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	<title>MANUSCRITOS II &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS II &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>Amar é uma arte de muitas virtudes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Dec 2016 17:28:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Eu acompanhava o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrava, quando recebi o convite para a festa de aniversário de oitenta anos de um parente muito querido. Seria na cidade em que eu morava e estávamos em outra bem...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Eu acompanhava o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrava, quando recebi o convite para a festa de aniversário de oitenta anos de um parente muito querido. Seria na cidade em que eu morava e estávamos em outra bem próxima. Convidei o Velho para ir comigo; ele aceitou de imediato. Confessei a minha contrariedade em encontrar alguns parentes com os quais restara rusgas do passado. Falei que na festa encontraria com um primo, que foi um dos meus melhores amigos na adolescência, mas que em determinado momento nos desentendemos e brigamos. Eu não lhe dirigia a palavra há anos. Pedi para que ele não estranhasse. O Velho comentou: “As cerimônias, sejam pessoais, familiares, profissionais ou religiosas são importantes rituais, não apenas de celebração da vida, mas de aproximação, não somente entre iguais, aqueles que vibram na mesma sintonia energética, porém, e tão importante quanto, é a chance de encontro entre aqueles que possuem divergências que necessitam ser pacificadas. A diferença no olhar nunca deve ser motivo para o distanciamento do coração. São as flores do respeito, da compaixão, da humildade, da paciência e da coragem indispensáveis no jardim do amor. Para amar não basta o bem-querer. O amor é uma arte de muitas virtudes”.<span id="more-1324"></span></p>
<p>Achei que o monge não havia me compreendido e resolvi me calar. Na festa apresentei o Velho para todos, que como de costume, logo angariou muita simpatia. Ele vestia um blazer escuro acompanhado de uma gravata borboleta colorida que parecia decorar a sua enorme barba branca. A bengala que o auxiliava nos passos, por vezes, parecia um malabar nas mãos de um artista. Era um homem sofisticado por sua simplicidade. A sua nobreza residia na atenção delicada a todos e a tudo que o cercava. Tudo corria bem até que em certo momento vi que aquele primo, o qual eu não falava, tinha se aproximado do monge e iniciado uma conversa. Para a minha irritação, eles conversaram por mais tempo do que deveriam e, pior, em determinados momentos chegaram às gargalhadas. Quando o Velho se aproximou não escondi a minha insatisfação nem os meus motivos: ele se divertia ao lado de um inimigo meu. O Velho, sem alterar a sua serenidade, me disse com a sua voz sempre suave: “Ninguém é de todo bom nem de todo ruim; ele não é meu inimigo nem deveria ser seu”. Falei que ele estava enganado quanto ao meu primo e não deveria se iludir pelo discurso encantador que possuía, pois na intimidade se revelaria uma pessoa bem diferente. O monge esclareceu: “Todos somos assim. Em convívio esparso podemos mostrar apenas o que temos de melhor e, não tenha dúvida, esta luz existe de verdade. No entanto, somente a intimidade arranca as máscaras que usamos na ilusão de nos proteger do mundo e arromba as portas do porão escuro do nosso ser. Então, mostramos as sombras que nos habitam. Isto também tem o seu lado bom, pois apenas conhecendo quem somos podemos nos tornar quem desejamos ser, em processo contínuo de transformação. A convivência intensa esgarça famílias, casamentos e amizades de longa data. Ou as tornam mais firmes, como guerreiros cujos laços restam fortalecidos após se ajudarem em árduas batalhas, em provas cruciais de amadurecimento e aprimoramento. Esses relacionamentos se tornam as mais belas obras de arte existentes, pois têm como matéria-prima a vida esculpida pela espátula do amor. Nenhuma tela, escultura, livro ou música será mais valiosa e profunda. Toda a arte, sem negar o seu valor, não passa de um decote amplificado da história da vida de cada um de nós”.</p>
<p>“Amar é a arte maior. Você é o artista; a sua vida é a grande obra. Anônima ou não, ela tem igual importância a todas as demais e, quando pronta, ao invés de repousar em um museu, embelezará os jardins da humanidade. O universo agradece, se expande e se ilumina. Isto lhe dá poder e o torna um ser encantado”.</p>
<p>Falei que tinha perdoado o meu primo, não lhe desejava mal, mas jamais esqueceria o que ele me fez. Apenas não mais desejava conviver com ele. Acrescentei que eu não era obrigado a isto. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Ninguém é obrigado a nada. No entanto, a todo o momento temos a escolha de manter o barco na tempestade ou buscar novos horizontes onde poderemos atravessar oceanos com alegria e em paz. Cada qual é o seu próprio capitão, definindo os mares que navegará e as praias que aportará. As suas conquistas e desastres. Não existe sorte tampouco cabe reclamações”. Pediu um copo d’água a um garçom, bebeu um gole e prosseguiu: “Quando não suportamos a convivência do outro significa que o perdão ainda não floresceu. O perdão está ligado a Lei da Renovação e das Infinitas Oportunidades, além da Lei do Amor. Absolutamente tudo precisa novamente virar semente para que a vida possa prosseguir. O renascimento é um poderoso instrumento da Luz”.</p>
<p>“Só existe Luz quando há amor; é impossível amar sem perdoar”.</p>
<p>“Para que haja perdão é necessário a virtude da compaixão, para entender que cada qual age no limite exato das suas capacidades. Nem mais nem menos. No entanto, todos mudam, se transformam e evoluem. Perdoar não é esquecer, isto é amnésia; perdoar é a capacidade de recordar os fatos envolvendo-os com um manto de compreensão quanto as limitações e motivações, de acordo com o nível de consciência e capacidade amorosa que todos tinham na época. Tanto ele quanto você. Então, se torna necessário o suporte de outra virtude, a humildade. Como exigir a perfeição do outro se não a temos para oferecer? Que tal ofertar o seu melhor e aceitar de bom grado o que o mundo tem a entregar, mesmo sabendo que quase nunca será aquilo que você espera? Assim fazem os espíritos livres. Isto é viver com amor e por amor”. Bebeu mais um gole de água e concluiu: “Não desejar mal ao outro não significa perdoar. Isto é apenas um importante degrau para o perdão. Combater o mal com o mal é usar a moeda suja das sombras. Recusar o jogo das sombras é o início da jornada de iluminação, do conhecimento, do equilíbrio, da plenitude do ser e da paz”. Pousou o copo sobre uma mesa e prosseguiu: “Não desejar o mal ainda está distante do verdadeiro poder do amor. É preciso exercitar o bem. Sem amor não há luz; sem luz nos mantemos na cela escura das sombras”. Interrompi para contestar. Argumentei que eu não estava aprisionado, apenas exercia o meu direito inalienável de não conviver com o meu primo. O Velho balançou a cabeça e disse: “Sim, as escolhas são suas e nelas residem todo o seu poder. Apenas elas transformam e libertam. No entanto, preste muita atenção, pois as piores prisões não têm grades e, por isto, não nos percebemos presos. Não há liberdade sem amor, não existe amor sem perdão, não existe perdão sem compaixão e humildade”.</p>
<p>Confessei que havia o risco de o meu primo me virar as costas ou ser rude na tentativa de aproximação. O Velho balançou a cabeça e explicou: “Aos fracos restam a raiva, a mágoa e o ressentimento. O medo é sombra; a coragem, luz. O amor está destinado apenas para aqueles que têm coragem. A coragem das batalhas, dos voos inimagináveis, de ir além da curva. É preciso coragem para enfrentar a recusa ou a incompreensão do outro. Se isto acontecer, será preciso paciência, outra valiosa virtude, para entender que o outro ainda não está pronto para o reencontro e, claro, sem esquecer de mais uma virtude, o respeito. Respeito à liberdade e à escolha alheia, pois, assim como você, ele também não está obrigado a fazer nada”.</p>
<p>Falei que aquelas palavras eram muito bonitas, mas a vida é dura e a realidade bem diferente. Confessei que muitas vezes tive vontade de procurar o meu primo para conversar e findar o conflito. Porém, eu tinha certeza de que ele me viraria as costas ou me humilharia de alguma maneira. Não estava disposto a me rebaixar. No mais, acrescentei, ele era quem estava errado, logo, era ele quem deveria tomar a iniciativa. O Velho abriu os braços como se precisasse de gestos para explicar as palavras e falou: “Percebe que o orgulho é carcereiro do coração? Somente é passível de humilhação quem possui o ego exacerbado. O orgulho e a vaidade são sombras que engradecem o ego e fragilizam o ser. Aprisionam e trazem dor por envenenamento. A humildade e a compaixão compõem o antídoto. Paciência, respeito e coragem são indispensáveis para que o tratamento avance. O amor é a cura”.</p>
<p>“Para se banhar na Luz é necessário vivenciar o amor em toda a sua amplitude. Para isso será preciso que todas as virtudes floresçam em si”.</p>
<p>Recusei-me. Como era o seu costume, o Velho não insistiu. Ele sempre expressava o seu pensamento de maneira clara e calma, quem tivesse ouvidos que ouvisse. O monge seguiu flanando por entre os convidados, conversando com todos e se divertindo muito. Fomos dos últimos a sair da festa. Dirigi o carro por alguns minutos até que um dos pneus furou. Somente quando peguei o estepe me dei conta que estava vazio. Estávamos em um lugar ermo, distante para voltar a pé até o local da festa em busca de ajuda e sem sinal de celular. Acenei para alguns carros que passavam, mas o medo que reina nas grandes metrópoles os impediram de parar. O monge apenas olhava e se encantava com o que acontecia, como se nada o assustasse. Quando estava a ponto de desistir, um carro encostou. Era o meu primo. Me ofereceu um sorriso sincero, cedeu o pneu sobressalente do seu carro e ainda me ajudou a trocar. Quando acabamos, olhei para ele e, um tanto sem jeito, agradeci. Ele disse que único agradecimento que aceitaria seria um forte abraço. Nos abraçamos com lágrimas nos olhos. Ao meu ouvido sussurrou um pedido de perdão. Pediu desculpas por ter me feito sofrer e dado margem ao nosso afastamento. Falei que precisávamos conversar para resolver os mal-entendidos de outrora. Ele questionou se era necessário, pois já tivéramos tempo suficiente para pensar sobre o ocorrido e tinha certeza de que cada um de nós sabia onde poderia ter feito diferente e melhor. Já tinha se passado muito tempo e as pessoas que éramos na época dos fatos simplesmente não mais existiam. Éramos outros. Falou que gostaria muito de encontrar comigo, não para remoer o passado, mas para falarmos do presente, dos filhos e dos sonhos que ainda nos movimentam. Sim, ele tinha razão. No meu íntimo eu sabia que não cabia a ele toda a conta; uma parte do débito, maior ou menor, não importava, me pertencia. Combinamos de almoçar no dia seguinte. Celebraríamos a alegria de um novo ciclo em nossa amizade.</p>
<p>Quando voltei ao meu carro, comentei com o monge que sentia uma onda de paz e alegria ao meu redor. Envergonhado, admiti que aquele a quem eu considerava pequeno tinha sido um gigante ao me oferecer uma bela lição.  Em outra ocasião, eu me esforçaria para que a iniciativa fosse minha.</p>
<p>O Velho não disse palavra, apenas apreciava a paisagem pela janela. E sorria.</p>
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		<title>O ser inteiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Dec 2016 08:05:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Tinha feito calor o dia inteiro. A brisa que descia das montanhas tornava o final da tarde bastante agradável no mosteiro. Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona situada em uma das varandas que permite uma belíssima vista dos vales...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tinha feito calor o dia inteiro. A brisa que descia das montanhas tornava o final da tarde bastante agradável no mosteiro. Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona situada em uma das varandas que permite uma belíssima vista dos vales que se avizinham abaixo de nossa sede. Pedi para sentar ao seu lado e ele concordou com um movimento de cabeça. Por me conhecer há algum tempo, foi direto ao ponto: “O que lhe aflige”? Expliquei que muitas vezes, mesmo na certeza de tomar a decisão correta, algum desconforto se instalava em mim, o que era uma contradição. Ele pediu para que eu fosse mais específico e acrescentou: “Vamos ao caso concreto. Assim, ao entender a parte poderemos ter uma melhor ideia do todo”.<span id="more-1310"></span></p>
