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	<title>MANUSCRITOS I &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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	<title>MANUSCRITOS I &#8211; Instituto Yoskhaz</title>
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		<title>A melhor parte.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Jan 2016 14:10:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS I]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando o homem chegou em frente ao mosteiro, o céu ainda era um manto de estrelas. Desceu do carro para apreciar a beleza da construção apenas em seus contornos, possível pelas poucas lâmpadas acesas. Alguém tinha lhe falado da Ordem, da sua raiz secular, dos estudos de filosofia e metafísica...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando o homem chegou em frente ao mosteiro, o céu ainda era um manto de estrelas. Desceu do carro para apreciar a beleza da construção apenas em seus contornos, possível pelas poucas lâmpadas acesas. Alguém tinha lhe falado da Ordem, da sua raiz secular, dos estudos de filosofia e metafísica aos quais seus monges se dedicavam, além dos trabalhos comunitários. Os únicos sons que ouvia eram dos animais noturnos da floresta próxima. Ele ainda era jovem e tinha abandonado a medicina dois anos após se diplomar, quando terminara a especialização em psiquiatria, para apostar em uma sociedade empresarial com um bom amigo. Os negócios deram certo e tinha ganho muito dinheiro. Comprou um apartamento confortável em badalado bairro de uma metrópole muito apreciada em cartões postais; teve carros caros, mulheres lindas e cobiçadas, viajou pelo mundo, mas nada arrancava ou preenchia o vazio em seu peito, como uma espécie de buraco negro que aos poucos parecia engolir toda a sua luz. Foi surpreendido por um ruído de passos vindo da mata, mas não sentiu medo. Virou-se e viu um facho de luz se aproximando aos poucos. Um monge, com a cabeça coberta pelo capuz a se proteger do frio, caminhava em passos lentos, porém firmes, com um pequeno cesto em uma das mãos e uma lanterna na outra. “As amoras ficam mais saborosas quando colhidas sob o orvalho”, disse o monge quando bem próximo, a mostrar as pequenas frutas acomodadas no cesto. “Adoro geleia”, complementou com absurda naturalidade de quem parecia esperar uma visita desconhecida naquela hora da madrugada. Convidou-o para entrar e tomar um café.</p>
<p>O jovem se apresentou enquanto se dirigiam ao refeitório e perguntou o nome do monge. “Todos me chamam de Velho”. Diante da feição de espanto do outro, acrescentou o ancião: “Penso que é um bom nome. A velhice me trouxe evidentes limitações físicas, um aviso para que eu perceba que a próxima estação está próxima. Por outro lado, me libertou de medos e iluminou sombras. Me fez entender o Caminho, ser leve, aprender o valor da dignidade, o sentido da liberdade e a importância do amor sobre todas as coisas e pessoas. Deu-me uma plenitude no sentir que o vigor da minha juventude não ofereceu e teve o mérito de me trazer até aqui”. Abaixou o capuz para que o homem pudesse apreciar o seu rosto vincado e complementou: “Quando me olho no espelho vejo cada ruga como um capítulo da minha vida, a contar as guerras que precisei atravessar para entender o valor da paz, como um caravaneiro que precisa enfrentar o deserto inóspito para entender toda a beleza e valor do oásis, que por ironia, sempre esteve escondido dentro dele, à sua espera”, finalizou com sua voz mansa e sorriso sincero.<span id="more-462"></span></p>
<p>Sentados diante das canecas de café fresco, o homem narrou a sua vida ao Velho, que ouviu com atenção. Falou sobre a enorme melancolia a lhe assaltar a qualquer hora do dia. Bebidas, além lugares cheios e barulhentos o ajudavam a afastar esse sentimento. Porém, por poucas horas, pois depois aquela emoção densa voltava ainda mais cruel, como um algoz a lhe maltratar sem piedade, como a cobrar pelos parcos momentos de divertimento. Lamentou que tivesse abandonado a medicina; embora tivesse ganho dinheiro em sua outra atividade, não havia um único dia que não pensasse em como seria a sua vida se tivesse feito outra escolha. Sentiu-se muito mal ao ver uma reportagem em prestigiosa revista sobre um colega de faculdade que se tornara um médico conceituado, com larga experiência de cura em sua especialidade. Culpou seus pais e o seu amigo, agora sócio, por influenciarem as suas decisões alguns anos atrás. A sua empresa, embora bastante lucrativa, não lhe dava alegria ou estímulo intelectual. Ao final, quando o homem se calou, o monge tomou um gole de café e disse: “Condicionamentos cultural, social e ancestral nos levam a associar o sucesso pessoal ao ganho financeiro, como se sucesso e dinheiro estivessem atrelados. A riqueza não apaga o rastro do que se perdeu na estrada”.</p>
<p>O homem alegou que uma coisa não anula a outra. “Concordo contigo”, assentiu o Velho. “ No entanto, o vento que leva para o Sul é o mesmo que impulsiona para o Norte. É necessário entender para que lado você posiciona as velas do seu barco: a riqueza como consequência natural da busca pela integralidade do ser adiciona ferramentas úteis; o dinheiro como objetivo primordial de vida subtrai elementos essenciais para alcançar a plenitude indispensável para a paz. Você encontrará tão somente o que estiver procurando, nada mais. Percebe que seus pais e amigos apenas alimentaram um desejo que já estava latente em você? Ou seja, falaram o que você queria ouvir. Culpar os outros pelas suas escolhas é transferir a responsabilidade que lhe cabe nas decisões inerentes a própria vida e, pior, desperdiçar preciosa lição. Você abdicou de um sonho em busca de um desejo e agora percebe que suas decisões, embora alimentem o ego, são insuficientes para a alma. O vazio que você sente é a sua fome por Luz”.</p>
<p>O homem confessou que se pudesse voltar no tempo faria outras escolhas. O monge arqueou os lábios repletos de compaixão e disse: “Fique calmo, tudo isso é comum no processo de aprendizado e já começa a se mostrar valioso pela vontade de sua alma em trazer à tona a sua essência. Um anjo que esteve recentemente encarnado entre nós ensinou que ‘é impossível reescrever o passado, porém podemos construir um futuro diferente’. O passado é lição; o presente é transformação; o futuro é inspiração. Penso que é isto que lhe cabe. Para tanto terá que aprender a alinhar o ego à alma, resgatar os seus sonhos, exercer os seus dons e deixar para trás conceitos e atitudes que não mais lhe servem”.</p>
<p>O jovem se mostrou interessado e perguntou ao Velho como fazer. O ancião respondeu de pronto: “Não faço a menor ideia”.</p>
<p>Atônito, o homem confessou que a razão da sua visita era a procura pela exata resposta, a receita de ‘como’ realizar. O Velho falou com sua voz mansa: “Administrar a vida alheia pode parecer fácil e ser uma tentação, no entanto é um tolo exercício de arrogância e leviandade. Muitos têm soluções para a vida dos outros, poucos para as suas. Você terá que encontrar o próprio caminho, em busca profunda por se conhecer melhor e por inteiro. Iluminar as suas sombras e abraçar os seus sonhos. Entender e ter a coragem de ser você. Na beleza de ser único, aceitar que cada qual tem uma estrada própria, que se entrelaça com a estrada de todos para convergirem no Infinito. Isto é o que torna a vida de qualquer pessoa uma aventura maior do que qualquer filme de cinema. Você é o herói e o vilão da sua própria história, vez que apenas você pode salvar a si próprio; por outro lado, ninguém lhe prejudica mais do você a si mesmo. Viver conscientemente esta narrativa o torna grande”.</p>
<p>O jovem quis saber se o ancião poderia lhe ajudar de alguma maneira, pois não sabia nem por onde começar. O monge respondeu: “Posso lhe falar da importância do amor, da beleza da paz, o valor da dignidade, a magia da transformação, mas nunca dizer sobre ‘o que’ e ‘como’ fazer. Encontrar a sua verdade, entender como ela evolui, é vislumbrar o Caminho. Isto é personalíssimo. As escolhas são as únicas ferramentas disponíveis para exercer a sua espiritualidade, se tornar um andarilho e permitir que floresça o melhor que lhe habita. Elas definem o seu coração e mente; são o fogo e a forja do seu aperfeiçoamento. Suas decisões revelam o quanto do divino você já descobriu em si e o quanto ainda falta. Esta é a infinita viagem e o Caminho é o único mestre, o mestre de todos”.</p>
<p>O homem sorriu pela primeira vez desde que chegara. Disse que estava disposto a fazer sérias mudanças em sua vida e que não permitiria mais interferências alheias em suas decisões pessoais. O Velho balançou levemente a cabeça sinalizando que o jovem ainda não tinha entendido: “Aqui no mosteiro temos uma pequena criação de ovelhas que pastoreiam na montanha. Raramente perdemos uma em razão do ataque de algum predador, mas, em geral, quando uma delas resolve pastar nas trilhas das vacas, quando acabam por se perder. O poder é e sempre foi seu. É a si próprio que deve vigiar para passar a fazer bom uso dele”.</p>
<p>Com os olhos mareados, o jovem disse que a atmosfera do mosteiro lhe trazia uma estranha e agradável sensação de calma. Pediu para ficar alguns dias e participar da rotina dos monges. “Fique o tempo que quiser. Se envolva em nossos trabalhos e estudos. Quando achar que chegou a hora, parta. O mundo, apesar do que dizem alguns, é um lugar maravilhoso para ser feliz. Encante-se, Yoskhaz!”, finalizou o Velho, há muitos anos atrás.</p>
