarretou várias mudanças, tanto pessoais quanto profissionais. A mais significativa foi o término do meu namoro com a antiga namorada, que já durava um bom tempo. Esta, embora não tivesse nem uma pequena parte da beleza e do glamour da atriz, era uma pessoa adorável. Bem-humorada, inteligente e sensível, ela colaborava de maneira decisiva para uma convivência extremamente agradável. Como morava em outra cidade, nos víamos apenas nos finais de semana. Mas eram dias de passeios ao ar livre, ótimas conversas e muitas risadas. Por vezes, gostávamos de ficar em casa, seja na dela, seja na minha. Um livro, uma xícara de café e a presença do outro eram suficientes para nos alegrar a alma; a vida parecia suave. Com a atriz, eu estava sempre em festas badaladas, reuniões sociais na casa de alguém importante, em restaurantes finos, entre holofotes e paparazzis. Era como se me fosse permitida a realidade de um mundo apenas conhecido na ficção. A vida girava em rotação acelerada.</p>
<p>A outra mudança foi no meu trabalho, por dois motivos. Um foi porque eu comecei a precisar de mais dinheiro para bancar a minha recente vida social. Não era barato aquela existência estonteante. Tive que mudar o estilo básico de vestir; passagens aéreas e hotéis elegantes passaram a fazer parte do meu cotidiano. E este dinheiro não estava sobrando em minha conta corrente. Não era só. Inconscientemente, eu me sentia obrigado a ganhar “um prêmio todos os dias” para que a minha bela e famosa namorada continuasse a admirar o seu anônimo par. Isto fez com que o meu humor e paciência se alterassem com as pessoas que trabalhavam comigo, trazendo vários atritos. Passei a procurar os velhos amigos apenas para que eles pudessem me admirar. Eles logo se cansaram. Embora a leveza tivesse me abandonado, de alguma maneira aquela vida me embriagava e eu queria mais. Sem que eu me desse conta, a minha vida seguia em espiral descendente de agonia e desequilíbrio até o dia em que briguei com a jovem e competente chefe da equipe de criação da minha agência. Eu cobrava dela mais perfeição e genialidade. O meu sócio me chamou para uma conversa e me aconselhou a tirar as férias adiadas. Pensei em recusar, mas fui surpreendido pelo fim do romance com a bela atriz através de uma mensagem pelo celular. No dia seguinte vi fotos dela com o novo namorado, um conhecido diretor de cinema, na internet. Nesse instante, quando olhei à minha volta, tudo me pareceu destruído. Foi quando parti ao encontro do Canção Estrelada.</p>
<p>A porta da casa do xamã nunca ficava trancada. Entrei, deixei a minha bagagem na sala, e perguntei a uma vizinha por ele. Ela disse que Canção Estrelada tinha saído mais cedo levando o seu tambor, uma sacola a tiracolo e uma manta. Não tive dúvidas de onde o encontraria. Quando cheguei, ele apenas me olhou e continuou a entoar uma bela canção em seu dialeto nativo. Entendi como uma permissão. Sente-me à sua frente. Ao final, nos cumprimentamos e eu lhe pedi ajuda. Falei que ele era meu guru. Disse que sabia da sua intensa conexão com a esfera invisível e roguei que ele intercedesse por mim em busca de auxílio. Acrescentei, sem que precisasse, que eu estava muito mal. Também contei tudo que eu havia passado. O xamã me olhou com compaixão, mas disse com firmeza: “Eu não sou um guru. Eu abro mão do personagem por entender que atrapalha mais do que ajuda”. Fez uma pequena pausa e explicou: “A conexão se torna possível quando há o encontro com o sagrado. Posso orientar quanto ao encontro, nunca o substituir. O sagrado habita dentro de ti. Esse encontro é pessoal e intransferível.”</p>
<p>Ponderei que eu estava completamente desorientado e sabia do enorme poder dele. Confessei que eu precisava que ele me conduzisse por um atalho. Eu não conseguiria suportar uma longa espera. O xamã me explicou com paciência: “A natureza não dá saltos; na espiritualidade também se anda devagar. Não há atalhos. Existe apenas o Caminho. Não é possível chegar ao destino sem enfrentar toda a travessia. Ela te molda e te prepara. Embora haja a indispensável solidariedade durante o percurso, o Caminho é solitário. Ninguém poderá fazê-lo por ti. As dificuldades surgem na exata medida das lições que nos são necessárias. Aproveite cada uma delas. O Caminho nos devolve na exata medida dos nossos passos. Ele é sábio, justo, amoroso. Se por vezes lhe parecer rigoroso, não tenha dúvida, são apenas as necessárias correções de rota, com a firmeza adequada à incompreensão do andarilho. Um dia você será um mestre; um mestre de si mesmo. Todos serão, cada qual ao seu tempo.”</p>
<p>Falei que eu não sabia como fazer. Canção Estrelada, ao seu jeito, não me negou ajuda e disse: “O absoluto é a luz. A casa da luz é a alma; a estrada para a alma é o silêncio; o encontro acontece quando a alma se manifesta. O encontro ocorre no mergulho profundo de si mesmo, onde não há máscaras nem ilusões. Então é possível o entendimento, a transformação e o retorno para dividir com o mundo as virtudes desse novo ser. Diferente e melhor a cada dia, em sucessivos trajetos de ida e volta, como valiosos trechos de uma viagem sem fim.”</p>
<p>Fez uma pausa e continuou: “No mais, esse tal poder que você atribui a mim, ele é simples e está disponível a todos; basta aprender a usar. Cada pessoa é única, mas ninguém é especial; caso contrário, a escala de harmonia e justiça do universo restaria quebrada. Todo poder surge quando levamos o ego para conhecer a alma. O poder cresce na medida que o ego se afina à alma e passam a entoar a mesma canção. Então, a alma passa a participar cada vez mais das suas escolhas. Através da alma, as sombras, ocultas sob o manto das paixões, tão comum a todos nós, que tanto motivam o ego e as escolhas, serão, aos poucos, iluminadas e transmutadas em luz. As paixões darão lugar ao amor. Tudo o que é instrumento de dominação se transforma em ferramenta de libertação. Essa é a cura. Assim nascem as asas.”</p>
<p>Acrescentei que ele emanava uma energia forte que fazia com que as pessoas se sentissem bem ao seu lado. Canção Estrelada sorriu com humildade e disse: “Claros ou turvos, irradiamos os sentimentos que trazemos no coração e as ideias que movimentam as nossas escolhas. Isso determina a frequência das nossas vibrações e o conforto que proporcionamos a quem está ao redor. Diante do conflito podemos agir com irritação e violência ou com serenidade e mansidão. Quando nos envolvemos em sintonias de leveza e paz as soluções se tornam mais claras, sábias e amorosas. Isso costuma revelar o quanto da alma já é capaz de se manifestar no indivíduo. No entanto, nos acostumamos aos impulsos das paixões, aos vícios dos condicionamentos socioculturais, à opinião alheia. Consideramos normal desistir dos sonhos. Chegamos a nos convencer de que a escuridão é um bom lugar pelo absurdo argumento de inexistir outro. Então sofremos pelo vazio que criamos, como aquelas cidades cinematográficas que são apenas bonitas fachadas, sem qualquer estrutura em seus fundamentos, e desabam na breve ventania. Entrar no Caminho é mudar o sentido da existência”.</p>
<p>Canção Estrelada me entregou a bolsa, a manta e disse: “Aqui tem tudo que você precisa para passar alguns dias em solidão. Adiante há uma nascente com águas límpidas. Volto para te buscar.” O susto me emudeceu. Atônito, fiquei olhando o xamã descer a montanha com o seu tambor de duas faces, enquanto eu tentava concatenar as ideias.</p>
<p>Na bolsa havia frutas secas e fósforos. Acendi uma fogueira com a chegada da noite e, em razão do cansaço da viagem, dormi profundamente. No primeiro dia, não demorou para eu me entediar. Logo a bela paisagem se tornou cansativa e o canto dos pássaros uma chatice. Achei uma estupidez o que Canção Estrelada fazia comigo. Pensei em não permitir, me levantar e ir embora. Aquela mesmice me irritava. Vieram-me à mente todas as situações recentes. Lembrei de como a minha bela e famosa namorada tinha sido cruel e desleal comigo; eu lhe tinha oferecido o melhor que havia no meu coração. Sem contar as despesas que fizeram desmoronar as minhas economias. Em troca, o que recebi? Dor e desilusão. Depois pensei na briga com a chefe de criação da agência. De como ela tinha sido ingrata com as oportunidades de trabalho oferecidas por mim a ela na agência. Sem dúvida, era uma insolente. O dia foi doloroso e quando chegou a noite, diante da fogueira, custei a pegar no sono. Eu me sentia desconfortável por estar em um mundo difícil de se viver.</p>