<p>Expliquei que um grande amigo tinha me pedido dinheiro emprestado. Era um valor considerável. Embora eu tivesse a quantia, que estava guardada para outros fins, neguei o empréstimo. Isto furtara a minha paz nos últimos dias. Ponderei que estranhava os meus próprios sentimentos, uma vez que a convicção da minha escolha deveria pacificar o meu coração. Com os olhos vagando no horizonte, o Velho falou: “O espírito, a verdadeira identidade eterna de todos nós, em sua infância, nosso atual estágio, tem o ego distante da alma como se estivéssemos divididos em dois. Por um lado, o ego se empenha pelas conquistas materiais e os prazeres sensoriais, os aplausos e o brilho social. Pelo outro, a alma se alegra com as vitórias dos sentimentos sobre os instintos, com a superação das dificuldades, com a transmutação das próprias sombras em luz. O ego quer o reconhecimento do mundo; a alma quer que o melhor de si brote para o mundo. O ego está ligado às paixões; a alma ao amor. O ego está no âmbito do eu; a alma pensa em nós. Na viagem do aperfeiçoamento o Caminho nos impõe escolhas. Com o ser dividido em dois as decisões criam conflitos internos. Estes conflitos geram desequilíbrio em todos os níveis”. Deu uma pausa antes de acrescentar: “Temos que alinhar o ego à alma, no sentido de que os desejos daquele estejam em harmonia com as buscas desta.  Trabalhar o &#8216;eu&#8217; sem esquecer o &#8216;nós&#8217;, sendo que a recíproca também se aplica. Ou seja, cuidar do mundo sem esquecer de si. São partes da mesma arte. Assim o ser se torna uno, se liberta das angústias mundanas, conhece a plenitude e a paz”.</p>
<p>Perguntei se o ego era inimigo da alma. O monge negou: “O ego é importantíssimo. Ele apresenta os exercícios para o fortalecimento da alma; são as exatas etapas de superação do ser. Precisamos do interesse do ego pelo mundano para que ali o sagrado que habita na alma se manifeste, nunca para suprimir um pelo outro, mas para harmonizar ambos. Para o bom andarilho todas as dificuldades materiais acabam por fortalecer as musculaturas emocional, mental e espiritual de que necessita para seguir em frente. As dúvidas, os conflitos, os problemas e as angústias acabam sendo importantes para desenterrar a percepção sobre si mesmo ainda adormecida no fundo do ser. Ao entender a si próprio o indivíduo ganha a sabedoria do mundo, potencializa o seu dom e descobre a magia das virtudes. O ego é muito suscetível às sombras da inveja, do orgulho, da mágoa, da ganância e do ciúme. São terríveis prisões sem grades. Somente ao reconhecer as sombras poderemos mais adiante transmutá-las em luz na jornada de libertação do ser. Assim a vida se mostra perfeita graças às suas imperfeições. Basta ter bons olhos para ver”.</p>
<p>Eu quis saber se toda vez que pensasse em mim em detrimento do outro estaria sendo egoísta. O Velho franziu as sobrancelhas e falou sério: “Claro que não. Cada qual é a fonte da sua própria vida e deve cuidar para que ela nunca seque. Saciar a sede alheia com a água que brota em si nos torna sagrados. Mas pensar que é obrigação do outro nos permitir beber em sua fonte ou vice-versa é a raiz e o alimento do egoísmo”. Virou o rosto para mim e perguntou: “Qual lição é o eixo do Sermão da Montanha”? Respondi que é ‘amar o próximo como a si mesmo’. O monge moveu as mãos como se as palavras não fossem suficientes para me explicar o óbvio e disse: “Então? Se você não ama a si mesmo não será capaz de amar ninguém”. Fez um breve silêncio para a minha reflexão e questionou de maneira retórica: “Como será possível alimentar o outro se não trazemos pão na bagagem? Como dar o que não se possui? Temos que colocar a alma para ensinar ao ego a semear os campos do mundo para abastecer o celeiro do coração; colher o trigo, transformar em pão; repartir o pão com toda a gente”. Sem esperar pela minha resposta, continuou: “Só conseguimos compartilhar o que temos. E o que temos, de verdade, é tão somente aquilo que já conseguimos compartilhar. Este é o único e verdadeiro patrimônio”. Franziu as sobrancelhas e falou: “No entanto, a real necessidade do outro, algumas vezes, pode não ser exatamente o que ele pede. Por isto existe o sim e há o não”.</p>
<p>Falei que a necessidade do meu amigo era o que ele tinha me pedido e eu tinha negado. O monge sugeriu: “Ofereça a outra face”. Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “Se coloque no lugar dele”. Pensei por alguns instantes e respondi envergonhado que errei em não atender ao pedido de socorro de uma pessoa querida.</p>
<p>“Talvez sim, talvez não”, o Velho me surpreendeu.</p>
<p>Aquelas palavras me trouxeram alguma irritação e falei que ele estava complicando. O monge deu uma gostosa gargalhada e seguiu tranquilo em sua didática: “Enfrentar o problema com os olhos do outro não significa entregar exatamente o que ele deseja. Há que se ter sensibilidade e sabedoria, virtudes poderosas. Elas te darão a exata medida se o outro, naquele momento, precisa ser carregado nas costas ou estimulado a andar por si mesmo. Existe hora de fazer uma coisa e há vezes de realizar a outra”.</p>
<p>“A bondade é uma virtude fundamental, pois sem ela não conseguimos alcançar a felicidade. Mas como qualquer virtude deixa de ser virtuosa ao andar desacompanhada, a bondade precisa vir atrelada a outra, bem mais complexa de compreensão, a justiça”. Olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Ser justo é entregar a cada qual o que é merecido. Nem mais nem menos. Mas para tanto é preciso amor, muito amor, um amor incomensurável dentro de si. Um amor que poucos já têm ou conseguem entender”.</p>
<p>“Ser justo consigo é indispensável para ser justo com o outro. Isto não é fácil, pois sempre temos interesses, legítimos ou não, em jogo. Muitas vezes será necessário esquecer o mundo para cuidar do ‘eu’ e neste momento o ego se faz importante. É o tempo da semeadura e do cultivo para que a colheita se traduza em frutos doces ou não teremos nada de bom a oferecer. Noutras, será indispensável entregar uma parte de si ao mundo para construir o ‘nós’, quando a alma passa a ter um papel fundamental. Não estranhe se este pedaço que você ofereceu se tornar a melhor parte que existirá em você. Afinal, o poder se amplia na medida da sua capacidade de alimentar a humanidade em suas ceias espirituais”.</p>
<p>“É a força do ego que nos move às conquistas. Isto tem valor. Então descobrimos que o ego pode ser um vilão cruel ou um valioso aliado. O ego é um guerreiro poderoso, no entanto, quais sentimentos têm imperado em suas decisões? Quando as virtudes da alma passam a orientar os movimentos do ego as escolhas se unificam, as angústias se pacificam, as batalhas se tornam sagradas e as vitórias se consagram em pura luz”.</p>
<p>“Assim, pouco a pouco, aprendemos a alinhar o ego à alma para que trabalhem em harmonia e com os mesmos ideais. A unidade do ser é indispensável para a plenitude e a paz”.</p>
<p>Confessei que me arrependia de, no passado, ter ignorado mãos que me solicitavam ajuda. Não queria incorrer no mesmo erro. O monge me mostrou a virtude de um olhar generoso: “Você não deve sentir culpa por não ter atendido aos pedidos. Aceite que fez o seu melhor dentro do nível de consciência e capacidade amorosa que possuía na época. O importante é ter responsabilidade com a evolução. Para tanto, as transformações íntimas são essenciais. Ontem eu era aquele; hoje sou este. Lembre que as melhores histórias são as de superação. No mais, não se preocupe, o Caminho sempre oferecerá uma nova oportunidade para que você corrija a rota, faça diferente e melhor. Depois mais e mais, em infinitas possibilidades de aperfeiçoamento. Tente aproveitar cada uma delas, embora aceite que é normal que algumas sejam desperdiçadas. As oportunidades sempre tornarão a surgir, embora em graus distintos, de acordo com a necessidade de aprendizado do andarilho, tanto quando agimos errado ou como quando acertamos nas escolhas. ‘Sempre seremos levados a fazer diferente e melhor’. Isto é um mantra e uma prece”.</p>
<p>“A expansão do universo é constante e infinita. Como somos todos parte dele e ele está contido em nós, nossas chances vão além da imaginação. O conhecimento do todo através da parte, que somos, possibilita o entendimento de que nunca seremos abandonados em nosso processo evolutivo. Pois, cada um de nós, como parte, é indispensável para o crescimento do todo. Por sua vez, para avançar individualmente temos o inegável compromisso com a obra, que se apresenta, neste estágio de existência, através das pessoas próximas, com as dificuldades e problemas que elas nos oferecem. Aceite-as como um presente ou não haverá progresso. O todo e a parte precisam evoluir ou, por lógica, a expansão restará incompleta”.</p>
<p>“O Caminho é solitário e solidário. Independente e acompanhado. Em absoluta sincronia”.</p>
<p>“Somos ego e alma; a parte e o todo. Este é o poder, a grandeza e a beleza da unificação do ser consigo mesmo e com a mais longínqua das estrelas”. Tornou a olhar para as montanhas que nos abraçavam, aquietou o coração e a mente por segundos, para em seguida finalizar com uma pergunta: “Yoskhaz, se você traz toda a força do universo em si, já imaginou do que é capaz”?</p>
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		<title>O jardim das virtudes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Dec 2016 20:13:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[O tambor de duas faces rufava compassado ao toque de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra. Pedi autorização para me sentar na manta colorida estendida na sua frente, do outro lado da fogueira. Sem abrir os olhos,...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O tambor de duas faces rufava compassado ao toque de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra. Pedi autorização para me sentar na manta colorida estendida na sua frente, do outro lado da fogueira. Sem abrir os olhos, ele apenas sorriu e balançou a cabeça de modo sutil. Enquanto eu me acomodava, o xamã começou a cantar uma música em seu dialeto nativo, que eu não entendia, mas pelo ritmo, percebia o seu tom sentido, de puro agradecimento, por estar ali, em comunhão com a Mãe-Terra, naquela noite sem lua, com o céu salpicado de estrelas. Quando ele silenciou a melodia, falei que precisava conversar. Contei que estava muito chateado. Eu tinha tido uma discussão com um dos meus melhores amigos. Ele teve um comportamento bastante desrespeitoso comigo em uma determinada situação. Estávamos sem nos falar já há algum tempo. Canção Estrelada acendeu o seu cachimbo com o fornilho de pedra vermelha, sem pressa, como se a noite não tivesse fim. Depois de duas tragadas, me convidou para fumar com ele e não disse palavra.</p>
<p>No dia seguinte me chamou para acompanhá-lo até uma pequena cidade próxima, perto da sua casa, nas montanhas do Arizona, para algumas compras. Fomos em sua caminhonete. No trajeto, aproveitei para tornar a tocar no assunto da briga com o meu amigo. Narrei os detalhes e fundamentei os motivos da minha decepção. Canção Estrelada quis saber a razão de eu não procurar esse amigo para uma conversa que, talvez, tivesse o poder de reatar laços valiosos: “Se a lembrança dele toda hora lhe vem ao coração é porque um bom fruto restou”, acrescentou. Respondi que ele era quem estava errado, logo, cabia a ele me procurar. Era uma questão de respeito. O xamã ficou com os olhos tristes e silenciou a voz.<span id="more-1302"></span></p>
<p>Entramos em uma loja de produtos orgânicos em busca de essência de equinácea, uma flor que tem propriedades medicinais por estimular o sistema imunológico. Como não a encontramos no local de sempre, pedi auxílio a uma funcionária que arrumava outra prateleira. A moça respondeu, de maneira educada, que assim que terminasse iria me ajudar. Interpretei como falta de consideração e iniciei um discurso lembrando a minha condição de cliente e a sua obrigação em me atender com rapidez. O xamã, de modo gentil, interrompeu a bronca, pediu desculpas a jovem e me levou para fora do estabelecimento. Fomos a uma cafeteria ao lado e ele pediu duas xícaras de chá. Nos sentamos e ele me olhou nos olhos antes de perguntar: “Por que você entrou em guerra com o mundo”?</p>
<p>Falei que não entendia a colocação. Canção Estrelada explicou: “Você se aborreceu com o seu amigo em uma briga que considera definitiva, embora a todo momento volte a tocar no assunto. Em seguida, mostra muita impaciência por pouco motivo com a vendedora da loja. Pelo visto há uma enorme ferida dentro de você, mas ao invés de buscar a cura, prefere espalhar a sua dor com toda a gente. Percebe que esse comportamento apenas o torna vulnerável ao sofrimento? Falei que ele estava enganado. Eu estava bem, eram apenas questões nas quais envolviam falta de respeito para comigo. E respeito se impõe. Ele sacudiu a cabeça e disse: “Isso nada tem a ver com respeito. É pura manifestação do orgulho. Acontece todas as vezes que o ego se agiganta”.</p>
<p>Discordei dizendo que respeito não se pede, se exige. Ele franziu as sobrancelhas e respondeu com seriedade: “Exige? E se o interlocutor se recusar a obedecer? Vai fazer um escândalo? Aplicar-lhe uma surra”? Falei que esperava não chegar a tamanho extremo, mas que não via outro jeito de não permitir que as pessoas abusassem da minha boa-fé. Canção Estrelada me concedeu um olhar generoso e falou: “Todas as vezes que brigamos com o mundo é porque estamos desviando o eixo principal do combate: a batalha que cada qual deve travar dentro de si”. Deu uma pequena pausa e prosseguiu o raciocínio: “No mais, sim, jamais devemos permitir que alguém nos desrespeite. No entanto, a maneira de impedir que isto aconteça faz toda a diferença. O jeito como reagimos às contrariedades que se apresentam mostra em que curva da estrada já conseguimos chegar”.</p>
