TAO TE CHING

TAO TE CHING, o romance (Trigésimo limiar – Não cabem armas no Caminho)

Apesar de nunca ter estado onde estava, eu não tinha qualquer dúvida sobre aquele local. Homens vestindo togas de linho branco, finamente adornadas com bordados dourados nas mangas, discutiam os próximos passos do Império em seu processo de expansão através da subjugação de outros povos. As discussões eram acaloradas. Os muitos interesses em jogo modificavam o discurso de cada senador. Apesar das desavenças, uma ideia em comum predominava: a guerra era imprescindível. Não apenas como mecanismo de poder, mas também de riqueza. Um deles, tinha a fisionomia entediada e o olhar distante. Os cabelos brancos rareavam, acentuando a calva. Sentei-me ao seu lado. Ouvimos as palavras inflamadas por alguns minutos, quando ele se virou para mim e, para não atrapalhar o debate, disse em tom baixo de voz, quase um sussurro: “O príncipe desaconselha o uso de armas no Caminho”. Indaguei se o imperador iria desautorizar qualquer outra guerra, independente da vontade do Senado. O homem sacudiu a cabeça e explicou: “Refiro-me ao reino que todo indivíduo traz em si. Somos muitos em um. Pensamentos, sentimentos, intuições, lembranças, condicionamentos, influências e culpas são apenas alguns habitantes dos muitos que convivem dentro de cada pessoa. Todos têm as suas vozes, olhares e interesses. Há também o príncipe, o mais importante de todos os habitantes, aquele que todos devem ouvir, pois do contrário, não existirá prosperidade nem harmonia, e quem reinará será o caos. Na mística, onde se busca a verdade além da ciência, esse príncipe é denominado alma”.

Aquela teoria era recorrente na minha viagem através do tempo para entender o Tao Te Ching. Já havia sido mencionada por outros interlocutores. Antes que eu fizesse qualquer pergunta, o senador se adiantou: “Todas as conquistas são ilusórias quando realizadas com o uso de armas”. Fez uma pausa antes de esclarecer: “O conceito de armas não se resume a exércitos e tropas, com as suas lanças e espadas, tampouco aos meios criminosos para se alcançar desejos e interesses, como matar, roubar, fraudar e corromper, entre outros delitos. É muito mais. Há outras maneiras bem mais veladas, quase imperceptíveis para a maioria das pessoas. Armas são todas as escolhas movidas pelas sombras, ainda que não haja punição prevista em lei e sejam socialmente toleráveis. A mentira, a manipulação, a hipocrisia, a desfaçatez, o mau caratismo, a chantagem diante daqueles emocionalmente despreparados, a coação moral, financeira e jurídica são apenas alguns exemplos das diversas armas que menciono”.

Observou por instantes dois senadores trocarem ironias e sarcasmos, como modalidade de agressão, coação e humilhação, me mostrando um pouco do que falava, e prosseguiu: “Quem movimenta essas armas são as sombras pessoais, tais como o orgulho, a vaidade, a ganância, o ciúme, a inveja, entre várias outras. Todas as conquistas conseguidas através de qualquer um desses meios serão vazias por não se sustentarem diante da Luz. Embora possam gerar fortuna e fama, o reino sucumbirá em conflitos e confusões”.

Em seguida, disse: “A arma engendra a arma”. Antes de explicar a frase, se virou para mim e comentou que recentemente conhecera um monge que viera do Oriente distante. Em seguida me perguntou se eu já ouvira falar sobre a Lei do Carma. Sem esperar que eu respondesse, prosseguiu: “Para ordenar e impulsionar os ciclos evolutivos individuais, razão da vida no planeta, existem algumas Leis Cósmicas que regulam a tudo e a todos. Ao contrário do que muitos acreditam, o carma não está ligado a qualquer espécie de punição. Em uma palavra, carma significa aprendizado. Sendo assim, trata-se de uma lei de justiça. Ao usar uma arma, qualquer que seja, eu a terei de volta contra mim. Trata-se de um método educacional cujo tema abordado e desenvolvido durante as aulas é o jeito de ser e viver do aluno. Ninguém alcançará o bem por intermédio do mal. Os fins jamais justificam os meios; ao contrário, a capacidade de aperfeiçoar o ser através do viver será fundamental à sua graduação”.

Questionei-o por ter mencionado o carma como instrumento de justiça, uma vez que se tratava de método de aprendizado. O senador balançou a cabeça como quem diz que entendia a pergunta, e esclareceu: “A verdadeira razão de existir da justiça é a sua função educacional; quando aquela ignora esta, se resumirá em ato de mera vingança. Não se consegue educar sem amor; por isto, a justiça é uma das virtudes do Caminho, na confluência do amor com a sabedoria”. Mudou o tom de voz como para ressaltar que tinha assistido ao que falava: “Por sua vez, a vingança é uma arma com terríveis efeitos nefastos. Quem mais perde é aquele que a utiliza. A sua Luz se apagará”.