<p>No segundo dia acordei mal-humorado com os passarinhos beliscando as frutas secas que me serviam de alimentação. Espantei-os com xingamentos como se fossem inimigos. Em seguida, devorei tudo, esvaziando o saco. Procurei me acalmar. Sentei-me à beira do penhasco e raciocinei que havia duas escolhas centrais. Eu poderia descer a montanha imediatamente e abandonar os ensinamentos que Canção Estrelada me propôs, de cuja utilidade, eu duvidava; ou tentar me adaptar a aquela situação para extrair o melhor que ela pudesse me proporcionar, nem que fossem dias mais agradáveis até o retorno do xamã. Optei por esta. Com o passar das horas, senti fome. Embrenhei-me pela mata em busca de algo comestível. Não demorou muito, encontrei um arbusto repleto de pequenas amoras. Coloquei várias na sacola e retornei. Aquele passeio, somado ao fato de eu ter superado a dificuldade com a fome, me fez bem. No final da tarde acendi a fogueira e fiquei observando o entardecer por um tempo que não sei precisar. Quando me dei conta, o fogo tinha consumido os gravetos e o céu estava salpicado de estrelas. Percebi que eu não olhava mais a paisagem; eu olhava para dentro de mim. Pensava em como eu poderia realizar esse “encontro comigo” ou o “encontro com a minha alma” de que Canção Estrelada tanto falava. Na prática, como era isso? Não tinha a menor ideia.</p>
<p>Distraí-me encantado com a beleza do céu e as infinitas estrelas que o iluminavam. Eu não me lembrava da última vez que havia parado para olhar para estrelas. Recordei de uma imagem enviada por uma sonda espacial quando de passagem por Saturno mostrando como a Terra não passava de uma pequena gota d’água no oceano da Via Láctea. Os astrônomos sustentam que o Sistema Solar não passa de um acanhado detalhe diante da imensidão do Universo. Este, segundo os físicos, vive em expansão contínua. Impossível não enfrentar a realidade de como nos iludimos grandes e especiais, quando na verdade somos pequenos e singulares. Como a Terra; nisso reside a minha e a sua beleza.</p>
<p>Percebi que era primordial eu incorporar esse conceito para me equilibrar com tudo e todos ao meu redor. Naquele instante entendi a importância da humildade para descobrir quem eu sou; para me situar na imensidão e fazer parte dela, com todas as suas possibilidades. Pensei em como eram ridículos todo o meu orgulho e vaidade, duas das paixões que me moviam, que supostamente me engrandeciam, quando, no fundo, apenas tentavam esconder a minha fragilidade. Ri da ignorância que me aprisionava no sofrimento. Entendi que para renascer é preciso entender quem ainda não sou para somente depois conceber tudo aquilo em que posso me transformar. Impossível conseguir isso sem humildade. A humildade é o gatilho da evolução. Enquanto acreditar que sou especial, superior a tudo e a todos ao meu redor, estarei negando a necessidade da evolução. Assim, desperdiço o poder concedido pelo universo, pois abro mão das transformações e expansões oferecidas. Naquele instante ficou claro que a grande viagem não era para Londres, Nova Iorque ou Pequim, e sim para encontrar e dar voz à minha alma. Nela nasce toda a força.</p>
<p>Não me lembro da hora em que peguei no sono. Acordei revigorado no terceiro dia. Os passarinhos se fartavam com as poucas amoras que tinham sobrado. Sorri para eles. Levantei-me sem pressa e me encantei por um longo tempo com a bela paisagem das montanhas. Elas me pareceram ainda mais bonitas. Lembrei da noite anterior e pensei em como eu poderia aplicar a humildade como ferramenta de transformação. Veio à mente o romance com a atriz. Dessa vez, ao invés de me sentir injustiçado, banhei os fatos com a luz da humildade. Admiti que eu havia me envolvido por pura escolha, movido pelas paixões do orgulho e da vaidade. Na verdade, nunca houve amor, apenas o meu ego sedento por brilho a me enganar quanto aos sentimentos envolvidos. Eu me permiti viajar ao mundo dela. A ilusão me levou a viver os valores de vida escolhidos por ela. Diga-se, nem certos nem errados. O contrário disto seria tornar a escorregar na ideia de que sou especial ou superior, conceito onde surgem o distanciamento e a separatividade que tanto sofrimento causam. Sou único, nem melhor nem pior; apenas diferente. Daí a importância de cada indivíduo, todos singulares e belos, para completar e colorir o maravilhoso mosaico da vida.</p>
<p>Entendi que ela não tinha me feito qualquer mal deliberadamente, apenas vivia do jeito que sabia e gostava. Ela tinha esse direito. O estranho naquele mundo era eu; logo, as consequências me foram justas. Cabia a mim respeitar, aprender e seguir em frente. Eu não poderia exigir dela a perfeição que eu também não tinha para oferecer. Perdoei a mim e a ela. Foi quando me senti envolto em uma agradável atmosfera de liberdade e compaixão. Decidi que quando voltasse iria procurar a minha outra namorada, anterior a atriz, para dizer que tinha sido um tolo. Não sei se ela aceitaria reatar o romance, mas a ideia de tentar me alegrou.</p>
<p>Com igual sentimento, eu envolvi mentalmente a situação com a moça que chefiava a equipe de criação da agência. Com honestidade, era preciso confessar que a ganância e o desequilíbrio imperaram sobre as minhas vontades. Em verdade, eu tinha transferido para ela os anseios, desejos e incompletudes do meu ego exacerbado. Não satisfeito, a culpei, provocando o conflito. Por justiça, eu tinha que admitir a sua enorme competência e talento. Faltava dizer para ela o que eu acabara de falar para mim mesmo: o prêmio ganho pela agência era muito mais mérito dela e da sua equipe do que meu. As exigências eram frutos do meu desequilíbrio. Eu iria procurar a jovem e lhe pedir desculpas. Senti-me feliz por tê-la trabalhando ao meu lado.</p>
<p>Quando me dei conta, não havia montanhas, pássaros nem floresta. Apenas o silêncio absoluto. Fui envolvido por uma agradável leveza. Sem saber, eu tinha chegado à porta da minha alma. A humildade e a compaixão tinham me levado até lá. As virtudes são os veículos adequados para transportar o ego à alma.</p>
<p>Se a humildade e a compaixão tinham me elevado o ânimo e permitido tamanha leveza, se a honestidade e a coragem no trato comigo mesmo havia me oferecido uma breve noção de justiça e perdão, pensei em como eu me sentiria ao incorporar ao meu jeito de ser e viver, outras virtudes além dessas, como a gentileza, a mansidão, a paciência, a sensatez, a pureza, a fé&#8230; As quais, como quase todos, eu já ouvira falar, mas ainda não conhecia.</p>
<p>Tornou a passar um longo tempo até que Canção Estrelada chegou. Quando o xamã viu o meu semblante sorriu satisfeito. Não foi necessária qualquer palavra para explicar. Eu lhe agradeci por ter me proporcionado aquela vivência. O homem que desceria a montanha era outro daquele que a subiu. O xamã estendeu uma manta, se sentou, acendeu o seu inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, baforou várias vezes, me entregou o cachimbo em cerimônia de comunhão entre almas e disse: “Muitos buscam uma experiência espiritual; a maioria, somente quando diante de um problema de difícil solução. Chegam em busca de ajuda rápida e anseiam por algum fenômeno sobrenatural. As dores da alma precisam de entendimento e transformação. De dentro para fora. Nenhuma experiência religiosa ou filosófica atingirá os patamares mínimos se o indivíduo não se aventurar a sair da superfície da existência para um mergulho no fundo de si mesmo. Lá está a alma. A alma é a essência do ser, o berço do amor; o elo com a vida, é a sua parte no todo.”</p>
<p>“Apenas através da alma podemos pulsar toda a força e poder do universo. Arqueou os lábios em leve sorriso e concluiu: “Quando as paixões nos movem, o amor fica de lado; quando o amor é esquecido, abdicamos da nossa essência. Quando nos afastamos de nós mesmos, ficamos sem conexão com o Grande Mistério.” Fez uma pausa e acrescentou: “Longe da alma a vida perde a clareza, o sentido e o sabor.” Olhou-me nos olhos antes de finalizar: “No entanto, mantenha a humildade e aperfeiçoe as demais virtudes todos os dias. Você apenas chegou, em uma primeira vez, à porta da sua alma. Nem ao menos entrou. Lá dentro existe um mundo ainda desconhecido e fantástico a ser revelado. Encante-se!”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>.</p>
