MANUSCRITOS VII

Ouvir é um gesto de humildade

Quando cheguei, Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a filosofia ancestral do seu povo através de histórias e músicas, ritmava a cadeira de balanço no mesmo tom de uma cantiga ancestral que assobiava. Fui recebido com um abraço e um sorriso sincero. Depois de deixar a mala no quarto de hóspedes, me sentei na varanda ao lado do xamã que preenchia com fumo o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo. A conversa logo embalou. Eu contava sobre os receios que tinha para montar um novo empreendimento paralelo à editora; seria necessário um investimento alto, talvez até mesmo um empréstimo bancário, em um ramo que eu não possuía qualquer conhecimento; embora confiasse nas pessoas que dividiriam a responsabilidade do negócio comigo, havia muitas questões a serem consideradas. Uma decisão difícil por causa dos riscos envolvidos. Eu ainda falava quando fui interrompido pela chegada repentina da Sofia, sócia de um excelente restaurante em Sedona, nas montanhas do Arizona. Tínhamo-nos conhecido havia alguns anos. Sempre que estava pela região, frequentava o agradável restaurante que comandava com competência e simpatia. Nos finais de semana, pessoas de várias localidades próximas como Flagstaff, Jerome, Cottonwood, e até mesmo de Phoenix, disputavam uma das várias mesas colocadas entre as muitas árvores frondosas espalhadas pelo jardim da casa. A combinação das receitas autorais com a inusitada ambiência do lugar tornavam o jantar uma experiência encantadora. Sofia estava com os olhos inchados de tanto chorar, o que me fez crer se tratar de algo grave. Era uma mulher madura, independente e bonita. Apesar de já ter passado dos quarenta anos de idade, tinha a jovialidade e a vontade de viver típicas das pessoas de bem com a vida. Eu adorava estar e conversar com ela. Nos últimos dez anos estivera casada com a Danny, outra linda mulher, um pouco mais jovem, proprietária de uma concorrida galeria de arte na cidade. Sem nenhum aviso, nem sinal aparente, a marchand decidira romper o relacionamento havia poucas semanas.

Entre soluços, Sofia contou que Danny estava grávida. Tinha decidido voltar a viver ao lado do ex-marido. O mais doloroso para a chef de cozinha não era isso. A questão foi descobrir que a marchand mantivera um relacionamento paralelo com ele durante todo o tempo que em estiveram juntas. Sentia-se enganada por quem sempre confiou. Aceitava bem a ideia quanto ao fim do relacionamento com Danny; saber que foi traída enquanto acreditava viver momentos maravilhosos era o motivo maior de tanta dor. A felicidade de hoje pode se revelar mentirosa amanhã, choramingou Sofia. Confessou estar desencantada pela vida. Cogitava a possibilidade de vender o restaurante para recomeçar bem longe dali. Talvez em um país distante.

Canção Estrelada baforou o cachimbo e comentou: “Viajar para esquecer um problema ou dissolver um sofrimento resultará em fracasso. O viajante sempre carrega a si mesmo na bagagem”. Em seguida, acrescentou: “A minha felicidade nunca será resultado daquilo que as pessoas me oferecem, mas do que eu entrego ao mundo. Todo bem, assim como todo mal, pertence a quem os cria”.

Sofia rebateu dizendo que o mal praticado por alguém pode afetar muitas pessoas. O xamã disse sim com a cabeça, mas pontuou: “Sem dúvida. Contudo, ainda que nos traga algum dano, será transitório e de menor monta. Muito maior será a queda do malfeitor que terá de presenciar e conviver com a escuridão do mal com o qual se envolveu. Deixar que a própria luz se apague é o mais danoso de todos os prejuízos”. Sofia pediu para ele explicar melhor. Canção Estrelada era um homem gentil: “Quem se vale do mal traz para si a escuridão. A luz se recolhe e se afasta como consequência inevitável. Há que se ter compaixão daquele que se torna usuário da maldade. O seu sofrimento será imensuravelmente maior do que daquele contra quem o mal foi praticado. Uma dor intensa e crescente, seja pela incompreensão, remorso ou energias com as quais se envolveu, se instalará; por vezes, o usuário do mal demorará muito tempo para se dar conta da espiral vibratória descendente para a qual se conduziu. Nada termina aqui ou ali. O caminho de volta será um longo e doloroso aprendizado”.