Aquele homem tinha boa vontade para ensinar: “Temos a falsa convicção, ou a ilusão, de que depois de alcançar o fim pretendido por intermédio dos meios equivocados, o problema estará resolvido. Engano. Nada termina aqui ou ali. É justamente nesse momento que um problema maior se inicia. A Lei do Carma atua para refazer a harmonia que ficou desarrumada”. Por instantes, os seus olhos pareceram vaguear em retrospectiva a tudo que já tinha vivido. Em seguida, disse: “Muitos não entendem que mesmo depois de a guerra cessar, os espinhos tornarão a nascer. Após derrotar e humilhar o adversário, crendo ter afastado os obstáculos que o impediam à felicidade, se surpreenderão com o surgimento de incessantes empecilhos. Incrédulos, por desconhecerem a fonte que os faz brotar, lutarão até ficarem esgotados. Desorientados, muitos se sentirão azarados, abandonados ou perseguidos pelo destino. Não entendem que frequentam uma escola que usa o próprio erro como forja de aperfeiçoamento. O amor e a sabedoria Maior utilizam a metodologia adequada ao nível de percepção e sensibilidade de cada aluno, sem abdicar de nenhum deles, em seu esforço incessante para nos tornar pessoas diferentes e melhores. Não há como escapar da evolução”. Deu de ombros, como se falasse o óbvio, e acrescentou: “É possível tornar suave a viagem; e até mesmo agradável. Assim, fazem os sábios ao trilharem o Caminho com firmeza, porém, sem abdicar do uso constante da delicadeza e da mansidão em busca da verdade. As maravilhas do mundo estão diante dos olhos, mas poucos conseguem ver”.

Questionei como viver sem o uso de nenhuma arma. O homem alertou: “Faz-se necessário ficar atento ao limite das nossas atuações. Poder muito não significa poder tudo. O respeito ao outro se inicia quando tenho respeito por mim mesmo”. Interrompi para pedir que esmiuçasse esta última frase. Ele se mostrou gentil: “Se a minha essência é de Luz, ao desrespeitar o outro faço uso das sombras em movimento contrário à Luz; ela se apaga. Falto com respeito à verdade, aos princípios e valores que me orientam; abro mão das virtudes. Me desrespeito porque abandono o melhor que há em mim. Lanço-me na escuridão. Restará somente o medo e o sofrimento. Portanto, devemos fazer apenas o que deve ser feito, sem jamais tirar vantagem do poder”. Voltou a apontar os senadores com o queixo e murmurou: “Todos podem muito, ninguém pode tudo. Quando se fala em relação de poder, se costuma imaginar relações políticas de grande porte. É isto, mas é muito mais. Os jogos de poder estão em todas as nossas relações. Absolutamente todas! Sejam profissionais, pessoais, afetivas ou familiares. Possuem diversas origens. Podem surgir por questões financeiras, emocionais, intelectuais ou de força bruta. Há que se ter muito cuidado com certos hábitos comportamentais, nos quais utilizamos de maneira equivocada o poder que temos para subjugar outra pessoa. Independentemente do grau, toda relação de poder é uma nefasta arma em potencial”.

Eu quis saber como utilizar esses ensinamentos na prática. O senador elencou as suas maneiras de utilização: “Ser determinado sem impor. Siga a sua verdade. Nunca abdique dela nem a negocie; a dignidade é um princípio da Luz. Contudo, não obrigue ninguém a aceitá-la; a liberdade é também um princípio da Luz. Use a verdade para as suas escolhas, nunca as imponha a ninguém; do contrário, será um gesto de violência; a paz é outro princípio da Luz”. Fez uma breve pausa antes de concluir: “Impor a verdade, além de desgastante, é inútil. A verdade somente se firma por intermédio de um entendimento sereno e claro no indivíduo à medida que a sua percepção e a sensibilidade afloram. O seu uso, embora exija firmeza, há de ser manso. Apenas os brutos e os tolos acreditam que a verdade possa germinar de fora para dentro, do mundo para o indivíduo”.

A lista estava longe de terminar: “Ser determinado sem extrapolar. Siga a sua verdade, busque os seus sonhos, seja livre. Mas entenda aonde você não pode ir. Devemos e podemos ir longe; mas não podemos ir a todos os lugares. Não podemos interferir nas escolhas, direitos, privacidade e liberdade alheias; não temos o direito de esbulhar consciências nem macular a pureza. O princípio do respeito é a dignidade. Se eu falto com respeito a você, sou indigno por não ter agido contigo como gostaria que tivessem feito comigo. A minha luz se apaga. Perco o melhor que há em mim”.