<p>Irritado, pedi para que ele me explicasse qual a melhor maneira de reagir provocações e às ofensas. O xamã não se permitiu envolver na minha energia tempestuosa e, ao contrário, ao manter o tom sereno da voz impôs a sua ambiência harmoniosa à nossa conversa: “A regra de ouro é respeitar a si mesmo. Quando o indivíduo se respeita o universo retribui em igual proporção. Ação e reação”. Argumentei que para ele era fácil pensar assim, pois era um xamã e o conhecimento que tinha sobre magia fazia com que as pessoas o respeitassem. Canção Estrelada deu uma gostosa gargalhada como se tivesse ouvido uma bobagem da boca de uma criança e disse: “Se sou respeitado é pelo simples fato de eu me respeitar. Me respeito ao cultivar as flores do jardim das virtudes. Isto me torna imune às ofensas”.</p>
<p>Pedi para que ele explicasse melhor. Canção Estrelada não se fez de rogado: “Apenas o ego se ofende. Quanto mais forte o ego, mais frágil será a pessoa, pois ficará mais suscetível de ser atingida pelas atitudes alheias. Diminua o tamanho do alvo e dificultará o trabalho das flechas. Somente se sente humilhado quem possui o orgulho e a vaidade exacerbados. São duas características que deixam o indivíduo vulnerável. São como ervas daninhas no jardim das virtudes”.</p>
<p>Falei que precisava saber mais sobre esse jardim. O xamã explicou: “O jardim das virtudes é o seu templo sagrado, o local onde você conseguirá ficar suspenso no ar e protegido das incompreensões alheias. Para tanto é necessário que todas as flores das virtudes floresçam. Por exemplo, quando o sujeito tem em seu jardim as rosas da sabedoria sabe que nem todas as vaias são merecidas, assim como nem todos os aplausos são sinceros. Os lírios da humildade oferecerão a sua beleza em agradecimento às críticas justas, pois servirão como alavanca à própria evolução. Por outro lado, o jasmim da compaixão espalhará o seu melhor perfume quando as críticas surgirem por despeito ou por mero desejo de ofender, pois é o antídoto a evitar que as larvas da incompreensão e da intolerância, que se alimentam do odor azedo que exala do egoísmo, se instalem. O jardineiro sabe que sempre haverá borboletas e lagartas visitando o seu jardim, mas sabe também que estas apenas são aquelas enquanto ainda não estiverem prontas para brotar as asas. Então, cultiva as azáleas da paciência, pois se não entender a sofreguidão da lagarta jamais conhecerá o voo da borboleta”.</p>
<p>“São várias as flores a serem cultivadas no jardim das virtudes: humildade, bondade, compaixão, perdão, simplicidade, equilíbrio, gentileza, alegria, liberdade, sabedoria, justiça e paz são algumas das espécies, sem esquecer, é claro, da flor das flores, o amor, sem a qual todas as demais perecerão por inanição. Na ausência de qualquer uma delas o jardim restará incompleto.”.</p>
<p>Argumentei que era muito desagradável ouvir as pessoas falarem mal de nós, o que fez o xamã aprofundar o raciocínio: “Não devemos nos preocupar sobre o que não podemos interferir. O bom jardineiro sabe que a verdade é inexorável e, por isto, traz em si a certeza que nenhuma noite, por mais escura que seja, tem força para impedir o amanhecer. Esta é a sua paz. Somente os insensatos se preocupam em impor as suas ideias aos outros”. Deu uma pequena pausa antes de continuar: “Eu não tenho poder para moldar o mundo aos meus anseios. Apenas tenho poder sobre mim mesmo, no entanto, esta força é enorme. Na medida em que me empenho em processo contínuo de aperfeiçoamento pessoal, para que possa sempre pensar diferente e agir melhor, ilumino os cantões escuros de tudo que me cerca. Assim, quando bailo as músicas do infinito faço as estrelas dançarem comigo. Esta é a minha luz. Cuido do meu jardim na certeza de que ele é parte essencial para a beleza e expansão do universo. Se faço parte do todo, o todo está em mim”.</p>
<p>“Todo ser traz em si a magia da vida. Esta força é incomensurável e se manifesta na medida que cuidamos do jardim das virtudes. A cada flor germinada o jardineiro transforma a si e, por reflexo, o mundo”. Tornou a beber o chá e disse: “As escolhas são a pá e o ancinho do jardineiro. Você pode permitir que as ervas daninhas do orgulho e da vaidade tomem conta dos seus canteiros ou pode procurar o seu amigo, em atitude de profundo respeito a si e ao universo, para cultivar as flores da humildade e da compaixão. As primeiras ao admitir que não se podemos exigir do outro uma perfeição que não temos para oferecer; as outras por entender que cada qual se manifesta na fronteira das suas capacidades. Nem mais nem menos. Por consequência, esse movimento faz com que outras flores como a do amor, da paz e da liberdade desabrochem no jardim do coração. Este buquê se chama Luz”.</p>
<p>O respeitado xamã olhou fundo em meus olhos e disse: “Respeito não é algo que exigimos de ninguém. Cada qual o impõe a si mesmo em viagem cujo destino está a própria essência vital que nos anima. Todo o resto é paisagem”. Me ofereceu um sorriso generoso e finalizou: “Quanto à magia, saiba que magia é transformação. Transformar em flores as sementes das virtudes que adormecem em nossos corações é a única magia que importa. Todo o resto é firula”.</p>
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		<title>O tamanho de um sonho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Dec 2016 12:59:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Era uma manhã de primavera, o sol equilibrava a brisa gelada da montanha e trazia uma agradável sensação térmica. Eu estava na frente do mosteiro apertando os parafusos das dobradiças do enorme portão principal, quando tive a atenção desviada para um carro luxuoso que estacionou no pátio externo. De dentro...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma manhã de primavera, o sol equilibrava a brisa gelada da montanha e trazia uma agradável sensação térmica. Eu estava na frente do mosteiro apertando os parafusos das dobradiças do enorme portão principal, quando tive a atenção desviada para um carro luxuoso que estacionou no pátio externo. De dentro dele desceu um anão. Logo o reconheci como um famoso comediante em programas de TV. Sem dúvida, era um ator talentoso que nunca usou a sua altura como subterfúgio para nenhuma piada. Seu humor era fino e inteligente. Nos últimos anos comandava um talk-show de grande audiência. Ele se dirigiu a mim de maneira educada e pediu para falar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Enquanto seguíamos para o refeitório, onde o Velho gostava de conversar com as visitas, quase sempre ao redor de uma mesa com bolos, biscoitos, queijos e café, deixando-os à vontade como se estivessem em casa, o homem confidenciou que estivera ali uma vez, há quase duas décadas, quando ainda era uma aspirante aos palcos, e aquele dia tinha sido angular em sua vida.</p>
<p>O Velho ofereceu um belo sorriso quando o viu. O ator perguntou se o monge se recordava dele e o Velho aquiesceu com a cabeça. Eu trouxe canecas fumegantes de café e fui convidado a me sentar com eles. Em seguida, o visitante falou que retornara ao mosteiro para agradecer. Confessou que quando estivera ali, naquela tarde que parecia distante, estava preste a desistir da carreira, face às enormes dificuldades que encontrava. Porém, a conversa com o monge o enchera de coragem para prosseguir e enfrentar todas as adversidades. O Velho tornou a sorrir e disse: “A coragem não foi minha, mas sua. Ninguém pode lhe dar o que já é seu. Ela estava adormecida, eu apenas a despertei para luta. A batalha você travou sozinho. Dominou o medo, transformou as incertezas, enfrentou o preconceito em relação à sua estatura física, que eram muitos e bastante agressivos, com paciência, trabalho e arte. Mostrou ao mundo que o importante não é o tamanho de uma pessoa, mas a dimensão do seu sonho”.<span id="more-1289"></span></p>
<p>O homem, com os olhos mareados, disse lembrar de o monge falar que o ‘corpo não é o espelho do espírito. O desenho de um corpo nem sempre apresenta todas as cores possíveis daquela alma’. O Velho arqueou as sobrancelhas e acrescentou: “Todas as limitações aos sonhos da humanidade foram criadas por aqueles que desejam dominar os demais. Nenhum impedimento de ordem física, social, econômica, étnica ou de gênero tem legitimidade para abortar um sonho. Permitir que a opinião de alguém tenha força de impor limites a sua capacidade é conceder aos outros um poder indevido de subjugar os seus ideais, a sua verdade, de cortar as suas asas. Só os tolos permitem isso”. Fez uma pequena pausa antes de concluir: “Abdicar de um dom é um convite à amargura”.</p>
<p>Eu quis saber o que era um dom. O monge explicou: “É um talento inato, uma habilidade que todas as pessoas, sem exceção, trazem do berço, que pode se manifestar como ofício ou arte. São inúmeras possibilidades. São elas que movimentam e fazem o mundo avançar. Curar, construir, proteger, cantar, organizar, cuidar, prover, escrever são alguns desses dons. Entender, aceitar e exercer o seu dom faz com que o indivíduo ofereça o melhor da sua capacidade, amplia possibilidades e o harmoniza consigo mesmo, tornando-o uma pessoa mais equilibrada e feliz”. Perguntei o que o dom tinha a ver com o sonho de uma pessoa. “Tudo”, respondeu o Velho. Como deve ter surgido uma enorme interrogação em minha testa, o monge prosseguiu: “O sonho a que me refiro não são os desejos insensatos do ego em busca de fama e fortuna, embora estas possam vir como consequências naturais de quem vive o verdadeiro sonho. O sonho de que falo é o que chamamos de dharma ou propósito de vida. Assumimos o compromisso de tentar realizar algo antes de cada existência como exercícios evolutivos. Para tal, somos municiados com o dom adequado, em geral ligado a habilidades que já desenvolvemos em existências anteriores em processo perfeito, passo a passo, para nos conduzir à iluminação. Cada experiência agrega valores e, principalmente, virtudes que aperfeiçoam o ser. Assim, as condições de vida, como lugar, família e situação financeira de nascença são as perfeitas ferramentas para aquela alma naquele trecho da estrada. O dom é concedido como um instrumento de luta e transformação. É a espada do guerreiro em evolução”.</p>
<p>Lamentei que para alguns a vida parece mais difícil do que para outros. “Não se iluda nem se deixe impressionar pelas aparências. A vida é uma viagem sem fim com infinitas estações para pouso e decolagem. Apenas com a visão de sua totalidade poderemos compreender toda a justiça, sabedoria e amor que havia na carga de problemas impostas em determinados trechos da jornada. As facilidades são oferecidas para impulsionar; as dificuldades para ensinar e fortalecer. Todas são oportunidades valiosas que merecem ser aproveitadas”.</p>
<p>“Muitas vezes, o que imaginamos como facilidades, na verdade, são ferramentas para a construção de grandes obras, ligadas ao próprio avanço e de toda a humanidade e terminam por desperdiçadas por aquela alma, que não raro se afunda em angústia, por sentir um vazio que não consegue entender e se refugia em álcool e prazeres rasos na tentativa de fugir de si mesmo”. Bebeu um gole de café antes de concluir: “Cada qual com o seu karma e dharma. Aquele é aprendizado, este uma missão. Assim o universo nos lapida até que todas as virtudes estejam pulsantes e reverberem em pura luz”.</p>
<p>O visitante, em razão da experiência vivida, disse que sempre que possível animava as pessoas para nunca desistir dos sonhos. Ele era a prova de que o universo sempre conspira a favor quando estamos em busca do verdadeiro sonho. Entretanto, como saber se o que buscamos é de fato o nosso sonho? Esta era a sua grande dúvida. Contou que uma grande amiga possuía uma voz maravilhosa e não conseguia seguir na carreira como cantora, tudo parecia dar errado. O Velho balançou a cabeça como quem diz que entendia e disse: “Esse é o dilema do sonho. São apenas as dificuldades inerentes à vida, presentes para ensinar e fortalecer o espírito para o momento seguinte não restar desperdiçado ou estarei trilhando uma estrada que não é minha? Como saber se a voz que escuto é a do meu ego ou a da minha alma”?</p>