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		<title>O amor. Tão perto, tão distante</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Nov 2017 14:08:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Eu tinha chegado há poucos dias no mosteiro para o meu período anual de estudos quando recebi a notícia do falecimento do meu avô. Ele tinha sido um homem saudável e ativo, estando à frente do seu pequeno negócio até os últimos dias dessa sua existência. Tinha se sentindo...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Eu tinha chegado há poucos dias no mosteiro para o meu período anual de estudos quando recebi a notícia do falecimento do meu avô. Ele tinha sido um homem saudável e ativo, estando à frente do seu pequeno negócio até os últimos dias dessa sua existência. Tinha se sentindo mal e foi levado ao hospital. Embora tenha ficado internado para exames mais aprofundados, os médicos disseram acreditar não se tratar de nada grave. Fiz uma visita ao meu avô antes de viajar; ele estava alegre e otimista, características que sempre estiveram presentes no seu jeito de ser. Apesar de eu estar confiante em sua rápida recuperação, fiz preces neste sentido e, mesmo de longe, enviei boas vibrações de cura. Fiquei desorientado ao ser avisado do fim desse ciclo em sua vida. Eu gostaria de mais um tempo de convivência ao seu lado nesta minha existência. Foi isto eu que disse ao Velho quando o encontrei sentado sozinho na cantina entre uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia. O bom monge se levantou sem dizer palavra, me deu um forte abraço e depois me acomodou em uma cadeira à sua frente. Encheu uma caneca de café para mim, tornou a sentar e me olhou com doçura como quem diz estar disposto a me dar a atenção de que eu precisava naquele momento. Confessei estar desorientado com a situação e até mesmo um pouco descrente dos meus estudos. Falei que a espinha dorsal dos estudos da Ordem é o Sermão da Montanha, ensinamentos legados por mestre Jesus nas colinas Kurun Hattin. Acrescentei que ele, Jesus, também tinha dito que “todos poderiam fazer o que ele fez e até mesmo mais”. Narram os livros sagrados situações de cegos que retomaram a visão e de aleijados capazes de voltar a andar. No entanto, diante de uma situação bem mais simples, minhas preces e vibrações de cura se mostraram insuficientes. Questionei a valia dos meus conhecimentos.<span id="more-1961"></span></p>
<p>O Velho passou a mão na sua barba branca, como fazia todas as vezes que sabia estar diante de uma conversa demorada, e disse: “O amor é a força mais poderosa do universo. É a matéria-prima de todas as transformações, logo, também dos milagres. Todas as vezes que a realidade se altera para nos ajudar a caminhar em sentido à luz, estamos diante de um milagre. Se prestarmos atenção perceberemos que a vida está repleta de milagres, que se manifestam em situações aparentemente simples do cotidiano, seja para nos auxiliar em momentos difíceis, seja para não deixar que desistamos. Para que haja um milagre a transformação precisa estar envolvida em amor. Sem amor qualquer mudança não passa de mera maquiagem. A diferença entre o que me é possível transformar e o que Jesus fazia se traduz no quanto de amor cada um já consegue trazer consigo e se mostra capaz de compartilhar. Não trago nem traços de tamanho amor”. Discordei de imediato. Argumentei que eu tinha um amor enorme e sincero pelo meu avô, um amor tão grande que era difícil de mensurar. O Velho balançou a cabeça em concordância e disse: “Não tenho dúvida do imenso amor que você tem pelo seu avô; todavia, amar de volta quem sempre nos ofereceu amor é a infância do amor”. Olhou-me nos olhos com a delicadeza daqueles que não querem chatear os outros, mas precisam ser firmes, e falou: “Amar quem nos ama é para os fracos. A maturidade do amor consiste em amar a todos, mesmo aqueles que nos magoaram. É atuar para o bem de todas as pessoas que nos cercam; inclusive aqueles que se opõem a nós ou nos pedem ajuda. Independente de quem sejam. É o sincero sentimento de que o outro é parte essencial de um mesmo todo”. Olhou-me profundamente e perguntou: “Você já tentou curar, oferecendo toda a intensidade do seu amor a quem você não conhece, ou mesmo a quem te feriu?” Fiz que não com a cabeça. Ele explicou: “Comece com esses, deposite todo o seu amor na dor de um desconhecido. Em seguida, perdoe todos aqueles que te magoaram, trabalhando com sinceridade para o bem deles. Depois lhe será permitido curar aqueles que sempre lhe trataram com afeto”. Fez uma pausa, comeu um pequeno pedaço de bolo e comentou: “A estrada é longa”. Bebeu um gole de café e concluiu: “O amor é o fator que determina a extensão do poder individual gerado pela consciência e pelo sentimento que o indivíduo tem do todo em si mesmo. Mover esta força se chama fé”.</p>
<p>Falei que ele tinha complicado. Pedi para se explicar melhor e lembrei de uma lição, ministrada por ele mesmo, de que todo conhecimento precisa de clareza para que possamos enxergar a sua profundidade.  O monge arqueou os lábios em leve sorriso e não se negou a clarear o raciocínio: “O amor é um sentimento tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Perto, por ser uma necessidade vital, como um bebê inevitavelmente buscará o seio da mãe para se alimentar; sem amor a alma falece por desnutrição. Distante, pela dificuldade que temos de incorporar o amor em sua manifestação mais ampla. O amor de uma mãe para com o filho, o qual amamenta pelo mais puro dos sentimentos, sem nada exigir em troca, é o primeiro encontro que todos têm com a verdadeira essência da vida: o amor incondicional. Evoluir é o exercício de ampliá-lo a tudo e a todos. Devemos expandir o amor primordial em ondas concêntricas ao movimentar as águas do enorme lago da vida através deste sentimento tão nobre. Essa vibração viajará até os confins do universo. Quando encontrar a última das estrelas, retornará em igual intensidade, como reação de merecimento e generosidade”. Interrompi para dizer que ele não estava ajudando muito com aquele discurso. O Velho balançou a cabeça e foi mais objetivo: “O amor embora íntimo, ainda é desconhecido em razão da sua extrema sofisticação. Não no sentido de complexidade, pois ele é simples, mas quanto à profundidade que ele exige para que possa se revelar por inteiro. É como uma pessoa que, apesar de viver ao nosso lado, a conhecemos muito pouco. Assim, desperdiçamos tudo de bom que ela pode nos proporcionar”.</p>
<p>Tornei a discordar. Falei que ele estava enganado, pois todos, até mesmo os brutos, conhecem o amor. O monge concordou em parte: “Sim, contudo o mero fato de amar não significa entender toda a extensão e a capacidade do amor. Mergulhar nesse conhecimento muda tudo. Literalmente.” Bebeu um gole de café e prosseguiu: “Muda a si mesmo, muda as pessoas à sua volta, muda o mundo. Muda o olhar sobre todas as coisas, relações e o seu destino. Muda a régua, o passo e o compasso da vida.”</p>
<p>Falei que aquela retórica não passava de uma bela poesia sem qualquer utilidade prática. O bom monge não desistiu de me fazer entender e foi mais pedagógico: “Por exemplo, você agora está sofrendo de saudades em razão da partida do seu avô. A saudade vem sendo injustiçada através dos tempos pela incompreensão quanto ao seu valor. Tememos a saudade quando, em verdade, deveríamos abraçá-la. A saudade é a presença do amor como essência, mesmo quando a ausência física se faz presente. É o amor sentido independente de ser tocado. É o amor de quem ama a liberdade”. Fechou os olhos como se buscasse as palavras no fundo do coração e disse: “Só há saudade onde existe amor. Sem este não haverá aquela. Apenas sentimos saudade daquilo que é maravilhoso. Então por que amaldiçoar a saudade? Por que sofrer por sentir saudade? A saudade mostra que a história foi bonita, que aquele capítulo da vida valeu a pena ser vivido. O contrário da saudade é o vazio, é a página que nos recusamos a escrever. Que possamos dançar com a saudade nos infinitos bailes da vida!”</p>
<p>Argumentei que aquelas palavras eram fáceis para quem não está sofrendo por amor. O Velho fez um gesto com a mão como quem diz que eu insistia em não entender e vaticinou: “Ninguém sofre por amor!”</p>
<p>Quase pulei da cadeira diante de tamanho espanto. Como ninguém sofre por amor? Eu era testemunha de quanto o amor nos causa dor. O Velho tentou me esclarecer: “Entendo o seu sofrimento diante da partida inesperada do seu avô para outros importantes ciclos de aprendizado. Mas o que faz doer é o egoísmo de querer o outro fisicamente ao seu lado ao invés de se alegrar com a viagem dele para uma nova esfera, condizente às lições pertinentes ao seu atual momento evolutivo. O que o egoísmo teima em mostrar como uma perda, o amor revela como transformação. O véu das sombras nos impede a perfeita visão dos laços de amor unindo todos os corações pela eternidade. Sofremos com determinada situação apenas por não entender todo o amor possível e cabível naquele momento. Ao contrário de como se acredita nas margens do conhecimento, o amor não é a causa da dor. É justamente a falta de amor que nos faz sofrer.”</p>
<p>Insisti que o monge estava enganado. Lembrei que sempre amei as mulheres que fizeram parte da minha vida; no entanto, as separações tinham sido dolorosas. O Velho balançou a cabeça e tentou me ajudar no raciocínio: “Nada mais comum e vulgar do que sofrer por ciúme e culpar o amor. O ciúme é uma sombra ancestral ligada à dominação do outro, à imposição do seu desejo sobre o desejo alheio. Em verdade, ao contrário do que se fala, o ciúme nada tem a ver com o amor. O amor está ligado à libertação do ser. Qualquer vontade contrária ao sentimento de liberdade está vazia de amor. Por não entender, transferimos injustamente o débito dessa dor para o amor. Em verdade, sem amor não há como se perceber prisioneiro no cárcere da dor. Sem amor é impossível viver a liberdade”.</p>