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		<title>O encantamento dos rituais.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 16:54:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS I]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>A manhã parecia modorrenta. Era o último dia do ano e eu acompanhava pela web os preparativos para as festas em vários lugares do mundo. Todos os jornais traziam as mesmas notícias. A preguiça e o mau humor estavam instalados nas minhas entranhas. Após o desjejum, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, percebendo o desânimo, me convidou para uma caminhada por uma das trilhas na floresta da montanha que abriga o mosteiro. Por algum motivo que não sei explicar, andar ativa a mente e comecei a desfiar minhas lamentações sobre a desnecessidade das comemorações de Ano Novo, afinal seria uma noite como as outras, com nuvens ou estrelas e o sol inexoravelmente raiaria pela manhã. O monge nada comentou. Animado ao imaginar que ele concordava comigo, quis saber o que ele pensava. O Velho me olhou rapidamente, me ofereceu um sorriso gaiato e disse: “Acho que você está muito chato, Yoskhaz” e continuou andando.<span id="more-452"></span></p>
<p>A irritação apenas aumentou. Provocado, eu indaguei sobre uma justificativa sensata sobre várias festas que se faziam mundo afora durante o ano, onde me parecia que as pessoas somente queriam comer, beber e dançar. Ele continuou os seus passos no ritmo lento, porém firme, que lhe caracterizava, até chegarmos a uma bela clareira que também era um mirante com uma vista indescritível. Sentou-se em uma pedra e falou: “Todas as comemorações são rituais que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais. Surgiram algumas nos últimos séculos, como o Natal; desapareceram outras, como o solstício de verão. Os rituais têm a grande importância de unir os homens atrelados a interesses em comum”. Retruquei dizendo que não era verdade, pois utilizando o próprio Natal como exemplo, apenas percebia as pessoas interessadas em presentes e comilança, a esquecer do principal motivo do evento. Ele me mirou com seus olhos repletos de compaixão e falou com a voz suave, marcas registradas de uma personalidade que ao mesmo tempo era mansa e forte, para explicar: “Ainda que o Natal seja a data designada para lembrar o nascimento de um Mestre entre nós, tão importante que tem a força de dividir a História e a própria cronologia em AC e DC, apesar de muitos esquecerem a preciosa essência, as festas natalinas mantêm o poder de ser um cerimonial familiar. É quando, tão somente, muitas famílias em boa parte do planeta conseguem se reunir. Parentes que não se viam há longo tempo, ou moram distantes, voltam a conviver. Claro que muitas rusgas vêm à tona, mas também é uma excelente oportunidade para aparar as arestas para quem já possui amor e sabedoria suficientes a fazer bom uso do momento, a costurar laços que desamarraram ao longo da vida. A família, independente se à moda antiga ou moderna, é o poderoso embrião da sociedade e uma trincheira segura para as inevitáveis batalhas da existência. Assim, de alguma forma, inconsciente ou não, pode se tornar um cerimonial mágico capaz de atingir os ideais de amor e sabedoria a modificar o amanhã de muitos, na paciência e compaixão ensinadas pelo Mestre”.</p>
<p>Não satisfeito, falei que talvez ele tivesse razão quanto ao Natal, mas o que me dizer do réveillon? Uma festa ridícula onde as pessoas se iludem que suas vidas irão mudar pelo mero fato de estabelecer uma data para isto. O Velho me olhou com espanto devido a minha irritação e deu uma gostosa gargalhada, como quem se diverte à vera. Depois falou sério: “O mundo tem as cores do seu olhar. Quando o seu olho é bom, todo o universo é Luz”, deu uma pausa para que eu lembrasse de que ele já tinha me explicado sobre a beleza de ver a beleza em tudo e em todos. Teoria sem prática é o desperdício da semeadura sem colheita.</p>
<p>Em seguida continuou: “A vida é um imenso ciclo composto de vários outros pequenos ciclos”, tornou a lembrar outra lição que ensinava que a existência é uma viagem sem fim, com inúmeras estações. Prosseguiu: “Um ciclo só se inicia com o término do anterior. Eles não podem coexistir, pois são aprendizados que te preparam para o que vem a seguir. Assim, o ritual do Ano Novo tem a força de nos permitir avaliar, em retrospectiva, o quanto avançamos nos últimos doze meses e o que nos falta para fechar a fase. É o cerimonial em que assumimos compromissos de transformação e crescimento com a pessoa mais importante de nossas vidas: cada qual a si mesmo. Isto o torna importante”.</p>
<p>Lamentei que muitos não viam dessa maneira e desperdiçavam o momento. Para provocá-lo disse, ainda, que muitos apenas conseguiriam contabilizar as perdas de um ano. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e não permitiu que a minha irritação o abalasse. Respondeu com doçura: “Embora um ano possa ser perdido, apenas existem ganhos. Os fracassos são importantes ferramentas a instrumentalizar as futuras vitórias. Muitos ainda precisam das dificuldades para amadurecer, em jornada dolorosa como reflexo de decisões tomadas no passado. Assim, o sofrimento pode vir a ser o remédio que irá cicatrizar as feridas da alma. O aproveitamento das oportunidades está na justa medida do nível de consciência de cada um, que há de se expandir, cedo ou tarde, a acompanhar a evolução de todo o Universo. A cada escolha vamos determinando o próprio destino ao definir as dificuldades que surgirão no Caminho, em rota de aperfeiçoamento. Tudo que traz transformação é mágico, por definição filosófica. Assim, o Réveillon cumpre a magia do cerimonial de transformação a que se propõe no inconsciente coletivo”.</p>
<p>Quando me preparava para replicar, mais por teimosia do que por lógica, o monge fez um gesto sereno com as mãos e disse: “Escute a voz do silêncio. Permita que seu coração lhe conte as verdades que seus condicionamentos cultural e social bloqueiam. Não permita que o pessimismo o contamine. Deixe que as cores da vida encantem o seu olhar”. Fiquei um tempo que não sei contar sem dizer palavra. O silêncio e a quietude, aos poucos, me envolveram em ambiência de serenidade que trouxe a claridade da razão e a tranquilidade nas emoções, afastando as névoas do preconceito e o véu das formas obsoletas, permitindo um olhar diferente. Um sorriso me veio aos lábios.</p>
<p>Então, o Velho finalizou: “Os rituais trazem o encantamento de sinalizar as fases da existência. Os ciclos têm o poder de movimentar os avanços pessoais no Caminho. Os avanços significam o entendimento que vamos adquirindo sobre as Leis Não Escritas a pacificar mente e coração. Porém, estamos assolados pela pressa e preocupados com as muitas desnecessidades, a desperdiçar a beleza da paisagem. Não basta saber sobre o amor e a sabedoria universais, é imprescindível que os viva com calma e alegria, a cada dia, como reconhecimento a todas as flores que nos enfeitam e perfumam a Vida”.</p>
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		<title>Tristes credores.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 31 Dec 2015 08:17:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS I]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; O vento frio do outono circulava junto comigo pelas estreitas e sinuosas ruas de pedra da secular cidadezinha situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. A tarde ainda estava pela metade, eu já tinha encerrado os meus afazeres e aguardava uma carona que só aconteceria no início...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>O vento frio do outono circulava junto comigo pelas estreitas e sinuosas ruas de pedra da secular cidadezinha situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. A tarde ainda estava pela metade, eu já tinha encerrado os meus afazeres e aguardava uma carona que só aconteceria no início da noite. Meu corpo encolhido se protegia das rajadas por entre muros e reentrâncias das charmosas construções, até que vi a antiga bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, um dom. Satisfeito com a sorte, pensei que nada podia ser melhor do que um café quente acompanhado de boa conversa em um final de tarde vadia. Assim que entrei na loja quase fui derrubado por uma bela mulher, já de meia-idade, que saiu como um trator desgovernado pela própria irritação. O bom artesão me recebeu com o seu melhor sorriso e, logo após sentarmos diante de duas canecas fumegantes colocadas sobre o balcão da oficina, disse se referindo a mulher que por pouco não me levou ao chão: “É uma credora emocional. Uma triste e eterna credora”, deu uma pausa antes de completar: “Pelo menos é assim que se arvora diante de todos que cruzam os seus passos”.</p>
<p>Eu quis saber sobre a razão do termo. Ele explicou: “Os tristes credores são aqueles que não sabem reagir diante das dificuldades que se impõem. Como sabemos, sempre viveremos situações desconfortáveis e, por pior que seja, o problema nunca é o problema em si, mas a dificuldade de reação diante da situação. A inércia é prejudicial e surge por não percebermos as lições escondidas por trás de todos os problemas. É fundamental entender que todos os conflitos trazem consigo mestres ocultos a despertar o melhor de nossas capacidades. Todos os problemas são ferramentas de transformação pessoal, desde que o enfrentemos com dignidade e sabedoria”.<span id="more-441"></span></p>
<p>Deu um gole e continuou: “No entanto, o triste credor prefere vestir a máscara da vítima e indicar um culpado pelo próprio sofrimento. Assim, de maneira inconsciente, paralisado pelo medo de enfrentar a situação, na verdade, deseja que o outro resolva um problema que cabe a ele solucionar. É uma atitude cômoda e bastante infantil, mas comum em muitos adultos, que leva ao desespero, ao ódio e até mesmo a depressão. Eles são completamente refratários a qualquer responsabilidade, sempre tendo um eleito para derramar a culpa pela sua decepção, o que acaba por levar a grandes sofrimentos. Repare, estão sempre brigando com todos, apontando os defeitos alheios e reclamando das imperfeições do mundo”.</p>