<p>“Não é fácil, pois as vozes se misturam e há uma tendência para que a voz do ego fale mais alto. Daí a necessidade de ensinarmos ao ego o idioma da alma e que encontrem o mesmo tom. Isto é a harmonia do ser”. Olhou para o ator e disse: “Ter uma bela voz não habilita ninguém a crer que o seu verdadeiro sonho é ser cantor ou que ganhará o próprio sustento com a música. Nem sempre ofício e arte se misturam. Se o dom não puder ser um ofício, que seja uma arte. Use-o livremente para alegrar a própria vida, dos amigos e de quem mais encontrar, como sementes atiradas nos jardins da humanidade. A adaptabilidade é uma virtude indispensável ao andarilho por ser uma poderosa ferramenta de transformação. Veja o exemplo da Valentina”, citou uma das monjas da Ordem. “É a melhor poetisa da atualidade, embora pouquíssimos conheçam os seus livros, publicados de maneira independente e custeados por ela mesma. Seus versos são apenas comparáveis, na minha opinião, aos de Fernando Pessoa, o alquimista lisboeta. São palavras que sensibilizam e transformam o ser. Apesar de seu inegável talento, das poesias que não cessa de produzir, trabalha como engenheira aeronáutica, projetando satélites de comunicação, ajudando a diminuir as distâncias do mundo. Um bonito ofício, uma bela arte. E uma sábia lição de adaptabilidade de um sonho”. Bebeu mais um gole de café e acrescentou: “Temos também o Giuliano, um outro monge, que trabalha como pizzaiolo oferecendo sabores maravilhosos, em receitas inusitadas sempre preparadas com carinho, e nos dias de folga leva a sua trupe de teatro para os subúrbios da cidade para compartilhar conhecimento, alegria e encanto”. Tornou a dar uma pequena pausa, pois sabia que ainda não tinha respondido à questão e prosseguiu: “A vida sempre manda recado. Ela fala conosco através de sinais. Este diálogo é intenso. Preste atenção e apure a sensibilidade. Ela vai indicando os próximos passos. Às vezes põe uma pedra no meio da estrada com o intuito de estimular a coragem, noutras fecha a passagem, mas mostra uma vereda alternativa que mais à frente se revelará surpreendente. Sempre e sempre. A hora da dúvida é o momento da indispensável solidão. É preciso encontrar consigo, ficar a sós com a própria essência para ler os recados e, mais importante, mediar uma conversa entre ego e alma. Perguntar, como no caso da amiga cantora, se o que busca naquele caminho são os aplausos ou a transformação. Ser reverenciada pelo público ou sensibilizar o coração de toda a gente. A sinceridade da resposta será a estrela-guia a orientar o perfeito sentido da rota a seguir”.</p>
<p>Ficamos um tempo concatenando as ideias do monge até que quebrei o silêncio. Eu quis saber se na certeza de estar na busca do verdadeiro sonho, as dificuldades se mantiverem intensas, até onde devo insistir. O Velho arqueou as sobrancelhas e explicou: “Existem muitos meandros na jornada. As dificuldades podem sinalizar apenas que a maneira de andar está errada, não o sonho. Porém, podem também indicar que dali para frente haverá apenas precipícios. Então, é preciso refazer os planos. Todo sonho é único, pessoal e intransferível. Entender o sonho é parte da arte do andarilho; é decodificar o Caminho”.</p>
<p>Lembrei que ele não tinha respondido a minha questão de até onde insistir ou abandonar um sonho. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Albert Einstein demorou mais de dez anos, e teve que esperar um eclipse solar, para conseguir provar à comunidade científica a existência da Teoria da Relatividade. Laureado com o Prêmio Nobel de Física por outro trabalho, o seu maior legado não foi o científico. Entendeu na segunda metade da sua vida que a física era apenas um instrumento para melhor compreensão da espiritualidade. Compreendeu que o seu sonho estava ligado à construção da paz no planeta. O justo prestígio que angariou nas academias de ciência amplificou a sua voz e facilitou para que as suas mensagens fossem ouvidas. Em seus últimos anos viveu como ardoroso pacifista. Vincent Van Gogh dedicou toda a sua vida, apesar das enormes dificuldades materiais, a pintar telas nas quais o importante não era retratar a realidade, mas mostrar como ela o emocionava. Manteve a convicção inabalável como um impávido farol que, apesar das tempestades, não deixou de iluminar àqueles dispostos a navegar”.</p>
<p>O Velho fechou os olhos e finalizou de maneira sentida: “Não importa quem você é nem o que faz. Não importa qual é o seu sonho nem a sua dimensão. Nunca desista dele, nunca corte as suas asas. Lute pelo seu sonho enquanto acreditar em si mesmo. Ou nada fará sentido”.</p>
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		<title>O passado é um veneno</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Dec 2016 07:35:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, fechou a oficina ao meio-dia e andávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da secular cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Era um sábado típico de outono, com o céu claro, sem névoas e o sol aquecia...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, fechou a oficina ao meio-dia e andávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da secular cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Era um sábado típico de outono, com o céu claro, sem névoas e o sol aquecia a pele sobre o casaco fino. Estávamos alegres rumo ao nosso restaurante predileto para almoçar e, claro, beber algumas taças de tinto. Amenidades eram a pauta do dia, quando logo na porta encontramos Helena, uma amiga em comum, muito abalada, trazendo no rosto olheiras fundas como registros de noites mal dormidas. Aceitou, de pronto, o convite para sentar à mesa conosco e, mesmo sem ser perguntada, logo começou a falar sobre as causas da desordem emocional que a transtornava. A dor parecia não caber dentro de si e por isto precisava desabafar. Ela acabara de encerrar mais um casamento. Já era o quinto ou sexto, teve alguma dificuldade de saber se um deles poderia ser considerado como tal em razão da sua curta duração. Se disse decepcionada com as pessoas em geral. Confidenciou que a intimidade revelava faces desagradáveis que impossibilitavam a convivência a longo prazo. Helena falou por um bom tempo, desfiando os seus lamentos e ouvíamos com paciência, até que o artesão quis saber se ela já tinha sido feliz, alguma vez, no amor. Nesse instante, os olhos dela brilharam e um sorriso, que parecia impossível, surgiu em seu belo rosto.<span id="more-1276"></span></p>
<p>Animada, relatou o que considerava o melhor período de sua vida, ao lado do primeiro marido, quando ainda não completara vinte anos de idade. Isto acontecera há muito tempo. As suas palavras contavam uma história de amor quase perfeita, na qual qualquer erro era menor e podia ser facilmente atenuado. Comparações com os casamentos posteriores se fizeram inevitáveis. Todos na mesa sabíamos que aquele casamento, o primeiro, teve fim quando Jaques, o marido a que se referia, se suicidou ainda jovem. Ao permitir uma pausa para beber um gole de vinho, Loureiro a interrompeu com um comentário lacônico: “O passado é um veneno”. Diante do olhar surpreso da mulher, ele prosseguiu o raciocínio: “O passado pode se mostrar como uma armadilha perigosa se não tivermos o devido cuidado”.</p>
<p>“O presente sempre apresenta dificuldades, importantes exercícios de aperfeiçoamento, principalmente nos relacionamentos. Ninguém precisa de ninguém para ser pleno e feliz, mas necessitamos do outro para nos tornarmos melhores. O convívio com outra pessoa sempre apresentará arestas surgidas das imperfeições de ambos os lados. Quando aceitamos o desafio da superação, abandonando o vício da desistência, é que lapidamos as cascas que escondem a luz que nos habita e ainda desconhecemos”.</p>
<p>“Nem sempre é fácil enfrentar os problemas típicos do convívio a dois. Não raro chegamos a pensar que algumas pedras são intransponíveis e estão além da nossa capacidade de transformação. Isto não existe quando se trata de mudar a si mesmo, quando se busca a própria evolução. Muitas vezes desacreditamos na força que nos move ou não decodificamos o desafio. Agradeça às tempestades, apenas elas podem diplomar um lobo do mar”.</p>
<p>“No entanto, costumamos permitir que as nossas próprias sombras, na ilusão de nos proteger, armem um jogo cruel como plano de fuga. Como se fossem figurinhas, recortamos do passado os melhores momentos para montar um álbum que nunca existiu. Colorimos as imagens com tintas vibrantes, aumentamos-lhes o brilho e a intensidade. São as sombras nos fazendo acreditar em um modelo de felicidade inexistente. Ao menos, não naqueles detalhes e formatos. O desequilíbrio entre passado e presente se torna inevitável. E cruel, pois passamos a ter como referencial uma ficção em contraponto à realidade. Quando entramos nesse jogo acionamos um terrível mecanismo de comparação entre um passado escrito com letras perfeitas para opor a um presente que traz todas as imperfeições inerentes à vida, agigantando as batalhas que nem sempre estamos dispostos a travar. O passado acaba por envenenar o presente, tornando-o sombrio e desanimador”.</p>
<p>Contrariada, Helena disse que o sapateiro estava enganado. Assim como ela, muitas pessoas foram felizes em antigos relacionamentos, que por um motivo ou outro, acabaram. Loureiro manteve tom suave da voz: “Sem dúvida. Não falo das separações devido a passagem involuntária de um dos conjunges para outras esferas da existência. Me refiro aos convívios que chegaram ao fim por incompatibilidade entre as partes, por vontade própria de um ou de ambos. Quem está satisfeito com o seu parceiro não encerra um casamento”. Olhou para a amiga com seriedade e disparou uma bala de prata: “Quem é feliz não se suicida”.</p>
<p>O tempo fechou. Helena acusou o artesão de estar sendo insensível em sua análise e grosseiro em suas palavras. Acrescentou que Jaques se suicidou por razões alheias ao casamento. Explicou que ele enfrentava uma crise profissional. Loureiro ouviu a todo o desabafo e crítica sem se perturbar, ao final, disse com a serenidade que lhe era peculiar: “Quando estamos tristes ou alegres levamos o sentimento da casa para o trabalho e vice-versa. Não tem como desconectar as emoções como quem desliga um aparelho da tomada para cessar o funcionamento a depender do lugar em que estiver. Entendo que não queira lembrar dos momentos mais complicados e prefira ressaltar aqueles em que foi feliz. Ou recriá-los em sua imaginação. É o instinto de sobrevivência oferecendo motivações para que se mantenha de pé. Ocorre que o instinto é mais uma das ferramentas primitivas do farto estojo de truques das sombras. Ao nos iludirmos quanto ao passado acabamos por confrontá-lo com o presente através de comparações desleais, adiando as indispensáveis mudanças para a conquista da paz interior”.</p>
<p>“Do passado temos a saudade como belo presente oferecido pelo amor; do futuro nos alimentamos das bênçãos da esperança e dos sonhos. Apenas o presente oferece a verdadeira alegria de ser e viver. Para tanto temos que olhar no espelho da sinceridade, ter compaixão quanto às dificuldades alheias e humildade em relação às nossas; estar dispostos a nos renovar e transformar sempre. Todos os dias até o dia sem fim”.</p>
<p>Helena tornou a contestar e argumentou que a história de qualquer pessoa tem valor e beleza. Loureiro concordou: “Claro! Não é disso que falo. Me refiro ao perigo de deixarmos de viver o presente por fazer do passado um padrão inalcançável. Quando isto acontece terminamos por contaminar o valor e a beleza do que ainda nos falta viver e sentir. É importante afastar de si esse cálice”.</p>
<p>“Ao amarrar a vida no passado você se recusa a aprender as novas lições, sem as quais não conseguirá operar as devidas transformações no próprio ser. Logo, não haverá nenhuma nova semente para compartilhar nos jardins da humanidade. Assim, ficará impedida de seguir a viagem e restará aprisionada na cela do tempo”. Deu uma breve pausa antes de concluir: “Tudo que fica estagnado acaba por apodrecer”.</p>
<p>Ficamos sem dizer palavra. O garçom trouxe os nossos pratos, fizemos breves comentários sobre como estavam deliciosos. A nossa amiga voltou ao assunto para comentar que era muito difícil se relacionar, pois, as pessoas na intimidade se revelam diferentes de como se apresentaram. Loureiro bebericou o vinho e disse: “É assim com todos, inclusive comigo e contigo”. Helena interrompeu para dizer que quando conhecia uma pessoa logo enfileirava todos os seus defeitos para que o outro soubesse com quem estava lidando. O artesão sorriu e disse: “Sim, é uma boa atitude, mas nem sempre eficaz. Confessar uma dificuldade não serve de desculpa para não a enfrentar. Por outro lado, você só revela a dificuldade que já consegue reconhecer em si. E as demais”?</p>
<p>Diante do espanto da mulher, o sapateiro prosseguiu: “Falo das dificuldades que ainda nos recusamos a ver ou admitir em nós mesmos. São aquelas que só se revelam na convivência intensa do dia a dia, daí a importância dos relacionamentos como um espelho a mostrar o aprimoramento que nos aguarda. Por comodismo, medo ou ignorância insistimos em atribuir ao outro a responsabilidade pelos desencontros que têm origem na fragmentação do ‘eu’, no desencaixe entre ego e alma. As causas de estranhamento e aspereza no convívio mostram uma excelente oportunidade de aprendizado e evolução. Em um primeiro momento oferecemos sempre o nosso melhor e, não tenha dúvida, quase sempre é verdadeiro. É o que somos ou o que projetamos ser, o que também não deixa de ser sincero. Apenas na intimidade, no esgarçamento do cotidiano, abrimos a jaula para soltar o que temos de pior. Isto não é necessariamente ruim, pois pode se tornar a chance de iluminar e transmutar as próprias sombras em luz. E é muito bom quando há o amor de alguém para ajudar nesse momento tão difícil, mas igualmente bonito. Somente as histórias de superação podem ser chamadas de ‘histórias de amor’”.</p>
