MANUSCRITOS VII

Você sabe ler um coração?

Era mais um período de estudos no mosteiro. Logo na entrada, encontrei com o Velho, o monge mais antigo da Ordem. Ele estava sempre cercado pelos membros mais jovens, ávidos por se aprofundarem pelos diversos ramos da Filosofia e da Metafísica. Diferente não era com os monges com mais idade que, não raro, o procuravam nas vezes que precisavam conversar sobre alguma situação difícil pela qual passavam. Ele atendia a todos com igual atenção, respeito e paciência. Eu adorava estar ao lado dele. Sua aura clara e jeito manso, sempre com uma boa palavra a servir de farol para nos mostrar portas onde somente víamos muros intransponíveis. A interpretação equivocada de um fato ou a leitura errada do coração de uma pessoa, somados às incompreensões que ainda temos sobre quem somos, permite que, de um instante a outro, do dia se faça noite. Há dias assim. Eu atravessava um desses momentos.

Trocamos um forte abraço. Uma sincera amizade, amadurecida ao longo do tempo, me deixava à vontade para conversar com o Velho assuntos delicados, difíceis de serem abordados com pessoas não muito próximas e, ainda mais, nem sempre capazes de me entender. Eu não conhecia ninguém que conhecesse tanto a alma humana e, não menos importante, tivesse tamanha disponibilidade para ouvir, compreender e orientar. Uma pessoa rara.

Era época em que eu estava à frente da agência de publicidade. O filho de um dos sócios tinha se graduado em Comunicação e Propaganda em uma das universidades mais conceituadas de São Paulo. Depois, fizera um MBA em Nova Iorque, quando cumpriu estágio em uma das mais badaladas agências locais, na qual integrou a equipe responsável pela conta de um prestigiado estúdio cinematográfico. Ao retornar, foi contratado para trabalhar conosco. Trazia consigo uma inegável experiência, diferente de tudo que já tínhamos realizado. Alocado no departamento de criação, no qual eu era o sócio responsável, no primeiro projeto em que realizávamos juntos, o lançamento de um novo modelo de carro, entre as várias ideias trazidas pelos integrantes da equipe, a do Felipe, como o jovem se chamava, sem dúvida, era a mais interessante. Gostei em muitos aspectos, modifiquei outros, os quais entendia necessário os ajustes. Ele não concordou com as alterações. Educado, sustentou o seu ponto de vista, tendo como argumento os parâmetros usados na experiência vivida em Nova Iorque. Argumentei que as modificações eram necessárias, pois, público e produtos eram diferentes. Debatemos por alguns minutos, como é comum nessas situações. Por fim, prevaleceu a minha opinião, não que Felipe se convencesse dos fundamentos por mim apresentados, mas por uma questão de hierarquia. Como eu o conhecia desde quando ele era adolescente; e gostava muito do rapaz, amadurecido para a idade, repleto de virtudes agregadas a uma alma que atravessara muitas existências, para não restar nenhum mal-estar, e também por ele ter elaborado os principais pontos do anúncio, o deixei responsável pelo projeto que deveria restar finalizado nas minhas férias, período em que eu estaria no mosteiro. Assim que desembarquei no aeroporto, recebi um e-mail do Felipe, sem qualquer palavra, tendo como anexo um rascunho digital, feito em sofisticado programa de computador, da propaganda do carro da maneira como seria veiculada na televisão após a filmagem do roteiro. Era a ideia integral do Felipe sem nenhum dos ajustes que eu fizera. Senti-me ultrajado. Ou mesmo desafiado. O rapaz aproveitara a minha ausência, se valera da confiança depositada e, talvez, se afiançara na condição do seu pai, sócio da agência, para me desobedecer. Fiquei muito chateado com a falta de respeito. Fiz uma projeção preocupante dos sérios problemas que ocorreriam na minha volta. Pensava nas decisões que teria de tomar e como poderiam afetar, não apenas a harmonia entre os sócios, mas também entre os demais integrantes da equipe de criação sob minha responsabilidade.

Naquela mesma tarde, aproveitei que os estudos não tinham começado, e os monges ainda chegavam dos lugares mais diversos, chamei o Velho para uma conversa na cantina. Munidos de duas canecas com café, nos acomodamos próximo às janelas com vista para as montanhas. Narrei os fatos. Em seguida, falei que estava em dúvida de qual das várias decisões eu poderia dispor. Desde ligar para a agência para o substituir do comando daquela propaganda, uma medida corretiva mais branda, até mesmo o demitir, uma atitude mais severa. Qualquer delas poderia trazer rusgas entre mim e o Osvaldo, pai de Felipe, também sócio da empresa. No entanto, não me restava dúvida que uma atitude firme da minha parte era indispensável; do contrário, perderia o respeito de todos na agência ao me mostrar incapaz de liderar a equipe. Eu apenas precisava amadurecer qual seria a melhor decisão.

