TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Vigésimo segundo limiar – Não existem contradições no Caminho)

Eu estava em um teatro. Não havia mais ninguém na plateia. Sentei-me em uma das poltronas. Após alguns instantes, as luzes começaram a piscar avisando que o espetáculo iria começar. Escuto uma música, embora não consiga ver a orquestra. A luz estabiliza, a música cessa, as cortinas se abrem. Um palhaço, com o rosto pintado, vestido com um terno preto e desconjuntado, usando um pequeno chapéu coco e girando uma bengala se movia com graça sobre seus sapatos de tamanho exagerado. Ele me cumprimenta com um balanço de cabeça e aponta a bengala em minha direção: “Ao menos por hoje, não ria”, pede. “A maquiagem e a vestimenta são apetrechos. O palhaço faz rir mesmo quando a sua alma fala sério”.

Fico sem saber o que dizer. Ele prossegue: “Faço rir por causa do gestual atrapalhado e da insensatez das situações propositalmente provocadas. Encanto por causa de uma pureza supostamente perdida pelo público, mas que, em verdade, ninguém nunca teve. Por falta de noção e juízo, escolhemos usar do mal mesmo tendo o bem à disposição”. Perguntei sobre o motivo de haver tanta amargura naquelas palavras. O palhaço explicou: “Não há nenhuma amargura. Embora o meu discurso possa parecer um lamento, não é. Trata-se de um aviso e uma constatação: as aparências enganam. Aquele que mede a vida pelo que os olhos mostram, os ouvidos escutam, os sabores indicam, os dedos tocam ou pelo cheiro que sente, nada saberá sobre a verdade de todas as coisas”.

Exemplificou: “Há homens e mulheres de excelente aparência; o rosto possui traços perfeitos, o corpo coberto com roupas de fino corte, os lábios expressam palavras encantadoras, perfumes agradáveis exalam de suas peles macias. Apesar de estarem cercados de gente, convites e agrados, a alma pode estar atormentada pelo esquecimento, perdida na escuridão de quem não tem controle sobre si e nada sabe sobre a verdade e as virtudes. O contrário também se aplica; encontraremos pessoas simples, no vestuário e no vocabulário, mas repletos de sabedoria e amor; o mundo costuma se fascinar por aqueles sem se permitir ao encanto destes. Um engano comum”.

Falei que a vida era repleta de contradições. Ele rebateu: “Não existem contradições. Os opostos não se negam. O contrário do errado não é o certo. Porém, a sua explicação. Somente ao se perder na escuridão entenderemos o valor e o poder da luz”. 

Questionei a razão pela qual ele escolhera aquela profissão, pois me parecia desconfortável nela. O palhaço explicou ao seu jeito: “Você sabe quantos anos eu tenho?”. Era impossível saber quem estava por trás de tanta maquiagem e fantasia. Fiz não com a cabeça. Ele esclareceu: “Fui malabarista quando era rapaz. Uma queda me impediu de continuar na profissão. Isto não é ruim, ao contrário, é algo muito bom. É apenas mais uma das infinitas variações que explicam a pedagogia da vida, os seus mistérios e magias. Não raro, somos forçados a substituir a fonte das nossas forças e poderes. Antes, eu tinha uma vida baseada no vigor físico; possuía habilidades que arrancavam suspiros da plateia. Agora, pela serenidade emocional e olhar aprimorado da alma, falo ao coração das pessoas. Diferente do que os afoitos acreditam, quando sabemos lidar com a mudanças, a existência se torna mais saborosa. Vitórias e derrotas são meras ilusões em mentes aprisionadas pela inflexibilidade e falta de clareza; todos os acontecimentos são ingredientes para as inevitáveis transformações pessoais. Assim evoluímos. Claro, se você souber fazer essa indispensável transição: entender sobre causas e consequências; compromissos e responsabilidades. Amadurecer é compreender o conteúdo da bagagem. Do contrário, restarão sofrimentos e insatisfações”. 

Com a duas mãos apoiadas sobre a bengala, fez uma mesura graciosa e disse: “Faz-se necessário renascer para não morrer.A morte não é o falecimento do corpo; acontece nas vezes em que o espírito teima em ficar estático diante dos movimentos da vida”. Fez uma pausa como se algumas lembranças o tivessem transportado para um tempo distante e falou: “O aprimoramento da arte do palhaço não é a gargalhada do público. O palhaço em seu esplendor artístico mostra a verdade escondida por trás dos personagens que todos na plateia escolheram interpretar. Como se o palhaço avisasse: olhem para mim, mas prestem atenção em quem vocês não são”. Balançou a cabeça e confessou: “Eu gostava dos shows que proporcionava voando de um trapézio a outro em desafio à morte. Porém, hoje amo o encantamento sutil do palhaço em dialogar com o coração das pessoas em celebração à vida. Em meus shows tento mostrar a beleza da pureza, a clareza da simplicidade e o poder da humildade. Embora a leitura nem sempre seja consciente, resta a sensação de que não é apenas o palhaço que no palco faz uso de uma fantasia. Cada pessoa da plateia possui o seu próprio personagem criado no afã de aceitação e admiração, em criações bem mais sofisticadas do que aquela interpretada pelo ator. Enquanto negarmos isto, nada seremos”.