<p>“Assim, de maneira absurda, se creditam de infundados direitos sobre os outros”.</p>
<p>O sábio artesão fez uma breve sinopse daquela história. A mulher era sua ex-namorada e tinha uma filha adolescente oriunda de outro relacionamento afetivo, que morava com ela desde a separação com o pai da moça. A relação entre mãe e filha era péssima, pois, por vício, a mãe sempre culpava a adolescente por todas as suas eventuais frustrações. Cobrava-lhe o tempo, o trabalho e o amor dedicado em sua educação, como se isso não lhe coubesse por pura responsabilidade amorosa e materna. Claro que o peso dessa carga emocional e psicológica atingiu o nível do insuportável para a jovem.  Na volta de uma viagem de passeio que a mulher fez com o sapateiro, coincidindo com o período de férias escolares que a menina passava todo o ano com o pai, recebeu a notícia de que a jovem moraria definitivamente na casa paterna. Pesou nessa escolha a paz necessária encontrada no novo lar, indispensável para desenvolver o seu potencial e viver a vida sem conflitos desnecessários. Como se não bastasse, na mesma época, também chegou ao fim o namoro entre a mãe e o Loureiro. Ela alegava que o convite para a viagem, feito pelo sapateiro, tinha sido angular para a escolha da filha, o que tornou o romance insustentável, vez que atribuía a ele a razão do que chamava de desastre.</p>
<p>“Pronto, a partir de então me tornei o perfeito algoz das suas insatisfações. Na cabeça dela virei seu devedor. Em vão. Como me recuso a aceitar a conta, ela reage com revolta”.</p>
<p>“Embora, por diversas vezes, antes da ruptura, eu tivesse conversado com ela sobre o seu comportamento equivocado diante da filha, onde, ao meu ver, havia cobranças descabidas. Mas os eternos credores têm, entre suas características, o hábito de não ouvir nada que esteja fora de sintonia com a ansiedade insensata de que a vida atenda a todos os seus desejos, sempre dentro do menor esforço possível. Nesta evidente impossibilidade, elegem seus devedores, atribuindo aos mesmos o encargo de resolver os problemas cujas soluções, na verdade, cabem aos próprios credores”, explicou o sapateiro.</p>
<p>“Claro que ninguém consegue ou suporta tal obrigação”, Loureiro fechou os olhos e passou a mão para alisar seus fartos cabelos brancos. Depois continuou: “Os tristes credores costumam ter uma espécie de livro-caixa virtual em que contabilizam todo e qualquer ato que entendam ter feito em prol do devedor. Qualquer coisa serve, o importante é que os absurdos créditos não tenham fim. Depois acrescentam juros emocionais. Assim, criam uma suposta dívida para justificar a cobrança que passam a executar. Declaram-se lesados na relação, como se o afeto, ou mesmo o favor, pudesse ser medido, calculado ou cobrado. A vitimização criada pode ser confortável ao credor em um primeiro momento, por estabelecer a desculpa que lhe afaga o ego e supostamente transfere a própria responsabilidade. Porém, na verdade, é um pântano lodoso que o deixa atolado, sem condições de prosseguir na inevitável viagem da vida”.</p>
<p>Tudo me parecia óbvio demais e, espantado, perguntei se o bom artesão já tinha conversado sobre isso com ela. “Muitas vezes”, ele disse resignado: “Ainda quando namorávamos tentei lhe ajudar e até mesmo anunciei a possibilidade de a filha acabar indo morar na casa do pai por não suportar uma dívida que simplesmente não existia. Por sua vez, a menina se esforçou bastante para que o ambiente no lar materno se harmonizasse e até mesmo que o hipotético débito fosse ‘pago’ ”, o sapateiro me mirou nos olhos, balançou a cabeça em negação e disse: “Ocorre que os tristes credores nunca dão quitação. Eles precisam que a dívida seja eterna, pois necessitam alimentar o próprio vício, até que aquele que é eleito devedor entende que precisa impor um limite. Então ocorre o corte e todo corte sangra”.</p>
<p>Comentei que era um absurdo a mãe atribuir qualquer culpa ao Loureiro pelo ocorrido. Ele riu com vontade e disse: “Eu sei. Ocorre que o triste credor não se importa com qualquer coerência ou lógica. A mente humana possui trilhas tortuosas e desconexas que iludem na tentativa de justificar uma conclusão que seja sempre agradável e conveniente ao ego. Nestes casos os argumentos usados sempre são incoerentes ou absurdos. Pouco importa”.</p>
<p>Eu quis saber por qual motivo ela tinha ido lhe visitar. Ele balançou a cabeça como quem diz ‘não tem jeito’ e explicou: “A solução mais fácil e cômoda para ela foi atribuir a mim a responsabilidade pela decisão da filha. Alega que se não tivesse aceitado o convite para viajar comigo a jovem ainda estaria morando com ela. A mãe se nega a buscar a origem das fraturas sentimentais acontecidas durante o tempo em que dividiu a vida sob o mesmo teto com a filha. Como se não bastasse, ainda acusa a filha de ingratidão, na contramão da sensatez de resgatar o que se perdeu”.</p>
<p>“O erro tem duas vertentes: pode se tornar uma ferida difícil de cicatrizar ou o ponto de partida para uma vida diferente e melhor. A escolha é sempre sua. Admitir erros é doloroso, mas indispensável para a cura. É preciso coragem para enfrentar o espelho e a dignidade de não permitir as distorções exigidas pelo o orgulho e a vaidade. Negar os benefícios do conflito é perder a oportunidade de aprofundar o conhecimento sobre si mesmo, estágio fundamental no processo evolutivo, sem o qual nunca encontrará a tão sonhada paz”.</p>
<p>“Conheça a si próprio, peça desculpas com sinceridade, tenha a responsabilidade de reparar o que for possível, assuma o compromisso de uma nova postura e siga adiante. Assim caminhamos”. Bebericou mais um gole de café e definiu: “Só não fique parado se lamentando de tudo e todos. Recusar o esforço para crescer é negar nova oportunidade à plenitude do ser”.</p>
<p>“A arma predileta dos tristes credores é a chantagem emocional. Ele dirá que você é a causa da dor dele. Isto é um convite para um baile trevoso. Recuse veementemente. O mais importante, mesmo que exista erros, é entender a desnecessidade de algemas ou grades afetivas. Dívidas eternas é uma criação das sombras. A Luz exige evolução, para tanto, trabalha com o perdão, a responsabilidade e a liberdade”, explicou o bom artesão.</p>
<p>Fiquei curioso para saber como ele se protegia dos tristes credores ou, no caso específico, não se sentia atingido diante da enorme cobrança, vez que se mostrava tão sereno. O sábio sapateiro respondeu com sua voz mansa, que refletia o verdadeiro espírito do seu coração: “As pessoas só têm sobre nós o poder que concedemos a elas. Nunca permita que lhe furtem a preciosa paz”.</p>
<p>Deu uma pequena pausa para que eu refletisse sobre a profundidade da frase que acabara de proferir e continuou: “A dependência emocional é um triste vício. Não podemos permitir que ninguém nos faça prisioneiro de suas insatisfações e frustrações. Ninguém tem a obrigação de fazer o outro feliz. É um ônus insuportável. Na verdade, cada qual é responsável pela construção da própria felicidade, com a argamassa dos sentimentos puros e os tijolos das nobres virtudes. Então, encantado com a vida, abre as portas para que o mundo também se encante com a beleza que traz no coração”.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>As sutilezas da verdade.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Dec 2015 09:57:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS I]]></category>
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					<description><![CDATA[O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O Velho fez sinal para que eu mesmo o atendesse sentado à sombra da roseira. O homem me contou uma triste história onde impusera dor e sofrimento a outras pessoas. Indignado, fui duro em minhas palavras, sem poupar a minha revolta pelo que acabara de ouvir. Visivelmente constrangido, o homem agradeceu, por educação, não por sentimento, se levantou e foi embora. O monge que a tudo assistira, disse: “A sabedoria milenar nos ensina que ‘não é não; sim é sim’, mas temos a escolha de dizer a verdade com mel ou com fel”. Retruquei dizendo que não podemos vacilar com a verdade. Dura ou amarga ela tem que ser dita. “Nesse caso, ele tinha a exata medida dos equívocos do passado, precisando mais de compaixão do que de reprimenda”, o monge expôs seu ponto de vista.</p>
<p>O Velho repousou o alicate no bolso, me ofereceu um sorriso bondoso e falou: “A verdade será sempre um valioso remédio. Como todo medicamento, a dose inadequada se torna veneno”.<span id="more-432"></span></p>
<p>“A verdade é terapia essencial de cura. Impossível atravessar o Caminho sem nos aliarmos a ela. Somente a verdade ilumina as feridas que tanto incomodam, mas ainda não diagnosticamos”.</p>
<p>“Todavia, a escolha das palavras, a maneira e o momento de falar são posologias desse valioso remédio. Não podemos nos reportar a todos de um único jeito ou na mesma hora. Alguns já são capazes de suportar doses maiores, em outros, temos que começar ministrando pequenas gotas, para que não haja rejeição, casos em que almas embrutecidas e despreparadas entram em colapso e se negam a prosseguir em tratamento de cura”. Deu uma pequena pausa e disse: “Lembre-se que a verdade absoluta nos aguarda em estação distante. Ela vai se apresentando passo a passo, para todos, sem distinção, na medida do andar e do ritmo de cada um no Caminho. Não é diferente para mim ou para você”, disse o Velho.</p>
<p>Contrariado, provoquei dizendo que, em alguns casos, talvez fosse melhor mentir. Ele arqueou os lábios em leve sorriso ao perceber a minha intenção e falou sem perder a calma: “Penso que jamais devemos mentir. A mentira sempre será um elemento da escuridão por enevoar a realidade, iludir o andarilho e atrasar a viagem. A mentira é uma profunda falta de respeito tanto para o autor quanto ao destinatário”.</p>