<p>“Todos as relações têm a sua beleza, encanto e lições. Sem dúvida que há muitos casos de total incompatibilidade, almas vibrando em sintonias tão distantes que não há como manter a afinidade una. Então, é hora de partir. No entanto, se veremos o outro como um terrível vilão ou um valioso aliado na batalha que travamos dentro de nós vai depender do olhar e da face que já somos capazes de oferecer. O respeito que tem para com ele revela o respeito que tem para consigo mesmo e com a vida”.</p>
<p>O silêncio voltou a imperar. As palavras precisavam encontrar o seu lugar. Helena brincou dizendo que talvez fosse o efeito do vinho, porém começava a pensar que o sapateiro tivesse razão. Ou, brincou, estivesse embriagada com o passado fazendo com que tropeçasse no presente. Rimos. Admitiu que, de fato, as comparações serão sempre nefastas por serem injustas, ao levarem em consideração momentos, situações e pessoas distintas. Uma lente mais clara tornaria possível encontrar dificuldades e virtudes em todas as pessoas com quem se relacionou. Bastava um pouco de boa vontade para com o outro e doses de coragem e sinceridade para admitir os próprios equívocos. Uma lágrima escorreu do seu rosto. Sorriu e disse que entendia quando Loureiro se referia ao passado como um veneno.</p>
<p>“Ou um mestre”, retrucou o artesão. “O passado está repleto de preciosos ensinamentos que não devem ser desperdiçados sob o risco de as mesmas pedras tornarem a atrapalhar a viagem. Situações vividas, quando analisadas com sabedoria e amor, se tornam um poderoso farol a iluminar os próximos passos”. Piscou o olho como quem conta um segredo e finalizou: “O caminho sempre pode ser mais suave. Depende apenas do nosso jeito de andar”.</p>
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		<title>O dia da independência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Nov 2016 11:45:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Fiquei feliz ao ver a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, encostada no poste em frente a sua oficina. Eu estava mal. Uma série de acontecimentos, com diferentes pessoas, me faziam sentir em um caldeirão de emoções que variavam entre a irritação e...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Fiquei feliz ao ver a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, encostada no poste em frente a sua oficina. Eu estava mal. Uma série de acontecimentos, com diferentes pessoas, me faziam sentir em um caldeirão de emoções que variavam entre a irritação e a tristeza. Fui recebido com um forte abraço e alegria sincera. O artesão pediu para eu me acomodar enquanto passaria um café fresco para animar a nossa conversa. Falei que precisava desabafar e trocar ideias, pois parecia que o mundo havia criado um complô contra mim. De uma hora para outra, muitas das minhas relações se tornaram problemáticas ou frustrantes. Relatei alguns desentendimentos e decepções que ocorreram há dias com diversas pessoas que eu muito presava. Acrescentei que tudo acontecera ao mesmo tempo e arrisquei a brincar dizendo que parecia karma. Loureiro repousou duas canecas cheias de café sobre o balcão e disse: “Karma é aprendizado. Todo karma é um mestre que vai aprimorar e fortalecer o aprendiz. Entendidas as lições o karma desaparece, assim como aquele tipo de situação, até então recorrente, por não haver mais razão de ela existir. Por outro lado, o Karma se prolonga, e até endurece, na medida que nos recusamos a evoluir. Se a vida é uma universidade, o karma se resume nas matérias que devemos cursar”.<span id="more-1269"></span></p>
<p>“Quando o mundo inteiro parece se opor a nós, não raro o problema está dentro da gente”. Fiquei indignado. Falei que as pessoas estavam me maltratando e ele dizia que o erro era meu? O sapateiro não se alterou. Com a voz sempre suave explicou: “Não se trata de saber quem está certo ou errado, isto não tem importância, pois fala apenas ao ego, jamais a alma. Trata-se de uma mudança de olhar sobre a vida, de se permitir uma nova postura em relação a todas as coisas, de não autorizar qualquer pessoa a ter nenhum poder sobre você, principalmente o direito de lhe fazer sofrer”, deu uma pausa e acrescentou: “Está na hora de você dar seu grito de independência”.</p>
<p>Cheguei a balançar na cadeira entre o desconforto e o interesse. Pedi para ele prosseguir o raciocínio. Loureiro arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Todos querem ser amados e aceitos. A maneira mais fácil e, também, a mais rasa é que concordem conosco, nos aplaudam e nos digam o quanto somos maravilhosos e importantes. Mas ainda bem que a vida não é assim, caso contrário viveríamos em estado de completa estagnação e total hipocrisia. Um ser atento à evolução trata a contrariedade e a decepção como ferramentas de aperfeiçoamento e provas de maturidade, nunca como causas de tristeza ou ressentimento”.</p>
<p>Pedi para ele explicar melhor. O meu bom amigo foi didático: “A origem de tanto sofrimento é o simples fato dos outros não corresponderem as nossas expectativas. Esperamos algo de alguém e essa pessoa nos entrega uma coisa bem aquém do desejado”. Me mostrou um olhar firme e perguntou: “Não é assim”? Sacudi a cabeça em concordância. Argumentei que as pessoas devem se relacionar com a mesma sinceridade e amor que oferecemos a elas. Loureiro arqueou as sobrancelhas e disse: “Esse é o grande equívoco. Cada qual apenas entregará na exata medida das suas possibilidades, de acordo com o grau de entendimento e grandeza dos sentimentos. Nem mais nem menos. Você esperava flores de alguém que lhe entregou pedras? Ora, era o que ele tinha em seu coração naquele momento. Como esperar flores de um jardim deserto em amor? Esse é o momento para você agir com sabedoria e retribuir com uma suave chuva de compaixão. Caso contrário, você restará algemado a uma corrente energética estéril de virtudes e luz”. Deu uma pausa e concluiu o argumento sobre ótica diversa: “Por outro lado, muitas vezes desejamos flores que não merecemos. Nunca esqueça de pensar diferente e agir melhor na próxima vez. É a parte que nos cabe em todas as relações. Sempre é possível e é um excelente exercício da escalada evolutiva”.</p>
<p>“Exigimos o melhor dos outros e desejamos ser compreendidos pelas nossas limitações e justificativas. Esta é a raiz dos conflitos. A estrada da paz é inverter a equação: oferecer o nosso melhor e ter boa dose de tolerância com a dificuldade alheia”.</p>
<p>Falei que a teoria era boa, porém não explicava tudo. O artesão concordou: “Você tem razão, falta outra questão: a independência emocional”. Tornei a interromper para dizer que não tinha compreendido. Ele falou: “Se você não for dono de si, das suas emoções, nunca terá qualquer controle sobre a própria felicidade. Quem não é senhor de si será escravo da aprovação alheia. Quando recusamos a entender quem somos, não conseguimos harmonizar as emoções mais densas que nos habitam. Sem transmutá-las nunca conheceremos a paz. Aceitar o desafio de enfrentar as tempestades de si mesmo é recuperar o leme da vida ou continuará um barco à deriva, a mercê dos rochedos do desespero”.</p>
<p>“Todas as vezes que ficamos irritados ou tristes significa que começamos a perder a batalha para as sombras, individuais ou coletivas. Não podemos exigir do mundo a perfeição que não temos para oferecer. A paciência nem sempre é apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, de humildade. O indivíduo desperto aproveitará desde logo toda contrariedade existente dentro de si como adubo para cultivar as flores que ainda não existem em seu jardim. São os jardineiros da luz”.</p>
<p>“Somos condicionados a transferir aos outros a responsabilidade que nos cabe por eventual insucesso. Se somos infelizes a culpa é do mundo, não é assim? Tentamos explicar a própria imperfeição na imperfeição alheia. Negamos o espelho para não ver as incompletudes que sangram como feridas abertas. Então, criamos as dependências emocionais como antídotos para retardar a dor da insegurança e do medo que envenenam a verdade. Quando o mundo nos deixa em abstinência, sem suas doses de aprovação, tudo escurece e a vida ganha um sabor amargo”. Deu uma pausa e concluiu: “O resultado desse comportamento é nos tornarmos viciados pelo ‘sim’ e pelos aplausos daqueles que nos cercam. Claro que tem uma hora que a droga perde o efeito ou some do mercado. O efeito colateral inevitável é a melancolia ou a mágoa. Assim a humanidade adia as lições contidas em todas as suas relações e se torna chata por tantas lamentações”.</p>
<p>Perguntei se ele achava que eu estava chato nos últimos tempos. Loureiro deu uma gostosa gargalhada e respondeu com honestidade: “Muito”! Diante da fisionomia contrariada que logo mostrei, o artesão acrescentou: “Você anda reclamando de tudo ultimamente. Quando achamos que o mundo está fora de lugar é porque ainda não encontramos o nosso lugar no mundo. Este lugar existe de acordo com a sua capacidade de equilibrar ideias e emoções em si mesmo. Quando tudo parece incomodar, não tenha dúvida, há algo de errado dentro da gente. É hora de alinhar o que resta embolado. Ou não conseguiremos seguir”. Teimei em sustentar que eu era um homem feliz. Ele me olhou com compaixão e disse: “Quem traz a felicidade em si não perde tempo nem energia reclamando da vida, pois está ocupado com as próprias asas, empenhado em aproveitar a viagem”.</p>
<p>Admiti que ele poderia estar certo, mas confessei não saber por onde começar. Loureiro me observou como quem olha a um filho e disse de jeito doce: “Siga a cartilha básica: um bom início é parar de se lamentar; deixe de apontar os defeitos alheios; abandone a tolice de modificar alguém; nunca transfira a responsabilidade pelas suas frustrações. Estes são os degraus da maturidade, pressuposto fundamental para liberdade”. Bebericou um gole de café antes de concluir: “Caso contrário você abdicará do controle que tem sobre a própria paz e o entregará aos outros. Este é o motivo da serenidade ter se tornado artigo raro nas ruas”.</p>
<p>“Ser livre é ter autonomia sobre as suas ideias e emoções. Ser pleno é entender que ninguém depende de ninguém para viver a felicidade”.</p>
<p>Comentei que todos anseiam os aplausos do mundo pela dificuldade em lidar com os próprios erros. O sapateiro argumentou: “Apenas quando falta humildade e simplicidade para reconhecer a condição de aprendiz. Seja justo consigo diante do erro, tenha a responsabilidade de reparar no que for possível e assuma o compromisso perante a si mesmo de agir de outra maneira na próxima oportunidade. Sem sofrimento ou tortura, pois estes são instrumentos das sombras que paralisam e descontrolam. Siga em paz, o universo, em seu infinito amor, lhe permitirá a oportunidade de mostrar, em algum momento, que a lição foi aprendida”.</p>
<p>Loureiro se levantou para colocar mais café em nossas canecas. Insisti que não sabia como começar as mudanças. Ele, de pé, sentenciou: “Transforme as velhas formas”! Falei que não entendia exatamente o que significava aquela expressão. O artesão, tornou a sentar e explicou: “Ao invés de lamentar o desencontro, aproveite o conflito para construir a paz. Isto é fonte de luz. No lugar de atribuir culpa aos outros, aceite a responsabilidade pela própria evolução e as lições inerentes à vida. Isto é parte do Caminho. Somente os tolos desejam mudar o mundo, os sábios transformam a si mesmo na certeza de que tudo mais virá por afinidade. Por fim, nunca conceda a ninguém o poder sobre a sua paz. Esta é uma das muitas escolhas que lhe pertencem. Nas escolhas residem o seu poder, no aperfeiçoamento das virtudes você conhecerá as suas asas”.</p>
<p>Loureiro me ofereceu um lindo sorriso e finalizou: “Não esqueça que não é o mundo que define a beleza da sua viagem, mas a força que você traz no coração. Esta força cresce na medida em que você depura, pouco a pouco, todas as virtudes em si; no mais, restam apenas os comentários, incapazes de impedir a sua jornada”. Me olhou nos olhos e disse: “Não é preciso autorização nem há limites para quem voa impulsionado pelos ventos das próprias virtudes”.</p>
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		<title>De volta ao topo do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Nov 2016 07:55:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Falei ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, que passaria o meu aniversário no mosteiro de Takshang, próximo à cidade de Paro, no Butão. Queria o silêncio e a energia desse mosteiro budista, de difícil acesso, encravado no Himalaia, para meditar e refletir sobre o momento...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Falei ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, que passaria o meu aniversário no mosteiro de Takshang, próximo à cidade de Paro, no Butão. Queria o silêncio e a energia desse mosteiro budista, de difícil acesso, encravado no Himalaia, para meditar e refletir sobre o momento em que me encontrava, mais precisamente a respeito da empresa em que eu era sócio. Tínhamos recebido uma proposta de outra firma, bem maior e de âmbito internacional, para uma fusão que geraria, além de um grande ganho financeiro e uma mudança angular em meu estilo de vida. Desde a ter que usar terno no dia a dia até morar em outra cidade, fora as incontáveis reuniões e rotinas típicas das grandes empresas. Os meus sócios, éramos três, estavam animadíssimos com a possibilidade que se apresentava. O meu coração não me deixava compartilhar de tamanho entusiasmo. A nossa empresa navegava com tranquilidade, não éramos ricos, mas tínhamos uma vida confortável e, acima de tudo, havia tempo para eu me dedicar a outras atividades que me eram valiosas, como a Ordem, os estudos, a escrita, os encontros com os amigos, a convivência familiar, entre outros bens intangíveis. No entanto, não é toda hora que surge uma oportunidade para subir de patamar financeiro e todos me pressionavam para que eu decidisse logo. A mudança no jeito de viver era o que agoniava. A dúvida me corroía.</p>