<p>Ponderei que não era apenas nas relações afetivas que o amor causava sofrimento. Acrescentei que viver era um processo doloroso. O Velho me olhou com paciência e disse: “Sofremos por que teimamos em nos deixar impulsionar pelas paixões densas. Assim como o ciúme e o egoísmo, enquanto seguirmos as orientações do orgulho, da vaidade, da inveja, do medo, apenas para citar as sombras mais comuns que movem as paixões mundanas, continuaremos em ciclos recorrentes de dor. Superar essas paixões ao modificar e enobrecer os sentimentos que nos movimentam é a grande batalha da vida”.</p>
<p>“Todas as vezes que o sofrimento se avizinhar, vá ao encontro de si mesmo e se esforce para identificar as sombras que os provocaram. Caso a dor tenha chegado pelas mãos do orgulho e da vaidade, por exemplo, passe olhar a situação através dos óculos da humildade e da compaixão. Então, encante-se com a leveza do inusitado”. Fez uma breve pausa antes de concluir: “Essa é apenas uma das inúmeras possibilidades oferecidas pelas virtudes, as maravilhosas ferramentas do amor”.</p>
<p>“O indivíduo sofre por ainda não ter entendido que toda a felicidade, paz, dignidade, liberdade e amor que todos procuram, consciente ou inconscientemente, estão dentro de si. Encontrar essa plenitude é a grande aventura da vida; compartilhá-la com o mundo, a eterna fonte de alegria”.</p>
<p>Reclamei que o planeta estava desprovido de amor, era como um grande jardim abandonado. O monge balançou a cabeça em negação e disse: “Sentir-se amado é uma das maravilhosas dádivas da vida e acaricia a ego de todos. No entanto, a alma precisa oferecer amor para se sentir inteira. Entenda que o amor que eu recebo não é meu; ele ‘está’ comigo. Logo, é dependente do outro e pode se tornar variável e efêmero. De outro lado, o amor que entrego é meu por completo, por fazer parte da minha essência, por ‘ser’ comigo. É preciso entender que o amor que tenho não é aquele que recebo, mas tão e somente o amor que sou capaz de oferecer. Lembre que ninguém pode dar o que não tem. Logo, se não consigo entregar é porque não o possuo comigo. Se não o tenho, me resta um enorme deserto existencial. Ocorre que ao invés de criar condições para que o amor germine, transfiro ao outro a responsabilidade de cuidar de mim, como um insensato fardo, impossível de ele carregar por muito tempo. Então, surgem os conflitos com o mundo, pois desejo solucionar a aridez da vida ao exigir que os outros me entreguem as flores que me faltam e, em verdade, são justamente aquelas que me cabe cultivar. Faz-se necessário mudar esse padrão de comportamento que tanto sofrimento provoca; é indispensável cultivar um jardim íntimo para colorir e perfumar a própria vida. Este é o degrau primordial. Depois, será possível um segundo degrau ao sentir a alegria de oferecer aos outros as mesmas flores que antes exigíamos deles. Inverter a equação do relacionamento do nosso amor com o mundo permite a consolidação dos pilares da paz dentro de si e perante a toda a gente”.</p>
<p>O Velho se calou por instantes, como se soubesse que eu precisava metabolizar todas aquelas ideias, comeu um pedaço de bolo, e prosseguiu: “Os sofrimentos surgem à medida em que reagimos mal às contrariedades que os outros nos opõem. Nessas horas damos vazão ao ciúme, à inveja, à vaidade, ao orgulho, entre outras sombras. Abrimos mão de uma convivência digna e pacífica por não conseguir envolver o conflito na esfera de amor necessária. Transferimos responsabilidades e insistimos que nossas escolhas sejam acatadas pelos outros. As escolhas são as únicas ferramentas disponíveis para movimentar a verdade pessoal. A dignidade em respeitar a própria verdade se reflete na imprescindibilidade de respeitar a verdade alheia. As verdades pessoais têm diferentes tons a variar de acordo com os níveis de consciências alcançados. A harmonia entre os vários olhares possíveis em relação à vida apenas é possível quando revestidos de amor. Então, atinjo a fronteira da milenar sabedoria de agir no estreito limite da atitude que gostaria que outro tivesse em relação a mim. Isto é a dignidade das relações. Assim, a dignidade apenas se torna factível se houver amor em cada umas das minhas ideias, emoções ou gestos. Sem dignidade todas as relações se fundam em rascunhos mal traçados da boa vontade da nossa convivência conosco e com o mundo.”</p>
<p>Tornei a interromper para lembrar que todas aquelas palavras se tornavam impraticáveis quando o amor não era correspondido. Afinal, amor é troca. O monge franziu as sobrancelhas, como fazia quando aumentava a seriedade da sua fala, embora a sua voz permanecesse doce, e explicou. “Um dos erros mais crassos que escuto em todos os lugares é que ‘o amor é troca’. Fico imaginando o amor diante de um absurdo balcão de negócios, como algum personagem canastrão anotando em um improvável livro-caixa todo amor que deu entrada e saída, como se fosse possível, ou mesmo saudável, a contabilidade do amor. Seria como transformar em números o incomensurável; como se fosse possível descrever o invisível; como tornar pesado o que, para existir, precisa ser leve; como desmanchar o todo para virar nada. Amor é compartilhamento. É oferecer sem tributos ou contrapartida o que se tem de melhor; ou não será amor. Qualquer interesse fora da felicidade que se possa transmitir ao outro contamina o amor que, em reação, desaparecerá. A recíproca também se aplica e o faz surgir, como por magia, quando oferecido na sua forma mais pura. Sem entrega incondicional não haverá amor; na falta de amor, ainda que haja festa, nenhuma felicidade existirá”.</p>
<p>“Percebeu que enquanto falamos de amor abordamos questões essenciais como liberdade, paz, dignidade e felicidade? São os estados de espírito conquistados na plenitude do ser”.</p>
<p>“A plenitude está atrelada ao processo evolutivo. Em muitos lugares que passo, escuto definirem a evolução como expansão de consciência. Claro que não está errado, contudo não está de todo certo por restar incompleto. Eu pergunto, o que falta? Ora, falta ampliar a capacidade de amar para que sabedoria e amor andem sempre de mãos dadas. Sabedoria sem amor é como água pura derramada no chão que se torna lama sob os pés dos brutos”.</p>
<p>Falei que não era fácil viver por amor. O Velho deu de ombros e disse: “Ninguém disse que era fácil. É dificílimo, pois vivemos em um planeta movido por paixões densas, as quais, não se iluda, ainda temos total afinidade. Quando se tornar fácil viver por amor, significa estarmos de malas prontas para seguir rumo às Terras Altas.” Olhou-me com bondade e finalizou: “Embora não seja fácil, viver por amor é simples. A simplicidade, por não conter subterfúgios, máscaras ou mistérios, leva a uma profundidade desconcertante, pois leva ao âmago do ser. Apenas lá você poderá encontrar consigo mesmo e com todo o amor que lhe permitirá as mais impensadas transformações. Quando encontrar consigo ficará diante de Deus. Então, todo o poder lhe será possível. O amor é o caminho e, não por acaso, também o destino.”</p>
<p>O Velho pediu licença e se levantou. Estava na hora da palestra que ministraria naquele final de tarde no mosteiro. Fiquei observando ele se afastar com seus passos lentos, porém firmes. Fiquei na cantina, em silêncio, por um tempo que não sei precisar. Dentro mim, além das lições sobre o amor, ficou a sensação de que eu ainda desconhecia quem me habitava. Restou também uma irresistível vontade de ir ao meu encontro.</p>
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		<title>A lei do progresso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Oct 2017 10:24:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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<p>Eu estava sentado na varanda do mosteiro apreciando as belas montanhas que o acolhem quando se aproximou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Sempre com o seu jeito jovial, apesar da idade avançada, trazia duas canecas de café fresco e as acomodou na mesa ao meu lado. Sentou-se em uma confortável poltrona e brincou ao dizer para eu compartilhar com ele os meus pensamentos. Agradeci o café e confessei que questionava o fato de os textos sagrados afirmarem que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Enquanto Deus é perfeito, nós ainda nos esforçamos nos primeiros degraus do aprendizado. Argumentei que se a origem de todos os males do mundo é a prevalência das sombras pessoais sobre as escolhas virtuosas cabíveis a cada indivíduo, teria sido mais sensato que todos nós tivéssemos nascidos perfeitos, assim como Deus, evitando, desta forma, todas as tragédias e sofrimentos provocados pela humanidade contra si mesmo. Portanto, havia erro do criador quanto à elaboração da criatura. Ou um grave equívoco em relação aos textos sagrados.<span id="more-1941"></span></p>