<p>“No entanto, você deve ter a exata dimensão de qual sentimento te move antes de proferir qualquer palavra. A sua intenção é usar a verdade para curar ou para ferir? Não raro vejo a verdade sendo usada apenas para impor sofrimento, sem qualquer função educativa. Casos, estes, em que é melhor calar. Não se esqueça que sempre poderemos utilizar uma boa ferramenta para o bem ou para mal. Usa-se o martelo tanto na construção quanto na demolição”.</p>
<p>Naquele momento me senti desorientado e confessei que não sabia como agir em situações, por vezes, bastante delicadas. O monge tinha a pele bastante vincada pelo tempo, marcas de muitas lutas, que serviam de interessante moldura para os seus olhos, ainda brilhantes e repletos de bondade. Ele disse com seu tom de voz sempre sereno: “Assim como não podemos revelar todo o conhecimento para uma criança que acaba de entrar no colégio, por ela precisar de maturidade e aprendizado sobre certas disciplinas para entender outras de maior complexidade, muitos de nós ainda estamos na infância da alma. É inútil ensinar o cálculo de uma raiz quadrada para alguém que ainda não domina as quatro operações básicas. A pedagogia de ensino para um universitário é diversa para aquele que ainda está nas classes primárias. Para cada qual a lição exata, a medida e a maneira de revelar a verdade, de acordo com a capacidade de percepção do aprendiz”.</p>
<p>O Velho segurou em meu braço e me fez caminhar com ele pelo jardim enquanto continuava a falar: “Como poderosa lanterna, a verdade traz o poder de mostrar as sombras que nos habitam e dominam. Estas são as feridas que precisam de medicamento e cura. Nem sempre é agradável ver. Há que se ter coragem e, acima de tudo, temos que estar prontos para enfrentar um inimigo sagaz: cada qual na tentativa de iludir a si próprio sobre a justificativa de seus erros. Nossas sombras iludem a consciência, pois para sobreviver se fingem protetoras a manipular o ego, que por defesa repudiará a verdade”.</p>
<p>“A verdade é um instrumento que deve ser bem aproveitado tamanho é o seu valor. Por sua sutileza, deve ser afinado pelo diapasão do coração, dedilhado com a sensibilidade da sabedoria. Sem esquecer que não se compõe uma sinfonia em um único dia. Yoskhaz, a paciência é uma bela e indispensável virtude, companheira inseparável da verdade”.</p>
<p>Ainda tentando alocar as ideias em minha mente, citei uma expressão popular que diz que ‘a ignorância protege’. O Velho riu com vontade e depois me disse: “A ignorância nunca protege, apenas ilude e aprisiona em falsa sensação de segurança. É como manter um pássaro em uma gaiola sob a alegação de resguardá-lo dos perigos do mundo. É como se o desconhecimento da existência de um problema o fizesse desparecer. É como se o fato de esconder a doença de um paciente fosse capaz de levá-lo à cura. Enfim, pura bobagem”!</p>
<p>Deu uma pequena pausa e finalizou: “A verdade é a ponte necessária para alcançarmos a imensidão da liberdade e a grandeza da justiça. Sem aquela não teremos estas. Essa ponte está à disposição de todos, mas não fácil percorrê-la. Alta e extensa, é preciso coragem para atravessar sobre o enorme abismo das atraentes sombras; delicada e sutil, necessita de sabedoria para abdicar de muitas coisas tangíveis, que tanto pesam, em prol das belezas invisíveis que conferem leveza;  e, por fim, por estar tão sujeita às intempéries da vida, torna indispensável o amor na sutileza de entender que essa travessia, muitas vezes, é solitária, pois nem todos, neste instante, possuem o equilíbrio necessário para manter os passos até o outro lado”.</p>
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		<title>A fuga do mundo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Dec 2015 07:49:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Era um típico dia de inverno. O céu azul, completamente sem nuvens, permitia que o sol nos acariciasse a pele sobre o casaco de lã, em gostosa sensação de aconchego. O dia ainda amanhecia quando fui chamado ao portão para encaminhar um senhorzinho que desejava conversar com o Velho, como...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era um típico dia de inverno. O céu azul, completamente sem nuvens, permitia que o sol nos acariciasse a pele sobre o casaco de lã, em gostosa sensação de aconchego. O dia ainda amanhecia quando fui chamado ao portão para encaminhar um senhorzinho que desejava conversar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem. Como era cedo, o monge sugeriu que a conversa fosse no refeitório ao imaginar que o visitante partira ainda no escuro para alcançar o mosteiro, na montanha, àquela hora. Como a meditação era a primeira atividade do dia, ainda em jejum, e já realizada, todos nos sentamos à enorme mesa. Quando os demais monges se retiraram para os seus afazeres, o Velho perguntou ao visitante como poderia ajudá-lo. O homem manifestou a vontade de fugir do mundo, vez que a solidão o corroía por se sentir abandonado por filhos e netos, cujas visitas eram cada vez mais raras. Tinha a forte resolução de abraçar a vida monástica, aderindo às fileiras da Ordem. Com o olhar suave e voz repleta de bondade, o monge começou a explicar: “Solidão não significa desistência, tampouco fugir do mundo lhe trará a desejada paz. É necessário entender a busca para direcionar o leme do destino”. O homem declarou que estava cansado das ingratidões da vida em sociedade, que tinha se dedicado ao trabalho e à família por toda sua existência para receber apenas esquecimento como moeda de troca. Amargurado, confessou que, se não tinha mais importância para os seus, era melhor se afastar.</p>
<p>“Tudo errado”, disse o velho depois de ouvir com paciência todo o rosário de lamentações. “Para começar é bom lembrar que cada qual tem seus afazeres, compromissos e interesses que tomam tempo. Todos têm uma vida pessoal para cuidar. Aceitar que não somos o centro da vida alheia é um bom início para afastar as lamentações indevidas”.<span id="more-424"></span></p>
<p>“Em seguida, é necessário entender que entre membros de um mesmo grupo familiar ou social sempre haverá alguns acenando com dívidas emocionais ancestrais. Justo com estes estão guardadas as nossas lições evolutivas; através desta via nos será oferecida as preciosas lições de amor através do exercício da paciência, tolerância, compaixão e, principalmente, do perdão”.</p>
<p>“Depois, é importante perceber que a solidão não significa abandono. Porém, encontro. É a oportunidade de iniciar o relacionamento mais importante da sua vida: consigo mesmo. É a sinuosa estrada para o autoconhecimento, primeiro estágio para a indispensável e posterior plenitude. É fundamental que façamos um mapa detalhado de quem realmente somos para, somente então, aparar as arestas que rasgam os relacionamentos e ferem a paz. Somente assim iluminaremos as ideias e emoções que tanto nos atrapalham, por obsoletas e nocivas. Ao contrário de como é tratada pejorativamente, a solidão é maravilhosa, se bem aproveitada. Para tanto, precisamos da quietude e do silêncio que a solidão oferece. Uma boa maneira de ficarmos frente a frente com a própria essência, identificando o sagrado que há em nós. Assim, o que é sombra se torna luz”.</p>
<p>O homem observava com interesse e o Velho continuou a falar: “A grande lição desse momento é o rompimento da dependência emocional em relação aos outros. É medonha, equivocada e triste a ideia de mendigar ou cobrar afeto e atenção para sustentarmos a felicidade. Um total absurdo nascido da incompreensão das próprias capacidades. Por outro lado, seria enorme crueldade a obrigação de carregar o pesado fardo da felicidade alheia. Apesar de todas as dificuldades e conflitos, o Universo oferece a cada qual as perfeitas condições para conquista da felicidade. Por si e em si”. Mirou o visitante nos olhos e confessou: “Este momento é mágico”!</p>
<p>“Então, é chegada a hora do passo seguinte: compartilhar com o mundo o que floresceu em seu coração. Do que adianta um belo pomar se ninguém tem acesso para se deliciar com o mel de suas frutas? É o momento de retornar e intensificar o convívio social. Somente os encontros permitem que possamos oferecer o que temos de melhor, além de mostrar as dificuldades ainda não vencidas na busca pelo aperfeiçoamento. É como semeamos e colhemos nos campos da humanidade”.</p>
<p>O senhorzinho baixou a cabeça, lamentou que ninguém estava interessado nele e que acreditava que, por sua idade avançada, já não tinha qualquer serventia para aqueles que o cercavam. O Velho arqueou os lábios em doce sorriso e disse: “É preciso tirar a fantasia da vítima, trocar os óculos do drama. Seria bom uma reflexão sincera para que você entenda exatamente o que está entregando a sua família. Você está disposto a oferecer o seu melhor ou apenas se acomodar no desejo de que tudo e todos girem ao seu redor? Exigir ser a pessoa mais importante na vida do outro é uma das maiores causas de conflitos existentes. Flor do egoísmo, raiz do ego. Um equívoco por desnecessário”.</p>
<p>O homem retrucou dizendo que tinha lutado por toda uma vida para construir uma família e, agora, as pessoas pareciam ter esquecido dele. O monge pediu para que eu colocasse mais um pouco de café em sua xícara e falou: “Tenha a generosidade de aceitar que cada qual se move de acordo com os seus interesses, doa apenas na medida da sua capacidade, e enfrenta as próprias dificuldades na exata necessidade das lições, por ora, cabíveis”.</p>