Olhou para as primeiras estrelas que surgiam na noite e comentou: “Não gostaria de praticar nem de sofrer nenhum mal. Porém, sem nenhuma dúvida, prefiro ser o alvo ao invés da flecha”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “De outro lado, devemos ficar atentos. Deixar que o mal praticado por outra pessoa nos envolva em tristeza ou mágoa é uma permissão que concedemos indevidamente. Embora não apague de imediato, aos poucos ofuscará a nossa luz pela intromissão permitida. Se não fizermos os devidos ajustes internos com rapidez, também terminaremos consumidos pela escuridão. Toda a atenção é pouca”. Baforou o cachimbo e ressaltou: “Não falo de combater o mal com o mal. Jamais. Refiro-me a não se deixar levar nem envolver pelo fluxo do mal, seja de fora para dentro, seja de dentro para fora. Para tanto, se oriente pela verdade no limite extremo que a sua consciência já alcança; nunca esqueça que o mal pertence a quem o pratica; jamais dê morada em seu coração ao desequilíbrio de ninguém. Mova-se sempre através das virtudes, imprescindíveis ferramentas da luz”.

Sofia quis saber se Danny sofreria pelo mal praticado. Canção Estrelada franziu as sobrancelhas e a corrigiu com firmeza: “Não falei que ela fez algo de errado. Eu me referia sobre como a felicidade não pode se estruturar nos atos de outras pessoas, salvo os de cada um quanto a própria vida. Enquanto a alegria é o atributo daqueles que sabem encontrar o lado bom de todos os acontecimentos, a felicidade germina por intermédio de cada etapa superada na construção de si mesmo, a Grande Arte. Portanto, é fruto de quem se move tendo a verdade e as virtudes como raiz. Assim, desmonto qualquer dependência quanto aos gestos alheios, tanto para minha felicidade como para a alegria dos meus dias. Trata-se de uma elaboração intrínseca; logo, um poder pessoal. Receber o bem é maravilhoso, mas fazer o bem é sagrado, pois, se traduz em autêntico mecanismo de proteção e fonte de toda a luz”.

Ela insistiu em saber a opinião do xamã sobre a atitude da ex-namorada. Canção Estrelada se manteve firme: “Se veio em busca de acolhimento e orientação, conte comigo. Caso tenha vindo à procura de julgamento, perdeu tempo. Não me cabe sentar na cadeira do juiz. Falta-me competência e atribuição. Não tenho esse direito”. Sofia abaixou os olhos. Em seguida murmurou um lamento por ter confiado em Danny. O xamã questionou em que condições tinham se conhecido. A chef de cozinha contou que a conhecera quando o marido dela teve de se afastar por alguns meses por motivos profissionais. O relacionamento se estreitara e o mantiveram por um longo tempo, mesmo depois que ele retornou, até que resolveram morar juntas. Canção Estrelada perguntou se a decisão da Danny em se separar do marido na época ocorrera de modo suave ou se foi pressionada a isso. Sofia admitiu que a marchand resistira muito em tomar a decisão; teve de ameaçar romper com a namorada caso a decisão se prolongasse por mais tempo. O xamã comentou: “Há escolhas fáceis, existem as decisões difíceis. O que as diferenciam é o quanto já estão amadurecidas em nós. Uma fruta colhida na árvore, quando ainda verde exige o uso de força para que se solte do galho; quando madura, a fruta pousará suavemente em nossas mãos. Ainda mais, frutas verdes ainda não possuem todo sabor e mel das maduras. Significa que não entendemos ou respeitamos o tempo para que ficassem prontas. Assim são as escolhas”.

Olhou para mim, como se dissesse que aquelas palavras também serviam aos meus questionamentos sobre o novo negócio, e acrescentou: “Nenhuma decisão é difícil quando já amadurecida; nenhuma escolha será fácil enquanto estiver verde. Se está difícil é porque ainda falta uma melhor elaboração intrínseca. Algumas são simples, outras de muita complexidade face os muitos aspectos a serem ponderados. A vida exige movimento, mas também direção. O olhar embaçado torna o passo incerto. Sem a devida clareza a firmeza restará prejudicada. A dúvida se agiganta; o medo atormenta. Dissipada a névoa, a clareza alcançada traz à tona a verdade avassaladora. Não haverá dúvida por onde seguir. Não importa se sim ou não, se ir ou ficar, se isso ou aquilo, o movimento realizado será firme e tranquilo”.