Velho bebeu um gole de café e, com a sua voz mansa, questionou: “Por que a necessidade de medir forças com o Felipe?”. Neguei. Essa não era a intenção. Eu jamais mediria forças com ele; seria um gesto estúpido e grosseiro da minha parte. Era uma questão de respeito. As relações são respeitosas ou abusivas. Não há meio termo. O monge prosseguiu: “Será que o jovem está mesmo desobedecendo as suas ordens?”. Falei que não restava qualquer dúvida. O e-mail com o rascunho digital do anúncio era um recado claro. Ele estava me comunicando de que faria ao seu jeito. O Velho perguntou: “Qual mensagem acompanhava o vídeo?”. Nenhuma, respondi. Ao modo socrático, o monge continuou: “O que o leva a crer que ele finalizaria a propaganda do jeito como mostrou no vídeo ao invés fazer da maneira como você determinou?”. Afirmei que não cabia outra conclusão. Felipe estava decidido a passar por cima das minhas ordens. O Velho bebeu mais um gole de café, me olhou com os seus olhos bondosos, e indagou: “Tem certeza?”.

Abri os braços como quem diz não acreditar que o Velho ainda tivesse dificuldade para entender algo tão óbvio. Falei que telefonaria imediatamente para a agência. Eu afastaria o Felipe da equipe de criação. Na volta, decidiria se o demitiria; assim teria tempo para amadurecer a decisão. Não importava se o pai dele ficaria aborrecido. Eu estava sendo justo. Isto bastava. O monge franziu as sobrancelhas e comentou com seriedade: “Sem dúvida, se uma decisão está atrelada à verdade e às virtudes, sendo a justiça uma delas, nada se deve temer”. Fez uma breve pausa antes de ponderar: “No entanto, será que você está fazendo a melhor leitura do coração do Felipe?”.

Falei que não tinha entendido. O Velho explicou: “A expansão de consciência, o florescimento das virtudes e o aperfeiçoamento das escolhas formam os três vértices da evolução, desde que se movam ao mesmo tempo e em harmonia. O conhecimento é fundamental pelas chaves que fornecem. Contudo, se não formos capazes de enxergar as portas, as chaves de nada servirão; as passagens se manterão fechadas”. Bebeu mais um gole de café e esclareceu: “Faz-se necessário entender de qual maneira o saber terá serventia para nos tornar pessoas diferentes e melhores, ampliando o alcance do olhar e desmanchando incompreensões. Sem aprofundar camadas de percepção e sensibilidade para que possamos adequar o saber a cada situação, o conhecimento de nada valerá”.

Pedi para ele explicar melhor. O Velho era muito atencioso: “O e-mail enviado pelo Felipe pode conter uma mensagem subliminar de desobediência, conforme você acredita. Um aviso que ele fará ao seu próprio jeito. Sem dúvida, uma atitude desrespeitosa, pois havia orientações a serem seguidas. Se for o caso, uma atitude firme se impõe. Hierarquia, ordem e respeito não significam subserviência nem escravidão, porém, conceitos basilares de comportamento corporativo para que o propósito da atividade coletiva não se disperse, tampouco promova a colisão entre os integrantes de uma tarefa; um conceito presente até mesmo nas esferas etéreas, bem mais sutis e elevadas que a nossa”. Olhou-me com os seus olhos gentis e acrescentou: “Entretanto, cabe também outra leitura. Em uma última tentativa, o rapaz pode ter simulado digitalmente o anúncio para demonstrar como a ideia dele ficaria melhor sem os ajustes que você determinou. Nada mais do que isso. Pode não se tratar de um motim ou ato de rebeldia, porém, o esforço derradeiro para mostrar com imagens o que talvez não tenha conseguido explicar com palavras. Se for isto, nada há de errado. Cabendo a você, após uma análise sincera do material enviado, manter ou alterar as decisões deixadas antes de viajar”.  Calei-me. Eu precisava pensar. Terminamos o café em silêncio.