<p>O Velho me aconselhou: “Gosto das transformações, pois são bons indícios de evolução. No entanto, nem toda fruta é doce assim como nem toda regra é absoluta. Quando sair do Butão, pegue a estrada que desce o Himalaia pelo lado chinês. Você encontrará uma agradável vila. Lá, procure por Li Tzu, o mestre taoista. Se deixe encantar por tudo que acontecer”. Agradeci e parti sem entender exatamente ao que o monge se referia.<span id="more-1264"></span></p>
<p>Quando estava de saída de Paro, pensei em desistir de procurar o amigo do Velho, porém acabei me deixando levar pelo fluxo dos acontecimentos e segui ao encontro de Li Tzu. A primeira boa surpresa foi a pequena vila chinesa. Bonita e agradável, trazia uma estranha sensação de conforto, apesar da extrema simplicidade. As pessoas eram gentis e pareciam não ter pressa. Além da enorme quantidade de flores por todo o canto, notei muitos ocidentais pelas ruas e, para o meu espanto, tive dificuldade em conseguir uma vaga na única hospedaria da cidade, sendo salvo, a última hora, por um dinamarquês que teve de retornar ao seu país em razão de um imprevisto. Todos aguardavam ser atendidos pelo mestre taoista. Soube, então, que Li Tzu era formado em botânica por uma prestigiosa universidade inglesa e exercia a tradicional medicina chinesa com tratamentos a base de acupuntura, chá de ervas e o Tao, a milenar sabedoria oriental escrita por Lao Zi no Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. Ele usava agulhas, ervas e as palavras para a cura do corpo e da alma.</p>
<p>A casa de Li Tzu era um dos lugares mais encantadores que conheci. Plantas por todos os lados, o que era esperado, toda a construção em madeira, um formoso lago na frente e o um belo jardim de bonsais no quintal dos fundos. Um elegante gato se comportava como o dono do lugar. A música que brotava por todos os lados era o som do silêncio harmonioso. O botânico se movimentava com extrema serenidade, a sua voz era baixa, seus gestos revelavam tranquilidade. Quando me apresentei, ele me ofereceu um sorriso sincero e disse que me esperava. Acrescentou que possuía enorme admiração pelo Velho, a quem conhecera há muitos anos, quando jovens, na universidade, embora frequentassem diferentes cursos. “A lei da afinidade é inexorável”, falou na certeza de ter me dado uma explicação óbvia. Calculei que deveriam ter mais ou menos a mesma idade. Em seguida ele me ofereceu um chá e sentamos em confortáveis poltronas. Expliquei a razão pela qual o tinha procurado. Ele apenas balançou a cabeça como quem diz ter entendido. Falei que admirava muito a tranquilidade que reinava naquele lugar. Li Tzu me explicou: “Toda casa reflete a alma do dono. Fiz as pazes com o tempo e com as minhas emoções para que a felicidade encontrasse a morada definitiva”. Em seguida me deu um pequeno papel com o capitulo quarenta e quatro do Tao:</p>
<p>“A fama ou a pessoa, qual a mais importante,</p>
<p>a pessoa ou o dinheiro, qual mais precioso?</p>
<p>Ganhar ou perder, qual é pior?</p>
<p>Quem muito se apega, muito vai sofrer.</p>
<p>Quem muito poupa, muito mais perder,</p>
<p>quem se satisfaz com pouco não tem que recear,</p>
<p>quem sabe quando parar não corre perigos.</p>
<p>Assim perfumamos a vida”.</p>
<p>E pediu: “Leia atentamente por muitas vezes e retorne amanhã”. Agradeci e fiz conforme a orientação. Nos dias que se seguiram, ora ele me oferecia um chá, noutros fazia uma sessão de acupuntura, sempre com o pedido para que continuasse a ler e voltasse no dia seguinte. Isto aconteceu por uma semana. Em geral, eu teria perdido a paciência e, com certeza, partiria lamentando o tempo perdido. Mas não daquela vez. Lembrei das palavras do Velho e fui me deixando contagiar pela agradável energia que me envolvia e toda aquela serenidade se mostrou possível para mim sem esforço maior. Embora, naquela altura, já conhecesse o texto de cor, me neguei a ter pressa ao dominar conscientemente a ansiedade. Por que perderia a paciência se a calma era o que eu mais apreciava naquele lugar? Tive a estranha percepção de que, ao contrário do que imaginava, o tempo também pode esperar. A consequência imediata foi a clareza do raciocínio, que lentamente fortalecia as escolhas que me aguardavam. Aos poucos, eu abandonava os tambores do mundo para ouvir a doce flauta do coração. Passei a me divertir tentando adivinhar se no dia seguinte eu seria recebido por ervas ou agulhas. O sétimo dia foi de palavras.</p>
<p>Li Tzu se sentou ao meu lado e pediu para eu interpretar o poema. Falei que percebia ritmo e sonoridade nos versos, mas os achava confusos, pois falavam de várias coisas ao mesmo tempo sem muito esclarecer. O taoista disse com a voz suave: “Esse capítulo fala de um assunto crucial: uma importante escolha que define o destino próximo”. Deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Fala do sentido que o indivíduo dará a própria vida. Uma bifurcação onde por um lado se apresenta a fortuna e a fama, que tanto lustram o ego e se apresentam como diploma de sucesso e vitória; por outro, a evolução pessoal em busca da plenitude e da integralidade do ser, tendo a paz como consequência natural da evolução”. Interrompi para questionar se dinheiro e espiritualidade se confrontam ou se anulam. Li Tzu me olhou como a uma criança e esclareceu: “Claro que não. É possível fazer muitas coisas boas com o dinheiro. É um instrumento maravilhoso que pode animar sorrisos em toda a gente. Porém, também pode alimentar as sombras da humanidade. É como uma faca que pode auxiliar ao cozinheiro a preparar um gostoso guisado ou ser usada por um assassino para espalhar a dor”. Franziu as sobrancelhas e disse com seriedade didática: “Veja a internet e as suas redes sociais, apenas para ser mais atual, podem aproximar as pessoas e criar pontes ou semear a discórdia e construir muros. Facas, internet, dinheiro ou tudo mais são apenas ferramentas. Cada um define a obra que construirá com elas. Podemos enfeitar uma bela praça onde todos serão convidados para um alegre baile ou erguer um castelo fortificado para abrigar o ego inseguro”. Calou por instantes e disse: “Cada qual decide a função e o poder que o dinheiro terá em sua vida. Isto desenha o próprio destino e revela o seu atual estágio de consciência e capacidade amorosa”.</p>
<p>“Em seguida o poema fala em ganhar ou perder. Estamos condicionados a entender que ganhar nos torna vitoriosos, certo? Mas nos referimos as riquezas do ego ou da alma? Vale a pena ganhar dinheiro e desperdiçar a oportunidade de consolidar as virtudes no espírito? De que vale ganhar uma luxuosa prisão sem grades e perder a simplicidade das asas para voos inimagináveis? É preciso entender o limite e o sentido da força do dinheiro dentro de nós a cada escolha que fazemos. A todo instante ele pode oferecer um banquete para o ego ou uma festa para alma. Cada qual escolhe onde comparecer”.</p>
<p>“Em seguida o escritor esclarece sobre a importância do desapego”. Fechou os olhos como se procurasse as melhores palavras e disse: “O indivíduo que ainda tem o ego desalinhado à alma traz uma fragilidade que precisa compensar com a admiração de quem o cerca. O dinheiro, sem falar em um sem número de ideias e conceitos, em razão de condicionamentos culturais, acaba por ser o objetivo raso a ser alcançado na ilusão da felicidade. Acabamos por criar uma infinidade de dependências, que se iniciam por materiais, mas por não se sustentarem, desaguam em crises emocionais. Qualquer dependência, seja material ou emocional, é uma ilusão e absolutamente desnecessária. Tais apegos formam as raízes de todas as dores. Então, mutilamos o espírito para manter intacto o patrimônio; permitimos que a paz morra de inanição para engordar a conta bancária; agigantamos o egoísmo para que o outro ceda a nossa vontade; atropelamos a tudo para que a nossa razão prevaleça. Quantas vezes, por ter medo do amanhã, nos desviamos do caminho para pegar mais e mais frutos, dos quais comeremos alguns, muitos apodrecerão, mas que manteremos no cesto, tornando-o tão pesado que nos impedirá de seguir adiante”?</p>
<p>Em seguida concluiu: “Tudo aquilo que temos ou somos, mas não conseguimos compartilhar, não se traduz em luz”.</p>
<p>“Então, o texto milenar oferece valiosas indicações ao andarilho ao dizer que ‘quem se satisfaz com pouco não tem o que recear’. Bebeu um gole de chá e explicou: “Claro que ninguém deve se maltratar, impor privações ao corpo, virar um asceta, viver como um mendigo ou abrir mão do mel da vida. Isto é uma afronta ao espírito, a essência de cada um e a todo o universo, da qual fazemos parte, que se expande a cada segundo e trabalha em prol da evolução e do bem-estar. Apenas é preciso harmonia e equilíbrio, pois são instrumentos poderosos da luz. Conhecer as fronteiras de si mesmo significa entender a virtude da leveza: de quanto menos você precisar maior será a sua liberdade”.</p>
<p>“Toda dependência, por ser uma criação mental do ego, endurece o cárcere que cada qual se aprisiona. Todo desejo é um carcereiro que oprime”. Me olhou nos olhos e quis saber: “Entende um pouco mais das lutas que deve travar? Percebe onde está o seu campo de batalha? Para ser grande aos olhos do mundo não podemos nem precisamos perder a grandeza que floresce no coração”.</p>
<p>Olhou-me de jeito profundo antes de falar: “Somente os pequenos querem conquistar o mundo. Os grandes sabem que a fortuna está na conquista de si mesmo”. Em seguida, finalizou: “Assim perfumamos a vida”.</p>
<p>Quando desci a montanha parecia que meus pés nem tocavam no chão. Nunca me pareceu tão simples uma decisão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-1150 aligncenter" src="/wp-content/uploads/2016/09/_d_improd_/yoskhaz_f_improf_1200x628.jpg" alt="yoskhaz" width="1200" height="628" /></p>
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		<title>O topo do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Nov 2016 08:05:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Enchi uma caneca de café na cantina e fui à biblioteca do mosteiro. Era final da tarde e eu ansiava por um pouco de leitura e reflexão. Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona com o olhar entretido nas...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Enchi uma caneca de café na cantina e fui à biblioteca do mosteiro. Era final da tarde e eu ansiava por um pouco de leitura e reflexão. Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona com o olhar entretido nas montanhas avistadas através das enormes janelas. Ele me cumprimentou com um sorriso sincero. Ao me perceber perdido nas prateleiras entre os inúmeros bons títulos, de Yogananda a Fernando Pessoa, de Chico Xavier a Lao Tsi, passeando entre Espinosa e Jung, o monge sussurrou: “Faça como Paulo, o apóstolo dos gentios. Dizem que ele sempre abria a Bíblia ao acaso quando queria um texto para meditar. Como o acaso não existe, ele sempre encontrava as palavras das quais precisava”. Sentei-me com as Escrituras e a página que se apresentou falava de uma passagem que me incomodou desde a primeira vez em que li, na qual mestre Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Céu. Li e reli todo o capítulo. Insatisfeito, perguntei ao Velho se o dinheiro era um impeditivo à iluminação. Ele me olhou como a uma criança e disse com a sua voz suave: “Claro que não. O dinheiro é uma ferramenta maravilhosa, passível de semear bons frutos, desde, é claro, que utilizado de maneira correta”. Argumentei de que não isso que estava escrito.<span id="more-1248"></span></p>
<p>O monge parecia não perder a paciência e disse: “Ao ler a Bíblia temos que ter em mente três importantes aspectos: o contexto histórico no qual os fatos se desenrolaram, vez que foi escrita há dois mil anos e, embora ainda atual, o estágio da humanidade era outro; a questão da tradução, pois algumas palavras possuem vários significados e podem ocultar o melhor sentido; por fim, é importante lembrar que esses textos foram escritos não para muitos, mas para todos. Logo, para serem devidamente compreendidos necessitam da valiosa subjetividade para alcançar distintos níveis de consciência. O sentido literal será sempre o mais raso”.</p>