<p>“O amor, para existir de verdade, tem de ser incondicional. Ele exige renúncia ou não é amor. Um dos alicerces da plenitude sustenta que devemos nos aprimorar para sempre entregar ao outro o que de mais valioso nos habita; em troca, aceitamos de bom grado, o que nos é oferecido, ainda que muito pouco ou mesmo nada. Entender isto é unir o mais puro amor com a mais fina sabedoria. Na viagem evolutiva aprendemos que cada qual apenas pode oferecer o que tem em sua carteira sagrada, o coração. Como exigir cem de quem só tem dez para dar? Como esperar flores de quem está soterrado em pedras? Impossível. Cada qual pensa e reage de acordo com seu estágio de consciência no Caminho”.</p>
<p>O senhorzinho retrucou de que estava cansado e não tinha mais forças para seguir no difícil propósito da lapidação do ser. Melhor seria se juntar aos monges na Ordem, insistiu. O Velho mirou o homem nos olhos e disse: “Sair do mundo para encontrar consigo, tudo bem; fugir do mundo para sair da vida; tudo errado. O mosteiro não é um esconderijo ou lugar para quem se abandonou. Aqui é um local de estudo e trabalho, onde todos entendem a alegria do burilamento. Buscamos a solidão para meditar e refletir, como trilha para o autoconhecimento; o trabalho comunitário como instrumento para promovermos a festa da vida, que é a troca com o outro, cada qual, parte a parte, oferecendo os seus melhores e mais sinceros sentimentos”. Com os olhos mareados disse com emoção: “Na caridade ganha mais quem dá do que quem recebe. Creia nisto”.</p>
<p>Deu uma pequena pausa antes de prosseguir: “No entanto e para tanto, não é necessária uma vida monástica. Cada qual é um centro individual de poder, um precioso templo e qualquer canto silencioso tem a quietude necessária para acalmar os tambores do mundo e lhe permitir ouvir a voz do silêncio que a alma sopra. Transformar em jardim o deserto do ser é a alquimia da vida. Começamos conosco, depois espalhamos a magia e as flores para o mundo”.</p>
<p>O homem confessou que tinha medo de não ser amado e que estava ali para chamar a atenção da família. Tinha o desejo secreto que fossem resgatá-lo no mosteiro. O Velho riu com vontade, depois acrescentou: “Imagine se em profundo respeito às suas escolhas, o que seria correto, eles apoiassem o seu ingresso na Ordem? O seu sofrimento seria incomensurável. Não raro, somos vítimas de nós mesmos”. Deu uma breve pausa e falou: “Procuramos a escuridão da caverna na ilusão de nos proteger da dor. Quando, na verdade, precisamos da luz da vida para ver as feridas que precisamos curar”.</p>
<p>Contrariado, o visitante lamentou não conseguir ajuda ali. Girou nos calcanhares e partiu.</p>
<p>O Velho franziu as sobrancelhas como dizendo que tinha feito o possível e se as sementes das suas palavras fossem boas, haveria, algum dia, de germinar. Em seguida, falou com seu jeito manso: “Ofereça sempre o seu melhor e não espere nada em troca; no dia seguinte ofereça um pouco mais e espere menos ainda” e piscou um olho como quem conta um segredo.</p>
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		<title>O sentido da vitória.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Dec 2015 08:07:57 +0000</pubDate>
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<p>Era fim de tarde, estávamos sentados na estação a espera do trem que nos levaria até a pequena cidade no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos ido visitar uma jovem que passava por tratamento oncológico em um moderno hospital de uma metrópole não muito distante. Como de costume, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, parecia encantado com tudo a sua volta. O movimento, as lojas, as pessoas; a alegria e a tristeza nas chegadas ou partidas; os abraços emocionados, sorrisos e choros de encontros e despedidas; os solitários. “Esta gare é a síntese do mundo”, comentou sem me olhar, sabendo que eu o observava. Comentei que achava estranho a mania de ele encontrar beleza em tudo e em todos. “É preciso exercitar o ver-além das aparências, das formas e, principalmente, da ilusão. É necessário nos encantar com a essência. O Mestre nos ensinou que ‘quando seu olho é bom, todo o seu corpo é luz’”, citou um pequeno trecho do Sermão da Montanha.<span id="more-417"></span></p>
<p>Aleguei que a prática era bem diversa da teoria. Usei como exemplo a moça adoentada que tínhamos visitado naquele dia. O médico não dera nenhuma garantia de sucesso no tratamento e o futuro dela era uma incógnita. Como agravante, ela vivia como quem tem uma faca afiada no pescoço, na iminência do corte. “Todos temos. Apenas desconhecemos a hora e o jeito do golpe. As lâminas se apresentam com inúmeras faces. Acidentes, catástrofes, assassinatos; doenças inesperadas, lentas ou fulminantes; os vícios e as tristezas, graves variantes de suicídio inconsciente; a contagem variável, inconstante, e implacável da ilusão do tempo”, deu uma pequena pausa e comentou: “A propósito, você reparou como ela estava feliz”?</p>
<p>Falei que era tudo jogo de cena para tentar alegrar os parentes que a amavam, pois ninguém poderia ficar bem diante daquela situação. O monge deu de ombros como se eu não tivesse entendido nada e falou: “Eu conversei muito com ela. A doença trouxe a reflexão sobre a morte. Isto a fez alterar o sentido da vida, pura expansão de consciência. Houve uma mudança de valores. Situações relegadas à segundo plano, sentimentos adormecidos e compromissos esquecidos ou adiados ganharam importância e emergiram para ganhar força e poder. Coisas que sempre foram urgentes acabaram por evidenciar a sua irrelevância. Tudo mudou. Por vezes, a doença do corpo é o remédio da alma. Para alguns é o método mais eficaz de cura. Não tenha dúvida, a felicidade e a paz que ela sente são sinceras e, provavelmente, nunca as teve antes, ao menos com tamanha magnitude”.</p>
<p>“Dificuldades e decepções podem abater e consumir as nossas forças ou podem nos ensinar preciosas lições de aperfeiçoamento e força para o próximo bom combate, que sempre virá. Seja de uma maneira ou outra, o Universo sempre conspira a nosso favor, cabendo a nós entender e aproveitar, ao invés de atrapalhar ou lamentar. Em todas as situações, sejam vitórias ou derrotas, dores ou delícias, a vida sempre oferece um cálice repleto de veneno e outro de mel. Nós escolhemos qual beber”.</p>
<p>Falei que talvez de nada adiantasse todos os ganhos espirituais adquiridos pela moça se lhe restasse pouco tempo de vida. O Velho balançou a cabeça contrariado antes de falar: “Isto não tem importância”! E antes que eu articulasse qualquer palavra, prosseguiu: “Não percebe que esse novo olhar é herança eterna, tesouro imaterial que ela poderá levar na bagagem para o próximo trecho do Caminho? Este ganho é real! Esquece que a viagem não tem fim? A doença foi apenas o caldeirão, mas poderia ter sido uma separação conjugal ou uma demissão trabalhista. O importante é que ela se permitiu acrescentar o ingrediente essencial: amor sobre todas as coisas. Depois mexeu com a colher da sabedoria concedida pela própria expansão de consciência. Pronto, eis a magia da transformação do chumbo em ouro. Esta é a alquimia da vida”.</p>
<p>Somente naquele momento me dei conta de alguns casos conhecidos de pessoas que ficaram melhores e mais interessantes após dolorosas situações de divórcio ou falência. Viram o céu fechar, enfrentaram terrível tempestade e sobreviveram para se reinventar e voar mais alto do que eram capazes de imaginar antes das dificuldades surgirem.</p>
<p>Como se soubesse os meus pensamentos, o Velho comentou: “A derrota ou a vitória, independente do aparente júbilo ou tragédia, se define na amplitude do seu olhar. É uma escolha da alma. Algumas vezes a vitória só é permitida na derrota”.</p>
<p>Como assim? Confessei que não tinha entendido. O monge manteve a sua enorme paciência para que eu compreendesse o óbvio: “Ganhar nem sempre é vencer, pois existem dois aspectos verdadeiros e ocultos nesta sentença. O primeiro é que não se atinge a vitória ganhando a qualquer custo. Há que se trilhar o inevitável caminho da dignidade ou nada terá valor. O outro, nasce da lógica inversa: perder nem sempre significa derrota. Enquanto o desesperado chora pela tragédia, o sábio agradece pelas asas”.</p>
<p>Diante do meu espanto, exemplificou para me ajudar: “Para o enfermo a proximidade da morte pode lhe oferecer a infinita dimensão da vida. Quando isto acontece a felicidade e a paz são indescritíveis. Perde-se o corpo, ganha-se a alma”.</p>
<p>“Quantas vezes o afastamento da pessoa amada não foi a oportunidade para se aproximar e conhecer a si próprio? Perde-se o outro, ganha-se a si mesmo”.</p>
<p>“A demissão do emprego que significava a ilusão de estabilidade pode proporcionar o desenvolvimento dos seus dons e talentos, resgatar o sonho escondido e permitir o despertar de todo o potencial pessoal e profissional adormecidos. Perde-se uma vaga, ganha-se o mundo”.</p>
<p>“Esses são os milagres da vida. As transformações indispensáveis que permitirão florescer o melhor que nos habita. Para tanto, algumas vezes, é necessário a forte pressão da terra para que a semente exploda e germine”. Deu uma pequena pausa, me mirou fundo nos olhos e disse: “A felicidade e a paz não serão nunca uma condição material, mas sempre uma decisão filosófica em aprender, transmutar, compartilhar e seguir”. Neste instante o trem apontou na estação e diante do meu desconcerto, eu ainda tentava alinhar todas aquelas palavras, o Velho deu um sorriso maroto, apontou o vagão com o queixo e disse: “É hora de partir, Yoskhaz. Ou você prefere ficar”?</p>
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		<title>O poder das escolhas.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Dec 2015 08:18:47 +0000</pubDate>