Andou pelo palco como se a sua conversa comigo fosse parte do espetáculo e disse: “A arte do palhaço é manter um diálogo direto com a alma do público. É fazer com que a leveza do riso desmanche as fôrmas estanques da mente para permitir o livre-pensar. Só quem se modifica permanece reto”. Interrompi para dizer que não tinha entendido aquela última frase. Ele explicou: “A vida exige movimento para que haja transformação, sem a qual não existirá avanço. Todos querem que os dias melhorem; no entanto, se recusam em fazer qualquer mudança para que a realidade se modifique. Nem ao menos ousam a mudar o olhar. Teimam em interpretar a realidade por uma ótica embaçada por ideias rasas e curtas; elaboram os acontecimentos por intermédio de filtros poluídos em mágoas e decepções.  O mundo não vai se ajustar ao gosto de ninguém. A existência adquire suavidade e beleza quando nos aproximamos da nossa essência e entendemos a melhor maneira de caminhar. O destino é a luz; a verdade serve como mapa e as virtudes são os passos eficientes e serenos capazes de conduzir o viajante até o destino”. Franziu as sobrancelhas e pontuou: “Contudo, muitos temem as mudanças pelos desconfortos que causam, pelas mentiras que revelam e medo do que virá. Acreditam que, se continuarem como são, a vida seguirá em linha reta. Outro engano. A vida muda como inspiração às transformações; ao negarmos a mudança, o caminho ficará interrompido, seremos levados ao esgotamento sem chegar a lugar nenhum. Para seguir em frente é preciso deixar para trás o modelo de quem somos. Reinventar-se para ajustar a rota sem perder o rumo”.

Eu quis saber como fazer isso. O palhaço fez um gesto com a mão como se pedisse para eu prestar mais atenção. Ele repetiu: “Guie-se pela verdade; mova-se através das virtudes. A vida muda, a verdade também. Aquela movimenta esta; esta modifica aquela. Quando recusamos a desconstruir o que há de obsoleto em nós, surgem os acontecimentos para demolir os enganos e destruir um estilo pernicioso de viver. Na busca por regeneração, equilíbrio e força, os níveis de percepção e sensibilidade se aprimoram; então, a verdade se modifica e as virtudes se aperfeiçoam. Renascemos diferentes e melhores das próprias ruínas”.

Apoiado à bengala, girou o corpo sobre os calcanhares, como representação da mudança de cena, e disse: “A reconstrução ou, se preferir, a regeneração, está na essência do ser, é a linha-mestra do universo, o sentido da vida. A inflexibilidade é a representação da morte através de uma vida que se desgovernou por não compreender o seu genuíno sentido”. Abriu os braços e fez uma declaração: “A impossibilidade física de continuar a saltar de um trapézio a outro me permitiu aprimorar o meu dom. Antes, como trapezista, usando de habilidade física excepcional, eu alimentava o sonho das pessoas em voar; agora, como palhaço, através da leveza e da graça que revela a verdade, eu mostro onde elas poderão encontrar as próprias asas”. 

Arqueou os lábios em sorriso e falou: “No renascimento permitido pelas transformações, o tempo não mais será um algoz. Pois, a vida venceu a morte no embate pessoal entre luz e sombras”.

Com honestidade, elogiei a inteligência dos argumentos. Questionei o motivo pelo qual as pessoas tinham tanta dificuldade em adotar tal filosofia. O palhaço arregalou os olhos como expressão proposital de espanto e disse: “Elas estão lotadas em si. É preciso esvaziar para preencher. Sem que haja disponibilidade interna, não haverá espaço para novos conteúdos, ideias e comportamentos. Nada mudará. Na estagnação, a morte se instala antes da morte. A maioria tem certeza de que conhece os segredos e meandros da grande arte; a construção de si mesmo. O oceano não cabe dentro de uma garrafa. Há que se ter humildade e simplicidade. Respiram, andam, comem, se casam, procriam, mas ignoram quem são”. Deu de ombros e comentou: “Digo a verdade à plateia todas as noites. Dão gargalhadas achando que o palhaço somente faz graça. Ignoram que o dom do palhaço é mostrar a verdade inconfessável”.