<p>“O dinheiro é uma questão de extrema importância. Todos os dias, alguns bilhões de pessoas no planeta precisam se alimentar, se vestir e ter um abrigo decente para uma vida digna. Ignorar isto é negar este mundo e todo o aprendizado que ele contém. Não à toa a economia ocupa as manchetes dos jornais por afetar a sobrevivência de cada um de nós. O problema se agrava porque o dinheiro ainda é visto como régua de sucesso pessoal para a maioria, motivo de reverência e aplauso, como se fosse retrato de uma vida repleta de luz, de felicidade e de paz interior. Hoje o dinheiro pode adquirir prestígio, desejos e admiração. Imagine há dois milênios quando o dinheiro comprava até mesmo a propriedade sobre pessoas sujeitadas à escravidão”! Deu uma breve pausa e prosseguiu: “Acreditava-se, naquela época, que Deus escolhia os seus filhos prediletos através da fortuna que amealhavam. Ainda hoje encontro pessoas que pensam de jeito parecido: ‘se fulano fez fortuna é porque foi abençoado’. Quando, na verdade, ter muito dinheiro acaba por ser uma prova de fogo dificílima de ultrapassar, pois, muitas vezes, desvia o andarilho do lado ensolarado da estrada devido as enormes tentações e privilégios que oferece. Esta dificuldade é o real sentido da mensagem do mestre”. Franziu as sobrancelhas e acrescentou: “Cedo ou tarde todos conseguirão atravessar a porta estreita das virtudes, mas não sem muito esforço. Viver a riqueza traz as devidas lições, assim como a pobreza contém outras tantas. Todos precisamos de ambas, o que obriga a fazer muitas escalas durante a grande viagem”.</p>
<p>Interrompi para dizer que existe uma forte cultura a estimular a visão de que o sucesso financeiro é o topo do mundo. Há inúmeros programas e revistas ressaltando o glamour dos milionários: mansões, iates, ilhas paradisíacas, roupas de grifes exclusivas, festas inacessíveis para os simples mortais e, o mais desejado pelo ego cego, os aplausos da fama vazia. Um ricaço fanfarrão faz mais audiência pelo mero fato de ser rico e extravagante do que outro indivíduo de vida mais simples, como um médico, por exemplo, que ao invés de descansar em suas merecidas férias aproveita para viajar a algum canto esquecido do planeta com o intuito de ajudar povos refugiados em total desamparo. E ninguém comenta, desabafei. O monge balançou a cabeça em concordância e disse com calma: “Sim, é verdade e isto é muito bom”. </p>
<p>Bom? Como assim? À beira da revolta, falei que não tinha entendido. O Velho sorriu e foi mais didático ao explicar: “Isto revela o nosso atual grau de encantamento. Percebe que toda essa maneira de viver cria uma névoa de ilusão que nos distancia da verdade? Conviver diariamente com essa situação é como levar a alma todos os dias à academia para exercitar a clareza do olhar e burilar as escolhas”. Piscou o olho e completou de jeito gaiato: “Movimente uma alma preguiçosa todos os dias e dentro de alguns meses ela conseguirá completar uma maratona de luz sem demonstrar cansaço”. </p>
<p>Tornou a se calar por instantes e me perguntou: “Qual o sentido da sua vida”? Eu tinha acabado de ler um livro maravilhoso de Krishnamurti onde essa questão era abordada em profundidade e não hesitei em responder que eu tinha por objetivo primordial a evolução espiritual. O monge quis saber o que eu entendia por evoluir. Falei que evoluímos na medida que expandimos a consciência e ampliamos a capacidade amorosa. Os olhos do Velho sorriram e ele falou: “Perfeito”. Tornou a dar uma pausa para que as ideias fossem concatenadas com calma e continuou: “No entanto, os nossos espíritos habitam hoje um corpo físico que têm necessidades materiais. Isto porque entender o equilíbrio entre a prosperidade material e a espiritual é uma importantíssima fase do aprendizado que nos encontramos. Teremos um corpo físico até conseguirmos alinhar desejo e necessidade, equilibrar os sentimentos individuais com os do mundo, harmonizar o ego à alma para integralizar o ser. Isto fará florescer no indivíduo todas as virtudes, que juntas, formam o que denominamos de Luz. Este é o nosso atual estágio: superar as camadas de interesse do ego para se aproximar aos valores essenciais da alma, sem abdicar das necessidades do físico. É parte do processo de libertação de todos. Para tanto é necessário entender que no material o suficiente é o bastante; no espiritual o infinito é o limite. O conforto será sempre bem-vindo, apenas não precisa ser confundido com o supérfluo. Menos pode ser mais quando se percebe a força inabalável da humildade e da simplicidade diante do brilho efêmero da ostentação e da fragilidade do orgulho e da vaidade”. Interrompi para acrescentar que evoluir era muito complicado. Ele sorriu e falou. “Transformar as velhas formas, os conceitos ultrapassados, as práticas obsoletas de ser e viver exigem amor, sabedoria e coragem. Não é fácil evoluir, porém não precisa ser sinônimo de sofrimento. Se houver dor ou ficar pesado significa que algo está errado, pois a evolução traz leveza e cura. De quanto menos eu precisar maiores serão as minhas asas e elas são indispensáveis para sobrevoar os vales sombrios da existência. Todo o resto é uma dourada prisão sem grades”.  </p>
<p>“Cada qual é herdeiro de si mesmo e o único legado permitido levar para a próxima estação é a mente desperta e o coração puro. Conquistas morais, intelectuais e sentimentais, quando reunidas, formam o bilhete para seguir a viagem sem fim”.</p>
<p>“Seja pobre ou rico, o que impede a evolução é quando o dinheiro se torna a principal mola que o impulsiona e todos os privilégios amealhados ou desejados se tornam a engrenagem que emperra o movimento na conquista das nobres virtudes pessoais, as verdadeiras riquezas imateriais da vida”. </p>
<p>“O dinheiro pode ser um instrumento de sombra ou de luz. A decisão é pessoal”</p>
<p>“Enfim, o dinheiro é uma ferramenta fantástica que permite semear flores em cada gesto de solidariedade e tecer oportunidades para si e para outros. A fortuna pode ser o punhal do poder e da opressão, os óculos da vaidade, a fantasia do orgulho e servir à construção de muros que separam toda a gente; ou se tornar a semente do amor e da misericórdia, as sandálias da humildade, o manto da justiça e ajudar a erguer pontes que aproximem corações. Todos os dias cada um faz a sua escolha e a reafirma no dia seguinte”.</p>
<p>Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavras. O monge quebrou o silêncio ao apontar com o queixo as montanhas que víamos pela janela e disse: “Cada qual escolhe a montanha que irá escalar, é o topo do mundo pessoal. Lá encontrará, ou não, a plenitude e a paz. Se você ainda não as encontrou é porque não chegou ao cume ou, então, escolheu a montanha errada para subir”.</p>
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<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-1150 aligncenter" src="/wp-content/uploads/2016/09/_d_improd_/yoskhaz_f_improf_1200x628.jpg" alt="yoskhaz" width="1200" height="628" /></p>
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		<title>O amor não precisa ser perfeito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Nov 2016 19:25:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando entrei eles já estavam conversando. Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e livros, escutava as lamúrias de um sobrinho sobre as dificuldades que tinha nos relacionamentos afetivos. Fomos apresentados. O jovem, bastante educado, disse que não se incomodava de eu participar da conversa. Na verdade, achava muito bom, pois...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando entrei eles já estavam conversando. Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e livros, escutava as lamúrias de um sobrinho sobre as dificuldades que tinha nos relacionamentos afetivos. Fomos apresentados. O jovem, bastante educado, disse que não se incomodava de eu participar da conversa. Na verdade, achava muito bom, pois seria mais uma opinião a clarear o seu entendimento. O elegante artesão foi passar um bule de café enquanto o rapaz me explicava que, em suma, quanto mais ele conhecia uma pessoa maior era a sua decepção. Sentenciou que as máscaras não se sustentam no convívio pessoal e, o que se revela, definitivamente nunca o agradou.</p>
<p>Loureiro, que enchia as nossas canecas sobre o balcão com café fresco, aproveitou a deixa e disse: “Todos desejamos ser amados e admirados. É a vontade latente do nosso ego: os holofotes e os aplausos. Então, inconscientemente criamos personagens que acreditamos serem reais para interpretar os papéis que atinjam tal objetivo”. O sobrinho interrompeu para acrescentar que era exatamente isso que não gostava nas pessoas. Buscava por aqueles que fossem autênticos. “Mas, de certa maneira, eles são”, corrigiu o tio. O rapaz disse que o sapateiro estava sendo contraditório. Loureiro iniciou a sua explicação ao estilo socrático, com uma pergunta: “Quando você se interessa por uma moça costuma se aproximar mostrando o quanto é vaidoso, orgulhoso, teimoso e egoísta”?<span id="more-1239"></span></p>
<p>Contrariado, o rapaz sustentou que sabia que não era uma pessoa perfeita, no entanto, havia aspectos na sua personalidade bem mais interessantes a serem conhecidos pelo mundo. O sapateiro concordou e, em seguida, se aprofundou: “Sim, sem dúvida. Todos pensamos que nossas virtudes são mais relevantes que nossas dificuldades. E são. Por sua vez, as dificuldades nada mais são do que as sementes das novas virtudes a procura de um pouco de sol para que consigam germinar”, tomou um gole de café e prosseguiu: “Projetamos o ideal da pessoa que queremos ser antes de sê-la. Não há nenhum problema nisto, é o processo natural, pois já temos o entendimento, falta a força para vivenciá-lo. Entretanto, nem sempre é fácil, pois nos obriga a deixar para trás hábitos já tão velhos que produziram raízes profundas. Porém, é indispensável ou não haverá avanço. É como a cobra que troca de pele para seguir maior e mais forte. É a mesma cobra, mas é outra cobra”.</p>
<p>“Na maioria das vezes, em um primeiro encontro, antes que as dificuldades se apresentem, abrimos uma incrível caixa de lápis de cor para enfeitar as nossas virtudes. Em maior ou menor dose, cada qual em seu estilo, uns mais extrovertidos, outros com sutileza; grosseiros ou sofisticados, nos esforçamos para mostrar, em resumo, o quanto somos inteligentes e sensíveis. E não se iluda: com ninguém é diferente”. Diante do olhar atento do sobrinho, Loureiro o desconcertou: “E você sabe qual a face do seu ser que quer mostrar a todos as suas melhores virtudes”? A pergunta era apenas retórica e o próprio artesão respondeu: “As suas próprias sombras”.</p>
<p>“Não esqueça que são as sombras que buscam pelas aprovações sociais, pelos elogios e condecorações. A alma apenas quer aprender com tudo o que acontece a sua volta, transmutar a escuridão dos porões do ser em luz, compartilhar o melhor que floresce em si, não apenas em discurso, mas em atitude e depois seguir a viagem sem fim”.</p>
<p>“Todas as vezes que estamos na esfera das palavras devemos nos questionar: eu já consigo vivenciar, de maneira ampla, toda a minha excelente teoria? Se a resposta for ‘sim’ significa que você ainda tem dificuldade em ser sincero consigo mesmo. As suas sombras ainda conseguem lhe enganar. Se a resposta for ‘não’ representa que você está a um passo da transformação, pois já consegue se conhecer melhor. E por quê”?</p>
<p>Como todos se calaram, Loureiro concluiu: “Porque a alma sabe que o poder está no exemplo da ação silenciosa e não na beleza do discurso fácil. Vale ressaltar que a ação realizada para o encanto da plateia a torna equivalente às palavras escandalosas e se perde no ralo das vaidades”.</p>
<p>“Todas as vezes que estiver tecendo uma crítica, se questione: eu já consigo ser o exemplo de perfeição que reclamo faltar ao mundo? Este é o importante passo para o primeiro portal do Caminho, a humildade. Entender que por mais que se imagine uma pessoa maravilhosa ainda está bem longe da perfeição. Então, como exigir do outro o que você ainda não tem para oferecer? Ninguém, absolutamente ninguém, é mais do que um ser em evolução, um espírito a caminho da Luz”.</p>
<p>O jovem lamentou que algumas pessoas exageram na interpretação dos seus papéis. O artesão deu um sorriso doce e falou: “Os excessos devem, na medida do possível, ser desculpáveis, pois apenas retratam a dimensão da ansiedade e da carência em ser aceito e amado. Com ninguém é diferente. Compreender isto é exercitar valiosas virtudes: a compaixão em relação ao outro, a sinceridade em relação a si mesmo. Perceber os personagens alheios é essencial, não para desnudá-los, mas para ajudar a transformar os nossos em realidade, fundindo as virtudes que admiramos e modificando as características que não mais desejamos em nosso jeito de ser e viver. Definitivamente. Somente assim ganhamos força e poder. Isso é pura Luz”.</p>
<p>“Essa é a beleza e a importância dos relacionamentos. A dificuldade do outro me ajuda a entender as minhas próprias sombras. O que incomoda no trato pessoal costuma ser a exata medida do meu aprendizado. O outro será sempre um bom espelho, pois a maneira como reajo a cada contrariedade, impedimento ou oposição define quem eu já consigo ser”.</p>