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<p>“Ser forte é uma escolha. Ninguém nasce corajoso ou covarde, no entanto, todos os dias, a toda hora, fazemos a escolha por fugir ou enfrentar a batalha que se apresenta dentro e fora de nós”, falou Canção Estrelada, o xamã que através da palavra, cantada ou não, narrava a sabedoria ancestral do seu povo. Estávamos apenas os dois, sentados em torno de uma pequena fogueira sob o manto de estrelas a inspirar a conversa. Naquele dia tinha ocorrido um cerimonial destinado aos jovens da tribo que selava a passagem da adolescência para a vida adulta. Lembrei das palavras ditas pelo xamã ao encerrar o ritual: “O entendimento de que você é capaz de resolver os problemas que surgem, a aceitação da responsabilidade que lhe cabe e a coragem para a luta, desenham a maturidade formada no guerreiro, que somente após ser lapidado em muitas batalhas estará pronto para se sentar entre os sábios”.<span id="more-413"></span></p>
<p>Comentei que admirava a valentia de determinadas pessoas que se mostravam obstinadas em seus objetivos e verdades. Por fim, confessei, não sem uma ponta de vergonha, que eu gostaria de ser um desses. O xamã deu uma longa baforada em seu cachimbo de fornilho de pedra, me observou por instantes e disse: “Todos os heróis que conheci navegaram os mares da dúvida e trilharam as florestas do medo. São tempos sombrios, de incertezas internas, mas necessários. Buscaram na quietude e no silêncio as respostas que precisavam. As dificuldades aperfeiçoam o caráter e fortalecem o espírito. Só assim alicerçamos a força em nós e aprimoramos as nossas escolhas”. De pronto falei que não tinha compreendido todo o alcance de suas palavras. Canção Estrelada me mirou nos olhos e falou: “As escolhas são as únicas ferramentas que temos para exercitar a espiritualidade. Não há outra, daí o seu valor. Através delas você aprende absolutamente tudo que precisa: a diferenciar o bem do mal; a essência da aparência; a justiça das leis; que para ser grande é necessário ser verdadeiramente humilde; que os verdadeiros revolucionários são mansos, pois sabem que as transformações que mudam o mundo são interiores; que sem pureza no coração não existe vitória; que é impossível ser feliz sem perdoar; que sem compaixão não existe vida em comum; que sem renúncia não se pode amar e, por fim, que sempre é possível escolher diferente e melhor”. Deu uma longa pausa, com os olhos perdidos nas labaredas, e voltou ao assunto: “Gostamos de pensar que somos o discurso que narramos sobre nós mesmos ao nos apresentar aos outros. Mas não, na verdade, somos o somatório das escolhas que fazemos no decorrer da existência. Elas nos fizeram chegar até aqui, entre erros e acertos, dores ou delícias. As escolhas nos definem e indicam o futuro próximo, pois estão inexoravelmente atreladas a Lei da Ação e Reação. As escolhas mostram como você atravessa o Caminho, seus percalços ou suavidade”.</p>
<p>Comentei que só naquele instante tinha me dado conta das centenas de escolhas que fazemos durante um único dia. Das mais simples, mas não menos importantes, como sorrir ao nos dirigirmos a alguém, até as mais complexas como terminar um relacionamento ou mudar de emprego. “Tudo são escolhas. E por mais opressora que seja a situação, sempre temos possibilidades de escolher. Ficar ou partir, aceitar ou lutar, falar ou calar. As escolhas são as sementes imortais da liberdade que nos habita e diferencia”, concluiu o xamã. Aproveitei e falei que passava por um momento muito difícil, pois tinha que decidir sobre questões pessoais e profissionais para que pudesse dar um rumo à minha vida. As muitas chances que se apresentavam, diante das incertezas que tinha, acabavam por se tornar em possibilidade nenhuma.</p>
<p>“Nossas escolhas são a espada do guerreiro ou a lanterna do sábio a desbravar e iluminar a estrada da vida”, explicou. Ele deu uma pequena pausa e eu aproveitei para perguntar ao Canção Estrelada por qual direção eu deveria seguir. O xamã sorriu com bondade e falou: “Ninguém poderá lhe dar essa resposta, salvo você mesmo. A sua escolha é fruto de todos os elementos que germinam dentro de você. É o instrumento que afinará a melodia da sua alma. É a expressão do seu nível de consciência e da pureza que traz no coração. Permita-se ficar a sós consigo e entender que cada escolha definirá as condições próximas do Caminho, pontes ou abismos, jardins ou desertos”.</p>
<p>Falei que muitas vezes hesitei em seguir por algumas trilhas por pensá-las por demais arriscadas, noutras por não saber onde terminavam. Canção Estrelada explicou com paciência: “Há caminhos mais seguros, que te levam a curta distância, em paisagens previsíveis; trilhas mais perigosas, que podem te apresentar um universo inimaginável. Para fazer a escolha preste atenção em qual sentimento lhe move: a busca pelo aplauso fácil imposto pelas convenções sociais ou o mergulho profundo na viagem ao aperfeiçoamento no exercício do ser? Quando o seu movimento é impulsionado por nobres sentimentos o poder do mundo passa para as suas mãos. Esta é a magia da vida”.</p>
<p>Canção Estrelada me olhou com severidade e disse: “Cada uma das escolhas tem que vir revestida de dignidade, coragem, humildade, alegria e amor para que o palco se descortine diante do fantástico espetáculo das possibilidades ainda desconhecidas, a permitir que desperte o sagrado que adormece em ti”.</p>
<p>O sagrado em mim, como assim? Estranhei o termo. O xamã explicou: “Suas escolhas movimentam as suas asas ou te impedem de voar. Elas são o sal da vida, o sorriso no rosto, o encantamento por si e pelo outro, além da conexão com a pulsante esfera invisível. Assim, as escolhas têm o poder de transformar o mundano em sagrado pelo conteúdo e valor da transformação que irá gerar. Cada escolha pode ser um ato vulgar ou ter a força transformadora do milagre”.</p>
<p>Insisti dizendo que não tinha entendido. Canção Estrelada me olhou diferente, como um pai observa um filho e finalizou com a velha e boa lição: “A todo momento o Caminho nos apresenta bifurcações. Por um lado, a atraente estrada dos desejos, repletas de holofotes, privilégios e homenagens; do outro a discreta trilha das necessidades de metamorfoses da alma, cujas as únicas luzes apenas se acendem nos corações”. O xamã ficou algum tempo sem dizer palavra, como se buscasse lembranças ancestrais, até que finalizou: “Nem tudo que reluz é luz. Apenas a chama que brota nos corações puros pode iluminar os passos. O amor tem o poder de sacralizar todos os atos e de transformar o mundo quando é a força motriz das escolhas. O maior segredo da vida é muito simples, Yoskhaz: escolhemos por puro amor ou escolheremos errado”.</p>
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		<title>O escudo contra o mal.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Dec 2015 07:54:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe afligia. Em seguida alertou: “No entanto, pedir auxílio para que façam o trabalho que lhe cabe, apenas revela a falta de entendimento das Leis, pois não acontecerá. A vida não endurece para maltratar, mas para ensinar. Não há privilégios, apenas lições”</p>
<p>Como uma tempestade que chega sem anunciar, a vida desse homem parecia, de uma hora para outra, virada ao avesso. Brigas familiares insensatas e complicações profissionais que levaram à dificuldade financeira inesperada, eram as consequências imediatas e visíveis do inferno que ele vivia em solo terreno. Com os olhos mareados, se confessou desorientado para continuar na luta. Estávamos no refeitório, os três, e eu lhes servia café com bolo de milho. O homem, de ótima aparência e muito culto, narrou que até há poucas semanas navegava em águas tranquilas pelos mares da vida. Uma família aparentemente bem estruturada; sócio de uma empresa que gerava lucros suficientes para sustentar condição material bem acima da média. Até que, em algum momento, tudo desandou.</p>
<p>“A vida exige movimento. Assim, te fará caminhar por gosto ou imposição. A inércia e o comodismo são ferramentas das sombras a atolar o viajante. Aos que buscam incessantemente o aperfeiçoamento do próprio ser, a vida há de ser generosa, a fornecer todas as condições necessárias para o prosseguimento de uma viagem serena”, explicou o Velho. Deu uma pequena pausa, sorveu um gole de café e prosseguiu: “Aos que se iludem eleitos dos deuses, alheios a tudo e a todos, aos que se imaginam ‘escolhidos’, não tardará o desequilíbrio sobre as situações que o sustentam. A Lei do Serviço é parte do Código Não Escrito e obriga ao trabalho e ao progresso espiritual. Crises emocionais, brigas afetivas, desavenças familiares, dificuldades econômicas ou doenças, são alguns dos instrumentos de instabilidade utilizados pelo Universo para impor novo momento de adaptabilidade diante da realidade alterada.  Agora a criatura caminhará por necessidade”.</p>
<p>“O Caminho é muito generoso em te permitir escolher as rotas da viagem, entretanto, muito justo em elaborar as dificuldades inerentes ao trajeto. O Mestre ensinou há milênios que devemos atravessar a porta estreita das virtudes. No entanto, muitos ainda escolhem seguir pela estrada larga das vantagens indevidas. Afagam o ego em prejuízo a alma. O resultado? Após os prazeres imediatos e transitórios, anda-se em círculos por trilhas cada vez mais escuras e esburacadas. Agonia e tristeza se apresentam como companheiras de viagem”. O homem, muito sensibilizado, confessou que, de fato, não vinha oferecendo o melhor de si. Aflito, perguntou ao Velho como poderia mudar a própria vida, pois não sabia para onde seguir. O monge arqueou os lábios em um sorriso repleto de compaixão e disse: “Quer um novo Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar”.</p>
<p>“Problemas sinalizam a necessidade de mudanças. Entenda o que você precisa transformar em si e se dedique a isto com sinceridade. Só então chegará a ajuda da esfera invisível”.</p>
<p>O homem argumentou que sofria muito, não imaginava como fazer e, mais, a atual situação se mostrava tão nebulosa que não acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas sem a ajuda das forças superiores. O Velho respondeu com a voz bondosa: “O Universo não quer que você sofra, porém exige que você evolua para chegar a próxima estação. Aprender, se transformar, compartilhar e seguir são momentos distintos de cada etapa nas inúmeras existências permitidas, como escolas de sabedoria e amor”.</p>