<p>O Velho me olhou com doçura e paciência como quem já enfrentou a mesma questão muitas vezes e disse: “Não há nenhum erro, tanto em relação à criação quanto às palavras codificadas. Elas são como um mapa que apenas precisa da correta interpretação para levar o viajante ao destino desejado; um texto necessita de uma leitura que vá além das letras aparentes. Leve em consideração que as palavras sagradas não foram escritas para alguns, afastando definitivamente a ideia de privilégios; mas para todos, sem exceção. São sinalizações para nos auxiliar no constante exercício da lapidação pessoal, permitindo ultrapassar, aos poucos, cada fase dos inúmeros ciclos da vida: aprender a lição cabível naquele momento da existência, se transformar com ela, colocá-la em movimento ao compartilhar o melhor que floresceu em si e seguir adiante”.</p>
<p>“Como os níveis de percepção ainda são diversos e os textos são para todos, é preciso que caiba vários níveis de interpretação, de acordo com a consciência e o coração de cada indivíduo. Isto faz com que possamos aprender e ensinar uns com os outros, tornando preciosas as diferenças pessoais e culturais. Faz, também, com que as palavras sagradas sejam vivas e se modifiquem, não na forma, mas no conteúdo, à medida em que se avança na jornada evolutiva”.</p>
<p>Interrompi para tirar uma dúvida que tinha há tempos. Existem muitos textos das mais diversas tradições religiosas, filosóficas e metafísicas. Alguns muito antigos, outros mais recentes. Como saber quais textos são sagrados? O Velho sempre dizia que a verdadeira sabedoria é muito simples para que todos pudessem ter acesso a ela. As águas precisam ser claras para que possamos ver a profundidade do lago. A complexidade é apenas fruto da ignorância daqueles que tornam as águas turvas pelo medo de que os descubram nadando no lado raso do lago. Dessa vez não foi diferente. Ele explicou: “Sagrado é tudo aquilo que me torna uma pessoa melhor. O sagrado está em todos os cantos, escondido por detrás das coisas e das relações banais do mundo à espera que você o encontre. Toda palavra ou situação que me pacifique, amplie o sentimento amoroso para com toda a gente, destrua o cárcere sem grades das ideias que limitam a perfeita liberdade da alma, mostre a possibilidade da felicidade infinita e ventile a leveza do ser através das escolhas repletas de dignidade, são sagradas. Todo o texto, livro, filme, conversa, música ou poesia que trouxer em seu âmago, de alguma maneira e em qualquer das variantes, o conceito de que ‘devemos amar cada pessoa como a si mesmo’, não tenha dúvida, é sagrado. É sagrado por ser fruto da semente primordial”. Simples assim.</p>
<p>Agradeci com um sincero sorriso. No entanto, adverti o monge de que ele estava desviando o foco da questão central daquela conversa: não seria mais simples termos nascidos perfeitos e, desta maneira, evitar tanto sofrimento? O Velho devolveu o sorriso e se justificou: “Eu apenas fiz um preâmbulo sobre a beleza e a simplicidade do sagrado, além da importância das diversidades pessoais para o exercício do aprendizado. São pilares valiosos para sustentar o raciocínio que desenvolveremos a seguir”. Fez uma pausa, bebeu um gole longo de café e perguntou: “Todo pai amoroso deseja o melhor para os seus filhos, certo?” Eu concordei e o monge prosseguiu o raciocínio: “Imagine dois irmãos gêmeos, cujo pai, um homem muito poderoso, os separa logo no nascimento para que sejam criados de maneiras diferentes. Um deles, desde a infância, terá amplo acesso a todas as coisas que o dinheiro puder comprar. Basta um mero desejo. O outro será criado com as dificuldades inerentes ao mundo material, comum à grande maioria das pessoas e lhe será concedido apenas os meios necessários para realizar as suas conquistas, nunca sem o devido esforço”. Olhou-me com firmeza e acrescentou: “Vale ressaltar que não há qualquer demérito ou virtude, seja na riqueza, seja na pobreza; são apenas ferramentas de lições existenciais”. Em seguida, tornou a perguntar: “Qual dos filhos foi privilegiado pelo pai?” De pronto respondi que era o filho criado na fartura e na riqueza.</p>
<p>O Velho sorriu com doçura, balançou a cabeça em negação e explicou: “O compromisso na execução de todas as fases de uma conquista obriga ao indivíduo a buscar o aprimoramento, seja na execução da tarefa, seja nas relações para com os outros ou diante de si mesmo. Isto, quando bem aproveitado, o fortalece. Desse processo surge a necessidade de inventar a si próprio e a todas as coisas ao seu redor, não como uma sombria fuga da realidade, mas como esforço de ampliar limites, de mover o entendimento de que tudo pode ser diferente e melhor para que haja progresso. A vontade de ultrapassar fronteiras, de ir além de si mesmo, é uma força irreprimível. É o ânimo da alma. O trabalho antecede ao progresso; sem aquele não há este. A jornada da transformação se destina à evolução. Sem aquela não existe esta. O avanço tem como característica todo e qualquer movimento em prol da luz. É a antítese da estagnação, que tanto sofrimento traz”.</p>
<p>“Assim nasce o perfeito”.</p>
<p>“Sempre existe uma profundidade além da superfície; uma essência por detrás da aparência. Ela reside no entendimento e no movimento pela conquista, não do mundo nem do dinheiro, mas das transformações pessoais que se mostram indispensáveis no prosseguimento da jornada, do descobrimento do infinito poder de superação pessoal. A beleza da perfeição está na transformação do imperfeito; a magia da plenitude apenas é possível quando buscada nos confins da incompletude; a sabedoria do todo reside na descoberta da plenitude por cada uma das partes que o compõe. A plenitude permitirá, na régua do seu progresso, a conquista das riquezas imateriais e infinitas: a paz, a liberdade, a felicidade, a dignidade e o amor incondicional, justo aquele com o qual envolvemos o outro no mesmíssimo sentimento que desejamos a nós”. Olhou-me nos olhos e disse: “Amar um ente querido é fácil; a virtude está em amar quem nos magoou. Isto difere o forte dos fracos e definem as histórias que valem a pena ser contadas. Se vierem prontas perderão o enorme encanto, o valor, o sentido e a sabedoria. De que vale uma história da qual exista apenas o último capítulo? Os melhores filmes são os que narram episódios de superação. Não há como forjar o aço de uma boa espada sem expô-la ao fogo”.</p>
<p>“No entanto, voltando a nossa questão, repare bem, enquanto um filho trabalhou, o outro foi servido. Contudo, você acha que ambos terão a mesma ótica e concepção em relação ao mundo? Qual deles terá uma percepção estrutural mais aprimorada? Uma relação mais afinada com a vida? Qual dos filhos terá melhores condições de deixar um legado de aprendizado para quem vier atrás?” Antes que eu pudesse me manifestar, ele repetiu a pergunta: “Qual dos filhos foi privilegiado pelo pai?” Eu mudei a resposta e disse que tinha sido aquele que o pai havia fortalecido através do trabalho.</p>
<p>O monge arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Errado. O lago é um pouco mais profundo”. Diante do meu espanto, ele explicou: “Existem preciosas lições tanto em uma situação quanto em outra, adequadas as necessidades de cada ser. Pensar que o filho que teve a facilidade e o conforto do dinheiro foi privilegiado é um erro. De outro lado, julgar que ele foi preterido é também um erro”. Bebeu um gole de café e ampliou o raciocínio: “O filho que tem acesso ao luxo e as condições de pagar para que o sirvam ao menor desejo, ao contrário do que muitos imaginam, está diante de um difícil desafio evolutivo. Ele tem um grande trabalho a realizar. Não o mesmo trabalho do irmão que labuta por sua sobrevivência e nela extrai as lições que lhe são pertinentes. Porém, o filho rico precisa de um enorme esforço para encontrar razões para que a sua vida não escoe nos ralos da existência”. Franziu as sobrancelhas, como fazia quando aumentava o tom de seriedade na fala, e disse: “A vida de uma pessoa endinheirada precisa ter um sentido para que seja, de fato, próspera. É indispensável que este sentido esteja ligado a evolução espiritual”.</p>
<p>“A luta pela sobrevivência é um método valioso que, quando bem aproveitado, alavanca preciosas conquistas íntimas e incorpora o conceito de prosperidade. No entanto, não é o único nem o mais difícil. A renúncia pela vida luxuosa usada apenas como cortina diante das mazelas do mundo, a abdicação do conforto intramuros na disposição de transformar riqueza em prosperidade ao usá-la na propagação da luz, também exige muito esforço, sendo igualmente preciosa”.</p>
<p>“Riqueza ou pobreza são somente desafios evolutivos existenciais, portanto, temporários. Prosperidade é andar no lado luminoso do Caminho, independente das condições oferecidas”.</p>