<p>O rapaz falou que procurava para os seus relacionamentos pessoas que pudessem completá-lo. O bom tio ponderou: “Não raro procuramos no outro o que ainda não temos em nós. Vivemos a procura de alguém para nos completar na ilusão de que assim a felicidade se manifestará. Ledo engano. Desejamos infantilmente que nos ofereçam a felicidade pela via da facilidade ao invés de construí-la através do aprendizado e da transformação. Em outras palavras, queremos de presente o que deve ser conquistado. Este é o cerne de todos os conflitos, pois ao se deparar com as dificuldades alheias as nossas se revelam. Ninguém terá o poder da felicidade ou da paz sobre ninguém, uma vez que esta batalha é pessoal e intrasferível. Então, surgem as sombras para nos convencer que é melhor procurar o mel da vida em outro lugar. Saímos à cata de outras pessoas esquecendo que o mapa do tesouro aponta para o próprio coração. Estagnamos todas as vezes que acreditamos que o problema está nos outros.. Negar as dificuldades é recusar o próprio aperfeiçoamento”.</p>
<p>Deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Quando a convivência é ocasional fica mais fácil ser encantador porque, não raro, conseguimos oferecer apenas o nosso melhor. Estamos mentindo quando fazemos isto? Claro que não. As dificuldades nem sempre anulam as virtudes, caso contrário ninguém teria qualquer característica positiva. Nisto reside a magia do convívio mais intenso e duradouro. Pois é na constância do dia a dia que somos levados a mostrar a faceta mais sombria, o que também temos de ruim. Saímos do raso para mergulhar na profundidade do ser. É a oportunidade de as sombras revelarem a sua existência e tamanho. Todavia, não raro, os relacionamentos terminam e as pessoas se afastam. E, muitas vezes, perdemos a oportunidade de vivenciar o florescimento de belas virtudes e bonitas transformações”.</p>
<p>“O convívio intenso desnuda o ser. Não apenas o outro, mas a você também. O dia a dia arranca as máscaras, mostra os vícios, revela as feridas. Enfim, mostra o que temos de pior. É ruim? Não necessariamente. Isto pode esgarçar a relação ou aproximar mentes e corações que tenham a percepção e a vontade de se ajudar”. O rapaz quis saber se o tio o aconselhava a ficar ao lado de quem não tinha vontade.  O sapateiro balançou a cabeça e disse: “Claro que não. Não somos obrigados a nada, muito menos a conviver com quem nos incomoda e chateia. Apenas quero lembrar que para existir o amor não precisa ser perfeito”.</p>
<p>Eu interrompi para argumentar que, por vezes, as pessoas têm interesses tão distintos que as frequências vibracionais não permitem a convivência, ao menos naquele momento. O artesão concordou, em parte: “Sim, é verdade. Sem dúvida há relacionamentos que precisam ser estancados tamanha se torna a disparidade de interesses e valores entre as partes. Cada qual deve sempre seguir na direção da própria verdade em compasso com as suas afinidades. Entretanto, não pode haver banalização. É preciso atentar que as afinidades também se revelam nas dificuldades em comum”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “Outro aspecto que temos que prestar atenção: discordar do jeito de ser de uma pessoa não significa, necessariamente, eliminá-la da sua vida. Claro que acabamos por escolher em estar perto daqueles que nos trazem conforto e alegria. No entanto, todos, sem exceção, são fontes de aprendizado. Não precisamos de ninguém para ser feliz, mas precisamos de todos para nos tornar melhores”.</p>
<p>“A conivência ao lado das dificuldades, dos erros e das faltas do outro jamais deve ser visto como penitência, acho este conceito ultrapassado e cruel. Porém, na medida do possível de cada um, deve ser encarada como uma poderosa alavanca de evolução. Só existe amor e sabedoria onde a paciência, o respeito, a humildade e a compaixão já fincaram raízes. Demonstra a sensibilidade do olhar que é capaz de ressaltar as virtudes já existentes e, principalmente, a percepção de que as dificuldades são as virtudes ainda latentes, prontas para despertar. As suas e as do outro. A conquista só se completa quando os dois lados ganham”, deu uma pausa e finalizou: “Entender isso é perceber a beleza da vida. O amor precisa ser imperfeito para que seja manuseado, aperfeiçoado. Só assim haverá um pedaço da gente quando revelado em perfeição”.</p>
<p>O rapaz abaixou a cabeça. Agradeceu ao artesão com palavras sinceras e disse que estava com uma estranha vontade de encontrar com a ex-namorada. Quando se despediu percebi que havia um bonito brilho em seu olhar.</p>
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<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-1150 aligncenter" src="/wp-content/uploads/2016/09/_d_improd_/yoskhaz_f_improf_1200x628.jpg" alt="yoskhaz" width="1200" height="628" /></p>
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		<title>As ferramentas do amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Oct 2016 09:01:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS II]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, entrou na agradável biblioteca do mosteiro, eu estava imerso na reflexão de um trecho do livro de parábolas de Rami. O monge retirou um livro da estante e se acomodou em uma confortável poltrona ao meu lado. Reparei que era o milenar Tao Te Ching ou o Livro do Caminho e da Virtude, de Lao Zi. Como estávamos apenas os dois na biblioteca, ousei puxar assunto. Falei que, por acaso, lia um livro que também abordava o valor das virtudes e, além de enaltecer a coragem como uma delas, sentenciava que ‘o amor é para os fortes’. O monge, com a sua voz sempre suave, foi lacônico em seu comentário: “Sim, é verdade”. Discordei sob o argumento de que o amor, por toda a sua importância, estava à disposição de todos, indiscriminadamente. O Velho me olhou com a sua enorme paciência e disse: “Sim, também é verdade”. Balancei a cabeça e mexi as mãos, como se esses movimentos pudessem amplificar as minhas razões, para acrescentar que ele estava sendo incoerente: o amor era para todos ou apenas para os fortes. Pedi para ele se decidir. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e começou a explicar: “Você confunde tudo, Yoskhaz. Não percebe que se trata de coisas diferentes? Ou melhor, de situações em que o amor se apresenta de maneiras distintas”?</p>
<p>“Sim, o amor está ao dispor de cada pessoa, pois, por ser a força que rege o universo, repousa na essência de todos. O amor é a estrada e o destino. É a virtude maior por estar presente em todas as demais virtudes ou elas deixam de existir. No entanto, para viver o amor, ao menos em toda a sua extensão, precisamos dessas outras virtudes como instrumentos de disseminação do bem. Assim, permitimos, não apenas o desenvolvimento do próprio ser, mas a propagação da luz por ele emanada até a mais distante das estrelas. O universo agradece e nos retribui também em luz por gratidão e justiça”. Deu uma breve pausa e prosseguiu: “O amor é a virtude indispensável nas transformações, logo, sem ele não há evolução. No entanto, o amor adormecido em cada um de nós precisa de trabalho para despertar e crescer nas adversidades. Amar quem nos ama é fácil; amar quando as situações são favoráveis, muitos conseguem; amar nas adversidades é permitido apenas aos fortes”.<span id="more-1219"></span></p>
<p>Falei que não tinha entendido. O monge fechou os olhos, como se procurasse a melhor palavra, e disse: “O amor é o alimento da alma; é o sagrado que nos habita. Cada qual, em essência, é tão somente a centelha de amor que o movimenta. Nada mais. No entanto, o amor que existe em cada um de nós é como uma semente que precisa florescer para embelezar a si e frutificar para alimentar ao mundo”, deu uma breve pausa e concluiu: “Não esqueça que conhecemos a árvore pelos seus frutos”, lembrou de uma valiosa passagem do Sermão da Montanha.</p>
<p>Comentei que como cada um oferece apenas o que possui, o indivíduo ama na exata medida da sua capacidade de amar. O Velho concordou: “Não tenha dúvida. Por isso a importância do desenvolvimento das virtudes, elas são as ferramentas do amor. Evoluímos na medida que que aprendemos a utilizar esses instrumentos. As virtudes se apresentam, desenvolvem e sedimentam no ser de acordo não apenas do seu nível de consciência, mas, também, da sua capacidade amorosa”.</p>
<p>De pronto, pedi para ele falar mais das virtudes. O Velho disse: “São muitas as virtudes e o andarilho precisa aperfeiçoar todas em si. O amor, a sabedoria e a coragem; a justiça, a honestidade, a compaixão, a misericórdia, a dignidade e a sinceridade; a liberdade, a humildade, a simplicidade e a pureza; a paciência, o respeito, a doçura, a delicadeza e a alegria são algumas dessas ferramentas indispensáveis nos campos da evolução. Se você prestar atenção, perceberá que as virtudes necessitam uma das outras para ganhar força e poder, fechando o círculo de cura da vida. Embora cada qual pareça independente, elas se completam em trabalho de indispensável solidariedade”.</p>
<p>Eu quis saber um pouco mais sobre o intercâmbio que integram as virtudes. O Velho não se fez de rogado: “O principio básico ensina que o amor é a força que deve orientar todas as nossas escolhas. Ou seja, nos movimentamos por amor ou estaremos seguindo para o lado errado. Um pequeno exemplo: não raro, assistimos a sabedoria sendo utilizada para enganar, manipular e conseguir vantagens desonestas. Por sua vez, a coragem também está presente no ânimo dos malfeitores quando da prática de muitos dos seus crimes absurdos. Estamos acostumados a associar os heróis aos atos de bravura e inteligência nos filmes de cinema, esquecendo que os bandidos também utilizam essas ferramentas para executarem os seus planos terríveis. Qual a diferença entre eles? É que os heróis se servem da sabedoria e a coragem para a prática do bem. Somente quando revestidas de amor, a sabedoria e a coragem se tornam virtudes; sem amor, sabedoria e coragem se desviam para as raias da esperteza e da brutalidade”.</p>
<p>Falei que estava achando o amor muito complicado. O monge deu uma gostosa gargalhada e foi didático: “Para viver o amor precisamos entender o amor. É indispensável desconstruir muitos dos conceitos que nos iludem quanto a esse sentimento e começar a percebê-lo como ele é de verdade. Será necessário que já tenha desenvolvido algumas virtudes como a sabedoria, o respeito, a generosidade, a harmonia e a liberdade”. Pedi para ele citar alguns exemplos. O Velho falou: “Entender de uma vez por todas que amor não é troca; que ninguém sofre por amor; que ninguém pertence a ninguém; que ninguém tem a obrigação de te fazer feliz, são apenas alguns dos condicionamentos que o impedem de viver o amor em toda a sua amplitude. Para tanto, se faz imprescindível descortinar o véu dos enganos proporcionado pelas sombras do medo, da ignorância e da desesperança. Mas não basta perceber, é preciso enfrentar e superar a si mesmo. E mais, é indispensável vivenciar e sentir tudo que se aprendeu ou as lições não se completam. É necessário se despir das ideias obsoletas e das reações automáticas que não servem mais. Se expor à rejeição e às críticas daqueles que ainda não conseguem entender o que já é claro no seu olhar. Deixar para trás muitas das coisas que até aqui se acreditou importantes, mas que agora pesam por inutilidade. Encarar o espelho para enxergar as feridas que sangram na alma e ter o firme propósito em se curar. Depois, oferecer o seu melhor a toda a gente e, então, seguir em frente”.</p>
<p>Perguntei qual era a forma mais sublime de amor. O Velho respondeu de pronto: “O perdão. O amor é para todos, mas apenas os fortes são capazes de perdoar quem os ofendeu. Derramar um olhar de sincera compaixão sobre o seu agressor e compreender que ele não foi capaz de fazer diferente e melhor. Não é fácil. Sem esquecer que o perdão tem que ser um ato de sincera humildade, pois temos as nossas próprias dificuldades e imperfeições; diferentes, talvez, daquelas do oponente, mas mesmo assim, dificuldades e imperfeições. Em seguida, envolver o ofensor em um manto de divina misericórdia por entender que todo agressor é profundamente infeliz por se distanciar do bem e de todas as demais energias derivadas do amor. É ainda mais difícil. Será preciso que você já tenha travado algumas batalhas com as suas próprias sombras e transmutado boa parte delas em luz. Trata-se de um ponto angular na transformação do ser. Isto torna o perdão sagrado e libertador. Os fracos ainda estão à serviço das ideias sombrias de revanche e sofrimento, vingança e dor; aprisionados, ao lado de quem os magoou, em um canto escuro de si mesmo”. Então, perguntou fechando o círculo com o início da conversa: “Entende por que o amor é destinado aos fortes? Percebeu que para viver o perdão foram necessárias outras virtudes como a compaixão, a humildade e a misericórdia? Além do amor, é claro”. Apenas balancei a cabeça como resposta.</p>
<p>Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Quebrei o silêncio para agradecer e dizer que eu começava a entender o valor e o poder das virtudes como ferramentas evolutivas. Em seguida o Velho falou: “As virtudes são as armas usadas pelo guerreiro do amor na grande batalha do universo, aquela que ele trava todos os dias dentro de si. Este é o seu compromisso; vencer a si mesmo é a vitória maior. A transmutação das próprias sombras se traduz em pura luz”, piscou o olho como fazia ao contar um segredo e finalizou: “Todas as virtudes estão adormecidas dentro de ti. Desperte-as e sinta a magia da vida nas tuas mãos através de infinitas transformações”!</p>
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