Fazer sem se orgulhar. Acolha, ajude, cuide, abrace, beije, construa, alimente, faça rir, proteja, beije e ame. Porém, não faça isso para se comparar com os outros, para se sentir maior do que ninguém ou para que vejam como você é uma pessoa boa. Faça por amor. Tão e somente”. Fez uma breve pausa e disse: “Lembre, faça pelo outro, mas antes disto, faça pelo respeito e honra à sua própria luz, para que nunca se sinta credor de alguém por ter amado demais. Jamais esqueça, amor não gera dívida”.

Fazer sem se envaidecer. Nunca faça se a razão do fazer são os aplausos, a fama, a glória, as honrarias ou meramente a aprovação do mundo. Faça por amor; se estiver difícil, e o amor estiver raro naquele momento, faça por saber que aquele é o melhor ato, um gesto que ajudará a acordar o amor adormecido. Despertar esse amor é uma sensação maravilhosa e inesquecível. Maravilhosa pelo bem que fará a você mesmo; inesquecível porque dali por diante não mais precisará de qualquer esforço; o amor estará pronto para se manifestar suavemente através de você em todos os momentos da vida”.

Fazer sem aprisionar. Por condicionamento ancestral, temos o vício comportamental de anotar o favor em nosso livro de débitos; em algum momento, em caso de necessidade, algo em troca será exigido. Sem nos darmos conta, se trata de uma das muitas modalidades de dominação. Somos os pequenos senhores do mundo, em diferentes escalas e ambientes. Algo que nos prejudica e atrasa a caminhada. Todo controle sobre o outro é manifestação do desejo de dominar o mundo, ainda que em uma pequena relação de duas pessoas. Lembre que o senhor de escravos possuí uma terrível dependência dos seus escravos. Acredita que não conseguirá viver sem eles. Pronto, está formada a prisão. Onde cada qual fica de um lado da cela; um não pode sair por causa das grades, o outro não pode se afastar por medo de que o escravo vá embora. Ninguém é livre enquanto mantiver alguém sob jugo em qualquer tipo relação de dependência, seja financeira, emocional ou intelectual. Amor sem liberdade, não é amor. É dependência e medo”.

Fluir e deixar fluir. Liberte-se da ideia de controlar tudo e todos; de dominar coisas, pessoas e situações; de insistir que tudo deve acontecer ao seu jeito. Seja simplesmente você; viva os seus dons e sonhos, se oriente pelas suas verdade, flua através das virtudes, ame mais e melhor a cada dia. Siga sem se ater aos ruídos e rugidos do mundo. Voe e deixe voar”.

Olhou para mim com humildade e quis saber se eu tinha entendido as suas palavras. Fiz sim com a cabeça; então, ele concluiu: “Toda forma de domínio e controle sobre os outros é uma arma que causa conflito, confusão e sofrimento. O poder envelhece. Tudo que nega o Caminho, perece. Esta espécie de poder esgarça o ser e desgasta com o uso e com o tempo. Igual esgotamento acontece com quem faz uso dele. A vida se esvazia e, ao final, se constata que foi rasa; houve muitos ganhos e nenhuma conquista”. Apontou para o próprio peito e, em seguida, para o meu coração, e disse: “A única e verdadeira vitória é pacificar e iluminar o reino. Para a autêntica prosperidade interessa o amor amado e a sementes de Luz, denominadas virtudes, plantadas por onde passarmos. Tudo mais é irrisório”.

Os debates se encerraram. Era hora da votação. O homem pediu licença para se dirigir ao local onde manifestaria a sua decisão. Foi o único que votou pelo fim das invasões e das guerras. Senti o desprezo dos outros senadores por ele, que não se mostrou abalado com a repulsa manifestada pelos demais. Havia compaixão em seu olhar; simplicidade nos seus movimentos. Era uma pessoa digna, livre e em paz. De onde estava, fez um gesto com a cabeça apontando um corredor lateral. Fiz uma mesura em agradecimento e parti. No final do corredor havia um vitral multicolorido. Era bem mais do que isto; eu já esperava por isso.

Poema Trinta

O príncipe não aconselha o uso de armas no Caminho.

A arma engendra a arma.

Mesmo depois de a guerra cessar,

Os espinhos tornarão a nascer.

Fazer apenas o que deve ser feito;

Jamais tirar vantagem do poder.

Ser determinado sem impor;

Ser determinado sem extrapolar;

Fazer sem se orgulhar;

Fazer sem se envaidecer;

Fazer sem aprisionar.

Fluir e deixar fluir.

O poder envelhece.

Tudo que nega o Tao, perece.

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