<p>“Não raro, escuto histórias tristes de depressão e desânimo oriundas de milionários que não souberam usar o dinheiro como ferramenta de transformação espiritual. O ego se agigantou na exata medida em que a alma foi emudecida. Insistiram em uma existência vulgar sem abdicar dos privilégios e sem aproveitar a abundância material para abraçar a semeadura do bem. Passaram pela vida como se apenas os prazeres sensoriais, a ostentação, o luxo, o orgulho e a vaidade tivessem importância. É uma pena o desperdício de tamanha oportunidade. De outro lado, percebo igual desperdício, apenas com outra roupagem, por parte de pessoas que vivem revoltadas e lamentosas em relação às dificuldades materiais que a vida lhes presenteou, dispensando tempo e energia em reclamações infrutíferas e emoções sombrias de injustiça quanto ao destino”. Fez uma pausa e complementou: “Sim, abundância ou escassez são presentes. Como todo presente pode ser bem aproveitado ou acabar no lixo”.</p>
<p>“De um modo ou outro, o trabalho é indispensável ao progresso. Sem aquele não haverá este. A evolução pessoal é a transformação sem a qual o mundo não avançará”. Fez uma pausa e lembrou: “Mestre Jesus certa vez disse: “Vocês podem fazer tudo o que faço e ainda mais”. Isto significa a evolução através do aperfeiçoamento das virtudes pessoais. Este planeta é uma escola formadora de admiráveis mestres. A Lei do Progresso é a Lei da Perfeição. Ela é inexorável e atingirá a todos; contudo, o trabalho lhe é uma condição indispensável”.</p>
<p>Ficamos um tempo sem dizer palavra para que eu pudesse acomodar os novos conceitos em seus devidos lugares. Até que eu quebrei o silêncio para falar que entendia a metáfora que ele fazia quanto ao dinheiro. Era preciso entender não apenas o valor da conquista da luz, mas também a melhor utilização dela, a luz, em prol da superação de si mesmo e a favor de todos. É a outra face da mesma lição. O Velho sorriu, sacudiu a cabeça em concordância, e concluiu: “Então voltamos ao início da nossa conversa quando eu falei que tudo aquilo que nos torna uma pessoa melhor é sagrado. Disse, ainda, que o sagrado se esconde nas situações mundanas. Tanto a escassez quanto a abundância são apenas instrumentos temporários que servem às lições pertinentes ao indivíduo, podendo se tornar profanas ou sagradas. Depende da aplicação que dermos à ferramenta. Um martelo é usado tanto na demolição quanto na construção”. Deu de ombros e finalizou: “A escolha é sua e estará de acordo com o trabalho que você estiver disposto a realizar”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O sapateiro, o industrial e a ironia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Oct 2017 06:15:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Eu andava pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro na incerteza de encontrar a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, famoso por costurar o couro como ofício e as ideias como arte, ainda...]]></description>
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<p>Eu andava pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro na incerteza de encontrar a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, famoso por costurar o couro como ofício e as ideias como arte, ainda aberta para um café fresco e uma boa prosa. Como a sua oficina era lendária na região por funcionar em horários inusitados e incertos, fiquei feliz, quando ao dobrar a esquina, avistei a sua clássica bicicleta, o único meio de transporte que se permitia usar dentro da cidade, encostada no poste em frente à loja. Neste mesmo instante, um reluzente Mercedes-Benz estacionou em frente à oficina. O chofer desceu para abrir a porta de trás e achei ter visto Loureiro sair do carro. Estranhei de imediato. Ao me aproximar, os meus olhos ruins perceberam não se tratar do sapateiro, mas de alguém muito parecido com ele. Quando entrei na loja tudo foi esclarecido. Tratava-se do irmão de Loureiro; embora tivessem uma grande semelhança física, não eram gêmeos. O artesão nos apresentou. Ele se chamava Sergei e era dois anos mais moço. Polido e educado como Loureiro, no entanto, de pronto percebi que as semelhanças se esgotavam ali. Tinham elegâncias distintas, diferentes interesses e olhares opostos em relação à vida. Sergei também não tinha o sorriso fácil do sapateiro. Muito sério, fez questão de dizer que não dispunha de muito tempo, pois era um empresário muito ocupado. Como proprietário de uma grande fábrica de tecido em uma região industrial distante a muitas horas dali, não poderia desfrutar da companhia do irmão por mais do que alguns poucos minutos. Loureiro foi passar um café fresco enquanto nos acomodávamos ao balcão. Perguntei ao Sergei o que ele fazia na pequena cidade. O empresário contou que viera trazer uma senhora, dona de uma grande rede de lojas que absorvia boa parte da produção de sua fábrica, para conhecer o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Acabara de descer da montanha e a cliente seguira a viagem em seu próprio carro. Então, ele viera dar um abraço no irmão e logo voltaria para a fábrica. Eu quis saber como havia sido o encontro com o Velho. Ele esclareceu que tinham chegado de surpresa, sem avisar. Entretanto, o monge estava ocupado, ministrando uma palestra no mosteiro, e pediu para que eles retornassem na manhã seguinte, quando os atenderia. Indaguei se eles tinham combinado o encontro e Sergei, esclareceu que não.  Sugeri que pernoitasse para que pudesse jantar conosco. Acrescentei que a cidade, embora acanhada, era conhecida por seus excelentes restaurantes, alguns renomados mundo afora. Falei, ainda, que subiria ao mosteiro logo cedo e poderíamos ir juntos. Ele lamentou, mas não tinha tempo para isso, pois os seus negócios possuíam uma dinâmica intensa e ele era um industrial muito solicitado, com a agenda repleta de compromissos e reuniões. Sibilou que capitalizara prejuízos financeiros e profissionais naquela viagem, pois deixara de fechar alguns negócios e teria que lidar com a decepção da cliente que não conseguira falar com o Velho, como ele, Sergei, prometera. Acreditou que a amizade do irmão com o monge facilitaria o encontro. Em seguida, com um comentário irônico, sugeriu que o Velho “estava ocupado, treinando para substituir Deus”.</p>
<p><span id="more-1916"></span>Não achei graça. Nem Loureiro, que colocou três canecas fumegantes sobre o balcão e se sentou ao nosso lado. Delicado, se virou para o irmão e disse: “A vida de ninguém é mais nem menos importante do que a de outra pessoa. Cada qual com as suas prioridades. Os valores estarão sempre na exata régua do nível de consciência e da capacidade amorosa de cada indivíduo. Cada um com suas dores e delícias, suas sombras e luz”. Insatisfeito, o industrial falou que tinha perdido tempo ao ir na fábrica de ilusões, como ele chamou o mosteiro, ao invés de continuar trabalhando na sua fábrica de tecidos. O sapateiro bebeu um gole de café e disse: “O seu comentário, embora tenha a clara intenção de depreciar o monge, no fundo e em essência, não passa de uma falta de respeito, não ao Velho, que seguirá pleno em sua jornada, mas a si mesmo. A ironia fala da sua incapacidade em lidar com as próprias decepções, com as diferenças inerentes à vida e com as escolhas alheias. Isto demonstra o quanto ainda não entende o verdadeiro conceito de liberdade”.</p>
<p>Sergei discordou por completo. Argumentou que a sua fábrica garantia a sobrevivência de centenas de funcionários e, por consequência indireta, de milhares de pessoas se levasse em conta as suas respectivas famílias. Disse, ainda, que pessoas como ele não podiam se dar ao luxo de errar. A sua responsabilidade era tamanha que uma decisão equivocada poderia acarretar em uma queda na produção fabril gerando muitos desempregos. Ao contrário do monge, que vivia a distribuir “biscoito chinês da sorte” e “elixir da eterna felicidade” sem maiores consequências. Irritado, falou que, ao contrário do que ocorria no mosteiro, era na sua fábrica que acontecia, todos os dias, o mundo real. Acrescentou que “nenhum supermercado aceita as ideias pregadas por um sonhador como forma de pagamento”. Falou que religiosos e místicos vivem a “navegar nos ventos do mundo que empresários, como eu, sopram e, portanto, devem ter mais consideração e reverência ao nos receber”.</p>
<p>Sem perder a serenidade, Loureiro expôs ao irmão uma outra face: “Todas as pessoas vivem, enquanto nesta existência, em equilíbrio entre as atividades externas e internas. É justamente a falta de harmonia entre as várias esferas do ser que causa toda a dor. Há que se alimentar o corpo para que não caia em fraqueza pela falta de condições básicas de sobrevivência. No entanto, de imenso valor é cuidar do espírito para que a vida não se perca em inanição, sem a cor e a beleza do seu melhor sentido, sem o qual não se conseguirá aproveitar o melhor que há em todas as coisas, pessoas e, acima de tudo, em si mesmo”. Fez uma pausa antes de concluir: “Toda a razão, motivação e força do planeta se tornará efêmera na volatilidade dos minutos sem o encanto e o poder da iluminação do espírito”.</p>