Sofia argumentou que pressionou Danny a tomar uma decisão porque já passara tempo demais. O marido tinha voltado de viagem. Não podiam continuar daquela maneira. Como havia recebido um convite para comandar a cozinha de um restaurante badalado em Las Vegas, deu um ultimato à marchand. Ficariam juntas em Sedona ou Sofia partiria sozinha. Lá não haveria lugar para a Danny. A namorada tinha dois dias para resolver se aceitaria a oferta. Admitiu que usou os fatos para ajudar a namorada a fazer uma escolha. Canção Estrelada a corrigiu: “Você não a ajudou a fazer uma escolha, mas fez algo bem diferente: espremeu a vontade dela”. Baforou o cachimbo e concluiu: “A fruta foi arrancada ainda verde. Você não soube esperar que ela se libertasse das próprias dúvidas; que respondesse aos seus questionamentos mais íntimos. Isto ninguém pode fazer por ninguém”.

A chef de cozinha insistiu que esperara mais do que devia pela decisão da namorada. Constantes adiamentos geravam ansiedade e angústia. Já que Danny não conseguia lidar com a situação, algum movimento se fazia necessário. O xamã tornou a corrigir: “Movimentos sem direção concorrem para os desastres. Não há do que reclamar. A mamão demora semanas para amadurecer; o abacate leva anos para completar o mesmo ciclo. Cada qual tem o seu tempo. A paciência é fundamental para a construção do respeito”.

E prosseguiu no raciocínio: “Você deveria ter ouvido mais a Danny”, afirmou. Sofia discordou. Contou que tinham conversado bastante. Incontáveis dias foram gastos até que o assunto se esgotasse e a decisão fosse tomada.  Foi a vez de Canção Estrelada discordar: “O fato de terem conversado não significa que a tenha escutado. Enquanto Danny confessava as suas incertezas e medos, você acreditava que a coragem e a certeza que trazia consigo bastariam para ela. A clareza que temos sobre um determinado assunto nem sempre serve para enraizar a verdade no coração de outra pessoa. O meu equilíbrio e força podem ajudar a fazer com que alguém fique de pé, mas não posso caminhar por ninguém. Você a persuadiu com a sua vontade sem que ela encontrasse a própria verdade. Embora trouxesse alento, a sua certeza não foi capaz de dissipar as nuvens de dúvidas que impediam a clareza necessária à Danny para que encontrasse as respostas aos seus questionamentos mais íntimos. Pressionada, não foi nem ficou; ficou aprisionada por anos no limiar entre dois mundos: o marido e você. Quando a clareza foi conquistada, a verdadeira decisão foi tomada”.

Sofia disse que essa não parecia uma conclusão óbvia em razão das palavras ditas pela marchand à época. O xamã explicou: “Ouvir é um ato de humildade. Muitos querem conversar, expor as suas ideias, mostrar o quanto da verdade já alcançaram, o quanto supostamente são experientes e inteligentes. Poucos estão prontos para escutar, gesto que requer sair temporariamente de si para habitar o outro, compreender genuinamente os seus dramas e dores, aflições e angústias. Ouvir exige empatia. Há de existir humildade para sair do sol e se permitir entrar na caverna escura onde o outro habita naquele momento delicado da existência. Então, se houver uma nesga de amor e de sabedoria, irá aprender um pouco mais sobre si mesmo. Sim, não raro, aquilo que muitas vezes acreditamos se tratar da mais pura verdade não passa de mera conveniência”.

Tornou a baforar o cachimbo e continuou: “Todos querem o melhor para si e nenhum equívoco há nisto. Contudo, não se chega ao destino certo percorrendo a estrada errada. Assim, sem nos darmos conta, invadimos consciências desprotegidas; esbulhamos a verdade alheia na tentativa de conquistar o melhor da vida. Um engano comum”. Fez uma pausa antes de concluir: “Por não ter sido capaz de ouvir a Danny, não a entendeu. Sem a devida compreensão, acreditou que poderia ajudá-la a se construir sem os indispensáveis alicerces da verdade. Faltaram paciência e respeito, duas virtudes primorosas. A certeza de uma pessoa jamais servirá para erguer a verdade de outra. Isso fez com que levasse a namorada consigo, mas nunca a tivesse integralmente ao seu lado, algo fundamental às relações verdadeiramente maduras e equilibradas”. Em seguida, finalizou: “Em análise mais sincera, antes de pensar em ter sido traída pela Danny, considere que você a aprisionou à sua vontade. Ao arrancar uma escolha ainda verde, terminou por provar o gosto amargo da fruta não amadurecida”.

Atônita, a chef de cozinha engoliu o choro. Entre soluços, questionou se o xamã dizia que Danny não a traíra, mas se libertara de uma escolha não germinada por intermédio de uma vontade genuína. Canção Estrelada tornou a dizer sim com a cabeça, segurou as mãos da Sofia entre as suas em gesto de acolhimento e ponderou: “Não cabe reclamação, apenas aprendizado. Ao entender isso, substituirá o pranto pelo riso”.