“No dia seguinte, voltam às suas atividades, esquecendo que pouco ter é muito, muito ter é pouco”. Questionei se ele achava errado as pessoas trabalharem para ganhar dinheiro e terem uma vida mais confortável. O palhaço disse: “Não há nada de errado em se tornar uma pessoa rica, com um grande patrimônio financeiro, desde que não esqueça da prosperidade espiritual como prioridade. Tenha objetivos profissionais e econômicos, mas nunca esqueça o sentido da vida. Não raro, no afã dos lucros e das conquistas materiais negociamos com a verdade. Um vício como quaisquer outros. Preste atenção nos valores que sustentam as conquistas. Prédios altos precisam de alicerces profundos”. Arregalou os olhos como se pedisse para eu prestar atenção e disse: “O essencial basta. Não que o supérfluo seja necessariamente ruim. Contudo, nunca é um bom negócio prejudicar a jornada do espírito em troca de vantagens, interesses, desejos e privilégios mundanos; casos em que mais se torna menos. Saber que pouco me concederá o necessário para uma vida plena, me liberta das amarras da ganância, do egoísmo e das disputas mesquinhas. Como qualquer outra coisa, o dinheiro nunca pavimentou a estrada do amor, da dignidade, da paz, da liberdade nem da dignidade; uma verdade que não impede quem tem menos de se tornar mais”. Abriu os braços e lembrou: “No afã de virarem os donos de espetáculo, muitos acabam por menosprezar a arte da leveza”.

Indaguei se aqueles argumentos não mostravam contradições que ele negava existir. O palhaço ponderou: “Os modos simples do palhaço não o tornam simplório, o que tornaria o espetáculo raso, mas trabalha com a simplicidade dos sábios na profundidade daqueles que já ficaram frente a frente com a própria alma. A graça faz parte da aparência do seu ofício, a sabedoria está na essência da sua arte. O sábio se reúne nele mesmopor amor ao mundo”. Ao perceber que eu não tinha entendido a ultima frase, explicou: “O sábio faz uma jornada dentro de si para juntar as partes soltas, despertar as que estão adormecidas, encontrar aquelas que foram perdidas no sofrimento de uma desilusão qualquer. São fragmentos que unifica o ser, não mais dispersando forças nem gerando desequilíbrio. Tornar-se dono de si é viver a própria verdade nos passos da consciência que se expande e no compasso das virtudes que florescem. Sabedoria e amor diminuem diferenças e distâncias; ensinam sobre o valor da compaixão e o poder do perdão. Mágoas e decepções têm tamanho e peso incompatíveis com a bagagem permitida nas Terras Altas”. Interrompi para indagar se o fato de olhar tanto para si não seria a estrada para egoísmo. Ele negou: “O sábio cultiva os jardins da alma para que sempre tenha flores a embelezar o mundo. De outro lado, o egoísta quer arrancar as flores dos jardins do mundo no desejo de as ter somente para si”.

Admiti que contradições são apenas aparentes. O palhaço fez um gesto com a mão, como se contasse um segredo, e acrescentou: “Veja o sábio, não se envaidece e é admirado; não se orgulha e é respeitado. Preste atenção aos falsos e frágeis poderes espetaculosos das sombras em contraponto com a discrição e a sutileza das virtudes. As sombras são barulhentas e espalhafatosas; veja o sofrimento e a confusão que o orgulho, a vaidade, a ganância e o ciúme causam. As virtudes se caracterizam como forças suaves e silenciosas; repare como a humildade, a simplicidade e a compaixão são poderosas e luminosas”. 

“A vaidade é a dependência emocional por elogios. O indivíduo cria máscaras e personagens como atalhos para qualidades que ainda não possui. Um vício comum a quem está distante da própria essência. Cada vez mais saberá menos sobre si mesmo. Desorientado, viverá um personagem inventado em busca de aceitação e aplausos. Um triste vício; causa de muitos desequilíbrios. O contraponto da vaidade é a simplicidade, a virtude da transparência, de uma existência sem disfarces nem subterfúgios. De quem entende a necessidade de expor a verdade da alma ao mundo, apesar de todas as dificuldades e limitações, como método eficiente de se aproximar da verdade; caminho para descobrir, encontrar e conquistar a si mesmo; origem do verdadeiro equilíbrio”.