<p>Sarcástico, Sergei fez questão de passar os olhos como que medindo o pequeno espaço da oficina do irmão antes de argumentar que o espírito era a surrada consolação dos fracassados. Loureiro deu de ombros e disse: “Tudo é uma questão de como cada um consegue entender o significado de sucesso e vitória”. O industrial se mostrou surpreso com o absurdo do raciocínio. Disse para o sapateiro comparar a vida deles dois e dizer quem tinha atingido o sucesso na vida, quem era o vitorioso. Loureio respondeu com bondade: “Você, se a régua usada for o dinheiro e o prestígio social. No entanto há outras medidas para o sucesso e diferentes conceitos sobre o verdadeiro significado da vitória”. O irmão pediu para ele falar de maneira mais clara. O artesão explicou: “O sucesso pode estar em um lugar impensado para muitos: nos estados de plenitude do ser, por exemplo. A grande vitória pode não estar na conquista do mundo, mas na iluminação das sombras internas que tanto sofrimento provocam”.</p>
<p>“Isto, em parte, ajuda a explicar a necessidade do uso da ironia como arma. A ironia se caracteriza pela tentativa de destruir tudo aquilo que o indivíduo não consegue entender ou conviver em paz e, por isto, o incomoda. Mostra uma derrota sobre si mesmo; aquela que o ego não se permite admitir e a alma segue amordaçada”.</p>
<p>O empresário interrompeu para dizer que não acreditava em alma. Ele tinha convicção no trabalho e no progresso. Loureiro rebateu ao dizer: “A alma também. Trabalho e progresso são leis espirituais de cunho universal. No entanto, se faz necessário entender o sentido que se aplica ao trabalho para que dele gere o progresso. O objetivo do trabalho não deve ser a riqueza, mas a prosperidade. A riqueza está ligada ao acúmulo de bens; a prosperidade ensina o melhor uso dos bens, independente de serem fartos ou escassos. Portanto, a importância de cada trabalho não se mede na quantidade de dinheiro que se ganha, mas se traduz na qualidade das razões e dos sentimentos aplicados à obra. Felicidade, amor, dignidade, paz e liberdade podem ser boas referências”. Sergei rebateu dizendo que todo aquele discurso era uma grande bobagem e servia apenas para justificar o fracasso profissional do Loureiro. Acrescentou que era impossível que alguém pudesse ser feliz tendo como local de trabalho uma “lojinha um pouco maior do que um ovo”. Ofereceu para o irmão largar o atelier e trabalhar com ele na fábrica, onde ganharia muito mais. O artesão agradeceu, mas recusou de maneira gentil.</p>
<p>O industrial disse que a ironia era uma ferramenta muito útil para desnudar uma situação e escancarar a verdade. Loureiro discordou por completo: “A ironia é uma violência camuflada através de um comentário com a pretensão do indivíduo parecer inteligente ou engraçado. De fato, muitas vezes angaria risadas e aplausos. Entretanto, além da aparência, revela toda a inadequação quanto às liberdades fundamentais. A liberdade sustenta as diferenças de ser e viver que são de enorme importância para o questionamento e consequente evolução das ideias e dos comportamentos da humanidade. Não raro, a ironia está ligada à intolerância”.</p>
<p>O empresário demonstrou uma falsa surpresa ao comentar que “desconhecia a proibição das críticas”. Loureiro manteve o tom tranquilo: “As críticas serão sempre bem-vindas. Todavia, a crítica apenas se completa caso seja elaborada para iluminar, educar e construir. Qualquer comentário que tenha por objetivo depreciar, ferir ou lançar um manto de escuridão, acaba por se tornar uma ofensa. A violência verbal não precisa necessariamente de palavrões. A ofensa nunca fez com que a humanidade avançasse um único milímetro sequer. Se prestarmos atenção perceberemos que a ironia fala mais em relação ao arqueiro do que sobre o alvo”.</p>
<p>Bebeu mais um gole de café e prosseguiu: “A crueldade da ironia ou do sarcasmo está em isolar determinada situação de todo o contexto que envolve uma pessoa e a revestir com as tintas do ridículo com o objetivo de torná-la uma pessoa sem qualquer valor, moral ou qualidade. A ironia é a agressividade de arlequim para disfarçar a violência das suas intenções. É a arma daqueles que não conseguem enfrentar a questão com todas as dificuldades inerentes aos relacionamentos pessoais; apenas desejam um atalho para que a sua vontade se sobreponha e alimente a ilusão de que são maiores e melhores do que o outro. Perceba o quanto de orgulho e vaidade embalam cada ironia”. Fez uma pequena pausa e prosseguiu: “A força do sarcasmo surge na medida que desaparece o poder do amor e da sabedoria no indivíduo que a profere. Indivíduos irônicos ou sarcásticos sempre são pessoas, que no fundo, carregam uma enorme amargura da qual não conseguem dar conta. A ironia é quando essa amargura se apresenta fantasiada nos palcos do mundo”.</p>
<p>Sergei agradeceu “toda aquela filosofia de botequim”, disse que gostaria de continuar, mas tinha muito trabalho o esperando na fábrica e que qualquer dia ligaria para o irmão ir visitá-lo. Acrescentou que a oferta de emprego continuava válida. Tirou do bolso do paletó uma caixa de ansiolíticos e tomou um comprimido com o resto do café que ainda restava em sua caneca. Sem que ninguém nada perguntasse, mostrou a caixa de remédios e fez questão de dizer que era “o preço do sucesso”. Pelo celular chamou o chofer. Em instantes o Mercedes-Benz do empresário estacionou bem ao lado da bicicleta de Loureiro, que descansava junto ao poste em frente à pequena sapataria. O industrial olhou para os meios de transporte usados por ambos, depois se virou para o irmão perguntou se ele “entendia a diferença”. Loureiro balançou a cabeça em concordância: “Sim, claro. No entanto, esta é apenas a ponta visível de um enorme iceberg existencial. Esses objetos estão na superfície de nossas vidas. Em essência, a diferença é bem mais profunda do que um carro e uma bicicleta. Estes apenas movem os nossos corpos; precisamos entender o que movimenta os nossos espíritos”.</p>
<p>Depois que o irmão se foi, Loureiro se levantou para tornar a encher as nossas xícaras. Comentei que sempre acreditei que o bom-humor fosse uma virtude. O sapateiro colocou as canecas fumegantes sobre o balcão e disse: “Sem dúvida. O bom-humor é uma virtude muito apreciada nas Terras Altas; espíritos iluminados nunca são ranzinzas nem sisudos. Bem diferente da ironia, o bom-humor se caracteriza pela lucidez de escolher a alegria como viés do Caminho. A ironia é a zombaria; o humor é a brincadeira. A ironia é ferina; o bom-humor é lúdico. A diferença entre a zombaria e a brincadeira é que zombamos de tudo aquilo que detestamos ou não compreendemos; de outro lado, brincamos com as situações e as pessoas que amamos”. Bebericou o café e finalizou: “A ironia é o triunfo do narcisismo e da amargura; o bom-humor é a vitória do amor e da alegria”.</p>
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		<title>O guardião e o mestre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Oct 2017 21:17:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS III]]></category>
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<p>A palestra que o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha ministrado em uma conhecida universidade versava sobre a necessidade do equilíbrio entre o ego e a alma. Ele aproveitou uma figura de linguagem usada por Teresa D’Avila ao comparar o íntimo de uma pessoa como a um castelo de muitos cômodos. Em cada quarto habita um sentimento ou uma ideia. Alguns densos e pesados, outros leves e sutis. No portão de entrada, em contato direto com o mundo, está o ego. Na sala do trono, no interior do castelo, centro das decisões primordiais, mora a alma. O bom funcionamento do castelo vai depender da capacidade de harmonia e conexão entre os seus moradores. Embora o conceito não seja novo, é pouco conhecido e transitou durante séculos apenas entre monastérios e irmandades esotéricas. Ao final da explanação houve muitos questionamentos, dúvidas e material para reflexões posteriores. Esta era a intenção do bom monge. Quando estávamos de saída, ele perguntou pelo professor de estatística Carl Bacon, seu contemporâneo quando cursou economia em uma universidade inglesa, com quem tinha construído uma sólida amizade. Foi informado que o professor Carl estava de licença em razão de uma forte depressão, tinha desistido da cátedra e poucos acreditavam que ele retornaria a dar aulas. O Velho se mostrou preocupado e quis saber onde encontrá-lo. Disseram que ele pouco saía de casa, salvo para passear, solitário e a esmo, pelo bosque da universidade. Acrescentaram que não teríamos dificuldade para achá-lo.<span id="more-1893"></span></p>