Sofia argumentou que não obrigou a marchand a tomar nenhuma decisão. Apenas apresentou os seus argumentos. Embora, admitiu, tenha pressionado a namorada a se decidir quando entendeu já ter esperado tempo demais. O xamã concordou: “Você não estava obrigada a esperar por ela além do que entendia razoável; quando entendeu chegada a hora, poderia simplesmente ter partido sem fazer qualquer pressão. Tampouco a Danny tinha a obrigação de se decidir sem que estivesse pronta; bastaria se manter firme na posição de quem ainda não tinha em si a clareza necessária para o próximo passo. A você caberia ir sem forçar ninguém a acompanhar; a ela cabia respeitar o seu próprio tempo. Assim, da mesma maneira, não cabe a Danny qualquer transferência de responsabilidade caso a escolha de se separar do marido anos atrás possa de algum modo trazer ruídos ao casamento mais à frente. Ela terá de entender a falta de maturidade e firmeza que teve à época por se deixar conduzir pela vontade de outra pessoa. À Danny também não cabe nenhum lamento, somente aprendizado”.

A chef de cozinha, ainda sem conseguir metabolizar a ideia, pontuou que, ao final da história, Danny ganhara um filho e o marido de volta. De outro lado, ela, Sofia, ficara sem a namorada e desperdiçara a chance de chefiar um famoso restaurante em Las Vegas. Perdera tudo. Canção Estrelada discordou: “Encontre o mestre escondido por trás de cada situação. Entenda o amor e a sabedoria da vida presentes em todos os dilemas e dificuldades”. O xamã teve de usar um tom firme na voz para que Sofia não fugisse pelas vielas do drama. Ele pontuou: “Ninguém perde o que verdadeiramente nunca teve. Caso saiba elaborar a experiência, restará leveza, por deixar para trás o peso da dependência de moldar as escolhas alheias à sua vontade; e maturidade, movimento primordial à genuína liberdade, ao se tornar responsável pelas consequências de cada ato praticado. Ninguém toma nada de ninguém; o que vai é o que permitimos ir ou porque esteve conosco, mas nunca nos pertenceu”. Esta última frase permitia aprofundar algumas camadas de interpretação. Ele fez uma pausa antes de concluir: “Siga com o que já conquistou em si mesmo. Isto é verdadeiramente seu. Tudo mais é estar, não é ser”.

Baforou o cachimbo e ponderou: “Pense bem, não é pouco o que a vida está lhe oferecendo neste momento”. E nada mais disse. Em gesto repleto de humildade, Sofia levou as mãos ao peito, fechou os olhos e ficou em silencio por um tempo que não sei precisar. Até que os seus lábio se arquearam em um lindo sorriso de agradecimento. Ao xamã e à vida. Naquele momento, enfim, conseguira ouvir as palavras que serviriam de luz para dissipar a escuridão típica de todas as incompreensões – sofrimentos nada mais são do que isto. A realidade acompanha a transformação do olhar e se modifica ao ritmo da luz pessoal.

Ela deu um beijo na bochecha de Canção Estrelada e se foi. Da varanda, acompanhei com o olhar a chef de cozinha se afastar. Seus pés pareciam levitar sobre o chão, bem diferente da mulher que arrastava o próprio corpo quando chegou, tamanho o peso que carregava no coração. Em seguida, o xamã se virou para mim e disse: “Aproveite a noite para pensar. Você precisa ficar a sós consigo. Se está difícil decidir se aceita o convite para se aventurar em um novo negócio, a dificuldade mostra o quanto você ainda está distante de si mesmo; logo, longe da verdade. Se aprender a escutar os outros é fundamental, ter humildade para ouvir a própria essência é o que oferece suavidade, força e equilíbrio a todas as escolhas. A verdade é mansa, mas avassaladora”.

3 comments

SCHWEITZER setembro 2, 2022 at 11:23 pm

‘A verdade é mansa mas avassaladora.’

Sem duvida nenhuma.

Genial.

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Suelen Letícia da Fonseca setembro 22, 2022 at 3:23 pm

“Viajar para esquecer um problema ou dissolver um sofrimento resultará em fracasso. O viajante sempre carrega a si mesmo na bagagem”. Em seguida, acrescentou: “A minha felicidade nunca será resultado daquilo que as pessoas me oferecem, mas do que eu entrego ao mundo. Todo bem, assim como todo mal, pertence a quem os cria”.

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Terumi setembro 23, 2022 at 12:42 am

Gratidão 🙏

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