“O orgulho é um recurso, muitas vezes inconsciente, usado por todo aquele que precisa acreditar que é maior e melhor do que os outros. Ele não se aceita como verdadeiramente é. Em análise mais exata, o orgulhoso, embora se mostre poderoso, é um indivíduo frágil. Pela incapacidade de admitir as suas inaceitações e incompreensões, seja para si mesmo, seja para o mundo, utiliza a arrogância e a prepotência como armas para manter distante as pessoas e as situações que possam revelar que, apesar de toda pompa e aparência, o reié fraco. Este é o medo que o devora dia após dia. O antídoto do orgulho é a humildade. A humildade é virtude primordial da grande arte. Os humildes estão sempre disponíveis a lapidar uma versão diferente e melhor de si mesmo. Infinitamente. Por não terem vergonha de quem genuinamente são, se tornam fortes em razão do potencial imensurável de aprendizado e transmutação que acompanham as dificuldades. Por olharem para os problemas como quem busca um mestre, os obstáculos deixam de ser entraves para se tornarem autênticas fontes de força”. Fez uma pausa e lembrou: “A compaixão, simplicidade e a humildade abrem o portal da lucidez”.

Em seguida, acrescentou: “A lucidez faz com que o sábio não entre em disputas nem conflitos. Se prestar atenção verá que nenhum deles se traduz em vitórias ou ganhos. Disputas servem para alimentar a imaturidade na ilusão de quem seria o melhor; conflitos revelam as incompreensões internas que transbordaram de tanto sofrimento. Em qualquer dos casos, mostram indivíduos desorientados e afastados dos seus eixos de luz, ainda sustentados em orgulho, vaidade, ganância ou ciúme. Embora não saibam, necessitam de auxílio e compaixão; precisam aprender sobre o poder da humildade e o valor da simplicidade”. Tornou a fazer uma breve pausa antes de pontuar: “Quando entramos em alguma disputa ou conflito, significa que naquele momento nos perdemos na escuridão e, sem darmos conta, nos colocamos à serviço das nossas sombras”.  

Comentei que muitas pessoas da plateia deveriam se zangar com um espetáculo cuja finalidade é mostrar a verdade inconfessável. Vaidosos e orgulhosos se ofendem com extrema facilidade. Qualquer palavra que possa revelar a verdade escondida é tomada como gesto agressivo. Então, reagem mal. O palhaço voltou a arregalar os olhos como em um ato dramático e disparou: “Somos os bobos shakespearianos que usam a graça para mostrar a verdade sem que os vaidosos e orgulhosos se ofendam. Nos consideram tão toscos e ingênuos que nem desconfiam que mostramos um espelho capaz de refletir as suas imagens. Esta é a arte do palhaço”.

“Em sua humildade e simplicidade, o palhaço não tenta convencer ninguém das suas habilidades. Tampouco das suas razões. Ele não se importa em ser considerado um sujeito tolo e desajustado. Sabe que, não raro, a verdade também é considerada tola e desajustada. Segue, ao seu jeito, nos passos das verdades simples e transparentes. Quem puder que faça bom uso. As disputas se mantêm distantes da sua realidade. Diante dos obstáculos, que para muitos são intransponíveis, flui como o vento que contorna as mais altas montanhas. Nada o detém. Assim como o palhaço vagueia solto no imaginário das verdades ocultas, o sábio caminha livremente através da estrada da quietude e do silêncio. Deixa as homenagens e os títulos para aqueles que se consideram importantes; e segue a sua viagem”.

O ator finalizou o espetáculo: “Como dizem os antigos:renascer para não morrer.Ao viver como parte do todoo todo vive através da parte. Renasço todos os dias ao mover a vida por intermédio das verdades sutis que se manifestam por detrás da suavidade dos risos e sorrisos. Muitos não entendem as sutilezas, apenas se divertem; não importa. Muitos menosprezam o poder das virtudes como instrumentos de força e equilíbrio; sem problema.  As sementes não morrem, apenas aguardam o momento certo para germinar. Alegro a plateia e animo a minha alma. São momentos em que encontro o coração do mundo dentro do meu próprio coração. Não há nada mais sublime”.

Fez uma reverência em agradecimento à atenção do público e se retirou com passos graciosos. Ao me dirigir para fora do teatro, a porta de saída se apresentou como uma linda mandala de fogo. Atravessei as chamas sem me queimar.

Poema vinte e dois

Renascer para não morrer.

Quem se modifica permanece reto.

Esvaziar para preencher.

Pouco ter é muito.

Muito ter é pouco.

O sábio se reúne nele mesmo

Por amor ao mundo.

Não se envaidece e é admirado.

Não se orgulha e é respeitado.

Não entra em disputas nem conflitos,

Nada o detém.

Como dizem os antigos:

Renascer para não morrer.

Ao viver como parte do todo

O todo vive através da parte.

3 comments

SCHWEITZER maio 31, 2022 at 5:00 pm

Genial. Quem não muda morre, se suicida lentamente, sem saber, sem refletir no seu sofrer.

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Terumi junho 4, 2022 at 1:16 am

Gratidão 🙏

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Fernando junho 6, 2022 at 6:42 pm

Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas 🌟
Sem fim…

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