<p>Como o trem que nos levaria de volta ao mosteiro partiria somente à noite, aceitei passear pelo belo jardim que existe em torno da universidade. Enquanto andávamos, o monge contou que Carl sempre fora um homem alegre, namorador e vivia cercado de gente; assim como o Velho, era um apreciador de boa cerveja e de futebol. Localizamos o professor sentado sozinho em um banco de madeira, vestindo um sobretudo e um chapéu de lã para se proteger do frio. Tinha um olhar perdido e triste. Quando viu o Velho esboçou um sorriso; uma lágrima ameaçou escapar. Sentamos ao seu lado. Perguntado sobre a razão daquela depressão, Carl respondeu que nada mais parecia ter força para animá-lo, mas que já estava sendo medicado. O monge contrapôs: “Os remédios podem aliviar alguns sintomas, mas não o levarão à cura. A depressão é uma tristeza profunda; embora reflita no corpo, é uma questão da alma”.</p>
<p>O professor deu de ombros e disse que, embora ouvisse falar desde sempre, nunca entendeu o significado da alma. O Velho explicou: “A alma é a essência do ser, o eu profundo. Alma é a força-motriz que anima a vida, a verdadeira identidade de cada um de nós. Diferente do ego, aquele personagem ocupado nas questões aparentes e triviais da vida, que embora tenham importância, principalmente enquanto nesta viagem existencial na terceira dimensão, afinal, todos têm necessidades básicas de sobrevivência e contas a pagar, é na alma que tratamos dos assuntos primordiais à vida. Na alma está parte oculta do todo à espera do movimento; como um sol guardado dentro de uma caixa que quando aberta irá afastar todo o frio e escuridão do ser. É o algo a mais, é você além da existência rasa”.</p>
<p>“A alma é como a raiz capaz de metabolizar a seiva que alimenta a árvore na produção de folhas, flor e frutos. Uma raiz fraca gera uma árvore seca”.</p>
<p>O Velho tornou a trazer os conceitos do <em>Castelo Íntimo</em>, de Teresa D’Avila, para se fazer compreender pelo amigo: “O ego cuida da portaria do castelo. A alma está na sala das questões primordiais. Entre os dois cômodos, muitos quartos habitados por inúmeros sentimentos e ideias os separam. A falta de sintonia entre eles, ego e alma, causa alvoroço entre os demais moradores; faz com que a voz da alma, aos poucos, perca força e poder, até não mais se ouvir. Sem comando o castelo resta bagunçado com enorme confusão de emoções e pensamentos desordenados, que atravessam o portão para ir ao mundo, sempre com muito barulho e pouca melodia. A falta de sintonia entre o ego e a alma faz com que o castelo fique em ruínas”.</p>
<p>“O castelo do ser sempre quebra de dentro para fora. Quando a fachada se mostra descolorida significa que o interior resta destruído há tempos”.</p>
<p>Carl quis saber o que a sua depressão tinha a ver com aquelas palavras. O Velho foi pedagógico: “A depressão, assim como os demais sofrimentos emocionais representam a insurreição da alma. Um grito de quem precisa ser ouvido, um pedido de socorro daquele que deseja ser salvo. Todas as vezes que sofremos significa que algo precisa ser redesenhado e reconstruído no íntimo. O ego sofre quando não consegue defender o portão do castelo, que acaba violado por uma horda de sentimentos bárbaros. No entanto, isto somente acontece quando a alma emudece e não mais escutamos a sua voz. São as orientações e fundamentos da alma que sustentam a melhor atividade do ego”.</p>
<p>“A alma é a perfeita proteção contra as intempéries e ataques do mundo. Para tanto, precisa que o ego se alinhe a ela e que os demais moradores do castelo estejam equilibrados e em harmonia ao seu pleno comando. O bom funcionamento do castelo é a plenitude do ser”.</p>
<p>De maneira educada, Carl pediu para que o amigo não o levasse a mal, mas ele não acreditava na alma nem se interessava por quaisquer assuntos metafísicos. A sua vida tinha sido vivida entre os números. Ressaltou que era um estatístico e gostava da precisão que a matemática oferecia. Sentia-se seguro na exatidão das fórmulas científicas. O Velho balançou a cabeça em concordância: “É inegável o valor da matemática para o progresso da humanidade. No entanto, como escreveu o alquimista lisboeta, ‘navegar é preciso, viver não é preciso’. As emoções e os indispensáveis relacionamentos furtam a precisão da existência. Justo neste ponto está a riqueza da vida e a beleza da alma”.</p>
<p>O matemático pediu para que o monge aprofundasse o raciocínio. O Velho não se fez de rogado: “Quando ainda temos o castelo desarrumado, os moradores se desentendem e brigam entre si, dando origem às decepções e mágoas. As frustrações não têm causa nos comportamentos alheios, mas em nossos conflitos internos, na bagunça entre os sentimentos e as ideias que habitam o castelo, na fragilidade da percepção de quem somos em razão do distanciamento entre o ego e a alma. Então, não raro, tentamos consertar as ruínas com uma mera pintura nas paredes externas, enfeitando as janelas com flores coloridas ou promovendo distraídas festas na tentativa de preencher os quartos vazios que, de alguma maneira, incomodam”.</p>
<p>“Algumas vezes, o ego, quando desorientado, abandona o seu importante posto junto ao portão para se esconder no porão escuro do castelo, como maneira de negar ou escapar da realidade. Então, afunda-se na tristeza e acaba dominado pela depressão. O inimigo que o aprisiona, embora suscetível às arruaças do mundo, na verdade, nunca vem de fora, mas da falta de harmonia, comunicação e conhecimento entre os próprios moradores do castelo”.</p>
<p>“Insistimos em resolver cuidando da aparência em esquecimento à essência. Buscamos na superfície o que somente encontraremos na profundidade. Lá não encontraremos equações matemáticas, mas o próprio ser, a alma”.</p>
<p>“Somente a alma tem o poder de equilibrar as emoções desalinhadas e curar aquelas que, por ventura, estejam em sofrimento. Contudo, a alma espera na sala central do castelo e necessita que o ego, a leal sentinela do ser, leve até ela cada um dos moradores que ainda precisam de instrução e educação. Isto trará força, equilíbrio e serenidade ao ego em suas relações e funções nos portões do mundo. Apenas assim o castelo ficará harmônico e inexpugnável às intempéries e invasões bárbaras”.</p>
<p>Sempre gentil, Carl alegou que sempre teve dificuldades com o misticismo. O Velho o olhou nos olhos e perguntou: “Você acredita em si mesmo?” O matemático pareceu estranhar o questionamento e o monge prosseguiu: “Você não foi capaz de enfrentar e vencer inúmeros problemas de elevado grau de dificuldade dentro do universo complexo da matemática?” O professor concordou com a cabeça. O Velho continuou: “Isto demostra a fantástica força de superação que você traz em si. Quem já ganhou uma batalha pode vencer todas. Para tanto, basta que entenda quem você é e acredite em sua própria força. Isto é fé. Afinal, se a alma é sua essência, a face sagrada e a parte do todo que habita em ti, acreditando ou não em sua existência, quando você movimenta esse poder pessoal no sentido da luz, em prol da evolução e da cura, todo o universo estará em comum-união contigo”.</p>
<p>Carl questionou como todas aquelas palavras poderiam ajudar na depressão que enfrentava. O Velho disse com o seu jeito doce: “A quietude e a solidão têm muito valor quando bem utilizadas. Ao invés de usá-las como ferramentas de tortura, aproveite-as como pontes para ir ao encontro de si mesmo. Busque na memória afetiva, com sinceridade e coragem, qual o fato, ou os fatos, que serviram de gatilho para desencadear o sofrimento que o abate. Você verá que são aqueles que invadiram o castelo, feriram o ego, desarrumaram os quartos, oprimiram os demais moradores e sitiaram a alma na prisão do esquecimento. Leve cada acontecimento desagradável até a sala íntima da alma. Lá existe um armário com muitos frascos sagrados de cura. Cada um deles contém uma virtude. Disseque cada fato doloroso e se permita enfrentar as feridas emocionais que tanta dor provocam. Trate-as com os elixires da humildade, da compaixão, do perdão, do amor, entre vários outros disponíveis. Aprenda o absoluto poder curativo contido em cada um deles. Toda a cura apenas se revela na essência do ser. Lá está a plenitude oculta em si mesmo. Lá está a alma, à sua espera”.</p>
<p>Aproveitei um instante de silêncio para lembrar do horário da viagem de volta. Os amigos se despediram com um forte e sincero abraço. Carl agradeceu a boa vontade e disse que amadureceria aquelas palavras. No trem, palpitei que a promessa do professor em pensar na retórica oferecida pelo monge teria sido mais por educação do que por convicção. A minha observação não abalou ao Velho: “Indiquei um caminho que não apenas acredito, mas que trilho pessoalmente. Como diz o alquimista do Recôncavo, ‘é apenas um jeito de corpo, não precisa ninguém me acompanhar’”.  Argumentei que Carl era um intelectual muito festejado por seus pares. O monge contrapôs: “Por vezes, grandes inteligências cognitivas acabam por relegar outras inteligências, como a emocional e a espiritual. Então vem o desequilíbrio”.</p>
<p>O Velho olhou nos meus olhos e finalizou: “Todo o sofrimento, em verdade, é o descompasso entre o ego e a alma. O ego é o guardião do castelo; a alma, o mestre. Quando aquele não escuta este, tudo fica tumultuado, sem sentido e vulgar”.</p>
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