Naquela noite, logo após o jantar, encontrei com o Lucas, um dos monges mais cultos da Ordem, leitor inveterado e estudante dedicado, que também morava no Rio de Janeiro. Ele me tratou friamente. Estranhei. Já havíamos executado várias tarefas juntas no mosteiro e tínhamos um bom relacionamento. Ele havia se divorciado recentemente da Lúcia, até então sua esposa, em uma separação um tanto mal compreendida, ao menos para ele. Como por vezes acontece, pequenas rusgas dão causa a erosão de um relacionamento caso não as tratemos com o devido carinho e atenção. Ocorre que a Lúcia era muito amiga da Denise, minha mulher; ambas também monjas da Ordem. O desentendimento de um casal não deve contaminar os amigos. Ninguém tem o direito, a atribuição e a competência para julgar ninguém. Há tantos fatos e sentimentos, negações e incompreensões, distorções e enganos envolvidos em qualquer relacionamento afetivo, principalmente naqueles de longo prazo, que faz o mais astuto observador se tornar um intruso perdido dentro de um universo desconhecido. Por saber disso, a Denise e eu tínhamos por ética não opinar nem nos envolver, por menor que fosse o movimento, nas discórdias alheias. Não foi diferente daquela vez. No entanto, embora eu gostasse muito do Lucas, morássemos na mesma cidade e houvesse muita gentileza no trato pessoal, convivíamos pouco. A Denise era mais próxima da Lúcia desde sempre. A amizade entre elas prosseguiu após a separação do casal. Nada de errado nisto. Nem nada de pessoal poderia haver entre nós, pensei. Creditei o modo amargo como Lucas me tratou à sua incapacidade momentânea de administrar as emoções intensas e conflitantes que o envolveram nos últimos meses. Naquele momento, a mim cabia compreensão e paciência.

O mosteiro era um centro de estudos. O acesso à internet e celulares ficava restrito, em um curto período durante o dia, apenas às necessidades imprescindíveis. As alas masculina e feminina eram separadas, sendo os quartos individuais para que a noite fosse aproveitada para descanso e reflexão. Assim, não tive como comentar com a Denise a maneira como fui tratado pelo Lucas. Como também não dei ao fato maior dimensão. No dia seguinte, quando a encontrei na cantina para o café da manhã, não me lembrei de mencionar o ocorrido.

Ocorre que Lucas e Denise estavam matriculados em um mesmo curso naquele ano. Ainda naquela manhã, durante o debate que acontecia após as aulas, Lucas ironizou um comentário da Denise. Em seguida, outro. Sem conseguir fechar as gavetas do coração, tamanha era a bagunça, a incompreensão e a revolta transbordaram. Sem se conter, ele a agrediu verbalmente. Não satisfeito, disse ter certeza de que ela tinha incentivado a separação do casal. A confusão estava formada. Quando a encontrei, Denise estava em lágrimas. Tinha sido não apenas agredida, mas se sentia também injustiçada.

O Velho nos chamou para conversar. Era fundamental para a harmonia do mosteiro que o mal-estar fosse dissipado o quanto antes. Quando chegamos em seu gabinete, Lucas e Lúcia estavam lá. A moça explicou que a separação ocorrera em razão do comportamento do ex-marido, sempre pouco atencioso e desinteressado nos assuntos comuns ao casal, fundamental a duas pessoas que decidem compartilhar os rumos de suas vidas. Nenhuma influência tivera, fosse da Denise, fosse de outra amiga. Recordou as diversas vezes que conversara com ele sobre a necessidade de mudanças para corrigirem a rota do matrimônio. Embora cada qual seja único, e nisto resida a beleza de todos, um casal deve olhar para mesma direção se quiser realmente caminhar lado a lado. No entanto, Lucas não se interessara no assunto ou se resguardara no direito de manter a mesma postura de sempre. Se insistir na transformação alheia é exercício dos tolos, lembrou a monja, de outra face, respeitar os próprios limites é um gesto de amor próprio. Quando entendeu ter chegado a hora de partir, embarcou no trem da vida.

Lucas se mantinha inconformado. Confessou achar estranho uma separação sem brigas. Lúcia explicou que conflitos são desnecessários. Quando as possibilidades de diálogo se esgotam, como fora o caso, e a outra pessoa se nega a acompanhar, resta seguir em frente sozinha. Sem gritos nem mágoas. Quando não cabem mais palavras, significa ter chegado o momento de fluir por entre as incompreensões alheias. Não se trata de julgar quem está certo ou errado, mas de decidir o que é melhor para si. Lucas disse acreditar que, mesmo com todas as insatisfações manifestadas, fossem felizes juntos. Lúcia lamentou a incapacidade de Lucas em ler o coração dela. Acrescentou que ele fez uma leitura ao modo como compreendia os próprios sentimentos e com os olhos que observava tudo e todos. Contudo, em cada coração está escrito uma história diferente. Nunca haverá duas iguais. Nisto reside a arte de entender o mundo. Em suma, a arte de amar.