<p>O homem disse que precisava também de muita proteção, pois tudo de ruim parecia acontecer a ele naquele momento. O monge mordiscou um pedaço do bolo e falou: “Estamos sujeitos à inexorável Lei da Ação e Reação, uma das que compõe o Código Não Escrito. Ela atrai para a sua vida pessoas e situações que lhe são adequadas, não por punição, mas de acordo com o rigor necessário para o aprendizado do aluno, no mesmo diapasão de suas atitudes. O perfume da flor atrai pássaros e borboletas; o odor do esgoto chama para si os ratos e as baratas. Assim, escolhemos os que nos acompanham e definimos o destino próximo”.</p>
<p>“Ninguém está fora do alcance das Leis. Os guardiões ou anjos do Universo ficam impedidos de interferir em razão da situação conflitante ser parte da lição que cabe a você. Assim, você precisa se ajudar para ser ajudado. É uma grande ilusão achar que a casa do mal é o mundo. A sua raiz está em cada um de nós, em maior ou menor intensidade, a depender da expansão de consciência individual. Acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você mesmo. Equalizar emoções e pensamentos nas ondas de Luz, envolvendo-os com amor, para que possam se materializar em boas atitudes é a defesa mais eficaz contra o mal. Pois, cria uma abóbada de proteção energética a sua volta, a permitir a aproximação de seus exércitos com maior rapidez, permissão e poder. Como pode ver, o melhor escudo contra o mal é um coração puro”.</p>
<p>“Nunca lhe faltará o auxílio. Entretanto, cada qual terá a ajuda na exata medida das suas necessidades de desenvolvimento, da vontade sincera de se transformar, de semear flores para quem vem atrás. Não podemos esquecer que as dificuldades nos trazem as lições indispensáveis para o aprimoramento da alma, muitas vezes ainda bem embrutecida, necessitando de métodos rigorosos de aprendizado”.</p>
<p>“Reflexões e meditações no encontro consigo próprio são ferramentas poderosas para a ampliação de consciência. Leituras auxiliam na criação de ideias e sustentação filosófica. As preces germinadas no coração são de extremo valor, pois auxiliam no equilíbrio emocional e o auxílio rogado, de algum jeito, nunca faltará, no entanto, não esqueça que santo nenhum dará os passos que cabem a você. A ajuda jamais chegará em forma de carroças repletas de ouro ou que a pessoa amada se dobre aos seus desejos. O auxílio vem através de sinais que indicam um novo sentido e aos ‘acasos’ que criam situações inimagináveis a fim de nos proteger. Ou por intermédio de intuições luminosas que indicam as indispensáveis metamorfoses da alma, as mudanças em seu sentir, pensar e agir”.</p>
<p>“Esta é a alquimia da vida: a transformação de sombras em luz, de dor em amor. Este é o mais precioso dos milagres e muitos nem se dão conta de que os têm na mão”.</p>
<p>Como um vício moderno, o homem reclamou da situação do planeta, que está tudo errado em todo lugar e do mal que parece campear sem rédeas. O monge mirou em seus olhos com doçura e falou: “Quando lamentamos o mundo, criticamos a nossa própria situação interna. O mal é fruto das sombras que habitam cada um de nós, nossas imperfeições e dificuldades, a formar um coletivo de iniquidades. Do contrário é também verdadeiro afirmar que somos a Luz na construção do bem e na manutenção da Obra. Através dos séculos o mundo sempre foi a exata fotografia de nossos corações. Do meu e do seu. Quer mudar o mundo? Transforme a si próprio. Como? Aperfeiçoe as suas escolhas”. O homem acenou com a cabeça em concordância, mais por desconcerto do que por satisfação.</p>
<p>Em seguida, tornou a lamentar a própria situação e insistiu que lhe fosse dito como, de forma objetiva, poderia reverter as atuais dificuldades. “Não faço a menor ideia”, disse o Velho. Diante do olhar atônito do homem, pediu para que eu lhe servisse mais um pouco de café e explicou: “Administrar a vida alheia é muito fácil e tentador, entretanto também demonstra leviandade e arrogância. O exercício da vida, com suas dores e delícias, é a ferramenta pessoal e intransferível de que dispomos para desenvolver as asas da alma, alavancar a nossa evolução. Entenda, aceite e use adequadamente a liberdade de buscar e decidir”.</p>
<p>“Apesar de nunca lhe faltar ajuda – e que sejamos claros, não para um desfecho mágico dos seus problemas, pois o auxílio não será na medida dos desejos do seu ego, mas das necessidades de sua alma, ou seja, por intermédio de condições para alterar, por si e através de si, a realidade – a parte mais importante do processo terá que ser feita por você, na ampliação de sua consciência, no burilar do coração, no desapego dos velhos conceitos. Medidas que refletirão no aprimoramento das suas escolhas”.</p>
<p>Observou o homem por alguns instantes e aconselhou: “Procure o silêncio e a quietude para ficar a sós consigo. Mergulhe fundo, conhecer a si próprio é a estrada para a plenitude. Estabeleça para si mesmo cláusulas invioláveis de amor e dignidade. Perceba o que precisa ser modificado em sua vida. Absolutamente tudo pode ser diferente e melhor. Todos os sábios já fizeram isso para romper a dureza do casulo e sentir as asas da liberdade”.</p>
<p>O Velho pediu para unirmos as mãos e fez uma prece sentida por amor e Luz. O homem agradeceu educadamente a conversa, a oração e partiu. A sós com o Velho, falei que tinha a impressão de que o visitante tinha ficado um tanto decepcionado. “Poucos aceitam os encargos e o trabalho que lhes cabem. Todavia, se as minhas palavras forem uma boa semente, cedo ou tarde germinará”, disse o monge. Deu uma pequena pausa e finalizou: “Na verdade, as transformações exigem grandes esforços que nem todos parecem dispostos a operar. Pensam ser mais fácil rogar por um milagre, que nunca virá, pois o bom educador não faz o dever do aluno. Roga-se por socorro para que se materialize um castelo de muros altos a garantir privilégios e mordomia, quando, na realidade, a ajuda sempre chegará em forma de ponte, toda vez que existir a vontade sincera do andarilho em caminhar e atravessar o abismo”.</p>
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		<title>Meu personagem favorito.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Nov 2015 18:02:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS I]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.</p>
<p>Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.<span id="more-392"></span></p>
<p>O elegante artesão tinha o olhar perdido em alguma página da sua história e falava como quem explica um fato distante: “Em geral, não preparamos o outro para nos ver atuando sem nossas fantasias sociais. O ego que criou o personagem na tolice de nos proteger, cedo ou tarde, subirá à tona para mostrar a verdadeira face, aquela que ocultamos. O ‘eu’ vai ficar nu. Nenhum truque se sustenta para sempre. Daí surgem as decepções, conflitos, e sofrimentos, nesta ordem”.</p>
<p>“Algumas pessoas abusam mais, outras menos, dos personagens na medida da falta de coragem para encarar quem realmente são. É necessário enfrentar a verdade, sem adereços, com humildade, como primeiro passo para se transformar e vivenciar as suas infinitas possibilidades. Não se chega à próxima estação sem enfrentar a estrada. Ainda que haja curvas, pedras e tempestades, as dificuldades fortalecem e aperfeiçoam o viajante”.</p>
<p>“Nem todos estão dispostos a se deparar com as verdades da alma, com suas frustrações e insucessos. Então, nos escondemos sob o manto das ilusões oferecidas pelo ego, a nos enganar, na vã esperança que ele nos conforte e proteja para sempre. Usamos as máscaras que ele nos empresta no baile em homenagem à mentira. Até que o Caminho, na exigência do movimento da cura pela verdade, despe o personagem que criamos para interpretar as histórias que gostamos de contar sobre nós mesmos. Cedo ou tarde, nos obriga a olhar para o espelho. Estar frente a frente consigo é mirar nos olhos da verdade e entender toda a sua força revolucionária. É doloroso em um primeiro momento, por estar sem maquiagem, não encontrar a perfeição que se iludiu. Mas só assim descobrimos o que precisa ser modificado, o que temos que deixar para trás. Entendemos, principalmente, que não somos o nosso discurso, mas as nossas escolhas”.</p>
<p>Comentei que deveriam existir alguns modelos mais comuns de fantasias, arquétipos do inconsciente coletivo. Loureiro concordou:  “Existem muitos e posso exemplificar alguns. Um personagem muito usado hoje em dia é o da ‘pessoa séria, muito ocupada, que não tem tempo para os outros’, em uma clara demonstração de fuga do convívio, da intimidade, por medo de revelar que tem pouco para mostrar ou de mostrar o que anseia esconder. É a débil máscara do forte, a fantasia curta do poderoso. Na verdade, ocultamos aquilo que não temos coragem de enfrentar. Levanta-se muros para que ninguém descubra as nossas fraquezas, quando na verdade precisamos de pontes para atravessar esses abismos. Somente quando admitimos as dificuldades nos tornamos aptos a superá-las. Para ser grande é necessário trilhar o caminho do pequeno. Isto se chama humildade. Esta virtude lhe fará aceitar a condição de aprendiz, de que ninguém nasce pronto, e assim permitirá, não sem muito trabalho, que aos poucos revele toda a grandeza que habita em seu coração”.</p>
<p>“Existe também o personagem do ‘falso alegre’, aquele que precisa estar sempre rodeado de gente e, de preferência, barulho. Que fique bem claro que diversão, amizade, alegria e movimento são coisas maravilhosas. Mas há que se ter hora para todas as coisas, a fazer bom uso do tempo, este tesouro finito. Por que o medo de ficar à sós consigo? De ouvir a música do silêncio? De conversar com o próprio coração? A solidão tem sido amaldiçoada por mal compreendida. Solidão não significa abandono, mas a viagem que o ego faz aos jardins da alma. O retiro necessário para percebermos as máscaras que atrapalham, por ineficazes, a conquista da plenitude; as fantasias que ficaram velhas sem conseguir sustentar a felicidade; a maquiagem que borrou por tantas lágrimas ao perceber que a paz não se encontra nas prateleiras da ilusão, mas precisa ser construída pela verdade de se conhecer por inteiro e, então, se transformar. Ser feliz é uma escolha consciente que exige determinação e coragem para estar consigo próprio e ouvir a voz que brota no coração”.</p>
<p>“De todas as fantasias, a mais triste é a da ‘vítima’. São aqueles que se dizem bons e generosos, porém alegam ser enganados ou sabotados por todos o tempo todo. Usam a máscara do drama para transferir aos outros a responsabilidade pelo seu sofrimento, escondendo de si mesmo a atribuição de trabalhar a própria evolução. É como se desejassem uma carona até a próxima estação para não ter que enfrentar as dificuldades do Caminho. Esquecem que os problemas que nos perseguem nada mais são do que as lições que precisamos aprender, as transformações que devemos forjar no próprio ser. Ignoram que a batalha final é travada dentro de cada um de nós”.</p>
<p>Loureiro tomou um último gole de vinho e alertou: “É importante se reinventar todos os dias, pois faz parte do processo primoroso de transformação. No entanto, é preciso que se funde os alicerces da verdade nas rochas da humildade, alegria e coragem, afastando-se, a cada dia, dos pântanos da ilusão, da mentira e do medo que atolam a evolução”.</p>
<p>“É imperioso desvendar o véu da fantasia que enevoa as mudanças necessárias exigidas pela alma despida. Embora seja um processo difícil, pois muito do aparente conforto do personagem será substituído pelo esforço no desenvolvimento do verdadeiro eu. O autoconhecimento é indispensável à cura. Cura das imperfeições, dos traumas e do sofrimento através do remédio da verdade, na lapidação das cascas de si mesmo até que se reflita a mais pura luz. Semear e cultivar a essência que nos habita, na beleza de ser único e parte do todo, ao mesmo tempo”.</p>
<p>Deu uma pequena pausa e concluiu antes de se levantar: “Cada qual é a nau a atravessar as tempestades das próprias ilusões, aprendendo a manobrar com os ventos da verdade, a navegar pela luz da fina sabedoria. A vida é o mar, os encontros são os portos e o amor é o destino”.</p>
<p>Já de pé, me ofereceu um sorriso maroto e provocou: “Yoskhaz, qual a sua máscara?”. Rimos.</p>
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		<title>Ninguém sofre por amor.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Yoskhaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 07:13:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MANUSCRITOS I]]></category>
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					<description><![CDATA[Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.</p>
<p>Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?</p>
<p>O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.<span id="more-382"></span></p>
<p>Brinquei com o bom sapateiro para que tivesse cuidado, pois seria apedrejado pelos amantes e defenestrado pelos poetas. “Sei que se sofre muito em razão de separações afetivas, mas não é por amor. O verdadeiro amor é aliado inseparável da liberdade; diria até que o amor são as asas da liberdade. Ele, o amor, respeita a escolha do outro em partir ou não querer mais manter o relacionamento. ‘Ah, eu gostava tanto dela’&#8230; Continue gostando, admirando, mas entenda que ninguém é dono de ninguém. Uma alma não pode ser proprietária de outra. Não existe qualquer tipo de dominação no amor verdadeiro. Não se pode celebrar um casamento como quem outorga uma escritura de compra. Tem tudo para dar errado. Dessa maneira, o sofrimento, em verdade, nasce do apego ilegítimo de desejar ter o que não pode ser possuído. Não se justifica o cerceamento da liberdade de alguém em função dos medos e desejos de outra pessoa. O descuido e ignorância em permitir a manifestação em seu coração de emoções de baixa vibração como o ciúme, a inveja, o orgulho e a vaidade são as reais e únicas razões do sofrimento. No entanto, essas sombras, sempre sorrateiras e disfarçadas, se eximem da responsabilidade e a atribuem injustamente ao amor. Há milênios se condena o amor por crimes que ele nunca cometeu. E nós continuamos a acreditar na mentira, desperdiçando a beleza e a grandeza do amor”.</p>
<p>Argumentei que os jornais, todos dias, narram crimes passionais cometidos por amantes inconsoláveis. Loureiro balançou a cabeça como quem diz que está tudo errado e falou: “Ciúme não é amor. Mata-se por ciúme, nunca por amor. São sentimentos antagônicos. Já ouvi, muitas vezes, a seguinte frase: ‘quem ama tem ciúme’. Uma mentira. E uma mentira repetida mil vezes ganha força de verdade, o que é lamentável, por induzir as pessoas ao erro”. Retruquei que o ciúme era inerente à natureza humana. “Sim, isso é verdade. Ciúmes, inveja, orgulho, vaidade, medo estão entre as outras emoções que compõem as sombras que se escondem no âmago de todos nós. Transmutá-las é a grande batalha. Há quem sinta ciúme e mate; há quem sinta ciúme pegue o violão e faça uma canção. Enquanto uns permitem que as sombras se tornem senhoras de si, a dominar e iludir as suas vontades; outros as iluminam, modificando para sempre a sua antiga condição. Percebe que enquanto um enveredou pelas raias da insanidade e do crime, o outro confeccionou uma bela obra de arte? Ambos tinham o mesmo sentimento como matéria-prima. Mas fizeram escolhas diferentes. Porquê? Nível de consciência é a resposta. E somente a compreensão das infinitas possibilidades do amor sustenta e expande as fronteiras da sabedoria, a nos levar às Terras Altas da Plenitude”.</p>
<p>“É necessário entender que a Lei da Afinidade é que rege a aproximação entre as pessoas. Uma frequência energética de sentimentos e pensamentos vibrando em faixas similares as atraem. Isto pode durar um dia ou séculos. Então, deixar ir ou você próprio partir quando sentir que ligações não se sustentam na intensidade necessária, significa que já estão em pontos diferentes do Caminho. Respeitar as escolhas é entender a viagem. É sábio, é um ato de amor. Isto nos liberta para novas histórias e para um novo ciclo. Separações não são perdas; são oportunidades”.</p>
<p>Eu quis saber onde costumamos errar, onde nos perdemos? De pronto o artesão me respondeu: “Para começar costumamos focar na exigência em sermos amados ao invés de amarmos sem qualquer exigência, invertendo a lógica natural do amor, que precisa da renúncia para se espraiar e brilhar em toda a sua amplitude. Só temos aquilo que doamos com o coração, com pureza e sinceridade, sem apegos, condições ou tributos. Mas reparo as pessoas fazerem uma espécie de ‘livro-caixa do afeto’, onde anotam créditos e débitos na ilusão de auferir lucros ou, na pior das hipóteses, zerar a conta do ‘carinho e da atenção’. Ora, isto nunca foi amor”.</p>
<p>Loureiro bebeu mais um gole do tinto e se aprofundou: “Outro motivo, bem comum, é transferir ao outro a responsabilidade por fazê-lo feliz nas relações afetivas. É como mandar o outro fazer um trabalho que lhe cabe. Você apenas encontrará a felicidade dentro de si, em processo de autoconhecimento, de cura pela verdade, de transmutação das velhas formas do pensar e agir. Esta construção é pessoal e intransferível. Depositar no outro a obrigação de te fazer feliz? Tudo errado de novo. Puro medo de enfrentar as batalhas de aprimoramento e evolução que devem ser travadas consigo mesmo, entre o ego e a alma: sombra e luz. O amor exige doação, jamais cobrança. Em geral, por infeliz ironia, cobra-se muito quando se tem pouco para dar. Temos que compartilhar o amor que floresce em nós e não desejar ardentemente sugá-lo do outro como um viciado em busca de droga”.</p>
<p>Questionei ao sapateiro, sobre o sofrimento causado pela perda de um ente querido. Ele me olhou incrédulo e rebateu de pronto: “Perda? Que perda, Yoskhaz? Até quando vamos insistir em não desmistificar a morte? A morte é uma certeza, ponto. Lembrar todos os dias de que iremos morrer a qualquer momento é altamente saudável, amplia o sentido da vida, refina o tempo, aperfeiçoa as escolhas. Se entendermos que a morte não é o final de uma história, mas a mudança de capítulo no livro da vida, não haverá sofrimento. A saudade da partida será a fonte da alegria no reencontro. Inúmeras partidas e chegadas. Os laços costurados pelo amor são eternos e unirá a todos mais à frente. Lei da Afinidade de novo. Caso contrário, nada faria sentido. Enquanto isso vamos aprendendo, transmutando, compartilhando para seguir adiante, habilitados para novas aventuras de uma história sem fim. A saudade tem que ser motivo de alegria, pois só há saudade onde existe amor. Celebremos a saudade, pois quem não a sente reside no vazio. Assim, a exata percepção das Leis do Universo transforma o sofrimento em pó de estrelas”.</p>
<p>Falei da sua sobrinha, que mais cedo saíra em lágrimas da oficina. Ele me disse com a voz mansa, repleta de compaixão: “Ela ainda está aprisionada a condicionamentos sociais e culturais que enevoam a pura dimensão do amor. Usa o seu sagrado nome e o interpreta de forma equivocada. Evoluímos por vontade ou pelo desequilíbrio que a vida impõe. A recusa dela em se permitir outra ótica traz sofrimento, que em algum momento, por se cansar da dor, ou melhor, por entendê-la desnecessária, fará com que reveja conceitos, ideias, comportamentos. Então, conhecerá toda a liberdade contida no amor. Só assim entenderá e viverá o amor. De verdade”.</p>
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