Lucas capitulou. Naquele instante foi capaz de ver a porta, que sempre esteve ali, mas não conseguira enxergar. Embora fosse detentor de muito conhecimento não soube aplicá-lo ao cotidiano. De maneira honesta, lamentou nunca ter se aventurado a olhar a vida através do prisma da esposa, permitindo cores impensáveis ao casal. Porquanto, compreendia também os absurdos que falara para Denise. Desculpou-se por sua insensatez. Virou-se para Lúcia e pediu a oportunidade para ler o coração dela como nunca ousara antes. Até então esteve aprisionado dentro dos muros do castelo que ele próprio erguera para morar. O conhecimento fornece a chave, mas somente a percepção e a sensibilidade permitem o movimento correto, indispensável para abrir a porta e, assim, seguir em frente. A mulher nada respondeu. O Velho os orientou para que continuassem aquela conversa nos jardins do mosteiro.

A sós, o bom monge quis saber como Denise se sentia. Ela não hesitou em desculpar o Lucas. No entanto, admitiu o enorme mal-estar pela acusação injusta que sofrera. O Velho arqueou os lábios em doce sorriso e ofereceu um olhar inusitado: “Por mais difícil que possa parecer, a injustiça torna tudo mais fácil. Se pensarmos bem, não encontraremos na injustiça motivo capaz de nos roubar a serenidade e a paz. Afinal, nada fizemos de errado. Saber disto, basta”. Em seguida, acrescentou uma frase com várias camadas de interpretação: “Nunca dê poder ao que não tem poder”. Diante do espanto dela, ele esclareceu: “As autênticas causas de agonia e tristeza são as acusações justas. Estas sim, preocupam. Que possamos nunca dar motivo a elas”. E finalizou: “Então, nada precisaremos temer”. Os olhos da Denise brilharam à luz de uma nova compreensão. Ela sorriu em agradecimento.

Fez uma pausa antes de concluir: “É a dignidade que nos mantém nos trilhos da luz. Fora disto, nada pode nos abalar; são somente leituras equivocadas que os outros fazem do nosso coração”. Deu de ombros e finalizou: “As narrativas nem sempre relatam o talento do escritor; por vezes, falam sobre a cegueira do leitor”.

A harmonia do mosteiro estava restabelecida. Assunto resolvido, o bom monge disse que precisava voltar aos seus afazeres; Denise e eu tínhamos que retornar às aulas. Saímos juntos do gabinete. Enquanto andávamos pelo corredor, falei que assistira ao vídeo enviado pelo Felipe. De fato, as imagens me permitiram uma compreensão além das palavras. Ainda que coubessem alguns pequenos ajustes, teríamos um resultado superior ao que seria alcançado se fosse executado como eu havia determinado antes de viajar. Logo cedo, entrara em contato com a agência para autorizar as modificações. Tinha também conversado com o jovem; o rascunho digital contido no e-mail não era um ato de desobediência como eu acreditara inicialmente, mas uma tentativa legítima de argumentação. Lembrei que o Velho havia me questionado sobre a desnecessidade de medir forças com o Felipe. Como não entendi, achei sem sentido a ponderação; em verdade, admiti, as histórias ainda mal escritas no meu coração não me permitiram a exata leitura do coração do rapaz”.

O Velho sorriu e disse: “A dificuldade para ler um coração é uma das maiores causas de conflitos e rupturas. Conhecer todas as letras nem sempre permite formar as palavras corretas; há de existir percepção e sensibilidade para compreender o texto no exato contexto estruturado entre razão e emoção”. Franziu as sobrancelhas, como fazia ao escalar tons de seriedade, e ressaltou: “A incapacidade de ler o próprio coração embaralha as letras e inverte as palavras contidas em outros corações. Quando a melhor leitura não acontece, as histórias perdem o sentido, a mensagem original fica deturpada. Se o mundo parece confuso, talvez nada haja de errado nele; conceda a si a oportunidade de uma nova e diferente leitura. Todas as sombras se desmancham diante da luz”.

Em seguida, nos despedimos. Observamos o Velho se afastar com os seus passos lentos, porém, seguros.  

8 comments

SCHWEITZER setembro 21, 2022 at 2:47 pm

Nos julgamos o outro pelo nosso coração.

Genial.

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Rodrigo Gordo Ink setembro 25, 2022 at 3:15 pm

Gratidão pela Luz.

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Terumi setembro 26, 2022 at 1:35 am

Gratidão 🙏

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LSP setembro 28, 2022 at 8:35 am

Obrigada Yoskhaz 🙏🌟

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Mariseh Santòs Gonçalves outubro 1, 2022 at 11:27 am

Gratidão sempre!!!

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Mariseh Santòs Gonçalves outubro 1, 2022 at 11:27 am

Gratidão sempre!!! A’ho!!!

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Mariseh Santòs Gonçalves outubro 1, 2022 at 11:46 am

“As narrativas nem sempre relatam o talento do escritor; por vezes, falam sobre a cegueira do leitor”. Gratidão sempre!!! A’ho!!!

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Cris Matsuoka outubro 4, 2022 at 8:22 pm

Esse Velho sabe das coisas! Hehe

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